REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776782366
RESUMO
Este artigo investiga o número pouco expressivo de psicanalistas que também exercem a arte drag. O ponto de partida para este estudo é a provocação de Paul Preciado na Escola da Causa Freudiana e que interroga a baixa representatividade de pessoas cisdivergentes dentro das instituições psicanalíticas. Foi adotado como problema de pesquisa os motivos desta ausência, tomando como norteador para a busca de respostas a norma proscrita, diretriz que figurou por décadas dentro das instituições psicanalíticas, restringindo a formação psicanalítica a pessoas heterossexuais. Os objetivos abrangem analisar a posição freudiana contra a patologização da homossexualidade, apresentar a regra informal que restringia acesso aos homossexuais à psicanálise e refletir sobre a escassez de psicanalistas que também atuem como drag queens iluminados pela violência que ainda hoje se apresenta nos ambientes psicanalíticos. Para a metodologia, foi elencada a revisão bibliográfica qualitativa em livros e artigos coletados em bases de dados como o Scielo, Pepsic e Repositórios de Universidades. Conclui-se que a escassez desses profissionais resulta de um legado de exclusão e ataques tácitos iniciados no século XX, que ainda desestimula a entrada de artistas drag e outras minorias sexuais na formação psicanalítica, evidenciando a necessidade de democratização dos espaços institucionais.
Palavras-chave: psicanálise; preconceito; drag queen; cisdivergência.
ABSTRACT
This article investigates the unexpressive number of psychoanalysts who also practice drag art. The starting point for this study is Paul Preciado's provocation at the École de la Cause Freudienne, which interrogates the low representation of cis-divergent people within psychoanalytic institutions. The research problem adopted was the reasons for this absence, taking as a guide for seeking answers the proscribed norm—a guideline that featured for decades within psychoanalytic institutions, restricting psychoanalytic training to heterosexual individuals. The objectives encompass analyzing the Freudian position against the pathologization of homosexuality, presenting the informal rule that restricted access for homosexuals to psychoanalysis, and reflecting on the scarcity of psychoanalysts who also act as drag queens, enlightened by the violence that still presents itself today in psychoanalytic environments. For the methodology, a qualitative bibliographic review was selected, using books and articles collected from databases such as SciELO, PePSIC, and University Repositories. It is concluded that the scarcity of these professionals results from a legacy of exclusion and tacit attacks initiated in the 20th century, which still discourages the entry of drag artists and other sexual minorities into psychoanalytic training, highlighting the need for the democratization of institutional spaces.
Keywords: psychoanalysis; prejudice; drag queen; cis-divergence.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho, que integra uma pesquisa de doutorado, traz reflexões sobre o número pouco expressivo de pessoas que exercem, simultaneamente, tanto o ofício de psicanalistas quanto o de atores que encarnam nos palcos uma drag queen. Para buscar as respostas que interessam a esta investigação, foi adotada como chave elucidativa a violência exercida por alguns psicanalistas que utilizam seus preceitos teóricos para a manutenção deste cenário que sinaliza em exclusão, silenciamento e apagamento da diversidade de gênero nas fileiras formação psicanalítica mais conservadoras.
No decorrer do artigo, argumentamos que a instrumentalização da teoria psicanalítica legitima e mantém vivos os ataques à comunidade LGBTQIAPN+, cuja postura é incompatível com a natureza transgressora da arte drag, pois ela rompe com as convenções sociais de gênero e dá visibilidade a subjetividades cuja existência não se enquadra na heterocisnormatividade. Em nossa análise, entendemos que o embate entre a rebeldia da arte drag e o conservadorismo de setores da comunidade psicanalítica atua como fator que afasta esses artistas dos espaços de formação psicanalítica, resultando no empobrecimento do campo psicanalítico, pois, ao retardar o diálogo e hesitar em se aliar a vozes que o atualizam, a psicanálise tende a enfrentar críticas por não acompanhar o ritmo das discussões nos outros campos das ciências humanas.
O ponto de partida deste exame é a saudação de Paul Preciado (2022) na Escola da Causa Freudiana em Paris, quando ele, provocativamente, saúda psicanalistas dissidentes da norma cisgênero que poderiam estar ali presentes. Face o constrangimento que tomou conta da audiência, surge o interesse em identificar a existência de psicanalistas que também exerçam a arte das drag queens, sendo a primeira pessoa – e talvez a única – que nos chega à mente é Guilherme Terreri, um intelectual com conhecimento aprofundado em psicanálise e que interpreta a persona drag Rita von Hunty. Tal lacuna se revela algo instigante a ser pesquisado, haja vista o quão afeiçoado são os psicanalistas às artes: Contardo Caligaris foi um romancista, Jaqueline Vargas é escritora e roteirista, Antônio Quinet é dramaturgo, Vladimir Safatle toca piano e Tania Rivera também é fotografa.
Ao consultar o site da Associação Psicanalítica Internacional, notamos a ausência de dados estatísticos sobre a sexualidade e a identidade de gênero dos psicanalistas, um cenário que indica a invisibilidade à qual estes profissionais estão submetidos, dificultando o levante de informações sobre a diversidade dentro das referidas instituições. Desta forma, as páginas a seguir se justificam, para além da exploração casual do tema, mas também podem auxiliar o debate acerca da democratização, acolhimento e inclusão de grupos minoritários que ambicionam a formação em psicanálise, favorecendo que apareçam nas instituições um movimento politicamente engajado em favor de um saber e prática que caminhe de acordo com os desafios dos tempos atuais.
Diante deste cenário, perguntamo-nos “o que faria ser tão escasso o número de pessoas que exercem a arte das drag queens e também se incumbem do ofício de psicanalistas?”. Poderíamos responder a este questionamento mencionando a complexidade das expressões artísticas das drag queens e que requerem do artista habilidades em maquiagem, elaboração de figurinos, coreografia, sincronia labial, domínio de palco, dentre outras técnicas que se articulam às suas performances. Entretanto, para adentrarmos no campo de discussão que interessa à psicanálise, encontramos pistas do que poderia ser a explicação para este fenômeno numa entrevista concedida por Rita von Hunty ao psicanalista Christian Dunker. Segundo ela, houve um momento na história em que pessoas LGBTQIAPN+ foram excluídas da psicanálise, se referindo, indiretamente, à norma velada que circulava nas instituições psicanalíticas que vedava acesso a cargos e à formação pessoas heterodivergentes (DUNKER, 2024).
Por conta disto, tomamos como fio condutor para investigar escassez de psicanalistas que também são drag queens a norma proscrita que ainda ecoa nestes meios. Conforme Bulamah (2014), a norma proscrita que restringia acesso de homens homossexuais à formação em psicanálise, é um indício de que as homossexualidades, orientações sexuais e identidades de gênero heterocisdissidentes não eram bem-vindos nestes espaços.
Propomos, então, como objetivo geral compreender os motivos da escassez de psicanalistas heterocisdivergentes, de onde se desdobram os objetivos específicos, (I) discorrer sobre o combate de Freud à patologização da homossexualidade; (II) apresentar a regra proscrita que impedia os homossexuais serem membros ou admitidos à formação psicanalítica; (III) abordar a violência da comunidade psicanalítica contra a homossexualidade e; (IV) refletir sobre a escassez de psicanalistas drags iluminados pela continuidade da violência de psicanalistas contra a comunidade LGBTQIAPN+
Este artigo se enquadra como um estudo de natureza qualitativa, haja vista sua possibilidade de descortinar “processos sociais ainda pouco conhecidos referentes a grupos particulares” (Minayo, 2007, p. 57) e se ampara na revisão bibliográfica, delineamento metodológico que permite desenvolver um panorama explicativo tomando como base materiais publicados previamente, como livros e artigos científicos (GIL, 2002).
A pesquisa utilizou fontes em língua portuguesa e abrangeu trabalhos de pós-graduação – a exemplo da dissertação de Lucas Charafeddine Bulamah – encontrados nos Repositórios de Universidades; livros escritos por um único autor – como é o caso de Thamy Ayouch – ou escritos em colaboração de vários autores – como o organizado por Gilson Iannini –; além de artigos científicos – como o de Paulo Roberto Ceccarelli – recuperados nas bases de dados como Scielo e Pepsic. Chegamos aos títulos combinando os descritores “formação em psicanálise”, “história da psicanálise”, “LGBTQIAPN+” e “preconceito”, tomando como critérios de inclusão textos que auxiliassem a compreensão do preconceito contra pessoas dissidentes da norma heterossexual e de gênero dominante junto à formação em psicanálise, sendo descartados trabalhos que não abordassem diretamente o escopo desta investigação.
Ao fim, observa-se que a escassez de artistas drags que atuem também como psicanalistas resulta de um contínuo processo de violência que a comunidade psicanalítica inflige às minorias sexuais e identidades de gênero dissidentes da norma. Ela se inicia nos anos 1920, quando psicanalise se opõe tacitamente à adesão de homens homossexuais – atingindo, por consequência, o sexo e a orientação sexual de artistas drags – gerando um clima favorável à instalação de ataques que permanecem ainda nos dias atuais, alcançando também outros membros da comunidade LGBTQIAPN+, criando um legado de violência e ataques que desestimula os atores que interpretam drag queens de se interessarem pela psicanálise.
FREUD E O COMBATE À PATOLOGIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE
De acordo com Drescher (2020), a história moderna da homossexualidade tem início em 1864 com uma publicação de Karl Heinrich Ulrichs que criticava o preconceito e a criminalização da atração entre pessoas do mesmo sexo. Neste ensaio, ele descreve esta atração como uma variação da sexualidade normal, acreditando que homens que se atraiam por outros homens possuíam a alma feminina, nomeando esta condição como uranismo. Inspirado por Ulrichs, que via a prática sexual entre parceiros do mesmo sexo como algo comum, Karl Maria Kertneby, em 1869, cunha o termo homossexual e homossexualidade, afirmando também que esta variante da sexualidade era corriqueira e não deveria ser criminalizada.
Em paralelo à defesa da homossexualidade, florescia no campo científico a ideia de que o exame da vida sexual e das formas de obtenção de prazer produziria um saber acerca da sexualidade. A recolha de informações para alimentar este modelo de ciência se deu através da observação, catálogo e classificação dos comportamentos sexuais, que eram reputados como normais ou desviantes através dos parâmetros da biologia, levando à patologização do sexo que não prescrevia a reprodução. Logo, os projetos de normatização da vida sexual reforçaram a heterossexualidade como a única condução possível e saudável à sexualidade humana, lançando a homossexualidade ao reduto das anomalias sexuais e legitimando a discriminação de quem as praticava. (FOUCAULT, 1988).
Karl Westphal foi o “autor do primeiro estudo médico sistematizado sobre a homossexualidade” e quem forjou o termo conträre sexualempfindung – a inversão sexual – uma condição congênita e não uma ação contrária à natureza. Apesar da cautela para não qualificar homossexuais como desviantes, imorais e criminosos, ele termina, todavia, avaliando que os sentimentos homossexuais estavam ligados a doenças mentais, inserindo a homossexualidade entre os transtornos psiquiátricos. Seguindo esta mesma esteira que patologizava a homossexualidade estão Emil Kraepelin, que a atestava como fraqueza mental, classificando-a como um estado do desenvolvimento sexual anormal ou insanidade degenerativa e; Richard Von Kraft-Ebing, que classificou a homossexualidade como anomalia do desejo reprodutivo, propondo tratamentos que variavam da prevenção da masturbação e de circunstâncias pouco higiênicas que envolvem a sexualidade, hipnose e, o mais importante, incentivar a heterossexualidade (COUTO e LAGE, 2018; PAOLIELLO, 2020, p.37).
É em meio a este cenário depreciativo da homossexualidade que Freud faz suas primeiras incursões ao terreno da sexualidade, contrariando o modelo biológico e degenerativo que imperava em sua época. Em 1896, na carta 52 endereçada a Fliess, Freud faz referência a determinadas partes do corpo que foram estimuladas na infância ao ponto de se converterem em zonas erógenas, tornando-se elas, no futuro, alvos do recalque e reprimidas na sua função de obtenção de prazer. Junto ao Racunho K, Freud discute sobre as forças culturais que reprimem o prazer que emitiam certas partes do corpo, imputando-lhes sensações de asco, vergonha e desprazer (MASSON, 1986).
Apesar de uma parcela significativa da teoria da sexualidade pairasse na mente de Freud, o conceito de inconsciente ainda estava por ser formulado, um indício de que a neurologia de sua época não contribuiria de maneira favorável a corroborar suas descobertas clínicas, tendo ele que se esforçar para compreender o papel desempenhado pelas experiências infantis nas manifestações da sexualidade adulta. Neste sentido, as correspondências de Freud a Fliess indicam os esboços daquilo que seria a futura teoria da sexualidade, um caminho que terminaria por marcar a ruptura da psicanálise com o determinismo biológico que condenava a homossexualidade a um desvio da normalidade.
Ao publicar os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud (1905/2016) define o caráter perverso polimorfo da pulsão: ela age em busca de prazer, não se alinha a um objeto fixo e nem se contenta com a reprodução. Sua plasticidade implica em vários caminhos para que se cumpra a satisfação, tornando-a maleável ao ponto dos sujeitos se comprazerem das mais diversas formas:
o objeto da pulsão é diversificado, anárquico, plural e parcial; exprime-se de várias formas: oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista, dentre outras. Com isso, Freud divorcia a sexualidade de uma estreita relação com os órgãos sexuais, passando a considerá-la como uma função abrangente em que o prazer é sua finalidade principal, sendo a reprodução uma meta secundária (CECCARELLI, 2008, p. 75)
Neste sentido, os encontros sexuais entre pessoas do mesmo sexo é um dos possíveis desdobramentos da pulsão e não um efeito da degenerescência, contrariando os apoiadores da teoria que atribuía o estatuto de doença à homossexualidade. Delegando à biologia um papel coadjuvante na vida sexual, cabe às pesquisas psicanalíticas compreenderem as ramificações oriundas da pulsão sexual, a despeito de seus destinos serem a homossexualidade ou a heterossexualidade:
A investigação psicanalítica se opõe decididamente à tentativa de separar os homossexuais das outras pessoas como um grupo especial de seres humanos. Estudando outras excitações sexuais além daquelas manifestadas abertamente, ela sabe que todas as pessoas são capazes de uma escolha homossexual de objeto e que também a fizeram no inconsciente. […] Na concepção da psicanálise, portanto, também o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é um problema que requer explicação, não é algo evidentemente em si, baseado numa atração fundamentalmente química (FREUD, 1905/2016, p. 34).
Distanciando-se da moralidade – que alimentava a ciência de hostilidade e preconceito ao tratar a homossexualidade como doença –, mas coerente com sua teoria que a enxergava como uma variação da sexualidade, Freud (1935/2019, p. 28) responde à carta da mãe de um jovem homossexual sobre os benefícios que a psicanálise poderia oferecer ao seu filho. Logo no início da carta, ele identifica o constrangimento da mãe, que não menciona ser o rapaz um homossexual e escreve isso de maneira direta: “Depreendi de sua carta que seu filho é homossexual. Fiquei mais impressionado pelo fato de que a senhora mesma não menciona este termo em sua informação sobre ele”.
Mesmo sabendo os motivos para tal omissão, Freud (1935/2019, p. 28) pergunta-lhe as razões do seu silêncio, vendo ali a oportunidade para lhe informar como entende a homossexualidade:
certamente não é uma vantagem, tampouco é algo de se envergonhar, não é nenhum vício, nenhuma degradação, não pode ser classificada como uma doença; nós a consideramos uma variação da função sexual […] É uma grande injustiça, e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se ela fosse um crime.
Freud (1935/2019, p. 28 e 29) também esclarece o que uma análise poderia oferecer para o rapaz:
suponho dizer se eu poderia abolir a homossexualidade fazendo a heterossexualidade normal assumir o seu lugar. A resposta é que de um modo geral não podemos prometer alcançar tal resultado […] Aquilo que a análise pode fazer pelo seu filho segue uma linha diversa. Se ele é infeliz, neurótico, acossado por conflitos, tem sua vida social inibida, a análise pode aportar-lhe harmonia, paz de espírito, eficiência total.
Esta carta é o testemunho da visão freudiana acerca da homossexualidade e serve a dois propósitos: apresentar a homossexualidade como um dos possíveis desdobramentos da pulsão e; um manifesto contra a barbárie que a qualificava como pecado, crime ou doença.
A PSICANÁLISE E SUA REGRA PROSCRITA CONTRA O HOMOSSEXUAIS
Ao contrário do que pensa o imaginário popular, a psicanálise não está acima da crítica e, por se localizar entre as ciências humanas, também não se encontra livre das interferências históricas e sociais. Consequentemente, o processo de análise não isenta os psicanalistas de seus conflitos internos ou garante que avaliem ou teorizem de maneira justa sobre os dilemas humanos. Por mais que dominem as técnicas de escuta que permitem rastrear os trajetos que percorrem as pulsões em busca de satisfação, nem sempre as usa de maneira imparcial, incorrendo disto um erro os torna cativos da altivez que impossibilita escutar eticamente seus pacientes ou acolher os pedidos de quem procura as instituições para formação psicanalítica.
Em relação à formação, existe uma fase na história da psicanálise caracterizada pela adoção de critérios austeros para admissão de novos membros que ambicionavam se tornar psicanalistas. Foi um momento em que a rigidez institucional pavimentou a estrada para a intolerância, resultando isto em prejuízos ao próprio movimento psicanalítico e, mais precisamente, aos homossexuais que desejavam se filiar a ele.
Sobre este período, que se estendeu por mais de oito décadas, vigorava informalmente nas comissões de ensino e transmissão dos institutos de psicanálise uma regra que impedia que homossexuais ingressassem à formação psicanalítica. Bulamah (2014, p.13) a nomeia como regra proscrita, “uma prática insidiosa de impedir o ingresso e permanência de sujeitos demarcados por suas sexualidades diversas da norma, por meio de uma regra não formalizada e cercada de silêncio”.
Este processo teve início em 1913, quando foi criado um comitê secreto para assegurar a lealdade à teoria freudiana e averiguar possíveis desvios conceituais; evitar que discípulos indesejados adentrassem e/ou perturbassem o movimento psicanalítico e; garantir respeitabilidade à psicanálise. Tratava-se de um movimento que congregava os discípulos mais fiéis de Freud em uma sociedade secreta semelhante à dos contos medievais, cuja finalidade era
elaborar um plano racional capaz de preservar a doutrina de toda forma de distorção: rejeitar mitologias obscurantistas, o espiritismo e o pensamento mágico, fazer pé firme quanto à questão sexual, formar clínicos que não sofressem de distúrbios patológicos, lutar contra os charlatães, etc… (Roudinesco, 2016, p. 200)
Era esse comitê o responsável por afiançar as regras institucionais que permitiam - ou vetavam – os candidatos à formação psicanalítica.
Em 1921, por conta da prisão de um membro – médico e homossexual – da Sociedade Holandesa de Psicanálise, surge o debate sobre a formação psicanalítica admitir ou não pessoas não médicas e homossexuais. Por mais que Freud e Rank concordassem entre si e aceitassem a presença de candidatos não médicos e homossexuais nos quadros de formação e membros das escolas psicanalíticas, eles foram vencidos por Jones e Abraham.
Enquanto Abraham vociferava contrariamente à possibilidade de que os homossexuais se tornassem psicanalistas, “uma vez que a análise não os ‘curou’ de sua inversão” (Roudinesco, 2020, p. 112), Jones também estendia o veto aos profissionais de áreas não médicas:
Contrariando Freud, [Jones] defendeu inclusive a ideia de que a psicanálise devia ser exercida exclusivamente por médicos, como era o caso nos Estados Unidos.
Na mesma perspectiva, impôs ao Comitê uma decisão desastrosa para o futuro, adotando uma regra segundo a qual os homossexuais não poderiam nem ser membros de uma associação nem se tornar psicanalistas, pois ‘na maioria dos casos, eles são anormais’. Essa diretriz estarrecedora ia de encontro à doutrina freudiana. (Roudinesco, 2016, p. 219, colchetes nosso).
Por questões políticas, era interesse de Jones ampliar a divulgação da psicanálise nos Estados Unidos, sendo esta discussão o momento oportuno para adotar as regras de admissão das instituições naquele país. Deste evento, surgem duas consequências à psicanálise: foi facilitado o processo de assimilação da psicanálise aos saberes médicos e; foram fortalecidas no seio psicanalítico intervenções farmacológicas e terapias adaptativas (Bulamah, 2014).
Por ser uma regra informal, não é possível afirmar com toda certeza quem foram os membros do círculo íntimo de Freud que o contrariaram e consentiram distanciar os homossexuais da formação psicanalítica. Além dos nomes já mencionados, Roudinesco (2016; 2020, p. 111) aponta para Anna Freud como uma colaboradora do veto aos homossexuais, reafirmando os princípios morais que endossavam a política institucional que julgava os homossexuais impróprios para o exercício da psicanálise. Segundo a autora, a confissão em análise da paixão que sentia por Lou Andreas Salome despertou o assombro de Freud, que a incentivou a desenvolver trabalhos intelectuais, tornando-a importante psicanalista, chefe de escola, uma das pioneiras na análise de crianças e herdeira do seu legado de seu pai. Todavia, houve um preço a ser pago: teve de renunciar ao desejo da maternidade e ao amor que sentia por Salome, tendo como desfecho de análise “odiar sua própria homossexualidade ao ponto de depois, durante toda sua existência, mostrar-se hostil à ideia de que os homossexuais possam praticar a psicanálise”.
Também é possível inferir motivos ocultos nas propostas higienistas do ambiente psicanalítico que foram manifestadas por Jones ao se recusar a admitir que homossexuais integrassem o quadro de psicanalistas. Sob a fachada de resguardar a respeitabilidade à psicanálise, Jones escondia algo mais que os interesses políticos relacionados ao diálogo da psicanálise europeia com as associações psicanalíticas americanas. Para Roudinesco (2020, p.112), por trás dos propósitos de angariar clínicos íntegros e inquestionáveis do ponto de vista moral, havia um Jones que
tinha sido acusado de pedofilia na Grã-Bretanha, numa Inglaterra vitoriana e puritana, simplesmente por que falava de sexualidade às crianças das quais se ocupava num hospital. Emigrado em seguida para o Canadá, foi denunciado por ligas puritanas por que vivia em concubinato com Loe Kann.
Segundo Roudinesco (2016, p. 219) a adoção de leis severas e que restringiam o acesso de homossexuais às instituições de psicanálise, incentivou “até o fim do século XX a disseminação de uma assustadora homofobia na esfera da comunidade psicanalítica mundial”. Sob este pano de fundo, a IPA não se constrangia em chamar os homossexuais de perversos, incapazes de serem analisados e desqualificados para o ofício de psicanalistas. Contudo, temendo represálias ou ser tachada de preconceituosa, a Associação Psicanalítica Internacional não editava normas que excluíssem formalmente os homossexuais da formação.
Desta forma, instalou-se nas associações psicanalíticas a regra proscrita que silenciosamente impossibilitava que homossexuais fossem membros ou adentrassem à formação. Entretanto, o impacto foi ainda mais prejudicial, fazendo com que psicanalistas desconsiderassem as posições freudianas que apresentavam a homossexualidade como uma variação das expressões da pulsão sexual, representando esse movimento um retrocesso de décadas ao ressuscitar o estatuto de doença à homossexualidade. Assim, a moralidade cis e heteronormativa encontrou na psicanálise nova aliada para proferir seus ataques àqueles que divergiam da norma vigente.
AS REPERCUSSÕES DO PRECONCEITO DENTRO DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO
A norma silenciosa adotada pelas associações psicanalíticas que impedia homossexuais assumirem cargos ou fossem admitidos à formação, é um sinal de que a atribuição de qualidades doentias à homossexualidade não foi um estágio da ciência já ultrapassado: mais do que um indicativo de um passado equivocado, a norma proscrita denota que a moralidade, de maneira insidiosa, ainda operava excluindo os homossexuais de tarefas na sociedade. Entretanto, o que se observa no meio psicanalítico é que o preconceito está para além da rejeição e segregação dos homossexuais, mas também instrumentaliza o arcabouço teórico da psicanálise para proferir enunciados virulentos que sustentaram práticas clínicas de reversão da homossexualidade, reforçando a heterossexualidade como o referencial de saúde psíquica e o desfecho curativo a ser alcançado em análise.
Foi em solo estadunidense que os psicanalistas seguiram uma linha tendenciosamente moralista e simplista para tratar da homossexualidade, cujo cerne se distanciava progressivamente dos postulados freudianos, oportunizando que se solidificassem uma teoria e prática divergia daquelas que a psicanálise adotava anteriormente, valorizando intervenções que buscavam adequações à norma social vigente (Bulamah, 2014).
Sandor Rado, psiquiatra e psicanalista húngaro radicado nos Estados Unidos, foi um dos primeiros que desconsideraram os preceitos freudianos e se posicionou de maneira desfavoráveis à homossexualidade. Trata-se de uma controversa figura, tanto por sua vida pessoal, quanto por suas formulações teóricas. Negava o papel terapêutico da suspensão do recalque às lembranças inconscientes; desacreditava a transferência, pois a considerava contraproducente para a autonomia e autoconfiança dos pacientes; reconhecia na genética o futuro da psiquiatria psicanalítica; além de tratar de maneira simplória a tese do falocentrismo, afirmando que as mulheres se privavam da masturbação devido à superioridade do pênis e, por conta disto, eram tragadas pelo masoquismo. Por ser um dos mais extremos adeptos de uma abordagem biologizante dos fenômenos psíquicos, dizia que a heterossexualidade era guiada pela biologia, afirmando a homossexualidade ser um desvio da norma e ocasionado por cuidados parentais inadequados, resultando isto num comportamento sexual fóbico em relação ao sexo oposto (Roudinesco & Plon, 1998; mijolla, 2005, Drescher 2020).
Edmund Bergler, médico e psicanalista austríaco que também imigrou para os Estados Unidos, amparou-se em Rado para elaborar suas premissas sobre a homossexualidade, tornando-se ele o principal intelectual da década de 1950 a versar sobre o tema. Ele argumentava contra a teoria da bissexualidade originária que, segundo ele, era um conceito ingenuamente sustentado por homossexuais e; atribuía grande valor ao complexo do seio, resultando de complicações no desmame uma série de distúrbios psicológicos, dentre os quais, era destacada a homossexualidade. Dizia ter atendido dezenas de homossexuais e, por conta disto, generalizava rótulos pejorativos a toda a classe: eram eles desagradáveis, arrogantes, agressivos, melindrosos, infelizes, invejosos (inclusive de seus parceiros), maus pagadores, mentirosos, falsificadores, marginais, contrabandistas, rufiões e toda sorte de ofensas. Ainda que fragilmente sustentadas, suas proposições permaneceram incontestadas mesmo nas revisões psicanalíticas mais aprimoradas (Bulamah, 2014).
Irving Bieber, psicanalista americano, compreendia a homossexualidade como uma “patologia biossocial, consequente da adaptação psicossexual de medos difusos que envolvem a expressão de impulsos heterossexuais” (Drescher, 2020, p. 55). Partindo do pressuposto de que a homossexualidade é uma doença, Bieber conduziu uma pesquisa onde terapeutas respondiam mais quatrocentas perguntas a respeito de seus pacientes homossexuais do sexo masculino. Por sua vez o estudo também comparou as respostas obtidas a um outro grupo, desta vez, os terapeutas respondiam as mesmas perguntas sobre seus pacientes heterossexuais do sexo masculino. Deste estudo emerge a absurda “fórmula psicanalítica” que explicava a homossexualidade masculina: mães superprotetoras e pais omissos ou agressivos (BULAMAH, 2014).
Diferentemente de Bergler, os resultados da pesquisa de Bieber foram confrontados com os dados estatísticos de Alfred Kinsey. Quando questionado sobre a diferença entre os estudos, o psicanalista, do alto de sua soberba, se recusa a revisar suas considerações acerca da homossexualidade, utilizando os dados de sua pesquisa clínica que se alinhavam às mais de mil entrevistas para reafirmar que todos os homossexuais entrevistados tinham problemas com o pai (Brody, 1981).
O psicanalista Lionel Ovesey, da mesma forma que seus conterrâneos americanos, também adotava a ideia de que a homossexualidade é um comportamento sexual desviante, uma adaptação perante o medo da função sexual normal (Drescher, 2020). Em seus atendimentos, agia sem pudores e não interpretava a fragilidade de seus pacientes homossexuais junto ao processo transferencial, instrumentalizando essa ferramenta clínica para força-los a adotarem uma postura heterossexual, deturpando os fundamentos clínicos da psicanálise análise para apoiar princípios terapêuticos normatizadores (BULAMAH, 2014).
O psiquiatra e psicanalista Charles Socarides, inspirado por Rado, Bergler Bieber e Ovesey, também propunha a manipulação da transferência em favor de uma proposta terapêutica que visava à heterossexualidade. Ele investe numa teoria que preconiza a evolução da libido da oralidade à genitalidade heterossexual, concebendo neste eixo de desenvolvimento um ideal a ser perseguido nas intervenções psicanalíticas destinadas à conversão da homossexualidade em heterossexualidade. Para tanto, ele desenvolve um modelo terapêutico onde os papéis de homens e mulheres se complementam no par marital, fixando o desempenho da heterossexualidade como algo a ser atingido no progresso da análise (Maya, 2007).
Segundo Drescher (2020) as argumentações teóricas virulentas que imprimiam caráter patológico à homossexualidade terminaram por efetivar sua inclusão entre os transtornos psiquiátricos nas versões de 1952 e 1968 do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Como consequência, além de homens ou mulheres gays não poderem exercer a psicanálise, também fez com que fossem declinados em quaisquer outras profissões relacionadas à saúde mental.
Por mais que a formalização da patologização da homossexualidade tenha ocorrido nos Estados Unidos, Roudinesco (2020) aponta que alguns seguidores ingleses de Melanie Klein também contribuíram para que a homossexualidade fosse encarada como uma patologia. Ainda que as descobertas kleinianas aludam ao prisma de fantasias pré-edipianas identificadas a uma posição feminina primitiva na qual o menino busca um pênis bom para reparar a persecutoriedade do pênis mau paterno, seus discípulos distorceram esta proposta para explorar as questões que envolvem a homossexualidade masculina (KLEIN, 1932/1969). Segundo Maya (2007), ao radicalizarem a herança de Klein, psicanalistas britânicos passaram a sustentar que as relações homossexuais entre homens figuram como um desvio esquizoide da heterossexualidade, pois era empregado como recurso defensivo contra delírios paranoides, ligando esta modalidade sexual ao sadismo e ao masoquismo, e não uma busca por amor e prazer.
Embora Roudinesco (2020) não mencione nominalmente os psicanalistas que descaracterizaram as posições originais de Melanie Klein, nota-se que tal perspectiva terminou por encerrar a homossexualidade em uma variação do estado psicótico na corrente kleiniana, destituindo de existência esta orientação sexual. Como vestígio desta concepção patologizante, a autora indica sutilmente para a ausência de um verbete destinado à exploração da homossexualidade no Dicionário do Pensamento Kleiniano de Robert Duncan Hinschelwood, publicado em 1989, de onde se entende que ali reside um indício de que gays e lésbicas são pessoas doentes, desviantes e inaptos para o exercício da psicanálise.
Na França, Lacan tomou em análise pacientes homossexuais, não lhes ofereceu curas ou reeducações à sua orientação sexual e, ao fundar Escola Freudiana de Paris, permitiu que lhes fosse ensinado o ofício de psicanalistas, caso o quisessem. Ainda assim, Roudinesco (2020, p. 115) assevera que os psicanalistas franceses eram hostis aos membros homossexuais: “Eu mesma fui membro da EFP e posso afirmar que, nesse aspecto, existia uma enorme tolerância, ainda que, bem entendido, numerosos psicanalistas detestassem os homossexuais”.
Segundo Ayouch e Bulamah (2013, p. 95), em 2002, A Associação Psicanalítica Internacional publicou uma norma que foi aprovada pelo Conselho Executivo que estabelecia:
A IPA se opõe a qualquer discriminação contra qualquer pessoa com base de gênero, origem étnica, crença religiosa ou orientação homossexual. A seleção de candidatos para o treinamento psicanalítico deve ser feita somente em bases diretamente relacionadas à capacidade de aprender e atuar como psicanalista. Ademais, é esperado que o mesmo padrão seja usado na indicação e promoção de membros de posições educacionais incluindo analistas didatas e supervisores.
Este comunicado oficial parece ser uma tentativa de resguardar a imagem da instituição e defende-la de possíveis transtornos, protestos e processos, sem, no entanto, reconhecer que a psicanálise desempenhou por décadas uma perseguição aos homossexuais.
Por mais que essa normativa permitisse o ingresso de homossexuais aos postos de analistas didatas e supervisores, não foi reconhecido o endosso silencioso que a IPA ofertou às ações discriminatórias protagonizadas pelos psicanalistas e nem mesmo foi oferecido qualquer tipo de reparação pelos danos causados por anos de exclusão dos homossexuais. Se negar a reconhecer o seu papel de omissão diante dos ataques de psicanalistas como Rado, Bergler, Bieber Ovesey e Socarides, não ter feito um movimento proporcional à altura dos feitos destes autores, é um sinal de ataques futuros ocorrerão.
A CONTINUIDADE DA VIOLÊNCIA E SEU IMPACTO NO DISTANCIAMENTO DAS DRAG QUEENS DA PSICANÁLISE
A norma proscrita que excluía veladamente homossexuais – e demais pessoas cuja sexualidade e identidades divergiam dos padrões sociais em vigor – do aprendizado e de funções nas sociedades psicanalíticas consolidou, no referido movimento, uma conduta não oficial de segregação que legitimava práticas discriminatórias que já se encontravam presentes na sociedade. Formava-se, assim, uma vergonhosa situação onde a regra proscrita e um modelo teórico que alimentavam um ambiente institucional hostil à homossexualidade, resultando desta equação um distanciamento entre os ideais de acolhimento e o que era praticado nos corredores das sociedades de psicanálise.
Como era de se esperar, ocorreram evasões de pessoas homossexuais dos movimentos psicanalíticos, uma vez que ali não eram bem-vindos (Roudinesco, 2020). Caso conseguissem ingressar nessas instituições, precisavam manter o silêncio e não comentar, nem mesmo com o próprio analista a sua orientação sexual (Bulamah, 2014), cedendo o pretenso candidato da própria dignidade ao ter de esconder de todos a atração sexual que sentia por alguém do mesmo sexo que o seu. A psicanálise exigia um alto preço a ser pago pelos homossexuais que, ou eram encaminhados para planos terapêuticos que implicavam na reorientação sexual, ou então deveriam prescindir de uma vida sexual, haja vista que, em algum dia, isso pudesse ser exposto e então ser qualificado, na melhor das hipóteses, de um depravado que dissimulava sua lascívia.
Quão irônico foi o legado que estes psicanalistas ofertaram para calçar a estrada que percorreria a psicanálise… Justo ela, a disciplina que contestou a soberania da racionalidade cartesiana, que formulou uma teoria que versa sobre as periferias da mente; que parou para escutar os conteúdos reprimidos; que esclareceu quão opressiva era a sociedade vitoriana às mulheres ao ponto de causarem os sintomas histéricos; e que estudava os fenômenos desdenhados pela ciência da época – os sonhos, os atos falhos e os chistes –; agora se vê de joelhos aos poderes dos valores hegemônicos e à moralidade que um dia denunciou como causa dos sofrimentos psíquicos.
Os conflitos entre a moralidade hegemônica e as subjetividades dissidentes da norma heterossexual não ficaram localizados no passado do movimento psicanalítico e também não se encerraram os atritos e as perseguições quando foram editadas as normas da IPA em 2002. Conforme a entrevista da drag queen Rita von Hunty ao psicanalista Christian Dunker, as pressões ideológicas ainda subsistem na teoria e clínica psicanalítica: “como LGBTs, nós fomos ejetados da psicanálise e [esta exclusão] não parou. […] Anna Freud, filha de Freud, foi homofóbica e manteve uma prescrição que homossexuais não podiam exercer a clínica. Aqui no Brasil, o Coutinho Jorge passou os anos 90 despatologizando a homossexualidade, nos anos 2000 ele escreve um criminoso de um texto no qual ele fala que pessoas transexuais são pessoas homossexuais mal resolvidas” (Dunker, 2024, a partir de 40min 24s).
Em sua fala, Rita von Hunty foi correta ao afirmar que as exclusões possuem origem histórica, citando o veto de Anna Freud ao exercício da psicanálise por homossexuais como exemplo da norma proscrita, mas ela foi ainda mais enfática ao afirmar a comunidade LGBTQIAPN+ continua banida da psicanálise, de onde se desprende a ideia que as forças que motivaram a norma proscrita continuam atuantes, haja vista que o preconceito, seu principal incentivador, ainda segue enraizado na sociedade.
O texto ao qual Rita von Hunty se refere para exemplificar o banimento de minorias sexuais e de gênero é “Nada Está Definitivamente Conquistado”, escrito pelo psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge (2019, p. 88), onde se destaca “tenho que lhe dar uma notícia escabrosa: atualmente a negação da homossexualidade assumiu uma forma hipersofisticada: a transexualidade”. Essa afirmação ilustra como psicanalistas mais conservadores falham ao interpretar as experiências subjetivas das pessoas trans, comunicando aos atores que interpretam drag queens que nem todos os clínicos foram devidamente instrumentalizados teoricamente para tomá-los em análise.
Entretanto, as declarações do psicanalista brasileiro não são um caso isolado. Em 1999, por ocasião da promulgação do Pacto Civil de Solidariedade (PAC) – uma medida jurídica que auxiliou a sociedade francesa a se familiarizar com as uniões civis entre as pessoas do mesmo sexo –, o padre e psicanalista Tony Anatrella se posicionou contra essa disposição legal, argumentando que ela incentivaria o concubinato e a produção de uma “sociedade pré-genital fragmentada” (Tort, 2024, p. 77). Segundo Maya e Assis (2024), Charles Melman foi outro psicanalista que reagiu de maneira negativa à PAC, uma vez que antevia problemas aos filhos adotados por casais gays e lésbicas, dado que não haveria diferenciação entre os sexos das pessoas que se incumbiriam dos cuidados da criança, resultando isto na renegação da diferença sexual. Tais manifestações comprovam que o preconceito pode se revestir de discurso técnico para oferecer obstáculos a conquistas do movimento LGBTQIAPN+, sinalizando aos atores que performam drag queens que psicanalistas instrumentalizam a teoria psicanalítica para justificar retrocessos na conquista dos seus direitos.
Além de Marco Antonio Coutinho Jorge, Tony Anatrella e Charles Melman, é possível ler na transcrição da entrevista de Jean-Jacques Rassial (2015, p. 567 e 568) que ele se reconhece simpatizante dos “homossexuais militantes contra a normalidade e […] desprezo pelos homossexuais que querem ser considerados normais”. Essa declaração de simpatia é um tanto contraditória, uma vez que o psicanalista não acredita que a homossexualidade é algo normal: “Freud e Lacan são claros sobre a homossexualidade, dizendo que é uma perversão [...] ambos mantiveram essa posição até o fim”. Dito de outra forma, psicanalistas inspirados em Rassial, por mais que considerem as lutas pelas conquistas sociais da comunidade LGBTQIAPN+, mantém a homossexualidade entre as perversões, revelando aos artistas, geralmente homens homossexuais que exercem artisticamente suas drag queens, que seriam escutados de maneira enviesada, sendo-lhes imputado antecipadamente o rótulo de perversos a despeito da sua estrutura clínica.
As reações ao discurso de Paul Preciado (2022, p. 9) na Escola da Causa Freudiana em 2019 servem para exemplificar a resistência a transformações que ocorre nas instituições psicanalíticas. Preciado – uma pessoa que se considera de gênero não-binário e se apresenta como homem trans – pede aos psicanalistas que assumam o compromisso de reformular suas teorias a fim de melhor escutar as experiências de pessoas semelhantes a ele. Como resposta, se instala na plateia uma um clima de animosidade: “metade da sala riu, enquanto outros reagiram com gritos ou me pedindo para sair. Uma mulher declarou, alto o suficiente para que pudesse ouvir da tribuna: ‘Não deveríamos permitir que ele falasse, ele é Hitler’. A outra metade da sala a aplaudiu.”. Deste evento a mensagem que chega aos atores que encenam as drag queens nos palcos é que os psicanalistas, de maneira geral, não estão dispostos a propor avanços que venham a contribuir para uma escuta rigorosa e contemporânea de membros da comunidade LGBTQIAPN+.
A agressividade implícita nos risos irônicos e nas comparações infames denotam uma resistência coletiva que se ampara no conservadorismo da própria instituição psicanalítica, que opera, ao mesmo tempo, tentando se abrir ao novo, mas se enclausura percebendo este elemento inédito como uma ameaça à integridade de sua teoria. Ao reagirem com hostilidade, os membros das instituições psicanalíticas se mostram contrários a Lacan quando enuncia “Deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época" (Lacan, 1998, p. 321). Na citação, somo advertidos que cada tempo possui uma modalidade de subjetividade e que a teoria psicanalítica deve alcançar as subjetividades contemporâneas e não o inverso. Neste sentido, abdicar o novo – e que no contexto deste trabalho se aplica às drag queens e as demais dissidências de gênero – expõem o conservadorismo que despoja a psicanálise dos recursos de escuta, afastando-se da clínica emancipatória que Freud propunha ao tratar das questões que envolvem a homossexualidade na década de 1930.
Entretanto, quando se fala sobre as subjetividades derivadas das dissidências sexuais, Freud (1917/2014, p. 406) já nos alertava acerca de como a psicanálise deveria compreendê-las:
como nos posicionamos ante essas modalidades incomuns de satisfação sexual? É evidente que a indignação, a expressão de nossa aversão pessoal e a garantia de que não partilhamos esses apetites não resolvem nada. Não é para isso que fomos solicitados. No fim, trata-se de um campo de fenômenos como outro qualquer.
Diante dos desafios da contemporaneidade, urge a necessidade de que a psicanálise retorne a Freud para que ela não apenas escute, mas acolha em suas fileiras clínicos das mais diversas orientações sexuais e identidades de gênero, incluindo neste ínterim, artistas que desenvolvem a arte das drag queens. Trata-se não de romper com a normatividade esperada pela sociedade hegemônica, mas também de resgatar a plasticidade que converge à pulsão, potencializando os sentidos dados à pluralidade das experiências humanas: “uma polimorfia originária, diria Freud, para desgosto dos moralistas de seu tempo, na qual os acontecimentos e as escolhas inconscientes presidem à vida sexual de cada um (LAUFER, 2025, p. 150).
Retomando as observações que indicam a continuidade da perseguição contra as orientações sexuais e identidades de gênero diversas da norma, é possível notar que o mesmo preconceito que motivou a existência da norma proscrita, agora repercute na ausência de um posicionamento das instituições psicanalíticas que coíba as ações discriminatórias. Ainda que sejam atos de injúria individuais, quando somadas umas às outras e contextualizadas ao passado do movimento psicanalítico, instalam um clima de forte aversão das minorias sexuais e de gênero à psicanálise como um todo, uma vez a discriminação é um fantasma que ainda assombra a sociedade, pode tomar de assalto a psicanálise e dar novas cores a um passado que ainda não se encontra totalmente superado.
Marco Antonio Coutinho Jorge, Charles Melman e Jean Jacques Rassial são nomes importantes e gozam de prestígio na psicanálise. Eles integram sociedades psicanalíticas e são membros engajados tanto clínica quanto teoricamente. Ocuparam cadeiras em importantes universidades e contribuíram para a formação de gerações de psicanalistas e profissionais através de seus ensinos ou então levaram suas ideias adiante através de livros, capítulos de livros, artigos científicos ou organizadores de publicações em editoras de peso. E o mesmo acontece com a psicanálise na França, que se encontra entre as melhores do mundo e sua influência está além de suas fronteiras. Portanto, quaisquer linhas escritas por eles, caso lidas por pessoas ingênuas ou então que vivem em num ambiente repleto de julgamentos morais e preconceitos, torna-se um terreno fértil para ressuscitar, justificar e apoiar a exclusão e discriminação de qualquer membro da LGBTQUIAPN+.
Muito embora existam posicionamentos contrários e a prova disto é o tom de crítica e de denúncia que os psicanalistas assumem ao escrever os textos aqui citados, a impressão que se tem é que este é um trabalho insuficiente ou então, na melhor das hipóteses, limitado ou sem o alcance necessário para conquistar a confiança das pessoas heterocisdivergentes para entrar em análise, como indica a fala da trans Samantha Mendanha (2025, a partir de 2min 10s): “Eu não sou fã de psicanálise muito não. Mas eu não sou fã de psicanálise quando é uma coisa clínica, eu não gosto da psicanálise clinicamente aplicada”. Presume-se desta frase que possivelmente a distância entre os atores que encenam drag queens – e também os demais membros comunidade LGBTQIANPN+ – e a psicanálise é a resultante de uma longa equação, cujos termos incluem a patologização da homossexualidade no início do século XX; a norma proscrita; os ataques vindos de psicanalistas na segunda metade do século XX e; as mensagens contemporâneas de intolerância vinda de psicanalistas importantes.
E justamente por um legado de violência institucional e de declarações hostis vindas de psicanalistas nos dias atuais – que são um eco de mensagens ainda mais violentas de um passado não tão distante – é que se instaura na comunidade LGBTQIAPN+ receios em aderir à psicanálise. Desta forma, os movimentos de recuo e distanciamento diante da psicanálise poderia ser interpretado como uma das causas da escassez de artistas que interpretam drag queens pouco se interessarem pela formação psicanalítica: trata-se uma resistência em favor da proteção da sua própria dignidade e também de toda uma classe que sua arte representa, face o vilipêndio que esta disciplina exerceu àqueles que o seu trabalho representa.
Ao se montarem, as drag queens trazem consigo a incumbência de contestarem o preconceito contra a comunidade LGBTQIAPN+, utilizando as ferramentas artísticas que subvertem as normas arbitrárias de gênero. Através das artes, da exuberância e do humor ácido, elas emprestam o seu próprio corpo para as performances que garante um espaço de resistência às hostilidades do quotidiano, desafiando o conservadorismo social e denunciando o preconceito por meio das caracterizações que leva às suas apresentações. Com suas presenças, as drags afrontam a heterossexualidade compulsória, a binariedade de gênero, o sexo reduzido às leis biológicas e, quando no palco, elas descortinam a marginalização e a invisibilidade, forçando a sociedade a reconhecer a existência de pessoas que foram varridas para debaixo do tapete por não se adequam às normas vigentes na sociedade.
A utilização da arte drag como canal de denúncia assume um lugar de centralidade ao desafiar a história de preconceito e silenciamento das subjetividades dissidentes junto a setores reacionários da psicanálise. Neste cenário, o psicanalista que assume, nos palcos, uma persona drag, expõe com suas performances uma contradição latente dentro da própria disciplina: ainda que a psicanálise se debruce sobre os estudos dos desdobramentos da sexualidade recalcada pela moralidade vigente, as suas instituições mais conservadoras e suas exigências para a formação podem operar, ironicamente, como agentes que reproduzem este mesmo recalque. Sob esta perspectiva, a arte drag funciona como uma intepretação psicanalítica da própria psicanálise, uma vez que ela desmascara as rupturas de um discurso que estipula a sexualidade que deve ser considerada normal em detrimento da escuta do inconsciente. E se, como nos alerta a ortodoxia do texto freudiano acerca da polimorfia das pulsões, as drag queens são a prova de que não existe um único modo de ser, estar e existir no mundo, desestabilizando a supremacia dos parâmetros heteronormativos e restituindo a clínica ao seu lugar de pluralidade ao qual ela se destina.
Além de se prestar aos serviços de uma interpretação psicanalítica sobre a própria psicanálise – algo que expõe a arrogância de núcleos retrógrados nas instituições –, a arte drag atua como um imperativo de continuidade da análise pessoal. Por nascer das subjetividades heterocisdivergentes e colocar em xeque a norma heterossexual, as performances drags convocam os analistas a revisitarem o seu próprio inconsciente, assegurando que a contratransferência não o tome de assalto ou contamine sua escuta. Por conta da atenção à ética da psicanálise, a natureza incomum e transgressiva dessa arte remete à necessidade de continuidade da formação psicanalítica apoiada sobre o tripé da teoria, supervisão e análise, elementos que devem caminhar lado a lado e sem hierarquias entre elas.
Neste panorama de violência e resistência, adentrar aos átrios e circular pelos corredores das instituições psicanalíticas é o mesmo que se render aos preconceitos que historicamente este ofício estendeu à comunidade LGBTQIAPN+, perpetuando o sofrimento que seus membros lutam por se desvencilhar. Logo, existe a necessidade da psicanálise reconquistar não apenas as subjetividades dissidentes da norma sexual vigente, mas também trazer para seu lado a população negra, indígena, quilombola, das comunidades menos favorecidas, mas principalmente os atores que encenam as drags, aliando-se às minorias para o combate ao preconceito e exclusões que um dia ela favoreceu.
A psicanálise tem um compromisso ético de deixar os seus pomposos consultórios para ir de encontro às sexualidades e identidades dissidentes da norma vigente, assistindo às performances artísticas drags nos palcos dos bares e boates, lugares onde se manifestam parte importante da cultura marginalizada que ela também deve privilegiar. Ela precisa reconhecer que a arte das drag queens é uma crítica ao modo como o binarismo de gênero encarcera as subjetividades, expressando o quão difícil é sustentar performances rígidas exercidas pelos homens e mulheres em nossa cultura. Por fim, devem teorizar inspirados pela exuberância das danças, músicas, coreografias e brilho das drag queens para que cumpram esta tarefa com a mesma alegria que as performances são levadas ao palco.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Caminhando para a finalização desta investigação a respeito do que poderia ser uma das causas da escassez de psicanalistas que, além do ofício de escuta do inconsciente, também exercem o fazer artístico das drag queens, pudemos observar que este fenômeno é consequência de um legado histórico de preconceito e exclusão no movimento psicanalítico.
O pensamento freudiano propunha que a homossexualidade fosse compreendida como uma das possíveis ramificações da pulsão, contribuindo para que não fosse encarada de maneira tão pejorativa como faziam seus contemporâneos, que a localizavam na esfera do desvio patológico.
Na história da psicanálise houve divergências das perspectivas progressistas adotadas por Freud, quando alguns de seus discípulos formularam uma regra não oficial que perdurou até 2002, impedindo que homens homossexuais – e por consequência outras pessoas que exercessem práticas sexuais divergentes da norma social – assumissem cargos ou ingressassem nas instituições para o estudo da psicanálise. Como consequência desta norma tácita, houve um movimento que utilizava os jargões psicanalíticos como instrumento discriminatório contra os homossexuais.
Importantes psicanalistas contemporâneos continuaram esta onda de violência contra pessoas marcadas por suas sexualidades divergentes da norma social, um dos motivos pelos quais ocorre o afastamento das drag queens dos círculos de formação psicanalítica, uma vez que adentrar a este ambiente seria o mesmo que endossar os ataques que a comunidade que pertence sofreu por décadas e ainda sofre.
Perguntamo-nos, então, onde foi que a psicanálise se perdeu? Freud, que no século passado já assumia uma posição tão progressista ao publicar em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” que não há nada mais humano que a ausência de um objeto à pulsão e este é o motivo pelo qual a vida sexual se dirige para os mais diversos lugares, oferecendo as mais distintas cores à nossa existência e sexualidade.
As pretensões de “retorno a Freud” foi uma afirmação seletiva e que poderia ser tomada caso endossasse o posicionamento da moralidade hegemônica ou trabalhasse a favor da discriminação de minorias? É vergonhoso percorrer a história da psicanálise e verificar que clínicos obtusos e incapazes de tolerar o diferente se tornaram as vozes mais importantes de um movimento que reforçava o preconceito que se estendeu à comunidade LGBTQIAPN+, sem encontrar resistência à altura do estrago que promoveram por décadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ayouch, Thamy. Psicanálise e homossexualidades: teoria, clínica, biopolítica. CRV: Curitiba, 2015.
AYOUCH, Thamy; BULAMAH, Lucas Charafeddine. A homossexualidade dos analistas - história, política e metapsicologia. Percurso, São Paulo, Brasil, v. 26, n. 51, p. 92–109, 2013. Disponível em: https://percurso.openjournalsolutions.com.br/index.php/ojs/article/view/1357. Acesso em: 29 nov. 2025.
Brody, Jane. Estudo de Kinsey revela que homossexuais apresentam predisposições precoces. The New York Times, Nova Iorque, 23 de agosto de 1981. Disponível em: https://www.nytimes.com/1981/08/23/us/kinsey-study-finds-homosexuals-show-early-predisposition.html. Acesso em: 25 dez. 2025.
BulamaH, Lucas Charafeddine. História de uma regra não escrita: a proscrição da homossexualidade masculina no movimento psicanalítico. 2014. 165 f. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-graduação em Psicologia) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
CECCARELLI, Paulo Roberto. A invenção da homossexualidade. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, [S. l.], v. 2, n. 02, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2268. Acesso em: 21 nov. 2025.
COUTO, Richard Harrison; LAGE, Tayane dos Santos. Homossexualidade e perversão no campo da psicanálise. Semina: Ciências Sociais e Humanas, [S. l.], v. 39, n. 1, p. 35–52, 2018. DOI: 10.5433/1679-0383.2018v39n1p35. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/seminasoc/article/view/32756. Acesso em: 21 nov. 2025.
Drescher, Jack. A história da homossexualidade e a psicanálise organizada. In: Quinet, Antonio; Jorge, Marco Antonio Coutinho. (orgs.). As homossexualidades na psicanálise: na história de sua despatologização. Rio de Janeiro: Atos e Divãs, 2020.
DUNKER, Christian. Psicanálise e marxismo queer com Rita von Hunty. [S. l.: s.n. 2024]. Publicado pelo canal Christian Dunker. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YbVhtjLVX4M&t=2475s. Acesso em 29 de dezembro de 2025.
Foucault, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
Freud, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. (Obras Completas de Freud, Vol. 6). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. (Trabalho original publicado em 1905).
FREUD, Sigmund. A vida sexual humana. (Obras Completas de Freud, Vol. 13). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Trabalho original publicado em 1917).
Freud, Sigmund. Carta sobre homossexualidade. In: Iannini, Gilson (org.). Caro Dr. Freud: respostas do século XXI a uma carta sobre homossexualidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Trabalho original publicado em 1935).
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
Jorge, Marco Antonio Coutinho. Nada está definitivamente conquistado. In: Iannini, Gilson (org.). Caro Dr. Freud: respostas do século XXI a uma carta sobre homossexualidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.
KLEIN, Melanie. Os efeitos das primeiras situações de angústia sobre o desenvolvimento sexual do menino. In: KLEIN, Melanie. Psicanálise da criança. São Paulo: Mestre Jou, 1969. (Trabalho original publicado em 1932).
Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LAUFER, Laurie. Rumo a uma psicanálise emancipada. Porto Alegre: Criação Humana, 2025.
Masson, Jeffrey Moussaieff. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess – 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986.
MAYA, Acyr. O que os analistas pensam sobre a homossexualidade?. Psyche (São Paulo), São Paulo , v. 11, n. 21, p. 85-104, dez. 2007 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382007000200006&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 25 de novembro de 2025
Maya, Acyr; MARQUES, Luciana. A homofobia em nome da heterotopia. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho; Travassos, Natália Pereira. Do armário às ruas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2024.
MENDANHA, Samantha. O local de cale-sede Maria Rita Kehl – o fantasma do identitarismo e uma crítica válida. [S. l.: s.n. 2025]. Publicado pelo canal @TRANS-missão. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=boyfcgWcc60&t=133s. Acesso em 29 de dezembro de 2025.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2007.
Paolielo, Gilda. A despatologização da homossexualidade. In: Quinet, Antonio; Jorge, Marco Antonio Coutinho (orgs.). As homossexualidades na psicanálise: na história de sua despatologização. Rio de Janeiro: Atos e Divãs, 2020.
Preciado, Paul. Eu sou o monstro que vos fala: relatório para uma academia de psicanalistas. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
Rado, Sandor. In: Mijolla, Alain. Dicionário internacional de psicanálise: conceitos, noções, biografias, obras, eventos, instituições. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.
Rassial, Jean-Jacques. Jean-Jacques Rassial. In: Selaibe, Mara; Carvalho, Andréa. (orgs.) Psicanálise entrevista. São Paulo: Estação Liberdade, 2015.
Roudinesco, Elizabeth. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
ROUDINESCO, Elizabeth; Plon, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Roudinesco, Elizabeth. A psicanálise à prova da homossexualidade. In: Quinet, Antonio; Jorge, Marco Antonio Coutinho. (orgs.). As homossexualidades na psicanálise: na história de sua despatologização. Rio de Janeiro: Atos e Divãs, 2020.
TORT, Michel. Homofobias psicanalíticas. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho; Travassos, Natália Pereira. Do armário às ruas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2024.
1 Doutorando em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá.
2 Doutor em Psicologia e docente do Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá.