REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778436048
RESUMO
Este artigo analisa as relações entre literatura e história a partir do romance Becos da Memória (2017), de Conceição Evaristo, com o objetivo de compreender como a literatura afro-brasileira pode atuar como espaço de reconstrução histórica. O estudo adota abordagem bibliográfica e analítica para discutir categorias como temática, autoria, linguagem e ponto de vista. A análise demonstra que a escrevivência evaristiana recupera memórias silenciadas pela historiografia oficial e evidencia experiências negras marcadas pela diáspora, marginalização e ancestralidade. Além disso, a obra ressignifica a favela como espaço de memória e enunciação, rompendo com representações estereotipadas. Conclui-se que a literatura afro-brasileira produz novas leituras do passado e reafirma narrativas historicamente marginalizadas.
Palavras-chave: literatura afro-brasileira; história; escrevivência; memória; ancestralidade.
ABSTRACT
This article analyzes the relationship between literature and history using the novel Becos da Memória (2017) by Conceição Evaristo, aiming to understand how Afro-Brazilian literature can act as a space for historical reconstruction. The study adopts a bibliographical and analytical approach to discuss categories such as theme, authorship, language, and point of view. The analysis demonstrates that Evaristo's writing recovers memories silenced by official historiography and highlights Black experiences marked by diaspora, marginalization, and ancestry. Furthermore, the work re-signifies the favela as a space of memory and enunciation, breaking with stereotypical representations. It concludes that Afro-Brazilian literature produces new readings of the past and reaffirms historically marginalized narratives.
Keywords: Afro-Brazilian literature; history; writing from experience; memory; ancestry.
1. INTRODUÇÃO
O texto que segue compreende como seu principal objetivo o empreendimento de discussões teóricas que partam de uma compreensão da expansão do conhecimento histórico-literário que, por sua vez, é financiado pela atuação da história sob a literatura e/ou inversamente. Para tanto, nossos olhares estarão direcionados aos entrelaços da história como instituição de registros ‘oficiais’ e a literatura como fonte de construções [e reajustes] históricas, sobretudo no âmbito dos textos de natureza literária afro-brasileiros. Portanto, utilizaremos os preceitos teóricos-metodológicos da literatura afro-brasileira como alicerce de análise ao corpus o qual nos debruçamos neste trabalho, uma vez que as questões postas em pauta, são exploradas, impreterivelmente, a partir das constantes discursivas que a autora apresenta no referido romance.
Na obra Becos da Memória (2017): abrigo das escrevivências subalternas, as discussões desenvolvidas reverberam as categorias a seguir: a “linguagem utilizada para aproximar vida real a ficção; as estratégias narrativas utilizadas pela narradora-autora; o espaço em que o romance é ambientado e a importância dele para compreensão identitária das personagens; o enredo; [...]”, dentre outras. Neste sentido, o romance evaristiano é problematizado de modo a suscitar novas perspectivas de análise, já que o tomamos como instrumento para ilustrarmos o referencial em torno da literatura, da afrobrasilidade e dos ecos de história que daí entoam, convencidos de que “Becos da Memória, de Conceição Evaristo, ostenta, com a maestria de seu discurso literário, possibilidades de leitura do passado e de recomposição de ruínas históricas dispersadas pela História e pela Literatura dominante” (Rosito, 2008, p. 05, grifo no original).
Por ser assim, incluem-se nestas discussões: a categorização da escrevivência e as manifestações do banzo no romance em estudo, como produção genuinamente afro-brasileira; a construção de temas socialmente complexos; as estratégias narrativas utilizadas pela autora-narradora como um mecanismo de subversão e recriação histórica; as retomadas de ruínas por vias literária esquecidas pela história deste país, bem como as provocações tencionadas pela autora e direcionadas aos documentos históricos (não)oficiais e abertamente coloniais – quer seja com o enredo, personagens, descolamentos ou criações de conceitos.
