REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776380533
RESUMO
O estudo analisa os aspectos emocionais da docência e as condições de trabalho dos professores no contexto educacional contemporâneo, buscando compreender como esses fatores atravessam o cotidiano escolar e influenciam o ensino. Trata-se de uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, desenvolvida com professores da educação básica da rede pública. O objetivo foi compreender de que forma o bem-estar emocional e as condições de trabalho impactam a prática pedagógica e o uso das tecnologias digitais. A pesquisa foi realizada com 38 professores do Ensino Fundamental I e II, por meio de um questionário composto por 19 questões, sendo 12 fechadas e 7 abertas, aplicado via Google Forms no período de 04 a 28 de novembro de 2025. Para a análise dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo de Bardin (2011), permitindo organizar e interpretar as percepções dos participantes. Os resultados mostram um cenário marcado por sobrecarga de trabalho, desgaste emocional e fragilidades institucionais, elementos que acabam interferindo na motivação, no engajamento e na prática docente. Ainda assim, os professores demonstram compromisso com a educação e interesse em continuar aprendendo. A pesquisa evidencia que não é possível pensar a qualidade da educação sem considerar as condições em que o professor trabalha, reforçando a necessidade de políticas que valorizem o docente e promovam seu bem-estar.
Palavras-chave: Docência; Saúde mental docente; Condições de trabalho; Prática pedagógica; Tecnologias digitais.
ABSTRACT
The study analyzes the emotional aspects of teaching and teachers’ working conditions in the contemporary educational context, seeking to understand how these factors permeate daily school life and influence teaching. This is an applied research study with a qualitative approach, developed with public basic education teachers. The objective was to understand how emotional well-being and working conditions impact pedagogical practice and the use of digital technologies. The research was conducted with 38 teachers from Elementary School (Years 1–9), through a questionnaire consisting of 19 questions, including 12 closed and 7 open-ended items, administered via Google Forms between November 4 and November 28, 2025. Data were analyzed using Bardin’s Content Analysis (2011), allowing for the organization and interpretation of participants’ perceptions. The results reveal a scenario marked by work overload, emotional exhaustion, and institutional fragilities, which directly affect motivation, engagement, and teaching practice. Even so, teachers demonstrate commitment to education and a willingness to continue learning. The study highlights that it is not possible to think about the quality of education without considering the conditions under which teachers work, reinforcing the need for policies that value teachers and promote their well-being.
Keywords: Teaching; Teacher mental health; Working conditions; Pedagogical practice; Digital technologies.
1. INTRODUÇÃO
Olhar para a docência hoje é, antes de tudo, olhar para uma realidade marcada por desafios que vão muito além da sala de aula. O professor, desde o momento em que sai de casa até o retorno ao final do dia, enfrenta uma rotina intensa, atravessada por deslocamentos, turmas cheias, indisciplina, desinteresse e, muitas vezes, situações de desrespeito. Esse conjunto de experiências vai se acumulando e impacta diretamente sua qualidade de vida, seu bem-estar e sua forma de ensinar.
No cotidiano escolar, não estão em jogo apenas conteúdos e metodologias, mas também emoções, relações e condições reais de trabalho. Quando o professor não se encontra bem, seja física, emocional ou psicologicamente, isso se reflete na sua prática. O cansaço, a desmotivação e a perda de criatividade acabam interferindo no planejamento e no desenvolvimento das aulas, afetando também o processo de aprendizagem dos estudantes.
Ao mesmo tempo, a presença cada vez mais constante das tecnologias digitais na educação traz novas possibilidades, mas também novas exigências. Espera-se que o professor inove, utilize recursos digitais e acompanhe as transformações da sociedade, muitas vezes sem o suporte necessário ou sem formação adequada. Esse cenário levanta uma questão importante: de que forma as condições de trabalho e o bem-estar emocional dos professores influenciam sua prática pedagógica e o uso das tecnologias digitais no contexto escolar?
Partindo dessa inquietação, este estudo tem como objetivo geral analisar as condições de trabalho e os aspectos emocionais que atravessam a prática docente, buscando compreender como esses fatores influenciam o uso das tecnologias digitais e o processo de ensino e aprendizagem nas escolas públicas.
A realização desta pesquisa se justifica pela necessidade de dar visibilidade às experiências dos professores, compreendendo suas dificuldades, percepções e expectativas diante das demandas contemporâneas da educação. Em um contexto em que se fala tanto em inovação, torna-se fundamental considerar as condições reais em que o trabalho docente acontece, reconhecendo o professor como sujeito central no processo educativo.
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir das percepções de 38 professores da educação básica, por meio de questionários com questões abertas e fechadas, buscando compreender, a partir das falas dos participantes, os sentidos atribuídos à sua prática e aos desafios vivenciados no cotidiano escolar.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. A Docência Como Prática Humana
A motivação do professor exerce influência direta no ambiente da sala de aula e no envolvimento dos estudantes com a aprendizagem. Como aponta Veríssimo (2013, p. 78), não é apenas o conteúdo que determina o aprendizado, mas também a forma como o docente conduz sua prática, seu carisma e as estratégias que utiliza. Isso significa que, quando o professor propõe algo diferente e rompe com a rotina, ele desperta o interesse da turma e favorece uma participação mais ativa dos alunos.
Na visão de Veríssimo (2013), quando professores e estudantes compartilham o mesmo entusiasmo, estabelece-se uma conexão que torna o processo de aprendizagem mais leve. Ou seja, ensinar envolve não apenas conteúdos, mas também relações, emoções e significados construídos no cotidiano escolar.
De acordo com Santos, Gonzatti e Guimarães (2022, p. 22), para que isso aconteça de forma consistente, é necessário garantir condições adequadas de trabalho e formação ao professor. Com o objetivo de ampliar as possibilidades pedagógicas, o uso das tecnologias pode ser incorporado como recurso, desde que esteja articulado às intencionalidades educativas.
Outro aspecto destacado por Santos, Gonzatti e Guimarães (2022, p. 5) refere-se à necessidade de repensar a prática docente diante das transformações sociais. Por isso, não basta inserir tecnologias na sala de aula, mas compreender como elas podem contribuir para a construção do conhecimento. Ferramentas como celulares, computadores e plataformas digitais podem tornar as aulas mais dinâmicas, desde que utilizadas com propósito pedagógico.
Como exemplifica Veríssimo (2013, p. 74), o processo educativo pode ser comparado à metáfora do carro, em que o estudante representa o veículo e a motivação funciona como combustível. Nesse sentido, cada aluno possui características próprias, mas todos necessitam de estímulo para avançar. Ao mesmo tempo, o professor também precisa de condições que sustentem sua motivação, pois seu desempenho está diretamente ligado a esse equilíbrio.
Considera-se, portanto, que a prática docente depende de um conjunto de fatores que precisam estar alinhados. Quando faltam reconhecimento, apoio e estrutura, o desgaste se torna evidente e interfere na atuação profissional. Com efeito, sentir-se valorizado e pertencente ao ambiente escolar contribui para que o professor se envolva mais com seu trabalho.
Segundo Kenski (2008, p. 650), “a comunicação ocupa um lugar central nesse processo, pois educar envolve interação entre sujeitos que desejam ensinar e aprender”. Assim, o ensino não se restringe ao uso de tecnologias, mas inclui diferentes formas de mediação que favorecem o diálogo e a construção do conhecimento. Na visão de Belo, Oliveira e Silva (2021, p. 07) “uma prática pedagógica que se preocupa em construir uma relação afetiva com os estudantes e destes estudantes para com os conteúdos, viabiliza o desenvolvimento do interesse pela aula e, por conseguinte, pela aprendizagem do que está sendo apresentado nela.
Ao tratar do papel docente, Gatti (2022, p. 164) destaca que “o professor não é descartável, nem substituível, pois, quando bem formado, ele detém um saber que alia conhecimento e conteúdos à didática e às condições de aprendizagem para segmentos diferenciados”. Essa compreensão reforça a centralidade do professor no processo educativo, mesmo em um cenário marcado pelo avanço das tecnologias. Ao mesmo tempo, ganha força a ideia de que os estudantes precisam assumir uma participação mais ativa em sua aprendizagem. Nessa direção, estratégias como a gamificação têm se mostrado potentes, pois tornam as aulas mais envolventes e despertam o interesse dos alunos (Stoffel et al., 2021). Ainda assim, é importante reconhecer que não é a tecnologia, por si só, que garante a aprendizagem, mas as escolhas pedagógicas feitas pelo professor, a forma como organiza suas práticas e conduz as experiências em sala de aula.
Apesar disso, ainda existem desafios relacionados ao uso das tecnologias na escola. Enquanto alguns professores utilizam esses recursos com segurança, outros enfrentam dificuldades ou fazem uso limitado. Dessa forma, evidencia-se a necessidade de formação continuada e maior apoio institucional.
No entanto, “não se faz milagres com a formação humana mesmo com toda a tecnologia disponível. Não dá para implantar um chip de sabedoria no homem. Esta tem que ser desenvolvida em longo processo de maturação” (Gatti, 2022, p. 166). Sendo assim, o uso adequado das tecnologias pode contribuir para tornar o ensino mais significativo. Porém, isso exige que o professor esteja em constante processo de aprendizagem, assumindo o papel de mediador e reorganizando sua prática diante das mudanças (Funiber, 2021).
2.2. Saúde Emocional do Professor
2.2.1. A Docência e o Sofrimento Emocional
Ao considerar a saúde mental dos professores e a carência de serviços especializados que ofereçam suporte adequado, torna-se inevitável levantar algumas reflexões importantes. Moura et al. (2019) nos fazem pensar sobre as condições reais em que esses profissionais exercem seu trabalho. Como um professor que enfrenta sofrimento psíquico conseguirá sustentar uma prática pedagógica de qualidade? De que forma poderá manter a motivação e o engajamento diante das exigências da profissão sem comprometer sua própria trajetória profissional? E, sobretudo, como cobrar resultados e eficiência no ensino sem considerar os múltiplos fatores que atravessam o bem-estar docente? Essas questões evidenciam que não é possível pensar a qualidade da educação sem olhar, com mais cuidado, para quem está no centro desse processo.
Esses questionamentos revelam uma realidade que muitas vezes é silenciada no cotidiano escolar. Fala-se muito sobre qualidade da educação, resultados, desempenho dos estudantes e inovação pedagógica, mas pouco se olha, de forma cuidadosa, para quem sustenta tudo isso diariamente: o professor. Quando esse profissional está emocionalmente fragilizado, lidando com sofrimento psíquico, sobrecarga e falta de apoio, torna-se cada vez mais difícil manter uma prática pedagógica consistente, criativa e significativa.
A exigência por resultados, por vezes, desconsidera que o professor também é atravessado por múltiplos fatores que influenciam diretamente sua atuação. Não se trata apenas de domínio de conteúdo ou de metodologias, mas de condições humanas básicas para exercer sua função com qualidade. A motivação, o engajamento e a disposição para ensinar não surgem de forma automática; eles são construídos a partir de um conjunto de experiências, relações e condições de trabalho que podem tanto fortalecer quanto fragilizar o docente.
Quando o professor não encontra suporte, seja institucional, emocional ou formativo, o impacto aparece não apenas em sua prática, mas também em sua trajetória profissional. O cansaço acumulado, a sensação de insuficiência e a falta de reconhecimento podem levar ao desânimo, ao adoecimento e, em muitos casos, ao afastamento da profissão. Isso evidencia que a qualidade da educação não pode ser pensada de forma isolada, como se dependesse apenas de currículos, tecnologias ou avaliações.
Olhar para a educação com mais sensibilidade implica reconhecer que o bem-estar docente não é um aspecto secundário, mas uma condição essencial para que o ensino aconteça de forma plena. Cuidar do professor é, portanto, cuidar do próprio processo educativo. É reconhecer que, por trás de cada aula, de cada planejamento e de cada tentativa de ensinar, existe um sujeito que também precisa ser acolhido, valorizado e respeitado em sua humanidade. Para tornar mais clara essa relação, o esquema a seguir (Figura 1) sintetiza os principais elementos que atravessam a qualidade da educação.
Figura 1 - Saúde mental docente e seus reflexos na qualidade da educação
Diante dessa realidade, torna-se evidente a urgência de olhar com mais atenção para o cuidado com o professor no ambiente escolar. Posto isso, Avila (2024, p. 160) ressalta que há “necessidade urgente da criação de espaços para discussões sobre a saúde e o adoecimento mental dos docentes”.
2.2.2. Condições de Trabalho e Desgaste Docente
O professor, inserido em um ambiente marcado por múltiplas demandas, frequentemente precisa lidar com pressões que ultrapassam o campo do ensino. Além das responsabilidades pedagógicas, enfrenta desafios relacionados à indisciplina, às dificuldades de aprendizagem, à inclusão e à relação com a comunidade escolar. Quando essas situações se acumulam, sem o devido suporte institucional, tornam-se fatores que contribuem significativamente para o desgaste emocional.
Nesse cenário, torna-se pertinente questionar de que forma um professor que vivencia sofrimento psíquico consegue sustentar uma prática pedagógica de qualidade. Moura et al. (2019) provocam essa reflexão ao evidenciar que o adoecimento mental interfere diretamente na capacidade de organização, planejamento e execução das atividades docentes. A falta de disposição, o cansaço constante e a perda de motivação acabam comprometendo não apenas o desempenho profissional, mas também a relação estabelecida com os estudantes.
Além disso, é necessário considerar que a docência exige envolvimento emocional contínuo. O professor não atua apenas como transmissor de conteúdos, mas como mediador de relações, alguém que escuta, acolhe e orienta. Quando sua saúde mental está fragilizada, esse processo se torna ainda mais desafiador, pois exige um esforço adicional que, muitas vezes, já não é possível sustentar.
No contexto da docência, a Síndrome de Burnout (Síndrome do Desgaste Físico e Emocional) tem se consolidado como uma das expressões mais preocupantes do adoecimento emocional relacionado ao trabalho. Trata-se de um quadro associado à exaustão física e emocional, resultante da exposição contínua a demandas intensas, sobrecarga laboral, pressões institucionais e desgaste relacional, elementos bastante presentes no cotidiano escolar.
Ao discutir a saúde emocional dos professores, Ferreira aponta que a realidade educacional tem revelado um cenário de sofrimento psíquico crescente, em que estresse, ansiedade, depressão e Burnout aparecem de forma recorrente entre os profissionais da educação. Isso mostra que o adoecimento docente não pode ser entendido como algo isolado ou individual, mas como resultado de condições estruturais e organizacionais que atravessam o trabalho do professor (Ferreira, 2025, p. 16 - 21).
Além de afetar o bem-estar, o Burnout interfere diretamente na prática pedagógica. O professor passa a ter mais dificuldade para planejar, mediar, escutar e lidar com as demandas emocionais da sala de aula. O desgaste contínuo reduz a energia psíquica e torna o exercício da docência mais pesado, impactando a qualidade do ensino. Ferreira (2025) chama atenção para o fato de que esse sofrimento já se tornou uma realidade recorrente nos sistemas educacionais, o que reforça a urgência de estratégias institucionais voltadas ao cuidado e à promoção da saúde mental no espaço escolar.
É inquestionável que a saúde emocional do educador tem sido fortemente abalada por crescentes pressões. Pesquisas realizadas em vários sistemas educacionais do país apontam, todas, em uma única direção. Nelas, as chamadas ‘doenças da alma’ estão sempre presentes. Encontramos depressão em todos os lados. Stress e ansiedade pontuam todos os resultados. A grande vilã, sem dúvida alguma, é uma síndrome que está diretamente associada à prática profissional: a Síndrome de Burnout (Ferreira, 2025, p. 16).
