ENTRE A NORMA E O ESTIGMA: O FADO DETERMINISTA DE AMARO E ALEIXO EM BOM-CRIOULO

BETWEEN NORM AND STIGMA: THE DETERMINIST FATE OF AMARO AND ALEIXO IN BOM-CRIOULO

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787801139

RESUMO
O presente artigo analisa as manifestações do determinismo social no romance Bom-Crioulo (2013), de Adolfo Caminha, investigando de que modo as instâncias institucionais, a dinâmica espacial urbana e os estigmas raciais e sociais atuam sobre as trajetórias dos marinheiros Amaro e Aleixo. Mediante uma abordagem qualitativa de cunho bibliográfico e analítico-literário, o estudo examina a tensão entre a coerção do meio e a autonomia dos indivíduos, pautando-se em conceitos da estética naturalista e da crítica literária. A investigação demonstra que o trágico desfecho vivido pelos protagonistas não decorre de escolhas pessoais pautadas no livre-arbítrio, mas constitui o resultado inevitável dos condicionamentos sociais, fisiológicos e institucionais a que estão submetidos. A rigidez castrense da Marinha, a segregação racial, o isolamento em alto mar e a marginalização do afeto homoerótico na sociedade oitocentista anulam a capacidade de autodeterminação dos sujeitos. Conclui-se que a obra de Adolfo Caminha consolida a estética postulada por Taine (1895) ao expor a supressão do indivíduo diante das forças do meio, reafirmando o romance como um vetor de denúncia das opressões estruturais e dos estigmas da sociedade brasileira do final do século XIX.
Palavras-chave: Naturalismo brasileira; Determinismo social; Bom-Crioulo; Adolfo Caminha.

ABSTRACT
This article analyzes the manifestations of social determinism in the novel Bom-Crioulo (1895) by Adolfo Caminha, investigating how institutional forces, urban spatial dynamics, and racial and social stigmas shape the trajectories of the sailors Amaro and Aleixo. Through a qualitative approach grounded in bibliographic research and literary analysis, the study examines the tension between environmental coercion and individual autonomy, drawing upon concepts from Naturalist aesthetics and literary criticism. The investigation demonstrates that the protagonists' tragic fate does not stem from personal choices based on free will but is the inevitable result of the social, physiological, and institutional conditioning to which they are subjected. The Navy’s rigid military discipline, racial segregation, isolation at sea, and the marginalization of homoerotic affection in nineteenth-century society negate the subjects' capacity for self-determination. It is concluded that the work of Adolfo Caminha consolidates the aesthetic postulated by Taine (1895) by exposing the suppression of the individual in the face of environmental forces, reaffirming the novel as a vehicle for denouncing the structural oppressions and stigmas of late 19th-century Brazilian society.
Keywords: Brazilian Naturalism; Social determinism; Bom-Crioulo; Adolfo Caminha.

1. INTRODUÇÃO

O romance Bom-Crioulo, do escritor Adolfo Caminha, foi publicado incialmente em 1895 e é uma das obras mais emblemáticas do Naturalismo brasileiro. O objetivo deste trabalho é, pois, analisar o determinismo social incidente sobre as personagens Amaro e Aleixo, demonstrando como o meio, a raça e o contexto institucional atuam sobre o comportamento e o destino dos protagonistas.

A literatura naturalista do final do século XIX caracterizou-se pela forte assimilação dos referenciais cientificistas de sua época, assumindo como premissa a ideia de que a conduta humana e os processos sociais são rigorosamente regidos pelas determinações da raça, do meio e do momento histórico. No contexto de Bom-Crioulo, essa orientação estética conduz a uma narrativa em que a individualidade e a vontade do sujeito são constantemente tensionadas pelas forças do ambiente circundante. Inscreve-se, assim, o problema central que norteia esta pesquisa: em que medida a trajetória trágica vivida pelas personagens Amaro e Aleixo resulta de escolhas pessoais fundadas no livre-arbítrio ou, ao contrário, constitui o desfecho inevitável dos condicionamentos sociais, raciais e institucionais a que estão submetidos?

Para responder a esse questionamento, o presente artigo tem como objetivo examinar as manifestações do determinismo social no romance de Adolfo Caminha, analisando de que modo as instituições (como a Marinha), a dinâmica dos espaços urbanos e os estigmas raciais/sociais operam como vetores de anulação da autonomia das personagens Amaro e Aleixo.

A justificativa para a realização deste estudo reside na relevância de reavaliar Bom-Crioulo, uma obra historicamente marcada pela transgressão de tabus morais e pela ousadia temática, sob a ótica da dialética entre liberdade e fatalidade social. Embora o romance tenha sido frequentemente lido apenas pelo viés da audácia temática ao retratar a homossexualidade no Brasil oitocentista, o aprofundamento das relações de poder e do fatalismo que envolvem os protagonistas revela a complexidade do projeto naturalista no país. Compreender essa dinâmica contribui para os estudos da crítica literária e da história da literatura brasileira, lançando luz sobre a aplicação dos postulados positivistas e deterministas no romance de fim de século.

Do ponto de vista metodológico, este artigo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de caráter qualitativo e exploratório. A fundamentação teórica ancora-se na fortuna crítica do Naturalismo e do determinismo de Taine (1895), bem como em análises historiográficas e literárias sobre a obra de Adolfo Caminha.

A análise organiza-se em torno de perspectivas bem delimitadas: inicialmente, contextualiza-se a recepção do Naturalismo no Brasil e a posição de Adolfo Caminha no cenário literário da época; em seguida, investiga-se como os ambientes (o navio e a casa na Rua da Misericórdia) e as pressões institucionais exercem controle sobre os corpos e comportamentos de Amaro e Aleixo; por fim, examinam-se os momentos decisivos em que a ilusão da livre escolha sucumbe à engrenagem determinista, culminando na resolução trágica que sela a trajetória dos protagonistas.

2. A LITERATURA BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

O início dos oitocentos no Brasil foi marcado por transformações sociais, políticas e culturais profundas que fundaram as bases da identidade nacional e impulsionaram a consolidação de uma literatura genuinamente brasileira. A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, funcionou como o grande catalisador desse processo de modernização.

A subsequente abertura dos portos acelerou o intercâmbio comercial e permitiu a livre entrada de ideias e estéticas europeias, inserindo o país em um projeto de civilização e progresso. Essa reestruturação urbana e cultural almejava a racionalização do espaço público, pautada nos ideais de funcionalidade, higienização e embelezamento, conforme sintetiza Carvalho (2008) ao pontuar que a “cidade ilustrada visava a uma racionalização do espaço urbano, relacionando-o à noção de utilidade e ao seu funcionamento interno, dentro do qual a circulação, o embelezamento e a higiene constituíam as três principais virtudes” (Carvalho, 2008, p. 21).

Sob a influência desses novos aportes socioculturais, a produção literária local passou por uma transição do Arcadismo para o Romantismo, movimento que inaugurou o Período Nacional das nossas letras. O Romantismo colocou o indivíduo, a subjetividade e a emoção no centro da criação artística, buscando uma linguagem afim ao sentimento nacionalista. Suplantando o racionalismo, a estética romântica valorizou o amor idealizado, o sonho e os impulsos do coração. Além disso, como observa Coutinho (2004), a era romântica foi responsável pela gestação da prosa ficcional no país:

Com o Romantismo, pois, nasceu a novelística brasileira e suas primeiras manifestações pertencem, hoje, ao domínio pouco acessível da arqueologia literária: de consulta difícil muitas vezes impossível, já não figuram nem mesmo nos estudos especializados, nos quais não deveriam faltar, pela contribuição que, como inauguradores da forma prestaram ao desenvolvimento do nosso romance (Coutinho, 2004, p. 234).

O romance consolidou-se como um importante veículo de representação social e histórica, dividindo-se fundamentalmente em quatro grandes vertentes no Brasil: urbana, indianista, regionalista e histórica. A vertente urbana dedicou-se a retratar a vida cotidiana, as convenções sociais e os costumes da capital do Império. Em Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida ofereceu um painel crítico e dinâmico das classes média e baixa do Rio de Janeiro do início do século XIX, ironizando as instituições da época:

Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores (Almeida, 2011, p. 14).

Ainda que a narrativa urbana romântica tenha sido frequentemente povoada por conflitos amorosos de uma elite privilegiada e idealizada, representada por autores como José de Alencar, a literatura também buscou símbolos de brasilidade em outros cenários. Diante da ausência de cavaleiros medievais na história nacional, o romance indianista alçou a figura do indígena à condição de herói mítico e virtuoso, como se nota em obras de Alencar como O Guarani (1857) e Iracema (1865). Sobre essa construção simbólica, Candido (2009) pontua:

[...] no século XIX, não foram apenas as famílias importantes com as suas divertidas «princesas», mas toda a Nação que passou a ver no autóctone uma espécie de antepassado mítico, de herói epônimo, que acabou servindo para outra mistificação de alcance bem geral: atribuir ao sangue indígena (previamente valorizado) a mestiçagem com o africano, que por várias razões, sobretudo a de ser ele ainda escravo, era cuidadosamente negada ou disfarçada, terminando por ser ignorada nos casos individuais (pelo esquecimento total do antepassado negro) (Candido, 2009, p. 11).

Em paralelo, a tendência regionalista dedicou-se ao interior do país, erigindo o sertanejo como representação exótica e autêntica do povo brasileiro. Nomes como Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay, Franklin Távora e o próprio Alencar exploraram a interação entre o homem e o espaço agreste.

Por fim, o romance histórico valeu-se do passado colonial e imperial para cultivar o ufanismo e refletir sobre a formação da pátria recente. Conforme conceitua Hutcheon (2002), trata-se de narrativa que se apropria do passado de modo autorreflexivo, sendo aqueles que, “ao mesmo tempo são intensamente autorreflexivos e mesmo assim, de maneira paradoxal, também se apropriam de acontecimentos e personagens históricos” (Hutcheon, 2002, p. 22).

2.1. A Estética Naturalista

Na segunda metade do século XIX, a efervescência cientificista transformou radicalmente a percepção da realidade. A literatura romântica cedeu espaço ao Realismo e ao Naturalismo, movimentos informados por teorias como o Positivismo, o Determinismo e o Darwinismo Social. O Naturalismo, que teve como precursores franceses Émile Zola e Gustave Flaubert, propôs uma abordagem experimental da existência. O indivíduo passou a ser analisado como um organismo condicionado pela hereditariedade, pela raça e pelo meio social, despido de livre-arbítrio e regido por impulsos biológicos.

No Brasil, o marco inaugural do Naturalismo ocorreu em 1881, com o romance O Mulato, de Aluísio Azevedo. A estética naturalista avançou em relação ao Realismo ao adotar um método abertamente científico, voltado à investigação das patologias e mazelas sociais. Alfredo Bosi (2006) destaca a busca antirromântica por imparcialidade e rigor investigativo que caracterizou essa época: “Há um esforço, por parte do escritor antirromântico, de acercar-se impessoalmente dos objetos, das pessoas. E uma sede de objetividade que responde aos métodos científicos cada vez mais exatos nas últimas décadas do século” (Bosi, 2006, p. 166-167).

Nelson Sodré (1992) distingue de forma precisa os escopos do Realismo e do Naturalismo, ressaltando o viés interventor deste último:

A par disso, enquanto o naturalismo implica uma posição combativa, de análise dos problemas que a decadência social evidenciava, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com a intenção científica, o realismo apenas “fotografa” com certa isenção a realidade circundante, sem ir mais longe na pesquisa, sem trazer a ciência. [...]. O naturalista, controlando a sua sensibilidade, ou acomodando-a a ciência, põe luvas de borracha e não hesita em chafurdar as mãos nas pústulas sociais e analisá-las com rigorismo técnico mais de quem faz ciência do que literatura (Sodré, 1992, p. 29- 30).

Dotado de linguagem direta, por vezes vulgar, o romance naturalista focou nos vícios urbanos, crimes, preconceitos e desvios comportamentais. A despeito da forte rejeição da sociedade conservadora e moralista da época, que o rotulou como literatura "imoral", o movimento exerceu papel reformista ao encarar tabus como o anticlericalismo, o preconceito racial e a repressão sexual, redefinindo o debate sobre a identidade sociocultural do país (Abdalla; Campedelli, 2004).

