REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786379377
RESUMO
A Educação Infantil encontra na literatura, autentica proposta de educação experiência, como acontecimento e encontro de forças horizontais que potencializam na infância novas realidades, construídas por relações de intensidades. Dessa forma, este estudo analisa pela ótica da cartografia e da Filosofia da Diferença uma experiência realizada em uma escola de Educação Infantil no município de Porto Velho, Rondônia, no segundo semestre de 2025, problematizando os processos de construção e efeitos da criação/invenção de brinquedos produzidos com materiais recicláveis na perspectiva da construção de uma comum, da produção de subjetividade e realidade. A metodologia consistiu na observação, registros fotográficos e com escritos do diário de campo. A análise dos resultados evidenciou que a mediação com esses materiais potencializou o protagonismo infantil, permitindo a emersão de novas subjetividades e narrativas lúdicas, descentralizou a lógica do consumo passivo, promovendo conscientização ecológica de forma orgânica. Compreende-se, portanto, que as crianças ao serem provocadas a partir do brincar criativo, revelam novas possibilidades e ampliam sua autonomia, e o ambiente escolar ao propiciar experiências outras, consolidam práticas pedagógicas emancipatórias, sustentáveis e alinhadas as diretrizes contemporâneas da infância.
Palavras-chave: Educação Infantil; infância; brincar criativo; materiais recicláveis.
ABSTRACT
Early Childhood Education finds in literature an authentic proposal for an education based on experience—viewed as an event and a meeting of horizontal forces that empower new realities in childhood, constructed through relations of intensity. Thus, this study analyzes—through the lenses of cartography and the Philosophy of Difference—an experience carried out at an early childhood education school in Porto Velho, Rondônia, during the second semester of 2025. It problematizes the construction processes and effects of creating and inventing toys from recyclable materials, viewed from the perspective of building a "common," as well as the production of subjectivity and reality. The methodology involved observation, photographic records, and field journal entries. Analysis of the results revealed that mediation using these materials fostered children's agency—allowing for the emergence of new subjectivities and playful narratives—and decentralized the logic of passive consumption, thereby promoting ecological awareness in an organic manner. It is understood, therefore, that when children are stimulated through creative play, they reveal new possibilities and expand their autonomy; furthermore, by facilitating such alternative experiences, the school environment consolidates pedagogical practices that are emancipatory, sustainable, and aligned with contemporary guidelines regarding childhood.
Keywords: Early Childhood Education; childhood; creative play; recyclable materials.
1. BRINCAR COMO CRIAÇÃO
Estando imersos nos acontecimentos da educação, no movimento constante que atravessa o exercício do trabalho docente, investigação acadêmica, e universo infantil, conectamos possibilidades do brincar, da arte e das brincadeiras para compartilhar com as professoras da EMEI uma proposta de experimentação pedagógica com as crianças, onde o ato de criar/construir/inventar seu próprio brinquedo, utilizando materiais recicláveis, torna-se exercício de desterritorialização, pelo qual a matéria ganha novos fluxos e o desejo produz novas realidades.
De acordo com documentos norteadores para Educação Infantil, as brincadeiras na primeira infância desempenham um papel fundamental no desenvolvimento integral da criança, através destas, os pequenos ampliam o raciocínio, a criatividade, a autonomia e as habilidades sociais, além de aprenderem a lidar com as emoções e a interagir com o mundo físico de forma significativa.
As práticas pedagógicas na Educação Infantil devem compreender os eixos estruturantes das interações e brincadeiras, contemplando os direitos de aprendizagem: “conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se”, que juntos “asseguram condições para que as crianças aprendam em situações nas quais possam desempenhar um papel ativo em ambientes ...”. (Brasil, 2018, p. 37).
Brinquedos produzidos a partir de materiais recicláveis, são ótimos para estimular a criatividade infantil, o processo de construção artesanal desenvolve habilidades motoras, raciocínio logico. Sem contar que promove a consciência ecológica, ensina a pratica da reciclagem e considera todo o processo de criação.
Partimos da ideia de que nas brincadeiras a criança fortalece vínculos afetivos, estimula a criação de novos outros pensamentos e expressão, como desconstrução do que era fixo levando a potência de vir a ser. Nesse contexto, destacam-se ações que reforçam a importância do brincar e do convívio social, promovendo momentos de interação, troca de experiências entre as crianças.
Trata-se aqui de lançar algumas problematizações de uma prática pedagógica desenvolvida no segundo semestre de 2025, com 3 (três) turmas do turno da tarde de uma escola pública de Educação Infantil de Porto Velho – RO; ou seja, o objetivo, é problematizar os processos de construção e efeitos dessa experimentação com as crianças na perspectiva da construção de uma comum e da produção de subjetividade e realidade.
Para o presente trabalho serão apresentados registros fotográficos, observações e participações em produções de brinquedos e brincadeiras colhidas com escritos de diários de campo. Durante as atividades as crianças trouxeram potentes expressões e certo encantamento em descobrir possibilidades outras com os materiais recicláveis, momentos de explorar criatividade, demonstrar gostos na hora de deixar sua criação do jeito que deseja.
Percebe-se o quanto é importante para as crianças a exploração de uma diversidade de experiências, e considerar de fato como se expressam, pois assim podemos conhecer a sua realidade de vida e assim expandir mais formas de viver. Comprovou-se com essa experiência, o quanto múltiplas experiências/experimentações podem surgir por meio de criações; o brinquedo pode ser considerado possibilidade e via de acesso ao universo infantil e o quanto o ambiente escolar é território de descobertas e experiências.
2. DOS MOVIMENTOS E DESLOCAMENTOS DA EXPERIÊNCIA
As problematizações inerentes a essa atividade partem de uma inspiração teórica de autores do campo da filosofia da diferença como Passos, Kastrup e Escóssia (2009, p. 18) para quem:
O ponto de apoio é a experiência entendida como um saber-fazer, isto é, um saber que vem, que emerge do fazer. Tal primado da experiência direciona o trabalho da pesquisa do saber-fazer ao fazer-saber, do saber na experiência a experiência do saber. Eis aí o "caminho" metodológico.
O desenho do presente texto segue movimentos e deslocamentos decorrentes do processo de experimentação com as crianças, suas vivências infantis, criatividades, escolhas, decisões, linhas de fuga, que de certa forma foram como aponta Deleuze, Guattari (1995) “guiada por uma escrita cartografada, por regiões que ainda estavam por vir”.
A proposta realizada no segundo semestre de 2025, com 3 (três) turmas do turno da tarde de uma escola pública de Educação Infantil de Porto Velho – RO, foram vivenciadas em três etapas: preparação e organização da proposta com as professoras, produção com as crianças, e compartilhamento e exposição das produções para as demais turmas da escola.
A referida EMEI, localizada em bairro periférico, urbano na zona sul da capital, tem como vizinho zona rural chacareira, devido a essa característica atende crianças dos bairros próximos e da zona rural.
Apresenta bom estado de conservação e conta com estrutura física adequada para faixa etária da Educação Infantil contendo: bloco administrativo com hall de entrada, direção, secretaria, sala de professores e coordenação pedagógica, banheiros e almoxarifado; bloco de serviços contendo cozinha, dois depósitos de alimentos perecíveis e não perecíveis, banheiros para servidores, depósitos de limpeza e lavanderia; bloco pedagógico com 8 (oito) salas de aula e espaço solar, 2 (duas) salas do Saber Integral, banheiros para os alunos: adaptado e convencional; pátio coberto com parque e espaço para alimentação; área aberta com playground e estacionamento para servidores.
Conforme registros no censo escolar 2025, constam 242 (duzentos e quarenta e duas) crianças matriculadas, sendo: 06 turmas de Creche III - 3 anos, 3 (três) turmas matutinas e 3 (três) turmas no vespertino, 05 turmas no Pré I - 4 anos, sendo 2 (duas) turmas no turno matutino e 3 (três) no turno vespertino e 04 turmas no Pré II para a idade 5 anos, sendo 2 (duas) turmas no turno matutino e 2 (duas) turmas no vespertino, totalizando 15 (quinze) turmas. No decorrer do ano letivo, desenvolve quatro projetos bimestrais, voltados às interações e brincadeiras.
3. EMARANHADO DE EXPERIÊNCIAS E EXPERIMENTAÇÕES
Estando no ambiente escolar, acompanhando o cotidiano das crianças e partindo da premissa que a criança é um sujeito que produz cultura, evidenciou-se a necessidade de oportunizar vivências do brincar, estabelecidas nos direitos de aprendizagem da Educação Infantil.
A proposta de atividade experimental surge a partir do tensionamento entre teoria acadêmica em processo de pesquisa e a realidade observada na Educação Infantil, movimento disparado pelo olhar pesquisador atento as infâncias, sob a ótica de Leite (2011) “é na infância que experimentamos a vida na sua mais plena intensidade, distantes das amarras da razão”.
Diante disso, a proposta foi desenhada para superar a reprodução de tarefas e garantir os direitos de aprendizagens das crianças, de forma a habitarem suas descobertas e estruturada não como um fim, mas como espaço de experiência. Sendo necessário, pensar em possibilidades viáveis a realidade da escola, utilizando recursos de baixo custo e com propostas acessíveis na sua aplicabilidade, por esse motivo pensou-se na utilização de materiais recicláveis para a criação/invenção de brinquedos.
Para iniciar às experiências, foi necessário ter a autorização da escola, por intermédio da diretora, a qual formalizou seu apoio e consentimento e três professoras do turno da tarde aceitaram participar, diante da explicação da proposta.
O primeiro encontro foi realizado com as professoras no Horário de Trabalho e Planejamento Coletivo – HTPC, especifico para tratar sobre a proposta e a delimitação da mesma, onde foram conversadas sobre a importância do brincar, e as experiências na educação infantil, surgindo várias possibilidades de produções de brinquedos com as crianças. Foi mencionado que a ideia central era respeitar a livre expressão, como movimento de prazer e criação. Passos, Kastrup e Escóssia (2009, pg.18) afirma: “A diretriz cartográfica se faz por pistas que orientam o percurso da pesquisa sempre considerando os efeitos do processo do pesquisar sobre o objeto da pesquisa, o pesquisador e seus resultados”.
Dentre as sugestões, havia o desafio de escolher materiais recicláveis, fáceis de encontrar e fáceis de criar, pela questão da faixa etária das crianças de 3 a 5 anos, e que possibilitassem experiências únicas, que permitissem as crianças explorar cores, sons e texturas, estimulando a participação, concentração, coordenação motora fina e regulação emocional.
Permeava também, a preocupação em relação ao tempo para catalisar os materiais e para as produções em sala de aula, respeitando o processo de produção e o próprio brincar. Foram inúmeras as possibilidades de criação de brinquedos: casinha de brincar, garrafa sensorial, carrinhos, bonecos, mini móveis, bolhas de sabão, boliche, acerte o alvo, vai e vem, robôs, jogos, animais e instrumentos musicais diversos. Entretanto, as professoras tiveram que escolher duas opções, considerando os desafios citados.
Entre as propostas, a professora da turma Creche III optou por garrafinhas sensoriais, pela facilidade de encontrar os itens para criação/invenção, que seriam basicamente: garrafas plásticas transparente de 500 ml, água, corantes e glitter diversos, fitas coloridas, bolinhas em gel e pedaços de materiais coloridos como E.V.A. Para o tambor no estilo kabuletê (instrumento musical) composto por uma base de duas faces, presos a um pequeno cabo, com dois cordões laterais que possuem algo nas pontas que ao movimentar, produzem sons. Foram necessárias papelão, palitos de picolé, barbante, tampas de garrafa plástica, giz de cera e fitas adesivas coloridas;
Para a turma do Pré I, a professora optou pelos brinquedos vai e vem e bilboquê, pela facilidade de encontrar garrafas plásticas de 2 litros. O brinquedo vai e vem, composto por objeto base oval, feito com duas garrafas plásticas que atravessa duas cordas em cada extremidade, onde em dupla as crianças seguram nas duas alças das cordas, abre o braço com força e rapidez impulsionando a base oval em direção ao parceiro, as crianças brincam em dupla e podem decorar seu brinquedo do jeito que preferir. Para o bilboquê, brinquedo composto por uma base geralmente uma esfera, que pode ser feita com bolinha de papel, conectada a um cordão a um bastão, que é uma base para segurar, com um suporte oco feito com a parte superior da garrafa plástica, onde a criança terá que segurar o bastão e realizar movimento para lançar e capturar a bolinha no ar. Para ambas propostas, foram necessários garrafas plásticas, barbantes, papel diversos e fitas coloridas.
Para a turma do Pré II, a professora optou por produzirem base para brincar de bolinha de sabão, que necessariamente utiliza mini garrafas plásticas, cortadas nas duas extremidades, sendo a parte inferior da garrafa como base suporte para água com sabão e a parte superior da garrafa como objeto que faz as bolhas, incrementando o brinquedo, usando a criatividade para deixar da forma que preferir. E caixas de papelão diversas para produção livre de brinquedos como carrinhos, robôs, bonecos. Para as propostas foram necessárias garrafas plásticas, caixas de sapatos, canetinhas e fitas coloridas.
Considerando as demandas da escola, foi agendado para a segunda quinzena do mês de junho de 2025 a oficina de produção de brinquedos, de acordo com o dia escolhido pela professora. Importante destacar as professoras receptivas e as crianças empolgadas e atentas a tudo.
Durante toda proposta foi priorizado a promoção de experiências na Educação Infantil. Procurou-se participar atentamente do processo, já que o intuito era descrever a potência dos processos de subjetivação e invenção das crianças.
No encontro marcado para as experiências, foram mostrados os diversos objetos recicláveis e reutilizáveis as crianças, como garrafas pet, caixas de papelão, papeis diversos, barbantes. As professoras realizaram perguntas: o que eram aqueles objetos? se conheciam e para que serviam? Será que podem ser utilizados em outra coisa? Foi proposto a brincadeira da imaginação e criatividade: O que pode ser inventado com esses materiais? Pode ser reutilizado?
Depois da conversa inicial, as professoras deixaram as crianças manusear os materiais e aproveitaram para apresentar as propostas, partindo para a tecedura do brinquedo, encerrando com as crianças totalmente livres para brincarem como desejassem.
Na creche III, faixa etária de 3 anos, a turma com 12 (doze) crianças matriculadas, foram as mais espontâneas, demonstrando-se entusiasmadas pelas suas produções, as garrafinhas sensoriais, a escolha das tintas para colorir a água, os itens escolhidos para ficar dentro da garrafinha, o glitter que encantava as crianças, chegaram a falar que tratava ser pozinho mágico, devido o brilho. No instrumento Kabuletê, a participação das crianças concentrava-se em decorar, em deixar cada um do seu jeito, do seu gosto e foi uma curtição quando descobriram o som produzido pelo instrumento.
Na turma do pré I, 16 (dezesseis) crianças de 4 anos, produziram brinquedos vai e vem e bilboquê com garrafas pets de 2 litros, barbante e fitas coloridas. Nessa turma brincaram e se divertiram demais, principalmente quando foram para o pátio desfrutar de espaço mais amplo para poder movimentar-se com o brinquedo.
Na turma do pré II, 18 (dezoito) crianças de 5 anos, utilizaram anéis das tampas e garrafa pet, para brinquedos solta bolha de sabão e também fizeram brinquedos diversos com caixas de sapato, como: bonecos, robôs, carrinhos. A possibilidade de criar várias bolhas de sabão de diversos tamanhos, e brincar com a imaginação a partir das bolhas espalhadas no ambiente proporcionou momentos de muita alegria e diversão.
A cada momento surgiam registros das diversas observações que marcavam a experiência, onde tiveram a oportunidade de (a)colher muitas informações e curiosidades importantes sobre as histórias das crianças envolvidas. O entusiasmo, a ansiedade, a forma como procurava achar sua linha de fuga para colocar em pratica seus desejos. E como todos gostaram muito do processo, foi decidido em conjunto, expor a produção para todo turno da escola.
Imagem 1. Produção e descoberta
Encontros agradáveis e proveitosos, que produziram aprendizados significativos (Imagem 1), no próximo tópico, mais detalhes sobre os resultados obtidos.
4. EXPERIÊNCIAS INFANTIS
Segundo Leite (2011, p. 28) “... os modos de conceber a infância estão diretamente relacionados aos modos de lidar com a criança, e esses por sua vez acabavam indicando formas de pensar e refletir a infância.” Dessa forma, propor educação experiência na infância, fazem circular possibilidades, construídas por relações de intensidades, onde todo o processo, precisa da atenção e importância devida.
Pensando numa educação como explicita Leite (2011, p. 56) “produtora de cultura e subjetividades” após a realização da experiência, houve exposição do material produzido no pátio da escola, para as demais turmas apreciarem, não pelo produto final, mas pelo incentivo às criações. A experiência evidenciou que as crianças dão valor as produções, são super criativas e entendem que é possível aprender brincando, acenando pistas para refletir aprendizagens outras.
A proposta pedagógica evidenciou dificuldades na coleta de materiais recicláveis. Foram enviados bilhetes aos pais e responsáveis, com a explicação que seria relevante para o desenvolvimento da atividade pedagógica, e mesmo assim, tivemos os desafios. Solicitamos ajuda dos servidores da escola, para coletar material suficiente para realizar atividade com as crianças.
Uma das professoras sugeriu construir uma casinha do brincar com as crianças, utilizando embalagem de caixinha de leite, entretanto não houve contribuição suficiente, por esse motivo, a turma teve que confeccionar brinquedos com caixas de sapato e bolhas de sabão.
A experiência possibilitou aprendizagens outras como reaproveitar materiais recicláveis, criatividade, desconstrução de pensamentos de materiais considerados lixo, também os encorajou a colocar idéias em prática, decorar seu brinquedo do jeito que queria, e o fortalecimento do trabalho em equipe. Foram utilizados para decorar os brinquedos, materiais que tinham na escola: tinta guache, cola colorida, canetinhas, glitter, barbantes.
Nessa proposta também validamos a necessidade de romper com padrões do brincar somente com brinquedo comprado, e partimos para o propósito de que a criança pode produzir, criar seus brinquedos, seja por curiosidade ou por interesse, o importante é a criatividade em suas produções.
A felicidade de poder brincar com o que produziu demonstrou que o sucesso da experiência foi muito além do resultado, se tornando marcante para as crianças envolvidas, percebemos o orgulho e entusiasmo em brincar e mostrar o brinquedo com as falas: “Tia, olha o brinquedo que eu fiz!”, “É rosa, porque eu gosto de rosa!” ou “Minha mãe vai gostar de ver o meu brinquedo, foi eu que fiz!”, “É do Homem-Aranha!”
Vale ressaltar que o trabalho foi possível porque a escola tem uma equipe empenhada e comprometida, onde pudemos constatar que isso é um diferencial para a educação, o quanto as linguagens artísticas, bem como as produções são importantes para o desenvolvimento e aprendizagem infantil.
As crianças participaram entusiasmadas e observamos que se sentiram valorizados com a atenção e escuta sensível, e por terem a oportunidade de expressar sobre si, através de suas criações. Em suas narrativas, trouxeram situações de convivência familiar, gostos e preferências de cores, super heróis, princesas, entre outros, comunicando suas idéias e seus posicionamentos diante do mundo, mostrando suas percepções e a forma como elaboram suas experiências de vida.
A conexão afetiva entre os envolvidos - rizoma, demonstrou-se fator bastante relevante na experiência, essa conexão se torna uma aliança, entre a criação e interação, em movimentos transversais onde qualquer ponto pode ser conectado a outro, como Deleuze; Parnet (1998, p.36) expõe: “Há linhas que não se reduzem ao trajeto de um ponto, e escapam da estrutura, linhas de fuga, devires...”, representando um modelo não linear e descentralizado, onde as conexões podem ser feitas de qualquer ponto a qualquer outro, sem um centro fixo.
Quando uma criança chegava para abraçar os participantes na experiência, vinham vários abraçar também, se tornando abraço coletivo. Nesse movimento espontâneo das crianças, quem poderia prever tais atitudes? Foi o desejo que moveu e produziu, e esse desejo não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural, e isso chama-se rizoma. Como afirma Deluze e Guattari (1995) “A questão é produzir inconsciente e, com ele, novos enunciados, outros desejos: O rizoma é esta produção de inconsciente mesmo”.
Quando a professora afirmava gostar de um personagem favorito, algumas crianças também repetiam gostar do mesmo personagem, quando outra criança começava relatar algo de casa, como: “Meu pai sabe tocar instrumento”, outras crianças sentiam a necessidade de afirmar que algum familiar também sabia tocar, mostrando que a fala influenciava os demais. Nesse sentido é importante incentivar as crianças a expressar suas visões de mundo, contribuindo assim para construção de suas identidades.
Durante a proposta, foi possível notar crianças demonstrando insegurança e receio, externados através de falas, gestos ou expressão fácil ao se depararem com o desafio de ter que construir o próprio brinquedo. Com episódios de hesitação ou resistência inicial em ter que criar algo de forma autônoma. Falas do tipo: “Eu não consigo!” com olhar acanhado, surgiram e foram incentivas pela professora, a fazerem do jeito deles, o que deu impulso ao desejo de criação.
Outras crianças ficaram observando o que colegas estavam fazendo, o que parecia ser a imitação ou repetição da proposta, mas a partir desses comportamentos, percebem-se o mapeamento de novas formas de interação, produção de sentidos e o que indicaria ser cópia do que o colega estava fazendo, passa a ser produção inédita e criativa.
Também houveram conflitos em relação ao compartilhamento dos itens a serem utilizados, com manifestação de vontades próprias do poder e desejo, que foram sendo negociadas através das reações dos colegas e em algumas situações com intermédio da professora afirmando que os objetos deveriam ser usados e compartilhados no coletivo.
Gostaríamos de estender a experiência para todas as turmas da escola, mas, infelizmente, não foi possível, devido ao grande número de crianças matriculadas, tornando inviável oferecer a atenção necessária, mesmo assim, fica a proposta de atividades que estimulem a criatividade para as que não tiveram a oportunidade de participar.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apresentamos essas considerações retomando as proposituras iniciais que buscavam romper com a proposta do brincar com algo pronto, partindo para produção do próprio brinquedo, bem como, potencializar processos de subjetivação e invenção na educação infantil utilizando materiais recicláveis , também pretendia identificar elementos e gostos pessoais que emergem na hora da criação durante as vivências; possibilitar experiências a partir da criação e do brincar e, por fim, investigar a educação infantil pela ótica da filosofia da diferença.
O principal resultado alcançado da experiência foi observar o desejo da criação e recriação de mundos e formas de pensar, demonstrados através das experiências das crianças, que revelaram aspectos muito significativos de suas histórias de vida, e pelos contextos sociais nos quais estão inseridos. Dessa forma, puderam assumir o papel de protagonistas de suas próprias histórias, na construção e constituição de si. Essas informações são importantes para que a escola conheça a realidade das crianças, com isso, proporcionar vivências educativas que estejam conectadas com a cultura e contexto social local. A abordagem mostrou-se como fundamental e potente acesso ao universo infantil.
A receptividade por parte da Gestão Escolar e professoras, em aceitar e participar de experiências no ambiente escolar da EMEI favoreceu o desenvolvimento da proposta, considerando o tempo disponibilizado para conversa e planejamento, liberdade para escolha dos brinquedos a serem produzidos, favoreceram para o engajamento da experiência.
Todo o percurso da proposta foi engrandecedor e muito válido para a produção de subjetividades. Que essa experiência possa fortalecer e incentivar mais produções plurais a respeito da criatividade na educação infantil e que o espaço escolar tenha o olhar a sensibilidade diante do mundo.
Por fim, destacamos que sempre estamos buscando linhas de fuga para as situações, na busca por estratégias que façam dar certo, com a possibilidade de fazer acontecer, mesmo que os resultados não saiam como esperado. Porém, apesar dos desafios, conseguimos de forma plural, atingir os objetivos e sugere-se intervenções educativas com planejamento de produções espontâneas e com baixo custo, como a utilização de materiais recicláveis para Educação Infantil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL, Ministério da educação, BNCC 2018
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia 2 (vol. 1, 2.ª ed.). São Paulo: Editora, 1995.
LEITE Cesar Donizetti Pereira. Infância, experiência e tempo. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011.
PASSOS Eduardo; KASTRUP Virginia; ESCOSSIA Liliana. Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade – Porto Alegre: Sulina, 2009. 207 p
1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar, Mestrado e Doutorado Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia/UNIR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar, Mestrado e Doutorado Profissional (PPGEEProf) da Universidade Federal de Rondônia/UNIR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Professor no curso de Pedagogia e no Programa de Pós-graduação em Educação Escolar, Mestrado e Doutorado Profissional (PPGEEProf). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.