REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793415550
RESUMO
A prevenção e a detecção precoce do câncer de pele exigem estratégias educativas acessíveis e adequadas ao contexto social. Este artigo objetiva descrever e refletir criticamente sobre o planejamento e o desenvolvimento de ações educativas no Projeto Mundaú Contra o Câncer. Trata-se de relato reflexivo e retrospectivo de experiência extensionista desenvolvida em três encontros, em 2024, com estudantes do 7º ao 9º ano de uma escola municipal de Maceió, Alagoas, por equipe discente multiprofissional sob supervisão docente. A sistematização baseou-se na vivência direta de uma das autoras, em documentos institucionais e na literatura científica, com análise crítica e redação posteriores realizadas conjuntamente. A reflexão abordou a adequação da linguagem aos adolescentes, a viabilidade cotidiana das medidas de fotoproteção e a representatividade de diferentes tonalidades de pele nos recursos educativos. A Regra do ABCDE foi empregada como recurso de orientação sobre sinais de alerta, sem finalidade diagnóstica. A experiência ressalta a importância de articular comunicação acessível, características do território e equidade no planejamento educativo em Enfermagem. Por se tratar de um relato reflexivo de experiência, sem avaliação sistemática da aprendizagem ou das mudanças comportamentais dos participantes, não foi possível determinar a efetividade das ações educativas desenvolvidas.
Palavras-chave: Educação em Saúde; Enfermagem; Neoplasias Cutâneas; Saúde Escolar; Equidade em Saúde.
ABSTRACT
Skin cancer prevention and early detection require accessible educational strategies suited to their social context. This article aims to describe and critically reflect on the planning and implementation of educational activities in the Mundaú Contra o Câncer Project. This retrospective reflective experience report concerns three university extension sessions held in 2024 with seventh- to ninth-grade students at a municipal school in Maceió, Alagoas, Brazil, by a multiprofessional student team under faculty supervision. The report drew on one author’s direct experience, institutional documents and scientific literature, with subsequent joint critical analysis and manuscript preparation. The reflection addressed language adapted to adolescents, the everyday feasibility of sun protection measures and the representation of different skin tones in educational materials. The ABCDE rule was used to explain warning signs, not as a diagnostic tool. The experience highlights the importance of integrating accessible communication, territorial characteristics and equity into nursing health education planning. As this is a reflective experience report, without a systematic assessment of participants’ learning or behavioral changes, it was not possible to determine the effectiveness of the educational activities conducted.
Keywords: Health Education; Nursing; Skin Neoplasms; School Health; Health Equity.
1. INTRODUÇÃO
Este estudo apresenta um relato reflexivo de experiência sobre o desenvolvimento de ações educativas voltadas à prevenção e à detecção precoce do câncer de pele, realizadas em 2024 no âmbito do Projeto de Extensão Mundaú Contra o Câncer (MCC). A experiência foi posteriormente sistematizada e discutida criticamente pelas autoras, com apoio de documentos institucionais e da literatura científica. O estudo concentra-se na análise das estratégias educativas, das decisões de planejamento e dos desafios relacionados à comunicação em saúde, considerando suas contribuições para a formação e a prática da Enfermagem.
A extensão universitária constitui uma prática acadêmica voltada à integração entre formação, realidade social e necessidades da comunidade. Por meio dela, os estudantes têm a oportunidade de aplicar conhecimentos em situações concretas, ampliar a compreensão sobre o território e desenvolver uma formação mais crítica, socialmente comprometida e articulada às demandas da população (Brasil, 2018).
O câncer de pele constitui um relevante problema de saúde pública no Brasil, em razão de sua elevada ocorrência e dos impactos sobre a saúde da população. Entre suas principais manifestações, destacam-se os carcinomas basocelular e espinocelular, classificados como câncer de pele não melanoma e responsáveis pela maior parte dos casos. O melanoma, embora apresente menor frequência, caracteriza-se por maior agressividade e capacidade de disseminação para outros órgãos, reforçando a importância das estratégias de prevenção e detecção precoce (Silveira; Grimaldi; Camargo, 2026).
Segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar aproximadamente 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028, número que corresponde a cerca de 518 mil casos anuais quando excluídas as neoplasias cutâneas não melanoma. Estas permanecem como as mais incidentes no país, evidenciando a relevância das estratégias de prevenção e detecção precoce (Instituto Nacional de Câncer, 2026).
No que se refere às neoplasias cutâneas, a exposição excessiva à radiação ultravioleta constitui um dos principais fatores de risco, especialmente entre pessoas que exercem atividades ao ar livre. Também estão associados ao risco características individuais e antecedentes como pele clara, histórico familiar, idade avançada, múltiplas lesões pigmentadas e episódios recorrentes de queimaduras solares (Bomfim et al., 2018; Instituto Nacional de Câncer, 2023b). Apesar dos avanços relacionados à prevenção, à detecção precoce e ao tratamento, persistem desigualdades no acesso à informação, no reconhecimento oportuno de alterações suspeitas e nos serviços de saúde (Bomfim et al., 2018).
Medidas de fotoproteção, como o uso regular de protetor solar, roupas adequadas, chapéus, óculos de proteção e a redução da exposição solar nos horários de maior intensidade, constituem importantes estratégias preventivas. Além disso, o reconhecimento de alterações cutâneas suspeitas pode favorecer a detecção precoce e o encaminhamento oportuno para avaliação profissional (Instituto Nacional de Câncer, 2023b).
As ações de educação em saúde assumem, portanto, relevância na promoção do autocuidado e na prevenção das neoplasias cutâneas, particularmente em populações submetidas à exposição solar prolongada e em situações de vulnerabilidade social. Nesse campo, a Enfermagem desempenha papel importante no desenvolvimento de atividades educativas, na orientação sobre medidas de fotoproteção e no reconhecimento de sinais de alerta, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (Coradi; Dionisio; Veiga, 2025).
A participação dos acadêmicos em ações extensionistas amplia as possibilidades de articulação entre teoria e prática e de aproximação com diferentes realidades sociais e necessidades de saúde. Essas experiências também constituem oportunidades de reflexão sobre o trabalho em saúde, a atuação profissional e o compromisso social relacionado à formação universitária (Freitas et al., 2016).
A partir dessa perspectiva, insere-se o Projeto Mundaú Contra o Câncer (MCC), vinculado à Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), que desenvolve ações de educação em saúde junto às comunidades do entorno da Lagoa Mundaú, em Maceió, Alagoas, com ênfase na prevenção do câncer e na ampliação do acesso à informação em saúde (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024a, 2024b).
O Pontal da Barra, às margens da Lagoa Mundaú, possui atividades econômicas relacionadas à pesca artesanal e à mariscagem, frequentemente desenvolvidas ao ar livre (Tamano et al., 2015). Essa informação caracteriza o território, mas não permite concluir que os escolares participantes ou suas famílias exerçam tais ocupações. A escola oferece oportunidade para abordar cuidados preventivos com adolescentes e estabelecer aproximação entre universidade e comunidade, sem pressupor que as orientações tenham sido compartilhadas ou adotadas fora do ambiente escolar (Brasil, 2023).
Entretanto, a realização de ações educativas em territórios com essas características envolve desafios que ultrapassam a simples transmissão de informações sobre prevenção. As recomendações precisam considerar a faixa etária do público, a linguagem utilizada, as características socioculturais, as condições socioeconômicas e as possibilidades concretas de adoção das medidas preventivas no cotidiano da população.
Evidências recentes ampliam essa justificativa. Alves et al. (2026), em estudo com 1.442 adultos de municípios do Amazonas, identificaram associação entre vulnerabilidade socioeconômica e menor adoção de práticas de fotoproteção. Nadelmann et al. (2025), em revisão narrativa sobre melanoma acral, discutiram dificuldades de reconhecimento das lesões e desigualdades no acesso ao diagnóstico em diferentes grupos populacionais. Embora se refiram a contextos distintos da experiência escolar aqui relatada, esses estudos fundamentam a necessidade de articular prevenção, acessibilidade das recomendações e diversidade de apresentações clínicas nas ações de educação em saúde.
A literatura e os documentos mobilizados neste estudo fundamentam a relevância da prevenção, da educação em saúde e da extensão universitária. Contudo, para compreender o desenvolvimento de ações concretas, também é necessário explicitar decisões pedagógicas e tensões práticas, como a tradução de conteúdos clínicos para adolescentes, a viabilidade de recomendações preventivas e a diversidade de representações dermatológicas. A contribuição proposta por este relato é examinar conjuntamente essas três questões a partir de uma experiência situada, sem afirmar que se trata de lacuna inédita ou de avaliação de resultados.
Diante desse contexto, o presente relato reflexivo é norteado pela seguinte questão: quais reflexões emergiram da experiência extensionista no planejamento e desenvolvimento de ações educativas para prevenção e detecção precoce do câncer de pele no Projeto Mundaú Contra o Câncer?
A sistematização da experiência justifica-se por tornar explícitos desafios que podem permanecer pouco visíveis em descrições estritamente cronológicas de atividades extensionistas. O interesse do relato reside em discutir como o planejamento educativo pode articular rigor técnico, compreensão do público e equidade, oferecendo subsídios reflexivos para ações futuras de Enfermagem, respeitados os limites do material disponível.
Dessa forma, o estudo tem como objetivo descrever e refletir criticamente sobre o planejamento e o desenvolvimento de ações educativas voltadas à prevenção e à detecção precoce do câncer de pele, realizadas no âmbito do Projeto Mundaú Contra o Câncer, em diálogo com a literatura científica.
2. METODOLOGIA
2.1. Tipo de Estudo
Trata-se de um relato reflexivo e retrospectivo de experiência extensionista, fundamentado nas ações educativas desenvolvidas em 2024 no âmbito do Projeto Mundaú Contra o Câncer (MCC), na Escola Municipal Silvestre Péricles, em Maceió, Alagoas.
A experiência foi vivenciada diretamente por Ana, integrante do projeto em 2024, que participou das capacitações, do planejamento, da elaboração dos materiais educativos e da condução das atividades escolares. Anne passou a integrar o projeto em 2025, não tendo participado das ações descritas, e contribuiu posteriormente para a revisão da literatura, a análise crítica da experiência e a redação do trabalho.
A construção do relato fundamentou-se na experiência extensionista, na consulta aos documentos institucionais e no diálogo com a literatura científica. O estudo não teve como finalidade avaliar a eficácia das ações educativas, mensurar a aprendizagem dos escolares ou coletar dados por meio de entrevistas e questionários.
2.2. Cenário da Experiência
A experiência ocorreu no âmbito do Projeto Mundaú Contra o Câncer (MCC), vinculado à Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Segundo a ficha institucional, o projeto foi aprovado no Edital PROEX/UNCISAL nº 001/2024 e realizou sua reunião de fundação em 3 de junho de 2024. A proposta contemplava capacitação discente e ações de educação em saúde junto às comunidades do entorno da Lagoa Mundaú, com ênfase na prevenção do câncer e na difusão de informações acessíveis (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024a, 2024b).
As atividades ocorreram na Escola Municipal Silvestre Péricles, no Pontal da Barra, em Maceió, Alagoas. O ambiente escolar foi considerado pertinente para o desenvolvimento de orientações dirigidas a adolescentes e para a aproximação entre extensão universitária e comunidade. O relato não dispõe de caracterização individual das condições sociais ou ocupacionais dos escolares; por isso, utiliza informações territoriais exclusivamente como contexto das ações.
O Pontal da Barra está localizado às margens da Lagoa Mundaú e apresenta dinâmica socioeconômica relacionada, entre outras atividades, à pesca artesanal e à mariscagem. Por serem realizadas predominantemente ao ar livre, essas ocupações oferecem contexto pertinente à discussão sobre exposição solar e prevenção das neoplasias cutâneas. Na análise retrospectiva, tais características territoriais foram consideradas relevantes para interpretar a pertinência das ações educativas, sem que se possa afirmar, na ausência de registro específico, que tenham determinado a escolha inicial da escola.
2.3. Período, Equipe Extensionista e Público-Alvo das Ações
A experiência escolar ocorreu no segundo semestre de 2024, em três encontros na Escola Municipal Silvestre Péricles: 13 de setembro (contextualização do projeto e de suas ações), 27 de setembro (formas de prevenção do câncer) e 1º de novembro (o SUS: do rastreamento ao tratamento). As datas e os temas constam do relatório institucional de ações de 2024. Não foram localizados registros suficientes para confirmar a duração ou os responsáveis específicos por cada encontro (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024c).
A equipe extensionista reuniu estudantes de Enfermagem, Medicina, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e Nutrição, sob coordenação docente, incluindo integrantes de instituições parceiras. Essa composição é mencionada para contextualizar o caráter interprofissional do projeto, sem atribuição de percepções ou falas a terceiros (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024a).
O público-alvo foi constituído por estudantes do 7º ao 9º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Silvestre Péricles. Não foram disponibilizados registros de frequência que permitissem determinar o número de participantes em cada encontro ou o total de escolares alcançados. Não foram coletadas informações sociodemográficas individuais dos estudantes.
2.4. Desenvolvimento das Ações Educativas
As ações ocorreram em três encontros, com os temas registrados no relatório institucional: apresentação do MCC e das ações extensionistas; formas de prevenção do câncer; e percurso no Sistema Único de Saúde, do rastreamento ao tratamento (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024c). A reconstrução das atividades pedagógicas baseia-se na experiência vivenciada e nos documentos institucionais, sem atribuir a cada encontro recursos ou procedimentos cuja distribuição não esteja documentada.
Segundo o relato da participante, as atividades educativas utilizaram dois banners expositivos sobre a Regra do ABCDE, um caça-palavras e um circuito educativo em formato de tabuleiro de grandes dimensões, contendo perguntas relacionadas aos temas abordados. Os banners constituíram recursos de apoio visual à apresentação das características de alerta em lesões cutâneas pigmentadas, enquanto o caça-palavras e o tabuleiro integraram a proposta de abordagem lúdica e participativa.
A escolha desses materiais buscou favorecer a comunicação de informações sobre prevenção e detecção precoce do câncer de pele em linguagem acessível ao público adolescente. A Regra do ABCDE foi apresentada como recurso educativo para o reconhecimento de sinais suspeitos, sem finalidade diagnóstica e sem substituir a avaliação profissional. Entretanto, os registros disponíveis não permitem identificar em qual encontro cada recurso foi empregado nem reconstruir detalhadamente a condução das atividades.
A participação dos escolares teve finalidade educativa. Para a elaboração deste artigo, não foram aplicados questionários ou instrumentos de avaliação da aprendizagem, nem coletados dados individuais dos participantes. Por essa razão, a sistematização concentrou-se no processo de planejamento e desenvolvimento das atividades.
Quadro 1. Encontros educativos realizados na Escola Municipal Silvestre Péricles em 2024
Data | Tema registrado | Fonte documental |
13/09/2024 | Contextualização do projeto e ações | Relatório MCC 2024 |
27/09/2024 | Formas de prevenção do câncer | Relatório MCC 2024 |
01/11/2024 | O SUS: do rastreamento ao tratamento | Relatório MCC 2024 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base no relatório de ações do MCC (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024c).
2.5. Sistematização Reflexiva da Experiência
A sistematização da experiência teve caráter retrospectivo, considerando que as ações educativas ocorreram em 2024 e que a elaboração do relato foi realizada posteriormente. Para reconstituir o contexto institucional e a sequência cronológica das atividades, foram consultados o Edital PROEX/UNCISAL nº 001/2024, a ficha institucional do Projeto Mundaú Contra o Câncer (MCC) e o relatório de ações de 2024. Esses documentos foram utilizados como fontes de contextualização e comprovação das atividades desenvolvidas, sem utilização de dados pessoais dos escolares ou investigação de resultados relacionados à sua participação.
As reflexões foram elaboradas a partir da experiência extensionista, das informações documentais disponíveis e da discussão crítica com a literatura científica. Durante a sistematização, buscou-se distinguir os acontecimentos registrados nos documentos institucionais, as percepções decorrentes da vivência e as interpretações construídas posteriormente, assegurando maior clareza quanto à origem das informações apresentadas.
Para organizar a análise reflexiva, foram estabelecidos cinco eixos temáticos: (1) planejamento e construção das ações educativas; (2) comunicação e linguagem; (3) fotoproteção e condições socioeconômicas; (4) equidade e tonalidades de pele; e (5) aprendizados para a Enfermagem. Esses eixos foram construídos a partir da retomada crítica da experiência, da consulta aos documentos institucionais e do diálogo com a literatura, não constituindo categorias empíricas derivadas de entrevistas, questionários ou respostas dos escolares. Não foi empregada técnica formal de análise de conteúdo.
A reconstrução retrospectiva foi orientada pelos documentos institucionais disponíveis e pela memória da participante, com distinção entre acontecimentos registrados e interpretações posteriores. Lacunas relativas à duração e à distribuição de responsabilidades são detalhadas na seção de limitações.
Não foram realizadas entrevistas, gravações, avaliações sistemáticas de aprendizagem ou acompanhamento posterior dos escolares para a elaboração deste artigo. A análise não utilizou falas, imagens ou respostas individuais dos participantes.
2.6. Aspectos Éticos
O presente estudo caracteriza-se como um relato reflexivo e retrospectivo de experiência extensionista, elaborado a partir da vivência acadêmica de uma das autoras, de documentos institucionais e da literatura científica. As atividades educativas ocorreram em 2024, no âmbito do Projeto Mundaú Contra o Câncer, anteriormente à elaboração deste artigo.
A sistematização da experiência concentrou-se na descrição e na reflexão crítica sobre o planejamento, o desenvolvimento das estratégias educativas e suas contribuições para a formação em Enfermagem. Não foram realizadas entrevistas, aplicações de questionários, avaliações individuais ou coleta de dados pessoais dos escolares para fins de pesquisa. Também não foram utilizadas falas, respostas, fotografias ou outras informações que permitissem a identificação dos participantes.
O estudo não foi submetido ao Sistema CEP/CONEP, considerando seu caráter reflexivo e retrospectivo, fundamentado na experiência acadêmica, em documentos institucionais e na literatura científica, sem realização de entrevistas, aplicação de questionários ou utilização de dados pessoais identificáveis dos escolares para fins de pesquisa. O enquadramento ético foi considerado à luz da Resolução CNS nº 510/2016, especialmente do artigo 1º, parágrafo único, inciso VII, referente ao aprofundamento teórico de situações que emergem espontânea e contingencialmente na prática profissional, desde que não sejam revelados dados que possam identificar os sujeitos envolvidos.
Foram respeitados os princípios da integridade científica, da confidencialidade, da responsabilidade na apresentação das informações e do reconhecimento das fontes consultadas, preservando-se a identidade dos escolares e dos demais envolvidos nas atividades extensionistas.
3. DESCRIÇÃO E DISCUSSÃO DA EXPERIÊNCIA
3.1. Planejamento e Construção das Ações Educativas
O planejamento das atividades ocorreu em contexto interprofissional e incluiu reuniões e capacitações previstas no projeto. O relatório de 2024 registra uma capacitação em 18 de junho, uma atividade formativa sobre câncer de pele em 23 de agosto e outra sobre câncer e Atenção Primária à Saúde em 30 de agosto (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024c). A experiência de participação nas capacitações, na elaboração dos materiais e nas atividades escolares fundamentou a reflexão sobre a necessidade de organizar conteúdos tecnicamente corretos em linguagem acessível ao público adolescente.
Os encontros escolares foram registrados em 13 de setembro, 27 de setembro e 1º de novembro de 2024, com os temas de contextualização do projeto, prevenção do câncer e percurso no SUS, respectivamente (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, 2024c). Os recursos educativos empregados incluíram dois banners sobre a Regra do ABCDE, um caça-palavras e um circuito em tabuleiro de grandes dimensões, com perguntas. A associação de cada recurso a uma data específica não foi documentada.
Na reconstrução crítica das autoras, o desafio central do planejamento foi selecionar informações clinicamente pertinentes sem utilizar linguagem excessivamente técnica. Isso exigiu considerar os recursos visuais e as atividades dialogadas como meios de apresentação dos temas, preservando a advertência de que orientações educativas não substituem avaliação profissional.
A participação de estudantes de diferentes cursos constituiu um contexto de planejamento interprofissional. As responsabilidades específicas de cada integrante nos encontros não foram documentadas de forma individualizada, razão pela qual a análise se concentra nas decisões educativas e nas reflexões sobre a experiência.
À luz da educação dialógica, o aspecto formativo mais relevante não é apenas utilizar técnicas participativas, mas reconhecer o adolescente como interlocutor da ação educativa (Freire, 1996). A experiência destaca, assim, a necessidade de conciliar participação e precisão das orientações.
3.2. Comunicação em Saúde e Adequação da Linguagem Ao Público Adolescente
A análise reflexiva identificou como desafio conciliar precisão científica e linguagem acessível ao público adolescente. Termos como radiação ultravioleta, fotoproteção e alterações cutâneas suspeitas exigiam explicações compreensíveis, sem reduzir a prevenção a mensagens alarmistas nem transmitir a ideia de que um sinal isolado confirma o diagnóstico.
A utilização de banners, caça-palavras e tabuleiro educativo buscou aproximar conteúdos científicos do público adolescente por meio de recursos visuais e lúdicos. A reflexão sobre sua escolha enfatiza a clareza da linguagem e a apresentação dos sinais de alerta sem induzir interpretações diagnósticas.
A literatura sobre educação dialógica e ações intersetoriais na escola oferece respaldo à participação ativa do público na construção de orientações de saúde (Freire, 1996; Chiari et al., 2018). No presente relato, esses fundamentos permitem discutir a intenção pedagógica das escolhas realizadas, sem confundi-la com resultados mensurados.
Os materiais empregados não passaram por processo formal de validação. Essa característica orienta a interpretação do relato como reflexão sobre planejamento e comunicação, e não como estudo de validação de instrumentos educativos.
A Regra do ABCDE foi abordada como recurso educativo para reconhecer características de alerta em lesões pigmentadas — assimetria, bordas irregulares, variação de cor, diâmetro e evolução. Sua utilização não teve finalidade diagnóstica e não abrange, isoladamente, todas as formas de apresentação das neoplasias cutâneas. A orientação para procurar avaliação profissional diante de sinais suspeitos integrou a abordagem educativa (Instituto Nacional de Câncer, 2023a).
Para a formação das autoras, a principal implicação é que comunicar em saúde requer decidir o que explicar, como apresentar limites da informação e quando orientar a procura dos serviços. A competência educativa do enfermeiro envolve, simultaneamente, conhecimento técnico, linguagem adequada e respeito à autonomia do público, sem confundir uma atividade bem organizada com efetividade comprovada.
3.3. Fotoproteção e Adequação das Recomendações às Condições Socioeconômicas do Território
A experiência suscitou uma tensão entre a recomendação clínica de fotoproteção e suas possibilidades de aplicação cotidiana. A pesca e a mariscagem caracterizam parte da dinâmica ocupacional do Pontal da Barra, com atividades ao ar livre (Tamano et al., 2015); contudo, o relato não dispõe de informações para atribuir essas ocupações ou dificuldades econômicas específicas aos escolares participantes.
Em estudo transversal com 1.442 adultos de três municípios amazonenses, Alves et al. (2026) observaram que a vulnerabilidade socioeconômica esteve associada a maior chance de ausência de práticas fotoprotetoras (razão de chances de 2,28). O uso de protetor solar foi pouco frequente, enquanto roupas e chapéus figuraram entre as medidas alternativas utilizadas. Os achados reforçam que as recomendações devem considerar barreiras materiais e condições de exposição, sem permitir inferir os hábitos ou a situação econômica dos escolares deste relato.
A reflexão posterior evidenciou que recomendações centradas apenas na aquisição e no uso de filtros solares comerciais podem ser insuficientes como orientação universal. Trata-se de reflexão sobre a viabilidade social das mensagens preventivas, e não de resultado de levantamento de renda, acesso a produtos ou práticas das famílias atendidas.
A reflexão posterior ressaltou a pertinência de apresentar medidas complementares de proteção, como roupas com maior cobertura, chapéus, utilização de sombra e redução da exposição solar intensa quando possível, sem sugerir substituição automática do filtro solar. A escolha e a viabilidade de cada medida dependem das situações concretas de vida e trabalho, que não foram individualmente investigadas no estudo (Instituto Nacional de Câncer, 2023b).
O ponto crítico para o planejamento educativo é evitar a distância entre a orientação tecnicamente correta e as condições materiais em que ela poderá ser adotada. Para pessoas que exercem atividades ao ar livre, por exemplo, reduzir horários de exposição pode não ser uma decisão inteiramente individual. A comunicação preventiva deve reconhecer essas restrições em vez de atribuir exclusivamente às pessoas a responsabilidade por superá-las.
A discussão sobre a viabilidade das recomendações preventivas amplia o olhar da Enfermagem para além do comportamento individual. A literatura sobre fatores de risco e fotoproteção contextualiza a relevância de orientar pessoas expostas ao sol, enquanto a experiência permite refletir sobre a acessibilidade das mensagens, sem demonstrar as condições econômicas dos escolares (Instituto Nacional de Câncer, 2023b; Coradi; Dionisio; Veiga, 2025).
Como implicação prática, recomenda-se combinar orientações preventivas cientificamente fundamentadas com atenção à sua acessibilidade, considerando que condições materiais e ocupacionais podem restringir escolhas individuais.
3.4. Equidade e Representatividade das Diferentes Tonalidades de Pele nas Estratégias Educativas
A reflexão posterior sobre os recursos visuais destacou a importância de representar alterações cutâneas em diferentes tonalidades de pele. Essa percepção não decorre de levantamento sistemático ou análise quantitativa das imagens disponíveis, mas de apreciação crítica das estratégias educativas.
A predominância de exemplos de pele clara em materiais educativos, quando ocorre, pode restringir a diversidade de apresentações ilustradas. No contexto de uma ação escolar, a escolha das imagens não é apenas um problema gráfico: exige atenção ao que o público consegue reconhecer nas orientações, sem presumir que a presença de imagens diversas, por si só, produza maior aprendizagem.
Em revisão narrativa, Nadelmann et al. (2025) descrevem o melanoma acral como uma apresentação que acomete principalmente palmas das mãos, plantas dos pés e regiões ungueais. Os autores discutem dificuldades de reconhecimento, diagnóstico em estágios mais avançados em determinados grupos populacionais e desigualdades no acesso à assistência dermatológica. Essa literatura reforça a pertinência de materiais educativos que incluam diferentes tonalidades de pele e localizações anatômicas. Ressalta-se que o melanoma acral não compartilha a mesma associação causal com a radiação ultravioleta observada nos principais cânceres cutâneos relacionados à exposição solar.
É necessário distinguir tonalidade ou cor da pele dos fototipos de Fitzpatrick. Os fototipos dizem respeito à resposta cutânea à exposição solar e não constituem categorias raciais. A aproximação automática entre essas classificações pode levar a simplificações indesejáveis na seleção dos exemplos apresentados aos escolares.
A análise também considerou apresentações de lesões suspeitas que não se restringem às imagens mais comuns de alterações pigmentadas. A observação de regiões acrais, incluindo palmas e plantas, é pertinente à discussão sobre diversidade dermatológica. A Regra do ABCDE deve ser tratada como recurso auxiliar, não como instrumento diagnóstico ou critério completo para todas as neoplasias cutâneas (Instituto Nacional de Câncer, 2023a; Eid; Alchorne, 2011).
A literatura sobre câncer de pele em pessoas negras contribui para discutir particularidades clínicas e a necessidade de representatividade nos materiais educativos (Eid; Alchorne, 2011). A discussão se refere à adequação das orientações, sem atribuir mudanças de percepção aos escolares.
Dessa reflexão decorre uma orientação prática para o planejamento de materiais: verificar se as imagens selecionadas mostram diversidade de tonalidades e localizações anatômicas, se os textos explicam os limites dos sinais de alerta e se indicam a busca de avaliação profissional. Trata-se de recomendação reflexiva, não de instrumento validado ou resultado medido nos escolares.
3.5. Aprendizados para a Formação e Atuação da Enfermagem
A contribuição formativa da experiência pode ser sintetizada em três dimensões relacionadas: comunicação acessível, planejamento sensível às condições do território e atenção à diversidade nas representações educativas. Essas dimensões resultam da sistematização reflexiva da experiência e não expressam avaliação realizada pelos escolares.
Na comunicação, o aprendizado refere-se à necessidade de transformar o conhecimento técnico em orientações claras sem retirar informações essenciais sobre incerteza, sinais de alerta e procura dos serviços. No planejamento territorial, evidencia-se a importância de não apresentar uma medida preventiva como igualmente viável para todas as pessoas, reconhecendo limites econômicos e ocupacionais que exigem cuidado na formulação das mensagens.
Na dimensão da equidade, a seleção de imagens e exemplos foi reconhecida como parte do conteúdo educativo. A representação de diferentes tonalidades de pele e apresentações clínicas deve integrar o planejamento de materiais mais inclusivos.
O trabalho interprofissional e a apresentação do percurso assistencial no SUS completam esse aprendizado. A participação de diferentes cursos ofereceu contexto de planejamento compartilhado; a orientação sobre Atenção Primária vinculou reconhecimento de sinais de alerta à possibilidade de continuidade do cuidado. Não foram examinados encaminhamentos efetivos ou desfechos assistenciais posteriores.
Para ações futuras, a experiência recomenda planejar antecipadamente a linguagem, avaliar a diversidade visual dos recursos, articular medidas de fotoproteção e indicar com clareza onde procurar atendimento. Essas recomendações decorrem da análise das autoras, informada pela literatura citada, e devem ser adequadas a cada contexto escolar.
O valor científico deste relato está na explicitação de decisões pedagógicas e tensões entre rigor técnico, acessibilidade e equidade, que podem subsidiar o planejamento de futuras ações educativas.
4. LIMITAÇÕES DO RELATO
As reflexões referem-se a três encontros realizados em uma única escola, fundamentados na vivência extensionista de 2024 e na análise crítica elaborada posteriormente. Não houve instrumentos de avaliação antes e depois das atividades, acompanhamento dos escolares ou mensuração de conhecimentos, fotoproteção e acesso aos serviços. Consequentemente, não é possível atribuir efeitos educativos ou assistenciais às ações.
A reconstrução retrospectiva está sujeita a limitações de memória e à incompletude dos registros. Não foram localizadas listas de frequência, informações sobre a duração de cada encontro ou identificação individualizada dos responsáveis pelas atividades. Por isso, não foi possível determinar com segurança o número de participantes ou detalhar a distribuição dos recursos educativos entre os encontros.
As percepções das autoras também são situadas e podem não representar experiências de outros estudantes, escolas ou territórios. Informações sobre pesca e mariscagem caracterizam o entorno da instituição, mas não constituem dados socioeconômicos dos participantes. Por esse motivo, as implicações práticas propostas devem ser interpretadas como orientações reflexivas, e não como conclusões generalizáveis.
Esses limites não impedem a discussão da experiência, mas delimitam seu alcance: o relato pode contribuir para o planejamento de ações educativas, enquanto a avaliação de aprendizagem, adesão e repercussões na comunidade exigiria outros procedimentos e fontes de dados.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo descreveu e examinou criticamente o planejamento e o desenvolvimento de três encontros educativos do Projeto Mundaú Contra o Câncer, realizados em 2024. A análise destacou os desafios da comunicação com adolescentes, da viabilidade das medidas preventivas e da representatividade de diferentes tonalidades de pele nos materiais educativos.
A principal contribuição consiste em explicitar que o planejamento educativo envolve escolhas interdependentes: linguagem compreensível, recomendações aplicáveis às condições de vida e recursos visuais atentos à diversidade das apresentações cutâneas. Na prática de Enfermagem, esses aspectos oferecem critérios para preparar orientações que conciliem precisão científica, sensibilidade ao território e equidade.
A experiência também reforçou a importância de apresentar sinais de alerta como motivo para avaliação profissional e de articular recomendações preventivas às condições concretas do território e à diversidade de apresentações cutâneas.
Experiências futuras poderão documentar com maior precisão a participação, descrever sistematicamente os materiais e avaliar, mediante delineamento apropriado, a compreensão das mensagens e as práticas de fotoproteção. A presente sistematização permanece delimitada aos acontecimentos documentados e às reflexões das autoras, sem extrapolar para resultados não mensurados.
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1 Graduanda em Enfermagem. Centro Universitário CESMAC. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-6630-2573.
2 Graduanda em Enfermagem. Centro Universitário CESMAC. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7102-904X.
3 Enfermeiro. Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Docente do Centro Universitário CESMAC e da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/0409382522656260. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3295-1006. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.