EMPREENDEDORISMO EM SAÚDE MENTAL: O PAPEL DO ENFERMEIRO NA CRIAÇÃO DE SERVIÇOS TERAPÊUTICOS E DE APOIO PSICOSSOCIAL

ENTREPRENEURSHIP IN MENTAL HEALTH: THE ROLE OF THE NURSE IN THE CREATION OF THERAPEUTIC AND PSYCHOSOCIAL SUPPORT SERVICES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780472858

RESUMO
O presente estudo analisa o empreendedorismo na enfermagem em saúde mental como uma resposta estratégica às transformações advindas da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB). O objetivo foi descrever o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental e identificar o empreendedorismo como ferramenta de autonomia profissional. Metodologicamente, trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com busca nas bases LILACS, BDENF, SciELO e PubMed, abrangendo publicações entre 2019 e 2026. Os resultados evidenciam que a atuação empreendedora se manifesta nas vertentes social, de negócios e no intraempreendedorismo, encontrando respaldo legal na Resolução COFEN nº 678/2021. As discussões apontam que, embora o enfermeiro atue como um agente terapêutico dinâmico, a formação acadêmica predominantemente hospitalocêntrica e barreiras culturais sobre a monetização do cuidado ainda limitam o potencial criativo da categoria. Conclui-se que o enfermeiro de saúde mental é um empreendedor natural, mas a consolidação dessa autonomia requer reformas curriculares que integrem competências de gestão, inovação e domínio científico como fonte de autoridade no mercado.
Palavras-chave: Saúde Mental; Enfermagem; Empreendedorismo; Inovação em Saúde.

ABSTRACT
This study analyzes entrepreneurship in mental health nursing as a strategic response to the transformations brought about by the Brazilian Psychiatric Reform (RPB). The objective was to describe the nurse's role in promoting mental health and to identify entrepreneurship as a tool for professional autonomy. Methodologically, it is an integrative literature review, searching the LILACS, BDENF, SciELO, and PubMed databases, covering publications between 2019 and 2026. The results show that entrepreneurial activity manifests in social, business, and intrapreneurship aspects, supported legally by COFEN Resolution No. 678/2021. The discussions indicate that, although nurses act as dynamic therapeutic agents, predominantly hospital-centric academic training and cultural barriers regarding the monetization of care still limit the category's creative potential. It is concluded that the mental health nurse is a natural entrepreneur, but the consolidation of this autonomy requires curricular reforms that integrate management skills, innovation, and scientific expertise as a source of market authority.
Keywords: Mental Health; Nursing; Entrepreneurship; Health Innovation.

1. INTRODUÇÃO

A Enfermagem em Saúde Mental atravessa um momento histórico de ruptura e renascimento. No cenário brasileiro, a Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) destacou-se como um processo social, histórico e complexo, com profundas repercussões na prática, na formação de enfermeiros e na construção de sua identidade profissional (SILVA et al., 2020). O enfermeiro deixou de ocupar uma posição meramente executora — associada à custódia e à administração de medicamentos — para se tornar um agente terapêutico dinâmico e estratégico (SOUSA et al., 2019). Essa transição paradigmática representa uma nova práxis na área, onde a criação de uma atmosfera de confiança é essencial para o cuidado (PERES et al., 2022; OLIVEIRA et al., 2020).

Nesse contexto, o empreendedorismo surge como uma resposta estratégica à mudança do modelo assistencial hospitalocêntrico para uma rede de atenção psicossocial aberta e territorial. O enfermeiro atua agora como um agente de mudanças, capaz de elaborar e implementar serviços que visam à reintegração social e à cidadania dos sujeitos em sofrimento psíquico (SOUSA et al., 2019). A criação de serviços terapêuticos, como clínicas especializadas e consultorias online, aparece como um nicho crescente para oferecer um cuidado personalizado e humanizado (SILVA et al., 2020).

No entanto, essa jornada rumo à autonomia enfrenta barreiras estruturais. A formação acadêmica predominantemente hospitalocêntrica e voltada para a doença muitas vezes silencia o potencial criativo da categoria. Soma-se a isso a persistente romantização da profissão — a ideia de que a enfermagem deve ser exercida exclusivamente "por amor" —, o que historicamente desvaloriza a independência financeira e a visão de negócio do enfermeiro, servindo até como justificativa para baixos salários e ausência de autonomia (SILVA et al., 2020).

Apesar desses entraves, a atuação autônoma encontra suporte na Resolução COFEN nº 678/2021, que assegura a competência legal e a segurança necessária para a gestão de serviços de apoio psicossocial (COFEN, 2021). Para consolidar esse espaço de protagonismo, o domínio do conteúdo científico torna-se a principal fonte de autoridade e visibilidade no mercado, permitindo que o profissional demonstre a resolutividade de sua prática (AMARAL et al., 2025). Assim, o papel do enfermeiro exige o desenvolvimento de competências como liderança, criatividade e visão holística (COPELLI, 2019).

Diante desse cenário, a presente pesquisa estruturou-se a partir da seguinte pergunta norteadora: "Como o empreendedorismo na enfermagem contribui para a inovação e criação de serviços de apoio psicossocial e serviços terapêuticos?".

Dessa forma, o objetivo deste estudo é analisar o papel do enfermeiro no empreendedorismo em saúde mental, com foco na criação de serviços terapêuticos e de apoio psicossocial, à luz das transformações decorrentes da Reforma Psiquiátrica Brasileira, do respaldo normativo vigente e do desenvolvimento de competências gerenciais e clínicas para a prática autônoma e humanizada.

2. OBJETIVO

Descrever o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental e identificar o empreendedorismo como ferramenta de autonomia profissional

2.1. Objetivos Espécificos

  • Descrever as repercussões da Reforma Psiquiátrica Brasileira na transição da Enfermagem Psiquiátrica para a Enfermagem em Saúde Mental e no surgimento de novas oportunidades empreendedoras;

  • Identificar os principais serviços terapêuticos e de apoio psicossocial que podem ser criados e geridos por enfermeiros no contexto da rede de atenção psicossocial;

  • Analisar o suporte legal oferecido pela Resolução COFEN nº 678/2021 para a atuação empreendedora do enfermeiro em saúde mental;

  • Discutir as competências necessárias (liderança, criatividade, visão holística) para o enfermeiro atuar como gestor e empreendedor em saúde mental;

  • Evidenciar os impactos do empreendedorismo do enfermeiro na qualidade da assistência, na promoção da cidadania dos usuários e no fortalecimento da identidade profissional.

3. JUSTIFICATIVA

A necessidade de redefinir a atuação do enfermeiro no cenário da gestão hospitalar fundamenta-se nas crescentes complexidades do setor saúde e nas exigências de um mercado globalizado e tecnológico. Historicamente, o papel deste profissional tem transitado da figura de "chefe de setor" para a de "gestor de unidade estratégica de negócio", o que demanda uma compreensão global da instituição e capacidade de gerenciar custos sem abdicar da qualidade assistencial. No entanto, observa-se uma lacuna entre a formação acadêmica e a prática gerencial, uma vez que o ensino de graduação muitas vezes prioriza o tecnicismo em detrimento de competências estratégicas e do pensamento reflexivo necessário para a tomada de decisões complexas.

O desenvolvimento de um perfil de excelência, pautado em blocos de competências que envolvem valores, compreensão, comportamentos e ações, é essencial para que o enfermeiro exerça uma liderança efetiva e humanizada. A literatura aponta que a dificuldade mais latente reside no gerenciamento de conflitos e no equilíbrio entre os interesses dos liderados e da instituição. Assim, instrumentalizar o enfermeiro com ferramentas contemporâneas de gestão, como o Balanced Scorecard, permite que ele atue na sustentabilidade econômica da organização enquanto garante a segurança do paciente.

