ELABORAÇÃO DE CURRÍCULOS E EMPREGABILIDADE NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA ANÁLISE DA PERCEPÇÃO DE ESTUDANTES COM E SEM EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL FORMAL

RESUME WRITING AND EMPLOYABILITY IN YOUTH AND ADULT EDUCATION: AN ANALYSIS OF THE PERCEPTIONS OF STUDENTS WITH AND WITHOUT FORMAL PROFESSIONAL EXPERIENCE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791777947

RESUMO
Este artigo analisa a percepção de 56 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) sobre a elaboração de currículos e sua relevância para a empregabilidade, comparando participantes sem experiência de trabalho formal sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho e aqueles que a possuem. A pesquisa examinou o conhecimento conceitual sobre o documento, a percepção de sua utilidade, as dificuldades de elaboração, a valorização do trabalho informal e o acesso prévio a orientações pedagógicas. Os resultados indicam que os dois grupos reconhecem a importância do currículo para a apresentação profissional e demonstram elevado interesse em aprender a elaborá-lo. Também se verificou a valorização das experiências informais como informações relevantes para a construção do perfil profissional. Apesar disso, foram identificadas fragilidades quanto ao conhecimento das informações que devem compor o documento, à capacidade de produzi-lo de maneira autônoma e ao acesso anterior a oficinas ou aulas sobre o tema. As dificuldades observadas entre participantes com histórico de emprego formal demonstram que essa experiência não assegura, isoladamente, o domínio da elaboração do documento. Conclui-se que a inclusão de práticas pedagógicas direcionadas à elaboração e à atualização de currículos profissionais pode ampliar a autonomia e as condições de inserção dos estudantes da EJA no mercado de trabalho.
Palavras-chave: EJA; Consolidação; Valorização; Construção; Mercado de trabalho.

ABSTRACT
This article analyzes the perceptions of 56 Youth and Adult Education (EJA) students regarding résumé creation and its relevance to employability, comparing participants who lack formal work experience specifically under the Consolidation of Labor Laws (CLT) regime with those who possess it. The study examined conceptual knowledge regarding the document, perceptions of its utility, difficulties in drafting it, the value placed on informal work, and prior access to pedagogical guidance. Results indicate that both groups recognize the importance of the résumé for professional presentation and show a strong interest in learning how to create one. Participants also valued informal experiences as relevant information for building a professional profile. However, weaknesses were identified regarding knowledge of the information that should be included, the ability to produce the document independently, and prior to access workshops or classes on the subject. The difficulties observed among participants with a history of formal employment demonstrate that such experience alone does not guarantee mastery of résumé creation. The study concludes that incorporating pedagogical practices focused on creating and updating professional résumés can enhance the autonomy of EJA students and improve their prospects for entering the labor market.
Keywords: EJA; Consolidation; Appreciation; Construction; Labor market.

1. INTRODUÇÃO

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui uma modalidade da educação básica destinada às pessoas que não tiveram acesso ou continuidade de estudos na idade regular. A formação oferecida nessa modalidade deve considerar as trajetórias de vida, as especificidades socioculturais e as condições de trabalho dos estudantes. Nesse sentido, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que a EJA deve articular-se, preferencialmente, à educação profissional, destacando a preparação para o mundo do trabalho como uma das dimensões do processo formativo (Brasil, 1996).

O público que integra as turmas da EJA apresenta expressiva heterogeneidade quanto às vivências no mercado de trabalho. Parte dos estudantes não possui histórico de trabalho com carteira assinada sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), concentrando suas trajetórias na informalidade ou na busca pelo primeiro emprego. Outra parcela acumula experiências formais prévias em diferentes setores. Essas diferenças podem estar relacionadas à familiaridade com as exigências dos processos seletivos e com os instrumentos utilizados para apresentar experiências, conhecimentos e competências, entre os quais se destaca o currículo profissional.

Embora o currículo seja amplamente reconhecido como um documento importante para o acesso a oportunidades de trabalho, a falta de orientação sistematizada sobre sua estrutura, sua linguagem e sua atualização pode limitar a autonomia dos estudantes. A ausência desse conhecimento pode dificultar não apenas o ingresso em vagas formais, mas também a apresentação das competências adquiridas em atividades informais e autônomas. Dessa forma, abordar a elaboração de currículos no ambiente escolar pode aproximar a formação educacional das necessidades concretas dos estudantes e contribuir para o desenvolvimento de sua autonomia na busca por emprego.

Diante desse cenário, formula-se a seguinte questão de pesquisa: quais diferenças e convergências existem entre as percepções de estudantes da Educação de Jovens e Adultos com e sem experiência profissional formal sobre a elaboração de currículos e sua relação com a empregabilidade?

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) atende pessoas que não tiveram acesso ou continuidade dos estudos na idade regular, apresentando um público marcado por diferentes trajetórias escolares, sociais e profissionais. Nesse contexto, a formação oferecida deve considerar as características e experiências dos estudantes, inclusive suas relações com o trabalho. A Lei nº 9.394/1996 estabelece que a EJA deve considerar as condições de vida e trabalho de seu público, reforçando a importância da articulação entre educação e formação para o mundo profissional (Brasil, 1996).

Essa relação entre educação e experiência também pode ser compreendida a partir da concepção de aprofundamento da aprendizagem apresentada por Fullan e Quinn. (2022). Os autores destacam sua importância, permitindo compreender que conhecimentos e competências podem ser desenvolvidos tanto no contexto escolar como em ambientes reais e colaborativos. Sob essa visão, para os estudantes da EJA, experiências profissionais e atividades realizadas ao longo da vida deixam de ser elementos secundários e passam a constituir elementos cruciais sua formação.

Nesse sentido, o currículo deve considerar as características e experiências dos estudantes. Resende e Cassab (2021), ao analisarem a construção curricular na EJA, demonstram que a prática pedagógica é influenciada pela presença, pelos interesses e pelas trajetórias dos educandos. As autoras destacam que o currículo está relacionado ao contexto em que é desenvolvido, sendo necessário considerar os sujeitos envolvidos no processo educativo.

Reibnitz e Melo (2021) também ressaltam a importância de práticas pedagógicas relacionadas à realidade dos estudantes da EJA. Segundo as autoras, metodologias que valorizam a participação dos alunos e seus conhecimentos podem contribuir para uma aprendizagem mais significativa. Dessa forma, a escola pode desempenhar papel importante na preparação dos estudantes para situações concretas de sua vida social e profissional.

A partir dessa perspectiva, o currículo profissional pode ser entendido como um instrumento de apresentação da trajetória, dos conhecimentos e das experiências do indivíduo. Sua elaboração não deve considerar apenas empregos formais, uma vez que atividades informais e autônomas também podem proporcionar o desenvolvimento de competências. Para os estudantes da EJA, reconhecer e organizar essas experiências pode contribuir para uma apresentação mais completa de seu perfil profissional.

A orientação pedagógica sobre elaboração de currículos também pode contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes. Aprender a identificar informações relevantes, organizar experiências e apresentar competências permite que o indivíduo participe de forma mais ativa de processos de busca por oportunidades profissionais. Essa perspectiva está relacionada ao conceito de aprofundamento da aprendizagem proposto por Fullan e Quinn (2022) e à valorização das experiências dos estudantes discutida por Resende e Cassab (2021) e Reibnitz e Melo (2021).

Dessa maneira, a elaboração de currículos no contexto da EJA pode ser compreendida como uma prática que aproxima educação, experiência e mundo do trabalho. Essa abordagem fornece sustentação para analisar as percepções dos estudantes pesquisados, especialmente quanto ao conhecimento sobre currículos, à importância atribuída ao documento, às dificuldades para sua elaboração e à valorização das experiências profissionais formais e informais.

3. METODOLOGIA

Esta investigação caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa, uma vez que a investigação é baseada na coleta de dados e com uso de análises de estatística (Creswell; Creswell,2021) e possuí caráter descritivo, já que o estudo tem como objetivo a descrição de um comportamento de uma determinada população (Gil,2022).

O público-alvo desta pesquisa foi composto por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Recife. A seleção da amostra ocorreu de forma não probabilística por conveniência (Prodanov; Freitas,2013), resultando em um total de 56 participantes. Como critério de inclusão, estabeleceu-se que os correspondentes deveriam estar inseridos entre o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio.

Como instrumento de coleta, utilizou-se um questionário estruturado, aplicado de forma presencial. O questionário seguiu a escala Likert de 5 pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente” e seguiu uma ordem de perguntas para coleta de dados (Marconi e Lakatos,2021). A coleta de dados ocorreu em um único dia e todos os participantes concordaram em participar da pesquisa de forma anônima. Todos os dados foram transcritos dos papeis dos questionários e exportados pelo software Microsoft Excel, sendo analisados por meio de estatística.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES E ANÁLISE DOS DADOS

Com base nos dados obtidos junto a 56 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), percebe-se a criação de 2 grupos distintos, 18 alunos estão inseridos no regime trabalhista CLT, os que não trabalham são representados pelos 38 alunos restantes. Apartir disso, foram aplicados os questionários para análise de conhecimentos voltados ao mercado de trabalho para ambos os grupos.

Tabela 1. “Eu sei o que é um currículo profissional”

Fonte: Autores (2026)

Dos alunos que atuam CLT (n=18), quando perguntados o que é um currículo profissional cerca de 71% deles apresentaram respostas positivas, 15,80% apresentaram discordância e 13,20% se mantiveram indiferentes. Por outro lado, os alunos que não trabalham sobre o regime (n=38), cerca de 60% afirmam conhecer, porém o que chama a atenção é de que 27,80% se posicionaram com indiferentes. Ou seja, mesmo que o conhecimento sobre o currículo seja predominante em ambos os grupos os resultados evidenciam que os vínculos de trabalhos formais (n=18) estão associados a um maior nível de segurança quanto a compreensão do conceito.

Tabela 2. “Ter um currículo ajuda a conseguir um emprego melhor?

Fonte: Autores (2026)

Quando questionados sobre a importância do currículo como instrumento de empregabilidade ambos os grupos reconhecem a relevância como um todo, o grupo CLT (n = 18) apresentou um total de 92,10% de concordância enquanto o grupo sem experiencia CLT (n=38) possuiu 72,30% de concordância com 16,70% indiferentes. Os dados evidenciam que ambos os grupos associam os currículos à melhores oportunidades de emprego, mesmo que os alunos com experiência (n = 18) demonstrem maior consenso.

Tabela 3. “Eu já fiz um currículo”

Fonte: Autores (2026)

Com base nas respostas de como a experiencia previa de trabalho influencia diretamente na prática de elaboração de currículos, percebe-se que 57,9% dos que trabalham em regime CLT (n=18) afirmam terem realizado anteriormente, porém 36,9% declararam nunca o terem feito. Já no outro grupo (n=38), a tendencia foi semelhante, com 56% afirmarem a criação dos currículos. Esses resultados indicam que o trabalho formal não é condição exclusiva para essa experiencia.

Tabela 4. “Um bom currículo mostra quem eu sou e o que eu sei fazer?

Fonte: Autores (2026)

A análise dos dados coletados sobre a percepção sobre o currículo como instrumento de apresentação pessoal e profissional foi amplamente positiva, sobretudo entre os que tiveram experiencia com trabalho formal (n = 18), havendo 76,30% de concordância e 13,20 % de discordância, já no grupo que nunca trabalharam (n=38) 94,50% deles tiveram respostas positivas e o restante delas de indiferenças. Esse resultado revela que embora ambos os grupos atribuem relevância a um bom currículo, os alunos sem experiência (n=38) demonstraram de forma quase unanima em sua valorização, algo que reforça a centralidade desse documento no imaginário coletivo sobre oportunidades de inserção profissional.

Tabela 5. “Já perdi uma chance de emprego por não ter um currículo?”

Fonte: Autores (2026)

Com a avaliação das informações coletadas, existe uma evidencia distinção das percepções em relação ao tópico perda de oportunidades pela falta de um currículo em ambos os grupos. Nos alunos CLT(n=18), cerca de 55,20% negam a perda de oportunidades e 23,70% reconhecem ter vivenciado essa situação. Enquanto no outro grupo (n=38) os estudantes tiveram uma percepção oposta, eles tiveram cerca de 33,40% respostas negativas enquanto 50% declaram já ter perdidos vagas de emprego pela ausência dos currículos.

Tabela 6. “Acho difícil fazer um currículo sozinho?”

Fonte: Autores (2026)

De acordo com as respostas dos 56 alunos envolvendo o tópico, se eles possuem dificuldade em criar um currículo de forma independente, houve uma distribuição equilibrada dos níveis de concordância e discordância. Cerca de 36,80% dos alunos sem experiencia profissional(n=38) tiveram respostas negativas, porém 40% do grupo ainda sente dificuldades em sua elaboração. Já a parcela CLT (n=18) dos alunos tivera cerca de 33,30% em negação e 44,40% em respostas positivas. Além disso, o percentual de respostas “não sei/indiferente” foi de certa relevância em ambos os grupos, cerca de 20%. Isso reforça que independente do grupo a percepção dos currículos é um tema que demanda maior orientação pedagógica.

Tabela 7. “Eu sei quais informações devem aparecer em um bom currículo?

Fonte: Autores (2026)

A análise de percepção dos estudantes de acordo com a pergunta “Eu sei quais informações devem aparecer em um bom currículo” evidencia que entre os alunos que não trabalham (n=38), 36,80% afirmam “concordar” e 7,0% “concordar totalmente”. Contudo o que chama atenção é o número expressivo de indiferentes 26,30% e de discordância 28,90%, indicando fragilidades no domínio desse conhecimento. No grupo que já atuou com o vínculo (n=18), cerca de 38,9% tiveram resposta positivas, porém com uma discordância total de 44,50%, mostrando que as suas experiencias não garante maior domínio sobre o assunto.

Tabela 8. “Já participei de alguma oficina ou aula sobre como fazer currículo?”

Fonte: Autores (2026)

Quando perguntados sobre a participação previa em oficinas ou aulas de elaboração de currículos cerca de 58% da parcela que não tem experiencia trabalhista (n = 38) nunca participaram de oficinas, porém os que exerceram atividades formais (n=18) tiveram um percentual expressivo de 77.7% total de pessoas que também nunca nenhum envolvimento com aulas sobre o tópico. Nenhum trabalhador formal (n=18) declarou “concordo totalmente” durante a pesquisa dessa questão.

Tabela 9. “Acho importante colocar experiencias informais (como cuidar de crianças, vender coisas ou ajudar em construções) no meu currículo?

Fonte: Autores (2026)

Em relação a inserção de experiencias informais no currículo, ambos os grupos tiveram percepções parecidas, visto que os que não possuem experiência como CLT (n=38), cerca de 60% reconhecem o valor de incluir essas vivencias e os que trabalham (n=18) cerca de 83% possuem a mesma perspectiva. Dentre os 56 alunos apenas 20% em sua totalidade manifestaram discordância, percebendo-se assim a relevância de incluir tais atividades.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise das respostas dos 56 alunos do programa Educação para Jovens e Adultos nos permite concluir que o currículo é amplamente reconhecido como um instrumento fundamental de empregabilidade, tanto pelos que já tiveram experiência formal em regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) quanto pelos que nunca atuaram nesse formato. De modo geral, ambos os grupos demonstraram alto índice de valorização do currículo, associando-o à conquista de melhores oportunidades profissionais, à preparação para entrevistas e até mesmo à inserção em ocupações consideradas simples. Além disso, identificou-se forte interesse em aprender a elaborar currículos de qualidade e consciência sobre a necessidade de mantê-los atualizados, revelando uma predisposição positiva para o desenvolvimento de competências ligadas à empregabilidade.

Entretanto, a comparação entre os grupos evidencia diferenças relevantes: os estudantes com experiência em regime CLT tendem a apresentar maior segurança e consenso sobre a importância do currículo, refletindo a vivência em processos seletivos formais, ao passo que os alunos sem vínculo formal demonstram maior dispersão nas respostas, incluindo índices mais elevados de indiferença ou desconhecimento. Também foi possível identificar que a ausência de participação em oficinas de elaboração de currículos e a dificuldade de produzi-los sozinhos configuram lacunas comuns aos dois grupos, indicando a necessidade de práticas pedagógicas mais direcionadas nesse campo. Em síntese, os resultados revelam que, embora haja uma valorização generalizada do currículo entre os alunos da EJA, à experiência no mercado formal tende a potencializar essa percepção, reforçando a importância dê ações educativas que garantam a todos os estudantes, independentemente de sua trajetória profissional, acesso a instrumentos de qualificação para o mundo do trabalho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FULLAN, Michael; QUINN, Joanne. Coerência: os direcionadores corretos para transformar a educação. Porto Alegre: Penso, 2022.

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