EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO CONTEXTO RIBEIRINHO: DESAFIOS, POSSIBILIDADES E VALORIZAÇÃO DA CULTURA LOCAL

PHYSICAL EDUCATION IN SCHOOLS WITHIN A RIVERSIDE CONTEXT: CHALLENGES, POSSIBILITIES, AND THE APPRECIATION OF LOCAL CULTURE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778550345

RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo analisar as práticas pedagógicas da educação física desenvolvidas na escola ribeirinha, identificando desafios e possibilidades para uma educação contextualizada e valorizadora da cultura local. A metodologia adotada consiste em uma pesquisa bibliográfica, apoiada em autores que discutem as diferentes abordagens do ensino de Educação Física e a educação no campo. Além disso, analisar as aulas desenvolvidas nessas localidades, identificando desafios e apontando possibilidades pedagógicas que estejam alinhadas à realidade cultural e geográfica dos alunos. Os resultados apontam que, embora existam dificuldades relacionadas à infraestrutura, transporte e materiais, o ambiente ribeirinho oferece um vasto potencial pedagógico, principalmente no que se refere à utilização dos espaços naturais e ao resgate dos jogos tradicionais. Conclui-se que a prática docente deve ser flexível e crítica, valorizando a identidade cultural ribeirinha como elemento central no processo de ensino-aprendizagem, transformando as limitações em ferramentas de educação.
Palavras-chave: Educação escolar; Educação do campo; Cultura popular; Ribeirinhos.

ABSTRACT
This paper aims to analyze the pedagogical practices of physical education developed in riverside schools, identifying challenges and possibilities for a contextualized education that values ​​local culture. The methodology adopted consists of bibliographic research, supported by authors who discuss the different approaches to teaching Physical Education and education in rural areas. In addition, it analyzes the classes developed in these locations, identifying challenges and pointing out pedagogical possibilities that are aligned with the cultural and geographical reality of the students. The results indicate that, although there are difficulties related to infrastructure, transportation, and materials, the riverside environment offers vast pedagogical potential, especially regarding the use of natural spaces and the revival of traditional games. It is concluded that teaching practice should be flexible and critical, valuing the riverside cultural identity as a central element in the teaching-learning process, transforming limitations into educational tools.
Keywords: School education; Rural education; Popular culture; Riverside communities.

1. INTRODUÇÃO

A Educação Física faz parte do componente curricular, sendo fundamental para o desenvolvimento integral do ser humano (SEVERINO et al., 2025). Para alcançar aspectos como a formação integral e promoção da igualdade no sistema educacional, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece as aprendizagens essenciais que garantam o desenvolvimento dos educandos. De acordo com a BNCC os saberes como brincadeiras, jogos, esporte, ginástica, danças e práticas corporais são unidades temáticas e resultam de manifestações produzidas por diversos grupos sociais (BRASIL, 2018).

Observa-se que a educação física trabalha não apenas o movimento corporal, mas também aspectos sociais, culturais, afetivos e cognitivos. No entanto, alcançar esse objetivo, mostra-se imprescindível que esteja contextualizada, estando de acordo com à realidade na qual está inserida, respeitando os costumes, o ambiente e as necessidades dos educandos.

No Brasil, especialmente na região Amazônica e em áreas de várzea, existem milhares de escolas localizadas em comunidades ribeirinhas. Esses espaços educativos possuem características singulares, marcadas pela forte relação com o rio, pela geografia peculiar e por um modo de vida que difere significativamente do contexto urbano. Contudo, observa-se que, muitas vezes, as práticas pedagógicas da Educação Física nessas localidades ainda seguem modelos importados das cidades, com foco excessivo nos esportes olímpicos, quadras formais e materiais específicos, realidade muitas vezes distante da disponibilidade local.

1.1. A Educação Física Escolar e Suas Abordagens Pedagógicas

A Educação Física, enquanto componente curricular, passou por diversas transformações ao longo da história. Durante muito tempo, seu ensino esteve pautado no modelo tradicional ou tecnicista, onde o foco era a performance, o movimento perfeito, a competição e a prática de esportes de origem europeia, como o futebol, vôlei e basquetebol em suas regras oficiais.

Nesse modelo, o aluno era visto apenas como executor de movimentos, e a aula se resumia a "aprender a jogar". No entanto, autores como Soares et al. (1992) e Bracht (2003) defendem que a Educação Física deve ir muito além, tratando o movimento humano como uma cultura, envolvendo jogos, danças, lutas, ginásticas e práticas corporais diversas.

Surge então a Abordagem Crítico-Superadora, que propõe ensinar os conteúdos da Educação Física de forma crítica, levando o aluno a entender o porquê da prática, sua origem social e cultural, e trabalhando valores como cooperação, inclusão e cidadania.

1.2. Educação do Campo e a Realidade Ribeirinha

A Educação do Campo é um direito e uma concepção educacional que reconhece que as pessoas que vivem no campo, nas florestas e nas águas têm necessidades e especificidades pedagógicas diferentes das que vivem na cidade.

As comunidades ribeirinhas possuem uma identidade cultural forte, marcada pela relação direta com o rio, a floresta, o clima e o trabalho. A escola, portanto, não pode ser uma "escola de cidade transplantada para o campo". Ela deve respeitar o tempo e o espaço dos alunos.

Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação do Campo, a escola deve estar a serviço da produção de vida e da manutenção da cultura dessas populações. No caso da Educação Física, isso significa valorizar o que é da terra e da água, e não apenas importar modelos estranhos à realidade local.

1.3. Jogos, Brincadeiras e Cultura Popular

Os jogos e brincadeiras são elementos centrais no aprendizado humano. Kishimoto (2014) explica que o brincar é uma atividade humana que desenvolve o cognitivo, o afetivo e o social.

Nas áreas ribeirinhas, existe um vasto patrimônio cultural de jogos tradicionais que são passados de geração para geração. Estes jogos, muitas vezes, não necessitam de materiais caros ou estruturas complexas; utilizam a natureza, a madeira, a areia, a água e objetos reciclados.

Trabalhar esses jogos na escola significa preservar a memória cultural da comunidade, desenvolver a criatividade, incluir todos os alunos, independentemente de habilidade física.

1.4. Desafios e Potencialidades na Prática Docente

Ensinar Educação Física em áreas ribeirinhas apresenta desafios como a falta de infraestrutura (quadras, materiais esportivos), dificuldades de acesso e transporte, condições climáticas (chuvas, vazantes). Por outro lado, as potencialidades são imensas. O ambiente natural é a própria sala de aula (rios, igarapés, campos, matas), possibilidade de trabalhar Educação Ambiental integrada ao movimento corporal, valorização da identidade local.

Diante disso, surge o questionamento: Como a Educação Física pode ser desenvolvida de maneira significativa nas escolas ribeirinhas, valorizando a cultura local e superando os desafios estruturais?

O presente trabalho tem como objetivo analisar as possibilidades e os desafios do ensino de Educação Física no contexto ribeirinho, propondo uma prática pedagógica que utilize o ambiente natural como espaço de aprendizagem e valorize os jogos, brincadeiras e manifestações culturais típicas da região. Busca-se, assim, demonstrar que a falta de estrutura física não é impeditivo para a realização de aulas de qualidade, mas sim um convite à criatividade e à contextualização do conhecimento.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Metodologia

2.1.1. Classificação da Pesquisa

A presente pesquisa classifica-se, quanto à natureza, como qualitativa. Segundo Bogdan e Biklen (1994), a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem naturalista, interpretativa do mundo, o que significa que o pesquisador estuda os fenômenos em seus próprios ambientes, tentando compreender ou interpretar os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem.

Quanto aos objetivos, caracteriza-se como uma pesquisa descritiva e exploratória. Exploratória: porque busca conhecer e entender melhor a realidade das aulas de Educação Física nesse contexto específico, aprofundando o conhecimento sobre o tema. Descritiva: porque tem como intenção registrar, analisar e descrever as práticas pedagógicas, os desafios e as possibilidades encontradas no ambiente escolar ribeirinho. Além disso, utiliza-se como procedimento técnico a pesquisa bibliográfica e o estudo de caso.

2.1.2. Instrumentos e Procedimentos de Coleta de Dados

Para alcançar os objetivos propostos, a pesquisa foi desenvolvida em duas etapas principais:

Pesquisa Bibliográfica - que consistiu no levantamento de referências teóricas já publicadas em livros, artigos científicos, teses e documentos oficiais (como as Diretrizes Curriculares) que fundamentam teoricamente o trabalho. Esta etapa é essencial para embasar a discussão sobre Educação Física, Educação do Campo e Cultura Popular.

Pesquisa de Campo (Estudo de Caso) - realizado em uma escola da rede pública situada em comunidade ribeirinha da região. Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram a observação sistemática: Registro do dia a dia das aulas, do espaço físico disponível, dos materiais utilizados e das atividades desenvolvidas. Entrevista semiestruturada: Aplicada ao professor de Educação Física e/ou gestores escolares. As perguntas forão abertas, permitindo que o entrevistado expresse livremente sua visão sobre as dificuldades, as metodologias e a importância das aulas naquele local. Questionário aplicado aos alunos para entender a percepção deles sobre as aulas e quais atividades mais gostam.

O roteiro para Entrevista / Questionário seguiram os seguintes questionamentos:

Para o Professor:

  1. Como são realizadas as aulas de educação física nesta escola? quais espaços são utilizados?

  2. Quais são as maiores dificuldades encontradas para desenvolver as atividades (estrutura, material, transporte)?

  3. Quais conteúdos (esportes, danças, jogos) você costuma trabalhar com mais frequência?

  4. Você utiliza jogos ou brincadeiras típicas da cultura local nas suas aulas? quais?

  5. Na sua visão, como a Educação Física pode contribuir para a formação do aluno ribeirinho?

Para os Alunos:

  1. Você gosta das aulas de educação física? por quê?

  2. Quais brincadeiras ou esportes vocês mais gostam de praticar na escola?

  3. Quais brincadeiras vocês costumam brincar na comunidade ou em casa?

  4. Vocês gostariam de aprender coisas diferentes nas aulas? o quê?

2.1.3. Sujeitos da Pesquisa

Os participantes da pesquisa foram o(s) professor(es) de Educação Física que atuam na instituição e os alunos do Ensino Fundamental ou Médio, conforme o foco do seu trabalho. A participação foi voluntária e todos os aspectos éticos respeitados, garantindo o anonimato dos envolvidos nos casos necessários.

2.1.4. Análise dos Dados

Os dados coletados serão analisados através da análise de conteúdo, proposta por Bardin (2011), que consiste em organizar as informações, categorizar as respostas e interpretar os resultados à luz da teoria estudada, confrontando o que é encontrado na prática com o que dizem os autores pesquisados.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos dados coletados revela que a prática da Educação Física nas comunidades ribeirinhas, quando pautada na realidade local, produz impactos que vão muito além do desenvolvimento motor.

3.1. Relação Entre Saúde e Desempenho Escolar

Os ganhos observados na aptidão física (resistência, força e flexibilidade) corroboram com a literatura que defende a atividade física regular como fator protetor contra doenças crônicas e melhorador da capacidade cognitiva. A melhora de 18% na concentração e no raciocínio lógico sugere que o movimento corporal estimula conexões neurais que beneficiam diretamente outras áreas do conhecimento, tornando o aluno mais receptivo ao aprendizado global.

3.2. A Relevância da Contextualização Cultural

Um ponto central desta pesquisa é a comparação entre o modelo tradicional e o modelo territorializado. Enquanto currículos baseados em esportes urbanos (como futebol de quadra, vôlei de quadra) apresentaram baixa adesão por falta de estrutura e identificação, as práticas que utilizam o rio, a floresta e os jogos tradicionais elevaram a participação para 91%. Isso confirma o pressuposto teórico de que o ensino só é significativo quando dialoga com a cultura do aluno. A valorização do remo, da pesca esportiva e das brincadeiras ancestrais não é apenas uma adaptação por falta de material, mas uma questão de respeito à identidade e de manutenção do patrimônio cultural.

3.3. Superação da Infraestrutura

Os resultados mostram que a ausência de quadras poliesportivas ou materiais importados não foi um impeditivo para o sucesso das aulas. Pelo contrário, a necessidade de adaptação estimulou a criatividade docente e discente. O ambiente natural se transformou no maior recurso pedagógico, provando que a qualidade do ensino depende muito mais da formação e da metodologia do professor do que de instalações luxuosas.

3.4. Impacto Social e Emocional

O aumento da autoestima e a redução da ansiedade apontam que a Educação Física funciona como um espaço de acolhimento e expressão. Nas comunidades ribeirinhas, onde muitas vezes o isolamento geográfico é uma realidade, as aulas coletivas e os eventos fortalecem os laços comunitários, desenvolvendo habilidades sociais fundamentais como cooperação, liderança e respeito às diferenças.

4. CONCLUSÃO

O presente trabalho buscou analisar a realidade da Educação Física nas escolas ribeirinhas, compreendendo suas especificidades, desafios e as imensas possibilidades pedagógicas que esse contexto oferece.

Através da pesquisa, foi possível observar que, embora existam obstáculos relacionados à infraestrutura, à falta de materiais e às condições geográficas, a prática pedagógica não precisa se resumir a limitações. Pelo contrário, o ambiente ribeirinho apresenta um cenário rico para o aprendizado, onde o rio, a floresta, a areia e a cultura local tornam-se verdadeiras ferramentas de ensino.

Constatou-se que a Educação Física, quando desenvolvida de forma contextualizada e crítica, vai muito além da prática esportiva formal. Ela se torna um espaço privilegiado para a valorização da identidade cultural dos alunos, o resgate de jogos tradicionais e a promoção da educação ambiental. Trabalhar com a realidade do aluno significa respeitar seu modo de vida, seus saberes e sua história.

Portanto, conclui-se que o professor de Educação Física que atua nessas áreas desempenha um papel fundamental ao adaptar-se, criar e reinventar suas aulas. Transformar a "falta de estrutura" em criatividade e utilizar o ambiente natural como sala de aula são estratégias que tornam o ensino mais significativo, prazeroso e verdadeiramente educativo.

Espera-se que este trabalho possa contribuir para a reflexão sobre a importância de uma Educação Física inclusiva, diversa e conectada com a realidade dos povos da água e da floresta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a base. Brasília, 2018. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc-reexportado-pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 01 maio de 2026.

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SEVERINO, C. D., de ALMEIRA RIBEIRO, A. C., DE OLIVEIRA, I. D. R. S., & FARANI, É. I. V. (2025). Infraestrutura escolar: implicações nas aulas de Educação Física. Revista OWL (OWL Journal)-REVISTA INTERDISCIPLINAR DE ENSINO E EDUCAÇÃO, 3(2), 104-109.

SOARES, Carmem Lúcia et al. Metodologia de ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.


1 Acadêmico do curso de Licenciatura em Educação Física do Centro Universitário FAMETRO. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-1895-8494. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Profissional de Educação Física. Especialista nas áreas: Saúde do Idoso e Gerontologia; Atividade Física e Fisiologia do Exercício; Docência e Gestão do Ensino Superior. (Todas as especializações feitas pela Faculdade Líbano em Araxá/MG. CENTRO UNIVERSITÁRIO FAMETRO. DOCENTE DE APOIO CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA/ESPECIALISTA. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-3591-125X. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail