REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777862659
RESUMO
O presente trabalho discute as possibilidades de articulação entre a Literatura Infantil e a Educação Matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental, com ênfase na educação antirracista. Tem como objetivo analisar duas narrativas literárias que possam subsidiar a prática docente no reconhecimento das culturas africanas e afro-brasileiras, articulando-as à educação matemática. Busca, ainda, evidenciar a presença histórica e cultural dos povos africanos na produção de conhecimentos matemáticos, relacionando essas contribuições ao ensino contemporâneo. A pesquisa adota uma abordagem interdisciplinar, articulando História, Educação Matemática e estudos literários, fundamentada na Lei 10.639/03, que instituiu o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Caracteriza-se como uma investigação de natureza bibliográfica e interpretativa, baseada na análise de duas obras de literatura infantil. Nesse contexto, busca responder à seguinte questão: como narrativas da literatura infantil com temática africana podem contribuir para o ensino de conceitos matemáticos e promover o reconhecimento da ancestralidade africana no contexto escolar dos anos iniciais? Os resultados evidenciam que a literatura infantil constitui um recurso potente para o desenvolvimento de práticas pedagógicas antirracistas, favorecendo um ensino que valoriza epistemologias africanas, contribui para a formação crítica dos alunos e se torna mais significativo no contexto escolar.
Palavras-chave: Educação Matemática; Literatura Infantil; Cultura Africana; Educação Antirracista; Etnomatemática.
ABSTRACT
This paper discusses the possibilities of linking Children's Literature and Mathematics Education in the early years of Elementary School, with an emphasis on anti-racist education. Its objective is to analyze two literary narratives that can support teaching practice in recognizing African and Afro-Brazilian cultures, linking them to mathematics education. It also seeks to highlight the historical and cultural presence of African peoples in the production of mathematical knowledge, relating these contributions to contemporary teaching. The research adopts an interdisciplinary approach, linking History, Mathematics Education, and literary studies, based on Law 10.639/03, which established the teaching of Afro-Brazilian History and Culture. It is characterized as a bibliographic and interpretative investigation, based on the analysis of two works of children's literature. In this context, it seeks to answer the following question: how can narratives from children's literature with African themes contribute to the teaching of mathematical concepts and promote the recognition of African ancestry in the school context of the early years? The results show that children's literature is a powerful resource for developing anti-racist pedagogical practices, promoting teaching that values African epistemologies, contributes to the critical formation of students, and becomes more meaningful in the school context.
Keywords: Mathematics Education; Children's Literature; African Culture; Anti-racist Education; Ethnomathematics.
INTRODUÇÃO
O conhecimento matemático tem suas origens nas necessidades humanas de compreender e intervir no mundo, o que impulsionou a produção dos saberes ao longo da história. Na escola, a matemática também se transforma, mas permanece como um componente curricular indispensável à formação básica. Conforme argumenta Machado (1987), desde os primeiros anos de escolaridade, esse ensino é reconhecido como essencial, integrando o próprio processo de alfabetização.
A alfabetização Educação Matemática pode ser entendida como a leitura e escrita da linguagem matemática, articulada ao processo de alfabetização em língua portuguesa e às práticas sociais de leitura e escrita (Fonseca, 2009; Soares, 2004). Para a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC) (Saviani, 2011), a escola tem a responsabilidade de garantir o acesso equitativo a saberes científicos, históricos e culturais, de modo a possibilitar o desenvolvimento humano pleno. Assim, a apropriação dos conceitos matemáticos exige a intervenção intencional e sistematizada do professor, que, ao articular ciência e cotidiano, possibilita ao aluno compreender a relevância dos conhecimentos e sua aplicabilidade. Nessa perspectiva, o uso da Literatura Infantil pode contribuir para a compreensão de conceitos abstratos para as crianças.
Nesse processo, a Literatura Infantil configura-se como recurso pedagógico potente, pois favorece abordagens lúdicas, significativas e interdisciplinares do ensino matemático. Ao articular diferentes linguagens e narrativas, ela torna o processo educativo mais inclusivo e dinâmico, estimulando a imaginação, o raciocínio lógico e a capacidade de resolução de problemas (Borba; Penteado, 2010; Smole; Diniz; Cândido, 2000). Para tanto, é fundamental que a formação docente articule teoria e prática, preparando o professor para romper com paradigmas tradicionais e construir experiências inovadoras e contextualizadas na alfabetização matemática.
Nóvoa (2009), afirma que o professor deve assumir o protagonismo de sua trajetória, investigando intencionalmente a própria prática. Essa reflexão contínua é essencial para que professores alfabetizadores desenvolvam ações pedagógicas mais eficazes, especialmente para a Educação Matemática. D’Ambrosio (2001), menciona como sociedades distintas interpretam o mundo e organizam sua sobrevivência por meio de mecanismos lógicos e quantitativos próprios, os quais refletem a identidade e a história de cada contexto cultural-perspectiva que fundamenta a Etnomatemática e reforça a necessidade de práticas escolares que enfrentem o racismo e valorizem saberes plurais. Ainda, para o autor, o ensino tradicional da matemática reflete uma visão eurocêntrica, construída historicamente a partir da hegemonia cultural europeia, o que marginaliza outros modos de produzir e compreender conhecimentos matemáticos. Sob esse viés, a Educação Matemática deve pautar-se em um ensino mais inclusivo e que seja sensível às realidades socioculturais dos estudantes, reconhecendo a matemática como um conjunto de práticas culturais desenvolvidas por diferentes povos em resposta a problemas de sobrevivência, organização social e simbolização.
Nesse sentido, revisitar a história e a historiografia dos povos africanos no campo da Educação Matemática implica problematizar os processos coloniais que apagaram ou deslegitimaram esses conhecimentos. Ao reconhecer tais saberes como produções científicas e culturais, amplia-se a possibilidade de construção de práticas pedagógicas mais plurais e antirracistas no ensino brasileiro. Nesse contexto, a Literatura Infantil configura-se como um recurso didático por meio das abordagens interdisciplinaridades, permite conectar os alunos a diversas possibilidades de aprendizagem e reflexão aos conceitos matemáticos e sobre a diversidade cultural e histórica.
Ao tratarmos dessa temática alinhada à educação antirracista, Chimamanda (2019)7 evidencia como as narrativas únicas, simplificadas e repetidas sobre a realidade moldam percepções equivocadas sobre povos, culturas e identidades, especialmente quando produzidas a partir de relações de poder desiguais. No seu texto intitulado ‘O perigo de uma história única’, a autora relata experiências pessoais para mostrar como a ausência de diversidade narrativa pode gerar estereótipos, processos de desumanização e o apagamento de subjetividades, ao mesmo tempo em que aponta o potencial transformador da literatura como ferramenta de emancipação e educação crítica.
No contexto educacional, tratar do texto da autora em práticas educativas se torna fundamental para a educação antirracista ao destacar o perigo de uma única história, na medida em que problematiza visões hegemônicas e reforça a necessidade de reconhecer e difundir narrativas plurais como essencial para combater preconceitos, ampliar a compreensão sobre diferentes realidades e promover justiça social.
Eu amava aqueles livros americanos e britânicos que lia. Eles despertavam minha imaginação. Abriram mundos novos para mim, mas a consequência não prevista foi que eu não sabia que pessoas iguais a mim podiam existir na literatura. O que a descoberta de escritores africanos fez por mim foi isto: salvou-me de ter uma história única sobre o que são os livros (2019, p. 14).
No contexto educacional, a incorporação dessas reflexões mostra-se fundamental para o trabalho de uma tomada de consciência para a promoção de uma educação antirracista, na medida em que problematiza visões hegemônicas e reforça a necessidade de valorização de narrativas plurais. Para a Educação Matemática, essa perspectiva contribui para a interdisciplinaridade e conceitos matemáticos a partir de situações cotidianas, reconhecendo diferentes formas de produzir saberes e favorecendo práticas pedagógicas mais inclusivas, críticas e culturalmente situadas.
Para dialogar com Chimamanda, a autora brasileira Carolina de Jesus (1960)8, contribuiu para a educação antirracista a partir de sua história ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’ ao dar visibilidade, por meio de sua escrita, às experiências de mulheres negras e pobres que historicamente foram silenciadas. Em ‘Quarto de Despejo’ e outros textos, ela denuncia as violências do racismo estrutural e a desumanização vivida nas margens da sociedade, ao mesmo tempo em que afirma sua própria voz e inteligência literária, rompendo estereótipos sobre quem pode produzir conhecimento. Sua obra permite a reflexão e compreensão do racismo articulado à pobreza, à exclusão e ao gênero, trazendo para o currículo escolar relatos autênticos e potentes sobre a realidade brasileira.
Além disso, a trajetória de Carolina, foi marcada por resistência, criatividade e inspiração para valorizar narrativas negras, fortalecer a autoestima de estudantes e promover debates críticos sobre desigualdade, cidadania e direitos humanos — pilares essenciais de uma educação verdadeiramente antirracista e necessário para a discussão e reflexão na e para a Educação Matemática Antirracista.
Ao pensarmos e analisarmos como foi o processo de escravidão no Brasil ao longo de seus 338 anos, consideramos as lutas e avanços significativos por uma educação antirracista. Sob esse viés, a literatura infantil é um suporte de leitura e também se torna uma investigação matemática. Ao narrar a organização de um mercado banto ou a arquitetura de grandes impérios, a obra literária permite que o aluno organize conceitos de contagem, agrupamento e formas geométricas. Pode assim reconhecer que o pensamento abstrato é uma construção de matriz africana, que rompe com a hegemonia que é um produto exclusivamente ocidental.
Assim, a promulgação da Lei nº 10.639/03 (Brasil, 2003), ao tornar obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, marcou um movimento de revalorização dessas epistemologias. No campo da Educação Matemática, a referida lei impulsionou reflexões sobre como a cultura africana e afro-brasileira pode dialogar com conceitos matemáticos de forma significativa. Nesse cenário, a literatura infantil surge como ferramenta pedagógica poderosa, capaz de articular emoção, imaginação e conhecimento, permitindo a inserção de temas africanos no cotidiano escolar de modo sensível e crítico. Foi a partir da Lei nº 10.639/03 (Brasil, 2003) que buscou concretizar plano de políticas públicas e
[...] de reconhecimento e de valorização de sua história, cultura e identidade. [...] Assim, descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos terão a oportunidade de interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. (Brasil, Lei 10.639/03, 2003, p. 11)
Nesse contexto, o ensino da Matemática na escola contemporânea ainda carrega marcas de uma tradição eurocêntrica que, por séculos, invisibilizou as contribuições de outras civilizações no desenvolvimento do pensamento lógico e numérico. Entre essas civilizações, as sociedades africanas pré-coloniais desempenharam papel fundamental na formação de sistemas de contagem, medidas, formas de organização espacial (geometria) e padrões que influenciaram, direta ou indiretamente, a ciência moderna. Diante disso, este trabalho tem como objetivo discutir as relações étnico-raciais na Educação Matemática por meio da análise de duas obras da literatura infantil, explorando como suas narrativas podem subsidiar o trabalho do professor em sala de aula no Ensino Fundamental I.
A inserção da cultura africana no ensino da Matemática pela literatura infantil não se limita à valorização da diversidade cultural, mas configura-se como uma prática explicitamente antirracista. Como explica Gomes (2012), a educação antirracista visa romper com estruturas históricas de exclusão e promover novas narrativas sobre a contribuição dos povos africanos na formação da sociedade brasileira. No contexto da Matemática escolar, isso implica em reconhecer epistemologias plurais e valorizar os modos diversos de produzir conhecimento.
Conforme Oliveira (2009, p. 18), “a literatura infantil, quando vinculada à cultura africana e afro-brasileira, contribui para a formação da identidade e da autoestima das crianças negras, fortalecendo a consciência de pertencimento”. Essa afirmação revela o poder simbólico da literatura para promover o reconhecimento da ancestralidade e atuar como ferramenta sensível de enfrentamento ao racismo no cotidiano escolar.
Ao incluir histórias africanas e afro-brasileiras nas aulas de Matemática, o professor atua na desconstrução de estereótipos e para o reconhecimento de epistemologias plurais. Essa prática favorece a construção de uma escola mais justa, na qual a aprendizagem para a Educação Matemática deixa de ser vista apenas como domínio técnico e passa a ser enxergada como expressão de identidade, cultura e história. É nesse diálogo entre saberes que a literatura infantil se torna um caminho produtivo para o ensino crítico da Matemática.
A literatura infantil é um caminho para o ensino crítico da Matemática. Isso ocorre porque o texto literário pode ser mobilizado não apenas como suporte para contagem, classificação e relações quantitativas, mas também como um dispositivo de problematização que conduz os alunos à reflexão e à construção de novas possibilidades de conhecimento. Assim, a Educação Matemática deixa de ser uma mera repetição de algoritmos eurocêntricos e passa a ser concebida como uma investigação de como diferentes civilizações organizaram seu mundo, promovendo um aprendizado que é, simultaneamente, técnico, histórico e político.
Diante desse cenário, coloca-se como problemática a necessidade de compreender de que modo práticas pedagógicas podem articular a Literatura Infantil à Educação Matemática, de forma a valorizar epistemologias africanas e contribuir para a construção de uma educação antirracista nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar narrativas da literatura infantil com temática africana, buscando compreender como essas podem favorecer o ensino de conceitos matemáticos e, simultaneamente, promover o reconhecimento da ancestralidade africana como produtora de saberes no contexto escolar.
A partir dessa discussão inicial, o trabalho está organizado em seções. Na primeira, apresenta-se uma contextualização histórica e conceitual sobre as contribuições africanas para o desenvolvimento do pensamento matemático e os fundamentos da Educação para as Relações Étnico-Raciais. Em seguida, são analisadas duas obras de literatura infantil, destacando como suas narrativas possibilitam a articulação entre cultura, identidade e conceitos matemáticos nos anos iniciais. Por fim, discutem-se as implicações pedagógicas dessa abordagem, evidenciando potencialidades e caminhos para práticas docentes antirracistas no Ensino Fundamental I.
LITERATURA INFANTIL E MATEMÁTICA: OBRAS PARA UMA PRÁTICA ANTIRRACISTA
Para compreender como se manifesta a educação para as relações étnico-raciais no cotidiano escolar, são necessárias práticas transformadoras e críticas, o que pressupõe que o professor possua conhecimento teórico e sensibilidade pedagógica para planejar ações docentes eficazes e significativas para seus alunos. Segundo Freire (1993), a educação é um ato político; por isso, utilizar livros de literatura infantil que trazem ancestralidade, pertencimento, cultura e respeito aos povos negros constitui uma prática carregada de potencialidades, sentidos e intencionalidades. Nesse processo, algumas questões orientam a escolha do professor: que livro de literatura infantil levar para a sala de aula? Quem são e como são representados os personagens da obra? Em qual cenário a narrativa se desenvolve? A obra possibilita aprendizagens culturais e históricas? E, sobretudo, a história contribui para integrar a Matemática de forma interdisciplinar, potencializando a compreensão de conceitos presentes no cotidiano dos alunos?
Ao discutirmos sobre o ensino e a educação brasileira, é imprescindível considerar as relações étnico-raciais que fizeram parte da história e do contexto da formação do povo brasileiro. Inicialmente, a história estava atrelada ao capitalismo e à mão de obra escrava à escravidão dos povos nativos, e, em seguida, aos negros africanos. Esse processo histórico desencadeou concepções e práticas sociais de preconceito e desvalorização desses povos e que caminham até os dias atuais.
Diante desse contexto histórico marcado pela escravidão, pela colonização e pela imposição de uma matriz cultural eurocêntrica, a educação antirracista emerge como um instrumento fundamental para a superação das desigualdades raciais estruturalmente constituídas na sociedade brasileira. Essa perspectiva educacional propõe a valorização das histórias, culturas e saberes dos povos indígenas e afro-brasileiros, rompendo com práticas pedagógicas que naturalizam o racismo e a exclusão. Ao promover o reconhecimento da diversidade étnico-racial como elemento constitutivo da identidade nacional, a educação antirracista contribui para a formação de sujeitos críticos, capazes de questionar hierarquias raciais historicamente impostas e de construir relações sociais pautadas na equidade, no respeito e na justiça social, especialmente no âmbito escolar.
A partir dessas reflexões, foram selecionados dois livros de literatura infantil que permitem articular a educação antirracista ao ensino da Matemática em turmas de Ensino Fundamental I.
Para iniciar, propõe-se uma viagem pela história ‘As panquecas de Mama Panya9, de Mary e Rich Chamberlin (2005) (Figura 1). A narrativa acompanha a personagem Mamma Panya e seu filho Adika durante o caminho até a feira para comprar ingredientes para o preparo de panquecas. No percurso, Adika encontra vários amigos e os convida para comerem as panquecas em sua casa, criando situações que possibilitam trabalhar conceitos matemáticos de divisão, frações e medidas, além de raciocínio lógico e resolução de problemas ao discutir o desafio do personagem em compartilhar as panquecas entre todos. A história incentiva, em primeiro lugar, a empatia e o respeito pelas diferenças culturais, oferecendo um vislumbre da vida e dos costumes de um vilarejo africano. Em segundo lugar, promove valores importantes, como generosidade, solidariedade e comunidade, mostrando às crianças que, ao compartilhar, pode-se enriquecer a vida de todos nós.
Figura 1 - Capa do livro As panquecas de Mama Panya
O segundo livro escolhido é ‘Flávia e o bolo de chocolate10, de Míriam Leitão (2022) (Figura 2). Na história, uma mulher que não conseguia ter filhos decide procurar uma criança que não tenha mãe e que a queira. Realiza seu sonho ao encontrar a pequena Flávia. Por muitos anos, a menina cresce feliz, ao lado da nova mãe. Até o dia em que percebe a diferença entre a cor de sua pele e a da mãe. É quando entra em crise e começa a questionar as diferenças. Com uma estratégia criativa, a mãe vai desmontar o desconforto da filha com o fato de serem diferentes uma da outra. As duas farão um passeio pela sociedade brasileira, que tem vários tons de pele, para que a mãe mostre à filha que não há uma pessoa melhor que a outra. Esse enredo possibilita ao professor trabalhar conceitos matemáticos ligados a quantidades, proporções, sequências e unidades de medida, além de incentivar a leitura crítica de uma narrativa que valoriza memórias familiares, afetos e práticas culturais presentes no cotidiano das crianças.
Ademais, por se estruturar neste gênero discursivo, o livro amplia o potencial interdisciplinar da prática docente, permitindo integrar Matemática, linguagem e cultura de forma sensível e significativa, especialmente quando o professor contextualiza a atividade com discussões sobre identidade, convivência e relações étnico-raciais no ambiente escolar. Essa integração dialoga com a BNCC (BRASIL, 2018), que orienta o desenvolvimento de competências como o pensamento lógico, a comunicação e a valorização da diversidade cultural como parte da formação integral do estudante.
Figura 2: Capa do livro Flávia e o bolo de chocolate
Segundo Djamila Ribeiro (2019), pensar em uma educação antirracista é um processo que envolve uma reflexão crítica e profunda sobre o eu/nós e o mundo em que estou/estamos inseridos. Diante do exposto, se faz necessário repensar e reorganizar as práticas de ensino que possibilitam referenciar a cultura africana por narrativas que vão além de curiosidades para o que é diferente, mas sim, de apresentar leituras com o olhar para a história homogênea e a ressignificação da diversidade dos povos africanos.
Para Ribeiro (2019), possibilitar a interação dos alunos com narrativas e histórias africanas é garantir a aplicação da Lei nº 10.639/2003,
[...] pois conhecer histórias africanas promove a construção da subjetividade de pessoas negras, além de romper com a visão hierarquizada que pessoas brancas têm da cultura negra, saindo do solipsismo branco, isto é, deixar de apenas ver humanidade entre os iguais. Mais ainda, são ações que diminuem as desigualdades.
Assim, vale destacar que, no ambiente escolar, as práticas de ensino que incorporam a literatura no contexto da educação antirracista configuram-se como estratégias pedagógicas potentes para a problematização das relações étnico-raciais no ambiente escolar. A literatura, enquanto manifestação artística e cultural, possibilita o contato com narrativas que expressam vivências, memórias e identidades historicamente silenciadas, especialmente de autores e personagens negros e indígenas. Ao inserir essas obras no currículo escolar, o processo educativo amplia a compreensão dos estudantes acerca da diversidade étnico-racial, favorecendo o desenvolvimento do pensamento crítico, o reconhecimento da pluralidade cultural brasileira e o enfrentamento de estereótipos e preconceitos racialmente construídos.
Dessa forma, o ensino de literatura assume um papel fundamental na formação de sujeitos conscientes e comprometidos com a promoção da equidade racial. Entre práticas de ensino diversificadas para o ensino da matemática e uma educação antirracista, e como a literatura infantil rompe com a lógica eurocentrada e mecanizada do ensino da Matemática, aproximando os conteúdos matemáticos do cotidiano cultural das crianças e permitindo que a aprendizagem seja mais significativa, crítica e situada.
POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO PEDAGÓGICA NO ENSINO DA MATEMÁTICA
Reconhecer que ainda vivemos em uma sociedade estruturada no preconceito racial, é o início de uma caminhada para a desconstrução do racismo. A escola não é o único lugar para a transformação de uma história carregada de preconceito por muitos e muitos anos, mas é um dos caminhos possíveis para a mudança e transformação no conviver e respeitar o outro. Assim, deve-se possibilitar práticas de ensino interdisciplinar e com intencionalidade, de modo a articular a literatura infantil com a matemática, ou seja, a possibilidade do ensino da matemática imbricada com a realidade social por meio da literatura, um instrumento de mudança social e de aprendizagem.
O ensino para a Educação Matemática deve dialogar com histórias, culturas e ancestralidades para promover uma prática docente antirracista. Ao retomar as contribuições de Ubiratan D’Ambrosio sobre a valorização do conhecimento produzido por diversas culturas, percebe-se que a inclusão da cultura africana vai além da interdisciplinaridade: é o ponto onde a etnomatemática e a interculturalidade se encontram para ressignificar o saber escolar.
A partir do exposto, apresentam-se propostas de atividades baseadas nas obras ‘As Panquecas de Mama Panya’ e ‘Flávia e o Bolo de Chocolate’. O objetivo é demonstrar como a literatura infantil rompe com a lógica eurocentrada e mecanizada do ensino da Matemática, situando a aprendizagem no cotidiano cultural das crianças. Por meio da oralidade, da leitura e da prática culinária ('mão na massa'), os alunos mobilizam conceitos como unidades de medida, proporção e contagem, tornando o saber matemático significativo, crítico e intrinsecamente vinculado a uma educação antirracista.
Nos quadros 1 e 2, têm-se algumas sugestões de atividades voltadas para turmas do Ensino Fundamental I, que o professor poderá adaptar de acordo com o nível de apropriação dos conteúdos pelos seus alunos de maneira gradativa para trabalhar a matemática articulada à literatura infantil para discutir a educação antirracista.
Quadro 1: Propostas didáticas com ‘As Panquecas de Mama Panya’
1. Leitura e compreensão do livro: identificação dos personagens, cenário (Quênia) e a mensagem principal; 2. Exploração da paisagem local, costumes e tradições do lugar; 3. Análise do gênero discursivo receita, sua função social, estrutura e composição; 4. Interdisciplinaridade da matemática com a língua portuguesa; 5. Conteúdos matemáticos: situações de repartição e divisão (quantas panquecas para quantos convidados); frações simples usando os convites feitos por Adika: Contagem: As crianças podem contar os personagens convidados, as moedas que Mama Panya possui inicialmente, os ingredientes comprados e, posteriormente, os itens que cada convidado traz para o banquete. Adição: A narrativa naturalmente introduz a ideia de adição. Inicialmente, há Mama Panya e Adika (2 pessoas). À medida que Adika convida mais amigos, pode-se calcular o número total de convidados e, no final, o número total de pessoas no banquete. Noção de quantidade (conceito de escassez e abundância): A preocupação inicial de Mama Panya com a quantidade limitada de farinha para o número crescente de pessoas permite discutir conceitos de quantidade, escassez e como a partilha (adição de novos ingredientes) transforma a escassez em abundância. Fração e divisão (pela partilha): A história culmina na divisão das panquecas entre todos os presentes, o que pode ser usado para introduzir ou reforçar conceitos de partilha justa, divisão e frações. Resolução de problemas: A situação de Mama Panya ("terei o suficiente?") é um problema que as crianças podem ajudar a resolver, estimulando o raciocínio lógico e a criatividade para encontrar soluções (como a partilha comunitária). 6. Pergunta exploratória: Como a leitura da narrativa pode promover aprendizagens significativas sobre a cultura e valores dos povos africanos e relacionar à prática social da língua portuguesa e matemática no cotidiano dos alunos? 7. Atividade prática: produção das panquecas. |
Fonte: elaborado pelas autoras
Quadro 2: Propostas didáticas com ‘Flávia e o bolo de chocolate’
1. Apresentar a capa do livro e conversar com a turma: Quem é Flávia? Como é a sua família? 2. Após a contação da história, tratar de conceitos como: adoção, preconceito e diversidade; questionar os alunos sobre como cada personagem se sente; reflexões sobre diversidade e convivência no ambiente escolar; 3. Interdisciplinaridade da matemática com a língua portuguesa ao trabalhar a prática social da leitura e escrita do gênero discursivo receita e conteúdos matemáticos: - Unidades de medida (gramas, colheres, xícaras). - Proporções e escalonamento da receita (dobrar ou reduzir porções). -Sequência lógica dos passos da receita (ordem e organização). Contagem: Contar os ingredientes da receita: ovos, xícaras de farinha, colheres de açúcar, etc., enquanto "preparam" o bolo. Subtração: Quantas fatias cabem no bolo? Se cada um comer uma, quantas sobram? Medidas e proporções: Usar uma balança para pesar os ingredientes (ex: 100g de farinha, 50g de chocolate); Comparação: Qual ingrediente é maior/menor em quantidade? (Comparativo). Geometria: Identificar as formas (círculo da forma, retângulos das fatias do bolo). Gráficos e coleta de dados: Gráfico de barras: "Qual sabor de bolo você prefere?" (chocolate, baunilha ou outros sabores ditos pela turma) e produzir coletivamente um gráfico simples da turma. Lógica e sequência: Montar a sequência correta de como fazer o bolo (passo a passo). 4. Discussão sobre família, afetos, memórias e cotidiano das crianças. 5. Atividade prática: produção da receita do bolo de chocolate. |
Fonte: elaborado pelas autoras
Para superar as limitações do ensino tradicional de Matemática (exercícios mecânicos, descontextualização, foco no algoritmo), torna-se necessária a reflexão e reorganização do ensino, o planejamento de práticas pedagógicas que ampliem o significado da aprendizagem dos alunos e que tenham sentido. A literatura infantil surge, assim, como um recurso pedagógico potente, capaz de contextualizar conceitos matemáticos e aproximar o processo de ensino-aprendizagem da realidade, das vivências e das experiências das crianças. Ao integrar narrativas literárias ao ensino da Matemática, promove-se não apenas a compreensão conceitual, mas também o reconhecimento da diversidade cultural, em consonância com os princípios da Educação para as Relações Étnico-Raciais ao contribuir para a formação de sujeitos críticos, conscientes e socialmente comprometidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, o resgate da história e da historiografia dos povos africanos na Matemática é essencial para repensar a formação docente e os currículos escolares, integrando saberes que foram historicamente inviabilizados. A literatura infantil, por sua vez, mostra-se um instrumento didático inovador, sensível e capaz de unir imaginação, cultura e raciocínio lógico de maneira inclusiva e significativa.
Ao articular narrativas literárias aos conteúdos matemáticos, o professor amplia os horizontes de sentido do ensino da Matemática, transformando-o em uma prática que valoriza a diversidade cultural e reconhece a contribuição dos povos africanos e afro-brasileiros para a produção do conhecimento. Dessa forma, o ensino da Matemática mediado pela literatura infantil torna-se também um gesto político e pedagógico, situado na perspectiva da educação antirracista, ao reconhecer sabedorias como parte indissociável da formação humana e do cotidiano escolar brasileiro.
Sob essa ótica, no âmbito da Educação Matemática, conceitos de numeração, geometria e grandezas e medidas deixam de ser abstrações eurocentradas e passam a ser compreendidas como saberes situados, mobilizados pela resolução de problemas reais e pela investigação de padrões e formas presentes em diferentes contextos culturais. Essa prática atende às orientações legais e curriculares que estruturam a educação brasileira – da Lei nº 10.639/2003 às Diretrizes para a Educação das Relações Étnico-Raciais (Brasil, 2004) e à BNCC (Brasil, 2018) – sinalizando que o ensino da Matemática também é responsável por promover aprendizagens que reconheçam e valorizem diferentes matrizes culturais.
Assim, ao realizar buscas de pesquisas realizadas sobre a temática da literatura infantil relacionada à educação antirracista, muitos trabalhos foram encontrados; no entanto, poucos apresentados na educação matemática. Essa proposta de trabalho amplia as possibilidades de aprendizagem ao favorecer aos alunos a construção de significados e a contextualização dos conteúdos. Para que estas práticas sejam contempladas em sala de aula, uma das possibilidades é a importância do compartilhamento de ideias entre professores de matemática e de língua portuguesa para o planejamento colaborativo e reflexivo de aula, na qual uma liga à outra, tendo, assim, mais significado e melhor compreensão por parte dos estudantes.
Tendo em vista o trabalho para a desconstrução do preconceito racial, articulado à literatura infantil e à matemática, a sequência didática configura-se como uma proposta acessível e adaptável à realidade dos professores, permitindo a integração entre áreas do conhecimento sem perder de vista os objetivos matemáticos e formativos. Dessa forma, o ensino da Matemática deixa de ser compreendido apenas como um campo de saber abstrato, passando a dialogar com questões sociais, culturais e históricas relevantes para a formação dos estudantes.
Conclui-se que as práticas pedagógicas articuladas à literatura infantil e à Educação Matemática para uma educação antirracista, conforme apresentadas pelas duas obras literárias e por meio das personagens principais, favorecem aprendizagens mais significativas ao ancorar novos conceitos matemáticos em estruturas de conhecimento prévias e culturalmente situadas do aluno (Ausubel, 2003). Tal abordagem contribui para a construção de uma escola comprometida com a equidade, o respeito às diferenças e a justiça social. Ademais, evidenciam-se as potencialidades dessa articulação no processo de ensino e aprendizagem, ao mostrar para o aluno leitor as possibilidades de compreender os saberes matemáticos quando estes são trabalhados de forma interdisciplinar, intencional, lúdica e contextualizada.
Espera-se que este trabalho possa inspirar professores a desenvolverem estas ou propostas semelhantes para ampliar o repertório de práticas pedagógicas que promovam tanto o aprendizado matemático quanto a formação ética e social das crianças ao considerar a perspectiva intercultural que reconhece a Matemática que promove o conhecimento e desenvolvimento lógico e que se alinha ao fortalecimento da identidade e ao respeito à diversidade.
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SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. rev. Campinas: Autores Associados, 2011.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
1 Mestre em Letras (2024) pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná -UNIOESTE. Especialista em Ensino de Língua Portuguesa e Tecnologia Digital (2022) pela Universidade Estadual de Londrina- UEL, Alfabetização e Letramento (2025) pela Faculdade Pólis Civitas e Educação Digital (2025) pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Professora do Ensino Fundamental I no município de Cascavel - PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-7168-8890
2 Mestranda do ProfLetras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus de Cascavel. Especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Graduada em Pedagogia e em Letras – Português e Inglês. Professora da rede municipal de ensino. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestre em Educação pela Universidade Estadua do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Doutoranda em Educação - pela Universidade Oeste do Paraná UNIOESTE. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-2240-9329.
4 Licenciado em Letras Português-Inglês, Pedagogia e bacharel em Letras/Libras. Especialista em Tradução e Língua Inglesa. Professor da Rede Pública Municipal de Ensino de Cascavel. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Mestranda em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná- Unioeste. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0003-9778-9000.
6 Doutoranda Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) na Unioeste, câmpus de Cascavel. Mestre em Letras (Profletras) pela Unioeste, campus de Cascavel (PR). Professora da rede municipal de ensino. E-mail: vivianibarradass@gmail. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-3164-8698
7 Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, nascida em 1977, reconhecida por sua literatura que aborda feminismo, identidade, raça e cultura.
8 Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi uma escritora brasileira, negra e marginalizada, que se tornou mundialmente famosa com a publicação de "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada" em 1960, expondo a dura realidade da pobreza e da vida na favela do Canindé, em São Paulo, onde vivia como catadora de papel para sustentar a si mesma e seus três filhos. Sua obra, escrita em cadernos encontrados no lixo, é um marco da literatura brasileira por trazer a voz da periferia e discutir questões de raça, classe e injustiça social, transformando sua dor em poesia e resistência.
9 "As Panquecas de Mama Panya" é um livro infantil de Mary e Rich Chamberlin, ambientado no Quênia, que conta a história de Mama Panya e seu filho Adika, que, indo comprar ingredientes para panquecas, convidam todos os amigos que encontram pelo caminho, celebrando a generosidade, a amizade e a cultura africana através da partilha, com informações culturais e até uma receita no final.
10 "Flávia e o Bolo de Chocolate" é um livro infantil da jornalista Míriam Leitão, ilustrado por Bruna Assis Brasil, que aborda de forma sensível temas como adoção, identidade e racismo, usando a história de Flávia, uma menina negra adotada por uma mãe branca, Rita, que a ensina a valorizar as diferenças e a beleza da diversidade brasileira através de exemplos cotidianos e do famoso bolo marrom que dá nome à obra, promovendo a aceitação e o amor-próprio.