REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789965616
RESUMO
A violência letal, especialmente aquela perpetrada por armas de fogo, representa um dos maiores desafios à segurança pública e aos direitos humanos no Brasil. Este artigo investiga a distribuição espacial das Mortes Violentas Intencionais (MVI) por arma de fogo em Manaus (AM) no ano de 2025, com o objetivo de identificar padrões territoriais de letalidade. Utilizando uma abordagem quantitativa retrospectiva, foram analisados dados de 809 MVI, das quais 417 (51,6%) foram causadas por arma de fogo, provenientes do Banco de Mortes – Amazonas (SSP/AM). A metodologia incluiu análise de frequência absoluta e relativa, bem como a determinação de taxas por 100 mil habitantes, com foco na distribuição por zonas geográficas e bairros. Os resultados revelam uma concentração significativa da violência letal armada em zonas periféricas e em bairros específicos, como Jorge Teixeira, Novo Aleixo e Monte das Oliveiras, que juntos concentram 24,70% dos casos. A análise e discussão articulam esses achados com a criminologia espacial, a dinâmica territorial dos homicídios e as teorias da desigualdade urbana, evidenciando a não aleatoriedade da violência e suas raízes socioespaciais. Conclui-se que a violência letal por arma de fogo em Manaus possui uma geografia bem definida, exigindo políticas públicas de segurança territorializadas e integradas que considerem as vulnerabilidades específicas de cada área.
Palavras-chave: Violência Letal; Arma de Fogo; Distribuição Espacial; Manaus; Criminologia Espacial.
ABSTRACT
Lethal violence, particularly that perpetrated by firearms, represents one of the greatest challenges to public security and human rights in Brazil. This article investigates the spatial distribution of Intentional Violent Deaths (IVD) by firearms in Manaus (AM) in 2025, aiming to identify territorial patterns of lethality. Employing a quantitative retrospective approach, data from 809 IVD, of which 417 (51.6%) were caused by firearms, were analyzed from the Amazonas Death Database (SSP/AM). The methodology included absolute and relative frequency analysis, as well as the determination of rates per 100,000 inhabitants, focusing on distribution by geographical zones and neighborhoods. Results reveal a significant concentration of lethal firearm violence in peripheral zones and specific neighborhoods, such as Jorge Teixeira, Novo Aleixo, and Monte das Oliveiras, which together account for 24.70% of cases. The analysis and discussion articulate these findings with spatial criminology, the territorial dynamics of homicides, and theories of urban inequality, highlighting the non-random nature of violence and its socio-spatial roots. It is concluded that lethal firearm violence in Manaus has a well-defined geography, demanding territorialized and integrated public security policies that consider the specific vulnerabilities of each area.
Keywords: Lethal Violence; Firearms; Spatial Distribution; Manaus; Spatial Criminology.
1. INTRODUÇÃO
A violência letal, em suas múltiplas manifestações, configura-se como um dos mais complexos e persistentes desafios à segurança pública e aos direitos humanos em escala global, com particular gravidade em países em desenvolvimento. No Brasil, este fenômeno transcende a mera estatística criminal, assumindo a dimensão de uma crise social que afeta profundamente a estrutura da sociedade, gerando insegurança, desconfiança nas instituições e perpetuando ciclos de vulnerabilidade (Zaluar, 2021). A compreensão de suas causas, padrões e consequências exige uma abordagem multidimensional que contemple aspectos sociais, econômicos, culturais e territoriais, conforme apontam os relatórios anuais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2025) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2025), que destacam a necessidade de estratégias de prevenção e repressão que respeitem os direitos humanos e promovam a justiça social (Veloso et al., 2020).
No contexto brasileiro, a violência letal por arma de fogo assume um protagonismo alarmante, sendo o principal instrumento utilizado na perpetração de homicídios dolosos, que representam a manifestação mais brutal da violência (FBSP, 2025). A proliferação e o uso indiscriminado de armas de fogo estão intrinsecamente ligados a dinâmicas de criminalidade organizada, disputas territoriais e vulnerabilidades sociais que expõem parcelas significativas da população a riscos elevados de vitimização (IPEA, 2025). A análise da distribuição espacial desses eventos é crucial para desvendar as lógicas subjacentes à violência e para o desenvolvimento de intervenções mais eficazes e direcionadas.
A região amazônica, embora frequentemente associada a desafios ambientais, enfrenta também uma crescente urbanização e, com ela, a intensificação de problemas sociais, incluindo a violência letal. Cidades como Manaus, capital do estado do Amazonas, experimentam uma dinâmica complexa de crescimento populacional, desigualdade socioeconômica e expansão urbana desordenada, fatores que contribuem para a emergência e consolidação de padrões de violência específicos (França et al., 2025). A particularidade do contexto amazônico, com suas vastas fronteiras e a presença de rotas de tráfico, adiciona camadas de complexidade à manifestação da violência, que se expressa de formas distintas das observadas em outras regiões do país (Cavalcante et al., 2025).
Manaus, como um polo econômico e demográfico na Amazônia, apresenta uma realidade multifacetada onde a modernidade e a precariedade coexistem. A cidade, com sua vasta extensão territorial e diversidade socioeconômica, torna-se um laboratório para a compreensão de como a violência letal se manifesta e se distribui no espaço urbano. A análise territorial da violência, conforme preconizado por Beato Filho (1999), é fundamental para identificar áreas de maior risco e para direcionar recursos e estratégias de segurança pública de forma mais eficiente e equitativa, evitando a generalização de problemas que possuem raízes e manifestações localizadas.
A análise da dinâmica territorial dos homicídios constitui-se como campo fundamental para compreensão da violência letal urbana no Brasil. Cerqueira (2013), em seu estudo sobre a singular dinâmica territorial dos homicídios nos anos 2000, demonstra que a distribuição espacial da violência letal não é aleatória, mas segue padrões territoriais específicos que refletem desigualdades socioeconômicas e estruturais. O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) evidencia que a concentração de homicídios em determinados territórios urbanos revela processos de exclusão social e marginalização que transcendem explicações simplistas, exigindo análises multidimensionais que integrem fatores econômicos, sociais e espaciais. Esta perspectiva de Cerqueira (2013) fundamenta a necessidade de investigações territorializadas que mapeiem com precisão as geografias da violência letal, permitindo identificar não apenas onde ocorrem os homicídios, mas compreender os mecanismos estruturais que produzem tais concentrações espaciais. Manaus, como centro urbano amazônico em contexto de vulnerabilidades múltiplas, constitui-se como espaço privilegiado para aplicação desta metodologia de análise territorial da violência letal.
Apesar da crescente atenção à violência urbana, ainda existe uma lacuna na literatura científica que aborde de forma aprofundada a distribuição espacial das mortes violentas por arma de fogo em Manaus, especificamente com uma análise territorial detalhada que permita a identificação de "hot spots" criminais. A compreensão dos padrões espaciais do crime, conforme proposto pela “criminologia ambiental” (Clarke, 1991), é essencial para ir além da mera contagem de eventos e para entender as interações entre o ambiente físico e a atividade criminosa. Uma análise territorial robusta é, portanto, indispensável para subsidiar a formulação de políticas públicas de segurança mais eficazes e baseadas em evidências (Beato Filho, 1999).
Diante desse cenário, a presente pesquisa busca responder à seguinte pergunta: Como se configura a distribuição espacial das Mortes Violentas Intencionais por arma de fogo em Manaus e quais territórios concentram a maior letalidade no ano de 2025? Esta questão orienta a investigação para a identificação de padrões espaciais específicos do crime, que são cruciais para a compreensão da dinâmica da violência urbana (Brantingham; Brantingham, 1991).
Para tanto, o objetivo geral deste estudo foi analisar a distribuição espacial das Mortes Violentas Intencionais por arma de fogo em Manaus (AM) e identificar os territórios de maior concentração de letalidade no ano de 2025. Usou-se como objetivos específicos: (i) caracterizar o perfil das Mortes Violentas Intencionas (MVI) por arma de fogo em Manaus; (ii) mapear a distribuição dessas mortes por zonas geográficas e bairros; e (iii) discutir as implicações dos padrões espaciais identificados para as políticas de segurança pública, com base nos princípios da criminologia espacial (Beato Filho, 1999).
2. MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa caracteriza-se como aplicada, de natureza descritiva e retrospectiva, com abordagem quantitativa e suporte interpretativo qualitativo. O estudo é aplicado por buscar gerar conhecimento que possa ser diretamente utilizado na formulação de políticas públicas de segurança. É descritivo por caracterizar a distribuição espacial da violência letal por arma de fogo em Manaus, e retrospectivo por analisar dados referentes a um período já concluído (Gil, 2019).
A população de estudo compreendeu todas as Mortes Violentas Intencionais (MVI) registradas em Manaus no período de janeiro a dezembro de 2025. Os dados foram obtidos a partir do banco público disponibilizado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas, denominado “Banco de Mortes – Amazonas (2021–2026)”. Foram selecionadas apenas ocorrências classificadas como MVI, posteriormente categorizadas de acordo com o meio empregado, com destaque para os casos envolvendo arma de fogo.
Inicialmente, realizou-se um levantamento documental e retrospectivo, com abordagem quantitativa. O recorte temporal compreende o período de janeiro a dezembro de 2025, especificamente em ocorrências de MVI na cidade de Manaus. Após a identificação e quantificação desse, procedeu-se à sua categorização quanto ao meio empregado na execução do delito, permitindo a delimitação dos casos praticados com o uso de arma de fogo.
Na etapa subsequente, os registros selecionados foram organizados segundo sua distribuição espacial, a partir da divisão por zonas administrativas do município de Manaus (zonas Norte, Leste, Oeste, Sul, Centro-Sul, Centro-Oeste e zona rural), com o objetivo de identificar padrões territoriais da violência letal. Em seguida, realizou se um refinamento da análise, desagregando os dados no nível intraurbano, por bairros, de modo a evidenciar áreas com maior concentração de MVI por arma de fogo.
As técnicas analíticas empregadas consistiram em: (i) análise de frequência absoluta e relativa para caracterizar a prevalência do uso de armas de fogo; (ii) análise comparativa territorial, calculando a distribuição percentual das MVI por arma de fogo em cada zona e bairro; e (iii) cálculo de taxas de MVI por arma de fogo por 100 mil habitantes para as zonas e bairros de maior incidência. Para o cálculo das taxas, utilizou-se a população estimada de Manaus para 2025, que é de aproximadamente 2.300.000 habitantes (IBGE, 2024, projeção). As ferramentas utilizadas para o processamento e análise dos dados foram planilhas eletrônicas (Microsoft Excel), que permitiram a organização, filtragem e cálculo das estatísticas descritivas. Para a análise espacial da densidade MVI, mapa de calor, foi utilizado a plataforma online OpenStreetMap.
Os critérios de inclusão para os casos foram: MVI ocorridas no município de Manaus, no ano de 2025, com causa da morte por arma de fogo. Casos de mortes acidentais, suicídios ou mortes por causas naturais foram excluídos. Aspectos éticos foram observados, garantindo a confidencialidade dos dados individuais e a utilização das informações apenas para fins de pesquisa, conforme as diretrizes da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2016), que dispõe sobre a ética em pesquisas nas Ciências Humanas e Sociais, e a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), assegurando que nenhum dado pessoal identificável fosse divulgado.
3. RESULTADOS
A análise dos dados referentes às Mortes Violentas Intencionais (MVI) em Manaus no ano de 2025 revelou um total de 809 ocorrências, das quais 708 foram tipificadas como homicídios. Das mortes violentas, 417 foram perpetradas por arma de fogo, o que corresponde a 51,6% do total no período. Este percentual sublinha a prevalência do uso de armas de fogo como principal meio de execução em crimes letais na capital amazonense, um dado que corrobora a tendência nacional de alta letalidade armada (FBSP, 2025).
A distribuição espacial da letalidade apresenta uma heterogeneidade acentuada entre as zonas administrativa. A visualização geral do mapa de calor da cidade de Manaus, que pode ser visto na figura 1, confirma que a violência letal não se distribui de forma aleatória, mas aglutina-se em territórios específicos, revelando padrões de concentração que coincidem com áreas de maior vulnerabilidade social.
Figura 1. Mapa de calor da densidade de homicídios por arma de fogo em Manaus (2025).
Conforme os dados estratificados por zona geográfica (Tabela 1), as zonas Norte e Leste emergem como os principais eixos da letalidade armada na capital. A Zona Norte lidera o índice com 119 casos, seguida pela Zona Leste com 99 registros, evidenciando uma assimetria na distribuição da violência em relação às demais áreas administrativas. Juntas, estas duas zonas concentram 218 casos, o que representa 52,28% de todas as MVI por arma de fogo na cidade. A Zona Norte, com 28,54% dos casos, e a Zona Leste, com 23,74%, também apresentam as maiores taxas de letalidade por 100 mil habitantes, 5,17 e 4,30, respectivamente. Em contraste, a Zona Rural e a Zona Centro-Oeste registram os menores números e taxas, indicando uma clara concentração da violência letal armada em áreas urbanas mais densamente povoadas e, frequentemente, periféricas.
Tabela 1. Distribuição das MVI por Arma de Fogo por Zona Geográfica em Manaus (2025).
Zona Geográfica Administrativa | Número de MVI | % do Total de MVI por Arma de Fogo | Taxa por 100 mil habitantes |
Norte | 119 | 28,54% | 5,17 |
Leste | 99 | 23,74% | 4,30 |
Oeste | 72 | 17,27% | 3,13 |
Sul | 53 | 12,71% | 2,30 |
Não Identificada (hospital) | 24 | 5,76% | 1,04 |
Centro-Sul | 20 | 4,80% | 0,87 |
Centro-Oeste | 17 | 4,08% | 0,74 |
Rural | 13 | 3,10% | 0,57 |
TOTAL | 417 | 100% | 18,13 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), com base nos dados do Banco de Mortes - Amazonas (2021-2026).
Os dados estratificados na Tabela 2 evidenciam uma profunda assimetria na distribuição da violência letal em Manaus. Observa-se que apenas sete bairros acumulam 103 ocorrências, volume superior ao somatório das zonas Rural, Centro-Oeste, Centro-Sul e registros não identificados. Tal disparidade ratifica a presença de pontos quentes (hot spots) no tecido urbano, onde a letalidade armada se manifesta de maneira hiperconcentrada, demandando estratégias de intervenção territorialmente localizadas.
Tabela 2. Bairros com Maior Incidência de MVI por Arma de Fogo em Manaus (2025).
Bairro | Número de MVI por Arma de Fogo | % do Total de MVI por Arma de Fogo |
Jorge Teixeira | 26 | 6,18% |
Novo Aleixo | 18 | 4,28% |
Compensa | 17 | 3,56% |
Monte das Oliveiras | 15 | 4,04% |
Cidade de Deus | 9 | 2,14% |
Colônia Terra Nova | 9 | 2,14% |
Alvorada | 9 | 2,14% |
Total | 103 | 24,47% |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), com base nos dados do Banco de Mortes - Amazonas (2021-2026).
A análise do perfil das vítimas, embora não detalhada em tabelas específicas neste documento, indicou uma predominância de homens jovens pardos, com idade entre 18 e 30 anos, como as principais vítimas das MVI por arma de fogo. Este padrão é consistente com o observado em outros estudos sobre violência letal no Brasil (IPEA, 2025). A prevalência de armas de fogo em 51,6% dos casos de MVI em Manaus em 2025 é um indicador crítico da disponibilidade e do uso desses artefatos na dinâmica criminal local, sugerindo a necessidade de políticas de controle de armas mais rigorosas e de desarmamento da população civil.
A síntese dos indicadores aqui expostos ultrapassa a frieza dos números, revelando uma "geografia do crime" (Beato Filho, 1999) latente em Manaus, onde a morte tem endereço e destinatário preferenciais. Essa concentração da letalidade em eixos territoriais específicos será melhor estudada no capítulo seguinte, Análise e Discussões. O objetivo é transcender a contagem de óbitos para compreender as raízes e as graves implicações da prevalência de armas de fogo nos cenários da capital.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO
Os resultados apresentados revelam uma distribuição espacial da violência letal por arma de fogo em Manaus que não é aleatória, mas sim concentrada em zonas e bairros específicos, corroborando as premissas da criminologia espacial. A concentração de mais da metade das MVI por arma de fogo nas Zonas Norte e Leste, e a identificação de bairros como Jorge Teixeira, Novo Aleixo e Monte das Oliveiras como "hot spots" de letalidade (figura 2), alinham-se com a teoria dos padrões espaciais do crime de Brantingham e Brantingham (1991).
Essa tendência de hiperconcentração naquelas zonas administrativas ratifica análises preditivas anteriores baseadas em dados do IML, que já apontavam as zonas Norte e Leste como áreas prioritárias de letalidade armada em Manaus (Rosário; Leite, 2026). Segundo esses autores, a criminalidade tende a se agrupar em locais onde há uma confluência de oportunidades, alvos vulneráveis e ausência de controle social, muitas vezes em áreas com infraestrutura precária e alta densidade populacional.
Figura 2. Mapa de calor da densidade de homicídios por arma de fogo das Zonas Norte e Leste (2025).
A dinâmica territorial dos homicídios em Manaus dialoga diretamente com as análises de Daniel Cerqueira (2013) sobre a singularidade da distribuição da violência letal no Brasil. Cerqueira (2013) argumenta que a concentração de homicídios em determinados territórios urbanos não é um mero acaso, mas um reflexo de processos de exclusão social e marginalização. As zonas e bairros mais afetados em Manaus são frequentemente caracterizados por menor acesso a serviços públicos de qualidade, maior informalidade econômica e presença de grupos criminosos, criando um ambiente propício à escalada da violência. Essa perspectiva multidimensional é crucial para compreender que a violência não é apenas um problema de segurança, mas um sintoma de desigualdades estruturais.
A escassez da presença estatal em perímetros específicos do bairro Compensa atua como catalisadora da violência letal (Figura 3), materializando o fenômeno da marginalidade avançada teorizado por Wacquant (2001). A ocupação irregular da área, impulsionada pela expansão da Zona Franca de Manaus a partir de 1969, estruturou uma morfologia urbana de baixa acessibilidade. Tal precariedade de infraestrutura transcende a privação de direitos fundamentais, resultando em barreiras físicas e sociais que obstruem a capilaridade e a atuação do sistema de justiça criminal no território.
Figura 3. Mapa de calor da densidade de homicídios por arma de fogo no bairro Compensa (2025).
A articulação dos achados com as teorias da desigualdade urbana é imperativa. Wacquant (2001), ao discutir as "prisões da miséria", descreve como a marginalização socioeconômica e a segregação espacial criam guetos urbanos onde a violência se torna uma forma de regulação social e de disputa por poder.
Em Manaus, a expansão urbana desordenada e a formação de periferias com infraestrutura deficiente podem ser interpretadas como manifestações dessa segregação, onde a ausência do Estado em termos de políticas sociais efetivas abre espaço para a atuação de organizações criminosas e para a resolução violenta de conflitos (Zaluar, 2006). Caldeira (2000), por sua vez, ao analisar as "cidades de muros", destaca como a fragmentação do espaço urbano e a criação de barreiras físicas e simbólicas intensificam a polarização social e a percepção de insegurança, contribuindo para a reprodução da violência.
A prevalência da violência letal em pontos específicos, como é o caso dos sete bairros com maiores números de MVI por arma de fogo na capital, pode ser interpretada sob o prisma da Teoria da Desorganização Social (Shaw; Mckay, 1942). Segundo essa vertente da Escola de Chicago, a criminalidade em bairros de urbanização espontânea (invasões) e alta rotatividade populacional decorre da fragilização das instituições de controle social informal. Em territórios marcados pela precariedade habitacional e instabilidade residencial, a ausência de coesão comunitária impede que os moradores estabeleçam mecanismos de vigilância mútua, criando um vácuo de autoridade que é frequentemente preenchido por grupos criminosos, tornando o controle social formal (policial) insuficiente para reverter a dinâmica violenta local.
Os sete bairros com 24,47% das MVI por arma de fogo (Tabela 2), liderados por Jorge Teixeira (26 casos, 6,18%), replicam padrões amazônicos de letalidade concentrada em periferias, conforme Cruz (2022), que mapeia homicídios dolosos nessas áreas (2016-2020) como reflexo de desigualdades espaciais e ausência estatal, e Pereira (2025), atribuindo 85% das execuções no Jorge Teixeira a disputas faccionais e tráfico.
O contexto amazônico, conforme apontado por França et al. (2025) e Cavalcante et al. (2025), adiciona uma camada de complexidade à análise. A proximidade com fronteiras e rotas de tráfico de drogas e armas pode intensificar a dinâmica da violência letal por arma de fogo, transformando bairros periféricos em pontos estratégicos para a logística do crime organizado. A alta prevalência de armas de fogo nas MVI em Manaus (52,04%) é um indicador direto dessa realidade, sugerindo que o controle de armas e o combate ao tráfico ilícito são medidas essenciais, mas que devem ser acompanhadas de políticas sociais e urbanísticas que desestruturem as bases da vulnerabilidade territorial.
A comparação dos resultados de Manaus com estudos anteriores sobre a geografia do crime no Brasil, como os de Beato Filho (1999) em Belo Horizonte, revela padrões semelhantes de concentração da violência em áreas periféricas e de alta vulnerabilidade social. Essa consistência sugere que, apesar das particularidades regionais, existem fatores estruturais comuns que impulsionam a violência letal em grandes centros urbanos brasileiros. A identificação desses "hot spots" em Manaus oferece uma oportunidade para a formulação de políticas públicas de segurança mais eficazes, que transcendam a lógica reativa e punitiva, e que se baseiem em inteligência territorial e intervenções multissetoriais.
As implicações para as políticas públicas de segurança são profundas e exigem o que a literatura contemporânea define como Prevenção Intersetorial. A concentração da violência armada em territórios específicos demanda não apenas o Policiamento de Hot Spots (Sherman; Weisburd, 1995), mas uma abordagem que considere as vulnerabilidades estruturais. Conforme alertam os estudos de Criminologia Ambiental, a repressão isolada pode induzir ao deslocamento do crime, sem mitigar suas causas genéticas. Portanto, a presença qualificada do Estado deve visar o fortalecimento da Eficácia Coletiva (Sampson, 1997), integrando estratégias de controle à promoção da cidadania e à inclusão social, garantindo que a segurança seja percebida como um direito fundamental e não meramente como controle penal.
O reconhecimento das limitações do estudo, como a dependência de dados secundários e a análise restrita a um único ano, não invalida a relevância dos achados, mas aponta para a necessidade de pesquisas longitudinais e com maior detalhamento qualitativo para aprofundar a compreensão dos fenômenos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa buscou analisar a distribuição espacial das Mortes Violentas Intencionais (MVI) por arma de fogo em Manaus (AM) no ano de 2025, com o objetivo de identificar os territórios de maior concentração de letalidade. Os resultados confirmam que a violência letal por arma de fogo na capital amazonense não se distribui de forma homogênea, mas apresenta uma clara concentração em zonas e bairros específicos, caracterizando uma geografia da violência que reflete profundas desigualdades socioespaciais. A prevalência de armas de fogo em mais da metade das MVI (51,6%) sublinha a urgência de políticas de controle e desarmamento, bem como de combate ao tráfico ilícito desses artefatos.
A identificação das Zonas Norte e Leste como as mais afetadas, e de bairros como Jorge Teixeira, Novo Aleixo e Monte das Oliveiras como "hot spots" de letalidade, oferece subsídios cruciais para a formulação de políticas públicas de segurança mais eficazes e baseadas em evidências. A concentração de quase um quarto de todas as MVI por arma de fogo em apenas sete bairros demonstra a necessidade de intervenções territorializadas, que considerem as particularidades e vulnerabilidades de cada área. Essa abordagem, fundamentada na criminologia espacial e nas análises sobre a dinâmica territorial dos homicídios, permite ir além de respostas genéricas, direcionando recursos e esforços para onde são mais necessários.
As contribuições teóricas deste estudo residem na aplicação e validação de conceitos da criminologia espacial e da geografia do crime no contexto amazônico, articulando os achados empíricos com as teorias da desigualdade urbana de autores como Wacquant (2001), Caldeira (2000) e Zaluar (2006), e com as análises de Cerqueira (2013) sobre a não aleatoriedade da violência. Praticamente, a pesquisa oferece um mapeamento detalhado da violência letal armada em Manaus, fornecendo informações valiosas para gestores públicos, forças de segurança e organizações da sociedade civil na elaboração de estratégias de prevenção e repressão mais focadas e integradas.
As implicações para a segurança pública e os direitos humanos são significativas. A violência letal por arma de fogo, ao se concentrar em territórios específicos, perpetua ciclos de medo, estigmatização e exclusão social, afetando desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. A resposta a esse desafio exige uma abordagem holística que combine ações de policiamento comunitário, inteligência policial, controle de armas, mas também investimentos em educação, saúde, cultura, urbanismo e geração de oportunidades. A promoção dos direitos humanos deve ser o pilar de qualquer política de segurança, garantindo que as intervenções não reproduzam ou intensifiquem a violência estatal.
Como sugestão para investigações futuras, recomenda-se a análise pormenorizada das rotas de tráfico e circulação de armas de fogo, com ênfase no mapeamento dos fluxos de entrada e na dinâmica de redistribuição desses armamentos no tecido urbano. Tal abordagem é essencial para compreender como a porosidade das fronteiras e a logística criminal alimentam a violência letal em Manaus (IPEA; FBSP, 2025; Amazonas, 2026). É importante que o entendimento da dinâmica criminal em Manaus avance para além da contagem de óbitos, buscando compreender as raízes das disputas territoriais e a influência das facções criminosas na região (Beato Filho, 1999; IPEA; FBSP, 2025).
Em suma, a violência letal por arma de fogo em Manaus é um fenômeno com uma geografia bem definida, enraizada em complexas interações socioespaciais. A compreensão e o enfrentamento desse desafio exigem políticas públicas territorializadas, integradas e baseadas em evidências, que promovam a segurança, a justiça social e o respeito aos direitos humanos em todas as áreas da cidade, especialmente naquelas que mais sofrem com a letalidade armada.
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1 Mestrando em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos (UEA), Manaus, AM, Brasil.
2 Mestrando em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos (UEA), Manaus, AM, Brasil.
3 Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos (UEA), Manaus, AM, Brasil.
4 Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos (UEA), Manaus, AM, Brasil.
5 Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos (UEA), Manaus, AM, Brasil.