Nesse contexto, o empreendedorismo surge como um motor de transformação, proporcionando autonomia, satisfação profissional e a ruptura com modelos de trabalho subalternos e tradicionais. O enfermeiro empreendedor, seja atuando em negócios próprios ou dentro de instituições (intraempreendedorismo), utiliza sua visão holística para identificar lacunas no mercado e propor soluções inovadoras que impactam positivamente o desenvolvimento socioeconômico do país. O respaldo legal recente, através de resoluções que regulamentam consultórios e clínicas de enfermagem, incentiva essa expansão e garante maior visibilidade social à categoria.

Além disso, a evolução para modelos de atenção psicossocial e comunitária, impulsionada pela Reforma Psiquiátrica, exige que o enfermeiro atue como um agente terapêutico dinâmico em equipes multiprofissionais. A transição do modelo hospitalocêntrico para serviços territoriais, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), reforça a importância de competências relacionais, como o acolhimento e o vínculo, para a promoção da autonomia do usuário.

Portanto, este estudo justifica-se pela urgência em mapear e consolidar as competências de excelência na gestão hospitalar, unindo o saber técnico ao espírito empreendedor. Identificar esse perfil permite não apenas o crescimento individual do enfermeiro e a conquista de sua independência financeira, mas também assegura a sustentabilidade das instituições de saúde e a entrega de um cuidado de excelência à sociedade

4. METODOLOGIA

Esta pesquisa constitui-se como uma revisão integrativa da literatura, método que permite a busca, a avaliação crítica e a síntese das evidências disponíveis sobre o papel empreendedor do enfermeiro no campo da saúde mental. O percurso metodológico foi estruturado em seis etapas distintas: elaboração da pergunta norteadora; busca ou amostragem na literatura; coleta de dados; análise crítica dos estudos incluídos; discussão dos resultados e apresentação da revisão. A condução do estudo pautou-se na seguinte questão central: "Como o empreendedorismo na enfermagem contribui para a inovação e criação de serviços de apoio psicossocial e serviços terapêuticos?".

Para o levantamento bibliográfico, foram consultadas as bases de dados eletrônicas LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Base de Dados de Enfermagem), SciELO (Scientific Electronic Library Online) e PubMed/Medline. A estratégia de busca utilizou descritores controlados do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), incluindo: "enfermagem", "empreendedorismo", "saúde mental" e "serviços de saúde mental"

Os critérios de inclusão definidos foram: artigos científicos originais e revisões disponíveis na íntegra, de acesso livre e gratuito, publicações nos idiomas português e inglês e recorte temporal compreendido entre os anos de 2019 e 2026, visando identificar produções contemporâneas alinhadas à evolução da Reforma Psiquiátrica. Como critérios de exclusão, foram descartados editoriais, resumos de anais, relatórios de gestão, teses, dissertações e artigos que não abordassem diretamente a temática do empreendedorismo ou a atuação autônoma do enfermeiro na saúde mental.

A seleção dos artigos foi realizada inicialmente pela leitura dos títulos e resumos para avaliar a aderência ao objeto de estudo, seguida da leitura exaustiva dos textos na íntegra para a extração definitiva de dados através de um instrumento de coleta validado. A análise e interpretação dos achados ocorreram de forma qualitativa, organizando as evidências identificadas em categorias temáticas como autonomia profissional, inovação em serviços terapêuticos e o papel do enfermeiro como agente terapêutico

5. RESULTADOS

Tabela 1: Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre empreendedorismo na enfermagem em saúde mental.

Autor (Ano)

Título / Foco Principal

Principais Achados e Contribuições para o Empreendedorismo

Copelli et al. (2019)

Empreendedorismo na Enfermagem: revisão integrativa

Define as três vertentes: social (foco em problemas sociais/RISCO), negócios (clínicas/consultórios) e intraempreendedorismo (inovação dentro de instituições).

Silva et al. (2020)

Configuração identitária do enfermeiro na RAPS

Identifica o ensino hospitalocêntrico como barreira; aponta a necessidade de romper com a visão de que a enfermagem é apenas "por amor" para alcançar autonomia

Sousa et al. (2019)

Oficinas Terapêuticas e instrumentos de cuidado em CAPS

Apresenta o enfermeiro como agente de mudanças capaz de implementar serviços territoriais e inovadores para reintegração social.

Rodrigues et al. (2024)

O papel fundamental do enfermeiro na promoção da saúde mental

Ressalta que uma formação sólida fortalece as práticas autônomas e a qualidade da assistência na rede de apoio psicossocial

Amaral et al. (2025)

Competências para o empreendedorismo de negócios

Destaca o domínio do conteúdo científico como a principal autoridade do enfermeiro no mercado, além de competências em gestão e marketing.

Jacob (2024)

Gestão de políticas públicas e o enfermeiro como agente de mudanças

Enfatiza o papel de protagonismo na gestão e na prática autônoma para combater iniquidades e promover saúde integral

Pinheiro et al. (2024)

Empreendedorismo como oportunidade de autonomia e visibilidade

Discute como a prática empreendedora amplia a visibilidade social da categoria e garante independência financeira.

Os dados sintetizados na Tabela 1 revelam que o empreendedorismo na enfermagem em saúde mental é um fenômeno em expansão no Brasil, caracterizado pela transição do enfermeiro de um papel meramente executor para o de um agente terapêutico estratégico e inovador

. A análise dos estudos demonstra que essa prática se manifesta em três vertentes principais: o empreendedorismo social, que se destaca por solucionar problemas de populações em risco social em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica; o empreendedorismo de negócios, focado na autonomia de consultórios e clínicas particulares; e o intraempreendedorismo, que promove a inovação e novos projetos dentro de instituições de saúde já estabelecidas, como os CAPS. A sustentação para esse movimento encontra-se no robusto respaldo normativo da Resolução COFEN nº 678/2021, que assegura a competência legal e a segurança para a atuação do enfermeiro na gestão de serviços de apoio psicossocial.

Contudo, os resultados também apontam que o pleno desenvolvimento dessas práticas exige um conjunto de competências de excelência, onde o domínio do conteúdo científico aparece como a principal fonte de autoridade e visibilidade no mercado, aliado a habilidades de liderança e criatividade. Por fim, as evidências indicam que o fortalecimento dessa identidade profissional ainda enfrenta barreiras estruturais, principalmente relacionadas a uma formação acadêmica predominantemente hospitalocêntrica e a visões culturais limitantes que desvalorizam a autonomia financeira da categoria.

6. DISCUSSÕES

Os achados desta revisão integrativa indicam que o empreendedorismo na enfermagem em saúde mental configura‑se como um fenômeno em expansão no Brasil, transcendendo a mera alternativa de geração de renda para se consolidar como vetor de valorização profissional e reestruturação do cuidado (SILVA et al., 2020). A análise dos artigos selecionados permitiu a construção de uma discussão organizada em quatro eixos interligados: ressignificação do papel do enfermeiro, tipologias do empreendedorismo, competências necessárias e barreiras estruturais – com ênfase na formação acadêmica.

6.1. A Transição do Papel do Enfermeiro: De Executor a Agente Terapêutico e Empreendedor Social

Os resultados indicam que a atuação do enfermeiro na saúde mental vem sendo profundamente ressignificada no bojo da reforma psiquiátrica brasileira. Relatos de experiências acadêmicas, como as coordenadas pela Faculdade de Enfermagem da Unicamp, evidenciam que o profissional deixa de ocupar uma posição meramente executora – historicamente associada à administração de medicamentos e contenção – para atuar como agente terapêutico estratégico na redefinição das práticas de cuidado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e residências terapêuticas (JORNAL DA UNICAMP, 2025).

Essa transição não é apenas clínica, mas também política e econômica. Ao desenvolver ações focadas na promoção da saúde e na reabilitação psicossocial, o enfermeiro supera o modelo assistencial tradicional centrado na doença e passa a ocupar espaços antes restritos a outras categorias profissionais. Nesse sentido, o empreendedorismo emerge como consequência natural dessa nova identidade profissional: o enfermeiro que se vê como agente de transformação social tende a criar serviços e dispositivos terapêuticos onde antes não existiam (COPELLI et al., 2019; BORNSTEIN, 2011).

6.2. Tipologias do Empreendedorismo na Saúde Mental: Do Social Ao Intraempreendedorismo

A literatura categoriza o empreendedorismo na enfermagem em três vertentes que encontram eco direto na saúde mental. A análise permitiu identificar que essas tipologias não são excludentes, mas frequentemente se sobrepõem na prática dos enfermeiros.

6.2.1. Empreendedorismo Social

O empreendedorismo social foi a tipologia com maior destaque no âmbito da enfermagem em saúde mental. Conforme COPELLI et al. (2019), empreendedores sociais se diferenciam de empreendedores propriamente ditos, porque não vendem nem possuem bens para vender, mas solucionam problemas sociais, não sendo direcionados por mercados, mas movidos por segmentos populacionais em situações de risco social.

Essa sintonia com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Reforma Psiquiátrica explica sua proeminência: o enfermeiro desenvolve, ao longo da sua formação, um cuidado naturalmente voltado para o bem‑estar coletivo, facilitando processos e criando estratégias de promoção de saúde com o melhor custo‑benefício (BORNSTEIN, 2011).

6.2.2. Empreendedorismo de Negócios (Empresarial)

Paralelamente, identifica‑se o empreendedorismo de negócios, referente à abertura de consultórios e clínicas particulares. Estudos de caso relatam enfermeiros que, de forma autônoma, oferecem consultas especializadas em saúde mental, orientações familiares e visitas domiciliares para melhorar a adesão ao tratamento (COFEN, 2020). Embora menos frequente que o social, essa modalidade vem ganhando espaço, especialmente em contextos nos quais a demanda por cuidados em saúde mental supera a oferta pública.

6.2.3. Intraempreendedorismo

O intraempreendedorismo aplica os princípios empreendedores dentro de organizações de saúde já existentes – hospitais, clínicas ou outras instituições – atuando para criar ou implementar projetos e soluções inovadoras que possam melhorar a qualidade do cuidado prestado no ambiente institucional, sem necessidade de abrir o próprio negócio (COPELLI, 2019). Na saúde mental, isso pode significar a implantação de um grupo terapêutico inédito em um CAPS ou a reestruturação do acolhimento em uma enfermaria psiquiátrica. Essa tipologia é particularmente relevante porque demonstra que o empreendedorismo não exige, necessariamente, o desligamento do serviço público.

6.3. Competências de Excelência e Mentalidade Empreendedora: O Saber Como Autoridade

Um estudo qualitativo com enfermeiros que empreendem há mais de 42 meses identificou que o sucesso no negócio depende tanto de competências técnicas quanto comportamentais. As técnicas envolvem domínio do conteúdo científico, conhecimentos ético‑legais, gestão, marketing e contabilidade. Já as comportamentais destacam a comunicação assertiva, liderança, criatividade, persistência e obstinação (AMARAL et al., 2025).

Na saúde mental, contudo, um achado se destaca: a principal competência relatada é o domínio do conteúdo científico. Conforme AMARAL et al. (2025), o domínio do conteúdo científico permite que o enfermeiro explique seu saber de forma simples ao público, consolidando sua autoridade no mercado.

Isso ocorre porque o cuidado em saúde mental lida com saberes muitas vezes desvalorizados ou estigmatizados. O enfermeiro que domina profundamente a psicopatologia, as terapias não farmacológicas e a gestão de casos consegue construir vínculo e legitimidade – competências que, paradoxalmente, são pouco trabalhadas na formação tradicional (SILVA et al., 2020; AMARAL et al., 2025).

6.4. Barreiras e Desafios: O Vazio na Formação Como Principal Entrave

Apesar do potencial identificado, os resultados apontam barreiras estruturais significativas. Relatos de enfermeiros egressos e docentes indicam que a graduação em enfermagem ainda possui um caráter predominantemente hospitalocêntrico, o que bloqueia o potencial criativo e direciona o profissional quase que exclusivamente para o emprego formal ou concursos públicos (AMARAL et al., 2025). Essa lacuna é corroborada pelo depoimento de um profissional:

“Essa é uma visão que eu vim construindo ao longo do tempo, não foi uma visão aprendida na faculdade. Infelizmente a gente ainda tem uma formação na faculdade hospitalocêntrica e voltada para a doença” (SILVA et al., 2020).