Ainda que inegável seja a relação coexistente entre a história e a literatura, em se tratando da literatura afro-brasileira – que, pela nomeação recebida, pode-se perceber com clareza que esta usufrui de ambas as fontes – ainda se constitui como um espaço não-concluso e, portanto, na atual conjuntura dos estudos teóricos-literários, em estado de construção, especialmente no que tange à sua conceitualização. Desse modo, vê-se que estudiosos dessa categoria literária reivindicam um conceito onde caiba ou represente bem suas pretensões; considerações éticas; militâncias, dentre outros; busca esta que é evidenciada no título dado ao ensaio de Eduardo de Assis Duarte – um dos mais representativos pesquisadores desse campo de conhecimento – Por um conceito de literatura afro-brasileira (2011) e que nesta pesquisa, será uma chave de leitura para articulação desses dois campos disciplinares, frente à temática proposta.
2. LITERATURA E HISTÓRIA EM BECOS DA MEMÓRIA (2017)
Em Literatura Negro-Brasileira, Cuti (2010) defende a utilização da nomenclatura “literatura negra-brasileira” por acreditar que a expressão negra é mais combativa aos interesses imperiais que, utilizando das palavras de Conceição Evaristo “combinaram de nos matar” (Evaristo, 2017, p.32). Em sua defesa, o autor pontua que em “afro-brasileira” não há a especificidade necessária, já que nem todas as literaturas africanas são combativas ao racismo, logo, associar esta literatura ao prefixo afro é negligenciar a diversidade do continente. Portanto, para Cuti (2010, p. 44), esta é “[a literatura feita] na e da população negra que se forma fora da África, de suas experiências no Brasil” (Cuti, 2010, p. 44, grifo no original). Na contramão desse discurso, outros teóricos apresentarão o conceito literatura afro-brasileiro, colocando-o como um espaço em que as autoras e/ou os autores “preocupam-se em escrever sobre a experiência desse entre-lugar em que os sujeitos se encontram, a situação de diáspora, resgatando a simbologia e uma linguagem ligadas ao passado: o continente africano”.
Na ótica de Assis Duarte (2011), este é um conceito em constante processo de construção, mas que, efetivamente, fora consolidado ainda no século XIX, por intermédio de manifestações como a de Domingos Caldas Barbosa e influências de produções regionalistas, tendo como situação mais representativa a publicação do romance abolicionista Ursula (1985), de Maria Firmina dos Reis. Além disso, como rastro substanciais de sua consolidação na ambiência contemporânea, os críticos literários consideram ainda o romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (2006) e a coletânea Cadernos Negros, iniciativa do Quilombhoje principiada em 1978.
Para Iann (1988), em seu ensaio publicado sob o título de Literatura e Consciência, uma obra literária só pode ser considerada afro-brasileira, com base em sua compreensão sobre tal, se houver uma abordagem na qual o sujeito afrodescendente é compreendido como um universo humano e toda suas extensões – social, cultural e política. Diante da colocação do autor, pode-se pensar Becos da Memória (2017) como uma narrativa grosseiramente afro-brasileira, já que como diz Assis Duarte (2017) no prefácio do romance aqui analisado, esta é uma narrativa em que Conceição Evaristo ”traduz, a partir de seus muitos personagens, a complexidade humana e os sentimentos profundos dos que enfrentam, cotidianamente o desamparo, o preconceito, a fome e a miséria; dos que a cada dia tem a vida por um fio” (DUARTE, 2017, s/d), atribuindo-lhes os devidos valores apontados por Iann (1988), acima descritos.
Ao estudar a literatura afro-brasileira, Duarte (2011) aponta elementos imprescindíveis para compreensão de obras de iguais naturezas, são estes: o tema, a autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público – elementos pelos quais analisaremos o romance evaristiano. Não diferente de Iann (2011), ao afirmar que uma obra afro-brasileira para ser compreendida como tal, deverá, impreterivelmente, apresentar um memorial histórico afro-brasileiro, enfocando, especificamente, os embates e as dificuldades encontradas por estes povos no passado e, ainda, na contemporaneidade. Em Becos da Memória (2017), narrativa sob a qual se passa em uma periferia às vésperas de um processo de demolição, o elemento apontado acima pelo autor é facilmente identificável, já que, ao fazê-lo, Conceição Evaristo “dialoga com o testemunho e a crônica de apartação social” (Duarte, 2017, s/d) ao retratar a vida de sujeitos vivendo à margem da sociedade e empreendendo lutas sociais severas contra um movimento insistente provindo da elite que intenciona torná-los cada vez mais marginais; pela descontinuidade da escravidão e pela subalternidade de raça, classe e gênero.
Desse modo, no que se refere ao tema, tendo como base os apontamentos teóricos de Duarte (2011, p.35), vê-se que Conceição Evaristo, estritamente em Becos da Memória (2017), elabora a partir de dois emblemas sociais – que arriscamos dizer, são exatamente estes quem embeleza a obra e a torna uma leitura urgente para compreensão das sociedades negras na atual conjuntura da sociedade – são eles: a revisitação histórica e os dramas da contemporaneidade vivenciados pelas comunidades negras no Brasil.
No que tange aos estudos de obras pertencentes ao movimento afro-brasileiro, em especial ao tema ou temática abraçada pela narrativa, Duarte (2011, p.387) assevera ainda que “a adequação de uma temática afro não deve ser considerada isoladamente e, sim, em uma interação com os demais fatores”, isto é, para se analisar as vertentes discursivas que constituem a temática da obra de C.E, faz-se necessário pôr em discussão questões tais quais: ponto de vista, voz autoral, linguagens e outros.
No âmbito da voz autoral, Duarte (2011, p.389) assinala que “a instância da autora como fundamento para existência da literatura afro-brasileira decorre da relevância dada à interação, a escrita e a experiência” (p.389). O conceito de escrevivência, passivo das mais variadas significações, no entanto, mais bem definido como “a escrita de um corpo, de uma condição e de uma experiência negra no Brasil” (Evaristo, 2007, p.20), desvela as tensões da escrita de Conceição Evaristo para com as relações afrodescendentes, não somente na obra presentemente discutida, mas como em toda sua produção literária.
As experiências das comunidades afro-brasileiras são apresentadas a partir das memórias que Maria-Nova, narradora-personagem e protagonista de Becos da Memória, recolhe pelos becos da periferia que servem de plano de fundo à narrativa. Essas memórias colocam em evidência algumas das mais contundentes experiências do corpo e da consciência negra marcadas pela escravidão e por seus resquícios na contemporaneidade. É o caso do personagem Tio Totó que, exausto pelas intensas peregrinações impostas pela má abolição, mostra-se inapto a enfrentar mais um deslocamento diante da notícia do desfavelamento. Tal condição pode ser observada no olhar de Maria-Nova sobre o personagem: “Tio Totó andava inconsolável, já velho, mudar de novo, num momento em que seu corpo pedia terra. Ele não sairia da favela. Ali seria sua última morada. Ele olhava o mundo com o olhar de despedida” (Evaristo, 2017, p. 18, grifo nosso).
A performance da narradora-personagem apresentada na obra, assim como seu ofício narrativo, pode ser igualmente utilizada para se pensar na voz autoral de uma obra na literatura afro-brasileira. Ao transitar incansavelmente pelo passado e o presente, por via do que materializa o romance de C. E – memória suas e de seus ancestrais –, esta personagem problematiza, com base no tencionamento entre a experiência e a escrita, o espaço e a representação do negro na sociedade e na literatura e, consequentemente, questionando os modelos imutáveis e fixos de suas falsas identidades construídas e engessadas pela tradição dominante e, portanto, cumprindo o que protocolam autores como Duarte (2011-2020) e Cuti (2010) sobre a literatura afro-brasileira – a reconstrução de experiências individuais e coletivas de comunidades negras com intuito combativo da segregação e injúria racial sustentada pelo discurso hegemônico da elite branca.
O ponto de vista da emissora e/ou do emissor na obra literária se constitui como um elemento de grande relevância nos estudos de Duarte (2010, p. 391), considerado, inclusive, o denominador, pois, “o ponto de vista indica a visão de mundo autoral e o universo axiológico vigente no texto, ou seja, o conjunto de valores que fundamentam as opções até mesmo vocabulares presentes na representação” (Duarte, 2010, p. 391). Entende-se, portanto, que este diz respeito ao modo como a autora e/ou autor posicionam-se durante a tessitura de suas narrativas, abstendo-se de soluções fáceis e de estereótipos que tendem a colocar tais personagens cada vez mais à margem da sociedade.
Em Becos da Memória (2017), por exemplo, apresenta-se uma narradora onipresente e consciente de si e dos outros – bem como das situações que as fizeram estar onde se encontram – uma compreensão coletiva que aumenta a cada novo barraco em que Maria-Nova se permite conhecer, a cada nova história em que esta personagem se deleita, permitindo-as amontoarem em si mesma, como nota-se em: “homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram a barracos de minha favela” (Evaristo, 2017, p. 17) e, de igual modo, uma autora que, em seu labor literário, demonstra ter predileção por “falar dos marginalizados, transformando-os em personagens (e até em narradores)” (Dalcastagnè, 2012, p. 21, grifo no original) e, ainda, por enfocar personagens que comumente seriam [e são] excluídos da representação literária nas manifestações canônicas, tal qual é mostrado em Um mapa de ausência (2012), pesquisa de Regina Dalcastagnè, que demonstra dados discrepantes em se tratando de personagens pretas e afins.
Neste romance, ainda que o discurso esteja intimamente associado aos meios de representação da mulher preta – coadunando com a premissa que origina a expressão escrevivência –, Conceição Evaristo vai muito além disso no que se refere proposição de temas socialmente complexos e da representação de personagens, retratando, de igual maneira: pobres, bêbados, ladrões, favelados, prostitutas, dentre outros, e o faz com maestria e democraticamente, intentando fazê-los romper com o estado catastrófico da elite literária que se move, estrategicamente, para anulá-los. Sobre isto, Rosito (2008, p. 220) pontua que no romance evaristiano “o esmero emprestado às feições dos menores personagens – aqueles que são observados de relance, como Cida-Cidoca, a prostituta do ‘rabo-de-ouro’, Dora, Filó Gazogênia, entre muitos outros –, não se faz menor do que o cuidado com traços daqueles que impulsionam a narrativa, como Tio Totó, Maria-Velha, Joana, Maria-Nova, todos integrantes de uma mesma família (Rosito, 2008, p. 220, grifos no original). Desse modo, compreende-se que Conceição Evaristo articula – quer seja por uma consciência própria ou não – a voz autoral, o tema e o ponto de vista ao segmentar suas narrativas, e especificamente ao escolher a periferia como plano de fundo de sua escrita e as discussões que emanam de suas personagens, o que torna inegável a intensa aproximação de suas narrativas com a história deste país.
A produção literária de Conceição Evaristo, sem prejuízo algum ao lirismo e/ou na tensão poética, se imbrica fortemente na história, questionando de modo feroz a formação dos povos negros no Brasil e os documentos históricos que erroneamente são considerados oficiais na contemporaneidade. No romance aqui problematizado, de modo específico, há uma narradora que escreve como uma promessa a si mesmo e como a realização de um desejo de seus ancestrais, como uma escrita com potencial de mudar os rumos da história.
Ainda que a publicação de Becos da Memória (2017) tenha acontecido anteriormente ao romance de Ponciá Vicêncio (2003) e que não tenha uma continuidade comprovada em ambas as narrativas, em se tratando do enredo proposto, pode-se pensar este primeiro como uma continuidade do último, pois em Ponciá, por via da trajetória da personagem homônima, é iniciada um percurso similar aos tomados pelos negros africanos pós “abolição” – saída das fazendas dos senhores dos engenhos destino à cidade grande – enquanto em Becos da Memória (2017), as personagens mostram as condições afrodiaspóricas, desvelando as consequências de uma abolição sem qualquer apoio social e político que, na impossibilidade e inoperância de se juntarem aos que residiam no centro das cidades, foram sujeitados a refugiarem para as margens, subsidiando as periferias.
2.1. A Favela Como Espaço de Enunciação e Contra-discurso
Outro elemento de notória significância para análise do ponto de vista autoral na obra de Conceição Evaristo diz respeito ao lugar de onde se narra, ou ainda, à narração/descrição do local em que se passa a narrativa, uma vez que para Sousa & Porto (2016) o processo de descrição dos lugares na literatura é operacionalizado tendo como base as “experiências e vivências e significados subjetivos intercruzados ao ambiente que estão localizados” (Souza & Porto, 2016).
Nas primeiras páginas do romance Becos da Memória (2017) a autora-narradora transparece ao público leitor seu sentimento, hoje, em relação ao espaço em que se passou a narrativa, pontuando que: “hoje, a recordação daquele mundo [a periferia] me traz lágrimas aos olhos. Como éramos pobres! [...] Como a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado! [...] havia as doces figuras tenebrosas. E havia o doce amor de Vó Rita” (Evaristo, 2017, p. 17, grifo nosso). Nesse e noutros trechos do romance é possível perceber que durante o tratamento do espaço-lugar a narradora não o faz apoiando-se em tão somente nas ruínas provindas dele e, portanto, rasgando a narrativa única criada para as periferias como aquelas que comportam todo o mal social de uma comunidade, já quem existe o bem e o mal – mesmo que não na mesma medida.
Na literatura brasileira, especificamente nas obras e nos autores que constituem o cânone – por motivos já conhecidos –, as favelas são representadas a partir de um discurso homogêneo e estereotipado, alimentado pelas narrativas engessadas em si mesma e subsidiadas por uma elite cujo ideais são, de alguma forma, estritamente imperialistas. A estratégia narrativa utilizada em Becos da Memória (2017), que diante das questões até agora levantadas apresenta-se como genuinamente afrocentrada, coloca o discurso na narradora na contramão daquele que discutimos anteriormente, pois a periferia não é descrita sob um olhar romantizado e a existência de personagens como Fuínha que violenta de diferentes maneiras sua cônjuge e filha ainda na barriga, em contraste com Bondade e Vó Rita que são tidos como representações de paz coletiva pelos demais moradores da favela, ilustra nossa afirmativa anterior. Diante disso, observa-se que o lugar de onde a narradora anuncia é de dentro da favela e, portanto, consciente das mazelas sociais e das benfeitorias que este espaço os proporciona, como vê-se a partir das dicotomias apresentadas na fala da narradora no trecho a seguir: “havia as misérias e as grandezas. Havia o amigo e o inimigo, o leal e o traiçoeiro. Havia muito de amor e de ódio. Havia muito de riqueza na miséria que transcende a própria miséria, a miséria do egoísmo, da inveja, do ódio, do desejo assassino de liquidar, de acabar com o irmão” (Evaristo, 2017, p. 77).
Sobre isto, em Identidade e Afro-brasilidade em Becos da Memória, de Conceição Evaristo, Ponce & Godoy (2016) assinalam que:
Ao propor um olhar da favela que parta de dentro, e não de fora, a autora apresenta personagens complexas que não são vistas e descritas pelas nuanças de deslumbramento ou terror advindos do exotismo, mas que se individualizam pelos seus conflitos, pela problematização do espaço em que vivem e pelas memórias que trazem consigo (Ponce & Godoy, 2016, p. 22).
É pertinente ressaltar que a primeira versão deste romance é escrita ainda em 1987 a 1988, quando as favelas produziam outras narrativas que não as que conhecemos na contemporaneidade, como bem pontua a escritora no término na seção Da construção de becos, apresentada na 3ª edição da obra: “continuo afirmando que a favela descrita em Becos da memória acabou e acabou. Hoje as favelas produzem outras narrativas, provocam outros testemunhos e inspiram outras ficções” (Evaristo, 2017b, p. 12, grifo no original). A posição da autora no trecho trazido acima impulsiona diversas discussões no que se refere à literatura e a sociologia, no entanto, para continuarmos no âmbito da representação de espaços e personagens, vê-se que neste ofício narrativo, a autora se desvincula daquela construída sob um teor monocromático, que insistem em apresentar as personagens enfocadas por Conceição Evaristo nesta obra como tão somente “vítimas do sistema ou como aberrações violenta (Dalcastagnè, 2012, p. 49). O olhar enunciador de dentro da favela permite a esta narradora compreender com a subjetividade necessária a pluralidade das identidades das personagens, fugindo do exotismo das más representações acríticas que, consoante à Dalcastagnè (2012, p. 49), demarcam: “pobres e negros nas favelas e nos presídios, homens brancos de classe média e intelectuais nos espaços públicos, mulheres dentro de casa, negras na cozinha”. Este elemento reluz a outro fator significativo para o entendimento das esferas literárias afro-brasileiras, sobretudo considerando que nenhum símbolo é inocente ou não ideológico: a linguagem.
2.2. Oralidade, Linguagem e Ancestralidade
Para Duarte (2010) a literatura, em sua mais ampla significação, é definida, acima de tudo, como uma construção discursiva marcada por funções estéticas, mas que não se encerra nela mesma. Isto é, pala além da estética da linguagem, outras funções são igualmente relevantes, pois, através delas, são expressos os valores éticos, culturais, políticos e ideológicos.
Desse modo, para este autor, é por meio da linguagem utilizada no texto literário que, intencionalmente ou não, as autoras e/ou os autores manifestam suas tendências culturais. A poetisa Conceição Evaristo, como já visto, utiliza de uma linguagem escrita que se aproxima o máximo possível da linguagem oral, tal qual a autora afirma em um debate de escritoras negras: “eu busco sempre me aproximar nos meus textos da linguagem oral”. Esta proximidade com a cultura oral buscada por Conceição Evaristo, especialmente em Becos da Memória (2017), é também um interesse da autora em fazer com que permaneça viva suas tradições ancestrais, uma vez que, consoante à Hampaté Bâ (2010, p. 167) “quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apoie nessa herança de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos” (Hampaté Bâ, 2010, p. 167).
Em Becos da Memória (2017), percebe-se esta busca intensiva de aproximação do texto escrito em relação a oralidade e, mais que isso, a importância desta última para narrativa e suas respectivas personagens evaristianas, sobretudo, pela relação de Maria-Nova com as histórias que eram perpassadas via oralidade beco a beco, barraco a barraco, Maria-Nova a demais moradores. Desde a infância, esta personagem que muito se assemelha a Conceição Evaristo, “mulher-negra-escritora” (Oliveira & Dias, 2020, p. 121), tem como um dos maiores prazeres da vida a revisitação ao passado seus e deus conterrâneos por instrumento das histórias que eram vos contadas; histórias estas que o faziam compreender, desde muito cedo, o porquê que “[...] a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado” (Evaristo, 2017, p. 17).
É também por meio dessa linguagem, como aponta Oliveira & Dias (2020) que a narradora segue construindo, gradativamente, sua identidade enquanto escritora, já que “a menina, apesar da dor, pedia mais e mais aquela [s] história [s]” (Evaristo, 2017, p. 63, grifo nosso), pois esta percebia que tais narrações impulsionavam seu desejo em tornar-se uma escritora, como vê-se em: “a contação de histórias realizada pelos mais velhos era um dos motivos que fomentava na narradora a necessidade e o desejo de um dia tornar-se escritora, contar para o mundo tudo o que ouvia, via, vivia e que ficou guardado na memória dela” (Oliveira & Dias, 2020, p. 122).
Contudo, compreende-se que a escrevivência de Conceição Evaristo é, antes de tudo, um espaço no qual são conservados os costumes e as tradições ancestrais de seus povos e, por isso, inegavelmente, se construí como produção de natureza afro. O romance Becos da Memória (2017), bem como outros escritos da autora, de todos os modos possíveis, da escolha temática à linguagem utilizada para realizar a narração, se inclui no cerne do que a crítica compreende como uma literatura afro-brasileira, aquela que nos convida a rediscutir os caminhos da história e compreendê-la através das experiências de pessoas negras, que as apresentam não como uma forma de testemunho – pois relegá-la a isto é rejeitá-las junto das grandes literaturas – mas, sim, como uma forma de reconstrução de experiências e de identidades esfacelada pelas aventuras coloniais no Brasil e África, como ver-se-á nas análises a serem apresentadas nos textos a seguir.
Assim, por meio de uma discussão situada no entre-lugar da literatura e da história, viu-se com base nos preceitos da literatura afro-brasileira [temática, ponto de vista, linguagem, voz autoral] como a construção da escrevivência de Conceição Evaristo se constitui como um espaço de afrobrasilidades, desvelando, com isso, a relação fortemente existente entre a escrevivência e a ancestralidade negra.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das discussões empreendidas ao longo deste trabalho, torna-se possível afirmar que o entrelaçamento entre literatura e história, quando mobilizado a partir de produções afro-brasileiras, não apenas amplia o campo interpretativo de ambas, como também tenciona os próprios limites epistemológicos que historicamente as constituíram. Nesse sentido, a análise de Becos da Memória (2017) evidencia que a literatura, longe de se restringir a um espaço estético autônomo, atua como instância produtora de conhecimento, capaz de revisitar, questionar e reconfigurar narrativas históricas consolidadas, sobretudo aquelas que, por muito tempo, silenciaram experiências negras no Brasil.