Essa leitura ajuda a compreender que o Burnout não surge de forma isolada, mas está diretamente ligado às condições em que o professor exerce sua profissão. Discutir Burnout, portanto, é também discutir as condições concretas em que o trabalho docente acontece.
Outro ponto importante diz respeito à permanência desse profissional na carreira. Moura et al. (2019) levantam a questão sobre como manter o engajamento e o compromisso com a profissão diante de um contexto que, frequentemente, não oferece as condições necessárias para o bem-estar docente. A ausência de políticas efetivas de cuidado com a saúde mental pode levar ao afastamento, à desmotivação e, em casos mais graves, ao abandono da profissão.
O professor é, antes de tudo, um ser humano, sujeito a falhas, limites e inseguranças, como qualquer outra pessoa. No entanto, a cobrança que recai sobre ele costuma ser intensa, muitas vezes maior do que a que ele próprio consegue suportar. Existe uma expectativa constante de que tudo esteja sempre correto, bem feito e sob controle. Quando percebe que não domina determinados conhecimentos, como o uso das tecnologias ou estratégias para trabalhar com alunos da inclusão, esse profissional tende a se frustrar. Em muitos casos, não pede ajuda, seja por vergonha, seja por acreditar que não deveria ter dúvidas. Esse movimento interno gera um desgaste emocional silencioso, que interfere diretamente em sua confiança, no seu pensamento e no seu desenvolvimento profissional.
O trabalho docente, por sua natureza, exige um olhar mais sensível e compreensivo. Trata-se de uma profissão altamente exposta, que envolve avaliação constante por diferentes grupos sociais. O professor tem sua atuação observada, sua postura analisada e, muitas vezes, sua vida pessoal também acaba sendo julgada. Além disso, está exposto a diferentes formas de violência, seja no trajeto até a escola, seja no próprio ambiente de trabalho. Diante dessa realidade, Do Vale e Aguillera (2016, p. 89) destacam que “diante de tantas dificuldades é preciso saber o que motiva os professores a realizar seu trabalho”.
Ao refletir sobre essa perspectiva, percebe-se a importância de oferecer suporte a esses profissionais, especialmente no que se refere à saúde mental. A ausência de acompanhamento psicológico pode contribuir para o agravamento de problemas que, inicialmente, poderiam ser prevenidos. Webber e Vergani (2010, p. 2) reforçam essa ideia ao afirmarem que “pelo alto nível de desgaste físico e emocional esta profissão deveria ser tratada com total notoriedade e para compreender essas nuances”.
Nesse cenário, Codo (2002) problematiza a permanência do professor na carreira, especialmente na educação básica, marcada por baixos salários e condições de trabalho desgastantes. O autor chama atenção para o fato de que esse profissional precisa constantemente se atualizar, planejar, inovar e atender a múltiplas demandas, o que exige um esforço físico e emocional intenso. Trata-se de uma exigência que ultrapassa, muitas vezes, os limites do que seria considerado saudável, contribuindo para o adoecimento docente.
Ao longo dos anos, a categoria vem lutando por reconhecimento e melhores condições salariais. Embora haja um reconhecimento formal da importância do professor, ainda são insuficientes as ações concretas que valorizem, de fato, esse profissional e tornem sua carreira mais atrativa e sustentável.
Além disso, diversos fatores contribuem para o desgaste da saúde docente. Entre eles, destacam-se o número elevado de alunos por turma, a indisciplina, a carga horária extensa, a atuação com alunos da inclusão sem formação adequada e sem apoio especializado, as dificuldades no uso das tecnologias digitais, a falta de apoio das famílias e a pouca valorização por parte das instâncias administrativas.
Essas condições têm impactado diretamente o bem-estar emocional dos professores, gerando desmotivação e cansaço. Dado que foi apontado na pesquisa realizada com os 38 professores que participaram desse estudo. Com isso, atividades essenciais para a qualidade de vida, como momentos de lazer, prática de exercícios físicos e convivência social, acabam sendo deixadas de lado. Essa rotina contribui para o aumento do estresse e para o surgimento de problemas emocionais, especialmente quando não há equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
2.2.3. Políticas Públicas e Valorização Docente
Para contribuir com o bem-estar dos professores e de toda a comunidade escolar, foi sancionada a Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019, que prevê a oferta de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Essa medida surge como uma tentativa de responder a demandas antigas da área educacional, especialmente no que se refere ao cuidado com os profissionais da educação.
Nesse contexto, a coordenadora do Ministério da Educação destacou que o Plano Nacional de Educação (2024–2034) será orientado pela busca de soluções para problemas estruturais do sistema de ensino. Entre eles, chama atenção o risco de escassez de professores, associado às condições precárias de trabalho e à baixa remuneração. Diante disso, defende-se “a inserção de psicólogos e assistentes sociais nas escolas como estratégia para melhorar o ambiente de trabalho e tornar a carreira docente mais atrativa” (Brasil, 2019, p. 1).
Ao considerar o que está previsto na Lei nº 13.935/19, percebe-se uma preocupação com os rumos da educação, especialmente no que diz respeito à valorização docente. Caso não haja avanços concretos nas condições de trabalho e na construção de planos de carreira mais atrativos, há o risco de enfraquecimento da profissão, que já não desperta o interesse de muitos jovens. Além disso, torna-se necessário valorizar efetivamente os professores que investem em sua formação, como aqueles que buscam mestrado e doutorado, mas que, em muitos contextos, não encontram retorno proporcional em sua remuneração.
Ao analisar os estudos de Santos, Espinosa e Marcon (2020), observa-se que, mesmo diante de inúmeros debates e produções acadêmicas sobre a saúde dos profissionais da educação, especialmente dos professores, ainda são poucas as ações concretas voltadas a esse público. Os docentes seguem enfrentando suas dificuldades, muitas vezes de forma solitária, em meio a discursos que reconhecem os problemas, mas que pouco se traduzem em mudanças reais. Diante dessa realidade, na seção 1.4 serão abordados os aspectos emocionais presentes no ambiente de trabalho docente.
2.2.4. Relações no Ambiente Escolar e Afetividade
O ambiente de trabalho faz parte da vida de qualquer profissional, e na escola isso não é diferente. Trata-se de um espaço coletivo, onde diferentes pessoas convivem diariamente e compartilham experiências, responsabilidades e emoções. Considera-se que sentir-se bem nesse ambiente é fundamental para o desempenho das funções e, mais do que isso, para que o professor se sinta realizado em sua prática.
Ao observar o cotidiano escolar, percebe-se que é praticamente impossível permanecer indiferente às emoções que circulam entre os colegas. Isso porque sentimentos como cansaço, tristeza ou até mesmo alegria acabam sendo percebidos nas expressões, nos gestos e nas atitudes. O olhar abatido, o silêncio, o isolamento ou o choro são sinais que revelam que algo não está bem, mesmo quando não é verbalizado.
De acordo com essa realidade, as emoções dificilmente permanecem ocultas por muito tempo. A convivência constante transforma o ambiente de trabalho em um espaço de proximidade, onde as pessoas passam a se conhecer melhor. Mudanças de comportamento, sejam elas repentinas ou mais profundas, tornam-se visíveis e indicam que algo está acontecendo, seja por questões pessoais, profissionais ou mesmo por perdas e dificuldades ao longo da vida. Nesse sentido, como afirmam Sobral, Caetano e Freire (2018, p. 2),
As emoções são faróis que nos impelem a continuar, a persistir, a olhar para o que, de outro modo, nos passaria despercebido. As emoções, que são o contrário da indiferença, do que nos magoa, do que nos alegra, do que nos desampara. Sentimos as nossas e as dos outros; sentimos as dos outros como nossas e isso nos impele a sermos com eles, a estarmos com eles, a cuidarmos de ser com eles.
A partir dessa compreensão, torna-se evidente que o ambiente escolar é atravessado por emoções o tempo todo. Professores que trabalham doentes, que fazem uso de medicação, que enfrentam jornadas extensas e acumulam funções acabam não conseguindo vivenciar plenamente sua profissão. A necessidade de atuar em diferentes turnos, em várias escolas e com grande número de alunos, compromete não apenas o desempenho profissional, mas também a qualidade de vida.
Diante desse cenário, o excesso de demandas pode levar o professor a um estado de esgotamento que interfere em suas relações e em sua sensibilidade. Muitas vezes, esse profissional passa a reagir de forma mais distante, tanto com os alunos quanto com os colegas e familiares. Isso evidencia a necessidade de olhar para a docência como uma profissão que exige cuidado, apoio e reconhecimento. Sobral, Caetano e Freire (2018) desatacam que:
Devemos estar atentos e despertos na nossa sensibilidade, para sentirmos os sinais, sentirmos os seus sentidos, sentirmos o que nos comunicam. Sensibilidade que precisa ser trabalhada, refletida, expressada, para, com ela, fazermos algo que nos transcende, para fazermos com ela material de comunicar com o outro, para que nos transforme (p. 3).
Nesse contexto, a escola se configura como um espaço de transformação, onde não apenas se constroem conhecimentos, mas também se desenvolvem relações humanas. É um lugar onde se percebe o outro, onde se aprende a conviver e onde a sensibilidade precisa ser cultivada diariamente. Para isso, o professor necessita de apoio em diferentes dimensões: moral, material e psicológica.
Ressalta-se que o professor é um ser humano comum, com limites, fragilidades e necessidades. Não se trata de um profissional que tem respostas prontas para todas as situações, mas de alguém que também precisa de acolhimento, respeito e reconhecimento. Valorizar esse profissional implica reconhecer seu esforço, sua dedicação e a importância de sua função na sociedade.
Além disso, é importante considerar que o trabalho docente ultrapassa o tempo formal da sala de aula. O professor pensa, planeja e se prepara constantemente, muitas vezes além de sua carga horária oficial. No entanto, essa dedicação nem sempre é reconhecida ou valorizada de forma justa.
Observa-se também que a remuneração insuficiente compromete a qualidade de vida do docente, dificultando sua autonomia financeira e impactando diretamente sua motivação. Essa realidade contribui para o desânimo e para a desvalorização da profissão, mesmo sendo reconhecida como essencial. De acordo com a Carta de Ottawa (OMS, 1986, p. 01), as condições e recursos fundamentais para a saúde são: “paz, abrigo, educação, alimentação, recursos econômicos, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade”.
Ao considerar esse contexto, percebe-se que, apesar dos avanços ao longo dos anos, pouco se modificou em relação às condições de trabalho e à saúde desses profissionais. O excesso de responsabilidades, aliado à falta de reconhecimento e apoio, tem contribuído para o adoecimento docente.
Outro aspecto relevante refere-se às condições estruturais das escolas. Muitos professores precisam planejar suas aulas em ambientes inadequados, com excesso de ruído, falta de espaço e recursos limitados. Equipamentos obsoletos e materiais insuficientes dificultam o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais diversificadas.
Além disso, a ausência de profissionais de apoio, especialmente no atendimento educacional especializado, sobrecarrega ainda mais o professor, que precisa lidar sozinho com demandas complexas, como a inclusão escolar.
Tabela 1 – Relação entre saúde mental docente e qualidade da educação
Categoria | Aspectos Identificados | Implicações para a Educação |
Saúde mental do professor (quando comprometida) | Sofrimento psíquico; desgaste emocional; sobrecarga profissional | Fragiliza o bem-estar docente e compromete sua capacidade de atuação plena |
Impactos na prática docente | Dificuldade de manter a qualidade pedagógica; redução da motivação; queda no engajamento; risco à continuidade da carreira | Afeta diretamente o processo de ensino e aprendizagem, prejudicando os resultados educacionais |
Exigências da profissão | Pressão por resultados; cobrança por eficiência; demandas pedagógicas e sociais; falta de apoio institucional | Intensifica o desgaste docente e amplia os desafios enfrentados no cotidiano escolar |
Contradição central | Cobrança por qualidade sem considerar o bem-estar do professor | Revela incoerências nas políticas e práticas educacionais |
Reflexão principal | Não é possível pensar a qualidade da educação sem considerar o professor | Reforça a necessidade de valorização, apoio e cuidado com o docente |
Fonte: Elaboração dos autores (2026)
Essa sistematização evidencia que a qualidade da educação está diretamente relacionada às condições humanas e profissionais dos docentes, tornando indispensável a construção de políticas e práticas que considerem o bem-estar do professor como elemento central no processo educativo.
Por fim, observa-se que, embora existam iniciativas pontuais de melhoria na estrutura das escolas, ainda há pouco investimento em materiais pedagógicos e recursos tecnológicos que possam contribuir efetivamente para o ensino. Essa realidade evidencia a necessidade de políticas mais consistentes que garantam melhores condições de trabalho e favoreçam o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais significativas. A seguir, apresenta-se o percurso teórico que fundamenta a discussão proposta.
3. METODOLOGIA
A pesquisa caracteriza-se como de abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de compreender as percepções de professores da educação básica acerca das condições de trabalho, dos aspectos emocionais da docência e dos desafios do ensino no contexto contemporâneo. Quanto aos procedimentos, trata-se de uma pesquisa de campo, realizada por meio da aplicação de questionário estruturado.
O instrumento de coleta de dados foi composto por 19 questões, sendo 12 fechadas e 7 abertas, elaboradas com o intuito de captar tanto dados objetivos quanto às percepções e experiências dos participantes. O questionário foi disponibilizado por meio da plataforma Google Forms, permitindo maior acessibilidade e praticidade no preenchimento.
A pesquisa contou com a participação de 38 professores atuantes no Ensino Fundamental I e II, todos pertencentes à rede pública de ensino. O convite para participação foi realizado por meio do aplicativo WhatsApp, no qual foram apresentadas as informações sobre o estudo, destacando-se os critérios de participação, especialmente a atuação na educação básica pública.
A coleta de dados ocorreu no período de 04 a 28 de novembro de 2025. Antes de iniciar o questionário, os participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), disponibilizado de forma digital. A participação foi condicionada à leitura e aceite do termo, por meio da opção “sim, concordo com a pesquisa”, momento em que também foram informados sobre os objetivos do estudo e o uso das informações exclusivamente para fins acadêmicos.
Foram assegurados os princípios éticos da pesquisa, especialmente no que se refere ao anonimato e à confidencialidade dos dados. Não foram coletadas informações de identificação pessoal, como nome ou e-mail dos participantes, tendo em vista que o foco da investigação esteve centrado nas opiniões e experiências docentes, e não na identificação individual dos respondentes. Além disso, todos os dados foram mantidos em sigilo e utilizados exclusivamente para fins de pesquisa.
Para a análise dos dados, utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011), que possibilita a organização, categorização e interpretação das informações de forma sistemática, permitindo compreender os sentidos atribuídos pelos participantes às suas experiências no contexto escolar.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
As respostas analisadas comprovam que o professor acaba assumindo, no cotidiano escolar, uma série de responsabilidades que ultrapassam sua formação inicial. Segundo Avila (2024), além de ensinar, muitas vezes precisa atuar como mediador social, acolher questões emocionais dos alunos e lidar com situações que exigiriam outros profissionais. Essa ampliação de funções gera um sentimento de perda de identidade profissional, como se sua principal função estivesse passando por um processo de diluição. Com isso, a docência passa por um processo de desvalorização e desgaste, caracterizando o que se entende como a proletarização do trabalho docente.
Além disso, a análise dos dados permitiu compreender, de forma mais profunda, como os professores vivenciam o cotidiano escolar e como os aspectos emocionais, institucionais e estruturais atravessam a prática docente. O material empírico revelou dificuldades, percepções, sentimentos e modos de resistência que ajudam a entender a complexidade da docência no contexto investigado.
A pesquisa foi realizada com professores que atuam em escolas públicas sendo muitos deles profissionais que trabalham em mais de uma instituição, distribuindo sua carga horária em diferentes turnos e contextos escolares. Esse dado inicial já aponta para uma condição importante: o professor não vive uma única realidade, mas transita entre diferentes espaços, o que impacta diretamente sua organização, seu tempo e sua saúde emocional.
A partir da análise das respostas, foi possível organizar os resultados em quatro grandes eixos:
(1) condições de trabalho e organização da docência;
(2) aspectos emocionais e psicológicos;
(3) relação com a gestão e com os setores administrativos;
(4) desafios pedagógicos e formativos.
4.1. Condições de Trabalho e Organização da Docência
Um dos primeiros elementos que surge da análise diz respeito às condições de trabalho. A maioria dos professores tem uma jornada de trabalho superior a 40 horas, e trabalham em duas ou mais escolas, alguns, para complementar a renda, também trabalham em escolas particulares, o que amplia a carga de trabalho e reduz o tempo disponível para formação e planejamento.
Essa realidade revela um cotidiano marcado por deslocamentos, adaptação constante e cansaço acumulado. Muitos professores precisam reorganizar suas práticas diariamente, lidando com diferentes contextos escolares, turmas e demandas. Esse movimento contínuo acaba limitando o tempo de estudo, de planejamento e até mesmo de participação em atividades da própria escola.
Esse dado ajuda a compreender por que a formação continuada, embora reconhecida como importante, muitas vezes não se concretiza na prática. Não se trata de falta de interesse, mas de falta de condições reais para participar. Além disso, as condições estruturais das escolas também aparecem como um fator relevante. Os professores apontam dificuldades relacionadas à infraestrutura, aos espaços de trabalho e à ausência de recursos adequados para o desenvolvimento das atividades pedagógicas. Esses elementos, quando somados, produzem um cenário que exige muito do professor, mas oferece pouco suporte. E isso, inevitavelmente, repercute na forma como ele se sente e atua.
4.2. Aspectos Emocionais e Psicológicos da Docência
Ao olhar para as falas dos professores, torna-se evidente que a docência não é vivida apenas como uma atividade profissional, mas como uma experiência emocional intensa. Os relatos indicam sentimentos de desmotivação, cansaço e, em muitos casos, frustração. No entanto, esses sentimentos não estão associados apenas à questão salarial. Embora o salário seja mencionado, o que aparece com mais força é a sensação de desvalorização e de falta de reconhecimento.
Os professores relatam que, muitas vezes, não se sentem respeitados nem compreendidos dentro da própria estrutura educacional. Esse dado é significativo, pois revela que o problema não está apenas fora da escola, mas também dentro dela. Há uma percepção de indiferença por parte de setores administrativos, o que gera um sentimento de isolamento. Os docentes mencionam que, em diversas situações, não sabem a quem recorrer, especialmente quando enfrentam dificuldades no cotidiano escolar .
Esse sentimento de solidão profissional é um dos aspectos mais delicados identificados na pesquisa. Ele não aparece de forma explícita em todos os relatos, mas está presente nas entrelinhas, nas falas sobre falta de apoio, sobre incompreensão e sobre ausência de diálogo. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que, apesar dessas dificuldades, os professores continuam exercendo sua função. Isso revela uma dimensão importante da docência: a resistência.
Mesmo diante de condições adversas, muitos professores seguem comprometidos com o processo educativo. Eles buscam alternativas, adaptam suas práticas e continuam acreditando na educação como possibilidade de transformação.
4.3. Relação com a Gestão e com os Setores Administrativos
Outro eixo que se destaca na análise diz respeito à relação entre professores e gestão, especialmente no que se refere aos setores administrativos. Os dados indicam que há uma fragilidade nessa relação. Os professores apontam a falta de diálogo, de compreensão e, em alguns casos, de respeito por parte de setores ligados à administração da educação .
Essa percepção impacta diretamente o clima institucional. Quando o professor não se sente acolhido e apoiado, sua motivação diminui, e isso repercute na prática pedagógica. É interessante observar que a crítica não se dirige apenas à gestão escolar imediata, mas também a instâncias mais amplas, como secretarias e setores administrativos. Isso mostra que a valorização do professor não depende apenas da escola, mas de toda a estrutura educacional.
Ao mesmo tempo, os dados também apontam uma necessidade clara: a construção de um ambiente mais humanizado. Os próprios professores indicam que, com apoio, compreensão e diálogo, seria possível transformar o ambiente de trabalho. Essa fala revela que os problemas identificados não são impossíveis de resolver. Eles dependem, em grande parte, de decisões institucionais e de uma mudança na forma como o professor é visto dentro da estrutura educacional.
4.4. Desafios Pedagógicos e Necessidades Formativas
Além das questões emocionais e institucionais, os professores também apontam desafios diretamente relacionados à prática pedagógica. Entre eles, destacam-se:
O uso das tecnologias digitais;
O atendimento a estudantes com necessidades especiais
A necessidade de novas metodologias
A burocratização do trabalho docente
Planejamento de aula detalhado
Registro de frequência e conteúdos
Acompanhamento individual dos alunos
Relatórios de aprendizagem
Planilhas de habilidades da BNCC
Registros de avaliação e recuperação
Formulários administrativos e pedagógicos
Para dar conta de tudo isso, ⅓ de hora atividade não é suficiente para o professor. A regra geral da lei do piso nacional do magistério, Lei 11.738/2008, define que, “no máximo, 2/3 da jornada semanal devem ser cumpridos em interação com os alunos. O restante (1/3) é destinado ao planejamento” (Brasil, 2008), no entanto, essa lei não define que essas quantidade de horas será o máximo, portanto, se for do interesse dos governantes, podem disponibilizar ao professor mais tempo para as atividades que ele precisa dar conta quando não está em interação com os estudantes.
Os dados indicam que os professores reconhecem a importância de todo esse trabalho, mas também sentem falta de formação adequada para lidar com essas demandas e sentem que deveria haver mais horas de planejamento e atividades escolares sem estar em interação direta com os estudantes em sala. Há uma percepção clara de que a formação continuada precisa ser mais presente, mais contextualizada e mais próxima da realidade escolar. Os professores não rejeitam as mudanças. Pelo contrário, demonstram interesse em aprender e se atualizar.
No entanto, para que isso aconteça, é necessário oferecer condições reais: tempo, apoio institucional e propostas formativas que dialoguem com os desafios do cotidiano. Outro ponto importante diz respeito à inclusão. Os professores reconhecem a importância de atender todos os alunos, mas também apontam dificuldades relacionadas à falta de preparo e de suporte. Isso reforça a ideia de que a inclusão não pode ser responsabilidade individual do professor. Ela precisa ser construída coletivamente, com apoio da gestão, da rede e das políticas públicas.
4.5. Síntese Interpretativa dos Resultados
Ao reunir todos esses elementos, o que se observa é um cenário complexo, marcado por tensões, mas também por possibilidades. Os professores vivem uma realidade desafiadora, atravessada por:
Condições de trabalho limitadas
Fragilidades institucionais
Sobrecarga profissional
Desgaste emocional
Ao mesmo tempo, demonstram:
Compromisso com a educação
Abertura para mudanças
Desejo de formação
Capacidade de adaptação
Essa combinação revela que a docência não está em crise por falta de vontade dos professores, mas por falta de condições estruturais e institucionais que sustentem o trabalho pedagógico.
Os resultados apontam, portanto, para a necessidade de repensar a forma como o professor é inserido na estrutura educacional. Não se trata apenas da cobrança de resultados, é preciso criar condições para que o professor possa exercer seu trabalho com dignidade, apoio e reconhecimento.
5. CONCLUSÃO
Ao longo deste estudo, foi possível perceber que falar sobre educação, hoje, exige um olhar mais atento para aquilo que muitas vezes fica invisível: o professor enquanto sujeito que sente, que se cansa, que se frustra, mas que também resiste. As falas dos participantes revelam uma realidade marcada por desafios que vão além da sala de aula e que atravessam diretamente o modo como o ensino acontece no cotidiano escolar.
O que se evidencia não é a falta de compromisso com a educação, mas a falta de condições para que esse compromisso se sustente de forma saudável. Mesmo diante de jornadas intensas, da sobrecarga e da ausência de apoio, os professores continuam buscando caminhos, reinventando suas práticas e tentando manter vivo o sentido do ensinar. Há, nesse movimento, uma força silenciosa que muitas vezes não é reconhecida, mas que sustenta a escola todos os dias.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que não é possível continuar exigindo qualidade sem considerar as condições em que o trabalho docente acontece. Cuidar da educação passa, necessariamente, por cuidar de quem está ali todos os dias construindo esse processo. Não se trata apenas de investir em tecnologias, metodologias e avaliações, mas de garantir que o professor tenha apoio, tempo, escuta e reconhecimento.
Diante disso, torna-se urgente pensar em políticas e ações que valorizem o professor de forma concreta, não apenas no discurso. Criar espaços de acolhimento, fortalecer a formação continuada e melhorar as condições de trabalho são caminhos possíveis e necessários. Quando o professor se sente cuidado, ele consegue cuidar melhor do outro, e isso transforma a dinâmica da escola.
Por fim, este estudo não encerra a discussão, mas abre espaço para novas reflexões. A educação que se deseja construir passa, antes de tudo, por relações mais humanas, mais sensíveis e mais justas. E isso começa ao reconhecer que, por trás de cada prática pedagógica, existe alguém que também precisa ser visto, ouvido e valorizado.
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2 Mestranda em Educação - Formação de Professores (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-1643-730X
3 Mestrando em Educação - As TICs na Educação de Professores (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-3206-079X
4 Mestranda em Educação - Formação de Professores (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0000-8242-4998
5 Mestranda em Educação - Formação de Professores (Uneatlantico). E-mail: [email protected] Orcid: https://orcid.org/0009-0008-3253-1881
6 Mestrando em Educação - Formação de Professor (Uneatlantico). Email: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0004-8613-3070
7 Mestrando em Educação, Comunicação e Tecnologia (Unilogos). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0004-6583-226X
8 Mestranda em em educação com especialização em Formação de Profesosrs (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0006-6600-4954
9 Mestranda em Educação - Formação de Professores (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-4564-1967
10 Mestrado em Educação - Formação de professores. (Uneatlantico). E-mail: [email protected]. Orcid: https://orcid.org/0009-0005-8492-7472. Lattes: https://lattes.cnpq.br/4631876791513270