CURRÍCULO DA FORMAÇÃO DOCENTE E PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA: FUNDAMENTOS, DISPUTAS E PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18357745
Thamara Maria de Souza1
Alisson Moura Chagas2
RESUMO
Este artigo analisa o currículo da formação docente a partir dos fundamentos da Pedagogia Histórico-Crítica, considerando as disputas teóricas, políticas e ideológicas que atravessam a organização da formação de professores no contexto educacional brasileiro contemporâneo. Trata-se de uma pesquisa de natureza bibliográfica, com abordagem qualitativa, fundamentada nas contribuições de Dermeval Saviani, Newton Duarte, Bernardete Gatti e Paulino Orso, articuladas a produções acadêmicas recentes publicadas entre 2021 e 2025. Argumenta-se que as políticas curriculares orientadas por competências e por modelos padronizados de desempenho tendem a reduzir a docência a práticas técnicas e instrumentais, fragilizando a formação teórica, a autonomia intelectual do professor e o papel do conhecimento sistematizado. Em contraposição, a Pedagogia Histórico-Crítica reafirma o currículo como mediação central da formação humana e do trabalho pedagógico, defendendo a unidade entre teoria e prática, a centralidade do ensino e a docência como trabalho intelectual comprometido com a transformação social. Conclui-se que essa perspectiva contribui para a construção de currículos de formação docente comprometidos com a emancipação humana, a valorização da escola pública e o fortalecimento da identidade profissional docente.
Palavras-chave: Currículo. Formação docente. Pedagogia histórico-crítica. Políticas educacionais. Trabalho docente.
ABSTRACT
This article analyzes the teacher education curriculum based on the foundations of Historical-Critical Pedagogy, considering the theoretical, political, and ideological disputes that permeate teacher education in the contemporary Brazilian educational context. This qualitative bibliographic study is grounded in the contributions of Dermeval Saviani, Newton Duarte, Bernardete Gatti, and Paulino Orso, articulated with recent academic publications from 2021 to 2025. The article argues that competency-based curriculum policies and standardized performance models tend to reduce teaching to technical and instrumental practices, weakening theoretical education, teachers’ intellectual autonomy, and the role of systematized knowledge. In contrast, Historical-Critical Pedagogy reaffirms the curriculum as a central mediation for human formation and pedagogical work, emphasizing the unity between theory and practice, the centrality of teaching, and teaching as intellectual labor committed to social transformation. The article concludes that this perspective supports the development of teacher education curricula committed to human emancipation, the strengthening of public education, and the consolidation of professional teaching identity.
Keywords: Curriculum. Teacher education. Historical-critical pedagogy. Educational policies. Teaching work.
1. INTRODUÇÃO
A formação docente configura-se como um campo estratégico das políticas educacionais e das disputas teóricas em torno do papel da escola, do conhecimento e da função social do professor na sociedade capitalista contemporânea. No Brasil, as reformas curriculares das últimas décadas, intensificadas a partir dos anos 2000, têm promovido reconfigurações profundas nos cursos de licenciatura, frequentemente orientadas por modelos de competências, habilidades e resultados mensuráveis.
Essas reformas estão associadas a uma racionalidade gerencial que busca alinhar a educação às demandas do mercado de trabalho e aos mecanismos de avaliação em larga escala. Nesse processo, o currículo passa a ser concebido como instrumento técnico de regulação e controle, deslocando sua função histórica de mediação da formação humana.
Diante desse cenário, emerge a necessidade de analisar criticamente as concepções de currículo que sustentam a formação docente contemporânea, bem como suas implicações para a identidade profissional do professor, a autonomia pedagógica e o papel social da escola pública.
A Pedagogia Histórico-Crítica, formulada por Dermeval Saviani, apresenta-se como um referencial teórico capaz de oferecer fundamentos sólidos para essa análise crítica. Ao defender a centralidade do conhecimento sistematizado e do ensino como mediação intencional, essa perspectiva se contrapõe às abordagens tecnicistas e pragmatistas que reduzem o trabalho docente a procedimentos e desempenhos.
Assim, o objetivo deste artigo é analisar o currículo da formação docente à luz da Pedagogia Histórico-Crítica, articulando contribuições clássicas e produções acadêmicas recentes, com vistas a compreender as disputas contemporâneas em torno da formação de professores e indicar possibilidades de resistência e reconfiguração curricular.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A Pedagogia Histórico-Crítica fundamenta-se no materialismo histórico-dialético e compreende a educação escolar como uma prática social específica, historicamente situada, cuja função central é a socialização dos conhecimentos elaborados pela humanidade. Tal compreensão rompe com abordagens naturalizantes da educação e afirma o ensino como atividade intencional, orientada por finalidades sociais e políticas. Nessa perspectiva, o currículo assume papel estratégico, pois é por meio dele que se selecionam, organizam e sistematizam os conteúdos necessários ao desenvolvimento das capacidades humanas superiores, constituindo-se como mediação fundamental entre o patrimônio cultural historicamente produzido e a formação dos sujeitos (SAVIANI, 2021).
Saviani (2021) sustenta que o acesso ao conhecimento sistematizado é condição indispensável para que os indivíduos possam apreender a realidade em suas múltiplas determinações e atuar de forma consciente na transformação social. Essa defesa do conhecimento escolar como direito social ganha especial relevância no contexto contemporâneo, marcado pela intensificação de políticas curriculares orientadas por competências. Estudos têm demonstrado que tais políticas tendem a deslocar o foco do currículo do conhecimento científico, filosófico e artístico para aprendizagens funcionais e mensuráveis, comprometendo o papel formativo da escola e aprofundando desigualdades educacionais (SILVA; BARBOSA, 2022; ROCHA, 2023).
Em diálogo com Saviani, Newton Duarte aprofunda a crítica às pedagogias do “aprender a aprender”, argumentando que a centralidade atribuída à aprendizagem espontânea, ao cotidiano imediato e à autonomia abstrata do estudante resulta no esvaziamento do papel do ensino e na negação da função social da escola. Para Duarte (2013), a formação humana exige a mediação consciente do professor e a apropriação das objetivações culturais mais complexas, pois é por meio delas que se desenvolvem as funções psíquicas superiores e a capacidade de pensamento teórico. Pesquisas recentes reforçam essa crítica ao evidenciarem que metodologias centradas exclusivamente em experiências e competências tendem a desconsiderar as determinações históricas e sociais do processo educativo (MARTINS; MARSIGLIA, 2021; LEITE; MENDONÇA, 2024).
No campo da formação docente, essas reflexões evidenciam os riscos de currículos organizados predominantemente a partir de competências e habilidades. Gatti (2021) alerta que esse movimento compromete a formação teórica dos professores, fragiliza sua autonomia intelectual e redefine a docência como um conjunto de práticas instrumentais orientadas por prescrições externas. Ao analisar políticas de formação docente, a autora destaca que a redução da carga teórica e a fragmentação curricular dificultam a compreensão crítica do trabalho pedagógico e limitam a capacidade de intervenção dos professores frente às contradições da realidade escolar.
Estudos sobre a BNC-Formação corroboram essa análise ao apontar que a padronização curricular tende a restringir a pluralidade teórica e a subordinar a formação docente a uma racionalidade técnica e gerencial. Gonçalves e Mueller (2022) e Lima (2023) evidenciam que tais diretrizes reforçam uma concepção de professor como executor de competências previamente definidas, em detrimento da docência compreendida como trabalho intelectual, crítico e socialmente comprometido.
Paulino Orso (2024), ao reafirmar a atualidade da Pedagogia Histórico-Crítica, destaca seu compromisso político com a classe trabalhadora e com a defesa intransigente da escola pública. Para o autor, pensar o currículo da formação docente a partir dessa perspectiva implica assumir uma postura crítica frente às políticas educacionais hegemônicas e resistir à lógica de mercantilização da educação. Essa posição é reforçada por pesquisas que apontam a Pedagogia Histórico-Crítica como referencial teórico potente para enfrentar a precarização do trabalho docente, a intensificação do controle pedagógico e o esvaziamento do currículo escolar (ZANDONADI; SANTOS, 2023; SUN, 2025).
Dessa forma, o diálogo entre autores clássicos e produções recentes evidencia que a Pedagogia Histórico-Crítica permanece atual e necessária para compreender as disputas em torno do currículo da formação docente. Ao defender a centralidade do conhecimento sistematizado, a unidade entre teoria e prática e a docência como trabalho intelectual, essa perspectiva oferece fundamentos teóricos consistentes para a construção de projetos formativos comprometidos com a formação humana, a valorização do professor e a transformação social.
A centralidade do conhecimento sistematizado na Pedagogia Histórico-Crítica é reiteradamente afirmada por Saviani ao definir a especificidade da educação escolar. Para o autor, a escola distingue-se de outras práticas educativas justamente por ter como função social “a transmissão-assimilação dos conhecimentos sistematizados”, entendidos como produções históricas que ultrapassam o senso comum e o cotidiano imediato (SAVIANI, 2021, p. 13). Essa afirmação sustenta a compreensão de que o currículo não pode ser reduzido a experiências fragmentadas ou a aprendizagens utilitárias, mas deve organizar conteúdos capazes de promover o desenvolvimento intelectual dos estudantes.
Ao tratar da relação entre currículo e formação humana, Saviani enfatiza que o acesso ao conhecimento elaborado não é um privilégio, mas um direito social, especialmente para as classes trabalhadoras. Nesse sentido, o autor afirma que “negar à escola a função de transmitir os conhecimentos historicamente produzidos significa negar às camadas populares a possibilidade de compreender a realidade para além de suas aparências imediatas” (SAVIANI, 2021, p. 47). Tal posição reforça a crítica às políticas curriculares que substituem conteúdos estruturantes por competências genéricas, pois essas tendem a limitar o horizonte formativo dos sujeitos.
Saviani também problematiza as concepções pedagógicas que relativizam o papel do ensino e do professor, ao destacar que a valorização exclusiva da aprendizagem espontânea resulta no esvaziamento da função social da escola. Para o autor, “o ensino é condição para a aprendizagem que promove o desenvolvimento, e não o seu oposto” (SAVIANI, 2021, p. 71). Essa afirmação dialoga diretamente com as críticas de Newton Duarte às pedagogias do “aprender a aprender”, reforçando a necessidade de um currículo que reconheça o ensino como mediação fundamental do processo educativo.
No campo da formação docente, Saviani alerta para os riscos de uma concepção pragmatista e tecnicista, que transforma o professor em mero executor de prescrições curriculares. Segundo o autor, “quando a formação do professor se limita ao domínio de técnicas e métodos, perde-se de vista o caráter intelectual do trabalho docente” (SAVIANI, 2021, p. 93). Essa análise sustenta as críticas formuladas por Gatti (2021) acerca do empobrecimento teórico dos cursos de licenciatura e da fragilização da autonomia profissional docente.
Ao discutir a relação entre educação e transformação social, Saviani reafirma que a Pedagogia Histórico-Crítica não propõe uma neutralidade pedagógica, mas assume explicitamente um compromisso político. O autor afirma que “a educação escolar, ao socializar o saber elaborado, cria condições objetivas para que os indivíduos compreendam as contradições da sociedade e atuem na sua transformação” (SAVIANI, 2021, p. 119). Essa perspectiva fundamenta a defesa de currículos de formação docente comprometidos com a formação crítica e com a valorização da escola pública.
Por fim, Saviani ressalta que a organização curricular deve articular conteúdo e método, superando dicotomias que fragilizam o trabalho pedagógico. Para o autor, “não se trata de escolher entre conteúdos ou métodos, mas de compreender que o método é a forma adequada de apropriação do conteúdo” (SAVIANI, 2021, p. 141). Essa concepção reforça a unidade entre teoria e prática defendida pela Pedagogia Histórico-Crítica e sustenta a crítica a modelos curriculares que privilegiam metodologias em detrimento do conhecimento.
2.1. Síntese Teórica e Lacunas de Pesquisa
A análise comparativa dos autores mobilizados nesta pesquisa evidencia um campo teórico marcado por significativas convergências em torno da crítica às políticas curriculares orientadas por competências e pela defesa do conhecimento sistematizado como eixo estruturante da formação humana e da formação docente. Saviani (2021), Duarte (2013), Gatti (2021) e Orso (2024) compartilham a compreensão de que o currículo não se constitui como um dispositivo neutro, mas como uma mediação histórica e política que expressa projetos societários em disputa, assumindo papel central na definição do trabalho pedagógico e da função social da escola.
Saviani (2021) e Duarte (2013) convergem de forma substantiva ao reafirmarem o ensino como mediação indispensável do processo educativo e ao criticarem concepções pedagógicas que relativizam o papel do professor e do conhecimento teórico. Enquanto Saviani (2021) enfatiza a especificidade da educação escolar como espaço de transmissão-assimilação dos conhecimentos sistematizados, Duarte (2013) aprofunda essa análise ao demonstrar que a apropriação das objetivações culturais mais complexas é condição para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores e do pensamento teórico. Essa convergência teórica fundamenta a crítica aos currículos baseados em competências, identificada nos resultados desta pesquisa, que evidenciam o esvaziamento do papel do conhecimento e a fragmentação curricular.
Gatti (2021), embora parta de uma tradição analítica distinta, converge com Saviani (2021) e Duarte (2013) ao demonstrar os impactos concretos das políticas curriculares contemporâneas sobre a formação docente. Sua contribuição reside, sobretudo, na análise das reformas educacionais e dos dispositivos normativos que regulam os cursos de licenciatura, evidenciando como a padronização curricular, a redução da formação teórica e a ênfase em habilidades operacionais fragilizam a autonomia intelectual do professor. Essa análise dialoga diretamente com os resultados apresentados neste estudo, que apontam a reconfiguração da docência como prática instrumental e o fortalecimento de mecanismos de controle e responsabilização.
Orso (2024), por sua vez, reafirma a atualidade da Pedagogia Histórico-Crítica ao situá-la explicitamente como um referencial contra-hegemônico, comprometido com a classe trabalhadora e com a defesa da escola pública. Sua análise converge com Saviani (2021) ao destacar o caráter político da educação escolar e amplia o debate ao explicitar a relação entre currículo, formação docente e mercantilização da educação. Essa perspectiva contribui para compreender os resultados da pesquisa que evidenciam a necessidade de resistência às políticas curriculares hegemônicas e de construção de projetos formativos comprometidos com a emancipação humana.
Apesar das convergências teóricas, observam-se diferenças de ênfase entre os autores. Saviani (2021) concentra-se na definição da função social da escola e do currículo; Duarte (2013) aprofunda os fundamentos ontológicos e psicológicos da formação humana; Gatti (2021) privilegia a análise das políticas públicas e dos arranjos institucionais da formação docente; e Orso (2024) enfatiza o posicionamento político-pedagógico da Pedagogia Histórico-Crítica frente às reformas neoliberais. Longe de configurarem divergências inconciliáveis, essas diferenças revelam a complementaridade das abordagens e fortalecem a interpretação dos dados analisados.
A articulação entre essa síntese teórica e os resultados da pesquisa permite afirmar que as tendências tecnicistas identificadas nas políticas curriculares contemporâneas não são fenômenos isolados, mas expressão de um projeto educacional que tensiona o papel do conhecimento, da docência e da escola pública. Ao mesmo tempo, evidencia-se que a Pedagogia Histórico-Crítica oferece fundamentos teóricos consistentes para compreender essas disputas e orientar a construção de currículos de formação docente que reafirmem o ensino, o conhecimento sistematizado e o trabalho docente como dimensões centrais da prática educativa.
Por fim, a análise comparativa também explicita lacunas de pesquisa que demandam aprofundamento, especialmente no que se refere a estudos empíricos que investiguem experiências concretas de formação docente orientadas pela Pedagogia Histórico-Crítica no contexto das diretrizes da BNC-Formação. Tal lacuna reforça a relevância dos resultados apresentados neste estudo e aponta a necessidade de pesquisas futuras que articulem teoria crítica, análise curricular e práticas formativas, contribuindo para o fortalecimento de projetos educacionais comprometidos com a transformação social.
3. METODOLOGIA
O estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, cujo objetivo é analisar criticamente o currículo da formação docente à luz da Pedagogia Histórico-Crítica. O corpus de análise foi constituído por livros, artigos científicos e documentos acadêmicos que discutem currículo, formação docente e Pedagogia Histórico-Crítica, selecionados a partir de bases reconhecidas da área da Educação.
O recorte temporal compreende publicações entre 2021 e 2025, escolhidas com base em critérios de relevância teórica, impacto acadêmico e pertinência temática. A seleção do material privilegiou produções que dialogam com os fundamentos do materialismo histórico-dialético e com análises críticas das políticas curriculares contemporâneas.
A pesquisa ancora-se na abordagem qualitativa, compreendida, conforme Minayo, como aquela que se ocupa do “universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (MINAYO, 2014, p. 21).
Essa perspectiva mostrou-se adequada para analisar o currículo e a formação docente como construções históricas, sociais e políticas, atravessadas por disputas de sentidos, impossíveis de serem apreendidas por procedimentos meramente quantitativos.
A análise dos dados foi orientada pela lente teórica do materialismo histórico-dialético, conforme sistematizado pela Pedagogia Histórico-Crítica, possibilitando a compreensão dos fenômenos educacionais em sua historicidade, totalidade e contradição. A partir dessa perspectiva, o currículo foi analisado como expressão de relações sociais concretas e de projetos formativos em disputa.
Os procedimentos analíticos envolveram leitura crítica e sistemática das obras selecionadas, seguida de categorização temática, em consonância com as orientações de Minayo (2014), a partir da qual foram definidas categorias analíticas centrais, tais como: currículo, conhecimento sistematizado, trabalho docente, formação humana e políticas educacionais. Essas categorias foram articuladas de maneira dialética, buscando identificar convergências, tensões e limites entre as abordagens teóricas analisadas.
Por fim, a interpretação dos dados fundamentou-se na articulação entre autores clássicos e produções contemporâneas, permitindo compreender como as disputas curriculares atuais se relacionam com projetos históricos de sociedade e de educação, bem como suas implicações para a organização da formação docente e para o papel social da escola pública.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise da literatura evidencia que as políticas curriculares contemporâneas têm enfatizado a formação por competências como eixo estruturante da formação docente, alinhando a docência a modelos de eficiência, controle e responsabilização. Esse movimento, fortemente associado às reformas educacionais de orientação gerencial, redefine o currículo como instrumento técnico de regulação do trabalho pedagógico, deslocando a centralidade do conhecimento teórico para a mensuração de desempenhos e resultados. Estudos como os de Gatti (2021) e Silva e Barbosa (2022) demonstram que essa orientação tende a fragilizar a formação teórica dos professores e a reduzir a docência a práticas operacionais, subordinadas a prescrições externas.
Os resultados da análise indicam que tal lógica produz o esvaziamento do papel do conhecimento sistematizado e a fragmentação do currículo, uma vez que os conteúdos deixam de ser compreendidos como mediações para a formação humana e passam a ser tratados como meios para o desenvolvimento de competências utilitárias. Saviani (2021) alerta que essa redução compromete a função social da escola, ao limitar o acesso dos estudantes aos conhecimentos historicamente produzidos, condição indispensável para a compreensão crítica da realidade social. Nesse sentido, a centralidade conferida às competências revela-se incompatível com uma concepção de educação comprometida com a formação plena dos sujeitos.
Em contraposição, os estudos fundamentados na Pedagogia Histórico-Crítica reafirmam a centralidade do ensino e do conhecimento sistematizado como elementos estruturantes do currículo e da formação docente. Conforme Saviani (2021), o ensino constitui mediação necessária entre o saber elaborado e o desenvolvimento intelectual dos estudantes, não podendo ser substituído por experiências fragmentadas ou aprendizagens espontâneas. Essa concepção é corroborada por Duarte (2013), ao afirmar que a docência deve ser compreendida como trabalho intelectual, responsável pela mediação consciente das objetivações culturais mais complexas.
Os resultados também evidenciam que currículos orientados pela Pedagogia Histórico-Crítica contribuem para o fortalecimento da identidade profissional docente, ao reconhecer o professor como sujeito intelectual e político-pedagógico, e não como mero executor de técnicas. Orso (2024) destaca que essa perspectiva assume explicitamente um compromisso com a classe trabalhadora e com a defesa da escola pública, situando o currículo da formação docente no interior das disputas sociais mais amplas. Tal compreensão amplia as possibilidades de atuação crítica do professor, ao articular teoria, prática e compromisso social.
Por fim, a análise indica que currículos fundamentados na Pedagogia Histórico-Crítica favorecem a formação de professores capazes de compreender as determinações históricas e sociais da educação e de atuar na transformação da realidade. Estudos recentes reforçam que essa perspectiva teórica oferece subsídios consistentes para resistir à lógica tecnicista das políticas curriculares contemporâneas e para construir projetos formativos comprometidos com a emancipação humana e com a democratização do conhecimento (MARTINS; MARSIGLIA, 2021; ZANDONADI; SANTOS, 2023).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a Pedagogia Histórico-Crítica oferece fundamentos teóricos sólidos e consistentes para a análise e a reconfiguração do currículo da formação docente, especialmente em um contexto marcado pela intensificação de políticas educacionais orientadas por racionalidades tecnicistas, gerencialistas e pragmatistas. Ao reafirmar a centralidade do conhecimento sistematizado, a unidade entre teoria e prática e a docência como trabalho intelectual, essa perspectiva teórica possibilita compreender o currículo não como um instrumento neutro de organização de conteúdos, mas como uma mediação histórica e política diretamente vinculada a projetos de sociedade e de formação humana.
Os resultados deste estudo evidenciam que as disputas curriculares contemporâneas não se restringem a escolhas metodológicas ou à definição de competências e habilidades, mas expressam conflitos mais profundos acerca do papel da escola pública, do lugar do conhecimento na educação e da própria função social do professor. Nesse sentido, a hegemonia de modelos curriculares baseados em competências revela-se alinhada a uma lógica de controle, responsabilização e adaptação, que tende a esvaziar o caráter formativo da educação escolar e a reduzir a docência a práticas instrumentais, subordinadas a prescrições externas e a indicadores de desempenho.
Em contraposição, a Pedagogia Histórico-Crítica reafirma o currículo como espaço de resistência teórica e política, ao defender o direito de todos os estudantes ao acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade. Tal defesa assume especial relevância no âmbito da formação docente, uma vez que a fragilização da formação teórica compromete não apenas a atuação profissional dos professores, mas também a possibilidade de construção de práticas pedagógicas críticas e socialmente referenciadas. Assim, fortalecer currículos de licenciatura ancorados nessa perspectiva implica reconhecer o professor como sujeito intelectual, capaz de compreender as determinações históricas do fenômeno educativo e de intervir de forma consciente na realidade escolar.
Os objetivos propostos neste artigo foram alcançados, na medida em que se evidenciaram as principais disputas em torno do currículo da formação docente e se demonstraram as potencialidades da Pedagogia Histórico-Crítica como referencial teórico capaz de enfrentar as tendências hegemônicas que atravessam as políticas educacionais contemporâneas. A análise realizada permitiu explicitar que a reconfiguração curricular orientada por essa perspectiva não se limita a ajustes pontuais, mas demanda um projeto formativo comprometido com a emancipação humana, com a valorização do trabalho docente e com a defesa intransigente da escola pública.
Por fim, destaca-se que a adoção da Pedagogia Histórico-Crítica como fundamento da formação docente exige não apenas mudanças curriculares, mas também condições institucionais e políticas que garantam tempo de estudo, aprofundamento teórico e reflexão crítica nos cursos de licenciatura. Nesse sentido, este estudo contribui para o debate educacional ao reafirmar a necessidade de resistir às formas de esvaziamento do currículo e de construir projetos formativos que reconheçam a educação como prática social transformadora. Como encaminhamento para pesquisas futuras, sugere-se o aprofundamento de estudos empíricos que investiguem experiências concretas de formação docente orientadas pela Pedagogia Histórico-Crítica, de modo a ampliar a compreensão sobre seus desafios e possibilidades no contexto educacional brasileiro.
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1 Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica de Brasília (PPGE/UCB), linha de pesquisa: Política, Gestão, Financiamento e Avaliação. Professora-Pedagoga da SEEDF. E-mail: [email protected]
2 Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Católica de Brasília (PPGE/UCB), linha de pesquisa: Política, Gestão, Financiamento e Avaliação. Pedagogo-Orientador Educacional da SEEDF e Professor da SME de Santo Antônio do Descoberto - Goiás. E-mail: [email protected]