EDUCAÇÃO, DIÁLOGO E TECNOLOGIA: A ATUALIDADE DO PENSAMENTO DE PAULO FREIRE NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

EDUCATION, DIALOGUE AND TECHNOLOGY: THE RELEVANCE OF PAULO FREIRE'S THOUGHT IN THE AGE OF ARTIFICIAL INTELLIGENCE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779073205

RESUMO
O avanço da inteligência artificial tem produzido reconfigurações nos modos de ensinar e aprender, tensionando concepções tradicionais de educação e ampliando o papel das tecnologias digitais na mediação pedagógica. Nesse cenário, o pensamento de Paulo Freire permanece como referência teórica relevante para problematizar os sentidos da educação contemporânea. Este artigo tem como objetivo analisar a atualidade da pedagogia freireana frente à incorporação da inteligência artificial nos processos educativos, com ênfase nos conceitos de dialogicidade, problematização e práxis. A pesquisa caracteriza-se como de natureza qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica de obras de Freire e de autores que discutem cultura digital, tecnologias educacionais e mediação pedagógica. A análise indica que, embora a inteligência artificial apresente potencial para personalizar a aprendizagem e ampliar o acesso à informação, seu uso acrítico pode reforçar práticas instrucionais automatizadas, aproximando-se de uma lógica de transmissão de conteúdos. Em contraposição, a perspectiva freireana propõe uma educação centrada no diálogo, na escuta e na construção coletiva do conhecimento, elementos que permanecem necessários mesmo em ambientes digitais. Assim, defende-se que a integração da inteligência artificial à educação deve ser orientada por princípios éticos e pedagógicos que valorizem a autonomia dos sujeitos, a reflexão crítica e a participação ativa dos estudantes. Conclui-se que a articulação entre tecnologia e pedagogia crítica não se dá de forma automática, exigindo intencionalidade docente e compreensão dos limites e das possibilidades das ferramentas digitais.
Palavras-chave: Educação; Inteligência Artificial; Paulo Freire; Dialogicidade.

ABSTRACT
The advancement of artificial intelligence has led to reconfigurations in teaching and learning methods, challenging traditional conceptions of education and expanding the role of digital technologies in pedagogical mediation. In this scenario, Paulo Freire's thought remains a relevant theoretical reference for problematizing the meanings of contemporary education. This article aims to analyze the relevance of Freirean pedagogy in the face of the incorporation of artificial intelligence in educational processes, emphasizing the concepts of dialogicity, problematization, and praxis. The research is qualitative in nature, based on a bibliographic review of works by Freire and authors who discuss digital culture, educational technologies, and pedagogical mediation. The analysis indicates that, although artificial intelligence has the potential to personalize learning and expand access to information, its uncritical use can reinforce automated instructional practices, approaching a logic of content transmission. In contrast, the Freirean perspective proposes an education centered on dialogue, listening, and the collective construction of knowledge, elements that remain necessary even in digital environments. Thus, it is argued that the integration of artificial intelligence into education should be guided by ethical and pedagogical principles that value the autonomy of individuals, critical reflection, and the active participation of students. It is concluded that the articulation between technology and critical pedagogy does not occur automatically, requiring intentional teaching and an understanding of the limits and possibilities of digital tools.
Keywords: Education; Artificial Intelligence; Paulo Freire; Dialogicity.

1. INTRODUÇÃO

O avanço das tecnologias digitais tem produzido mudanças significativas nas formas de organização da sociedade e, particularmente, nos processos educativos. A crescente inserção da inteligência artificial no cotidiano escolar ultrapassa a simples utilização de ferramentas tecnológicas, envolvendo transformações nas dinâmicas de ensino, aprendizagem e produção do conhecimento. Diante desse cenário, intensificam-se os debates acerca dos fundamentos pedagógicos que orientam a educação contemporânea e das implicações decorrentes da mediação tecnológica nos espaços formativos.

A presença da inteligência artificial no campo educacional amplia possibilidades de acesso à informação, diversificação de metodologias e personalização da aprendizagem. Contudo, tais avanços também suscitam questionamentos relacionados ao papel do professor, à autonomia dos estudantes e aos sentidos da formação humana em contextos cada vez mais mediados por sistemas automatizados. Desse modo, torna-se necessário compreender que a tecnologia, isoladamente, não assegura práticas pedagógicas críticas ou emancipatórias, uma vez que seus efeitos dependem das concepções de educação que orientam sua utilização.

Nesse contexto, o pensamento de Paulo Freire permanece relevante ao oferecer fundamentos teóricos para problematizar as transformações em curso. Sua concepção de educação como prática social e política, fundamentada no diálogo, na problematização e na construção coletiva do conhecimento, possibilita refletir criticamente sobre o uso das tecnologias digitais no âmbito educacional. Para Freire (1996), a educação ultrapassa a transmissão mecânica de conteúdos, constituindo-se como prática de liberdade e processo permanente de formação humana.

A centralidade do diálogo na perspectiva freireana evidencia a importância da escuta, da interação e da participação ativa dos sujeitos no processo educativo, elementos que permanecem essenciais mesmo diante da expansão das tecnologias digitais. Em contraposição, a incorporação da inteligência artificial pode, em determinados contextos, reforçar práticas instrucionais baseadas na repetição, na padronização e na automatização do ensino, aproximando-se de modelos tradicionais nos quais os estudantes ocupam posição passiva na aprendizagem.

Outro aspecto fundamental do pensamento freireano refere-se à problematização da realidade como condição para o desenvolvimento da consciência crítica. Ao incentivar a reflexão acerca das relações sociais, culturais e políticas que atravessam a vida cotidiana, a educação deixa de assumir caráter meramente adaptativo e passa a contribuir para a transformação social. Tal princípio adquire especial relevância em uma sociedade marcada pela crescente influência de algoritmos, plataformas digitais e sistemas automatizados na produção e circulação de informações.

Dessa forma, a relação entre inteligência artificial e educação exige uma análise que considere não apenas as potencialidades técnicas dessas ferramentas, mas também suas implicações éticas, pedagógicas e sociais. A inteligência artificial pode tanto favorecer processos de autonomia, participação e construção crítica do conhecimento quanto intensificar mecanismos de controle, padronização e reprodução de práticas educativas tradicionais. Assim, discutir a atualidade do pensamento de Paulo Freire na era da inteligência artificial torna-se fundamental para compreender os desafios e as possibilidades de uma educação crítica em contextos digitais.

Nesse sentido, a mediação docente assume papel central na integração das tecnologias ao processo educativo. Cabe ao professor orientar o uso crítico dessas ferramentas, promovendo práticas que valorizem a reflexão, a criatividade e a participação dos estudantes. Freire (2005, p. 47) afirma:

A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres vazios a quem o mundo enche de conteúdos. Não pode basear-se numa consciência especializada, mecanicamente compartimentada, mas nos homens como corpos conscientes e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo.

Essa compreensão reforça a necessidade de repensar o uso da inteligência artificial na educação a partir de fundamentos críticos. A tecnologia deve ser compreendida como meio e não como fim, estando subordinada aos princípios pedagógicos que orientam o processo educativo.

Dessa forma, a relação entre inteligência artificial e educação exige uma análise que considere não apenas as potencialidades técnicas dessas ferramentas, mas também suas implicações éticas, pedagógicas e sociais. A inteligência artificial pode tanto favorecer processos de autonomia, participação e construção crítica do conhecimento quanto intensificar mecanismos de controle, padronização e reprodução de práticas educativas tradicionais. Assim, discutir a atualidade do pensamento de Paulo Freire na era da inteligência artificial torna-se fundamental para compreender os desafios e as possibilidades de uma educação crítica em contextos digitais.

2. METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica. Esse tipo de abordagem permite analisar teoricamente as relações entre educação, tecnologia e pensamento freireano, possibilitando a construção de interpretações críticas sobre o fenômeno estudado.

A revisão bibliográfica foi realizada a partir de obras clássicas de Paulo Freire, bem como de autores que discutem cultura digital e tecnologias educacionais. Foram considerados textos publicados em livros, artigos científicos e documentos institucionais relevantes para a temática.

Segundo Bogdan e Biklen (1994), a pesquisa qualitativa privilegia a compreensão dos significados atribuídos pelos sujeitos às suas experiências, sendo adequada para estudos que envolvem fenômenos educacionais complexos.

O procedimento metodológico consistiu na leitura, seleção e análise das obras, buscando identificar categorias relacionadas à dialogicidade, à problematização e à mediação tecnológica. Essas categorias orientaram a organização da análise desenvolvida no artigo.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise evidencia que a inteligência artificial tem ampliado significativamente as possibilidades de acesso à informação. Plataformas educacionais baseadas em algoritmos oferecem conteúdos personalizados, adaptando-se ao ritmo e às necessidades dos estudantes. No entanto, essa personalização pode reforçar práticas centradas na individualização do aprendizado, reduzindo as interações coletivas. Tal dinâmica contrasta com a perspectiva freireana, que valoriza o diálogo como elemento constitutivo do processo educativo.

Nesse sentido, é necessário reconhecer que a personalização algorítmica, embora pedagogicamente promissora, carrega riscos éticos que não podem ser ignorados. Estudos recentes apontam desafios como a privacidade dos dados dos estudantes, a falta de transparência dos algoritmos e o risco de discriminação algorítmica, os quais exigem abordagem cuidadosa para garantir que a IA seja utilizada de forma ética e inclusiva (Lima et al., 2025).

A dialogicidade, em Freire, não se limita à comunicação verbal, mas envolve uma relação horizontal entre sujeitos. Essa concepção desafia modelos educacionais baseados na centralidade da tecnologia e na automatização do ensino. Freire (1996, p. 25) destaca:

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, às suas inquietações, um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho de ensinar e não a de transferir conhecimento.

A transposição desse princípio dialógico para ambientes digitais não é automática nem isenta de tensões. Pesquisas sobre aulas síncronas remotas apontam dificuldades na construção efetiva do diálogo e na elaboração coletiva do conhecimento em perspectiva dialógica, devido à perda de elementos visuais e extraverbais da enunciação, aos limites nas tomadas de turno da fala e à impossibilidade de falas simultâneas (Momo; Silva, 2021). Por outro lado, os mesmos estudos reconhecem que ferramentas online podem potencializar o diálogo no universo digital, desde que haja intencionalidade pedagógica.

A inteligência artificial, quando utilizada de forma acrítica, pode contribuir para a reprodução de práticas instrucionais. Sistemas automatizados tendem a priorizar respostas corretas e eficiência, em detrimento da reflexão crítica. Essa lógica aproxima-se do que Freire denominou educação bancária, em que o estudante é reduzido a receptor passivo de informações.

Fonseca, Araújo e Leite (2026) argumentam que, mesmo diante do protagonismo das tecnologias, não se observa ruptura automática com modelos tradicionais de ensino: em muitos contextos, a cultura digital tem sido incorporada de forma instrumental, reforçando práticas transmissivas que pouco dialogam com a construção coletiva do conhecimento. Para os autores, o diálogo, na perspectiva freireana, não se reduz a técnica de comunicação, mas constitui condição ontológica da existência humana e fundamento ético-político da educação, deslocando a ênfase da técnica para os sentidos das interações e para a formação da consciência.

Nessa mesma direção, estudos recentes evidenciam que plataformas e algoritmos podem reforçar formas de vigilância, controle e padronização cognitiva, caso não sejam apropriados criticamente (Rodrigues; Almeida, 2023). O uso acrítico da IA reduz a interação humana, acentua desigualdades e compromete dimensões éticas, formativas e cognitivas no campo educacional (Martins, 2026).

Nesse sentido, a problematização assume papel central. A educação deve promover questionamentos sobre o uso das tecnologias, analisando seus impactos sociais, culturais e políticos. Freire (1996, p. 68) afirma:

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando intervenho, intervindo educo e me educo.

Essa concepção evidencia que o processo educativo envolve constante reflexão, o que se contrapõe a modelos automatizados de ensino. O surgimento de ferramentas de IA generativa introduz uma camada adicional de complexidade pedagógica: ao contrário de inovações tecnológicas anteriores, que funcionavam como suporte ao processo educacional, a IA generativa pode, em muitos casos, substituir a própria execução das tarefas originalmente concebidas para estimular o desenvolvimento cognitivo dos estudantes (Durso, 2025). Da perspectiva freireana, o que está em jogo não é a ferramenta em si, mas a orientação crítica de seu uso. O uso reflexivo e criativo da IA generativa na educação demanda uma abordagem que promova o diálogo, a cocriação, a curiosidade, a capacidade de duvidar das respostas geradas e de buscar fontes confiáveis, visando desenvolver o pensamento crítico e a conscientização dos aprendentes (Pimentel; Berino, 2025).

Outro aspecto relevante refere-se à mediação docente. A presença do professor continua sendo fundamental para orientar o uso das tecnologias, promovendo práticas que valorizem a autonomia e o pensamento crítico. A mediação tecnológica pode ser compreendida como uma expansão da mediação pedagógica, envolvendo o planejamento intencional da incorporação das tecnologias às ações docentes (Oliveria; Lacerda, 2022). Nesse sentido, a IA não substitui o trabalho docente, mas atua como suporte para enriquecer práticas pedagógicas, oferecendo dados, simulações e instrumentos que potencializam a construção do conhecimento (Giraffa; Kohls-Santos, 2023). A inteligência artificial pode ser incorporada de maneira crítica, contribuindo para a ampliação das possibilidades pedagógicas. No entanto, isso exige intencionalidade e conhecimento por parte dos educadores.

A práxis, entendida como ação reflexiva, constitui elemento central nesse processo. A integração entre teoria e prática permite que o uso das tecnologias seja orientado por princípios pedagógicos consistentes. Experiências com abordagem dialógico-problematizadora freireana mediada por tecnologias digitais têm demonstrado resultados concretos em termos de motivação e engajamento dos estudantes (Laranjo; Filho., 2024), o que sugere que o princípio da práxis permanece operante mesmo em contextos tecnologicamente mediados, desde que haja intencionalidade docente comprometida com a formação crítica. Nessa direção, sequências didáticas orientadas por princípios freireanos evidenciam a importância da ação-reflexão-ação na práxis docente, mesmo quando o objeto de ensino é a própria tecnologia (Duraes, et al., 2021).

Além disso, a educação deve considerar as desigualdades de acesso às tecnologias. A incorporação da inteligência artificial pode ampliar desigualdades existentes, caso não sejam adotadas políticas inclusivas. Estudos recentes indicam que, embora a IA apresente potencial para promover a personalização da aprendizagem e ampliar a acessibilidade, sua adoção acrítica pode acentuar desigualdades, reforçar vieses algorítmicos e comprometer a autonomia docente (Fernandes et al., 2024).

A análise também indica que a cultura digital exige novas competências, tanto para professores quanto para estudantes. A formação docente deve contemplar o uso crítico das tecnologias, articulando saberes pedagógicos e tecnológicos. A tecnologia não substitui o professor, mas pode ampliar suas possibilidades de atuação quando utilizada com planejamento, criticidade e compromisso com uma educação mais humana, inclusiva e significativa (Duraes, et al., 2025).

Nesse contexto, a educação freireana oferece fundamentos para pensar uma integração crítica entre tecnologia e ensino, evitando a redução da aprendizagem a processos automatizados. Fonseca, Araújo e Leite (2026) concluem que, embora a tecnologia não seja em si emancipadora, o diálogo crítico e a produção coletiva de sentidos podem ser ampliados por práticas colaborativas, autoria digital e processos comunicativos horizontais, desde que orientados por uma intencionalidade pedagógica comprometida com a conscientização — perspectiva que se articula diretamente aos princípios freireanos de autonomia, escuta e construção coletiva do conhecimento.

Por fim, observa-se que a incorporação da inteligência artificial à educação também demanda a construção de uma cultura digital orientada pela responsabilidade ética e pela participação crítica dos sujeitos. A presença crescente de sistemas automatizados nos espaços educativos torna indispensável o desenvolvimento de práticas pedagógicas que promovam não apenas competências técnicas, mas também capacidades reflexivas relacionadas à interpretação, avaliação e problematização das informações produzidas por algoritmos. Nesse contexto, a alfabetização digital crítica assume relevância ao possibilitar que estudantes e professores compreendam os interesses, limites e implicações presentes nas tecnologias que utilizam cotidianamente.

Também se torna necessário reconhecer que a inteligência artificial não opera de maneira neutra, uma vez que os algoritmos são desenvolvidos a partir de escolhas humanas, interesses econômicos e modelos culturais específicos. Desse modo, a utilização dessas ferramentas no campo educacional exige atenção aos riscos de reprodução de desigualdades, disseminação de vieses e fortalecimento de processos de exclusão digital. A perspectiva freireana contribui para essa reflexão ao defender uma educação comprometida com a conscientização e com a leitura crítica da realidade, permitindo que os sujeitos compreendam as tecnologias como produções históricas e sociais passíveis de questionamento e transformação.

Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de fortalecimento da dimensão coletiva da aprendizagem em ambientes digitais. Embora a inteligência artificial favoreça percursos individualizados de ensino, a educação, na perspectiva freireana, constitui processo essencialmente relacional e dialógico. A construção do conhecimento ocorre por meio da interação entre sujeitos, da troca de experiências e da problematização compartilhada da realidade. Assim, a centralidade das relações humanas permanece indispensável, mesmo em contextos mediados por tecnologias avançadas.

Cabe destacar, ainda, que o debate sobre inteligência artificial e educação não deve restringir-se às questões instrumentais relacionadas ao uso de plataformas e ferramentas digitais. Trata-se, sobretudo, de uma discussão acerca dos projetos de sociedade e das concepções de formação humana que orientam as práticas educativas contemporâneas. A pedagogia crítica de Paulo Freire permite compreender que toda prática educativa envolve posicionamentos éticos e políticos, tornando necessário questionar quais sujeitos se pretende formar em uma sociedade marcada pela intensificação das mediações tecnológicas.

Dessa forma, a atualidade do pensamento freireano manifesta-se na defesa de uma educação humanizadora, crítica e democrática, capaz de dialogar com as transformações tecnológicas sem subordinar o processo educativo à lógica da automatização. A inteligência artificial pode ampliar possibilidades pedagógicas relevantes, desde que sua utilização esteja vinculada à promoção da autonomia, da participação e da consciência crítica. Assim, a articulação entre educação, diálogo e tecnologia exige uma práxis docente comprometida não apenas com a inovação técnica, mas principalmente com a formação integral dos sujeitos e com a construção coletiva do conhecimento.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada evidencia que a inteligência artificial tem potencial para transformar os processos educativos, ampliando o acesso à informação e diversificando as estratégias de ensino. No entanto, seu uso não garante, por si só, práticas pedagógicas críticas. A incorporação dessas tecnologias exige reflexão sobre seus impactos e limites, considerando os princípios que orientam a educação e as finalidades formativas presentes no contexto contemporâneo.

O pensamento de Paulo Freire permanece atual ao oferecer fundamentos para uma educação baseada no diálogo, na problematização e na autonomia dos sujeitos. Esses elementos mostram-se essenciais para orientar o uso das tecnologias de maneira crítica, evitando que os processos educativos sejam reduzidos à automatização do ensino e à simples reprodução de conteúdos. A pedagogia freireana reafirma a necessidade de reconhecer os estudantes como sujeitos ativos na construção do conhecimento, mesmo em contextos mediados por tecnologias digitais.

Nesse sentido, a mediação docente assume papel central, sendo responsável por integrar as ferramentas tecnológicas às práticas pedagógicas de forma consciente, ética e intencional. O educador deixa de ocupar apenas a função de transmissor de informações e passa a atuar como mediador da aprendizagem, estimulando a reflexão crítica, o diálogo e a participação dos estudantes diante das informações produzidas e compartilhadas nos ambientes digitais.

Também se observa que a expansão da inteligência artificial na educação impõe desafios relacionados à formação docente, às desigualdades de acesso às tecnologias e à necessidade de desenvolvimento de competências críticas para o uso dessas ferramentas. Assim, torna-se fundamental que as instituições educacionais promovam debates acerca das implicações sociais, éticas e pedagógicas da inteligência artificial, contribuindo para uma utilização comprometida com a humanização e com a construção democrática do conhecimento.

Conclui-se, portanto, que a articulação entre inteligência artificial e educação crítica depende da formação dos educadores e da adoção de princípios éticos que valorizem a participação, a reflexão e a construção coletiva do conhecimento. A atualidade do pensamento de Paulo Freire reside justamente na defesa de uma educação humanizadora, capaz de utilizar as tecnologias sem abrir mão do diálogo, da consciência crítica e da centralidade das relações humanas no processo educativo.

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1 Doutorando em Psicologia – UNIP. Graduado em Pedagogia (UniDom Bosco). Professor na UNIP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Mestre em Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). Professor de Manutenção e Suporte em Informática do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, EBTT, lotado em Currais Novos-RN. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Pós-graduado em Direito e Processo penal. Universidade Presbiteriana Mackenzie,São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail:[clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail