EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO ENSINO MÉDIO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE A PERCEPÇÃO DOS DISCENTES DO CENTRO EDUCA MAIS (PAULO VI)

FINANCIAL EDUCATION IN HIGH SCHOOL: A CASE STUDY ON THE PERCEPTIONS OF STUDENTS AT CENTRO EDUCA MAIS (PAULO VI)

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792376940

RESUMO
Este artigo apresenta um estudo da educação financeira como ferramenta de transformação social e econômica. A pesquisa tem o objetivo entender a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre a educação financeira. Para esse fim, fez-se necessário conceitualizar educação financeira, compreender o cenário do ensino de finanças nas escolas, identificar a percepção dos discentes sobre finanças e propor alternativas para a aplicação desse aprendizado nas escolas. Buscou-se responder ao seguinte questionamento: qual a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre o ensino da educação financeira no Ensino Médio? Realizou-se, então, um estudo de caso com a aplicação presencial de questionário com 307 estudantes do ensino médio para coletar dados necessários para análise. Verificou-se que 44,6% dos estudantes apontam que há falta de conhecimento sobre os tipos de remuneração dos investimentos. 51,5% atestaram não possuir conhecimento suficiente acerca da variação da inflação. Foi constatado ainda que 62,2% dos discentes raramente ou nunca recebem orientação financeira da família. Diante disso, verificou-se o papel fundamental do ensino da educação financeira no Ensino Médio, bem como a capacitação intelectual e comportamental dos estudantes sobre cenários financeiros e a influência do ambiente familiar nessa formação, o que impõe a constatação de que o ensino sobre finanças é capaz de promover uma transformação na percepção dos estudantes contribuindo potencialmente para uma melhor qualidade de vida.
Palavras-chave: educação; educação financeira; escola; ensino médio.

ABSTRACT
This article examines financial education as a tool for social and economic transformation. The study aims to understand the perceptions of students at Centro Educa Mais (Paulo VI) regarding financial education. Specifically, it seeks to define financial education, examine the current state of financial education in schools, identify students’ perceptions and levels of financial knowledge, and propose alternatives for integrating financial education into the school curriculum. The study addresses the following research question: What are the perceptions of high school students at Centro Educa Mais (Paulo VI) regarding financial education? A case study was conducted using an in-person questionnaire administered to 307 high school students. The findings indicate that 44.6% of students reported limited knowledge of different types of investment returns, while 51.5% reported insufficient knowledge of inflation and its fluctuations. In addition, 62.2% of students stated that they rarely or never receive financial guidance from their families. These findings highlight the importance of financial education at the high school level, particularly in fostering students’ financial knowledge and decision-making skills, while also underscoring the influence of the family environment on this process. Overall, the study suggests that financial education can broaden students’ understanding of financial matters and potentially contribute to improved financial well-being and quality of life.
Keywords: education; financial education; school; high school.

1. INTRODUÇÃO

O cenário social brasileiro revela uma realidade financeira preocupante quanto ao gerenciamento das finanças pessoais. Segundo dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em abril de 2025, obtidos pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), no Brasil, cerca de 76,7% de famílias estavam endividadas em dezembro de 2024. O dado indica que aproximadamente oito em cada dez famílias estavam endividadas, o que evidencia uma realidade alarmante, na qual grande parte da população enfrenta dificuldades financeiras.

Outro dado, divulgado em março de 2025 pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), aponta que seis em cada dez brasileiros não têm nenhum tipo de investimento em produtos financeiros. Essa informação sugere que o assunto não é realidade dos brasileiros, podendo ser por desinteresse, mas também pela falta de conhecimento ou de não se perceber no perfil dos elegíveis a investidores, demonstrando também que a maioria dos brasileiros não se interessa pelo assunto e não apresenta disposição para o planejamento financeiro.

Esse contexto evidencia a importância do ensino de finanças na vida dos indivíduos, tanto na gestão cotidiana quanto no investimento para a contrução de um futuro melhor, uma vez que esse conhecimento pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida, funcionando como instrumento de transformação e desenvolvimento.

De acordo com Tavares e Pilão (2023), o ensino de finanças nas escolas é um fenômeno recente e ainda tratado com grande displicência tanto no ambiente escolar quanto no familiar, o que deixa muitos indivíduos sem competências e habilidades fundamentais para o gerenciamento e o planejamento financeiro. Para reverter esse quadro e gerar impactos positivos nos contextos econômico e social, torna-se necessária a análise da importância da educação financeira.

Direcionando-se o foco para o Maranhão, um estado do nordeste brasileiro, com grande potencial econômico e turístico, mas que, paradoxalmente, destaca-se negativamente nos indicadores socioeconômicos no cenário nacional, a educação financeira e seus benefícios é uma tématica atual, pertinente e propositiva capaz de alterar o planejamento financeiro de alunos e como consequências, melhorar o presente e o futuro não só desses alunos, mas de sua família e comunidade.

Diante disso, surge o seguinte questionamento: qual a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre o ensino da educação financeira no Ensino Médio? Diante do problema de pesquisa, o artigo tem por objetivo geral entender a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre a educação financeira.

Com esse propósito, definiram-se os seguintes objetivos específicos: reunir os fundamentos conceituais sobre educação financeira com base na literatura científica; compreender o cenário do ensino de finanças nas escolas a partir da perspectiva dos autores e das pesquisas analisadas; identificar a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) acerca da Educação Financeira; e, por fim, apresentar propostas para a inserção desse conteúdo no contexto escolar.

Além desta introdução, a fundamentação teórica, apresentada na segunda seção, destaca três eixos principais: o primeiro trata da “Educação financeira”, com base nas definições conceituais fornecidas por autores como OCDE (2005), Paiva (2013), Saurin, Saurin e Saurin (2017), Moraes et al. (2020), Soares Júnior et al. (2021) e Ramos et al. (2023); o segundo eixo aborda a “Educação financeira nas escolas”, contextualizando o ensino de finanças no ambiente escolar e suas implicações, com fundamentação em Pelicioli (2011), Moraes et al. (2020), Santos (2021), Sousa (2023), Ramos et al. (2023) e Souza, Nicoli e Castro (2023); por fim, o terceiro eixo trata da “Educação financeira no Ensino Médio”, destacando sua relevância e aplicação prática, com base nas contribuições de Moraes et al. (2020), Soares Júnior et al. (2021), Santos (2021) e Ramos et al. (2023).

Na terceira seção, metodologia da pesquisa foi detalhada a partir do estudo de caso em que se realizou a aplicação de questionário para extrair as informações necessárias para análise. Os dados coletados foram revisados e organizados para, inicialmente, serem analisados de forma quantitativa, por meio de gráficos que possibilitaram dimensionar e estruturar as respostas obtidas. Em seguida, realizou-se uma análise desses dados, o que permitiu compreender a percepção dos estudantes em relação à educação financeira. Essa metodologia assegurou à pesquisa maior coerência com os objetivos propostos.

O Centro Educa Mais (Paulo VI) é uma escola pública, de ensino médio, porte grande, localizada no bairro da Cidade Operária, uma das áreas mais populosas de São Luís-MA, contando-se com os demais bairros adjacentes, inclusive o mais próximo da Universidade Estadual do Maranhão. A maioria de sua população pertence às classes baixa e média-baixa. Outro fator de escolha da escola como objeto do estudo de caso é a idade dos alunos, consequentemente, o nível de entendimento destes aptos à compreensão da educação financeira como possibilidade de desenvolvimento socioeconômico familiar e da comunidade.

Quando são identificados problemas sociais na comunidade, especialmente aqueles que se relacionam mais diretamente com a área de atuação do curso de Administração da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), ao qual os autores estão vinculados, esses problemas motivam e justificam a realização de estudos que contribuam para uma melhor compreensão da realidade investigada. Os resultados dessas pesquisas, por sua vez, podem retroalimentar a academia, favorecendo a atualização das teorias e subsidiando a proposição de soluções, bem como o desenvolvimento de projetos de extensão voltados à comunidade.

Os principais resultados da pesquisa foram evidenciados na seção quatro. O dados foram coletados a partir de questionário aplicado aos alunos do Centro Educa Mais (Paulo VI), cuja modalidade de ensino é integral, voltada apenas para o Ensino Médio. Nessa seção, são explorados, principalmente, os seguintes conteúdos: instrumentos financeiros, comportamento financeiro, conhecimento econômico, influência da família na formação financeira dos alunos, percepção dos alunos sobre educação financeira e alternativas para o ensino de finanças nas escolas.

Nas considerações finais, a seção destacou que os objetivos da pesquisa foram plenamente alcançados, evidenciando a percepção dos estudantes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre o ensino da educação financeira no contexto do Ensino Médio. O problema de pesquisa foi devidamente solucionado, considerando os instrumentos metodológicos aplicados, os quais permitiram identificar os conhecimentos e habilidades dos alunos em relação a situações básicas envolvendo cenários financeiros. Foi possível evidenciar o papel primordial e essencial da escola para capacitação intelectual, cultural e ética das pessoas, com a finalidade de instruir o indivíduo para que ele tenha boas decisões de consumo no mercado.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Educação Financeira

Iniciando pela conceituação de educação financeira, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE (2005), define que esta é, primeiramente, um processo de aprendizagem sobre os elementos financeiros que participam e compõem o mercado. Desse modo, instruído e informado sobre finanças, o indivíduo desenvolverá habilidades que permitirão a ele tomar decisões conscientes promovendo seu bem-estar.

Outrossim, a educação financeira é a reunião de conhecimentos essenciais e basilares sobre finanças, como compreender os impactos gerados pelo mercado de juros na vida doméstica do indivíduo, consumo consciente, entender a forma correta de utilizar as ofertas de crédito para se prevenir do endividamento e observar a importância do planejamento e gestão dos recursos materiais para as finanças pessoais (Moraes et al. 2020).

Além disso, ressalta-se que a educação financeira não se limita apenas à prática da poupança, ao acúmulo de dinheiro ou à redução de despesas. O planejamento e a gestão dos recursos financeiros, voltados para a vida presente e futura, constituem a chave para alcançar e consolidar uma boa qualidade de vida, permitindo ao indivíduo usufruir de segurança material e manter suas atividades de lazer, mesmo diante de eventuais imprevistos (Saurin; Saurin; Saurin, 2017).

Nesse sentido, Ramos et al. (2023) afirmam que a educação financeira vai além da simples redução de gastos, do hábito de guardar dinheiro ou mesmo do estudo da matemática financeira, estando voltada, sobretudo, para a busca por qualidade de vida. Assim, é necessária a construção coletiva de uma cultura pautada em hábitos saudáveis no contexto financeiro.

Para Andrade e Moura (2023) o conhecimento financeiro está positivamente relacionado a comportamentos financeiros saudáveis, incluindo poupança e investimento. Além disso, a confiança, a satisfação financeira e a inclusão financeira também são impactadas positivamente pela educação financeira. Corroboram Soares Júnior et al. (2021) defendendo que os conhecimentos e os comportamentos promovidos pela educação financeira devem ser desenvolvidos ao longo dos anos, com ênfase especial na infância. Trata-se de um processo que habilita os indivíduos a tomar decisões conscientes e a buscar uma melhor qualidade de vida, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e o crescimento econômico.

Paiva (2013) argumenta que a educação financeira tem como objetivo formar uma mentalidade preparada para lidar com questões relacionadas ao uso do dinheiro. Essa competência se manifesta por meio do planejamento e do gerenciamento, considerados pilares fundamentais para a tomada de decisões conscientes. Destaca- se, ainda, que esses processos devem ser conduzidos não apenas com foco no presente, mas, sobretudo, com uma visão de futuro, uma vez que os resultados obtidos hoje podem repercutir em até quinze anos ou mais.

Saurin, Saurin e Saurin (2017) complementam esse pensamento pontuando a importância da busca pela qualidade de vida no futuro, por meio da definição de objetivos. Os sacrifícios financeiros realizados no presente são incomparáveis aos resultados dos objetivos a serem alcançados. Isso se resume à essência do pensamento da Educação Financeira.

2.2. Educação Financeira nas Escolas

Quando se fala em educação financeira nas escolas do Brasil, observa-se sua deficiência nos currículos escolares. O cenário socioeconômico brasileiro, marcado por grandes desigualdades sociais, torna o estudo sobre finanças ainda mais urgente no país. Muitas ferramentas do mercado financeiro tornaram-se de fácil acesso com o avanço tecnológico, especialmente se comparadas à realidade das gerações anteriores, o que evidencia a necessidade de qualificação dos indivíduos para o desenvolvimento de habilidades na área financeira (Pelicioli, 2011).

Souza, Nicoli e Castro (2023) afirmam também que dentro das escolas não se vê com regularidade o ensino de educação financeira para os adolescentes. A ausência desse conhecimento aplicado no currículo escolar faz grande diferença na formação pessoal e profissional dos alunos que enfrentarão a vida adulta. O processo de formação de uma mentalidade consciente acontece nos estágios iniciais da vida estudantil. Desse modo, a ausência de ensino sobre temas relevantes, como finanças, pode comprometer a realidade futura dos alunos e fazê-los seguir caminhos menos assertivos na gestão de suas finanças pessoais.

Segundo Santos (2021), a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) foi instituída no Brasil por meio do Decreto n.º 7.397/2010, com o propósito de fortalecer a cidadania ao promover ações que capacitem os indivíduos a tomarem decisões financeiras conscientes. O programa tem como foco principal os jovens e adolescentes com o objetivo de inserir a educação financeira no Ensino Básico de maneira contextualizada, considerando a realidade de cada estudante.

Nesse contexto, em 2017, o ensino da educação financeira passou a ser obrigatório nas escolas passando a compor a estrutura de aprendizagem da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo documento normativo é regido pelo § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996). Dessa forma, o documento propõe o ensino transversal da educação financeira no currículo escolar por meio da abordagem interdisciplinar, contextualizando o conteúdo de finanças em outras matérias (Brasil, 2017).

Por ser um espaço dedicado ao aprendizado e à transmissão de conhecimentos, Sousa (2023) afirma que a escola contribui para a continuidade do ensino, ao ir além da simples transferência de informações sobre finanças e promover transformações positivas nos indivíduos, como a mudança de comportamento em relação às finanças pessoais e ao controle dos gastos. Essa continuidade do ensino também proporciona transformações em toda a esfera social do Brasil, uma vez que mitiga a analfabetização financeira dos brasileiros, um problema histórico enfrentado em nosso país.

Segundo Ramos et al. (2023), a educação financeira nas escolas é essencial devido ao seu potencial de formar cidadãos responsáveis, capazes de administrar seus gastos de maneira consciente. Esse cuidado atua como proteção contra as influências da sociedade, que frequentemente induzem ao consumismo por meio de diversos mecanismos de persuasão. Esse cenário se intensificou com a expansão do comércio eletrônico, pois segundo Weber Neto et al. (2024), 76,5% dos respondentes de sua pesquisa passaram a utilizar mais o e-commerce desde o início da pandemia de COVID-19, o que amplia o acesso a ofertas de consumo a poucos toques no celular. Reforça-se, assim, a importância do conhecimento financeiro para o indivíduo e para a sociedade, além de destacar o papel transformador das escolas nesse processo.

Moraes et al. (2020) ratificam que a educação financeira, nesse contexto, promove o bem-estar do indivíduo, assim como efeitos econômicos e sociais positivos. Essas mudanças extrapolam os limites da escola e geram impactos significativos na economia do país.

Desse modo, Pelicioli (2011) alerta para a urgência da inclusão da educação financeira nas escolas, considerando a realidade econômica e social dos brasileiros. Além disso, o exercício da cidadania estaria sendo comprometido pelas instituições de ensino, uma vez que afeta a formação de indivíduos preparados para a vida moderna.

2.3. Educação Financeira no Ensino Médio

Conforme Moraes et al. (2020), geralmente nas escolas há uma predominância do ensino de finanças junto à Matemática, restringindo-se ao conteúdo de matemática financeira, entretanto pouco sobre educação financeira. No Brasil, nem todas as escolas aplicam o ensino sobre finanças disponibilizado pela Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Além disso, não se sabe o nível de entrega do conteúdo sobre finanças nas escolas.

Ramos et al. (2023) concordam com esse pensamento ao defender que a educação financeira pode ser aparelhada às aulas de matemática, propondo um ensino reflexivo. Esse exercício almeja que os alunos construam um pensamento crítico, estando aptos a refletir sobre questões econômicas, por exemplo. Nesse sentido, é indispensável que o professor consiga relacionar o ensino sobre finanças com as atividades cotidianas dos estudantes. Sem essa ligação, o processo de aprendizagem será incompleto em seus efeitos esperados.

O estudo sobre finanças também pode ser implementado diretamente como disciplina na grade curricular do Ensino Médio. Conforme analisado por Soares Júnior et al. (2021), a introdução da disciplina de educação financeira nas escolas públicas do Ensino Médio na microrregião de Maringá (Paraná) gerou efeitos positivos que ultrapassaram o ambiente escolar, alcançando e influenciando o contexto familiar. Os estudantes tornaram-se agentes de disseminação desse conhecimento em seus lares. Santos (2021) igualmente defende a ideia de que o ensino de educação financeira se apresenta com mais frequência na disciplina de matemática por sua associação com seu conteúdo, todavia ela não é de atribuição específica da Matemática. Nesse sentido, de acordo com a proposta da BNCC, os docentes devem integrar os conteúdos sobre finanças em outras disciplinas, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, de forma interdisciplinar.

Diante do exposto, Ramos et al. (2023) defendem sobre a relevância da aplicação do estudo sobre educação financeira para os estudantes do Ensino Médio, tanto como disciplina na grade curricular ou de forma interdisciplinar inserida em outras matérias.

3. METODOLOGIA

A pesquisa científica, segundo Gil (2019), ocorre quando não se tem informação suficiente para responder a um problema que se apresenta, devendo utilizar-se de cuidadosas técnicas e métodos científicos para obtenção dessas informações. Nessa compreensão, os instrumentos técnicos, organizados e sistematizados, foram utilizados para extrair a solução ao problema apresentado.

Quanto aos procedimentos metodológicos, este trabalho consiste em um estudo de caso que, conforme Yin (2015), pode ser aplicado em diversas áreas científicas, como administração, ciência política e sociologia. Tal característica demonstra a flexibilidade dessa abordagem, que, apesar de frequentemente considerada inferior em comparação a outros métodos de pesquisa, tem demonstrado grande relevância em estudos acadêmicos. Dessa forma, os instrumentos adotados mostram-se adequados ao contexto da presente pesquisa, pois contribui significativamente para o alcance dos resultados propostos.

Em relação aos propósitos mais gerais (objetivos), a pesquisa é classificada como exploratória, pois, segundo Gil (2019), visa “proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses”. Esse tipo de pesquisa se caracteriza por um planejamento flexível, capaz de abranger diversos aspectos do fenômeno investigado. Com as informações coletadas, foi possível a elaboração de um diagnóstico preciso e essencial para fundamentar os resultados obtidos.

Quanto à abordagem, a pesquisa se classifica como mista, na qual foi empregada em primeiro momento uma abordagem quantitativa, reunindo dados quantificáveis que foram organizados e apresentados em gráficos com representação em porcentagem. Depois foi realizada a análise qualitativa com a interpretação dos dados coletados para obter o conteúdo do contexto estudado (Knechtel, 2014).

A coleta de dados ocorreu entre 20 e 21 de maio de 2025, com uma amostra total de 307 alunos submetidos ao questionário físico de forma presencial na escola. A instituição, sob dependência administrativa estadual, localiza-se na rua 203, s/n, na Cidade Operária (CEP 65058-172), em São Luís (MA). Possui regime de ensino integral para as turmas do Ensino Médio Regular, com três turmas de 1ª série, quatro turmas de 2ª série e três turmas de 3ª série.

Do total de alunos participantes da pesquisa,109 eram estudantes da 1ª série, 132 da 2ª série e 66 da 3ª série. Demais informações institucionais e educacionais não foram incluídas nesta pesquisa, por indisponibilidade pela escola. Dessa forma, foram analisados os dados coletados a partir do questionário aplicado, para se entender a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) quanto ao ensino da educação financeira no Ensino Médio.

A metodologia empregada foi o estudo de caso, em que se realizou a aplicação de questionário para extrair as informações necessárias para análise. Os dados coletados foram revisados e organizados para, inicialmente, serem analisados de forma quantitativa, por meio de gráficos que possibilitaram dimensionar e estruturar as respostas obtidas. Em seguida, realizou-se uma abordagem qualitativa na interpretação desses dados, o que permitiu compreender a percepção dos estudantes em relação à educação financeira. Essa metodologia assegurou à pesquisa maior coerência com os objetivos propostos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Nessa seção, são explorados, principalmente, os seguintes conteúdos: instrumentos financeiros, comportamento financeiro, conhecimento econômico, influência da família na formação financeira dos alunos, percepção dos alunos sobre educação financeira e alternativas para o ensino de finanças nas escolas.

O Gráfico 1 revela que aproximadamente metade dos estudantes percebem limitações em seus próprios conhecimentos sobre finanças pessoais, constituindo um resultado relevante para compreender a necessidade de fortalecimento dessa formação no Ensino Médio. Segundo Soares Júnior et al. (2021), a falta do ensino financeiro nas escolas prejudica o futuro dos estudantes e da sociedade, pois dificulta a formação de uma consciência para decisões econômicas e financeiras. Outrossim, os estudantes da 2ª e 3ª séries apresentaram percentuais superiores aos da 1ª série na categoria “pouco conhecimento”. Isso significa que o avanço nas séries do ensino médio não garante, por si só, uma maior percepção sobre o domínio em finanças.

Gráfico 1. Nível de conhecimento sobre finanças

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Fonte: Dados da pesquisa.

No Gráfico 2, é possível identificar que menos da metade dos estudantes demonstrou domínio sobre o conceito de variação da inflação. Assim, foram evidenciados percentuais elevados de conhecimento insuficiente ou compreensão equivocada sobre o fenômeno inflacionário. Isso nos revela a importância do ensino sobre finanças nas escolas para que os alunos consigam desenvolver reflexões críticas acerca situações e cenários financeiros (Ramos et al., 2023).

Gráfico 2. Variação da inflação

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Fonte: Dados da pesquisa.

Grande parte dos estudantes demonstrou baixo nível de conhecimento sobre os tipos de remuneração dos investimentos, conforme é possível identificar no Gráfico 3. A soma dos percentuais dos respondentes que declararam não ter conhecimento suficiente e daqueles que já ouviram falar, mas não sabem exatamente do que se trata, revela que aproximadamente dois terços dos respondentes não possuem conhecimentos suficientes sobre como os investimentos podem gerar rendimentos. Isso demonstra que grande parte da amostra não aparenta ter capacidade para tomar decisões financeiras conscientes. Paiva (2013) destaca a importância do planejamento financeiro de longo prazo, que requer a compreensão dos meios de investimento e sua adequação aos objetivos pessoais.

Gráfico 3. Tipos de remuneração dos investimentos

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Fonte: Dados da pesquisa.

No Gráfico 4, em média, 40,76% dos alunos informaram que raramente guardam dinheiro. No cenário geral, os estudantes compõem o grupo que possui pouca capacidade para poupança e constituem um perfil mais consumista. Nesse sentido, Weber Neto et al. (2024) observaram em sua pesquisa que a comodidade foi o principal fator de motivação para comprar pela internet (44,4%), à frente da economia (35,8%), e que 91,4% consideram o e-commerce essencial em suas vidas, evidenciando o quanto o consumo digital está incorporado à rotina. Saurin, Saurin e Saurin (2017) destacam que a poupança é fundamental para o alcance dos objetivos pessoais, pois o hábito de guardar dinheiro ou formar uma reserva financeira constitui a base para a consolidação do planejamento financeiro. Em contrapartida, cerca de 51,19% dos discentes formam o grupo que sempre guarda dinheiro (16,46%) e quase sempre guarda dinheiro (34,75%). Esse cenário revela uma contraparte positiva, com pouco mais da metade dos alunos com capacidade de poupança.

Gráfico 4. Capacidade de poupança

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Fonte: Dados da pesquisa.

Outro comportamento analisado foi o grau de controle financeiro. Nesse caso, foi questionado aos alunos quanto poupariam por mês de sua renda se recebessem uma remuneração mensal de R$ 1.000,00. Os dados apurados no Gráfico 5 demonstram proporções parecidas, nas três séries, com uma distribuição em torno dos 30%, quanto à reserva de valor, para cada quantidade explicitada. No total, 96% dos alunos informaram poupar algum valor de sua renda, apresentando um cenário positivo, com tendência ao controle financeiro. Em contrapartida, apenas 4% dos estudantes informaram que não poupariam nenhum valor.

Gráfico 5. Controle financeiro

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Fonte: Dados da pesquisa.

Com relação ao nível de planejamento financeiro, os estudantes foram questionados sobre o local onde guardariam, futuramente, os valores referentes à remuneração do trabalho. O Gráfico 6 aponta para uma disposição significativa em adotar um controle financeiro em situação hipotética. No entanto, por se tratar de uma intenção a partir de uma declaração, os dados não permitem confirmar se os participantes da pesquisa efetivamente realizariam essa economia em sua vida cotidiana.

Gráfico 6. Planejamento financeiro quanto à renda

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Fonte: Dados da pesquisa.

Observou-se ainda que os estudantes classificados nos grupos “Conta-corrente” e “Cofre” apresentaram baixo nível de conhecimento financeiro e, consequentemente, ainda não possuem capacidade adequada para o planejamento financeiro. Nessas opções, o dinheiro ficaria estagnado, sem rentabilidade e ainda sofreria com perda de valor por influência da inflação. Desse modo, faz-se necessário conhecer os instrumentos financeiros, como aponta Souza (2016), para identificar qual a melhor opção onde investir suas economias, levando em consideração os fatores de risco e rentabilidade.

Os alunos foram questionados sobre como pensavam a respeito da aposentadoria. Os resultados são apresentados no Gráfico 7. Evidenciou-se que a conta-poupança ainda é percebida pela maioria dos participantes como o principal mecanismo para guardar dinheiro, mesmo havendo outras alternativas financeiras disponíveis.

Em média, 44,03% dos discentes informaram que não precisam preocupar-se com isso agora e 9,13% informaram que se manteriam com a aposentadoria do governo. Nessa situação, os dois grupos somados (53,16%) mostraram não ter preocupação com seu planejamento financeiro futuro quanto à aposentadoria.

Gráfico 7. Planejamento financeiro quanto à aposentadoria

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Fonte: Dados da pesquisa.

Na pesquisa, foi apresentado aos respondentes um caso hipotético em que Maria e João, primos da mesma idade e com renda semelhante, decidiram comprar um carro. Maria optou pelo financiamento, enquanto João poupou dinheiro para adquirir o veículo à vista. Assim, os alunos foram convidados a escolher a melhor forma de compra.

Observa-se no Gráfico 8 que, em todas as séries, mais da metade dos alunos escolheu a opção de compra à vista, como João, especialmente nas turmas da 2ª e 3ª séries. Essa escolha indica um comportamento mais planejado e adequado, evidenciando boa capacidade de pensamento crítico financeiro. Ao todo, 56,8% dos estudantes adotaram essa alternativa.

O pior cenário correspondente à alternativa em que se compraria o carro à vista com recursos de um empréstimo bancário ocorreu em apenas 2,3% dos discentes. Os alunos que julgaram melhor financiar o veículo tanto por completo como parcialmente correspondem a 41,5%. Esse cenário revela um perfil comportamental mais imediatista e com menor capacidade de pensamento crítico. Segundo Ramos et al. (2023), esses estudantes apresentam maior vulnerabilidade às influências sociais nas decisões financeiras, pois tais influências promovem uma cultura consumista e voltada ao imediatismo.

Gráfico 8. Capacidade de pensamento crítico

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Fonte: Dados da pesquisa.

Para verificar se há transmissão do ensino de educação financeira no ambiente familiar, os estudantes foram questionados acerca do ensino sobre finanças pela família. Soares Júnior et al. (2021) atentam para a importância da família no processo de ensino sobre finanças e ressaltam que ainda há barreiras nesse processo que precisam ser mitigadas.

Gráfico 9. Influência da família

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Fonte: Dados da pesquisa.

De acordo com os dados do Gráfico 9, os percentuais apresentam distribuição semelhante entre as séries. Considerando a realidade dos alunos, 25,30% afirmaram não receber qualquer ensinamento financeiro da família, 38,13% relataram raramente receber esse tipo de orientação, e 35,70% declararam receber com frequência. Esse quadro indica que o grupo formado por alunos que “não recebem ensinamento” e aqueles que “recebem raramente” soma 63,43% do total. Tavares e Pilão (2023) ressaltam essa situação, destacando a pouca valorização e disseminação do conhecimento financeiro no ambiente familiar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A falta de conhecimento sobre finanças pode trazer diversos impactos no futuro dos indivíduos, evidenciando-se um assunto essencial para a promoção da qualidade de vida. Jovens que adquiriram esse conhecimento desenvolvem habilidades para lidar com questões financeiras e utilizam os recursos do mercado de forma mais consciente, contribuindo para a redução da inadimplência e das desigualdades sociais. Por esse motivo, considerou-se relevante aprofundar a exploração do tema.

A pesquisa teve como objetivo entender a percepção dos discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) sobre a educação financeira. Os objetivos da pesquisa foram alcançados tanto por meio das contribuições teóricas dos autores, que possibilitaram compreender o significado e a relevância da educação financeira no contexto do Ensino Médio, quanto pelos resultados obtidos com a aplicação da metodologia proposta, que permitiram identificar a situação e a percepção dos alunos em relação às finanças.

A pesquisa revelou que boa parte dos alunos está despreparada para lidar com demandas financeiras. Diante do questionamento suscitado nesse estudo, constatou-se que os discentes do Centro Educa Mais (Paulo VI) consideram importante o ensino da educação financeira, pois grande parte deles demonstrou não ter conhecimento suficiente para lidar com situações e questões financeiras complexas.

Ao analisar o percentual de alunos que apoiam a inclusão da disciplina de educação financeira no Ensino Médio, constatou-se que a maioria é favorável ao ensino de finanças nessa etapa escolar. Isso reflete a percepção dos discentes sobre a importância de aprender finanças no contexto do Ensino Médio.

Esse estudo tem potencial para transformar a percepção dos estudantes sobre os conhecimentos do mercado financeiro, servindo como estímulo para despertar a consciência financeira e contribuir para a melhoria da qualidade de vida. Além disso, pode abrir espaço para expandir esse debate no âmbito escolar, criando oportunidades para incluir essa formação no Ensino Médio, incentivar a construção de currículos escolares mais alinhados às necessidades dos estudantes e fortalecer o papel social da educação como ferramenta de transformação.

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1 Graduado em Administração pela Universidade Estadual do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Administração pela Universidade Vale do Itajaí (UNIVALI) e Professor da Universidade Estadual do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Doutor em Administração pela Universidade Vale do Itajaí (UNIVALI) e Professor da Universidade Estadual do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

4 Doutora em Administração pela Universidade Vale do Itajaí (UNIVALI) e Professora da Universidade Estadual do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

5 Doutor em Administração pela Universidade FUMEC e Professor da Universidade Estadual do Maranhão. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.