ENTRE LÁGRIMAS E RAÍZES: A ESCREVIVÊNCIA E A NEGRITUDE NO CONTO “OLHOS D’ÁGUA” E “MARIA”, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

BETWEEN TEARS AND ROOTS: THE ESCREVIVÊNCIA AND BLACKNESS IN OLHOS D’ÁGUA AND MARIA, BY CONCEIÇÃO EVARISTO

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788995576

RESUMO
A pesquisa aborda as marcas de escrevivência e negritude presentes nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, da obra Olhos d’Água (2014), de Conceição Evaristo, com o objetivo de compreender como essas marcas contribuem para a representação das experiências, das dores e das formas de resistência das mulheres negras. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, tendo como corpus os contos selecionados e como base teórica estudos sobre escrevivência, negritude, identidade, raça, gênero e classe. A análise considera elementos presentes nas narrativas, como memória, maternidade, trabalho, pobreza, racismo, violência, ancestralidade e resistência, relacionando-os às categorias de análise estabelecidas no referencial teórico. Os resultados evidenciam que, em “Olhos d’Água”, a memória, a maternidade e o afeto constituem formas de resistência diante da pobreza, enquanto, em “Maria”, o trabalho, o racismo e a violência revelam a vulnerabilidade da mulher negra pobre diante de estruturas de exclusão e desumanização. Conclui-se que a escrevivência e a negritude articulam experiência, memória, identidade e resistência, conferindo visibilidade às vivências de mulheres negras e reafirmando a literatura como espaço de autorrepresentação e enfrentamento das desigualdades sociais e raciais.
Palavras-chave: Escrevivência; Negritude; Literatura afro-brasileira; Mulher negra; Conceição Evaristo.

ABSTRACT
This research addresses the marks of escrevivência and blackness present in the short stories “Olhos d’Água” and “Maria”, from the work Olhos d’Água (2014), by Conceição Evaristo, with the objective of understanding how these marks contribute to the representation of the experiences, suffering, and forms of resistance of Black women. The research is characterized as qualitative, bibliographic, and documentary in nature, with the selected short stories as its corpus and studies on escrevivência, blackness, identity, race, gender, and class as its theoretical basis. The analysis considers elements present in the narratives, such as memory, motherhood, work, poverty, racism, violence, ancestry, and resistance, relating them to the categories of analysis established in the theoretical framework. The results show that, in “Olhos d’Água”, memory, motherhood, and affection constitute forms of resistance in the face of poverty, while, in “Maria”, work, racism, and violence reveal the vulnerability of poor Black women in the face of structures of exclusion and dehumanization. It is concluded that escrevivência and blackness articulate experience, memory, identity, and resistance, giving visibility to the experiences of Black women and reaffirming literature as a space for self-representation and for confronting social and racial inequalities.
Keywords: Escrevivência; Blackness; Afro-Brazilian literature; Black woman; Conceição Evaristo.

1. INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, as discussões sobre representatividade e diversidade na literatura brasileira têm ganhado cada vez mais destaque. Nesse contexto, a escrita de Conceição Evaristo se torna um marco importante por evidenciar as vozes e experiências das mulheres negras, historicamente silenciadas. Conceição Evaristo é uma importante escritora, poetisa e professora brasileira, nascida em 1946, em Belo Horizonte (Minas Gerais), e uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea do Brasil, especialmente por abordar a vivência, a resistência e a identidade da mulher negra.

Cresceu em uma família pobre e iniciou sua trajetória profissional ainda jovem, trabalhando como empregada doméstica, porém sem abandonar os estudos. Formou-se em Letras, concluiu mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Literatura Comparada. Sua escrita é marcada pelo conceito de “escrevivência”, termo criado por ela para definir uma literatura que surge das experiências de vida das mulheres negras, transformando dor, memória e luta em arte e resistência. A autora possui diversas publicações individuais, entre as quais se destacam: “Ponciá Vicêncio” (2003), romance que aborda identidade, memória e herança da escravidão; “Becos da Memória” (2006), que apresenta um retrato poético e social das comunidades negras marginalizadas; e “Olhos d’Água” (2014), coletânea de contos que trata de mulheres negras, maternidade, pobreza e afeto.

Sendo “Olhos d’Água” (2014), obra que constitui o objeto de estudo deste trabalho, é formada por 15 contos que abordam experiências de mulheres negras, maternidade, pobreza e afeto. Um elemento comum a todos os contos é a representação de vivências marcadas por traços de pessoas menos abastadas, exclusão social e resistência cotidiana, Conceição Evaristo transforma essas experiências em escrevivências, ou seja, em narrativas que entrelaçam memória, dor, amor e ancestralidade. As protagonistas são, em sua maioria, mulheres que enfrentam racismo, abandono e desigualdade, mas que também demonstram força, afeto e esperança. Por meio de uma linguagem poética e simbólica, a autora dá voz a personagens historicamente silenciadas, construindo uma literatura que denuncia injustiças e afirma identidades.

Apesar da importância dessas representações, ainda permanece em aberto a compreensão de como as marcas de escrevivência e negritude se articulam na construção das diferentes experiências das mulheres negras dentro da obra “Olhos d’Água”, especialmente quando considerados contos que apresentam situações distintas de memória, maternidade, pobreza, trabalho, racismo, violência e resistência. Nesse sentido, torna-se relevante observar de maneira mais específica como essas marcas são construídas nos contos selecionados e de que forma contribuem para a representação das experiências e das formas de resistência das mulheres negras.

Nesse sentido, estudos que discutem a literatura negra e a representação das mulheres negras contribuem para a compreensão da escrita de Conceição Evaristo: Angela Davis (2016) aborda as relações entre raça, gênero e classe, evidenciando as formas de exploração e violência que historicamente atingem as mulheres negras; Joel Nemona Mendes (2022), ao discutir a construção da identidade negra e a negritude, destaca o processo histórico de desumanização associado à representação da população negra e a importância dos movimentos de valorização e afirmação identitária; Flávia Andrea Rodrigues Benfatti (2023), por sua vez, discute a presença dos corpos e das experiências de mulheres negras na obra “Olhos d’Água”, destacando a violência e as condições sociais que atravessam essas personagens. Esses estudos permitem compreender a literatura de Evaristo como espaço de representação, denúncia, resistência e afirmação da identidade negra.

A partir dessas discussões, delimita-se como problema desta pesquisa a seguinte questão: como as marcas de escrevivência e negritude são construídas nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, de Conceição Evaristo, e de que maneira essas marcas contribuem para representar as experiências, as dores e as formas de resistência das mulheres negras?

A escolha desses contos justifica-se pela possibilidade de compreender como experiências distintas de mulheres negras são transformadas em matéria literária e como a escrita pode atuar como instrumento de denúncia, memória e resistência. A análise desses textos também se mostra relevante por contribuir para a valorização da literatura afro-brasileira e para a compreensão das formas pelas quais a literatura contemporânea representa sujeitos historicamente silenciados. Dessa maneira, a pesquisa apresenta relevância não apenas para os estudos literários, mas também para as discussões sociais relacionadas ao racismo, à desigualdade e à representação da mulher negra.

Dessa forma, este trabalho tem como objetivo analisar as marcas de escrevivência e negritude nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, de Conceição Evaristo, buscando compreender como a autora utiliza a escrita para dar voz às mulheres negras, transformando suas vivências em expressões de denúncia, protesto e resistência. Para alcançar esse objetivo, a pesquisa será realizada por meio de análise documental de cunho bibliográfico, com foco nos contos mencionados, a fim de compreender como a autora atua de forma crítica e denunciatória, utilizando sua escrita como instrumento de protesto e resistência. Como fundamentação teórica, o estudo se apoia no conceito de escrevivência, conforme desenvolvido pela própria Conceição Evaristo, e na discussão sobre negritude, utilizando autores que abordam a temática negra, tais como Angela Davis (2016), Joel Nemona Mendes (2022) e Flávia Andrea Rodrigues Benfatti (2023).

Assim, para a construção deste artigo foram selecionados dois contos, “Olhos d’Água” e “Maria”. O primeiro, que dá nome ao livro, apresenta uma narradora que busca recordar o rosto da mãe, figura marcada pela dor, pela luta e pela pobreza. O símbolo dos olhos cheios d’água representa tanto as lágrimas quanto a profundidade da memória e do amor materno, marcada pela dureza da vida nas periferias e pela herança emocional deixada pela exclusão social, oferecendo uma reflexão sensível sobre memória, perda e a força das mulheres negras que, mesmo diante da dor, continuam a resistir.

O segundo conto analisado, “Maria”, apresenta uma mulher negra pobre que enfrenta uma rotina de humilhações e exploração, em grande parte decorrentes do racismo e da desigualdade social. Maria simboliza muitas mulheres anônimas, marcadas pela luta diária e pelo cansaço, mas também pela dignidade e pela esperança silenciosa. O conto evidencia a violência estrutural e o sofrimento impostos por uma sociedade racista e patriarcal, ao mesmo tempo em que revela a força interior dessas mulheres que resistem mesmo diante da invisibilidade e da opressão. Desse modo, o objeto de estudo desta pesquisa concentra-se nas marcas de escrevivência e negritude presentes nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, integrantes da obra “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A análise das marcas de escrevivência e negritude na obra de Conceição Evaristo exige o diálogo com pensadoras e pensadores que discutem a construção histórica da identidade negra, as formas de resistência da diáspora africana e os modos pelos quais a literatura atua como denúncia das violências impostas às mulheres negras. Essa fundamentação teórica se apoia especialmente nos textos de Angela Davis, Conceição Evaristo, Joel Nemona Mendes e Flávia Andrea Rodrigues Benfatti, buscando estabelecer relações entre essas contribuições teóricas e o problema de pesquisa proposto.

2.1. Negritude, Identidade Negra e Resistência

Partimos do entendimento de que a identidade negra, no Brasil e no mundo, é produzida dentro de estruturas de dominação. No artigo “Reflexões sobre a autodesignação e positivação do nome ‘negro’”, Joel Nemona Mendes afirma que o termo “negro” é uma construção histórica criada no contexto escravista, com forte carga de desumanização. Ele enfatiza que o nome se origina de uma “natureza ofensiva, depreciativa, desumanizante e racista” (Mendes, 2022, p. 92) e acrescenta que:

Alguns movimentos sociais, políticos, culturais, artísticos e intelectuais “Afros” Autodesignaram e “tentaram” positiva-lo e criaram, a partir do substantivo “negro” o termo “Negritude” como movimento panafricanista de reinvindicação de direitos, independência, reconhecimento, revalorização de identidades, culturas e identidades africanas destruídas pelos europeus desde a invasão do continente africano no século XIV (Mendes, 2022, p. 92).

A partir dessa perspectiva, compreender a negritude na literatura significa observar como autoras negras respondem a esse processo histórico de estigmatização, transformando a palavra antes utilizada como instrumento de violência em elemento de afirmação, reconhecimento e luta. A negritude, nesse sentido, não se restringe a uma identificação racial, mas envolve também um processo de valorização da identidade, da cultura, da memória e da experiência dos povos negros.

Mendes também cita Frantz Fanon e Achille Mbembe para reforçar que a identidade negra foi construída pela ótica do colonizador, funcionando como um dispositivo de controle. Nesse sentido, afirma que “Negro era uma figura ou ainda um “objecto” inventado pelo Branco e “fixado”, como tal, pelo seu olhar, pelos seus gestos e atitudes, tendo sido tecido enquanto tal “através de mil pormenores, anedotas, relatos” (Mbembe apud Mendes, 2022, p. 101). Em contraste com essa construção hegemônica, os movimentos de negritude surgiram na década de 1930 como reação estética, política e intelectual que buscava revalorizar a ancestralidade africana e reconstruir a humanidade e a identidade dos povos negros no espaço colonial. Dessa forma, a negritude pode ser compreendida também como uma forma de resistência diante das representações historicamente construídas a partir do olhar do outro.

Essa discussão é importante para a presente pesquisa porque permite compreender a literatura produzida por mulheres negras como espaço de reconstrução de identidades e de enfrentamento das representações historicamente impostas. Ao colocar experiências negras no centro da narrativa, a literatura pode deslocar a posição de objeto atribuída historicamente às pessoas negras e possibilitar sua afirmação como sujeitos de suas próprias histórias.

2.2. Escrevivência, Memória e Experiência

A discussão sobre negritude estabelece diálogo direto com o conceito de escrevivência desenvolvido por Conceição Evaristo. A autora compreende a escrita das mulheres negras como uma prática relacionada à experiência, à memória e à condição histórica desses sujeitos. A escrevivência, portanto, não se limita ao registro de uma experiência individual, mas envolve também experiências coletivas marcadas por desigualdades, silenciamentos e formas de resistência. Evaristo afirma que a:

Escrevivência, em sua concepção inicial, se realiza como um ato de escrita das mulheres negras, como uma ação que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, em que o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão também sob o controle dos escravocratas, homens, mulheres e até crianças. E se ontem nem a voz pertencia às mulheres escravizadas, hoje a letra, a escrita, nos pertencem também (Evaristo, 2020, p. 30).

A partir dessa compreensão, a escrevivência se apresenta como uma forma de recuperar vozes historicamente silenciadas e de transformar experiências em matéria literária. A escrita passa a ocupar um espaço de afirmação da existência, permitindo que memórias, afetos, dores e formas de resistência sejam registradas a partir da perspectiva de mulheres negras.

Para Evaristo, escrever também representa um gesto de enfrentamento, pois a palavra pode romper com os silenciamentos historicamente impostos. Nesse sentido, a autora afirma que “[...] e se a voz de nossas ancestrais tinha rumos e funções demarcadas pela casa-grande, a nossa escrita não [...] a nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim acordá-los de seus sonos injustos” (Evaristo, 2020, p. 30), a afirmação evidencia o caráter político da escrevivência, uma vez que a escrita não busca apenas representar experiências, mas também questionar estruturas sociais que produziram e ainda produzem o apagamento de determinadas vozes. A memória, nesse processo, assume papel fundamental, pois permite recuperar experiências individuais e coletivas que foram historicamente marginalizadas.

Desse modo, a escrevivência pode ser compreendida como uma prática que articula escrita, memória, corpo, experiência e resistência. Ao assumir a mulher negra como sujeito da escrita e da narrativa, esse conceito contribui para compreender como a literatura pode produzir outras formas de representação e de reconhecimento da experiência negra.

2.3. Mulher Negra, Raça, Gênero e Classe

A dimensão social e histórica da experiência das mulheres negras também é discutida por Angela Davis (2016), cuja obra “Mulheres, raça e classe” evidencia as relações entre racismo, exploração e violência de gênero. A autora demonstra que as mulheres negras foram submetidas a formas específicas de opressão durante a escravidão e ao longo da formação da sociedade moderna, sendo marcadas pela exploração do trabalho, pela violência e pela desumanização.

Davis (2016) destaca a participação das mulheres negras nos processos de resistência e organização coletiva. Ao abordar o contexto posterior à abolição, a autora afirma:

Os anos 1890 foram os mais difíceis para a população negra desde a abolição da escravatura, e as mulheres se sentiam naturalmente obrigadas a se juntar à luta de resistência de seu povo. Foi em reação à desenfreada onda de linchamentos e ao abuso sexual indiscriminado de mulheres negras que as primeiras associações de mulheres negras foram estabelecidas (Davis, 2016, p. 134).

Essa perspectiva permite compreender que a experiência da mulher negra não pode ser analisada de maneira isolada das relações entre raça, gênero e classe. As diferentes formas de opressão se articulam e produzem condições específicas de existência, nas quais o trabalho, a pobreza, a violência e a resistência passam a fazer parte de uma mesma experiência histórica.

Davis também evidencia a centralidade do trabalho na experiência das mulheres negras, destacando que, durante o período escravista, elas eram submetidas a atividades exaustivas e, ao mesmo tempo, responsáveis pela manutenção de suas famílias e comunidades. Essa condição contribuiu para a construção de representações sociais que associavam o corpo da mulher negra ao trabalho e à exploração, marcas que ultrapassaram o período da escravidão.

A literatura de Conceição Evaristo dialoga com essa dimensão histórica ao colocar em evidência experiências de mulheres negras atravessadas por desigualdade, pobreza, violência, maternidade, trabalho, memória e resistência. Nesse sentido, as discussões de Davis contribuem para compreender que essas experiências não devem ser observadas apenas como acontecimentos individuais, mas como manifestações de estruturas sociais historicamente construídas.

Flávia Andrea Rodrigues Benfatti (2023), por sua vez, analisa a negritude como categoria política e identitária que se manifesta por meio da arte, da literatura e da cultura negra. Para a autora, a escrita negra é atravessada pela memória coletiva dos povos afrodescendentes, constituindo-se como espaço de denúncia e autorrepresentação. Essa perspectiva reforça o papel da literatura produzida por mulheres negras como espaço de reconstrução identitária e de enfrentamento das formas de invisibilização.

Benfatti destaca a presença crescente da produção literária de mulheres negras na literatura brasileira contemporânea

[...] a literatura brasileira contemporânea nos brinda com uma série de escritas femininas negras, aos poucos, saindo do anonimato e vindo parar nas livrarias do país, em sites e blogs. Essa literatura negra contemporânea vem nos ensinar (após séculos sem muitos de nós conseguirmos entender) o quão sofrida é a vida das mulheres pretas em um território que se recusa a enxergá-las (Benfatti, 2023, p. 196).

Essa afirmação ajuda a situar a produção de Conceição Evaristo dentro de um movimento mais amplo de escritoras negras que utilizam a literatura como espaço de visibilidade, denúncia e autorrepresentação. A presença dessas vozes no campo literário contribui para questionar representações construídas historicamente sobre as mulheres negras e para inserir suas experiências no centro da produção literária.

A partir desses diálogos teóricos, compreendemos que a escrevivência é atravessada pela negritude como projeto político, literário e identitário. As contribuições de Mendes (2022) permitem compreender a construção histórica da identidade negra e o processo de ressignificação associado à negritude; Evaristo (2020) oferece a base conceitual para compreender a escrevivência como escrita vinculada à experiência, à memória e à resistência; Davis (2016) possibilita compreender as relações entre raça, gênero e classe que atravessam historicamente a experiência das mulheres negras; e Benfatti (2023) contribui para situar a escrita de mulheres negras como espaço de denúncia, memória e autorrepresentação.

Desse modo, os estudos mobilizados oferecem diferentes perspectivas para compreender a relação entre identidade negra, escrevivência, memória, resistência e experiência das mulheres negras. Ao mesmo tempo, a articulação dessas contribuições permite aprofundar a análise de como esses elementos se manifestam especificamente nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, de Conceição Evaristo. Assim, os conceitos de negritude, escrevivência, memória, raça, gênero e classe constituem a base teórica necessária para a análise das marcas presentes nas duas narrativas, permitindo observar como elas articulam experiências individuais e coletivas de mulheres negras.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, a abordagem qualitativa foi adotada por possibilitar a interpretação dos sentidos construídos nas narrativas e a compreensão dos elementos literários a partir das categorias de análise estabelecidas no referencial teórico. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir das obras teóricas utilizadas na fundamentação e interpretação do corpus, enquanto a pesquisa documental teve como fonte os textos literários selecionados para análise.

O universo da pesquisa é constituído pela obra “Olhos d’Água” (2014), de Conceição Evaristo, composta por quinze contos. Desse universo, foram selecionados os contos “Olhos d’Água” e “Maria”, que constituíram o corpus específico da pesquisa, a seleção ocorreu de maneira intencional, considerando sua pertinência em relação ao objetivo do estudo e às categorias de análise estabelecidas.

Como materiais da pesquisa, foram utilizados os textos literários que constituem o corpus e as obras teóricas empregadas para a fundamentação e interpretação dos dados. Entre os principais materiais bibliográficos utilizados estão Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo (2020); Mulheres, raça e classe (2016); o estudo “Reflexões sobre a autodesignação e a positivação do nome ‘negro’: um olhar crítico sobre a Negritude (década de 1930) e o MNU (década de 1970)” (2022); e o artigo “Corpos-mulheres-violência em Olhos d’água de Conceição Evaristo” (2023).

O desenvolvimento da pesquisa ocorreu em etapas, inicialmente, foi realizada a leitura integral da obra “Olhos d’Água”, buscando identificar temas e elementos recorrentes relacionados às categorias que orientariam a análise. Posteriormente, foram selecionados os contos “Olhos d’Água” e “Maria”, que passaram a constituir o corpus específico da pesquisa. Em seguida, foi realizada uma leitura integral e aprofundada dos dois contos, com o levantamento dos fragmentos considerados relevantes para o objetivo da pesquisa, esses fragmentos foram organizados de acordo com os aspectos temáticos e literários identificados nas narrativas.

Para a coleta dos dados, foram considerados elementos presentes diretamente nos textos literários, tais como a construção das personagens, os acontecimentos narrados, as relações familiares, as condições de trabalho, as situações de pobreza, as manifestações de racismo e violência, os elementos de memória, afetividade, maternidade, ancestralidade e resistência. Também foram observados aspectos da construção narrativa, como narrador, tempo, espaço, linguagem e símbolos utilizados pela autora, relacionando-os às categorias de análise estabelecidas a partir da fundamentação teórica.

Os dados coletados foram organizados de forma temática, relacionando os fragmentos dos contos às categorias teóricas de escrevivência e negritude. Para a análise da escrevivência, foram consideradas especialmente as relações entre escrita, experiência, memória, corpo, voz, ancestralidade e resistência, conforme as discussões de Conceição Evaristo (2020). Para a análise da negritude, foram observadas as representações da identidade negra, do racismo, da desigualdade e das formas de resistência, em diálogo com Mendes (2022), Davis (2016) e Benfatti (2023).

A análise dos dados foi realizada por meio da interpretação qualitativa dos fragmentos selecionados, estabelecendo relações entre os elementos presentes nas narrativas e as discussões apresentadas no referencial teórico. Inicialmente, os contos foram analisados individualmente, buscando compreender as especificidades de cada narrativa. Posteriormente, os resultados foram comparados, a fim de identificar aproximações e diferenças entre as formas de representação da mulher negra em “Olhos d’Água” e “Maria”. Dessa maneira, os procedimentos adotados permitiram organizar o corpus, identificar os elementos relevantes para a pesquisa e analisá-los a partir das categorias de escrevivência e negritude, estabelecendo relações entre os textos literários e as contribuições teóricas selecionadas.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1. “Olhos D’Água”: Memória, Maternidade e Escrevivência

A análise dos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, integrantes da obra “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, permitem compreender de maneira aprofundada como a autora constrói uma escrita literária marcada pela escrevivência e pela negritude, transformando experiências individuais em denúncias coletivas. Embora se apresentem como narrativas autônomas, os dois contos dialogam intensamente ao expor as condições sociais, afetivas e históricas que atravessam a vida das mulheres negras brasileiras, evidenciando como o racismo, a pobreza e a desigualdade de gênero operam de forma estrutural.

A escrita de Evaristo articula memória, dor e resistência, fazendo da literatura um espaço de enfrentamento político e de afirmação identitária, no qual as personagens femininas negras deixam de ocupar posições marginais para se tornarem sujeitos centrais da narrativa. No conto “Olhos d’Água”, a narrativa em primeira pessoa se estrutura a partir de uma pergunta que desencadeia todo o movimento memorialístico do texto: “De que cor eram os olhos de minha mãe?” (Evaristo, 2014, p. 15).

A insistência dessa pergunta revela não apenas uma inquietação íntima da narradora, mas também um processo de reconhecimento tardio da importância da figura materna, marcada pela pobreza, pelo silêncio e pela luta cotidiana. A mãe surge como uma mulher negra que sustenta a família em meio à escassez extrema, situação evidenciada quando a narradora recorda que “muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum” (Evaristo, 2014, p. 16). Esse fragmento revela a precariedade material da família e, ao mesmo tempo, expõe a capacidade da mãe de reinventar o cotidiano, transformando a ausência de alimento em cuidado simbólico e afetivo.

A escrevivência manifesta-se de forma intensa nesse conto ao transformar lembranças dolorosas em narrativa poética, sem apagar a dureza das condições sociais enfrentadas. A mãe inventa brincadeiras para distrair a fome das filhas, demonstrando que o afeto também constitui uma forma de resistência diante da miséria: “Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía” (Evaristo, 2014, p. 17). A maternidade negra, nesse contexto, é apresentada como espaço de força e sobrevivência, reafirmando o papel das mulheres negras como sustentáculo emocional e simbólico das famílias e comunidades, mesmo quando submetidas a condições de extrema vulnerabilidade.

O simbolismo da água atravessa toda a narrativa de “Olhos d’Água” e se revela plenamente no desfecho do conto, quando a narradora finalmente compreende a cor dos olhos da mãe: “A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum!” (Evaristo, 2014, p. 18-19). A associação com Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do cuidado, reforça a ancestralidade africana como elemento central da identidade negra apresentada no conto. As lágrimas da mãe não simbolizam apenas sofrimento, mas profundidade, continuidade e memória, revelando uma mulher negra que carrega em si a dor histórica de seu povo, mas também a capacidade de amar, proteger e resistir.

No conto, a organização temporal da narrativa também merece destaque, pois a autora constrói o texto a partir de um movimento de ida e volta entre passado e presente, acionado pela memória da narradora. Esse movimento evidencia como o tempo da mulher negra não é linear, mas atravessado por lembranças que retornam de forma insistente, especialmente aquelas ligadas à figura materna.

Ao recordar a mãe sentada na soleira da porta, repartindo nuvens imaginárias com as filhas, a narradora afirma: “Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se sentava na soleira da porta e, juntas, ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu” (Evaristo, 2014, p. 17). Esse fragmento revela como a imaginação se torna estratégia de sobrevivência diante da escassez, reafirmando o papel da mãe como mediadora entre a dureza da realidade e a preservação do afeto.

Essa dimensão afetiva da maternidade negra aparece como elemento central da escrevivência, pois a memória da mãe não é idealizada, mas construída a partir de gestos simples, silenciosos e, muitas vezes, dolorosos. A narradora reconhece que a mãe chorava, mas seguia cuidando, protegendo e inventando possibilidades para as filhas, mesmo em meio ao medo das chuvas, da fome e da pobreza. A imagem dos “olhos alagados de prantos” (Evaristo, 2014, p. 17) reforça a simbologia da água como elemento que une dor e resistência, fazendo do choro não um sinal de fraqueza, mas de humanidade profunda. Assim, o conto reafirma a mulher negra como sujeito de memória, capaz de transformar sofrimento em força ancestral.

4.2. “Maria”: Trabalho, Racismo e Violência

Em diálogo com essa representação da maternidade negra, o conto “Maria” apresenta uma narrativa marcada pela violência estrutural e pelo racismo explícito. Maria é uma mulher negra pobre, empregada doméstica, cuja rotina é atravessada pelo cansaço físico e pela preocupação constante com os filhos. Logo no início do conto, observa-se a exaustão da personagem: “Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar” (Evaristo, 2014, p. 39).

A narrativa evidencia a desigualdade social quando Maria carrega para casa restos de comida da casa da patroa, “o osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa” (Evaristo, 2014, p. 39), reforçando a precarização do trabalho feminino negro e a naturalização da exploração. Esse aspecto pode ser relacionado às discussões de Davis (2016) acerca das relações entre raça, gênero e trabalho, uma vez que o corpo da mulher negra aparece submetido simultaneamente às exigências do trabalho e às responsabilidades familiares.

O ponto central do conto ocorre após o assalto ao ônibus, quando Maria, injustamente, passa a ser acusada pelos passageiros. O racismo manifesta-se de forma direta e violenta por meio da linguagem utilizada contra a personagem: “Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões!” (Evaristo, 2014, p. 42). Esse fragmento explicita como o corpo da mulher negra é associado à criminalidade e à imoralidade, funcionando como alvo preferencial da violência coletiva.

Maria não é linchada por provas, mas por estigmas raciais profundamente enraizados, o que revela o funcionamento brutal do racismo estrutural na sociedade brasileira. O desfecho do conto evidencia o grau extremo de desumanização imposto à personagem, que tem seu corpo violentado até a morte: “Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos” (Evaristo, 2014, p. 42). A morte de Maria simboliza o silenciamento definitivo de uma mulher negra cuja vida foi marcada pela luta, pelo trabalho exaustivo e pelo cuidado com os filhos.

Ainda assim, mesmo diante da violência extrema, a narrativa preserva sua humanidade, destacando seus pensamentos finais voltados para os filhos e para o desejo de transmitir o recado do pai ao filho, o que reforça a dimensão afetiva da personagem. O encontro com o pai de seu primeiro filho, durante o assalto, introduz um elemento de complexidade emocional à narrativa, pois revela que Maria não é apenas vítima das estruturas sociais, mas também sujeito de afetos, desejos e memórias. Ainda que o homem esteja envolvido em uma situação criminosa, Maria o reconhece como parte de sua história, o que reforça a dimensão humana da personagem.

No entanto, essa mesma relação afetiva é utilizada pela multidão como justificativa para sua condenação, demonstrando como a mulher negra não tem direito à ambiguidade ou ao erro em uma sociedade racista. O linchamento de Maria evidencia de forma extrema o funcionamento da violência coletiva, legitimada pelo preconceito racial. A acusação não se baseia em provas, mas na cor da pele e na posição social da personagem, o que se explicita quando a violência verbal se transforma em agressão física.

A repetição do grito “Lincha! Lincha! Lincha!” (Evaristo, 2014, p. 42) revela a desumanização progressiva da personagem, cujo corpo passa a ser tratado como descartável. A multidão age como instrumento de um racismo que não precisa de justificativa racional, pois se apoia em estigmas históricos profundamente enraizados.

4.3. Entre Memória e Violência: Aproximações e Diferenças

A estrutura narrativa dos dois contos evidencia também uma escolha estética significativa por parte da autora, que privilegia o cotidiano como espaço de revelação das violências históricas. Tanto em “Olhos d’Água” quanto em “Maria”, não há acontecimentos extraordinários no sentido clássico da narrativa, mas sim situações comuns às mulheres negras das periferias brasileiras. Essa escolha reforça a escrevivência como escrita do vivido, pois transforma aquilo que socialmente é visto como banal, a fome, o trabalho doméstico e o transporte público, em matéria literária carregada de densidade simbólica.

A ausência de grandes acontecimentos heroicos desloca o foco da narrativa para a sobrevivência cotidiana, mostrando que resistir, nesse contexto, é um ato contínuo e silencioso, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade.

Em “Maria”, por sua vez, a estrutura narrativa linear intensifica o impacto da violência, pois conduz o leitor gradativamente ao desfecho trágico, sem oferecer possibilidades de ruptura ou alívio. O cotidiano da personagem é narrado de forma quase mecânica, repetitiva, o que evidencia a exaustão física e emocional que marca sua existência. Maria carrega sacolas, dores no corpo e preocupações constantes com os filhos, como se observa no trecho em que a personagem sente “a palma de uma de suas mãos” doer após um corte sofrido no trabalho (Evaristo, 2014, p. 40). Esse detalhe aparentemente simples reforça a exploração do corpo da mulher negra, constantemente ferido pelo trabalho e pela negligência social.

Ao comparar os dois contos, percebe-se que a escrevivência se manifesta tanto na preservação da memória quanto na denúncia da violência. Em “Olhos d’Água”, a escrita funciona como gesto de reparação simbólica, permitindo que a narradora ressignifique a história da mãe e reconheça sua força ancestral. Já em “Maria”, a escrita atua como denúncia radical, expondo o grau extremo de vulnerabilidade a que estão submetidas as mulheres negras pobres.

Em ambos os casos, a negritude aparece como eixo estruturante da narrativa, não apenas como marca identitária, mas como condição histórica que determina as experiências vividas pelas personagens. As duas narrativas apresentam, portanto, diferentes manifestações da experiência da mulher negra: de um lado, a memória, a maternidade, o afeto e a ancestralidade; de outro, o trabalho, a pobreza, o racismo e a violência.

4.4. Escrevivência e Negritude Como Formas de Resistência

A leitura conjunta dos dois contos permite compreender que a escrevivência não se limita à representação do sofrimento. Ela também atua como mecanismo de preservação da memória, de afirmação da identidade e de produção de visibilidade para experiências historicamente marginalizadas. Nesse sentido, a análise aproxima-se da perspectiva de Evaristo (2020), segundo a qual a escrita das mulheres negras constitui uma forma de recuperar vozes e experiências que foram historicamente silenciadas.

Da mesma maneira, a presença da negritude nas narrativas não se restringe à caracterização racial das personagens. Ela se manifesta na recuperação da ancestralidade, na centralidade das experiências negras e na exposição das estruturas sociais que produzem desigualdade e violência. Nesse aspecto, as discussões de Mendes (2022), Davis (2016) e Benfatti (2023) contribuem para compreender que a representação da mulher negra na literatura está relacionada tanto à construção histórica de sua identidade quanto às formas de resistência e autorrepresentação.

Em “Olhos d’Água”, a resistência aparece principalmente na capacidade de preservar o afeto, a memória e a ancestralidade diante da pobreza. Em “Maria”, a resistência assume uma dimensão marcada pela própria permanência da humanidade da personagem diante da violência e pela construção literária de uma voz que denuncia sua morte e as condições que a produziram.

Dessa forma, a obra “Olhos d’Água” constrói um painel literário no qual as mulheres negras são apresentadas em sua complexidade, atravessadas por dor, afeto, trabalho, maternidade e violência. A escrita de Conceição Evaristo reafirma que contar essas histórias é um ato político, pois rompe com o silenciamento imposto historicamente às mulheres negras e reinscreve suas experiências no campo da literatura. Assim, a escrevivência se consolida como prática estética e política que transforma a palavra em espaço de resistência, memória e afirmação da negritude.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa evidencia que as marcas de escrevivência e negritude presentes nos contos “Olhos d’Água” e “Maria”, de Conceição Evaristo, constituem formas de representação das experiências de mulheres negras marcadas pela desigualdade racial e social. Nesse sentido, o estudo demonstra que a escrevivência articula vida, corpo, memória e ancestralidade, transformando experiências historicamente marginalizadas em matéria literária e conferindo centralidade às vozes de mulheres negras.

A análise permite concluir que a negritude se manifesta nas narrativas não apenas como elemento de identidade, mas também como dimensão histórica e social que atravessa as experiências das personagens. Em “Olhos d’Água”, a memória e a maternidade constituem formas de resistência diante da pobreza e das adversidades vivenciadas; em “Maria”, o trabalho, o racismo e a violência evidenciam a vulnerabilidade do corpo da mulher negra pobre diante de estruturas de exclusão e desumanização. Assim, as duas narrativas apresentam diferentes experiências, mas convergem na representação de mulheres negras submetidas a condições de desigualdade e, ao mesmo tempo, constituídas por formas de resistência.

Dessa forma, o objetivo proposto é atingido, uma vez que a análise identifica e interpreta as marcas de escrevivência e negritude presentes nos dois contos, evidenciando como essas dimensões contribuem para a representação das experiências, das dores e das formas de resistência das mulheres negras. A pesquisa também demonstra que a literatura de Conceição Evaristo ultrapassa a representação individual das personagens ao construir narrativas que dão visibilidade a experiências historicamente silenciadas.

Como contribuição, o estudo evidencia a relevância da escrevivência para a compreensão da produção literária de mulheres negras, especialmente por possibilitar a articulação entre experiência, memória, identidade e resistência. A análise dos contos também reforça a literatura como espaço de autorrepresentação e de enfrentamento às estruturas de racismo e desigualdade, contribuindo para a ampliação das discussões sobre literatura afro-brasileira no campo dos estudos literários.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENFATTI, Flávia Andrea Rodrigues. Corpos-mulheres-violência em Olhos d’água de Conceição Evaristo. Eixo Roda, Belo Horizonte, v. 32, n. 4, p. 195–206, 2023.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

EVARISTO, Conceição. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Organização de Constância Lima Duarte e Isabella Rosado Nunes. Rio de Janeiro: Mimo Comunicação e Arte, 2020.

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2014.

MENDES, Joel Nemona. Reflexões sobre a autodesignação e a positivação do nome “negro”: um olhar crítico sobre a Negritude (década de 1930) e o MNU (década de 1970). Revista Educação em Foco, n. 14, p. 91–111, 2022.


1 Graduando do curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas, do Centro de Ciências Humanas, Sociais e Letras (CCHSL), da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), Imperatriz-MA. Bolsista PIBIC/CNPq e PIBID/CAPES. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Graduanda do curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas, do Centro de Ciências Humanas, Sociais e Letras (CCHSL), da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), Imperatriz-MA. Bolsista PIBID/CAPES. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Doutoranda em Linguística e Literatura pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura (PPGLLIT), da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). Professora substituta do curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.