DINÂMICA EPIDEMIOLÓGICA DA ESPOROTRICOSE NO NORTE PIONEIRO DO PARANÁ: ESTUDO RETROSPECTIVO DE 2021 A 2025

EPIDEMIOLOGICAL DYNAMICS OF SPOROTRICHOSIS IN NORTHERN PARANÁ: A RETROSPECTIVE STUDY FROM 2021 TO 2025

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793510710

RESUMO
A esporotricose constitui uma zoonose emergente de importância para a saúde pública e para a medicina veterinária, especialmente pela participação dos felinos na cadeia de transmissão. Este estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico da esporotricose no município de Cornélio Procópio (PR), no período de 2021 a 2025, considerando a ocorrência em humanos e animais. Trata-se de estudo epidemiológico descritivo, retrospectivo e quantitativo, baseado em dados secundários provenientes de registros da vigilância epidemiológica, SINAN, SESA-PR e fontes oficiais relacionadas aos casos animais. Os dados foram organizados em planilhas e analisados por estatística descritiva, com apresentação por meio de tabela e gráficos. Em Cornélio Procópio, foram registrados 66 casos humanos e 594 casos animais no período avaliado. Observou-se crescimento progressivo das notificações, de 2 casos humanos e 4 animais em 2022 para 27 casos humanos e 273 animais em 2025. Os resultados evidenciam crescimento das notificações e reforçam a importância da vigilância epidemiológica e de estratégias integradas de prevenção e controle fundamentadas na Saúde Única.
Palavras-chave: esporotricose.Sporothrix brasiliensis; zoonose; epidemiologia; Saúde Única.

ABSTRACT
Sporotrichosis is an emerging zoonosis of importance to public health and veterinary medicine, particularly because of the role of cats in transmission. This study aimed to analyze the epidemiological profile of sporotrichosis in the municipality of Cornélio Procópio, Paraná, from 2021 to 2025, considering human and animal occurrence. This was a descriptive, retrospective and quantitative epidemiological study based on secondary data from epidemiological surveillance records, SINAN, SESA-PR and official sources related to animal cases. The data were organized in spreadsheets and analyzed using descriptive statistics. In Cornélio Procópio, 66 human cases and 594 animal cases were recorded during the study period. A progressive increase in notifications was observed, from 2 human and 4 animal cases in 2022 to 27 human and 273 animal cases in 2025. The findings indicate an increase in reported cases and reinforce the importance of epidemiological surveillance and integrated prevention and control strategies based on the One Health approach.
Keywords: sporotrichosis; Sporothrix brasiliensis; zoonosis; epidemiology; One Health.

1. INTRODUÇÃO

As zoonoses constituem um importante problema de saúde pública, pois compreendem doenças naturalmente transmissíveis entre animais vertebrados e seres humanos, envolvendo interações biológicas, ambientais e sociais (Cutler; Fooks; Van der Poel, 2010). Em uma análise global de eventos de emergência de doenças infecciosas entre 1940 e 2004, Jones et al. (2008) identificaram que 60,3% desses eventos eram zoonóticos, evidenciando sua relevância para a saúde global.

A ocorrência e a disseminação dessas enfermidades são influenciadas por fatores como o crescimento populacional, a urbanização, as mudanças climáticas, a degradação ambiental e a intensificação da interação entre seres humanos, animais domésticos e fauna silvestre. Essas transformações podem modificar a exposição aos agentes infecciosos e sua distribuição geográfica, reforçando a necessidade de estratégias integradas de vigilância, prevenção e controle (Cutler; Fooks; Van der Poel, 2010; Leal Filho et al., 2025).

Diante desse cenário, destaca-se o conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa abordagem tem sido amplamente recomendada como estratégia fundamental para o enfrentamento das zoonoses emergentes, permitindo a implementação de ações integradas de monitoramento epidemiológico, prevenção e controle (Caballero Gómez et al., 2024).

Entre as zoonoses emergentes de importância crescente no Brasil, destaca-se a esporotricose, uma micose de implantação causada por fungos termodimórficos do gênero Sporothrix. Embora apresente distribuição mundial, a doença tem relevância particular em áreas tropicais e subtropicais (Organização Mundial da Saúde, 2023). Nos últimos anos, a esporotricose tem despertado crescente preocupação dos órgãos de saúde pública devido à expansão geográfica e ao aumento dos registros em humanos e animais em diversas regiões brasileiras (Aguiar Freire; Reis, 2025; Gremião et al., 2020).

Historicamente, a infecção estava associada à inoculação traumática do fungo presente no solo, em vegetais ou em matéria orgânica em decomposição. Entretanto, mudanças no perfil epidemiológico da doença foram observadas nas últimas décadas, especialmente na América Latina. Nos surtos zoonóticos brasileiros, destaca-se a transmissão pelo contato com animais infectados, sobretudo felinos domésticos, por meio de arranhaduras, mordeduras ou contato com secreções de lesões cutâneas (Costa et al., 2024; Mesquita et al., 2024).

A espécie Sporothrix brasiliensis destaca-se como a principal responsável pela expansão da esporotricose zoonótica no Brasil, apresentando elevada virulência e associação com infecções em felinos. Essas características favorecem a manutenção da cadeia de transmissão e contribuem para a disseminação da doença em ambientes urbanos (Gremião et al., 2017; Poester et al., 2024).

No Brasil, a expansão da esporotricose zoonótica teve importante foco no estado do Rio de Janeiro, onde foram documentadas epidemias associadas à transmissão por gatos. Nas últimas décadas, a doença expandiu-se para outras regiões do país, tornando-se um desafio para a saúde pública e para a medicina veterinária (Gremião et al., 2020).

No estado do Paraná, a expansão da esporotricose também merece atenção. Um estudo realizado em um serviço de referência de Curitiba identificou aumento da ocorrência de esporotricose transmitida por gatos entre 2011 e 2022 (Cognialli et al., 2023). A participação dos felinos na cadeia de transmissão reforça a importância da vigilância animal e de medidas de prevenção voltadas ao contato com animais infectados (Gremião et al., 2017).

A ocorrência de casos em animais e seres humanos reforça a necessidade de medidas integradas de vigilância epidemiológica, manejo populacional responsável de animais, educação em saúde e diagnóstico precoce. Nesse contexto, a análise da distribuição da esporotricose em diferentes regiões do Paraná contribui para compreender sua dinâmica e subsidiar estratégias de prevenção e controle (Brasil, 2024; Organização Mundial da Saúde, 2023).

Estudos epidemiológicos regionais são relevantes para identificar padrões de ocorrência e necessidades de vigilância, pois a distribuição da doença pode variar conforme características ambientais, socioeconômicas, demográficas e culturais. No município de Cornélio Procópio, a sistematização dos registros disponíveis pode produzir informações úteis para as ações locais de prevenção e controle.

Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico da esporotricose no município de Cornélio Procópio, Paraná, no período de 2021 a 2025, considerando a ocorrência em humanos e animais.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de estudo epidemiológico descritivo, retrospectivo e quantitativo, desenvolvido a partir de dados secundários sobre registros de esporotricose em Cornélio Procópio (PR), no período de 2021 a 2025. O levantamento utilizou informações fornecidas pela Secretaria Municipal de Saúde, provenientes de registros e plataformas oficiais.

Os dados referentes aos casos humanos foram obtidos de notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e de registros da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA-PR).

Para os casos animais, foram consultadas compilações da vigilância epidemiológica local, registros de serviços de assistência veterinária e relatórios técnicos oficiais, conforme a disponibilidade no período. As variáveis consideradas foram o número de casos registrados, o ano e o mês de ocorrência, a localidade de notificação e o grupo afetado, humano ou animal.

Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por estatística descritiva, com apresentação de frequências absolutas e cálculo da variação percentual entre os anos. Os resultados foram apresentados em tabela e gráficos, permitindo descrever a distribuição temporal das notificações. Foram utilizados dados secundários sem identificação pessoal, sem contato direto ou intervenção com seres humanos ou animais.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A distribuição anual dos casos de esporotricose em Cornélio Procópio (PR), entre 2021 e 2025, é apresentada na Tabela 1 e na Figura 1.

De acordo com a Tabela 1, foram registrados 66 casos humanos e 594 casos animais de esporotricose em Cornélio Procópio (PR), entre 2021 e 2025. Não constam registros em 2021 na base analisada. Em 2022, foram registrados dois casos humanos e quatro animais. Em 2023, os números anuais aumentaram para 13 e 75, respectivamente. Em 2024, foram registrados 24 casos humanos e 242 animais; em 2025, observaram-se os maiores valores da série, com 27 casos humanos e 273 animais. Entre 2022 e 2025, a variação das notificações correspondeu a 1.250% para os casos humanos e a 6.725% para os animais. Esses percentuais devem ser interpretados considerando os baixos valores do ano inicial de comparação.

Tabela 1. Casos de esporotricose registrados em humanos e animais em Cornélio Procópio (PR), 2021–2025

Ano

Casos Humanos

Casos Animais

2021

0

0

2022

2

4

2023

13

75

2024

24

242

2025

27

273

Total

66

594

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde de Cornélio Procópio, conforme os registros utilizados no estudo.

A Figura 1 apresenta o crescimento anual das notificações a partir de 2022, com números absolutos mais elevados entre os animais. Esse comportamento é compatível com a relevância da esporotricose animal, especialmente felina, no contexto da Saúde Única (Melo et al., 2023). Contudo, os dados agregados não permitem estabelecer vínculo de transmissão entre os casos animais e humanos. Também não permitem comparar o risco de adoecimento entre esses grupos, pois não foram utilizadas estimativas das respectivas populações.

Figura 1. Distribuição anual dos casos de esporotricose em humanos e animais em Cornélio Procópio (PR), 2021–2025

Fonte: gráfico apresentado pela autora, a partir dos registros utilizados no estudo.

Além dos dados anuais, foi examinada a distribuição mensal dos registros entre 2021 e 2025, com o objetivo de descrever as oscilações ao longo de cada ano.

A Figura 2 apresenta os registros mensais em animais, enquanto a Figura 3 apresenta os registros em humanos.

Figura 2. Distribuição mensal dos casos animais de esporotricose em Cornélio Procópio (PR), 2021–2025

Fonte: gráfico apresentado pela autora, a partir dos registros utilizados no estudo.

Figura 3. Distribuição mensal dos casos humanos de esporotricose em Cornélio Procópio (PR), 2021–2025

Fonte: gráfico apresentado pela autora, a partir dos registros utilizados no estudo.

A distribuição mensal apresentada nas Figuras 2 e 3 sugere variações ao longo dos meses e entre os anos. A interpretação desses padrões depende da consistência entre os registros mensais e os totais anuais.

No gráfico dos casos animais (Figura 2), os maiores valores aparecem principalmente a partir de 2023, com destaque para abril de 2023, junho e setembro de 2024 e julho de 2025, quando a figura indica aproximadamente 42 casos.

No gráfico dos casos humanos (Figura 3), observam-se valores menores que os do gráfico animal e elevações em julho e agosto de 2024 e em julho e dezembro de 2025. A comparação visual das duas séries sugere que alguns aumentos ocorrem em períodos próximos, sem correspondência constante ou proporcional. Essa observação descritiva não demonstra associação estatística entre as séries.

A concentração de registros em alguns meses mais frios pode ser discutida à luz de Freitas et al. (2023), que observaram aumento dos casos humanos de esporotricose no outono e no inverno em um serviço de referência da região metropolitana de São Paulo. Os autores identificaram associação com a temperatura e propuseram, como hipótese, a participação do ciclo estral dos felinos na dinâmica de transmissão. Alterações comportamentais associadas à reprodução, como maior circulação e brigas, poderiam ampliar as oportunidades de exposição.

Essa hipótese é pertinente à discussão da esporotricose zoonótica, pois gatos infectados podem transmitir Sporothrix brasiliensis por arranhaduras, mordeduras e contato com material de suas lesões (Organização Mundial da Saúde, 2023). Entretanto, o presente estudo não avaliou o comportamento dos animais, as condições climáticas ou a identificação molecular do agente; portanto, não permite demonstrar esse mecanismo nos casos locais.

Lima et al. (2025) analisaram registros de esporotricose animal em Guarulhos (SP), de 2016 a 2023, e identificaram componente sazonal na decomposição das séries temporais, com maior ocorrência nos meses centrais do ano. Contudo, a comparação entre as estações não mostrou diferença estatisticamente significativa (p = 0,810), levando os autores a indicar possível sazonalidade, sem considerá-la comprovada.

Em Cornélio Procópio, o padrão visual do gráfico animal apresenta aproximação com essa hipótese, incluindo um pico em julho de 2025. Entretanto, os valores representados permaneceram elevados em outros meses daquele ano, como outubro, novembro e dezembro.

Assim, as oscilações mensais não permitem atribuir a ocorrência da doença exclusivamente à sazonalidade. A análise foi descritiva e não incluiu testes de associação com variáveis climáticas ou comparação estatística entre estações.

As diferenças entre os padrões humano e animal podem envolver o tempo entre a exposição e o aparecimento de sinais clínicos, a procura por atendimento, o diagnóstico e os procedimentos de notificação. Esses fatores não foram mensurados neste estudo e devem ser considerados hipóteses explicativas. Um aumento de registros animais em determinado mês não implica, necessariamente, aumento proporcional de casos humanos no mesmo período.

A interpretação da série também deve considerar mudanças na vigilância e na disponibilidade dos registros. No Paraná, a Resolução SESA nº 093/2022 estabeleceu a notificação compulsória da esporotricose humana e animal (Paraná, 2022). Esse marco coincide com o início dos registros na série apresentada, mas não permite atribuir a ele todo o aumento observado. A ausência de registros em 2021 não comprova ausência da doença. Em conjunto, esses limites reforçam a necessidade de vigilância contínua e de integração entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os registros anuais apresentados indicaram crescimento das notificações de esporotricose em Cornélio Procópio entre 2021 e 2025, tanto em humanos quanto em animais. Na Tabela 1, totalizaram-se 66 casos humanos e 594 casos animais, com os maiores números anuais em 2025.

A evolução observada reforça a relevância da esporotricose para a saúde pública e a necessidade de vigilância epidemiológica contínua, diagnóstico precoce, manejo populacional responsável de animais, educação em saúde e integração entre os setores de saúde humana, saúde animal e meio ambiente, conforme os princípios da Saúde Única.

Por utilizar dados secundários agregados, o estudo está sujeito a subnotificação, diferenças na disponibilidade dos registros e mudanças nos procedimentos de vigilância. Os resultados descrevem notificações e não demonstram, isoladamente, aumento da incidência, causalidade entre os casos humanos e animais ou sazonalidade estatisticamente comprovada. A sistematização dos registros pode subsidiar ações locais de prevenção e controle, desde que assegurada a consistência da base utilizada.

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1 Acadêmica do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Cristo Rei, Cornélio Procópio, Paraná, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Médico Veterinário e Coordenador do Curso de Medicina Veterinária da Faculdade Cristo Rei (FACCREI).

3 Bióloga responsável técnica pelo IPEVS e Docente do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Cristo Rei, Cornélio Procópio, Paraná, Brasil.