O objetivo central deste estudo, ao propor uma leitura situada nas encruzilhadas entre literatura e história, é alcançado na medida em que se demonstra que a escrevivência de Conceição Evaristo opera como um gesto de reinscrição histórica. Tal gesto não se limita a preencher lacunas deixadas pelos registros oficiais, mas, de modo mais incisivo, desestabiliza os próprios critérios de legitimação do que se entende por história. Ao trazer à cena sujeitos, memórias e experiências marginalizadas, a narrativa evaristiana desloca o eixo da historiografia tradicional e instaura outras possibilidades de leitura do passado, ancoradas na vivência, na oralidade e na ancestralidade.
Observa-se que os elementos estruturantes da literatura afro-brasileira, tais como tema, ponto de vista, autoria e linguagem, não atuam de forma isolada, mas em constante articulação, compondo um projeto estético e político que visa à reconstrução de identidades historicamente fragmentadas. Em Becos da Memória (2017), essa articulação se manifesta na escolha do espaço periférico como locus narrativo, na construção de personagens complexas e na adoção de uma linguagem que dialoga com a oralidade, preservando, assim, traços fundamentais das tradições afrodescendentes. Tais escolhas não são neutras, mas revelam um posicionamento crítico diante das formas hegemônicas de representação.
A escrevivência, enquanto conceito e prática, consolida-se, portanto, como um dispositivo epistemológico que tenciona as fronteiras entre ficção e realidade, memória e história, individual e coletivo. Ao escrever a partir de si e de sua comunidade, a autora inscreve no texto literário experiências que foram sistematicamente apagadas ou distorcidas pelos discursos oficiais. Nesse processo, a literatura deixa de ser compreendida como mero reflexo da realidade e passa a ser entendida como espaço de produção de verdades outras, fundamentadas em vivências concretas e em saberes ancestrais.
Além disso, evidencia-se que a relação entre literatura e história, no contexto analisado, não se dá de forma hierárquica, mas dialógica. A literatura não apenas se alimenta da história, como também a reconfigura, propondo novas formas de compreensão dos processos sociais e culturais. Essa dinâmica se torna ainda mais significativa quando se considera o caráter não concluso da literatura afro-brasileira enquanto campo teórico, marcado por disputas conceituais e pela busca por categorias que deem conta de sua especificidade. Nesse cenário, trabalhos como o presente contribuem para o avanço dessas discussões, ao evidenciar a potência analítica de obras que partem de perspectivas afrocentradas.
No que diz respeito às contribuições deste estudo, destaca-se a reafirmação da literatura afro-brasileira como um espaço legítimo de produção de conhecimento, capaz de dialogar criticamente com outras áreas, como a história e a sociologia. Ao mesmo tempo, aponta-se para a necessidade de ampliação de pesquisas que considerem essas interseções, sobretudo em contextos educacionais, onde ainda predominam abordagens eurocentradas e excludentes. A inserção de obras como Becos da Memória no ensino de literatura, por exemplo, pode favorecer a construção de uma leitura mais plural e crítica da formação social brasileira.
Por fim, reconhece-se que este trabalho apresenta limitações, especialmente no que se refere à amplitude do corpus analisado e à complexidade das categorias mobilizadas. A literatura afro-brasileira, em sua diversidade, demanda investigações contínuas que contemplem diferentes autoras, autores e contextos históricos. Sugere-se, portanto, que pesquisas futuras ampliem o diálogo aqui proposto, incorporando outras obras e perspectivas teóricas, de modo a aprofundar a compreensão das múltiplas encruzilhadas que constituem esse campo.
Dessa forma, conclui-se que a articulação entre literatura e história, mediada pela escrevivência, ao revisitar o passado também projeta novas formas de existência e de produção de sentido no presente. Ao inscrever no texto literário as vozes e memórias de sujeitos historicamente marginalizados, a obra de Conceição Evaristo reafirma a potência da palavra como instrumento de resistência, de reconstrução e de reexistência.
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1 Doutor em Letras: Linguagens e Representações (Uesc). Docente da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), campus São Luís. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Mestra em Cultura e Sociedade (Ufma). Docente do Instituto Federal do Maranhão (Ifma) campus São José de Ribamar. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail