ENTRE O APITO E A TELA: LIMITES ENTRE A PRECISÃO TECNOLÓGICA E A SUBJETIVIDADE NA ARBITRAGEM NACIONAL

BETWEEN THE WHISTLE AND THE SCREEN: BOUNDARIES BETWEEN TECHNOLOGICAL PRECISION AND SUBJECTIVITY IN BRAZILIAN REFEREEING

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791867057

RESUMO
O futebol movimenta bilhões de reais anualmente no Brasil e convive com erros de arbitragem capazes de alterar o resultado das partidas. Para minimizar falhas humanas, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) implementou o Video Assistant Referee (VAR) e avança em tecnologias como o impedimento semiautomático e na profissionalização da arbitragem. Este estudo teve como objetivo analisar o impacto da implementação do VAR na tomada de decisões da arbitragem no futebol brasileiro, investigando os limites entre a precisão proporcionada pela tecnologia e a subjetividade inerente às decisões tomadas em campo. Trata-se de pesquisa qualitativa, descritiva, do tipo revisão bibliográfica, que reuniu produções acadêmicas, matérias esportivas e documentos oficiais publicados entre 2016 e 2026. A análise indicou que o VAR ampliou os recursos disponíveis para a revisão de decisões e contribuiu para maior precisão em determinados lances, mas não eliminou as controvérsias da arbitragem brasileira, que envolvem divergências na aplicação dos protocolos, diferenças de critério em situações semelhantes, paralisações durante as partidas e questionamentos sobre decisões tomadas por margens milimétricas no impedimento semiautomático. Considera-se que os principais desafios não estão apenas na disponibilidade de tecnologia, mas na integração entre recursos tecnológicos, capacitação profissional e padronização dos critérios de decisão. Embora o VAR seja um importante instrumento de auxílio à arbitragem, sua efetividade depende da preparação dos profissionais e da aplicação consistente dos protocolos.
Palavras-chave: árbitro de futebol; arbitragem; VAR; tecnologia no esporte.

ABSTRACT
Football generates billions of reais annually in Brazil, yet it continues to be affected by refereeing errors capable of changing match outcomes. To minimize human error, the Brazilian Football Confederation (CBF) implemented the Video Assistant Referee (VAR) and has been advancing in areas such as semi-automated offside technology and the professionalization of refereeing. This study aimed to analyze the impact of VAR implementation on refereeing decision-making in Brazilian football, investigating the boundaries between the precision provided by technology and the subjectivity inherent in on-field decisions. This is a qualitative, descriptive literature review that gathered academic publications, sports news articles, and official documents published between 2016 and 2026. The analysis indicated that VAR expanded the resources available for reviewing decisions and contributed to greater accuracy in certain types of incidents, but did not eliminate controversies in Brazilian refereeing, which involve disagreements over the application of protocols, inconsistent criteria in similar situations, match stoppages, and questions about offside decisions settled by millimeter margins under the semi-automated system. It is considered that the main challenges lie not only in the availability of technology but also in the integration of technological resources, professional training, and the standardization of decision criteria. Although VAR is an important tool to support refereeing, its effectiveness depends on the preparation of referees and the consistent application of protocols.
Keywords: football referee; refereeing; VAR; technology in sport.

1. INTRODUÇÃO

O futebol é amplamente conhecido como o esporte mais popular do mundo, com o qual cerca de 51% da população global se identifica (Martins, 2026). No Brasil, sua popularidade é ainda mais expressiva, atraindo milhões de torcedores e movimentando bilhões de reais por ano, tendo atingido receita recorde de R$ 14,3 bilhões na temporada de 2025 (Riguetti, 2026). Em razão dessa relevância econômica e social, cresce a cobrança por alto nível de desempenho da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e de seus árbitros, uma vez que os erros de arbitragem afetam as equipes participantes e interpretações equivocadas podem mudar o rumo de um jogo. Em decorrência disso, implementou-se o Video Assistant Referee (VAR) no futebol brasileiro, com o objetivo de minimizar decisões equivocadas.

Dessa forma, o VAR veio para auxiliar em marcações pontuais, especialmente em lances de gol, pênaltis, cartões vermelhos diretos e identificação de jogadores. Sua utilização passou a ser alvo de críticas, pois os árbitros começaram a recorrer ao VAR com maior frequência (Espião Estatístico, 2025). Esse aumento das paralisações acabou interrompendo o ritmo das partidas e gerando dúvidas sobre decisões distintas em lances semelhantes ocorridos em partidas diferentes. Nesse contexto, o impedimento semiautomático representa um avanço tecnológico, mas tem sido alvo de debates, principalmente quanto à transparência do sistema, à precisão em lances de poucos centímetros e à confiança do público em decisões automatizadas.

Na Copa do Mundo da FIFA de 2026, foi introduzida uma nova tecnologia aplicada à arbitragem: a bola oficial passou a contar com um sensor de movimento denominado Inertial Measurement Unit (IMU), que registra a aceleração e os movimentos da bola e envia dados ao sistema de VAR em tempo real, contribuindo para a detecção de impedimentos e para decisões mais rápidas e precisas (Pathak, 2026). A incorporação de tecnologias desse tipo ao futebol brasileiro envolve desafios relacionados a custos elevados, infraestrutura necessária e disponibilidade do sistema.

Diante disso, observa-se também a discussão em torno de modelos de arbitragem profissionalizada, nos quais os árbitros são contratados para exercer a função de forma profissional e com maior dedicação à atividade. No Brasil, esse processo ainda se encontra em fase de implementação. Segundo a CBF (2026) e Lage (2026) a entidade iniciou um projeto de profissionalização envolvendo 20 árbitros principais, 40 árbitros assistentes e 12 árbitros de vídeo (VAR) em seu primeiro ano de implantação. Embora represente um avanço para a estrutura da arbitragem brasileira, a iniciativa evidencia que o país ainda está em processo de consolidação de um modelo profissional.

A motivação para a realização desta pesquisa surgiu do acompanhamento do futebol pelos pesquisadores ao longo de sua formação acadêmica, período em que foram observadas, em diversas ocasiões, divergências relacionadas à aplicação de determinados protocolos utilizados pelo VAR. Essas situações despertaram o interesse em compreender de que maneira tais divergências podem influenciar a interpretação das decisões de arbitragem, além de gerar questionamentos no âmbito da mídia esportiva e afetar a percepção sobre a credibilidade das competições.

Em uma partida de futebol, é indispensável a atuação de árbitros capazes de conduzir o jogo de maneira imparcial, segura e consistente, garantindo o cumprimento das regras e contribuindo para a justiça esportiva. Nesse contexto, tecnologias como o VAR surgem como ferramentas de apoio à arbitragem, favorecendo decisões mais precisas e para a redução de erros em lances decisivos.

Considerando a relevância deste estudo para a produção científica no âmbito do futebol, especialmente no que se refere à busca por maior assertividade e credibilidade nas competições, este trabalho teve como objetivo analisar o impacto da implementação do VAR na tomada de decisões da arbitragem no futebol brasileiro, investigando os limites entre a precisão proporcionada pela tecnologia e a subjetividade inerente às decisões tomadas em campo.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Evolução da Estrutura e a Crise de Legitimidade da Arbitragem Nacional

Os árbitros desempenham papel fundamental no andamento de uma partida de futebol, visto que suas decisões impactam diretamente o resultado do jogo, como ao assinalar uma penalidade máxima, anular um gol ou aplicar sanções disciplinares (Ifab, 2024). A história da arbitragem acompanha as transformações sociais e econômicas do futebol, que evoluiu de um esporte recreativo para um espetáculo de grande apelo financeiro e midiático (Righeto; Reis, 2017).

Nessa estrutura moderna, a atuação do árbitro exige elevado padrão ético e controle emocional, uma vez que o profissional precisa tomar decisões imparciais mesmo diante de um ambiente de forte tensão, cobrança de torcidas, risco de intimidações e agressões. Por essa razão, a avaliação e o suporte psicológico podem contribuir para o discernimento e o equilíbrio emocional do árbitro em situações de estresse antes e depois dos jogos.

Paralelamente ao desgaste psicológico, a introdução de novas tecnologias alterou sensivelmente a dinâmica de validação das decisões em campo. O Video Assistant Referee (VAR), que em português significa árbitro assistente de vídeo, foi incorporado oficialmente à Copa do Mundo da FIFA de 2018 (Galak; Zoboli; Dantas Junior, 2018). Esse sistema passou a disponibilizar recursos visuais detalhados para o esclarecimento de lances duvidosos, como gols, penalidades, cartões vermelhos diretos e casos de identificação equivocada de jogadores (Ifab, 2024). No entanto, embora a tecnologia busque reduzir falhas humanas, a exposição detalhada dos erros pela mídia intensifica o debate público sobre a precisão técnica e a legitimidade das decisões da equipe de arbitragem (Righeto; Reis, 2017).

O agravamento da crise de legitimidade da arbitragem nacional insere-se também em um contexto contemporâneo marcado pela expansão do mercado de apostas esportivas e por investigações sobre fraudes no futebol, exigindo do setor níveis ainda mais rigorosos de transparência e eficiência (Valente, 2025). Segundo o autor, falhas operacionais recorrentes e decisões controversas desestabilizam a credibilidade do esporte como produto econômico e social, comprometendo a confiança do público. Casos em que a tecnologia falha em confirmar eventos objetivos em campo, como a verificação da entrada da bola no gol, evidenciam gargalos técnicos que alimentam a desconfiança pública e reforçam a urgência de reformas estruturais na gestão do apito (Valente, 2025).

A ausência de contratos de trabalho formais e a remuneração baseada em taxas por partida geram instabilidade financeira para a categoria, uma vez que mesmo árbitros de destaque podem sofrer reduções superiores a 50% na remuneração de um mês para o outro (Di Gregorio, 2026). A falta de amparo contratual também expõe os profissionais a punições veladas, como o afastamento não oficial das escalas, além de evidenciar disparidades no acesso e na formação de árbitros no cenário nacional (Di Gregorio, 2026). Para enfrentar esses gargalos, a CBF implementou o programa de profissionalização do setor, contratando 72 profissionais, sendo 20 árbitros centrais, 40 assistentes e 12 árbitros de vídeo, com foco inicial no Campeonato Brasileiro da Série A, embora possam atuar em outras competições ao longo do ano (CBF, 2026; Lage, 2026).

2.2. A Implementação do VAR no Brasil e as Controvérsias da Tecnologia na Arbitragem Nacional

A adoção do recurso de arbitragem de vídeo no cenário internacional teve como catalisador a busca pela redução de falhas humanas em lances decisivos, resultando na aprovação inicial da Goal-Line Technology em 2012 e na realização do primeiro teste do VAR em 2016, nos Estados Unidos (Pinho, 2026). No Brasil, o processo de implementação ocorreu de forma gradual. Após o uso em campeonatos estaduais, a estreia em competição de âmbito nacional ocorreu em 1º de agosto de 2018, na partida entre Santos e Cruzeiro, pelas quartas de final da Copa do Brasil (Borges, 2018). A consolidação do recurso deu-se no Campeonato Brasileiro da Série A de 2019, temporada em que a ferramenta passou a ser utilizada em 100% das partidas (Pinho, 2026).

O protocolo do VAR prevê a checagem automática e silenciosa de lances capitais, recomendando a revisão em campo apenas diante de erros claros e manifestos (Ifab, 2024). Contudo, a fase inicial de adaptação operacional revelou desafios: nos primeiros balanços do Campeonato Brasileiro de 2019, a duração média de cada consulta ao VAR atingiu 110 segundos, tempo cerca de 46% superior ao parâmetro de 75 segundos recomendado pela FIFA (Amaro; Fernandes, 2019). Na ocasião, a CBF declarou a intenção de reduzir essa média para 80 segundos, sem comprometer a precisão das decisões (Amaro; Fernandes, 2019).

Em se tratando dos impactos e das controvérsias da tecnologia na arbitragem nacional, a primeira grande linha de debate gira em torno da subjetividade das decisões, uma vez que, mesmo com recursos visuais detalhados, o olhar por trás do monitor permanece interpretativo (Said, 2021). Nessa direção, Freire (2021) analisa o VAR como um sistema sociotécnico e discute a tensão entre objetividade e interpretação no futebol brasileiro.

Outro ponto crítico é a quebra no ritmo das partidas provocada pelo tempo das revisões, que constitui um gargalo operacional relevante no cenário brasileiro (Amaro; Fernandes, 2019). A evolução do volume dessas intervenções ao longo das últimas temporadas (2019–2025) está apresentada na Tabela 1.

Tabela 1. Intervenções e modificações do VAR no Campeonato Brasileiro Série A (2019–2025).

Temporada/Ano

Mudanças de decisão (Total)

Modificações após ida à cabine (Monitor)

2025

192

147

2024

158

104

2023

144

82

2022

173

110

2021

154

96

2020

187

114

2019

182

117

Fonte: Adaptado de Espião Estatístico/GE (2025) e Imirante Esporte (2025).

Os dados apresentados na Tabela 1 evidenciam a constante oscilação e o expressivo volume de intervenções do recurso tecnológico nas edições do Campeonato Brasileiro da Série A. Nota-se que, na maioria dos casos em que ocorre a alteração da decisão inicial de campo, existe a necessidade de consulta presencial do árbitro ao monitor à beira do gramado. A temporada de 2025 registrou o pico de intervenções do período analisado (192 mudanças de decisões), das quais 147 demandaram a checagem no monitor, reforçando a relevância do debate sobre o tempo despendido nas paralisações e a centralidade da decisão do árbitro de campo diante da tecnologia (Espião Estatístico, 2025; Imirante Esporte, 2025).

Além disso, a pressão gerada pela exposição detalhada dos erros pode levar o árbitro central a uma postura dependente da tecnologia, transferindo a responsabilidade da decisão para a equipe de vídeo, o que tende a fragilizar sua liderança em campo. Trata-se de uma hipótese que demanda investigações específicas.

Por fim, a divulgação das informações ao público é alvo de queixas de torcedores e clubes, como mostra a ausência do momento do passe na projeção do impedimento semiautomático (Oliveira, 2026). O protocolo prevê que o VAR atue para evitar erros claros e óbvios, de modo que a capacitação humana permanece como fator essencial para que o suporte tecnológico não comprometa a essência do jogo (Ifab, 2024).

2.3. Análise de Lances Controversos no Futebol Nacional e os Desafios Impostos às Decisões (ou Não) Do VAR

A aplicação prática do árbitro de vídeo no futebol brasileiro demonstra que as polêmicas não decorrem apenas de divergências interpretativas pontuais, mas da falta de padronização nos procedimentos operacionais, de erros na aplicação dos protocolos e do impacto do recurso no ritmo das partidas. A premissa original da ferramenta era corrigir injustiças em lances objetivos, como a verificação de gols ou agressões fora do campo de visão. No entanto, no cenário nacional, a tecnologia passou a interferir frequentemente em jogadas de alta carga subjetiva, o que acaba por retirar a autoridade do árbitro central e gerar um ambiente de insegurança e desconfiança. Essa insatisfação com a condução das checagens culmina em episódios extremos de protesto em campo, ilustrados pelo momento em que o goleiro Gatito Fernández chutou o equipamento do VAR após uma decisão controversa (Guedes, 2020).

A rigidez na utilização dos recursos tecnológicos também passou a ser observada em situações envolvendo a marcação de impedimentos, especialmente diante da utilização de linhas milimétricas. Nesse contexto, Guedes (2020) destaca como a precisão tecnológica pode penalizar avanços de poucos centímetros, contribuindo para o debate sobre os limites da utilização do recurso e sobre a interpretação das imagens apresentadas pela arbitragem.

Posteriormente, as controvérsias passaram a envolver também a própria aplicação do protocolo de intervenção do VAR. Na partida entre Palmeiras e Vasco, em 2023, o Vasco teve um gol anulado de forma equivocada após o VAR retornar a checagem a uma posição de impedimento anterior, a qual já havia sido superada por uma ação deliberada do defensor adversário ao tentar afastar a bola (Ruel, 2023). Como a nova jogada já fora iniciada e o assistente não havia assinalado a infração no primeiro momento, a revisão da fase anterior descumpriu o protocolo oficial do VAR, evidenciando que os equívocos também alcançam a aplicação das diretrizes da ferramenta (Ruel, 2023).

No mesmo período, as disputas por contatos na grande área também geraram forte insatisfação das equipes e expuseram questionamentos relacionados à condução do tempo de jogo. No empate entre Palmeiras e Flamengo em 2023, dirigentes rubro-negros contestaram um possível pênalti sobre Everton Ribeiro e, principalmente, o procedimento no gol anulado de Rony. Nessa jogada, a arbitragem assinalou o impedimento enquanto a bola rolava, induzindo a defesa a parar, mas ainda assim submeteu o lance à revisão do vídeo antes de reiniciar a partida (Leiras, 2023).

A soma dessas falhas operacionais, aliada à rigidez do traçado de linhas milimétricas que penalizam centímetros de avanço, faz com que os clubes recorram com frequência à CBF para formalizar reclamações, alimentando discursos de dirigentes sobre a organização do campeonato e demonstrando que a tecnologia não extinguiu a crise de credibilidade na tomada das decisões nos jogos pelo país (Guedes, 2020; Leiras, 2023).

Além das situações relacionadas ao impedimento e aos procedimentos de revisão, as decisões envolvendo faltas e cartões também passaram a evidenciar divergências entre a recomendação da cabine e a decisão final do árbitro de campo. No confronto entre Palmeiras e Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro da Série A de 2025, o jogador Gustavo Gómez atingiu a perna do adversário com alta intensidade após tocar na bola; o VAR recomendou a revisão para cartão vermelho direto, mas o árbitro de campo discordou da indicação e manteve apenas o cartão amarelo, alegando que o atleta não teve tempo de recolher o pé. A mesma situação ocorreu em lance de Alan Kardec, do Athletico Paranaense, pela Série B: o árbitro de vídeo recomendou a revisão para possível cartão vermelho, mas o árbitro de campo manteve a advertência com cartão amarelo. Os dois casos demonstram que a recomendação da equipe de vídeo nem sempre é acatada pelo árbitro principal (Gabetel, 2025).

Já em 2026, a controvérsia em torno da rigidez tecnológica no futebol nacional aprofundou-se com o uso de recursos de precisão milimétrica em lances decisivos, conforme ilustra o episódio relatado por Mondadori (2026) na partida entre Botafogo e Grêmio. Na ocasião, a anulação de um gol do atacante Carlos Vinícius nos acréscimos, apontada pelo sistema de impedimento semiautomático por uma margem de apenas um centímetro, reacendeu o debate sobre o impacto do VAR e a real confiabilidade de suas imagens. A decisão gerou forte indignação da diretoria gremista e motivou críticas abertas à CBF sobre o que o clube classificou como “erros sistemáticos”, evidenciando que uma ferramenta projetada originalmente para corrigir falhas claras e óbvias segue sob intenso questionamento e longe de alcançar a unanimidade no esporte (Mondadori, 2026).

Cabe destacar que as divergências na aplicação de cartões em jogadas temerárias também geram forte contestação no futebol nacional, como evidencia o caso relatado por Costa (2026) na partida entre Internacional e Grêmio pela Copa do Brasil. No confronto, o atacante gremista Carlos Vinícius atingiu o adversário Bruno Gomes durante uma disputa de bola e, já advertido previamente, não recebeu o segundo cartão amarelo nem a consequente expulsão por decisão do árbitro Ramon Abatti Abel. O lance levou os jogadores colorados a pedirem a expulsão do atacante gremista, e o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon avaliou que se tratava de um lance clássico de cartão amarelo, de modo que o segundo amarelo e a consequente expulsão deveriam ter sido aplicados (Costa, 2026).

Por fim, a disparidade na aplicação de critérios para faltas graves em uma mesma partida reitera a falta de padronização nas decisões e na intervenção do recurso tecnológico, como observado por Pessoa (2026) na análise do clássico entre Palmeiras e São Paulo. Na ocasião, a expulsão direta do zagueiro tricolor Luis Osorio por uma entrada com as travas da chuteira contrastou com a manutenção de apenas um cartão amarelo para o palmeirense Larson em jogada semelhante de alta intensidade sobre o adversário. A disparidade de conduta em lances ríspidos levou a especialista em arbitragem Renata Ruel a apontar falhas graves tanto do árbitro de campo quanto do VAR ao não recomendar a expulsão no segundo caso, demonstrando como a oscilação de critérios diante do uso de força excessiva fomenta constantes queixas de falta de isonomia no futebol nacional (Pessoa, 2026).

3. METODOLOGIA

A pesquisa se caracterizou como de abordagem qualitativa, de natureza descritiva, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica. Os pesquisadores adotaram esse tipo de investigação por possibilitar a análise das principais produções científicas e informativas sobre o papel do VAR no futebol.

A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados acadêmicas, como o Google Acadêmico, em matérias esportivas publicadas em sites da internet e em documentos oficiais dos órgãos gestores do futebol.

O recorte temporal da pesquisa compreendeu produções publicadas no período de 2016 a 2026. Para a busca das produções, foram utilizados os seguintes descritores: “árbitro de futebol”, “arbitragem”, “VAR”, “futebol” e “tecnologia no esporte”.

Como critérios de inclusão, foram selecionadas pesquisas e reportagens que abordavam diretamente a qualidade da arbitragem e o VAR no futebol brasileiro, publicadas e disponíveis na íntegra, preferencialmente em língua portuguesa. Como critérios de exclusão, foram desconsideradas produções duplicadas, trabalhos sem relação direta com o tema e fontes sem identificação clara de origem.

A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo, sob uma perspectiva qualitativa e crítica, o que permitiu a organização, a categorização e a interpretação dos significados e representações presentes nas informações coletadas (Franco, 2021).

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesta seção, discute-se a atuação do VAR na arbitragem brasileira à luz dos casos e da literatura apresentados, com o intuito de levantar questões sobre fragilidades nos aspectos que envolvem os critérios adotados em partidas do futebol nacional. A grande indagação que se coloca é: Por que ainda existem muitos erros, mesmo com todo o aparato tecnológico que cerca uma partida de futebol?

Conforme abordado na introdução, o futebol brasileiro movimenta valores expressivos (Riguetti, 2026), e os clubes passaram a investir na contratação de jogadores e na formação de comissões técnicas. Entretanto, observa-se que a arbitragem não acompanhou esse mesmo ritmo de evolução, permanecendo sujeita a erros que geram grandes polêmicas no meio esportivo e repercussão na mídia. Diante desse cenário, percebe-se que, apesar dos avanços tecnológicos, ainda existem limitações e desafios a serem enfrentados para que a arbitragem brasileira acompanhe o desenvolvimento do futebol nacional.

Inúmeras câmeras, sistemas de última geração (como o impedimento semiautomático) e a tentativa de profissionalização de um grupo seleto de árbitros indicam a busca por uma estrutura condizente com a das maiores ligas de futebol do mundo. Ainda assim, permanece uma questão fundamental no futebol brasileiro: a uniformidade dos critérios.

Este trabalho não pretende resolver o problema da arbitragem do nosso futebol, mas levantar pontos que inquietam as pessoas que vivem, torcem ou comandam o futebol nacional. Nesse sentido, permanecem questões que necessitam de respostas: a exigência sobre os árbitros é excessiva? Falta capacitação profissional a eles? Por que existem tantos critérios diferentes durante as partidas das competições organizadas pela CBF?

Recentemente, a CBF iniciou o processo de profissionalização da arbitragem brasileira para a temporada de 2026, contemplando 72 profissionais da Série A do Campeonato Brasileiro, entre árbitros, assistentes e árbitros de vídeo (Lage, 2026). Além da remuneração fixa e variável, o novo modelo prevê a realização de treinamentos físicos e técnicos, avaliações e atividades voltadas à aproximação dos critérios e à padronização dos procedimentos da arbitragem profissional (Lage, 2026). Dessa forma, observa-se que a profissionalização não está relacionada somente à questão financeira, mas também à busca por maior capacitação e uniformidade nas decisões dos profissionais. Entretanto, a profissionalização, por si só, não garante uniformidade e acerto nas decisões. É necessário que esteja acompanhada de capacitação contínua, critérios bem definidos e procedimentos padronizados para a atuação dos árbitros de campo e dos profissionais responsáveis pelo VAR.

A partir da análise realizada neste trabalho, observa-se que a evolução estrutural do futebol brasileiro, já discutida aqui, não foi acompanhada na mesma proporção pela arbitragem. Conforme apresentado, os investimentos realizados no futebol elevaram a importância das decisões tomadas durante as partidas, aumentando também a necessidade de uma arbitragem preparada para atuar em um ambiente de grande pressão. Nesse contexto, os erros de arbitragem deixam de ser percebidos apenas como situações isoladas e passam a gerar repercussões esportivas, financeiras e institucionais.

Com a implementação do VAR, discutida nas seções anteriores, esperava-se que parte desses problemas pudesse ser resolvida por meio da tecnologia. De fato, o recurso ampliou a possibilidade de revisão de determinadas decisões e trouxe uma nova ferramenta de auxílio ao árbitro. Contudo, a análise dos casos apresentados demonstra que a presença da tecnologia não elimina a necessidade de interpretação humana. O VAR pode fornecer imagens e diferentes ângulos de um lance, mas a decisão final continua dependendo da avaliação dos profissionais responsáveis pela arbitragem.

Nessa mesma direção, Said (2021) argumenta que um dos principais problemas do VAR reside na falsa noção de que mais tecnologia e mais objetivismo nas análises são necessariamente benéficos para resolver os conflitos da arbitragem. Segundo o autor, lances como infrações de mão, a cor da aplicação do cartão e alguns impedimentos geram dificuldades justamente porque não podem ser puramente objetivos: envolvem interpretação e leitura do contexto do jogo, elementos que não podem ser quantificados por manuais ou câmeras sem a intervenção da subjetividade humana.

Essa questão torna-se ainda mais evidente quando são observados os lances controversos apresentados nesta pesquisa. Os casos analisados demonstram situações distintas: em algumas delas, o VAR interfere na decisão de campo; em outras, recomenda uma revisão que não resulta na alteração da decisão; e existem situações em que a ausência de intervenção do recurso tecnológico gera questionamentos. Dessa forma, percebe-se que a existência do VAR não significa, necessariamente, que haverá concordância sobre a decisão tomada.

Os casos analisados também permitem observar que uma das principais dificuldades está relacionada à aplicação de critérios semelhantes para situações semelhantes. Quando lances com características próximas recebem decisões diferentes, surgem questionamentos sobre a uniformidade da arbitragem e sobre os parâmetros utilizados pelos profissionais. Essa questão é particularmente relevante porque o objetivo da utilização do VAR não está apenas relacionado à existência de imagens disponíveis, mas também à forma como essas imagens são interpretadas e utilizadas dentro dos protocolos estabelecidos. Corroborando essa informação, Siqueira (2026) relata que a Comissão de Arbitragem da CBF passou a orientar os árbitros de vídeo a manterem a decisão de campo quando não houver evidência clara de erro, buscando estabelecer um critério único para a atuação do VAR. Assim, a questão não se restringe à disponibilidade ou ao ângulo das imagens, mas também à maneira como essas informações são interpretadas pelos profissionais responsáveis pela tomada de decisão.

Outro aspecto observado é que o avanço da tecnologia pode trazer novos questionamentos. O impedimento semiautomático permite maior precisão na identificação da posição dos jogadores, porém situações decididas por margens extremamente pequenas continuam provocando discussões sobre a interpretação das imagens e sobre a compreensão do público em relação ao funcionamento do sistema. Nesse sentido, Oliveira (2026) explica que a tecnologia utilizada no Campeonato Brasileiro não apresenta, na projeção exibida ao público, o momento exato do passe, embora esse instante seja fundamental para a análise do impedimento. Além disso, o autor destaca que, nas primeiras vezes em que o sistema foi utilizado, gols foram anulados por diferenças mínimas, como a posição do bico da chuteira. Dessa forma, evidencia-se que, quanto mais precisa se tornar a tecnologia, maior também é a necessidade de transparência sobre os critérios e procedimentos utilizados para a tomada de decisão.

A partir dessas questões, os casos apresentados neste estudo indicam que a discussão sobre a arbitragem brasileira não deve se limitar à existência ou não do VAR. A questão envolve um conjunto de fatores, como formação profissional, padronização de critérios, aplicação dos protocolos, comunicação entre árbitro e equipe de vídeo e utilização adequada dos recursos tecnológicos. Nesse sentido, a tecnologia deve ser compreendida como uma ferramenta de auxílio à arbitragem, e não como um elemento capaz de substituir a preparação, a interpretação e a responsabilidade dos profissionais envolvidos.

Fica evidente que as questões levantadas no início desta discussão permanecem relevantes. Exigir uma arbitragem mais qualificada não significa apenas cobrar decisões corretas, mas também proporcionar condições para que os profissionais sejam preparados de maneira contínua e atuem seguindo critérios claros e uniformes. Da mesma forma, a profissionalização da arbitragem representa um passo importante, mas precisa estar associada a um processo permanente de formação e avaliação.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A arbitragem brasileira passou por diferentes transformações ao longo dos anos, acompanhando a evolução do futebol e o aumento da importância esportiva, econômica e midiática das competições. Nesse processo, foram incorporados novos recursos tecnológicos e procedimentos destinados a auxiliar a atuação dos árbitros. A implementação do VAR representa uma das principais mudanças nesse contexto, modificando a forma como determinadas decisões são analisadas e revisadas durante as partidas.

No Brasil, a implementação do VAR ocorreu de forma gradual e foi acompanhada por um período de adaptação dos profissionais e das competições. Embora a utilização do recurso tenha ampliado as possibilidades de revisão dos lances e contribuído para o desenvolvimento tecnológico da arbitragem, os casos analisados demonstram que sua utilização também trouxe novos questionamentos. Mais recentemente, a implementação do impedimento semiautomático representa outro avanço nesse processo, porém ainda existem diferenças relacionadas à estrutura e à disponibilidade dos recursos tecnológicos entre estádios e competições. Dessa forma, a modernização da arbitragem brasileira ainda ocorre de maneira progressiva.

O objetivo do estudo, de analisar o impacto do VAR na tomada de decisões da arbitragem no futebol brasileiro, foi atingido. A análise dos lances controversos apresentados permite concluir que os problemas identificados não estão relacionados exclusivamente à existência ou à ausência de tecnologia. As imagens fornecidas pelo VAR ampliam as possibilidades de análise, mas a interpretação dessas imagens continua dependendo dos profissionais responsáveis pela arbitragem. A aplicação de critérios diferentes em situações semelhantes e as divergências na utilização dos protocolos demonstram a necessidade de maior padronização e capacitação. Acredita-se que o processo de profissionalização iniciado pela CBF representa uma mudança importante, mas deve estar associado à formação contínua, às avaliações e ao aprimoramento técnico dos árbitros. Também deve ser considerada a realidade profissional da categoria, uma vez que parte dos árbitros concilia a atividade de arbitragem com outras ocupações, o que evidencia a importância de condições adequadas para o desenvolvimento profissional.

Uma limitação desta pesquisa está relacionada à disponibilidade de produção científica acadêmica específica sobre a utilização do VAR e seus impactos na arbitragem brasileira. Em razão disso, foi necessário recorrer também a matérias jornalísticas e documentos institucionais para acompanhar casos controversos e acontecimentos recentes. Embora essas fontes tenham contribuído para a compreensão dos episódios analisados, materiais jornalísticos podem apresentar diferentes perspectivas editoriais e interpretações dos acontecimentos. Reconhece-se, portanto, a necessidade de ampliar a produção científica sobre a temática, especialmente por meio de estudos que investiguem a aplicação dos protocolos, a formação dos árbitros, a tomada de decisão e os impactos das novas tecnologias na arbitragem nacional.

Assim, o desafio da arbitragem brasileira não está exclusivamente na falta de tecnologia, uma vez que o futebol nacional já dispõe de recursos importantes para auxiliar as decisões. O principal desafio está em integrar tecnologia, capacitação profissional e padronização de critérios, buscando proporcionar maior segurança às decisões e, consequentemente, contribuir para a legitimidade da arbitragem perante clubes, atletas, profissionais e torcedores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Acadêmicos do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Acadêmicos do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.