2.2. Adolfo Caminha e a Recepção Crítica de Bom-Crioulo

No âmbito da prosa naturalista brasileira, Adolfo Caminha destaca-se pelo caráter combativo de suas obras. O autor publicou poesias em Voos Incertos (1886), crônicas de viagem em No País dos Ianques (1894), e os romances A Normalista (1893) e Tentação (1896), além de ter fundado o movimento cultural Padaria Espiritual e colaborado com a imprensa carioca. Contudo, foi com o lançamento de Bom-Crioulo, em 1895, que o escritor alcançou ampla repercussão e controvérsia.

O livro aborda o relacionamento amoroso e erótico entre o marinheiro negro Amaro e o jovem grumete Aleixo, desdobrando-se em um triângulo amoroso tragicômico com a pensionista Dona Carolina. A trama culmina no ciúme do protagonista e no assassinato de seu parceiro após uma traição heterossexual. Trata-se de uma aplicação rigorosa do determinismo biológico naturalista para problematizar uma relação homoerótica no seio da Marinha, instituição tida como sagrada pelo Estado.

A recepção crítica de Bom-Crioulo foi marcada pela indignação moral e pela rejeição estética. A crítica da época acusou o romance de repugnante, acusando também o próprio Caminha de nutrir os mesmos desejos do protagonista. Em resposta no artigo Um Livro Condenado, veiculado no semanário Nova Revista, o autor defendeu-se e denunciou o moralismo retrógrado dos críticos cariocas:

O Naturalismo é a própria vida interpretada pela arte; e, sendo o romance a forma mais natural da arte claro está que só é imoral quando não apresenta caracteres da obra artística. Ora, andou-se a escrever que o BOM-CRIOULO “tem páginas excelentes, vigor de expressão, estilo claro...”, mas que o tema é baixamente repugnante (Caminha, 1896 apud Bezerra, 2009, p. 447, grifos do autor).

Caminha argumentava que retratar a realidade e os aspectos instintivos do ser humano não significava apologia à libertinagem, citando nomes como Flaubert e Zola para defender que a arte não deveria estar subordinada ao julgamento moral:

[...] é preciso não confundir a verdade flagrante e necessária, reproduzida naturalmente, sem intuitos dissolventes, com a patifaria rasa, que dói nos ouvidos e faz saltar o sangue à face da burguesia. Zola, por maior que seja o número de seus inimigos, não é um romancista imoral (Caminha, 1895, p. 81-82).

Paradoxalmente, a forte tentativa de censura e o tom inflamado dos detratores atiçaram a curiosidade do público, transformando o livro em um verdadeiro sucesso de vendas, como registrou o próprio romancista:

Foi um verdadeiro escândalo o acto inquisitorial da crítica, talvez o maior do anno passado. Não houve quem não quisesse ler a obra mais calumniada de quantas se têm escripto nesse paiz. O Bom-Crioulo vendeu-se à guisa de cartilha da infância com grande surpresa para o autor, que acreditava no poderio da crítica educadora (Caminha, 1896, p. 41, grifos do autor).

Mesmo sob pesados ataques, Bom-Crioulo consolidou a reputação de Adolfo Caminha na literatura brasileira. A obra tornou-se um marco histórico por escancarar temas tabus dentro do modelo investigativo e experimental do Naturalismo.

3. O DETERMINISMO SOCIAL NAS PERSONAGENS ALEIXO E AMARO

A delimitação espacial em Bom-Crioulo expõe a primeira camada dos condicionamentos a que as personagens estão submetidas. A ambientação no Rio de Janeiro do final do século XIX estabelece o cenário urbano onde as normas sociais vigentes e a busca por refúgio se tencionam. Isso se evidencia no plano formulado por Amaro para seduzir e acolher Aleixo, prometendo “levá-lo ao teatro, ao Corcovado, à Tijuca, ao Passeio Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da Rua da Misericórdia, num comodozinho de quinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo só uma, larga, espaçosa” (Caminha, 2013, p. 24).

Ao projetar essa vida comum na cidade, o protagonista tenta construir um espaço de afeto e estabilidade para suprir a profunda carência gerada pelo isolamento. No entanto, sob a ótica naturalista do romance, essa aproximação afetiva não emerge como fruto de um livre-arbítrio autônomo, mas como decorrência direta do meio institucional sufocante em que viviam. A rotina ostensiva no ambiente militarizado e a clausura em alto mar funcionam como vetores determinantes no comportamento dos marinheiros. A respeito das coerções impostas por espaços de reclusão estrita, Castelo Branco (1985) pontua:

O homem, biologicamente fadado a “esvaziar suas vesículas seminais” seria levado a recorrer, em ambientes de carência de presenças femininas, à prática de tais fenômenos “contra a natureza”: “Vamos encontrar ocorrência de relações homossexuais em masturbadores, impotentes ou corruptores, ou, esporadicamente, em homens e mulheres sensuais submetidos a situações de aprisionamento, em navios, em tropas militares, em prisões, em internatos, etc.” (Castelo Branco, 1985, p. 52).

A análise do ambiente revela que a atração e o vínculo estabelecidos entre Amaro e Aleixo foram profundamente moldados pela estrutura institucional da Marinha. A segregação espacial prolongada e a privação de convívio social amplo atuaram como condicionantes biológicos e psicológicos, anulando a autonomia de escolha das personagens. Assim, a aproximação inicial entre os dois marinheiros responde diretamente à pressão do meio sufocante a que estavam submetidos, posicionando a gênese da relação não na livre escolha, mas no fado determinista imposto pelas instituições.

Essa constatação dialoga com os apontamentos de Taine (1895, p.9), ao dizer que: “There is then a system in human sentiments and ideas; and this system has for its motive power certain general traits, certain marks of the intellect and the heart common to men of one race, age, or country”4. Logo, a atração e o vínculo entre os marinheiros exemplificam perfeitamente esse sistema, pois sob as condições extremas, isoladas e sufocantes da Marinha (o meio e o momento), o comportamento dos dois é a consequência inevitável das forças ambientais impostas sobre eles, confirmando que a relação nasce do determinismo institucional, e não do livre-arbítrio.

A teia relacional do romance articula-se sob o viés estritamente determinista entre três figuras marcadas por forte carga estigmática e social: Amaro, Aleixo e Dona Carolina. O protagonista, Amaro, traz em sua gênese a marca do trauma colonial: ex-escravizado que, ao escapar do cativeiro, busca a realização pessoal ao ingressar na Marinha do Brasil, uma instituição que idealizava desde a juventude. Na frota naval, destaca-se por sua compleição física avantajada e pela eficiência funcional, sendo descrito como um marinheiro exemplar: “Não havia osso naquele corpo de gigante” (Caminha, 2013, p. 28). Essa conduta pacífica e trabalhadora, alterada apenas sob o efeito do álcool, confere-lhe a alcunha paternalista e condescendente de Bom-Crioulo, síntese da rotulação social e racial que lhe é imposta pelo meio.

A dinâmica da narrativa sofre uma guinada com a chegada de Aleixo, momento em que o determinismo biológico se manifesta de forma crua. A atração que arrebata Amaro não é apresentada pelo narrador como uma construção afetiva fruto da livre escolha, mas como um impulso fisiológico incontrolável, uma força da natureza que anula a razão e submete a vontade do indivíduo:

Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas a espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho (Caminha, 2013, p.18-19).

Sob a ótica naturalista, a paixão avassaladora é retratada como um impulso sanguíneo e instintivo ao qual a personagem não consegue opor resistência. Ao questionar-se sobre a natureza desse sentimento: “como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?” (Caminha, 2013, p. 22), Amaro personifica o drama da personagem que se descobre subjugada pela causalidade biológica e pela força dos instintos, componentes centrais na anulação do livre-arbítrio.

Aleixo, por sua vez, carrega traços que o colocam no polo oposto da hierarquia física e social. Jovem de aproximadamente quinze anos, de pele clara, olhos azuis e traços afeminados, ele é caracterizado “com o seu cabelo alourado, com as suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador” (Caminha, 2013, p. 21). A vulnerabilidade inerente à sua fase de transição para a vida adulta, somada à ingenuidade do ambiente de proveniência, converte-o em um organismo altamente moldável pelas forças do meio em que é inserido.

A consolidação desse arranjo ocorre no espaço urbano carioca com a introdução da terceira personagem, Dona Carolina, uma imigrante portuguesa e ex-prostituta, uma figura que também carrega as marcas do estigma social e da marginalidade. Após Amaro salvá-la de um assalto, estabelece-se entre eles um vínculo de confiança. Ao retornarem de uma missão ao sul, Amaro e Aleixo alugam um quarto no sobrado mantido por ela na Rua da Misericórdia. Nesse espaço, desenha-se uma relação de marcada assimetria e submissão:

Aleixo só fazia responder timidamente: — Sim senhor — com um arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos. [...]. O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razão de todo esse esmero (Caminha, 2013, p.19 e 23).

A passividade e a subordinação de Aleixo à autoridade de Amaro reforçam a tese do condicionamento social e psicológico. Mais velho, experiente e marcado por vivências brutais, o marinheiro exerce um domínio quase hipnótico sobre o jovem grumete, direcionando sua conduta sem que haja espaço para objeções. Assim, as interações entre o trio reafirmam o predomínio das forças externas, a saber: a idade, a raça, a hierarquia física e a bagagem de vida, sobre a capacidade de autodeterminação dos indivíduos, estreitando progressivamente o caminho que os conduzirá ao desfecho inevitável.

O distanciamento físico imposto pelas obrigações institucionais atua como o estopim para a desintegração do relacionamento e para o redirecionamento dos impulsos das personagens. Transferido para uma nova embarcação submetida ao rigor de um superior que concede apenas uma folga mensal, Amaro vê-se privado da convivência com o parceiro. Nesse hiato, Aleixo, sob a influência direta do novo ambiente doméstico na pensão, cede à aproximação com Dona Carolina.

A alteração no comportamento do grumete ilustra de forma exemplar o determinismo do meio sobre o indivíduo: a ausência da figura dominadora de Amaro e a constante convivência com a dona do sobrado condicionam uma mudança em sua perspectiva afetiva e sexual. Inserido nessa nova atmosfera urbana, o jovem desenvolve repulsa em relação à tutela do antigo protetor, externando o desejo de rompimento definitivo: “— Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais” (Caminha, 2013, p. 55). As aspirações do jovem não nascem, portanto, de uma reflexão autônoma, mas adaptam-se passivamente às contingências do espaço em que se encontra.

De forma simétrica, o retorno de Amaro ao espaço terrestre deflagra a ruína da personagem sob o efeito das paixões e do álcool. Ao deparar-se com o abandono no sobrado, o marinheiro busca refúgio na embriaguez deliberada: “Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente” (Caminha, 2013, p. 63). Essa alteração de estado revela a oscilação do protagonista em função do ambiente e dos estímulos externos: sóbrio e disciplinado quando contido pelas regras estritas da embarcação, revela-se violento e instável no espaço livre da cidade sob o efeito de substâncias alcoólicas. Involuntariamente tragado por uma discussão violenta com um transeunte: “— E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata!” (Caminha, 2013, p. 64). Amaro é preso, brutalmente castigado e hospitalizado.

A notícia da traição e o conhecimento de que Aleixo vivia com Dona Carolina desencadeiam o desfecho trágico. Tomado pelo desespero, pela dor da rejeição e pela bagagem de violência física e institucional que marcou sua trajetória, o ex-escravizado foge do hospital para ir ao encontro do grumete. Na Rua da Misericórdia, a discussão entre ambos culmina no assassinato de Aleixo por um golpe de navalha, ato que constitui o ápice do desfecho trágico e fatalista próprio da narrativa naturalista. Sobre a composição psicológica e a força trágica do protagonista sob o prisma da estética oitocentista, Bosi (2006) observa que a obra “resiste ainda hoje a uma leitura crítica que descarte os vezos da escola e saiba apreciar a construção de um tipo, o mulato Amaro, coerente na sua personalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, à perversão e ao crime (Bosi, 2006, p. 217).

O desenlace fatal do romance não pode ser creditado a decisões pessoais pautadas no livre-arbítrio ou na autonomia moral das personagens. Pelo contrário, a ruína de ambos constitui o resultado inevitável dos múltiplos condicionamentos a que estavam acorrentados: a rigidez castrense da Marinha, as hierarquias raciais, o estigma da homossexualidade e os impulsos instintivos exacerbados pela bebida e pelo isolamento. Ao orquestrar a queda do protagonista frente a forças que superam a sua capacidade de escolha, Adolfo Caminha explora os pressupostos do determinismo naturalista, evidenciando como as coerções sociais e institucionais esmagam a subjetividade e condenam o indivíduo ao seu inevitável fado.

A conduta das personagens encontra respaldo na vertente taineana do determinismo, em que raça, meio e momento histórico convergem para anular a autonomia do indivíduo. Ao investigar a representação do corpo masculino em Bom Crioulo, Oliva (2002) explicita como esses condicionantes pesam sobre a trajetória de Amaro:

A teoria de Hipolite Taine explica, de certa forma, o comportamento do ex-escravo Amaro, um homem negro, forte, discriminado e punido, constantemente, pelas menores infrações cometidas em seu trabalho braçal na corveta; o narrador refere-se a ele como um animal irracional, idiota, formado apenas por uma incrível massa muscular, que atrai olhares e desperta sensações eróticas. Inserido em um espaço ocupado quase todo por brancos, esse negro sofre as maiores humilhações e realiza os trabalhos mais pesados. A sua recompensa é a chegada do adolescente Aleixo, de 15 anos, branco, louro, olhos azuis, que o seduz à primeira vista e por quem se apaixona fatalmente. Na corveta, os marinheiros sabiam das relações contra a natureza, que eram frequente entre eles, incluindo a figura do comandante do navio, de quem diziam “coisas” (Oliva, 2002, p.2).

Submetido à margem do corpo social, estigmatizado pela cor e destituído de prestígio, Amaro é relegado pelo meio às funções brutas e à degradação moral. O olhar do narrador reflete os preconceitos e as teorias raciais vigentes no final do século XIX, rebaixando a figura do negro à condição animalesca e subserviente, como se observa na caracterização da personagem:

Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência (Caminha, 2013, p. 10).

Entretanto, instaura-se na narrativa um paradoxo de cariz naturalista: embora retratado sob o estigma da inferioridade intelectual e da subserviência, Amaro é a única figura dotada de força física descomunal e vigor indispensável ao funcionamento da engrenagem castrense. A exaltação de seu porte corporal, ao que se vê: “Não havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma idéia de força física sobre-humana, dominando a maruja [...]” (Caminha, 2013, p. 17), expõe como o meio o reduz a uma ferramenta de trabalho braçal.

É nesse cenário de opressão e isolamento que o envolvimento com Aleixo ganha contornos de necessidade biológica e afetiva. Amaro vale-se de sua bagagem e maturidade para atrair e condicionar a subjetividade do grumete, envaidecendo-o com pequenos presentes e gestos de proteção

Gabando-se de conhecer “o mundo”, Bom-Crioulo cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de Janeiro — “para que ele visse quanto era bonito”. O pequeno mirou-se e... sorriu, baixando o olhar. — Que bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! — Mas não abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitando a língua fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto (Caminha, 2013, p. 23).

Ao assumir a tutela do jovem, Amaro combina uma postura de dominação erótica com o zelo paternal, instruindo-o sobre as atitudes e comportamentos adequados à vida militar. Promete-lhe abrigo e amparo contra a hostilidade do ambiente: “— Quando alguém o provocar, lhe fizer qualquer coisa, estou aqui, eu, para o defender, ouviu?” (Caminha, 2013, p. 30).

O comportamento de Aleixo reflete a passividade de um organismo moldado pelas oscilações do meio em que se encontra. Sem convicções consolidadas ou autonomia moral, o jovem submete-se inicialmente à proteção de Amaro pela conveniência da segurança na embarcação. Mais tarde, capitula aos encantos de Dona Carolina quando inserido no novo ambiente doméstico da pensão. Essa volatilidade comportamental reflete a análise de Ribeiro (1967, p. 65), para quem a dinâmica entre os marinheiros expressa a força do confinamento: enquanto Amaro corporifica um desvio do instinto acentuado pelo isolamento, Aleixo personifica uma “capitulação em curto prazo que as circunstâncias criam”.

Desse modo, a trajetória das personagens em Bom Crioulo atende demonstra que suas ações não resultam de escolhas fundamentadas no livre-arbítrio, mas constituem o desfecho inescapável dos condicionamentos raciais, sociais e institucionais. Amaro, encurralado pelo preconceito, pelas falhas afetivas e pela brutalidade do meio, e Aleixo, vulnerável e passivo às oscilações do espaço, têm sua autonomia anulada. Ao expor os mecanismos implacáveis dessas forças sobre o indivíduo, Adolfo Caminha consolida uma das obras mais radicais do Naturalismo brasileiro, cuja recepção crítica turbulenta do século XIX atesta o impacto da literatura ao escancarar as contradições e os estigmas da sociedade de sua época.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O romance Bom-Crioulo, publicado por Adolfo Caminha no final do século XIX, permanece como uma das obras mais instigantes e audaciosas do Naturalismo brasileiro. Ao situar uma relação homoerótica e inter-racial no seio de uma instituição central do Estado, a saber, a Marinha, o autor desafiou as convenções morais de sua época e ofereceu um laboratório privilegiado para a reflexão sobre o impacto dos condicionamentos sociais na conduta humana. Diante dessa moldura histórica e estética, este estudo buscou examinar as manifestações do determinismo social na narrativa, analisando de que modo a Marinha, a dinâmica dos espaços urbanos e os estigmas raciais e sociais atuam como vetores de anulação da autonomia das personagens Amaro e Aleixo.

Os resultados alcançados ao longo da análise respondem ao problema de pesquisa proposto. Logo, evidenciou-se que a trajetória trágica vivida pelos protagonistas não decorre de escolhas pessoais pautadas no livre-arbítrio ou em decisões morais autônomas. Ao contrário, o declínio e o desfecho fatal de Amaro e Aleixo constituem o resultado inevitável dos múltiplos condicionamentos a que estavam submetidos. A rigidez do ambiente militarizado, a clausura em alto mar, a segregação racial, o estigma da homossexualidade e a vulnerabilidade do jovem grumete diante das vicissitudes do meio urbano operaram como forças esmagadoras. A ruína das personagens demonstra, assim, a eficácia do modelo naturalista taineano, no qual raça, meio e momento histórico conspiram para suprimir a autodeterminação do indivíduo.

A importância deste estudo reside em resgatar a densidade crítica de Bom-Crioulo, superando as leituras meramente moralistas que marcaram sua recepção inicial. Ao demonstrar que a obra vai além do choque estético e se consolida como uma denúncia contundente das opressões estruturais da sociedade oitocentista, a pesquisa reitera o valor do texto literário como documento e reflexão sócio-histórica.

Por fim, este trabalho não esgota as possibilidades analíticas suscitadas pelo romance. Como novas perspectivas temáticas de pesquisa, sugere-se a investigação comparativa de Bom-Crioulo com outras narrativas naturalistas latino-americanas que abordem a marginalidade urbana, bem como estudos focados nas representações da subjetividade negra e na construção da masculinidade no contexto militar do pós-Abolição. Tais desdobramentos permitirão ampliar ainda mais a compreensão sobre as redes de poder e subalternidade que atravessam a literatura brasileira.

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1 Graduado em Letras Inglês/Português e respectivas literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras PPGLetras UEMA, área de concentração Teoria Literária. Doutorando em Letras pelo programa de Pós-graduação em Letras PPGL UFPA, área de concentração Estudos Literários. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Graduado em Letras Inglês/Português e respectivas literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras PGLB UFMA, área de concentração Estudos de Linguagem. Doutor em Letras pelo programa de Pós-graduação em Letras FURG, área de concentração Estudos de Linguagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Graduado em Letras Inglês/Português e respectivas literaturas pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada PPG-LA UNITAU, área de concentração Ensino e Aprendizagem de Línguas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

4 Há, portanto, um sistema nos sentimentos e nas ideias humanas; e esse sistema tem como força motriz certos traços gerais, certas marcas do intelecto e do coração comuns aos homens de uma mesma raça, época ou país (Tradução Nossa).