A literatura aponta que a falta de incentivo à inovação faz com que muitos alunos apresentem uma “atitude interna desmotivadora” de crescimento, por não terem contato com temas de gestão, empreendedorismo e legislação durante a formação. Como resultado, as principais barreiras relatadas por enfermeiros que tentam o trabalho liberal são: o despreparo acerca de conhecimentos de noções de contabilidade, o medo da rejeição por outros profissionais e a persistente barreira cultural de que a enfermagem deve ser exercida exclusivamente “por amor e não para ganhar dinheiro” (SILVA et al., 2020).

Essa última barreira é particularmente nociva na saúde mental, onde o cuidado já é historicamente desvalorizado e subfinanciado. A romantização do “amor à profissão” tem servido, muitas vezes, como justificativa para jornadas exaustivas, baixos salários e ausência de autonomia – exatamente os problemas que o empreendedorismo em saúde mental se propõe a enfrentar (SILVA et al., 2020).

6.5. Síntese Integrativa: Por Que o Enfermeiro é Um Empreendedor Natural na Saúde Mental?

Articulando os quatro eixos discutidos, é possível afirmar que o enfermeiro de saúde mental reúne condições singulares para o empreendedorismo: (a) atua em um campo historicamente carente de serviços e dispositivos; (b) desenvolve, na prática cotidiana, competências de escuta, vínculo e gestão do cuidado; (c) opera dentro de uma lógica de território e reabilitação psicossocial que exige soluções criativas e contextualizadas. No entanto, essas potencialidades são sistematicamente fragilizadas por uma formação acadêmica que ainda ignora a educação empreendedora. Portanto, os achados sugerem que não se trata de “criar” o empreendedorismo na enfermagem, mas de remover as barreiras que o impedem de florescer – começando pela reformulação dos currículos de graduação (ELO construído a partir dos achados de SILVA et al., 2020; COPELLI et al., 2019; AMARAL et al., 2025).

7. CONCLUSÃO

O presente estudo permite concluir que o empreendedorismo na enfermagem em saúde mental transcende a simples busca por novas fontes de renda, consolidando-se como uma estratégia fundamental para a valorização profissional e a reestruturação do cuidado no cenário pós-Reforma Psiquiátrica. A transição do modelo hospitalocêntrico para uma rede de atenção psicossocial aberta conferiu ao enfermeiro o papel de agente terapêutico dinâmico, capaz de inovar por meio da criação de serviços que promovem a cidadania e a reintegração social dos usuários.

Evidenciou-se que a atuação empreendedora encontra um solo fértil em três vertentes principais: o social, voltado para populações em risco; o de negócios, por meio de clínicas e consultórios autônomos; e o intraempreendedorismo, que oxigena as instituições já existentes com soluções inovadoras. Para que esse potencial se concretize, o suporte normativo oferecido pela Resolução COFEN nº 678/2021 é um marco essencial, pois assegura a competência legal e a segurança necessária para a gestão de serviços de apoio psicossocial.

Contudo, o estudo aponta que o pleno exercício da autonomia profissional ainda enfrenta barreiras significativas. A formação acadêmica predominantemente hospitalocêntrica e voltada para a doença, aliada a visões culturais que romantizam a profissão em detrimento da independência financeira, atua como um entrave ao desenvolvimento de uma mentalidade empreendedora. Destaca-se que o domínio do conteúdo científico é a principal fonte de autoridade e legitimidade do enfermeiro no mercado, permitindo a construção de vínculos terapêuticos sólidos e a sustentabilidade de novos modelos de negócio.

Por fim, conclui-se que o enfermeiro de saúde mental é um empreendedor natural, dado que atua em um campo que exige criatividade, escuta qualificada e gestão complexa do cuidado. É imperativo, portanto, que haja uma reformulação nos currículos de graduação, integrando temas de gestão e inovação, para que as potencialidades identificadas possam florescer, garantindo não apenas a autonomia do profissional, mas a entrega de uma assistência integral, humanizada e de excelência à sociedade

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