REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775179699
RESUMO
A prática cotidiana do capitalismo flexível passa por um crescente estado de incerteza, iminência de desastre e uma luta ferrenha contra os sistemas rígidos. Com isso, a intensificação do ritmo de trabalho, a desertificação da paisagem da vida emocional e a virtualização da vida emocional estão convergindo para a produção de um nível de solidão e desespero que é difícil de recusar e combater. Suspeita-se de que, no nosso modelo de democracia limitada, o capitalista neoliberal não significa um Estado neutro, leis neutras e, nem ainda, aparelhos neutros, marketing neutro, mídia neutra e políticos neutros. A aparência é de que vivemos em uma profunda crise de representatividade dos partidos políticos e demonização dos políticos, além do solapamento das democracias pela lógica neoliberal. Nada tem sido feito, de maneira efetiva, para lidar com a grande massa que tem sido deixada para trás em decorrência do capitalismo flexível. Diante de tais realidades, buscar saídas deve ser o centro das nossas preocupações. Sendo assim, a democracia limitada que temos está em risco por não passar de uma indiferença cínica em relação aos verdadeiros valores da vida. Como alternativa viável, alguns pensadores propõem uma confrontação da lógica neoliberal de dominação nas esferas: social, comunicacional, econômica e política, já que, com seu viés de democracia de baixa intensidade e esvaziamento da representatividade via corrupção para a captura do estado, resta-nos o encaminhamento para a fusão entre a democracia participativa e a democracia representativa para a gestão do sistema político em geral, fugindo assim, da farsa e do autoengano.
Palavras-chave: Capitalismo Flexível, Farsa, Autoengano, Corrosão do Caráter.
ABSTRACT
The daily practice of flexible capitalism goes through a growing state of uncertainty, imminence of disaster and a fierce struggle against rigid systems. The intensification of work pace, the desertification of the landscape of emotional life and the virtualization of emotional life are converging to produce a level of loneliness and despair that is hard to refuse and combat. It is suspected that in our model of limited democracy, the neoliberal capitalist does not mean a neutral state, neutral laws, or even neutral apparatus, neutral marketing and neutral politicians. The appearance is that we live in a deep crisis of representation of political parties and demonization of politicians, in addition to the overlap of democracies by neoliberal logic. Nothing has been done, effectively, to deal with the great mass that has been left behind by flexible capitalism. Faced with such realities, seeking out should be the center of our concerns. Therefore, the limited democracy that we have is at risk, it is nothing more than a cynical indifference towards the true values of life. As a viable alternative, some thinkers propose a confrontation of the neoliberal logic of domination in the spheres: social, economic and political, since, with its bias of low intensity democracy and emptying of representativity through corruption to capture the state, we have the to the fusion between participatory democracy and representative democracy for the management of the political system in general, thus escaping from farce and self-deception.
Keywords: Flexible Capitalism, Farce, Self-Discipline, Corrosion of Character
ENVERGAMENTO CULTURAL E FARSA
De acordo com a milenar tradição japonesa, para evitar a desonra da captura ou a vergonha de ser derrotado e sair vivo de um duelo, o samurai praticava um ritual chamado seppuku - suicídio ventral. Quando perdia sua honra de alguma forma, o samurai se via na obrigação de cometer o suicídio.
O haraquiri, como também é chamado este tipo de suicídio, era considerada uma morte lenta e dolorida. O samurai fincava uma pequena espada ao lado do abdômen e cortava o próprio ventre de uma ponta a outra. Porém, antes de atravessar o abdômen com uma lâmina, era precedido de um ritual cujas partes principais eram: composição de um poema de morte por parte do samurai e um banho de purificação do corpo e da alma.
Feito o ritual, o samurai se recostava num pequeno banco de modo que quando morresse, seu corpo não caísse para trás. Pegava então sua espada curta ou uma adaga afiada e cortava o corpo na altura do abdômen, terminando por puxar a lâmina para cima. Era importante o samurai ter total autocontrole e não mostrar sinais de medo ou dor.
Caso o samurai não tivesse mais aguentando a dor, um parente ou amigo íntimo entre os espectadores do ritual, se apossava de uma espada e com ela, decepava a cabeça do samurai de modo que a espada não transpassasse totalmente o pescoço do samurai. Era necessário que tal golpe deixasse a cabeça pendurada por uma fina camada de pele, para que ela não rolasse no chão.
Nos campos de batalha, por exemplo, o ritual não podia ser seguido à risca, por isso, para evitar de ser capturado, o samurai derrotado apenas enfiava a espada em seu abdômen, como aparece nos filmes.
Por isso, suicídio tem um enorme valor na milenar cultura do Japão, pois difere os samurais das outras castas guerreiras e prega o conceito de que mais vale a morte do que a desgraça de ter o próprio nome desonrado. Os pilotos kamikazes que durante a Segunda Guerra Mundial precipitavam os aviões sobre os inimigos, são um exemplo.
Conta a história que em 1703, 47 Ronin– samurai sem mestre - desafiaram o poder do Xogun– comandante do exército - degolando o mestre de etiqueta, culpado pela morte do antigo amo deles. Em seguida, os Ronin cometeram seppuku, tornando-se assim, com tal gesto, os mais reverenciados rebeldes do Japão até nossos dias.
É verdade que no filme de 2014, estrelado por Keanu Reeves, a lenda foi deturpada, fraudada, destotalizada e desprovida do contesto cultural. Observa-se que, em momento algum do filme, o diretor, Carl Erik Rinsch1, consegue transmitir ao espectador o significado de tais atos nobres, diminuindo a tradição japonesa de tal forma que ela se torne um mero recipiente vazio. Há uma apropriação aproveitadora da cultura alheia para deformá-la, e de tal maneira falseá-la, ao ponto de parecer uma mera caricatura.
Da mesma foram que o diretor Rinsch fez com o seppuku, o coreano Choi Tae-min dizia conversar diretamente com Deus. Antes de criar a própria igreja, já tinha perambulando por outras religiões, onde foi monge budista e padre católico. Ele alegava que, diferentemente dos outros seres humanos, tinha sangue branco. Na década de 70, tornou-se influente conselheiro de Park Geun-hye, filha do ditador coreano da época. Park foi presidente da Coreia do Sul, por votação direta da população. Choi Soon-sil é filha de Choi Tae-min e amiga de Park. Dizem que Choi Tae-min, além de dar conselhos políticos a Park, escreve alguns dos seus discursos, mesmo sem ter nenhum cargo oficial. Choi foi acusada por um alto funcionário do governo de ter extorquido algumas das maiores empresas da Coreia do Sul, em nome de Park. Os valores passam dos 200 milhões de reais.
Em seu pedido público de desculpas, conforme a revista Veja do dia 9 de novembro de 2016, Choi admite ter cometido um pecado que merece a morte (TEIXEIRA, 2016). Entretanto, Choi não chegou às vias de fato como os samurais e foi presa chorando muito (sinal de fraqueza?). Os coreanos, assim como reza a tradição dos amigos ou parentes dos samurais que não suportam a dor, deram o golpe fatal em Park indo às urnas eleger um novo mandatário.
Eduardo Giannetti (2016), no livro Trópicos Utópicos: uma perspectiva brasileira da crise civilizatória, afirma que: o mundo moderno nasceu e evoluiu embalado por três ilusões:
“a de que o pensamento científico permitiria gradualmente banir o mistério do mundo e assim elucidar a condição humana e o sentido da vida; a de que o projeto de explorar e submeter a natureza ao controle da tecnologia poderia prosseguir indefinidamente sem atiçar o seu contrário – a ameaça de um terrível descontrole das bases naturais da vida e a de que o avanço do processo civilizatório promoveria o aprimoramento ético e intelectual da humanidade, tornando nossas vidas mais felizes, plenas e dignas de serem vividas”.
Complementa o mesmo autor que: “o grande alvo do avanço científico era minar os credos religiosos e as crenças metafísicas”. Giannetti (2016, p.16), entende que:
aí reside o cerne da crise: a ciência ilumina, mas não sacia – e pior: mina e desacredita todas as fontes possíveis de replação. Mas se derruba as alternativas e nada ergue, o que fica? Onde encontra o que a ciência, por sua lógica intrínseca de apreensão dos fenômenos, jamais nos poderá fornecer?
Há alguma relação entre as promessas não cumpridas da moderna ciência e a afirmação de Francis Fukuyama de que o capitalismo e a sua filha predileta, a democracia limitada que temos, seriam o “fim da história”? Nos venderam uma farsa ou nós nos autoenganamos? Parece que o próprio Fukuyama se autoenganou e já admitiu que a afirmação necessita de revisão.
Assim como a desertificação da paisagem (ZIZEK, 2015) age sobre o humor do sujeito, a recusa da ciência em validar a transendentalidade conduz ao fanatismo religioso, invariavelmente fundamentalista e leva ao consumismo exacerbado e cego como válvula de escape diante da perda de qualquer senso de propósito na vida (GIANNETTI, 2016).
Não é esta farsa que aconteceu na Coreia do Sul, embora seja sempre citada como maior exemplo do êxito do sistema capitalista? Apesar da prosperidade econômica, a Coreia do Sul tem a mais alta taxa de suicídio do mundo, chegando a ser a causa de morte mais comum entre as pessoas com menos de 40 anos. As últimas duas gerações de coreanos tiveram ganhos substanciais de renda, melhor alimentação, mais liberdade e acesso a bens, entretanto, viu o número de suicídio dobrar. Foram 17 mil suicídios na Correia do Sul em 2012. Embora em sua farsa, Choi admita que mereça a morte, ela é minoria entre os que cometem suicídio. A maioria são indivíduos do sexo masculino.
A não discussão dos males causados pelo hedonismo individualista proposto pelo capitalismo, não passa de uma indiferença cínica em relação aos verdadeiros valores da vida, visto que Werlang (2004), entende haver uma dor psicológica insuportável no comportamento suicida. Quais são as forças que levam a tamanha dor a ponto de um indivíduo esfaquear a esposa, jogar os filhos pela janela de um prédio e depois cometer o suicídio, apenas pela expectativa de ficar desempregado e não poder garantir a vida de consumo e posição social ameaçados de serem perdidos?
É esclarecedora a ponderação de ZIZEK (2011, p.53): “Consumimos para tornar a vida prazerosa e significativa”. Cabe, ainda, tomando aqui uma abordagem “descaradamente” zizequiana, levar em conta o que São Paulo escreveu ao seu discípulo Timóteo:
Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos (BÍBLIA, 1 Timóteo, 6, 9-10).
Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), indicam que em 2012, 804 mil pessoas cometem suicídio. São 11,4 pessoas para cada grupo de 100 mil habitantes. Foram 43 mil nos Estados Unidos, 31 mil na Rússia e 29 mil no Japão. O número final dos que cometem suicídio anualmente, supera os mortos nos acidentes de trânsito, homicídios e guerras. Dados disponíveis no DataSUS, do Ministério da Saúde, os pesquisadores analisaram as mortes por suicídio no Brasil de 2000 a 2019. Neste período, foram 195.047 casos, representando um aumento de 57%. A média mundial estabilizou em 700 mil suicídios.
Não seria isto um autoengano sobre o sentido da vida?
A sociedade unidimensional em desenvolvimento altera a relação entre o racional e o irracional. Contrastado com os aspectos fantásticos e insanos de sua irracionalidade, o reino do irracional se torna o lar do realmente racional, das ideias que podem promover a arte da vida (MARCUSE, 1972, p.227).
A intensificação do ritmo de trabalho, a desertificação da paisagem da vida emocional e a virtualização da vida emocional estão convergindo para a produção de um nível de solidão e desespero que é difícil de recusar e combater... Isolamento, competição, senso de insignificância, compulsão pelo consumo desenfreado, ostentação, deusificação dos midiáticos e expectativa do fracasso são as molas propulsoras da catástrofe (BERARDI, 2011).O que está acontecendo não é uma reação ao descumprimento do welfarestate (Estado de bem-estar), prometido pela globalização?
Talvez facilite a compreensão do fato de que a maioria dos que comentem o suicídio seja do sexo masculino. Não é maior entre esse grupo a cobrança por uma vida de “sucesso” e, o inconsequente, linchamento por ser considerado fracassado? E se levarmos em consideração que, de acordo com Berardi (2014), somente 28 sujeitos em cada grupo de 100 mil têm “sucesso” dentro da perspectiva capitalista, enquanto o restante não tem “êxito”?
O fracasso é o grande tabu moderno. A literatura popular está cheia de receitas de como vencer, mas em grande parte calada sobre como enfrentar o fracasso[...]. O mercado em que o vencedor leva tudo é uma estrutura competitiva que predispõe ao fracasso grandes números de pessoas educadas (SENNETT, 2015, p. 141).
Nada tem sido feito, de maneira efetiva, para lidar com a grande massa que tem sido deixada para trás em decorrência do capitalismo flexível. Vale salientar que, em pesquisa divulgada agora em 2017, no Fórum Econômico Mundial de Davos, dá conta de que oito dos homens mais ricos do mundo concentram o mesmo patrimônio de 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais pobre da humanidade, que detém 0,25% da riqueza global líquida. Os dados constam no relatório “Uma economia humana para os 99%” e foi elaborado pela Oxfam, entidade que reúne diversas organizações não governamentais. O documento se baseia nas informações do “Credit Suisse Wealth Report 2016” e na lista de super-ricos da revista “Forbes” e evidencia o aumento da desigualdade econômica extrema.
Somado a isto, parece haver uma estreita relação muito próxima entre a mutação antropológica, ligada à transformação e à precarização causadas pelas relações digitais, ou seja, sem se darem conta, os sujeitos são imersos no mundo virtual, onde as mensagens audiovisuais acompanham a sua vida em tempo integral (ZIZEK, 2016). Indo além, (ZIZEK, 2012, p.104) afirma: “A perda e a privação de nova base simbólica imposta pelo sistema, perturbando o universo simbólico de determinadas culturas de maneira brutal, empurrou povos para o extremismo fundamentalista como uma reação de pânico para evitar a desintegração total. Longe de ser apenas uma reação do mundo muçulmano, o pânico pode estar sendo vivenciado na mesa ao lado, no quarto ao lado ou mesmo na máquina ao lado.
A existência desprovida de totalidade, apenas o agir “maquínico” sem correlação simbólica parece ser o ingrediente de um perfeito vazio de sentido e significado da vida nos nossos dias, como o um músico que escreve música, ou melhor escrevia música, apenas música (ZIZEK, 2015). Uma forma de corpo sem órgão onde só há o silencioso grito interior das dúvidas íntimas, insignificância, histeria ou ansiedade, há um agir aparentemente sereno como se a realidade não lhe dissesse respeito, um estado mental alheio. Apenas a geração de sons melódicos e notas corretamente justapostas, assim como o indivíduo que perdeu o paladar, porem continua a se alimentar, ou então o “cadáver adiado que procria” (PESSOA, 1972, sp.).
A prática cotidiana do capitalismo flexível passa por um crescente estado de incerteza, iminência de desastre e uma luta ferrenha contra os sistemas rígidos: família, religião, tradição, laços de amizade, lealdade, território, estado-nação, dentre outros.
Por conseguinte, quanto mais se vai no sentido de um estado econômico, mais paradoxalmente o vínculo constitutivo da sociedade civil se desfaz e mais o homem é isolado pelo vínculo econômico que tem com o mundo e qualquer um (FOUCAULT, 2008, p.412).
Soma-se a isto a falta de sintonia entre o relógio do caráter e as imposições do capitalismo moderno, tem-se uma separação entre vontade e comportamento, com um consequente impedimento para que haja uma narrativa sustentada da experiência formadora do caráter – muda de emprego, cidade, vínculos, laços sociais, cônjuge. FOUCAULT (2012, p.288) complementa: “Não há uma preocupação com o objeto em si e sim com os lucros políticos e alguma utilidade econômica.”
Neste ponto reside o conflito entre família e trabalho impactando na experiência da vida adulta, ou seja, “como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo e como desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos?” (SENNETT, 2016, p. 27).
É a dimensão do tempo do novo capitalismo, e não a transmissão de dados high-tech, os mercados de ação globais ou o livre comércio, que mais diretamente afeta a vida emocional das pessoas fora do local de trabalho. Transposto para a área familiar, ‘não há longo prazo’ significa mudar, não se comprometer e não se sacrificar (SENNETT, 2016, p. 25).
Convém pontuar que: a aceleração do tempo na sociedade moderna, configura-se como uma revolta contra o tempo rotineiro, burocrático, que pode paralisar o trabalho, o governo e outras instituições (SENNETT, 2016). Tal aceleramento não impacta somente na consolidação do caráter do sujeito, também sobre os recursos naturais, onde o tempo de recuperação dos recursos ambientais difere do tempo de exploração. Em outras palavras: o capitalismo desenvolve-se mais e mais na direção de um “inimigo da natureza” (KOVEL, 2002, p. 122). “No fim da história”, o “melhor de todos os mundos possíveis proposto pelo sistema de produção atual” destrói os fundamentos da sua própria vida (ALTVATER, 2010, p. 122).
Será que a aceleração do tempo que pede pressa nos resultados, juntamente com a intolerância contra as instituições rígidas e a corrosão do caráter, não geram a corrupção como filha bastarda do capitalismo flexível? Sendo assim, Choi é fruto e vítima e, temos em um só caso, a fraude e o autoengano consubstanciados, colocando em xeque tanto o capitalismo flexível de Francis Fukuyama, quanto a moderna ciência.
Ao tentar desviar a exploração do homem pelo homem para uma exploração da natureza pelo homem, o capitalismo multiplicou indefinidamente as duas. O recalcado retorna e retorna em dobro: as multidões que deveriam ser salvas da morte caem aos milhões na miséria; as naturezas que deveriam ser dominadas de forma absoluta nos dominam de forma igualmente global, ameaçando a todos (LATOUR, 1994, p. 14).
O “homem enigmático” de Boudelaire (2007), não seria o retrato de um fanático aficionado pela Internet? Destotalizado, já que “o homem não é só um animal social, ele é também territorial e deve fazer parte da nossa agenda satisfazer aqueles instintos básicos de tribalismo e territorialidade” (ZIZEK, 2011, p. 60), ressalte-se que: “sozinho diante da tela, ele não tem pai, nem mãe, nem país, nem deus – tudo de que precisa é de uma nuvem digital à qual esteja conectado seu modem” (ZIZEK, 2011, p. 62).Estabelecendo assim, como essa conexão em rede virtual, uma relação passageira de associação, uma frouxidão nas relações, fazendo com que os laços sociais deixem de ser incentivados e valorizados (SENNETT, 2016).
Este estado mental dado, não provoca a “corrosão do caráter” (SENNETT, 2016) e estaria produzindo zumbis consumistas e individualistas que, embora se movimentam em grupo, vivem na sua solidão existencial e “caminham, embora aos bandos, pelos espaços urbanos em suave e contínua interação com fotos, posts, jogos surgindo de suas telas, ouvindo músicas solitariamente, gesticulando e rindo ao léu, perfeitamente isolados e conectados ao mundo digital próprio?” Não seria este o aspecto mais cruel do sistema capitalista em voga, ou seja, a destotalização do significado? O capitalismo flexível não vê problemas em se adaptar e se acomodar em todas as formas de civilizações e em qualquer tipo de crença, assumindo a natureza de um camaleão (ZIZEK, 2015).
O diretor Carl Erik Rinsch ao se aproveitar da cultura alheia para deformá-la ao ponto de parecer uma mera caricatura, não seria um reflexo de um sistema que não respeita os limites dos territórios existenciais e materiais dos sujeitos? Até que ponto Choi não faz o mesmo, ao dizer merecer a morte, ao ser pega extorquindo empresários? Tomando a tradição cultural dos samurais japoneses, os suicidas atuais não estão praticando um ato destotalizado, fruto do autoengano proposto pela farsa do sistema capitalista neoliberal?
A globalização econômica está pouco a pouco, porém inexoravelmente, solapando a legitimidade das democracias ocidentais. Por causa de seu caráter internacional, processos econômicos amplos não podem ser controlados pelos mecanismos democráticos que por definição, limitam-se aos Estados-nação (ZIZEK, 2012, pg.92).
O capitalismo como manipulação das massas consumistas para fins de satisfação do vazio existencial deixado pela frustração com o descumprimento das promessas feitas pela ciência moderna (GIANNETTI, 2016), permeia todos os aspectos das vidas das massas alegremente ignorantes, à beira da zombificação. Já não basta consumir o mínimo indispensável para a sobrevivência, necessária se torna a ostentação dos bens posicionais, aqueles que nos permitem ocupar um lugar de honra na mente dos nossos semelhantes. Precisam ser exibidos como sinal de opulência numa espiral de apetites que se estende ao infinito.
Não é exatamente este tipo de comportamento que verificamos nas filas às portas das lojas da Apple no afã de adquirir o último lançamento do Iphone? O que justifica, ou o que move alguém a ficar em uma fila para comprar o ingresso para um show que somente acontecerá daqui a seis meses? Em ambos os casos, não seria o desejo de ocupar um lugar de opulência que o distinga da maioria dos mortais, ainda que até o lançamento do novo produto ou o surgimento de um ídolo? Há um certo vício no consumo, semelhante a dependência dos consumidores de drogas ilícitas (MARCUSE, 1982).
Isto aparenta dar um sentido momentâneo à vida, impedindo assim que o vazio existencial empurre o sujeito para debaixo do próximo trem, pule da primeira ponte ou enfie uma adaga amolada no ventre, ainda que seja pelo autoengano proposto pela farsa do sistema reinante. A prática crematística2 do capitalismo flexível, consiste em colocar a procura da maximização da rentabilidade financeira (acumulação de numerário) antes de qualquer outra coisa, em detrimento, se necessário, dos seres humanos e do meio-ambiente (ALTVATER, 2010, p.323)
Como remédio (farsa), além de incitar as mentes com a mensagem codificada – você não tem/o teu é ultrapassado, corra e seja o primeiro - a mídia exerce também o seu papel nos fornecendo distrações pitorescas e bullying coletivo para nos impedir de pensarmos sobre os problemas monstruosos que nos aterrorizam e levaria um número ainda maior de pessoas a darem cabo de suas vidas – uma dose a mais de adrenalina, a bizarrice da ostentação material e a deusificação dos midiáticos que são chamados a opinarem sobre tudo, como verdadeiros especialistas, enquanto eles mesmos lideram a lista dos desajustados. A cultura ocidental é tão incrivelmente superficial hoje em dia, tem fixação por celebridades, entretenimento, ostentação, esportes e conforto pessoal (CRAIG, 2010).
Seria a atuação de parte do judiciário a consubstanciação da cultura ocidental? Certa vez o cineasta e pintor americano Andy Warhol disse que “no futuro, todos terão seus quinze minutos de fama”. Quando se observou a apresentação do procurador e seu PowerPoint, as ações policiais nas universidades pública, as tramas que culminaram nos fatos de janeiro de 2023 na praça dos três poderes e o protagonismo dos que fardados, cabem duas indagações: No caso do procurador, vivemos numa época pós Andy Warhol, isto é, quinze minutos não bastam? Já em relação ao as militares, de onde vem a autoridade para avaliar o estado da economia, das instituições financeiras ou das urnas eletrônicas? Extrapolam seu mandato constitucional que seria, somente “avaliar, sob demanda, se determinada situação representa risco para a nossa segurança territorial. Isso é tudo que lhes garante a legitimidade, a legalidade e o respeito dos cidadãos (ZIZEK, 2015, p.47). Em relação às universidades, criminalizam o pensamento crítico.
Não seria a atuação dos militares parte de uma grande farsa, semelhante ao desejo de suicídio de Choi, dos coreanos campeões do capitalismo e o filme de Carl Erik Rinsch?
Em entrevista ao jornal La Stampa, Humberto Eco (2015, sp.) disse:
As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.
Só que, agora, a farsa se dá também, quando os imbecis são vendidos em pacote de marketing, em post nas redes sociais ou nas matérias “jornalísticas” e assumem os destinos dos países que tem suas democracias ainda em processo de amadurecimento.
O tudo, acima exposto, tenta nos imbecilizar ao nos vender os candidatos e, às vezes, “caçadores de marajás”, “justiceiros endeusados”, “saudosos da truculência ditatorial“, “heróis de toga” e supostos mitos como na propaganda do Bom Bril - 1001 utilidades - e a farsa da ida às urnas como sendo a única estância para resolver as nossas mazelas. Assim, a democracia no modelo neoliberal dos nossos dias, não passa de embalagem bonitinha onde o capital falseia a imposição dos seus interesses à maioria dos desprovidos do acesso aos bens de produção e de informações adequadas.
Esta mentalidade falseada imposta pelo nosso modelo de democracia, alimenta-se – e muitos acreditam (se autoenganam) – que ao depositarem o voto na urna estão participando plenamente dos destinos do país e que todas as mazelas sociais serão resolvidas. Na verdade, “o sufrágio universal deslegitima simbolicamente formas mais eficazes de pressão das classes populares” (HIRSCHMAN, 2016, sp.). ZIZEK (2012, p.16), complementa: “o programa positivo das ideologias do poder é em geral o programa tipo de democracia “direta”.
Esta forma, iguais os mitos dos super-heróis que nos defendem conta os monstros que nos atemorizam e das fadas com suas varinhas de condão a transformarem sapo em príncipe, a disputa eleitoral funciona, muitas vezes, como solução para reconstruir a dominação ameaçada por práticas contestatórias, sendo assim, a cada quatro anos todas as energias e esperanças se concentram nas eleições. Essa é a armadilha e a farsa da democracia limitada que temos: incentiva que a luta política seja sempre canalizada para as eleições tirando o foco de outras possibilidades de lutas democráticas.
Suspeita-se de que, no nosso modelo de democracia limitada, o modelo capitalista neoliberal não significa um Estado neutro, leis neutras e, nem ainda, aparelhos neutros, marketing neutro e políticos neutros (MIGUEL, 2016). Por detrás não está o autoengano e sim a farsa. Sabem muito bem o que estão fazendo. O Movimento Brasil Livre (MBL) não tem nada de “natural” e autêntico. Os protestos de 2013 não foram contra a corrupção, assim como o “Vem Pra Rua” não é um ente apartado do sistema político-partidário e econômico vigente. Também, parte dos comentaristas de plantão nos telejornais não é isenta de influências e interesses próprios ou de terceiros.
