EMPREENDEDORISMO NA FORMAÇÃO MÉDICA: EXPERIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DE UMA STARTUP DE TRATAMENTO DE FERIDAS

ENTREPRENEURSHIP IN MEDICAL TRAINING: EXPERIENCE IN BUILDING A WOUND CARE STARTUP

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780507161

RESUMO
O empreendedorismo em saúde tem se consolidado como importante ferramenta para o desenvolvimento de competências relacionadas à inovação, liderança e gestão durante a formação acadêmica dos profissionais da saúde. O presente estudo objetiva relatar a experiência de acadêmicos de Medicina na criação da startup “Cicatriza”, desenvolvida durante a participação em um projeto de empreendedorismo promovido no contexto universitário. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, construído a partir das vivências dos participantes ao longo das etapas de elaboração do modelo de negócio, identificação do problema, validação da proposta e desenvolvimento da startup voltada ao tratamento especializado de feridas. A experiência foi estruturada em marcos progressivos que envolveram ferramentas de modelagem de negócios, definição de público-alvo, construção da proposta de valor e apresentação de pitch. Observou-se que a atividade favoreceu o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao pensamento crítico, criatividade, comunicação, trabalho em equipe e visão estratégica, além de aproximar os estudantes das demandas reais do mercado e das necessidades sociais em saúde. Conclui-se que experiências empreendedoras no ambiente acadêmico representam estratégias relevantes para fortalecer a formação profissional, estimular a inovação e ampliar a autonomia dos futuros profissionais de saúde.
Palavras-chave: Empreendedorismo em saúde; Educação médica; Inovação em saúde.

ABSTRACT
Entrepreneurship in healthcare has become an important tool for developing skills related to innovation, leadership, and management during the academic training of healthcare professionals. This study objectively reports the experience of medical students in creating the startup "Cicatriza," developed during their participation in an entrepreneurship project promoted within the university context. It is a descriptive study, of the experience report type, constructed from the participants' experiences throughout the stages of business model development, problem identification, proposal validation, and development of the startup focused on specialized wound treatment. The experience was structured in progressive milestones involving business modeling tools, target audience definition, value proposition construction, and pitch presentation. It is noteworthy that this activity fosters the development of skills related to critical thinking, creativity, communication, teamwork, and strategic vision, in addition to bringing students closer to real market demands and social needs in healthcare. It is concluded that entrepreneurial experiences in the academic environment represent relevant strategies to strengthen professional training, stimulate innovation, and expand the autonomy of future health professionals.
Keywords: Entrepreneurship in health; Medical education; Innovation in health.

1. INTRODUÇÃO

O empreendedorismo tem adquirido crescente relevância no contexto brasileiro contemporâneo, especialmente no setor da saúde, impulsionado pelas transformações econômicas, tecnológicas e sociais observadas nas últimas décadas. A pandemia da Covid-19 intensificou esse movimento ao acelerar a incorporação de tecnologias digitais, ampliar serviços inovadores e estimular o desenvolvimento de startups voltadas para soluções em saúde. Nesse cenário, a economia da saúde passou a representar um campo promissor para novos empreendimentos, destacando-se pela capacidade de integrar inovação, prevenção, tecnologia e assistência centrada no paciente. Além disso, observa-se no Brasil um crescimento contínuo de negócios relacionados à saúde, evidenciando o potencial criativo e as oportunidades existentes para profissionais interessados em empreender nesse setor (Aveni; Morais, 2021).

Paralelamente, o mercado de trabalho médico também vem sofrendo mudanças significativas, exigindo dos profissionais competências que ultrapassam o domínio técnico-científico tradicional. A prática médica contemporânea demanda habilidades relacionadas à liderança, gestão, inovação e tomada de decisões estratégicas, especialmente diante da expansão do setor suplementar e da crescente competitividade profissional. Nesse contexto, médicos passaram a buscar alternativas empreendedoras, como clínicas, consultórios e startups voltadas à saúde, evidenciando a necessidade de desenvolvimento de competências comportamentais empreendedoras. Entretanto, embora muitos profissionais reconheçam a importância dessas habilidades, ainda persiste uma limitada formação formal em empreendedorismo durante a graduação médica, o que dificulta o planejamento e a sustentabilidade dos negócios em saúde (Brunelli, 2022).

Além disso, diversos estudos apontam que o ensino médico brasileiro historicamente prioriza aspectos assistenciais e técnico-científicos em detrimento de conteúdos relacionados à gestão e ao empreendedorismo. Embora as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de Medicina enfatizem competências ligadas à gestão em saúde, liderança, comunicação e tomada de decisões, ainda existem lacunas importantes na implementação prática desses conteúdos nas instituições de ensino superior. As mudanças sociais, tecnológicas e econômicas contemporâneas têm exigido uma reconfiguração dos currículos médicos, reforçando a necessidade de metodologias ativas e formação mais alinhada às demandas atuais do mercado e da sociedade (Nobre et al., 2023).

Nesse sentido, iniciativas voltadas ao empreendedorismo e à gestão em saúde dentro das escolas médicas tornam-se ferramentas relevantes para complementar a formação acadêmica tradicional. Experiências extracurriculares, como empresas juniores, ligas, projetos de inovação e programas de empreendedorismo, têm sido descritas como estratégias capazes de desenvolver habilidades práticas, liderança, trabalho em equipe e pensamento crítico. Além disso, essas iniciativas contribuem para despertar o interesse dos estudantes pela área de gestão em saúde, historicamente pouco explorada nos currículos formais. A inserção de atividades práticas relacionadas ao empreendedorismo possibilita que os acadêmicos desenvolvam competências fundamentais para atuação profissional mais ampla, crítica e inovadora (Terrim; Melo; Jácomo, 2015).

Adicionalmente, estudos recentes demonstram que estudantes de Medicina reconhecem a relevância do empreendedorismo para sua futura prática profissional, especialmente no que se refere à autonomia financeira, abertura de consultórios e desenvolvimento de novos modelos de negócio em saúde. Contudo, muitos discentes relatam deficiência na formação relacionada à educação financeira, gestão e empreendedorismo, apontando que o ensino superior tradicional ainda não os prepara adequadamente para os desafios do mercado de trabalho contemporâneo. Apesar disso, observa-se elevado interesse dos acadêmicos em aperfeiçoar essas competências, evidenciando uma demanda reprimida dentro das escolas médicas por conteúdos voltados à inovação e gestão (Terra et al., 2024).

Diante desse contexto, torna-se relevante discutir experiências acadêmicas que promovam a integração entre formação médica, inovação e empreendedorismo, contribuindo para o desenvolvimento de competências alinhadas às necessidades contemporâneas do setor saúde. Assim, o presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de criação da startup “Cicatriza”, desenvolvida por acadêmicos de Medicina durante a participação em um projeto de empreendedorismo promovido no ambiente universitário, descrevendo as etapas de construção do negócio, os desafios enfrentados e as contribuições da experiência para a formação profissional dos participantes.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, elaborado a partir da vivência de acadêmicos do curso de Medicina durante a participação em um programa de empreendedorismo voltado à criação e desenvolvimento de startups em saúde.

2.1. Construção da Startup “Cicatriza”

A experiência de construção da startup “Cicatriza – Clínica de Tratamento de Feridas” ocorreu durante a participação em um curso de empreendedorismo vinculado ao Programa Ignite, da Wadhwani Foundation, no qual os participantes foram conduzidos por etapas progressivas de desenvolvimento de um modelo de negócio inovador na área da saúde. O processo foi estruturado em quatro marcos sequenciais, contemplando desde a identificação do problema até a elaboração do pitch final da empresa.

Inicialmente, a equipe foi constituída por três discentes do curso de Medicina com formações complementares e experiências prévias relacionadas à assistência em saúde, gestão e educação em saúde. A composição multidisciplinar mostrou-se estratégica para a construção da startup, uma vez que possibilitou integrar conhecimentos técnicos, científicos e operacionais voltados ao tratamento de feridas crônicas. Cada integrante assumiu funções específicas dentro da empresa, incluindo direção técnico-científica, gestão operacional e desenvolvimento de estratégias educacionais e de treinamento.

2.2. Identificação do Problema e Construção Inicial da Proposta

No primeiro marco do curso, a principal atividade consistiu na identificação de um problema relevante dentro do contexto regional de saúde. A partir das vivências acadêmicas e profissionais dos integrantes, observou-se a inexistência de clínicas especializadas em cicatrização de feridas no município de Bragança, Pará, especialmente voltadas para pacientes com feridas crônicas, pé diabético, lesões pós-operatórias e indivíduos imunossuprimidos. Tal lacuna fazia com que os pacientes dependessem exclusivamente de serviços públicos frequentemente limitados em recursos tecnológicos ou necessitassem deslocar-se para a capital em busca de atendimento especializado.

Nesse contexto, a equipe desenvolveu o “Canvas do Problema”, ferramenta utilizada para mapear os principais elementos relacionados à dor do cliente, contexto social e alternativas já existentes. A elaboração desse instrumento possibilitou compreender não apenas os impactos clínicos da ausência de assistência especializada, mas também as repercussões emocionais e econômicas enfrentadas pelos pacientes e seus familiares, incluindo ansiedade, insegurança, prolongamento do tempo de recuperação e aumento dos custos com deslocamento e tratamento.

Além disso, foi realizada a definição do perfil do cliente (persona), contemplando tanto o paciente quanto os profissionais de saúde que poderiam atuar como potenciais encaminhadores para os serviços da clínica. Essa etapa foi fundamental para direcionar a construção da proposta de valor da empresa e compreender as necessidades específicas do público-alvo.

2.3. Processo de Validação do Problema

Posteriormente, ainda no primeiro marco, foi conduzida a validação do problema identificado. Para isso, elaborou-se um questionário eletrônico por meio da plataforma Google Forms, direcionado a profissionais da saúde atuantes no município e região. A escolha desse público ocorreu em razão da dificuldade de acesso direto aos pacientes e pela compreensão de que os profissionais representam importantes agentes de indicação e encaminhamento para serviços especializados.

O instrumento continha perguntas objetivas e subjetivas relacionadas à frequência de pacientes com feridas de difícil cicatrização na prática clínica, percepção sobre insuficiência de serviços especializados, necessidade de tecnologias avançadas e interesse em encaminhamento para uma clínica especializada. Participaram da pesquisa 30 profissionais de diferentes áreas da saúde.

Os resultados obtidos demonstraram elevada concordância quanto à necessidade de um serviço especializado em cicatrização de feridas no município. A maioria dos participantes relatou acreditar que pacientes seriam beneficiados por tratamentos tecnológicos e especializados, além de considerarem relevante a existência de um centro de referência local para esse tipo de cuidado. Os relatos subjetivos também evidenciaram preocupações relacionadas à demora no tratamento, risco de amputações e limitações da assistência disponível na rede pública.

2.4. Desenvolvimento da Solução e Proposta de Valor

No segundo marco do curso, a equipe concentrou-se na construção da solução proposta pela startup. A clínica “Cicatriza” foi idealizada como um centro especializado em tratamento avançado de feridas, fundamentado em atendimento multidisciplinar, tecnologias inovadoras e cuidado integral ao paciente.

Entre os principais serviços propostos estavam consultas especializadas, tratamentos com laser e ultrassom terapêutico, utilização de curativos tecnológicos personalizados, atendimento domiciliar para pacientes acamados e ações educativas voltadas à prevenção de complicações e promoção da cicatrização saudável.

Adicionalmente, a equipe desenvolveu o “Canvas de Proposta de Valor”, ferramenta utilizada para relacionar os ganhos esperados pelos clientes e os principais problemas que poderiam ser solucionados pela startup. Nesse processo, destacou-se que a proposta da empresa não se restringia ao tratamento da ferida, mas abrangia também a melhoria da qualidade de vida, prevenção de amputações, redução do sofrimento emocional e ampliação do acesso a cuidados especializados na própria região do paciente.

2.5. Consolidação do Modelo de Negócio

Nos marcos subsequentes, a equipe aprofundou a estruturação do modelo de negócio da startup, incluindo definição de estratégias operacionais, diferenciais competitivos, posicionamento de mercado e estrutura de funcionamento da clínica. O desenvolvimento progressivo dessas etapas possibilitou aos participantes compreenderem aspectos fundamentais do empreendedorismo em saúde, tais como análise de mercado, segmentação de clientes, validação de soluções e construção de modelos sustentáveis de negócio.

Durante o processo, também foram desenvolvidas habilidades relacionadas à comunicação estratégica, liderança, trabalho em equipe e tomada de decisão baseada em necessidades reais da população. A elaboração dos pitch decks exigiu constante refinamento das ideias, adaptação da linguagem para diferentes públicos e capacidade de síntese na apresentação da proposta empresarial.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A inserção do empreendedorismo e da inovação no ensino superior tem sido cada vez mais discutida como estratégia fundamental para a formação de profissionais mais críticos, criativos e preparados para as transformações contemporâneas do mercado de trabalho. No contexto da saúde, essa discussão torna-se ainda mais relevante diante das rápidas mudanças tecnológicas, organizacionais e assistenciais que exigem dos futuros profissionais competências que ultrapassem o domínio técnico-científico tradicional. Nesse cenário, as instituições de ensino superior passaram a reconhecer a necessidade de incorporar práticas pedagógicas inovadoras, metodologias ativas e experiências voltadas à resolução de problemas reais, aproximando o ambiente acadêmico das demandas sociais e mercadológicas contemporâneas (Dias et al., 2023).

Além disso, a curricularização do empreendedorismo tem sido apontada como ferramenta importante para estimular o protagonismo estudantil, a liderança, o pensamento estratégico e a capacidade de inovação entre os acadêmicos da área da saúde. Estudos evidenciam que o ensino tradicional ainda apresenta limitações na preparação dos estudantes para atuação autônoma, gestão de serviços e desenvolvimento de novos negócios em saúde. Dessa forma, torna-se necessário que as instituições promovam uma cultura empreendedora integrada aos componentes curriculares, associando conteúdos teóricos e práticos capazes de desenvolver habilidades relacionadas à criatividade, tomada de decisão, gestão e inovação (Annechini, 2022).

Nessa perspectiva, iniciativas que integram ensino, pesquisa e extensão ao empreendedorismo vêm sendo descritas como estratégias capazes de fortalecer ecossistemas acadêmicos de inovação. A criação de programas de pré-incubação, incubação e aceleração de projetos dentro das universidades favorece o desenvolvimento de soluções aplicáveis às necessidades da sociedade, além de estimular o amadurecimento acadêmico e profissional dos estudantes. Tais experiências permitem que os discentes participem ativamente da construção de projetos, desenvolvendo competências relacionadas à colaboração, inovação e transformação social, aproximando a formação universitária das demandas reais do território e do mercado de trabalho (Silva, 2023).

Ademais, experiências educacionais voltadas à educação empreendedora demonstram que metodologias estruturadas, como mentorias, construção de modelos de negócio, elaboração de pitches e desenvolvimento de startups fictícias ou reais, favorecem o protagonismo discente e fortalecem o processo ensino-aprendizagem. A utilização de estratégias pedagógicas voltadas à inovação possibilita não apenas a aquisição de conhecimentos técnicos, mas também o desenvolvimento de autonomia, pensamento crítico e capacidade de transformar ideias em soluções concretas. Dessa forma, observa-se que a integração entre empreendedorismo, inovação e formação em saúde representa uma importante ferramenta para qualificação profissional e fortalecimento da educação superior contemporânea (Jabes; Menegidio, 2024).

Diversos relatos de experiência evidenciam que a educação empreendedora aplicada aos cursos da saúde tem potencial para transformar a formação acadêmica em experiências concretas de inovação, gestão e criação de soluções voltadas às necessidades sociais. Um exemplo foi o projeto “Science Tank”, desenvolvido em um curso de Biomedicina, no qual estudantes foram estimulados a criar empresas e produtos inovadores na área da saúde por meio de metodologias ativas, aprendizagem baseada em experiências e apresentação de pitches. A atividade resultou no desenvolvimento de 15 projetos, envolvendo soluções em análises clínicas, microbiologia, reprodução humana e biomedicina estética, demonstrando crescimento progressivo da complexidade das ideias e fortalecimento da interação entre os graduandos (Rabi; Ratti, 2023). Esse tipo de abordagem aproxima-se da proposta do presente estudo ao evidenciar o protagonismo estudantil e a importância da inserção prática do empreendedorismo na formação em saúde.

De maneira semelhante, experiências voltadas à criação de ecossistemas de inovação universitária também demonstraram impactos positivos na formação profissional e no desenvolvimento tecnológico. O relato do Polo de Desenvolvimento e Inovação em Cannabis (PODICAN), vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, descreveu a criação de startups voltadas à indústria canábica por meio de programas de mentoria, pesquisa aplicada e integração universidade-empresa. As startups participantes conquistaram destaque em programas institucionais de inovação, demonstrando o potencial da articulação entre pesquisa científica, empreendedorismo e desenvolvimento de soluções para demandas emergentes do mercado e da sociedade (Basso et al., 2025). Além dos resultados positivos, os autores destacaram desafios relacionados à regulamentação do setor, necessidade de qualificação técnica e construção de um ambiente favorável à inovação, aspectos que também dialogam com as dificuldades frequentemente observadas na implementação de práticas empreendedoras nas instituições de ensino superior.

Outra experiência relevante foi observada no desenvolvimento da startup MedRoom, responsável pela criação de um laboratório de anatomia em realidade virtual utilizado em instituições de ensino médico. O projeto surgiu da necessidade de modernizar metodologias de ensino e aproximar os estudantes de experiências mais imersivas e interativas. A metodologia adotada envolveu gamificação, usabilidade simples e integração entre anatomia, fisiologia e raciocínio clínico, permitindo a aplicação prática em diferentes cenários educacionais. Entre os principais resultados observados estiveram a ampliação da interação dos estudantes, maior engajamento durante as atividades e utilização da tecnologia em mais de 40 instituições de ensino superior. Entretanto, os autores relataram dificuldades relacionadas ao processo de implementação tecnológica e resistência inicial de parte do corpo docente frente às novas metodologias de ensino (Gusmão et al., 2024). Esses achados reforçam a importância da capacitação institucional e da mudança cultural para consolidação de propostas inovadoras no ensino em saúde.

No âmbito da Enfermagem, relatos de experiência também demonstraram que o empreendedorismo tem se consolidado como ferramenta de autonomia profissional, inovação no cuidado e ampliação da visibilidade da profissão. Experiências relacionadas à implantação de consultórios especializados em estomaterapia e tratamento avançado de feridas evidenciaram que, embora os profissionais possuam domínio técnico-científico na assistência, muitos enfrentam dificuldades relacionadas à gestão, marketing, mídias sociais e administração empresarial, sendo necessário buscar mentorias e capacitações complementares para sustentação do negócio (Silva; Torres, 2022). Esses relatos dialogam diretamente com o presente estudo ao demonstrar que o empreendedorismo em saúde não se limita à abertura de negócios, mas envolve inovação, protagonismo profissional, desenvolvimento de competências gerenciais e transformação das práticas de cuidado em saúde.

Por fim, apesar das contribuições da presente experiência relatada, este estudo apresenta algumas limitações. Por tratar-se de um relato de experiência, os resultados refletem a vivência específica de um grupo de acadêmicos inseridos em um contexto institucional particular, o que limita a possibilidade de generalização para outras realidades acadêmicas. Além disso, não foram utilizados instrumentos quantitativos para avaliação do impacto da experiência no desenvolvimento de competências empreendedoras dos participantes, restringindo-se à análise descritiva e reflexiva da vivência. Ademais, por se tratar de um projeto desenvolvido em ambiente acadêmico, algumas etapas relacionadas à implementação prática e sustentabilidade financeira da startup ainda não puderam ser plenamente avaliadas, evidenciando a necessidade de novos estudos que acompanhem longitudinalmente iniciativas de empreendedorismo em saúde no contexto universitário.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A participação no curso proporcionou uma experiência prática e transformadora acerca do empreendedorismo aplicado à saúde. O desenvolvimento da startup permitiu compreender que a inovação em saúde não se limita à criação de tecnologias, mas envolve também a identificação de necessidades assistenciais negligenciadas e a construção de soluções acessíveis, sustentáveis e centradas no paciente.

Além disso, a experiência fortaleceu competências relacionadas ao pensamento crítico, planejamento estratégico e visão empreendedora, habilidades frequentemente pouco exploradas na formação tradicional em saúde. A construção da “Cicatriza” demonstrou a relevância da integração entre conhecimento técnico-científico e gestão inovadora para o desenvolvimento de serviços capazes de impactar positivamente a realidade local.

Por fim, o curso evidenciou o potencial do empreendedorismo como ferramenta de transformação social, especialmente em regiões com limitações estruturais na assistência especializada. A experiência contribuiu significativamente para ampliar a compreensão dos participantes sobre inovação em saúde, desenvolvimento de negócios e criação de soluções voltadas às demandas reais da população.

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1 Biomédico Especialista em Biomedicina Estética e Saúde da Mulher e da Criança. Mestre em Saúde e Tecnologia. Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5430-0728.

2 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3469-4760.

3 Enfermeira Especialista em Ginecologia e Obtetrícia, Cardiologia e Hemodinâmica, Gestão Hospitalar. Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2407-2048.

4 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-2458-7487.

5 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-4496-8650.

6 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-2086-0286.

7 Cirurgiã Dentista. Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1434-2883.

8 Médico Especialista em Medicina de Família e Comunidade. Mestre em Saúde da Família. Docente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5924-7994.

9 Médico Pós-graduado em Medicina de Família e Comunidade. Docente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Bragança, Bragança, Pará, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.