REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793513051
RESUMO
O futebol é um dos esportes mais praticados no mundo, e consequentemente acaba movimentando bilhões de euros a cada temporada. A pesquisa teve como objetivo analisar como a capacidade financeira e a concentração de receitas influenciam os resultados em campo no Campeonato Brasileiro Série A, na LaLiga e na Premier League. Para atingir essa finalidade, emprega-se como metodologia uma pesquisa bibliográfica de abordagem narrativa, fundamentada no levantamento de dados de mercado, livros e artigos publicados prioritariamente entre os últimos 12 anos. Os resultados evidenciam que o poder econômico é um fator preponderante, ainda que não absoluto, para o sucesso esportivo e a sustentabilidade competitiva ao longo do tempo, impulsionando a polarização financeira nos campeonatos. Constata-se ainda a consolidação do fenômeno de espanholização no futebol brasileiro, caracterizado pela hegemonia de um grupo reduzido de clubes de alta arrecadação, de modo análogo ao cenário espanhol e à hiperpolarização observada na liga inglesa. Por fim, o trabalho conclui que os atuais mecanismos de sustentabilidade financeira acabam por proteger a posição dos clubes de maior receita, impondo barreiras para a ascensão contínua das equipes de menor orçamento.
Palavras-chave: valor de mercado; gestão esportiva; desempenho esportivo; futebol profissional; economia do esporte.
ABSTRACT
Football is one of the most widely played sports in the world and, consequently, it ends up moving billions of euros every season. The aim of this research was to analyze how financial capacity and revenue concentration influence on-field results in the Campeonato Brasileiro Série A, LaLiga and the Premier League. To achieve this purpose, the methodology employed is a bibliographic study with a narrative approach, grounded in a survey of market data, books and articles published primarily within the last 12 years. The results show that economic power is a predominant, though not absolute, factor in sporting success and competitive sustainability over time, driving financial polarization within these championships. The consolidation of the phenomenon of "Spanishization" in Brazilian football is also observed, characterized by the hegemony of a small group of high-revenue clubs, analogously to the Spanish scenario and to the hyperpolarization observed in the English league. Finally, the study concludes that current financial sustainability mechanisms end up protecting the position of the highest-revenue clubs, imposing barriers to the continued rise of lower-budget teams.
Keywords: market value; sports management; sporting performance; professional football; sports economics.
1. INTRODUÇÃO
O futebol contemporâneo ultrapassou sua dimensão puramente esportiva para consolidar-se como um complexo fenômeno econômico, social e midiático. Com a crescente mercantilização e o avanço das tecnologias de comunicação, os clubes transformaram-se em verdadeiras organizações corporativas inseridas em uma lógica de mercado rigorosa, na qual o volume financeiro gerado por direitos de transmissão, patrocínios e negociações de atletas desempenha um papel estrutural (Fernandes, 2022; Lourenço, 2014). Nesse cenário de alta competitividade, a capacidade de investimento e a exposição na mídia tornaram-se pilares que sustentam as operações das equipes, levantando importantes discussões acadêmicas sobre como essa nova realidade corporativa afeta as dinâmicas e a essência do esporte dentro das quatro linhas (Rohde; Breuer, 2016).
Diante dessa transformação, surge o problema central desta pesquisa: em que medida o valor de mercado dos elencos influencia o desempenho esportivo nas principais ligas e competições continentais. Embora estudos indiquem uma forte correlação entre poder financeiro e sucesso em campo, evidenciando que clubes mais ricos tendem a obter melhores resultados, essa dinâmica não é absoluta (Coelho et al., 2021; Leite et al., 2020). A complexidade do jogo permite que variáveis estruturais e circunstanciais mantenham um grau de imprevisibilidade, o que torna fundamental investigar o atual nível de equilíbrio competitivo e os impactos que a alta concentração de riqueza pode gerar no interesse do público e na sustentabilidade a longo prazo (Manasis; Ntzoufras; Reade, 2019).
Para compreender essa dinâmica, o presente estudo teve como objetivo analisar a relação entre o valor de mercado das equipes de futebol e os seus respectivos desempenhos esportivos, abarcando as dimensões de competições nacionais do Brasil, Espanha e Inglaterra. Partindo da hipótese de que há uma influência positiva e significativa da capacidade financeira nos resultados — ainda que parcialmente suavizada por fatores inerentes ao jogo —, a pesquisa busca avaliar dados e examinar o papel das receitas no fortalecimento econômico dos clubes (Brandão; Holanda; Braga Junior, 2024).
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Campeonato Brasileiro Série A
A consolidação do Campeonato Brasileiro reflete a complexa busca pela integração esportiva em um país de dimensões continentais. Até o final da década de 1960, a glória máxima das equipes concentrava-se nos campeonatos estaduais, acompanhados por competições precursoras como a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Robertão), organizados inicialmente para definir os representantes do país em competições continentais (Silva, 2025).
O marco da unificação ocorreu em 1971, com a criação do Campeonato Nacional de Clubes, que popularizou a marca do Brasileirão. A edição pioneira sob este formato reuniu 20 clubes de diferentes regiões, culminando no título do Atlético Mineiro, comandado pelo técnico Telê Santana e liderado em campo pelo atacante Dario.
Instabilidade Regulamentar e Mudanças de Formato: durante suas três primeiras décadas, o torneio caracterizou-se por constantes alterações estruturais. A fórmula de disputa era frequentemente modificada, englobando chaves, repescagens e cruzamentos em fases eliminatórias (mata-matas). O número de participantes apresentou forte oscilação, variando do recorde de 94 equipes em 1979 até um formato reduzido de 16 clubes no módulo principal da Copa União, em 1987. A própria nomenclatura oficial sofreu mutações, adotando nomes como Copa do Brasil, Copa União e Copa João Havelange, antes de fixar-se como Campeonato Brasileiro (Silva, 2025).
A Adoção do Sistema de Pontos Corridos: uma grande mudança ocorreu em 2003, quando a organização implementou o sistema de pontos corridos, alinhando-se ao padrão das principais ligas europeias. O novo modelo, estruturado em jogos de ida e volta, substituiu as fases eliminatórias para premiar a regularidade das equipes ao longo da temporada. O formato estabilizou-se gradativamente, fixando-se em 20 clubes participantes a partir de 2006.
Quadro 1. Todos os clubes campeões brasileiros de 1959 a 2025.
CLUBE | TÍTULOS | ANOS DAS CONQUISTAS |
Palmeiras | 12 | 1960, 1967 (Taça Brasil), 1967 (Robertão), 1969, 1972, 1973, 1993, 1994, 2016, 2018, 2022, 2023 |
Santos | 8 | 1961,1962,1963,1964,1965,1968, 2002, 2004 |
Flamengo | 8 | 1980, 1982, 1983, 1992, 2009, 2019, 2020, 2025 |
Corinthians | 7 | 1990, 1998, 1999, 2005, 2011, 2015, 2017 |
São Paulo | 6 | 1977, 1986, 1991, 2006, 2007, 2008 |
Cruzeiro | 4 | 1966, 2003, 2013, 2014 |
Vasco da Gama | 4 | 1974, 1989, 1997, 2000 |
Fluminense | 4 | 1970, 1984, 2010, 2012 |
Internacional | 3 | 1975, 1976, 1979 |
Botafogo | 3 | 1968, 1995, 2024 |
Atlético Mineiro | 2 | 1971, 2021 |
Bahia | 2 | 1959, 1988 |
Grêmio | 2 | 1981, 1996 |
Athletico Paranaense | 1 | 2001 |
Coritiba | 1 | 1985 |
Guarani | 1 | 1978 |
Sport | 1 | 1987 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Tabela 1. Valor de mercado, gastos em contratações e faturamento dos clubes da Série A (2025).
Clube | *Valor de mercado | **Gastos em contratações | ***Faturamento |
Flamengo | 273,50 | 309,0 | 2.089,5 |
Palmeiras | 260,35 | 713,4 | 1.696,4 |
Botafogo | 214,65 | 716,0 | 1.388,4 |
Santos | 150,00 | 142,0 | 678,5 |
Atlético-MG | 127,75 | 210,2 | 669,8 |
Grêmio | 124,68 | 98,1 | 736,8 |
Vasco da Gama | 122,60 | 92,3 | 570,2 |
Cruzeiro | 121,40 | 122,9 | 677,2 |
Corinthians | 105,40 | 29,9 | 971,1 |
São Paulo | 99,20 | 0 | 1.085,4 |
Bahia | 99,08 | 184,1 | 562,2 |
Fluminense | 89,20 | 209,7 | 1.022,4 |
Red Bull Bragantino | 86,53 | 152,2 | 637,0 |
Internacional | 83,25 | 83,4 | 655,5 |
Fortaleza | 61,95 | 47,7 | 303,5 |
Sport | 52,91 | 61,1 | 182,8 |
Vitória | 43,28 | 26,7 | 200,2 |
Ceará | 35,73 | 7,0 | 254,9 |
Juventude | 31,55 | 1,2 | 143,0 |
Mirassol | 28,40 | 6,2 | 180,0 |
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Transfermarkt (2026), Poder360 (2025), Sports Value (2026) e Schneider (2026).
*Valor de mercado em milhões de euros no ano de 2025.
**Gastos em contratações em milhões de reais no ano de 2025.
***Faturamento em milhões de reais no ano de 2025.
Botafogo, Palmeiras e Flamengo foram os clubes do país que mais gastaram na contratação de jogadores até setembro de 2025. O valor de R$ 1,73 bilhão desembolsado pelo trio supera o R$ 1,47 bilhão usado pelos outros 17 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. Constata-se que o Botafogo liderou o ranking, com R$ 716 milhões destinados a reforçar o elenco. Depois veio o Palmeiras, com R$ 713,4 milhões. O Flamengo gastou R$ 309 milhões; o Atlético-MG, R$ 210,2 milhões; e o Fluminense, R$ 209,7 milhões. Esses cinco clubes representaram 67,2% do valor da janela de transferências do futebol brasileiro até setembro de 2025 (Poder360, 2025).
2.2. LaLiga - Campeonato Espanhol
Antes da independência e da criação da LaLiga, o Campeonato Catalão de Futebol era o principal campeonato do país. Foi fundado em 1901 e apresentava os principais clubes espanhóis jogando uns contra os outros pelo título. Era uma competição muito sólida, e pessoas de todo o país se reuniam para assistir aos jogos.
É importante observar que, apesar de ser o principal torneio de futebol do país, ele não era considerado a primeira divisão. Era simplesmente um campeonato para proporcionar entretenimento e ajudar a disseminar a paixão pelo futebol em todo o país. O campeonato foi fundado em 1901 e existiu por muitos anos, com sua última edição em 1940 (Guerrero Puerto, 2026).
Após o sucesso do Campeonato Catalão e a popularidade do futebol no país, José María Acha propôs a criação de uma liga nacional para a Espanha. Essa proposta foi formulada em 1928, um ano antes da primeira temporada do torneio. Houve muitas discussões sobre como funcionaria, quantas equipes participariam da liga e muitos outros aspectos. Após inúmeros debates, a Real Federación Española de Fútbol concordou com as dez equipes que comporiam a “primera división” ou “primeira divisão”.
As primeiras equipes a compor a liga foram Arenas, Athletic Bilbao, Barcelona, Real Madrid, Real Sociedad e Real Unión. Elas foram selecionadas por terem sido as vencedoras anteriores da Copa del Rey, um importante torneio do país. Além delas, o Atlético de Madrid, o Espanyol e o Europa também participaram da primeira divisão por terem sido vice-campeões, e o Racing de Santander completou o grupo de dez clubes após um torneio de desempate. Com isso, a lista das primeiras equipes da LaLiga foi definida (Guerrero Puerto, 2026).
A única vez que LaLiga foi suspensa por uma ou mais temporadas foi durante a Guerra Civil que ocorreu na Espanha durante três anos, de 1936 a 1939. Durante esse tempo, foi decidido suspender o futebol, pois a situação era muito complicada e, acima de tudo, instável. A partir de 1939, tudo voltou ao normal. Durante toda a ditadura franquista, a competição do campeonato não foi suspensa em nenhuma ocasião (Guerrero Puerto, 2026).
Quadro 2. Clubes campeões da LaLiga (1929/1930 - 2025/2026).
Clube: | Títulos: | Temporada da conquista |
Real Madrid | 36 | 31-32, 32-33, 53-54, 54-55, 56-57, 57-58, 60-61, 61-62, 62-63, 63-64, 64-65, 66-67, 67-68, 68-69, 71-72, 74-75, 75-76, 77-78, 78-79, 79-80, 85-86, 86-87, 87-88, 88-89, 89-90, 94-95, 96-97, 00-01, 02-03, 06-07, 07-08, 11-12, 16-17, 19-20, 21-22, 23-24. |
Barcelona | 29 | 28-29, 44-45, 47-48, 48-49, 51-52, 52-53, 58-59, 59-60, 73-74, 84-85, 90-91, 91-92, 92-93, 93-94, 97-98, 98-99, 04-05, 05-06, 08-09, 09-10, 10-11, 12-13, 14-15, 15-16, 17-18, 18-19, 22-23, 24-25, 25-26. |
Atlético de Madrid | 11 | 39-40, 40-41, 49-50, 50-51, 65-66, 69-70, 72-73, 76-77, 95-96, 13-14, 20-21. |
Athletic Bilbao | 8 | 29-30, 30-31, 33-34, 35-36, 42-43, 55-56, 82-83, 83-84. |
Valencia | 6 | 41-42, 43-44, 46-47, 70-71, 01-02, 03-04. |
Real Sociedad | 2 | 80-81, 81-82. |
Deportivo La Coruña | 1 | 99-00. |
Sevilla | 1 | 45-46. |
Real Betis | 1 | 34-35. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Tabela 2. Valor de mercado, gastos em contratações e vendas dos clubes da LaLiga (2025/2026).
Clube | *Valor de Mercado | **Gastos em Contratações | ***Faturamento com Vendas |
Real Madrid | € 1,30 Bi. | € 167,50 mi. | € 39,50 mi. |
Barcelona | € 1,19 Bi. | € 27,50 mi. | € 31,20 mi. |
Atlético de Madrid | € 646,90 mi. | € 230,95 mi. | € 145,50 mi. |
Villarreal | € 375,55 mi. | € 105,50 mi. | € 108,00 mi. |
Real Sociedad | € 299,00 mi. | € 21,50 mi. | € 85,00 mi. |
Real Betis | € 253,05 mi. | € 65,50 mi. | € 61,63 mi. |
Athletic Club | € 237,65 mi. | € 22,00 mi. | € 4,20 mi. |
Celta de Vigo | € 207,60 mi. | € 15,00 mi. | € 58,70 mi. |
Girona | € 199,20 mi. | € 27,35 mi. | € 58,50 mi. |
Sevilla | € 176,50 mi. | € 250 mil | € 55,00 mi. |
Valencia | € 147,03 mi. | € 16,50 mi. | € 26,13 mi. |
Espanyol | € 135,15 mi. | € 16,75 mi. | € 25,00 mi. |
Elche | € 128,05 mi. | € 21,10 mi. | € 31,50 mi. |
Levante | € 113,95 mi. | € 5,83 mi. | € 5,50 mi. |
Rayo Vallecano | € 106,20 mi. | € 7,10 mi. | € 0,00 |
Osasuna | € 102,70 mi. | € 30,50 mi. | € 12,00 mi. |
Getafe | € 95,60 mi. | € 1,80 mi. | € 12,60 mi. |
Mallorca | € 83,20 mi. | € 13,60 mi. | € 9,60 mi. |
Alavés | € 82,68 mi. | € 13,60 mi. | € 32,00 mi. |
Real Oviedo | € 60,95 mi. | € 4,00 mi. | € 50 mil |
Fonte: Transfermarkt (2026).
*Valor de mercado em euros na temporada 2025/2026.
**Gastos com contratações na temporada 2025/2026.
***Faturamento com vendas na temporada 2025/2026.
Atlético de Madrid, Real Madrid e Villarreal foram os clubes que mais gastaram na contratação de jogadores na temporada 2025/2026. Os € 503,95 milhões desembolsados pelo trio superam os € 309,88 milhões usados pelos outros 17 clubes da LaLiga. O Atlético de Madrid lidera o ranking, com € 230,95 mi. destinados a reforçar o elenco. Depois vem o Real Madrid, com € 167,50 mi. O Villarreal gastou € 105,50 mi., o Real Betis, € 65,50 mi., e o Osasuna, € 30,50 mi. Esses cinco clubes representaram 73,72% do valor da janela de transferências do futebol espanhol na temporada 2025/2026. Já o total gasto pelos 20 clubes totaliza € 813,83 milhões (Transfermarkt, 2026).
2.3. Premier League - Campeonato Inglês
A consolidação da Premier League como o principal produto comercial e esportivo do futebol mundial reflete um complexo processo de modernização, reestruturação institucional e internacionalização (Football Benchmark, 2026). Até o início da década de 1990, o ápice do futebol na Inglaterra concentrava-se na tradicional First Division da Football League — entidade fundada em 1888 e reconhecida como a liga nacional mais antiga do mundo —, cuja dinâmica esportiva era dividida com a prestigiada FA Cup (Valle, 2018).
Durante as décadas de 1970 e 1980, o cenário esportivo inglês enfrentou uma severa crise estrutural, caracterizada pela deterioração física dos estádios, episódios recorrentes de violência associados ao hooliganismo e tragédias de grande impacto público, tais como os desastres de Heysel (1985) e Hillsborough (1989). Esses acontecimentos culminaram na suspensão dos clubes ingleses das competições promovidas pela UEFA e também na publicação do Relatório Taylor (Taylor Report), documento legal que impôs diretrizes rígidas de segurança, exigindo a substituição total das arquibancadas de pé por assentos individuais (Gonçalo Junior; Chade, 2015).
Diante da necessidade de captar recursos para a readequação de suas arenas e ampliar as margens de receita, os vinte e dois clubes integrantes da primeira divisão assinaram, em julho de 1991, o Founder Members Agreement. Este instrumento jurídico formalizou a cisão em relação à Football League e à The Football Association (FA), concedendo à nova liga autonomia para negociar de forma independente seus acordos comerciais e contratuais de transmissão televisiva (Premier League, 2026).
Em 20 de fevereiro de 1992, os vinte e dois clubes da Primeira Divisão desligaram-se em bloco da Football League, e a FA Premier League foi constituída como empresa em 27 de maio do mesmo ano (Premier League, 2026). O elemento central de sua transformação financeira consistiu no modelo de comercialização dos direitos de transmissão por assinatura, encabeçado pelo contrato pioneiro com a emissora Sky Sports. A estratégia converteu o torneio em um produto televisivo de alcance global. A edição inaugural (1992/1993) contou com a participação de 22 agremiações e culminou na conquista do Manchester United FC (Premier League, 2026).
Com o intuito de otimizar o calendário em relação às competições europeias e elevar o nível técnico, o número de participantes foi reduzido para vinte equipes, mudança concluída ao final da temporada 1994/1995 — com quatro clubes rebaixados e apenas dois promovidos — e vigente a partir de 1995/1996 (Premier League, 2026). O sistema estabilizou-se no formato de pontos corridos com turno e retorno, prevendo o rebaixamento de três equipes por temporada e consolidando a Premier League como a liga de maior arrecadação e audiência do futebol internacional (Dehinbo, 2026). O quadro 3 apresenta a distribuição dos títulos conquistados pelos clubes na era moderna da competição, abrangendo o período de 1992/1993 a 2025/2026.
Quadro 3. Campeões da era moderna da Premier League (1992/1993–2025/2026).
Clube | Títulos | Temporadas das Conquistas |
Manchester United FC | 13 | 1992/93, 1993/94, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 1999/00, 2000/01, 2002/03, 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2010/11, 2012/13 |
Manchester City FC | 8 | 2011/12, 2013/14, 2017/18, 2018/19, 2020/21, 2021/22, 2022/23, 2023/24 |
Chelsea FC | 5 | 2004/05, 2005/06, 2009/10, 2014/15, 2016/17 |
Arsenal FC | 4 | 1997/98, 2001/02, 2003/04, 2025/26 |
Blackburn Rovers FC | 1 | 1994/95 |
Leicester City FC | 1 | 2015/16 |
Liverpool FC | 2 | 2019/20, 2024/25 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
O ecossistema econômico da Premier League destaca-se pela forte concentração de capital, elevadas avaliações de mercado (valuation) e investimentos maciços no mercado de transferências de atletas (Dehinbo, 2026; Football Benchmark, 2026).
A avaliação monetária dos elencos reflete a disparidade econômica entre as equipes de topo e as demais integrantes da divisão (Transfermarkt, 2026). A Tabela 3 apresenta o valor de mercado atualizado dos vinte clubes integrantes da temporada 2025/2026.
Tabela 3. Valor de mercado, gastos em contratações e vendas dos clubes da Premier League (2025/2026).
Clube | *Valor de Mercado | **Despesas em Contratações | ***Faturamento com Vendas |
Manchester City FC | € 1,31 Bi. | € 301,80 mi. | € 107,28 mi. |
FC Arsenal | € 1,23 Bi. | € 294,60 mi. | € 13,88 mi. |
Chelsea FC | € 1,16 Bi. | € 329,15 mi. | € 339,25 mi. |
FC Liverpool | € 1,02 Bi. | € 483,13 mi. | € 219,50 mi. |
Tottenham Hotspur | € 802,50 mi. | € 265,60 mi. | € 82,70 mi. |
Manchester United FC | € 747,15 mi. | € 246,70 mi. | € 77,20 mi. |
Newcastle United | € 708,25 mi. | € 278,85 mi. | € 176,00 mi. |
Nottingham Forest | € 568,00 mi. | € 241,83 mi. | € 130,40 mi. |
Aston Villa FC | € 547,50 mi. | € 82,50 mi. | € 57,85 mi. |
Crystal Palace FC | € 541,30 mi. | € 145,00 mi. | € 97,15 mi. |
AFC Bournemouth | € 507,10 mi. | € 181,10 mi. | € 310,41 mi. |
Brighton & Hove Albion | € 494,00 mi. | € 82,00 mi. | € 148,65 mi. |
Brentford FC | € 470,40 mi. | € 108,70 mi. | € 159,61 mi. |
FC Everton | € 450,45 mi. | € 129,75 mi. | € 12,60 mi. |
FC Fulham | € 386,95 mi. | € 75,70 mi. | € 19,30 mi. |
AFC Sunderland | € 381,95 mi. | € 213,44 mi. | € 57,10 mi. |
Leeds United FC | € 346,03 mi. | € 113,70 mi. | € 7,00 mi. |
Ipswich Town FC | € 198,65 mi. | Não informado | Não informado |
Coventry City | € 193,90 mi. | Não informado | Não informado |
Hull City | € 81,75 mi. | Não informado | Não informado |
West Ham United | Não informado | € 203,30 mi. | € 147,00 mi. |
Wolverhampton Wanderers | Não informado | € 149,10 mi. | € 230,20 mi. |
FC Burnley | Não informado | € 131,30 mi. | € 35,00 mi. |
Fonte: Transfermarkt (2026).
*Valor de mercado em euros.
**Despesas em contratações na temporada 2025/2026.
***Faturamento com vendas na temporada 2025/2026.
A dinâmica de movimentações financeiras para aquisição e venda de direitos desportivos evidencia o volume de capital transacionado na liga (Transfermarkt, 2026). No âmbito do faturamento bruto operacional, dados da Deloitte Football Money League indicam a permanência dos clubes ingleses no topo da arrecadação global, ficando atrás apenas de 4 clubes, sendo eles: Real Madrid: € 1,161 bilhões, FC Barcelona: € 974,8 milhões, Bayern Munich: € 860,6 milhões e Paris Saint-Germain: € 837 milhões (Deloitte, 2026). A seguir, apresentamos os clubes ingleses e o faturamento na temporada 2025/2026:
Liverpool FC: € 836,1 milhões (5º no mundo)
Manchester City FC: € 829,3 milhões (6º no mundo)
Arsenal FC: € 821,7 milhões (7º no mundo)
Manchester United FC: € 793,1 milhões (8º no mundo)
Tottenham Hotspur: € 672,6 milhões (9° no mundo)
Chelsea FC: € 584,1 milhões (10º no mundo)
Embora a receita agregada da competição seja projetada no recorde de £ 7,4 bilhões, o setor enfrenta o desafio do equilíbrio financeiro (Dehinbo, 2026). A liga não reporta lucro coletivo antes de impostos desde a temporada 2017/2018, em virtude, sobretudo, dos custos com pessoal, que atingiram € 4,659 bilhões na temporada 2022/2023 (Football Benchmark, 2024). Para mitigar o risco de sobre-endividamento, vigora desde a temporada 2026/2027 o regulamento do Squad Cost Ratio (SCR), que estabelece um teto de referência de 85% da receita relacionada ao futebol somada ao resultado líquido com vendas de jogadores (Premier League, 2026).
A análise dos dados evidencia que a Premier League consolidou um modelo de negócios altamente atrativo para investidores globais, sustentado por receitas de transmissão astronômicas e altíssimo valor de marca (Football Benchmark, 2026). No entanto, o ecossistema apresenta uma contradição central: a expansão recorde dos faturamentos brutos arrecadados não se converte em rentabilidade líquida para os clubes (Dehinbo, 2026; Deloitte, 2026). A constante corrida pela competitividade esportiva inflaciona o mercado de transferências e as folhas de pagamento, exigindo mecanismos regulatórios mais rígidos, como o Squad Cost Ratio, para assegurar a sustentabilidade orçamentária das agremiações a longo prazo.
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica com abordagem qualitativa de natureza narrativa, tendo como objetivo comparar a relação entre o valor de mercado dos elencos e os seus respectivos desempenhos esportivos, focando especificamente nos cenários e nas disparidades econômicas do Campeonato Brasileiro Série A, da LaLiga (Espanha) e da Premier League (Inglaterra). Para a composição do estudo, foram utilizados como fontes de dados livros, artigos científicos e sites disponibilizados na internet que abordavam a temática.
A busca e a seleção das publicações foram realizadas considerando-se, prioritariamente, estudos publicados nos últimos 12 anos. Para a realização das buscas, foram utilizados os seguintes descritores: “Valor de mercado”, “Elenco”, “Campeonato Brasileiro”, “LaLiga” e “Premier League”.
Como critérios de inclusão, foram consideradas publicações disponíveis nos idiomas português, inglês e espanhol, desde que apresentassem relação direta ou significativa com o tema proposto e contribuíssem para a fundamentação da pesquisa. Foram excluídos estudos duplicados, publicações que não apresentassem relação com os objetivos do trabalho e materiais sem fundamentação científica.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A presente seção destina-se à exposição, análise e discussão dos dados coletados, estruturada em seções temáticas para comparar o panorama do Campeonato Brasileiro Série A, da LaLiga e da Premier League.
O campeonato brasileiro tem vivido nos últimos 25 anos um processo semelhante a outras ligas do futebol mundial. Cada vez mais constata-se a polarização da competição a um número cada vez mais reduzido de clubes. Para tanto, o Campeonato Brasileiro Série A, o famoso “brasileirão”, passou por uma marcante transição estrutural ao longo dos últimos anos (2003–2025).
Entre 2003 e 2015, a era dos pontos corridos disputados com 20 clubes acabou consagrando a reputação do campeonato pelo equilíbrio e imprevisibilidade, com seis campeões distintos se alternando no topo: Santos FC (2004), São Paulo FC (2006, 2007 e 2008), CR Flamengo (2009), Fluminense FC (2010 e 2012), SC Corinthians (2005, 2011 e 2015) e Cruzeiro EC (2003, 2013 e 2014). Na década seguinte (2016–2025), contudo, esse cenário deu lugar ao fenômeno que podemos chamar de “espanholização”: trata-se de um termo que aborda a polarização financeira e esportiva em torno de dois protagonistas, à semelhança do modelo espanhol dominado por Real Madrid e FC Barcelona.
A forte concentração de poder refletiu-se diretamente na tabela: nesses últimos dez títulos em disputa, SE Palmeiras (2016, 2018, 2022 e 2023) e CR Flamengo (2019, 2020 e 2025) ergueram sete taças, tornando as conquistas do SC Corinthians (2017), Atlético Mineiro (2021) e Botafogo FR (2024) raras exceções à “nova regra” do futebol nacional.
O termo “espanholização” faz referência direta à LaLiga (Espanha), onde Real Madrid e FC Barcelona concentram historicamente a maioria dos títulos e receitas. No Brasil, esse fenômeno ocorreu por uma convergência de fatores estruturais e econômicos. Conforme discutido anteriormente, o atual abismo competitivo no futebol brasileiro é reflexo direto da estabilidade orgânica alcançada por CR Flamengo e SE Palmeiras. A reestruturação financeira e a gestão eficiente levaram ambos a faturamentos anuais bilionários (Sports Value, 2026; EY, 2026; Itaú BBA, 2020), criando um ciclo virtuoso que permite a manutenção de elencos profundos e alto poder de negociação e reinvestimento (Sports Value, 2026).
Esse cenário garante a retroalimentação de receitas via cotas de TV e premiações esportivas, distanciando a dupla da realidade financeira de outros clubes tradicionais (Sports Value, 2026). Consequentemente, concorrentes impulsionados pelo modelo das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF`s), ou por aportes pontuais demonstram competitividade, mas a manutenção do sucesso a longo prazo ainda exige a sustentabilidade orgânica já consolidada pelos líderes (Dantas; Leo, 2023; Sports Value, 2026).
Em relação a LaLiga, cabe destacar a questão de dinheiro versus desempenho. Nesse aspecto, destaca-se o paradigma que ronda o futebol espanhol há muito tempo: a “espanholização”.
O termo espanholização, conforme já apontamos ganhou força na disputa entre os dois clubes de maior tradição do futebol na Espanha, Real Madrid e FC Barcelona. Dentro desse contexto, antes do estabelecimento formal do campeonato nacional espanhol, o Campeonato Catalão de Futebol, fundado em 1901, atuou como a principal competição do país até sua extinção em 1940, desempenhando papel fundamental na disseminação e popularização da modalidade.
Em 1928, por iniciativa de José María Acha, a Real Federación Española de Fútbol aprovou a criação da Primera División, cuja edição inaugural (1929) reuniu dez equipes selecionadas pelo histórico na Copa del Rey: Arenas, Athletic Bilbao, FC Barcelona, Real Madrid, Real Sociedad, Real Unión, Atlético de Madrid, RCD Espanyol, CE Europa e Racing de Santander. Desde sua criação, a única paralisação do torneio ocorreu entre 1936 e 1939, em decorrência da Guerra Civil Espanhola (Guerrero Puerto, 2026).
Ao longo de sua história, a LaLiga consolidou um modelo marcado pela extrema concentração de títulos. Das 95 edições disputadas até a temporada 2025/2026, o Real Madrid (36 títulos) e o FC Barcelona (29 títulos) conquistaram juntos 65 troféus (68,4% do total), enquanto forças intermediárias como Atlético de Madrid (11), Athletic Bilbao (8) e Valencia CF (6) obtiveram conquistas esporádicas.
Esse abismo histórico permanece refletido na avaliação financeira das equipes na temporada 2025/2026. Os elencos de Real Madrid (€ 1,30 bilhão) e FC Barcelona (€ 1,19 bilhão) somam sozinhos € 2,49 bilhões em valor de mercado, contrastando expressivamente com equipes da parte inferior da tabela, como Deportivo Alavés (€ 82,68 milhões) e Real Oviedo (€ 60,95 milhões) (Transfermarkt, 2026).
Para se ter uma ideia, as equipes do Real Madrid e FC Barcelona têm o valor de mercado de 2,49 bilhões de euros, enquanto todos os outros 18 clubes juntos acumulam o valor de 3,45 bilhões de euros. As duas equipes conseguem possuir incríveis 41,91% do valor geral dos clubes. Assim podemos ter uma noção da disparidade entre clubes no campeonato espanhol, percebendo que o poderio financeiro gira praticamente entre apenas dois clubes. Na liga espanhola, a distribuição das receitas de direitos de transmissão televisiva é regida pelo Decreto Real de Venda Centralizada de Direitos de Televisão, aprovado em 30 de abril de 2015. Esta legislação estabelece regras claras para a divisão do montante total arrecadado, garantindo uma distribuição que mescla igualdade e meritocracia.
Pela regra, metade de todas as receitas é dividida em partes iguais entre todos os clubes da primeira divisão. Os 50% restantes são separados em duas categorias de mesmo peso. A primeira metade desse valor, ou seja, 25% da receita total, está ligada à implementação social. Desta fatia, um terço depende da arrecadação média com carnês de temporada e bilheteria em dias de jogo nas últimas cinco temporadas, enquanto os outros dois terços são definidos pela contribuição de cada clube na geração de audiência televisiva. Já os últimos 25% do bolo total são baseados estritamente no mérito desportivo, sendo distribuídos de acordo com a posição final de cada equipe na tabela de classificação.
Para ilustrar essa divisão do mérito desportivo, os cálculos atuais baseiam-se na quantia de 1,292 bilhão de euros distribuída durante a temporada 2024–25. Este é o último valor oficial divulgado pela LaLiga, tendo em vista que os números finais da temporada 2025/26 ainda não estão disponíveis. A parcela de 25% referente à classificação na liga representa, portanto, aproximadamente 323 milhões de euros, montante que é rateado em percentuais decrescentes do topo à base da tabela.
Sendo assim, o Barcelona, campeão daquela edição, tem direito a 17% desse valor, arrecadando cerca de 55 milhões de euros. Isso representa quase 7 milhões a mais do que os 48 milhões de euros destinados ao Real Madrid, que por terminar em segundo lugar ficou com uma participação de 15%. Nas partes mais baixas da tabela, os valores diminuem consideravelmente: o Elche, em 15º lugar, recebe 1,5%, equivalente a 4,8 milhões de euros; o Levante, na 16ª posição, fica com 1,25%, correspondente a 4 milhões; e o Osasuna, no 17º posto, leva 1% do montante, totalizando 3,23 milhões de euros (Fuentes, 2026).
No mercado de transferências da temporada 2025/2026, os vinte clubes espanhóis movimentaram um total de € 813,83 milhões em aquisição de atletas. Contudo, a distribuição desse investimento reforça a assimetria econômica: Atlético de Madrid (€ 230,95 mi.), Real Madrid (€ 167,50 mi.) e Villarreal CF (€ 105,50 mi.) responderam por € 503,95 milhões — mais de 61% de todo o capital investido na janela —, enquanto equipes como Sevilla FC e Getafe CF registraram gastos inferiores a € 2 milhões em novos reforços (Transfermarkt, 2026).
4.1. A Hiperpolarização na Premier League e o Modelo do Futebol Inglês
Em relação ao campeonato inglês, a famosa Premier League passou por uma marcante evolução em sua dinâmica competitiva ao longo das últimas três décadas. Se entre o final dos anos 1990 e meados dos anos 2000 a liga era caracterizada pelo equilíbrio no topo entre o tradicional Big Four (Manchester United FC, Arsenal FC, Chelsea FC e Liverpool FC), a década recente consolidou uma nova realidade financeira e esportiva. Sob a hegemonia do Manchester City FC — detentor de oito títulos na era moderna —, a competição passou a vivenciar uma hiperpolarização em que o volume de investimentos e o patamar de pontuação exigidos para a conquista do título atingiram níveis inéditos (Dehinbo, 2026; Football Benchmark, 2026). Embora conquistas pontuais do Liverpool FC e a recuperação do Arsenal FC mantenham a disputa no topo, a tabela de pontuação do campeonato inglês expõe um abismo econômico entre a elite e os demais integrantes da divisão.
Essa disparidade estrutural e a consolidação de uma hierarquia financeira na Premier League decorrem, em primeiro lugar, da entrada massiva de capital internacional e de fundos soberanos de investimento. A aquisição de clubes por corporações globais e proprietários multiclubes elevou o valor de empresa (Enterprise Value) e o faturamento das equipes de topo para patamares superiores a € 800 milhões anuais (Deloitte, 2026; Football Benchmark, 2026). Essa saúde financeira desproporcional assegura uma margem de investimento contínuo em infraestrutura, centros de treinamento, comissões técnicas de ponta e sistemas de inteligência de dados que os clubes de menor orçamento não conseguem acompanhar (Dehinbo, 2026).
Além da capacidade direta de aporte, a sustentabilidade orçamentária das potências inglesas reflete-se na profundidade de seus elencos, cujos valores de mercado individuais ultrapassam a barreira de € 1 bilhão (Transfermarkt, 2026). Essa robustez financeira permite a manutenção de peças de reposição do mesmo nível dos titulares para suportar o rigoroso calendário, além de resistir ao assédio do mercado externo e reinvestir capital na aquisição dos principais talentos mundiais (Football Benchmark, 2026). Essa vantagem é realimentada pela comercialização global dos direitos de transmissão televisiva e pelas premiações acumuladas com a participação constante nas fases finais da UEFA Champions League, beneficiando diretamente quem permanece no topo da tabela (Dehinbo, 2026; Deloitte, 2026).
Para ilustrar o poderio financeiro dos clubes ingleses, em setembro de 2025 o Liverpool contratou o atacante Alexander Isak, junto ao Newcastle, por um valor reportado de £ 125 milhões, que se tornou a transferência mais cara da história do futebol britânico (Shoot, 2025) — uma cifra inalcançável para a imensa maioria dos clubes do mundo. Só para termos uma ideia, esses £ 125 milhões em uma conversão direta da libra para o real na cotação mais recente que realizamos no dia 26 de outubro de 2026 (£1 = R$ 7,20) se tornam aproximadamente incríveis R$ 900.000.000,00, sendo um valor surreal para outros clubes do mundo, ainda mais considerando que foi utilizado para a contratação de um único jogador.
Por fim, o arcabouço regulatório de sustentabilidade financeira da liga atua como um elemento consolidador desse abismo econômico. A implementação das regras do Squad Cost Ratio (SCR), que limitam os custos diretos com futebol (salários, comissões de agentes e amortizações) a um teto de referência de 85% da receita relacionada ao futebol somada ao resultado líquido com vendas de jogadores, cria uma vantagem estrutural para as agremiações de maior receita (Premier League, 2026). Como o limite é calculado em percentual sobre a receita de cada clube, os clubes do topo obtêm um teto monetário absoluto significativamente maior para investir em atletas sem violar o fair play financeiro, dificultando a ascensão sustentável de concorrentes de médio e pequeno porte a longo prazo.
Ao confrontar os dados do futebol brasileiro, espanhol e inglês, deve-se observar que o fenômeno da polarização assume características e intensidades próprias em cada mercado que serão apresentadas a seguir:
Escala e Origem da Polarização: Na LaLiga, a polarização é historicamente bipolar (Real Madrid e FC Barcelona concentram quase 70% das taças em 95 edições realizadas), resultante de anos de arrecadação individualizada de transmissão que perpetuaram o fosso financeiro com as demais equipes (Transfermarkt, 2026). No Brasil, o processo recente de “espanholização” posiciona CR Flamengo e SE Palmeiras em papel análogo, embora impulsionado por faturamento orgânico e gestão profissional (EY, 2026; Itaú BBA, 2020). Na Premier League, a receita televisiva é distribuída de forma mais equitativa, porém a hiperpolarização no topo é aprofundada pela injeção de capital estrangeiro e fundos soberanos (Deloitte, 2026).
Disparidade nas Janelas de Transferências: O volume financeiro transacionado na Inglaterra supera amplamente o espanhol e o brasileiro. Enquanto os vinte clubes da LaLiga investiram € 813,83 milhões em contratações na temporada 2025/2026 — com a maioria das equipes buscando saldos positivos de vendas —, a Premier League ultrapassou € 2,7 bilhões em gastos brutos e acumulou um déficit líquido superior a € 1,6 bilhão (Dehinbo, 2026; Transfermarkt, 2026).
Mecanismos Regulatórios e Manutenção da Elite: Tanto as regras de fair play da LaLiga quanto o Squad Cost Ratio (SCR) na Inglaterra utilizam tetos proporcionais ao faturamento do próprio clube. Dessa forma, as normas que visam à sustentabilidade orçamentária acabam por proteger e perpetuar a hegemonia dos clubes de maior arrecadação, impondo limites mais severos justamente aos concorrentes de menor porte financeiro (Premier League, 2026).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho atinge o seu objetivo ao analisar de uma maneira mais aprofundada a relação entre o valor de mercado das equipes e o desempenho esportivo, respondendo à pergunta inicial e confirmando a hipótese de que a capacidade financeira exerce uma influência direta e positiva nos resultados em campo. Fica evidente que, mesmo com a imprevisibilidade natural do futebol, o dinheiro e o poder econômico ditam a sustentabilidade do sucesso esportivo a longo prazo.
A análise realizada pelos autores revela uma descoberta importante: os mecanismos de fair play e sustentabilidade financeira atuais não equilibram as competições. Pelo contrário, essas regras acabam protegendo a hegemonia dos clubes mais ricos, já que limitam os gastos a uma porcentagem da arrecadação de cada equipe, criando uma barreira para times menores. Além disso, o estudo constata a consolidação da “espanholização” no Brasil, um fenômeno que reflete a mesma hiperpolarização e desigualdade financeira já vivida de forma intensa nas principais ligas europeias.
No Campeonato Brasileiro, constata-se que estamos a passos largos para vivenciar o fenômeno da “espanholização” do nosso futebol, com dois clubes dominantes: CR Flamengo e SE Palmeiras. Esse fenômeno pode ser muito nocivo devido a alguns fatores. Na tentativa desesperada de competir esportivamente com essas duas potências, clubes tradicionais acabam assumindo dívidas impagáveis ou antecipando receitas de forma irresponsável. Esse desejo de “não ficar para trás” gera gestões temerárias que culminam em rebaixamentos e crises institucionais frequentes.
Além disso, uma liga onde os campeões são conhecidos por antecipação ou restritos a um duopólio perde o seu valor de mercado. Direitos de transmissão internacionais, patrocínios globais e o interesse do público neutro caem drasticamente quando o campeonato perde a competitividade global. Assim, a disparidade financeira permite que esses dois clubes não apenas contratem os melhores jogadores, mas também inflacionem o mercado interno, comprando destaques de times menores ou mantendo elencos superlotados de estrelas — que seriam titulares absolutos em qualquer outro time — apenas para enfraquecer os rivais.
Algumas soluções para frear esse fenômeno na nossa liga seriam, primeiramente, superar as rachaduras políticas (como a atual divisão entre Libra e Liga Forte União) e fundar uma liga única. A divisão das cotas de TV e marketing precisaria adotar proporções mais justas, como o modelo de 50% igualitário, 25% por performance e 25% por audiência e engajamento. Após isso, a CBF ou a futura liga deveria implementar regras rígidas de sustentabilidade, limitando a folha salarial e os gastos com contratações a um percentual máximo da receita real do clube (por exemplo, 70%). Punições esportivas severas, como perda de pontos e proibição de registrar jogadores (Transfer Ban), devem ser aplicadas a quem gastar mais do que arrecada.
Já na questão das SAF`s, precisaríamos de travas regulatórias para evitar o “doping financeiro” (quando mecenas injetam dinheiro infinito artificialmente) ou o abandono do clube por investidores abutres. Os investimentos devem ser direcionados obrigatoriamente, em parte, para infraestrutura e categorias de base, garantindo um crescimento sustentável a longo prazo.
Por fim, seguindo a questão das categorias de base, poderíamos nos inspirar no sistema de draft, muito usado nos esportes dos Estados Unidos, além de criar limites rigorosos para o número de jogadores profissionais sob contrato e impor cotas obrigatórias de utilização de atletas formados na base. Isso ajudaria a pulverizar o talento por mais times, resgatando o equilíbrio do futebol brasileiro.
Como contribuição teórica, a pesquisa entrega um panorama muito claro e atual sobre as falhas estruturais que afetam o futebol moderno. Na prática, o estudo propicia uma visão essencial para os gestores esportivos, pois demonstra que a responsabilidade financeira, aliada a elencos profundos, forma o único caminho real para manter os clubes no topo.
As limitações do estudo concentram-se nas mudanças constantes dos valores de mercado dos jogadores a cada janela de transferências e no foco exclusivo em três competições de pontos corridos. Por fim, para futuros estudos, sugere-se modificar o método para incluir campeonatos continentais de formato eliminatório (mata-mata) e investigar a resistência esportiva e financeira dos clubes geridos sob o modelo das SAF’s.
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1 Discentes do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG) – Cascavel – Paraná – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Discentes do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG) – Cascavel – Paraná – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.