Embora tenham liderança, esses grupos e os protestos expressam uma fúria autêntica, se é verdadeira a premissa binária de que a luta se dá entre quem perde ou ganha com o capitalismo globalizado, entretanto se não forem capazes de propor um programa mínimo de mudanças sociopolíticas, eles foram um espírito de revolta sem revolução – não podemos nos autoenganar. No que deu? Sem um programa específico, a tendência tornou-se realidade: a substituição dos políticos no governo, por um governo “neutro” de tecnocratas despolitizados. Não seria está uma compreensão para o que vivemos agora após o resultado das eleições de 2024 nos Estados Unidos? Na concepção zizequiana: “saem os políticos coloridos, entram os capitalistas cinzas de discurso reacionário” (ZIZEK, 2012, p.84), negando e demonizando a política embora façam a política fascista.
Sendo assim, Donald Trump é fruto da frustração do Occupy Wall Street. No Brasil, as motociatas e as depredações externam as consequências da reapropriação pelo sistema capitalista global, das explosões assombradas e pretensamente emancipatórias da praia de Copacabana, da Avenida Paulista e das ocupações das portas dos quarteis. Isto tudo significa a troca dos políticos coloridos pelos pseudos burocratas capitalistas "neutros/cinzas/salvadores da pátria" e pelos que propõem resolver questões sociais e econômicas difíceis com soluções fáceis.
Voltando ao Brasil em 2022, fechadas as urnas das eleições, cabem-nos olhar para as fake news na tentativa de aprender com os sinais deixados pelas massas que depositarem seus votos nas urnas (se autoenganaram?). A aparência é de que vivemos em uma profunda crise de representatividade dos partidos políticos, demonização dos políticos e uma dose de farsa midiática, se isto for verdade, estaria acontecendo por aqui, nas terras tupiniquins, o mesmo fenômeno que já se manifestou nas democracias mais maduras do velho continente, ou seja, o aparecimento de uma classe governante destituída de legitimidade (MEIR, 2013).
Vale ressaltar que, caso a observação esteja no caminho certo, estamos às portas do cenário original ocorrido na França pré-revolucionária. Lá, a nobreza que, num período anterior se ocupava das atividades relacionadas à guerra e à administração do processo judicial, dentro outros, se viu desprezada em suas atividades e sem função relevante, apesar de manterem seus intoleráveis privilégios.
E é nisso que reside o problema da absorção ideológica da nova classe trabalhadora brasileira pelo imaginário a classe média, absorção que atualmente, no Brasil, se manifesta na disputa entre duas formulações ideológicas que enfatizam a individualidade bem-sucedida: a ‘teologia da prosperidade’, do neopentecostalíssimo, e a ‘ideologia do empreendedorismo’, da classe média neoliberal (o sonho de virar burguês)[...] permeado pelo sonho de virar burguês e o pesadelo de tornar-se proletário (CHAUI apud SINGER, 2016, p. 20).
É sabido que o fascismo surge quando a esquerda fracassa e não aproveita o potencial revolucionário existente e, quando os liberais excluem a esquerda radical, perde o legado mais na frente e abre espaço para o fundamentalismo e, por sua vez, quando o sistema capitalista global se reapropria das explosões das massas populares emancipatórias, pode ocasionar em mais forma liberal ou fundamentalista (ZIZEK, 2012).
O que se espera é que a fúria dos que não foram às urnas seja transformada em um programa político emancipatório, caso contrário, uma nova explosão ocorrerá e será cada vez mais radical. A troca do mestre pelo seu discípulo piorado, numa espécie de “tradução degradativa”, pode ser uma exibição de sabedoria cínica.
Falando sobre democracia de baixa intensidade e sua maculação pela lógica neoliberal SANTOS (2016) entende que estamos longe dos ideais democráticos primeiros, do pluralismo democráticos anterior à década de oitenta.
[...] vivemos em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas. Até quando o fascismo se mantém como regime social e não passa a fascismo político, essa é uma questão em aberto (SANTOS, 2016, p.13).
Não estaríamos nós, o povo brasileiro, vivendo esta hora dos monstros agora que sabemos e sofremos o resultado das eleições de 2018? Vejamos algumas características de dois sistemas que causam pavor:
Fascismo: subvertem o sistema político vigente, inclusive a constituição; são violentos - recorrem a grupos paramilitares; são anticlericais - veem o poder institucional das religiões como um competidor.
Reacionários: jogam o jogo político vigente; buscam apoio do fundamentalismo religioso; deixam-se adular por grupos extremistas; são racistas.
É prudente analisar: quais características destas duas tendências estão presentes atualmente no Brasil? Onde nos enquadramos? Não dá poara nos enganarmos, o Brasil é criativo e temos o hábito de criamos os nossos próprios monstros, além disso, vivemos a judicialização da sociedade!
Acredita-se que para além do que já foi dito por Hegel, Marx e Marcuse, quando o mesmo fato se repete inúmeras vezes, estamos diante de um problema maior que não é meramente circunstancial e sim estrutural. O problema é o sistema que incita a tragédia - a farsa. Não basta consertar o produto que saiu com defeito, outros virão se a fábrica não for consertada. Já vivemos outros monstros, que digam Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e João Goulart.
A farsa está posta, quem quiser que se autoengane com o discurso da Previdência falida, da inocência do Congresso Nacional, do déficit orçamentário, do Judiciário e das boas intenções dos truculentos.
No presente momento, convém saber distinguir as diferenças entre o ritual de honra dos samurais, os suicídios na Coreia do Sul e a fala de Choi ao ser presa acusada de corromper empresários em nome da presidente Park e levar em consideração o fato de que: a condição humana de flexibilidade não deve ser maior que sua capacidade de resistência, pois caso isto aconteça, seremos quebrados pelas forças do sistema que buscam nos dobrar (SENNETT, 2016).
Compreende-se ainda que, a atual democracia limitada é filha predileta da lógica neoliberal, enquanto a corrupção é a filha bastarda e disfarçada, aquela que ninguém tem coragem de assumir, mas as características não permitem a negação da paternidade. É dentro deste contexto da democracia instrumental que a soberania é solapada pelo sistema econômico que, em várias situações, não tem qualquer respeito pelo sistema constitucional dos Estados-Nação, ainda que os seus governantes tenham sido eleitos dentro das regras impostas pela lógica democrática neoliberal.
Esses são apenas alguns dos exemplos que evidenciam a assustadora corrosão da democracia no mundo contemporâneo. A cidadania encontra-se cada vez mais ameaçada pela perigosa combinação entre o cinismo dos políticos tradicionais, os tratados financeiros internacionais, indiferentes aos verdadeiros anseios da sociedade, e a ascensão de movimentos populistas à direita e à esquerda (TODOROV, 2012 p.45).
Cabe, também, olhar mais atentamente para o que diz SANTOS (2016):
A democracia neoliberal dá total primazia ao mercado de valores econômicos e, por isso, o mercado de valores políticos tem de funcionar como se fosse um mercado de ativos econômicos. Ou seja, mesmo no domínio das ideologias e das convicções políticas, tudo se compra e tudo se vende. Daí a corrupção endêmica do sistema político, corrupção não só funcional, como necessária. Surge, então, a democracia instrumental, a democracia tolerada enquanto serve aos interesses de quem tem poder econômico e social para tanto em destruição da gramática social e acordo de convivência cidadã. Por isso a democracia representativa vem sofrendo vários desgastes em decorrência de vários fatores, todos eles convergindo na transformação da democracia liberal em democracia neoliberal (SANTOS, 2016, p.22).
Os coreanos prenderam Choi, destituíram a presidente e realizaram nova eleição. Basta? Farsa ou autoengano?
“E AGORA, BRASIL?
Resta-nos algumas perguntas para não sermos resignados cínicos da pós-política: Como sair do caos e seu rastro de destruição rumo à reconstrução da uma sociedade humana solidária? Como retornarmos aos valores democráticos? Como derrotar e expulsar Mamon dos corações e das relações predatórias neoliberais?
A busca por respostas nos levará a definir objetivos, elaborar planos e traçar metas para que possamos alcançar vitórias, tendo em mente que o que alguns defensores do Estado regulado pelo mercado reputavam como impossível tornou-se real, não podemos permitir que as consequências sejam percebidas como parte do curso normal das coisas. É verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas apenas alguns têm a escolha, enquanto os outros ficam com o risco (ZIZEK, 2011, pg. 24). Que dizer dos crimes ambientais e socias de Mariana e Brumadinho? Não seriam a encarnação da asseveração zizequiana?
Diante de tal realidade, buscar saídas deve ser o centro das nossas preocupações, pois, de acordo com Zizek (2012), “para enfrentar essa ameaça, nossa ideologia coletiva mobiliza mecanismos de dissimulação e autoengano que incluem a vontade direta de ignorância”, isto porque “o padrão geral de comportamento das sociedades humanas ameaçadas é elas se tornarem mais tacanhas à medida que decaem, em vez de se concentrarem mais na crise”.
As perspectivas não são boas olhadas do ponto de vista do africano Achille Mbembe. Ele entende que “a crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização” e que como isso, “a noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor” e que:
Sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes (MBEMBE, 2017, sp).
Mbembe enfatiza ainda que:
Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas. A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.
Na perspectiva zizequiana, “diante do cinismo da ordem global”, Zizek (2012, pg. 14), ele entende que a alternativa, agora que as previsões mais sombrias se materializaram, será aumentar a pressão e expor publicamente as mazelas da sociedade. Pegá-la na sua própria regra. “Incutir coragem no povo” e lutar não contra indivíduos corruptos reais, mas contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta (Zizek, 2012, pg. 16) e, ainda, ante a possibilidade de “explosões extraparlamentares perigosas, que a esquerda não deveria lamentar, mas correr o risco de se unir a elas para “acordar” o povo”.
Defende também que:
Uma vez que a economia global está fora do escopo da política democrática, qualquer tentativa de expandir a democracia até ela acelerará o declínio da democracia....O objetivo (explícito ou implícito) é democratizar o capitalismo, estender o controle democrático à economia por meio da pressão da mídia pública, dos inquéritos parlamentares, de leis mais rigorosas, de investigações políticas honestas etc., mas sem questionar o quadro institucional democrático do Estado de direito (burguês). Essa é ainda a vaca sagrada que nem mesmo as formas mais radicais de “anticapitalismo (ZIZEK, 2012, pg. 91).
Discordando da ideia do “ato de refundação radical que inauguraria uma nova ordem social a partir do zero”, defendida por Zizek, Chantal Mouffe no livro Sobre o Político sinaliza que a abordagem agonística é capaz de desafiar o status quo. Entende ela que: diversas transformações econômicas e políticas importantes, com consequências radicais, são possíveis dentro do contexto das instituições democráticas” (MOUFFE, 2015, pg.32).
A democracia liberal não é o inimigo a ser destruído. Se considerarmos “liberdade e igualdade para todos” como os princípios “ético-político” da democracia liberal (o que Montesquieu definiu como “as paixões que movem o regime”), fica claro que o problema das nossas sociedades não são os ideais que elas proclamam, mas o fato de que esses ideais não são postos em prática. Portanto, a tarefa da esquerda não é rejeitá-los, com o argumento de que se trata de um engodo e de um pretexto para a dominação capitalista, mas lutar para a sua efetiva implementação. E, naturalmente, isso não pode ser feito sem questionar o atual modelo neoliberal de regulação capitalista (MOUFFE, 2015, pg. 31).
Ainda na concepção da autora, “as relações de poder devem ser questionadas de maneira adequadamente hegemônica, por meio de um processo de desarticulação das práticas existentes e da criação de um novo discurso e de novas instituições” (MOUFFE, 2015, pg. 32).
Nas sociedades contemporâneas estruturadas pelos três grandes tipos de dominação moderna – capitalismo, colonialismo e patriarcado -, a democracia contra hegemônica deve ter uma intencionalidade anticapitalista, anticolonialista e antipatriarcal (SANTOS, 2016, p.19).
Como única alternativa viável para a confrontação da lógica neoliberal de dominação nas esferas: social, econômica e política, com seu viés de democracia de baixa intensidade e esvaziamento da representatividade via corrupção para a captura do estado, resta-nos o encaminhamento para a fusão entre a democracia participativa e a democracia representativa para a gestão do sistema político em geral.
Isto implicaria, de acordo com Santos (2016), num direcionamento programático partidário que envolvesse e compreendesse que:
“as pessoas não estão fartas da política mas, sim desta política; a esmagadora maioria dos cidadãos não se mobiliza politicamente nem sai às ruas para se manifestar, mas está cheia de raiva em casa e simpatiza com que se manifesta; o ativismo político é importante, mas a política tem que ser feita com a participação dos cidadãos; sem membro da classe política é algo sempre transitório, e tal qualidade não permite que se ganhe mais que o salário médio do pais; a internet possibilita formas de interação que não existiam antes; os membros eleitos para os parlamentos não inventam temas nem posições, veiculam os que provem das discussões nas estruturas de base; a política partidária tem de ter rostos, mas não é feita de rostos; a transparência e a prestação de contas ser totais; o partido é um servo dos cidadãos para os cidadãos e, por isso, deve ser financiado por estes, não por empresas interessadas em capturar o estado e esvaziar a democracia; ser de esquerda é um ponto de chegada, não um ponto de partida, e, portanto, prova-se nos fatos” (SANTOS, 2016, p. 104).
Giannetti (2016), ao falar sobre o que fazer no caso particular do Brasil, pontua que:
Devemos enfrentar as nossas seculares e óbvias mazelas, a começar pelo débil e viciado sistema de ensino básico, e a conquista de condições de vida digna para todos e de maior equidade sejam imperativos inadiáveis ..., ... na busca do desenvolvimento deveremos, antes, procurar nós mesmos, à luz do que somos, a nossa própria métrica de sucesso e realização, aquilo que nos distingue, aquilo que tem valor e não ficar buscando como nação, a perfeita e acabada ocidentalização que há séculos nos elude(GIANNETTI, 2016, pg 165).
No 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx, lembrando o que Hegel disse que os fatos e personagens de grande importância da história do mundo se repetem duas vezes, ainda no mesmo parágrafo, Marx (1973, p. 146) completa que a história acontece “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Zizek (2011) lembra que Herbert Marcuse, já em 1960 deu mais uma volta no parafuso sobre o 18 de Brumário de Luís Bonaparte e acrescentou: às vezes a repetição disfarçada de farsa pode ser mais aterrorizante do que a tragédia original.
Ao se manifestar sobre os horrores da Primeira Guerra mundial, Gramsci (1929, sp.) disse: “O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros”. Parece-nos ser impossível chegar ao outro lado sem que os monstros surjam. Onde estão os felizes anos 90, a visão utópica de Francis Fukuyama do “fim da história”, ou “Por que 2012 foi o melhor de todos os anos”, estampado no editorial de Natal de 2012 da revista Spectator? (ZIZEK, 2015, p. 25). Precisamos entender que o êxito dos populistas demagogos de direita se deve, em muito, à semelhança entre os partidos tradicionais e, não havendo diferenças claras entre os partidos, todos ficam muito semelhantes ao centro (MOUFFE, 2015, pg.70). “Agora que a política está acontecendo na esfera da moral [...] e os antagonismos políticos estão sendo formados em termos de categorias morais” Mouffe (2015, pg.74), fico pensando se estamos no “quem viver chorará" de Raimundo Fagner, ou o "acabou chorare" de Morais Moreira, afinal, “quando os oponentes não são definidos em termos políticos, mas em termos morais, eles não podem ser encarados como “adversários” mas unicamente como “inimigos”, assim, nenhum debate agonístico é possível”(MOUFFE, 2015, pg. 75).
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1 Cineasta Britânico diretor do Filme 47 Ronin
2 “Crematística é um conceito” aristotélico que advém das ideias de khréma e atos - busca incessante da produção e do açambarcamento das riquezas por prazer. Foi mencionado no livro Ética a Nicômaco. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cremat%C3%ADstica. Acessado em 06/04/2013>. Acesso em 13 fev.2017.