DESMISTIFICAÇÃO DA CONTABILIDADE PARA OS INDÍGENAS DA ETNIA IKPENG

DEMYSTIFYING ACCOUNTING FOR THE IKPENG INDIGENOUS PEOPLE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787025444

RESUMO
Este artigo teve como objetivo analisar os usos de ferramentas contábeis de gestão na microeconomia indígenas dos povos Ikpeng. Para isso, utilizou-se a técnica de métodos mistos. Primeiramente, com entrevistas com anciões da tribo a fim de conhecer a cultura e a convivência do povo, após, aplicou-se questionário aos chefes de família para verificar o conhecimento que tinham das ferramentas de gestão, bem como suas práticas, por fim, fez-se a observação participante para conhecer as práticas de comércio do povo. Na análise do questionário foram encontrados 05 clusters, utilizando-se como parâmetros as suas práticas financeiras. Verificou-se que poucos chefes de família do povo Ikpeng tinham conhecimento das ferramentas contábeis de gestão financeira, e aqueles que conheciam, diziam conhecer principalmente o orçamento e o cálculo de preço de vendas. O resultado mostrou também que a cultura deste povo mudou nos últimos anos, decorrente de vários fatores, principalmente pela forma de conviverem, pois, no passado viviam para a coletividade e atualmente as famílias estão mais individualizadas devida a entrada do capital na vida dos indígenas.
Palavras-chave: Desmistificação; Contabilidade; Ferramentas de gestão; Indígenas.

ABSTRACT
This article aimed to analyze the use of managerial accounting tools in the indigenous microeconomy of the Ikpeng people. For this purpose, a mixed-methods approach was used. First, interviews were conducted with tribal elders to understand the culture and social dynamics of the people; next, a questionnaire was administered to heads of households to assess their knowledge of management tools, as well as their practices; finally, participant observation was carried out to understand the group's trading practices. In the questionnaire analysis, 5 clusters were identified based on their financial practices. It was found that few heads of households among the Ikpeng people were familiar with managerial accounting tools, and those who were reported knowing mainly budgeting and sales price calculation. The results also showed that the culture of this people has changed in recent years due to various factors, primarily their way of living: while in the past they lived for the collective, today families are more individualized due to the introduction of capital into indigenous life.
Keywords: Demystification; Accounting; Management tools; Indigenous people.

1. INTRODUÇÃO

O Brasil configura-se como uma das nações de maior diversidade sociocultural no mundo, apresentando uma multiplicidade de expressões culturais, étnicas e linguísticas que o tornam singular no cenário global (Diegues et al., 1999). Nesse contexto, destaca-se a presença de 274 línguas indígenas faladas por aproximadamente 305 povos distintos que habitam o território nacional, conforme dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI, 2022). Tal diversidade revela não apenas a riqueza cultural do país, mas também a complexidade das dinâmicas sociais e econômicas que caracterizam essas populações, exigindo abordagens analíticas sensíveis às suas especificidades. Dessa forma, compreender as estruturas econômicas que permeiam os povos indígenas implica reconhecer suas particularidades históricas, culturais e sociais, especialmente diante das transformações decorrentes do contato com a sociedade não indígena.

Sob a perspectiva da microeconomia, entende-se que esta área da teoria econômica se dedica ao estudo do comportamento das famílias, das empresas e dos mercados nos quais estão inseridos, conforme definição de Vasconcellos (2015, p. 29). A análise microeconômica concentra-se em mercados específicos, possibilitando a compreensão das decisões individuais e coletivas relacionadas à alocação de recursos escassos. No caso dos povos indígenas, é possível identificar a coexistência de duas esferas econômicas distintas: a economia da reciprocidade e a economia de mercado. A primeira está intrinsecamente vinculada às práticas tradicionais, caracterizando-se por dinâmicas de troca, produção e circulação de bens que independem de valores monetários. Já a economia de mercado introduz a lógica monetária nas relações sociais, gerando, por vezes, conflitos e tensões com os sistemas tradicionais de organização econômica (Hallay, 2023), evidenciando um processo de transição e adaptação cultural.

A economia indígena, de modo geral, fundamenta-se em princípios de sustentabilidade e subsistência, buscando assegurar recursos suficientes para atender às necessidades básicas das famílias, conforme aponta a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn, 2023). Essa forma de organização econômica mantém uma relação estreita com o meio ambiente, uma vez que a natureza constitui não apenas fonte de sobrevivência, mas também elemento central na preservação das práticas culturais, valores e modos de vida desses povos. Entretanto, observa-se, nos últimos anos, uma crescente inserção da lógica monetária no cotidiano das comunidades indígenas, especialmente em decorrência de políticas públicas como o programa Bolsa Família, que tem ampliado o acesso a recursos financeiros por parte dessas populações, promovendo mudanças graduais em seus hábitos econômicos.

O povo Ikpeng, atualmente residente na Terra Indígena do Xingu (TIX), localizada no norte do estado de Mato Grosso, constitui um exemplo significativo dessas transformações. A região abriga 16 povos distintos, configurando-se como um importante território de diversidade cultural. O contato dos Ikpeng com a sociedade não indígena ocorreu em 1964, por meio dos irmãos Orlando Villas-Boas e Cláudio Villas-Boas, resultando em impactos profundamente negativos, sobretudo no que se refere à redução populacional decorrente de doenças e conflitos armados (Povos indígenas no Brasil, 2021). Apesar desse histórico, a população Ikpeng apresenta atualmente um crescimento demográfico, ultrapassando 500 indivíduos distribuídos em sete aldeias, o que demonstra sua resiliência e capacidade de reorganização social diante das adversidades impostas pelo contato externo.

No âmbito das práticas financeiras, observa-se que o planejamento e o controle das finanças ainda são incipientes nas comunidades indígenas, em grande parte devido ao caráter recente da introdução da moeda em seu cotidiano. Historicamente, tais povos organizavam sua subsistência por meio de práticas não monetárias, o que torna a adaptação à lógica financeira um processo complexo e gradual. No caso específico dos Ikpeng, verifica-se que apenas uma parcela reduzida da população possui renda fixa mensal, enquanto a maioria atua de forma autônoma, exercendo atividades como prestação de serviços, comércio e produção artesanal. Essa realidade evidencia a necessidade de instrumentos que auxiliem na gestão mais eficiente dos recursos financeiros disponíveis.

A contabilidade, nesse contexto, apresenta-se como uma ferramenta potencialmente relevante para o auxílio na organização e no planejamento das finanças pessoais, ainda que sua aplicação seja frequentemente associada apenas ao ambiente empresarial. Nas comunidades indígenas, essa percepção é ainda mais limitada, uma vez que conceitos como controle financeiro e planejamento orçamentário não são amplamente difundidos. Considerando que a base econômica dessas populações está tradicionalmente associada à pesca, à caça e à agricultura familiar, a introdução de práticas contábeis representa um desafio, mas também uma oportunidade de fortalecimento da autonomia econômica e melhoria das condições de vida.

Nesse sentido, a contabilidade tem como principal finalidade a geração de informações úteis para a tomada de decisões, constituindo-se como instrumento essencial tanto para organizações quanto para indivíduos (Salotti et al., 2019). Conforme destacam os autores, o simples ato de registrar e controlar receitas e despesas já configura uma forma de contabilidade pessoal, evidenciando que seus princípios podem ser aplicados de maneira acessível e adaptada a diferentes contextos. Assim, a utilização de ferramentas contábeis no âmbito das finanças pessoais pode contribuir significativamente para o equilíbrio financeiro e para o uso mais racional dos recursos disponíveis, inclusive em contextos socioculturais diversos.

Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de investigar de que forma os conhecimentos contábeis são apropriados pelos povos indígenas, especialmente considerando a crescente influência da cultura ocidental em suas dinâmicas sociais e econômicas. Assim, coloca-se como questão norteadora deste estudo a seguinte problemática: quais são os usos de ferramentas contábeis de gestão na microeconomia da sociedade do povo Ikpeng? Tal questionamento busca contribuir na compreensão de como instrumentos técnicos são moldados à realidades específicas, respeitando as particularidades culturais e sociais dessas populações.

O objetivo geral deste estudo consiste em analisar os usos de ferramentas contábeis de gestão no âmbito da microeconomia da sociedade Ikpeng. Como objetivos específicos, busca-se identificar instrumentos contábeis aplicáveis à gestão financeira, compreender o contexto social do povo, verificar o nível de conhecimento relacionado à gestão de recursos financeiros, identificar as práticas financeiras adotadas pela comunidade, e identificar os usos de ferramentas contábeis de gestão. Dessa forma, pretende-se construir um diagnóstico que contribua para a futura proposição de estratégias de intervenção compatíveis com as especificidades sociais e econômicas do grupo estudado.

Por fim, destaca-se o caráter interdisciplinar deste estudo, que articula conhecimentos das áreas de contabilidade, economia e ciências sociais, visando ampliar a compreensão sobre a gestão das finanças pessoais em contextos culturalmente específicos. Considerando que se trata de um campo ainda pouco explorado na literatura acadêmica, espera-se que esta pesquisa contribua para a disseminação de conhecimento relacionado à gestão de recursos, promovendo melhorias nas condições de vida do povo Ikpeng.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Contabilidade

No contexto geral, contabilidade tem por objeto de estudo o patrimônio, definido como sendo o conjunto de bens, direitos e obrigação das empresas, que podem ser mensurados economicamente (Silva, 2010). A contabilidade gera informações úteis para seus usuários, consequentemente, influencia na tomada decisão. É uma ciência que pode ser interpretada como uma linguagem de negócios (Salotti, et al. 2019).

Os métodos e técnicas da contabilidade são ferramentas indispensáveis no âmbito empresarial, ou seja, no mundo de negócios. A contabilidade possui um papel importante em uma empresa, pois é responsável para gerar informação fidedigna e relevante para tomada de decisão. Através da contabilidade se tem o controle financeiro, e isso permite a elaboração de um planejamento eficiente.

De acordo com Marion (2022, p. 24) “a Contabilidade Geral, também conhecida como Contabilidade Financeira, pode ser aplicada a diversos ramos de atividade.” Pode ser aplicada nas diversas áreas, nas instituições sem fim lucrativos, nas empresas comerciais, no setor público e até mesmo na finança de pessoas físicas (Salotti, 2019; Marion, 2022).

No mundo empresarial, a aplicação da contabilidade é obrigatória, principalmente, nas grandes empresas de capital aberto, e para microempresas, empresas de pequeno porte e para pessoa física, a adoção é opcional, porém é indicada a adoção da contabilidade para controlar e registrar as atividades.

A adoção da contabilidade, apesar de não obrigatória para pessoas físicas, é importante para gerir melhor as fianças pessoais. A contabilidade está presente no cotidiano das pessoas, isso ocorre quando um indivíduo é favorecido com algum tipo de remuneração, logo ele tem as suas necessidades como, por exemplo, fazer compra no mercado, adquirir um veículo, obter uma casa, realizar um empréstimo ou financiamento em instituições financeiras. E, tudo isso requer boa organização, controle e planejamento (Cagan, 2022). A contabilidade possui os dispositivos que dá a possibilidade para fazer uma boa gestão nas finanças das pessoas.

2.1.1. Gestão Financeira

As pessoas precisam escolher continuamente e tomar decisões de consumo com base em seus recursos limitados. Esta limitação requer ações que conduzem à satisfação máxima das necessidades individuais e coletivas, de modo que o objetivo seja realizado com os recursos disponíveis (Hoji e Luz, 2019).

O principal objetivo da gestão financeira é a maximização do lucro, por isso, todos os negócios que tomam decisões financeiras sábias, aumentam o valor de mercado do patrimônio de seus proprietários (Chiavenato, 2022). A gestão financeira é meio de gerenciar melhor possíveis retornos de investimentos.

A gestão financeira não está limitada apenas para empresa, mas também pode ser aplicada para pessoas físicas, como é abordado pela Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, (2019) que a define como “um processo que ajuda as pessoas e as famílias a organizarem a sua vida financeira por meio da elaboração de estratégias, a fim de atingirem seus objetivos de vida”. As pessoas precisam avaliar constantemente a sua situação financeira, analisar os gastos e investimentos para atingir objetivos futuros. A Gestão Financeira é importante para melhor gerir recursos financeiros, assim, consequentemente, ter melhores resultados, isso vale tanto para pessoas jurídicas quanto para pessoas físicas.

2.1.2. Ferramentas de Gestão

Os instrumentos de gestão são necessários para que os gestores iniciem o planejamento e o controle com base em informações confiáveis para reduzirem os possíveis riscos que venham afetar as atividades operacionais da empresa. Dentre as ferramentas de planejamento e controle, o recurso contábil é uma das mais importantes, pois possibilita aos gestores analisar todas as entradas e saídas de recursos, tendo uma visão de curto, médio e longo prazo do fluxo de caixa da empresa (Pinto, 2009; Padovese, 2010).

O administrador financeiro adota o planejamento como o instrumento para melhor gerir o recurso financeiro, possibilitando analisar e prever gastos, onde possa investir, poupar, controlar contas e reduzir gastos (Santos, 2023).

O planejamento financeiro é uma ferramenta que permite desenvolver as estratégias que proporciona para as pessoas administrar melhor seus recursos financeiros para alcançar seus objetivos desejados. O planejamento financeiro é instrumento que fornece uma direção futura de como será a tomada de decisão, ou seja, como será aplicado ou usado os recursos financeiros. O planejamento financeiro é uma ferramenta adaptável e sofre alterações à medida que ocorrem alguns fatores econômicos (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, 2019). No âmbito da empresa, segundo Pinto (2009, p, 7), o “planejamento financeiro estabelece diretrizes de mudanças na empresa especialmente no que diz respeito ao controle de ações para atingir objetivos e metas em curto e longo prazo”.

Outra ferramenta de gestão é o fluxo de caixa, que controla os movimentos financeiros, a entrada e saída de recursos financeiros de uma empresa durante um período de tempo, é um indicador de gestão financeira que também prevê todas as entradas e saídas de recursos financeiros de um negócio em períodos futuros e mostra qual será o saldo de caixa no período. O fluxo de caixa facilita a gestão de um negócio no sentido de saber exatamente o valor a ser custeado com as obrigações assumidas, os valores a receber e qual será o saldo disponível naquele momento. A diferença entre o recebimento e o pagamento é chamada de saldo (Silva, 2023).

O fluxo de Caixa Diário é a ferramenta de planejamento e direcionamento de recursos para as atividades diárias, auxiliando outras áreas a identificar oportunidades e gerar valor, disponibilizando recursos para projetos, cujo retorno seja superior ao custo de capital, e sendo um instrumento de muita relevância para a gestão financeira, evidenciando contas a receber e contas a pagar. Contas a receber são os recursos a serem arrecadados futuramente, enquanto conta a pagar são obrigações a serem liquidadas com terceiros (Gimenez, 2011).

A análise de custo-volume-lucro é outra ferramenta muito útil para a tomada de decisão. Essa análise envolve indicadores como margem de contribuição, ponto de equilíbrio, margem de segurança e alavancagem operacional, fornecendo subsídios importantes para o planejamento. Conforme Wernke (2008), tais indicadores contribuem para uma gestão mais eficiente, sendo úteis para diferentes formas de organização econômica, inclusive aquelas baseadas em práticas tradicionais.

A formação de preços de venda também é uma importante ferramenta. A precificação mais comum é somar uma margem, ou markup que nada mais é que a diferença entre seu preço de venda e o custo, e normalmente é demonstrado como uma porcentagem do custo (Garrison; Noreen; Brewer, 2013).

O orçamento também faz parte do rol de ferramentas que se deseja incluir neste trabalho. O orçamento é um conjunto de ações que visa desenhar e acompanhar os resultados financeiros de um determinado período. Dessa forma, o orçamento é uma ferramenta de planejamento, controle e avaliação dos resultados financeiros (Neto, 2022).

2.1.3. Educação Financeira

A Educação financeira é um meio de transmitir conhecimento e informações sobre comportamentos fundamentais que ajudam a melhorar a qualidade de vida das pessoas e de suas comunidades. É uma ferramenta para promover o desenvolvimento econômico. A qualidade nas tomadas das decisões financeiras dos indivíduos tem um impacto global na economia como um todo, pois está intimamente ligada às questões como o endividamento e a inadimplência das pessoas e a capacitância de poder aquisitivos (Banco Central do Brasil, 2013).

O autocontrole e autoconhecimento são de extrema importância para tornar finanças pessoais ajustadas. A educação financeira consiste nas questões que envolvem a capacidade de planejamento. Possuir autocontrole e disciplina, portando, são questões essenciais para manter a situação financeira em equilíbrio. Os consumidores que conhecem seus índices de renda e obrigações com seus gastos têm menos probabilidade de contrair uma dívida com os empréstimos para cobrir déficits orçamentários (Serviço de Proteção ao Crédito, 2020).

A educação financeira tornou-se um importante complemento às regulamentações do mercado de capitais. E muitos países têm adotado a educação financeira como uma política de longo prazo, tento como objetivo melhorar o comportamento financeiro das pessoas e o desenvolvimento de outras habilidades, como resolução de problemas, pensamento crítico, comunicação e autogestão (CVM, 2022).

2.2. Povos Indígenas

Os indígenas são os povos habitantes originários do território brasileiro. No Brasil, há uma grande diversidade de povos nativos denominados indígenas que habitavam e habitam o território que hoje é conhecido como Brasil. Apesar do termo povos indígenas englobar todos os povos, há uma grande diferença entre cada povo, principalmente de costumes, crenças e culturas. Cada um dos povos vive de acordo com seus costumes. Historicamente, os povos indígenas viviam em conflitos territoriais entre povos rivais (Luciano, 2006), no entanto, atualmente, esses conflitos não ocorrem mais como antigamente.

Os povos indígenas habitam há milhares de ano o território conhecido na atualidade como Brasil, são povos que já habitavam essas terras muito antes da chegada dos portugueses ao continente (Luciano, 2006). Mas, a trajetória dos povos indígenas é descrita na literatura a partir da colonização, na qual houve o encontro entre dois mundos (Teao, 2023). Há estimativas de que por volta de 1500, quando os europeus chegaram ao continente, hoje, denominado como território brasileiro, esse continente era habitado por pelo menos 05 milhões de indígenas (Luciano, 2006), e, atualmente, essa população está reduzida a pouco mais de 900 mil indígenas no país, conforme o último censo registrado pelo IBGE.

Segundo o Inep (2021, p. 7) “você deve se lembrar que, no dia 22 de abril de 1500, os primeiros barcos portugueses, liderados por Pedro Alvares Cabral, chegaram ao território brasileiro”. A partir deste acontecimento, onde ocorreu o contato com a cultura ocidental, os costumes e modo de viver dos povos indígenas sofreram profundas modificações (Luciano, 2006).

Atualmente, cada povo indígena apresenta sua particularidade na gestão cultural, na organização, na forma como expressar sua cultura, de modo geral possui grandes diferenças entre cada povo. Segundo Pankararu (2019, p. 17) “há muitas diferenças sociais, organizativas e culturais entre esses povos. Cada povo tem sua própria organização com características específicas”.

Os povos indígenas possuem associações para atender os interesses da comunidade. As associações indígenas passaram a existir no Brasil em meado de 1980, mas após a Constituição Federal de 1988, as associações indígenas tiveram um crescimento considerável, dando possibilidade aos indígenas de se constituírem como pessoas jurídicas. É o mecanismo que dá a possibilidade aos povos indígenas de lidar com o mundo institucional, é um instrumento que permitir discutir as demandas territoriais e demais assuntos voltados aos interesses das comunidades. Como o exemplo da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT) que representa os interesses de 43 povos indígenas do estado, fundado no ano de 2018, para defender os direitos dos indígenas de Mato Grosso, também existem associações locais que representam os interesses das comunidades locais específicas.

3. METODOLOGIA

Nesta pesquisa foi utilizada a abordagem multimétodo que combina métodos tanto quantitativos, quanto qualitativos no intuito de compreender mais o fenômeno pesquisado. Optou-se por uma pesquisa de exploratória e descritiva, por meio de procedimento técnico o levantamento, com uso de questionário com perguntas fechadas; entrevistas, com o uso de roteiro de entrevista; e observação participante.

A pesquisa é exploratória porque neste estudo foi feito uma análise de um assunto pouco explorado pela literatura, segundo Gil (2019, p. 26) “as pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses a serem testadas em estudos posteriores”.

Diante da problemática trazida neste estudo, que buscou compreender o comportamento do povo indígena, especialmente, do povo Ikpeng em relação ao uso das ferramentas contábeis, foi adotado o método de pesquisa descritiva. A pesquisa descritiva, visa caracterizar uma determinada população ou fenômeno, segundo Gil (2019).

A pesquisa Levantamento será adotada como procedimento de coleta de dados neste estudo. De acordo com Silva et al. (2020, p. 21) “levantamento, que é a forma de estudo que visa investigar algo que se pretende conhecer de uma determinada população, que utiliza, por exemplo, questionários e amostra populacional”. A pesquisa será realizada junto à comunidade indígena do povo Ikpeng, que está, atualmente, localizada na Terra Indígena do Xingu no estado de Mato Grosso. Onde serão coletados dados para uma análise do conhecimento sobre a contabilidade e suas ferramentas com intuito de responder à problemática do estudo e alcançar os objetivos propostos neste projeto.

Para pesquisar a cultura e a convivência do povo e seu meio social, foi necessário realizar a entrevista com anciões dos povos, que são conhecedores da cultura deste povo. Para isso foi elaborado um roteiro de entrevista com perguntas abertas, e após transcritas e analisado seu conteúdo. De acordo, com Pereira (2016, p.157), “entrevista, num sentido amplo, é o encontro entre duas ou mais pessoas, a fim de obter informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional.”

Para verificar o conhecimento do povo, quanto a gestão que envolve recurso financeiro, foi feita a aplicação de questionário com perguntas fechadas, aplicado para o responsável de cada família. Segundo Pereira (2016), questionário é um instrumento que contém uma lista de perguntas organizadas com objetivo de obter informações sobre o assunto sob investigação. Após a aplicação do questionário, os resultados foram compilados e analisados.

Com a finalidade de identificar as práticas financeiras dos indígenas do povo Ikpeng, foi realizada a técnica de observação participante. De acordo com Pereira (2010, p. 91), “a pesquisa participante se desenvolve a partir da interação entre pesquisadores e membros das situações investigadas”. Nesta técnica, o pesquisador não deve recuar diante o cotidiano a ser observado. Neste estudo, o pesquisador esteve na aldeia aproximadamente um mês, com autodisciplina, observando e anotando sistematicamente em seu diário de campo. Esta observação possibilitou conhecer melhor os usos de ferramentas contábeis na microeconomia da sociedade dos povos Ikpeng.

Por fim, os autores declaram que utilizaram o modelo de linguagem ChatGPT (versão 5.5, em julho de 2026) exclusivamente para suporte à revisão gramatical e refinamento. Todo o conteúdo gerado passou por curadoria e validação crítica dos pesquisadores, sendo os autores os únicos responsáveis pelas análises, reflexões e conclusões expostas no artigo.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Neste tópico serão apresentados os resultados da pesquisa, feita junto ao povo Ikpeng. Através da entrevista com anciãos do povo, por meio da observação participante e pela a aplicação de questionário ao responsável da família. Ressalta-se que o questionário foi aplicado de forma presencial nas aldeias Moygu e Arayo, ambas pertencem ao mesmo povo.

4.1. Resultado da Entrevista

Para pesquisar a convivência do povo e seu meio social, foi necessário realizar a entrevista com 02 anciões da aldeia, mencionados aqui como: entrevistado 01; entrevistado 02 e entrevistado 03.

O povo Ikpeng é o povo que vive no território indígena, denominado de Terra Indígena Xingu, localizado na região nordeste do Estado de Mato Grosso, onde vivem 16 povos indígenas com culturas e vivências diferentes um do outro. Porém, o povo não é nativo da região, segundo entrevistado 01 “O povo ikpeng, é um povo que não é originário do Xingu, eles foram trazidos lá da região do rio Jatobá, na margem, dá margem esquerda, mas percorriam ali a área rio Jatobá, Steinen, Ronuro e Batovi, e eram dessa região, do município da Paranatinga”. O nome Ikpeng é denominação do povo e “significa, porque vivem juntos e brigam juntos, e vivencia, é coletivo e antigamente eram muito recíprocos. Um povo conhecido pela sua bravura.”

Quanto a organização, os entrevistados afirmam que o povo Ikpeng, historicamente, viviam todos juntos. Na aldeia havia uma maloca bem grande, na qual, toda a população morava ali, onde havia um líder supremo, um cacique, no entanto, havia os seus conselheiros. Segundo o entrevistado 03, nos dias atuais, a convivência do povo mudou, o povo não vive mais na mesma casa, cada família tem sua casa separada e com seus representantes. Aqui ele diz que atualmente com essa organização ele ficou meio individual agora, “essa coisa de coletividade é raro acontecer, reciprocidade agora com entrada de capital está sendo difícil.” Então, “essa é atual, não sei se é organização, mas essa é a atual vivência do povo Ikpeng. A cultura Ikpeng está mudando, as práticas culturais de antigamente não são mais realizadas”. Segundo ele “A cultura é viva, muda constantemente, então, está tendo essa mudança. Então, as práticas hoje, vejo que, as atividades tanto dos homens e tanto das mulheres estão sendo praticado menos”.

No entanto, segundo o entrevistado 02, ainda existem os conselheiros, que são compostos de pajés, anciões, cantores e parteiras, pois, então, numa decisão, o cacique não tomava uma atitude sem consultar seus conselheiros. Os trabalhos eram realizados de forma coletiva, mas dependendo da atividade. O entrevistado 02 afirma ainda que: “além de um líder principal, que é cacique, havia uma pessoa responsável para cada atividade que era realizado na comunidade, como bater timbó, pescaria coletiva, construção de maloca nova, e para todas as atividades havia um líder, que neste líder eram ligados ao cacique da comunidade, um líder principal.” Para ele o povo nunca viveu de comunidade, segundo o mesmo na sua afirmação “muitos falam comunidade, comunidade e comunidade, eu discordo da comunidade, porque a gente nunca viveu de comunidade a gente sempre viveu em coletividade e reciprocidade, então, a gente é coletivo e reciproca.” Portanto, o povo vive coletivamente de reciprocidade, ainda que, cada família tenha a sua casa individual, o cacique é um líder supremo do povo.

Apesar das mudanças sofridas ao longo do tempo, principalmente, com a introdução da cultura dominante, como afirma um dos entrevistados “com a entrada da cultura do homem branco as coisas ficaram diferentes,” a principal fonte de substância do povo vem sendo de práticas de forma tradicional, “a gente continua, as práticas de pescas, caças, colheitas de produtos, colheitas de frutas silvestres comestível, e biju, carinha”.

Assim como afirma o entrevistado 02: “nós sempre vivemos de roça, de colheita, plantio e colheita e, vivemos de frutos comestível também, de caça de pesca. Antigamente, o povo cultivava para o seu sustento produtos da roça como, Karawi (Macaxeira), Anat (Milho), Nawyot (Batata), Itopu (Abóbora), Mula, Akpe, Rïmu, Tayngko e Tarïwe (Mandioca). Enquanto caça e pesca sempre foi a fonte de sobrevivência do povo, sempre comemos peixes e as caças”, afirma o ancião. Porém, também é consumido alimentos que são do povo branco, como afirma o mesmo entrevistado: “hoje em dia, também, a gente está acostumando, e, usar alimentos do branco, como arroz, como feijão, macarrão e outras comidas, como café, açúcar e leite. “

A maioria das famílias tem algum tipo de fonte de renda, ou, são funcionário que trabalham na área de saúde, como colaboradores na área da educação, trabalhadores temporários. E, as famílias recebem benefício do governo através da bolsa família. Uma das fontes de renda são as vendas de artesanatos e produtos da roça, o entrevistado 01 diz que “esse negócio de capital entrou muito acelerado, esse ano quase todos estão sendo vendido, de todos os produtos, então, vendem polvilho, vendem farinha, vendem pimenta, vendem banana, cana e estão aprendendo outras coisas, tem uma aldeia que está fabricando rapaduras”, pois acontecem essas vendas onde as famílias tiram a sua renda.

4.2. Resultado do Questionário

Para verificar o conhecimento e as práticas do povo, no que se trata de gestão que envolve recurso financeiro, foi aplicado um questionário que identificava primeiro os dados socioeconômicos e o conhecimento das famílias sobre gestão financeira. Foi aplicado o questionário aos chefes de família e obteve-se 32 respostas do total de aproximadamente 50 famílias. Após a aplicação do questionário, utilizou-se o programa IBM SPSS Statistics para cálculo da estatística descritiva, das frequências e de associação de algumas variáveis. Verificados o desvio padrão e a variância das respostas às questões, seguiu-se para a análise dos dados.

Dos chefes de família respondentes, a metade, eram mulheres. A princípio foram questionados sobre a quantidade de membros das famílias, ou seja, quantas pessoas havia e convivia naquela família. Quase a metade das famílias dos respondentes tinham de 03 a 04 pessoas e outra parte, cerca de 22% tinham entre 05 a 07 indivíduo na família.

Quando questionados sobre a fonte de renda das famílias, cerca de 40% afirmaram que sua principal fonte de renda é o programa Bolsa família do Governo Federal, seguida das pessoas que recebem salários informais. Há uma pequena parcela que possuem o salário com carteira assinado, cerca de 12%, porém quem tem o salário formal ou informal são em sua maioria os responsáveis da família do sexo masculino.

A renda mensal de 85% das famílias que participaram da pesquisa está na faixa salarial de R$ 660,00, até o salário mínimo de R$ 1.320,00, e quanto aos gastos que as famílias costumam ter mensalmente, a compra de mantimento é o principal gasto apresentado e em seguida a compra de vestimentas.

Em relação ao conhecimento deles sobre as ferramentas contábeis e de gestão financeira, foram questionados de forma que desse o entendimento a eles do conceito de uma forma simplista. Quanto ao uso do fluxo de caixa diário, a maioria das pessoas alegaram não ter conhecimento da existência desta ferramenta que ajuda a acompanhar o fluxo de recurso financeiro de entrada e saída. Em relação ao Orçamento, a maioria respondeu que sim, ou seja, a maioria conhece a ferramenta. Para ferramenta de cálculo de preço de venda, neste aspecto a maioria dos respondentes alegou ter conhecimento a respeito, porém há um número considerável que desconhece a ferramenta. Em relação a ferramenta de análise de custo volume e lucro, a maioria das pessoas alegaram desconhecer essa ferramenta.

Quanto a gestão financeira, especialmente, para gestão de recurso financeiro pessoal, quando foram questionados se havia planejamento de uso de recursos financeiro, a maioria das famílias disse fazer o planejamento de forma mensal, ou em maior espaço de tempo. Ao serem perguntados se havia uma programação de compras e vendas futuras, a maioria afirmou que sim, havia.

Quanto ao hábito de guardar dinheiro, a maioria tem o hábito de guarda o dinheiro mensalmente ou em tempo maior. Ao serem questionados sobre sua situação financeira, 43,3% estão com a vida financeira organizada, já 46,7% disseram que estão com a vida financeira um pouco desorganizada; assumem dívidas, mas conseguem quitá-las.

Quando questionados se levam em conta o preço das coisas ao comprar e ao vender, observou-se que estão mais preocupados em pesquisar os preços antecipadamente ao comprar do que ao vender. Também se referindo a venda, foram questionados se eles verificavam o custo dos produtos ao venderem, e a maioria disse que não. Já ao serem questionados se levavam em conta o valor que necessitavam para a sobrevivência ao colocar o preço de venda, a maioria disse que sim.

Pôde-se verificar também que a maioria das famílias que possui o bolsa família, como renda principal, são de chefes mulheres, e algumas delas complementam a renda com as vendas de produtos da roça, de pesca e de sementes.

Entre os chefes de família que revelaram ganhar acima de R$ 1.321,00 até 2.640,00, destacam-se os chefes homens que fazem prestação de serviços, que possuem salário informal e os que possuem salário formal, ou seja, de carteira assinada.

Ao fazer a análise de cluster a fim de conhecer melhor como se aproximam os indivíduos no que se refere ao conhecimento e as práticas de gestão; revelaram-se 05 grupos em um dendrograma de cluster hierárquico. Após solicitado cluster K-média com os 05 grupos chegou-se no que chamamos de: Estável, Conhecedor, Negociador, Desafiador e Sobrevivente.

O chamado Desafiador é formado por pessoas que só conheciam a ferramenta contábil “formação de preço de venda”. Eles possuem salário formal, não guardam e não controlam o dinheiro; usa-o conforme dá vontade; diz usar todo o crédito que lhe oferecem, mas ainda assim não acham suficiente, mesmo assim dizem estar com a situação financeira organizada.

O Estável também diz conhecer somente a ferramenta contábil gerencial “formação de preços”, também possui salário formal, não costuma usar crédito, planeja e controla os gastos de forma discreta e diz ter uma situação financeira um pouco desorganizada.

O Conhecedor são pessoas que conhecem as ferramentas contábeis, diz estar com a situação financeira organizada, buscam guardar dinheiro, pelo menos de tempos em tempos, têm um planejamento e refletem para gastar o dinheiro que vem de salário informal, além disso usa crédito, porém paga no mês seguinte em dia.

O Negociador, é o menor grupo em número de participantes, são pessoas que sua renda principal vem da prestação de serviços; possuem conhecimento somente do orçamento; gastam de forma consciente; guardam pelo menos de tempos em tempos; controles, praticamente, não existem, não fazem, porém, refletem antes de gastar; verifica preços e negocia preços de seus serviços conforme necessita; além disso, fazem uma programação de compra e venda, no caso de seus serviços. Considera estar com a sua situação financeira um pouco desorganizada.

O Sobrevivente é o grupo mais numeroso, cuida para gastar, pois sua renda vem do Programa Bolsa Família, planeja o uso do dinheiro a curto prazo, mas, apesar disso, não controla. Usa crédito, porém afirma pagar em dia, considera ter uma situação financeira desorganizada.

4.3. Resultado da Observação

A fim de melhor entender as práticas financeiras dos indígenas do povo Ikpeng utilizou-se a técnica de observação. Logo ao chegar à aldeia, iniciou-se uma sistemática prática de anotações que, diariamente, se iniciava com os apontamentos do dia descrevendo as operações comerciais que aconteciam. Como elas ocorriam, e com quem isso acontecia, como eram registradas, além disso, de quais produtos e serviço.

Entre as principais observações está a comercialização somente dos produtos que sobram, ou seja, quando atende a demanda da família e sobra. Durante a primeira semana, observou-se a frequente venda de peixes. Para fazer tal venda, os indígenas fazem seu marketing pelos radinhos de comunicação dentro da aldeia, chegando muitas vezes a concretizar a venda por este meio de comunicação. Quanto ao preço de venda, estes são colocados de forma aleatória.

No período da observação foi visto, com frequência, uma pessoa prestando serviço de construção de uma maloca, este senhor formava seu preço do serviço considerando o tempo que gastaria para construí-la e a qualidade do material que seria utilizado. Mais tarde identificado no grupo Negociador.

Também foi observada a comercialização de mel silvestre por membros de outra aldeia, mas divulgados e comercializados através das redes sociais, como WhatsApp e Facebook. Observou-se que o preço do mel era estabelecido ora pelo mercado externo, ora colocado o preço local. Observou-se que neste caso era feito um controle em um caderninho.

Em um dia de observação foi visto a comercialização de produtos industrializados pelos próprios indígenas, principalmente o refrigerante. A venda ocorria principalmente com o cartão de crédito. Observou-se também que colocavam o preço de compra como preço de venda.

No período de observação, verificou-se a comercialização de produtos para fazer merenda na escola da aldeia. As compras eram feitas pela escola com base nos preços fornecidos pela secretaria de educação a qual se reportam. A entrega dos produtos complementa a renda de algumas famílias.

Outra atividade observada na região é a de pesca feita por turistas apoiados pelo projeto pesca esportiva. Neste caso, o dinheiro cobrado serve para repor materiais, como por exemplo motores de popa, e o restante vai para a comunidade indígena.

Também se presenciou durante o período de observação a coleta de sementes, que são lavadas e armazenadas em um só lugar, mas coletadas por muitas famílias como complemento de renda. A coleta é feita pela maioria de mulheres que fazem parte do projeto Yarang, que inclui indígenas de diversas etnias.

4.4. Usos da Contabilidade

Concluídas as etapas de coleta de dados, viabilizadas por entrevistas, aplicação de questionários estruturados e observação participante, procedeu-se à análise qualitativo-quantitativa para triangulação dos resultados. O objetivo central consistiu em estabelecer a inter-relação entre os saberes locais/subalternos da comunidade Ikpeng e os instrumentos formais da contabilidade gerencial e financeira, especificamente: fluxo de caixa, orçamento, formação de preço e análise custo-volume-lucro (CVL).

O fluxo de caixa configura-se como um instrumento de gestão financeira, cuja função é o registro, controle e monitoramento sistemático dos fluxos de entrada e saída de recursos (Silva, 2023). Os achados empíricos indicam que 53,13% dos investigados desconhecem a ferramenta. Em contrapartida, 43,88% declararam conhecê-la e aplicá-la de forma rudimentar, recorrendo a anotações informais de entradas e saídas em cadernos.

Definido como um instrumento de planejamento e controle financeiro, o orçamento visa diagnosticar a situação patrimonial e assegurar o equilíbrio entre receitas e despesas (Neto, 2022). Constatou-se uma adesão expressiva a essa prática: 65,63% dos participantes demonstraram conhecimento sobre a ferramenta, enquanto 34,38% relataram desconhecimento ou não utilização. Apesar do elevado nível de assimilação conceitual, identifica-se oportunidade para o aprimoramento técnico do uso da ferramenta, mediante o emprego de planilhas simplificadas para mapeamento de receitas, segregação de despesas e cálculo do gasto médio mensal.

A precificação consiste no processo analítico de atribuição de valor a produtos ou serviços, devendo ponderar custos fixos, variáveis e margens operacionais. Conforme aponta Dubois (2023), os custos de produção constituem o determinante fundamental do preço teto/piso, visto que a comercialização abaixo do custo gera rentabilidade negativa e compromete a continuidade das atividades. Na amostra pesquisada, 56,25% dos respondentes afirmaram conhecer os fundamentos da formação de preço, ao passo que 43,75% desconhecem ou não aplicam metodologias formais de precificação.

A análise CVL é um instrumental clássico da Contabilidade Gerencial focado na mensuração do ponto de equilíbrio, margem de contribuição, margem de segurança e alavancagem operacional, fornecendo subsídios críticos para a gestão de negócios (Wernke, 2008). Os dados revelam uma inversão no padrão de assimilação: 56,25% dos participantes desconhecem ou não utilizam a ferramenta, enquanto 43,75% alegaram algum grau de conhecimento. A menor adesão ao modelo CVL justifica-se pela complexidade técnica e pela exigência de modelos matemáticos e conceituais avançados para sua operacionalização plena no cotidiano da comunidade.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar os usos de ferramentas contábeis de gestão na microeconomia da sociedade dos povos Ikpeng. A cultura deste povo, conforme um ancião entrevistado disse, ela está viva, e muda constantemente. A tempos atrás, os povos eram hostis, moravam todos em uma só maloca, sob a responsabilidade de um Cacique, sobreviviam de produtos da roça, caça e pesca. Atualmente, a organização está individualizada, agem no coletivo, mas cada família tem sua própria casa. A reciprocidade está mais rara, pois considera-se mais o capital. O povo não é mais hostil. Uma situação que ainda não mudou é a figura do responsável pelo povo, o Cacique. Além disso, as práticas de subsistências da roça, caça e pesca permanecem, contudo atualmente consomem produtos industrializados.

A prática financeira mais frequente destes indígenas é vender o que excede seu consumo. Os produtos mais vendidos na aldeia são: o peixe, a caça e as sementes coletadas. O comércio ocorre entre os integrantes da comunidade e membros externos também. A comercialização acontece de forma presencialmente e por meio das redes sociais, ah sim, a aldeia tem internet. A venda é feita com pagamento a vista, em dinheiro e cartão e muitas vezes ocorre a prazo, por meio de cartão de crédito. Para formar usam o preço de mercado, mas quando vendem dentro da aldeia eles vendem por um preço aleatório, ou o preço de compra.

O resultado da pesquisa apresentou as ferramentas contábeis de gestão: Fluxo de caixa; Orçamento; Cálculo de preço de venda; e Relação de Custo, volume e lucro. Verificou que poucas pessoas do povo Ikpeng tinham conhecimento das ferramentas contábeis de gestão financeira, daqueles que conheciam diziam conhecer principalmente o orçamento e o cálculo de preço de vendas. Os indivíduos que utilizavam as ferramentas estavam em número ainda menor, a grande maioria não utilizava as ferramentas, revelando que a vida financeira dos mesmos está desorganizada.

Além disso, pode-se separar, por meio dos hábitos, costumes e práticas financeiras 05 grupos, chamados: Estável, aquele que tem recurso certo todo mês, apesar de controlar e planejar seu uso de forma desorganizada; Conhecedor, aquele que tem recurso informal todo mês e planeja e controla seu uso de forma organizada; Negociador, possui renda variável conforme prestam serviços e considera ter vida financeira desorganizada; Desafiador, aquele que tem dinheiro certo todo mês, contudo desafia sua estabilidade financeira, não fazendo controle algum; e o Sobrevivente que tem sua principal renda o auxílio do Governo Federal, planeja e controla seu dinheiro a curto prazo, porém de forma desorganizada.

Por fim, o estudo desmistifica o uso da contabilidade, mostrando que há o uso de suas ferramentas por parte dos indígenas, mesmo que não seja de forma literal. A maior limitação da pesquisa foi o fato do autor principal fazer parte do mesmo povo, apesar de não residir mais lá, e ter que constantemente evitar distorções em suas análises. Contudo, em cada técnica utilizada os autores contaram com parcerias externas para conferência de seus dados, para que a análise pudesse ser a mais correta possível. A recomendação deixada é que outros estudos sejam realizados para benefício dos povos indígenas.

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1 Bacharel em Ciências Contábeis, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutora em Contabilidade, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.