REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793402350
RESUMO
O presente estudo consiste em uma revisão sistemática da literatura, baseada nas diretrizes PRISMA, que analisou os benefícios terapêuticos, os riscos farmacológicos e as implicações para a atenção farmacêutica associados ao uso de contraceptivos orais hormonais em mulheres em idade reprodutiva. Foram incluídos 26 artigos publicados entre 2012 e 2026. Os resultados mostram que, além da alta eficácia na prevenção da gravidez não planejada (prevalência de uso de 28% no Brasil), esses fármacos promovem múltiplos benefícios não contraceptivos, como o controle da acne (ação antiandrogênica), o manejo dos sintomas dolorosos da endometriose e a melhora da síndrome pré-menstrual (especialmente com drospirenona). Em contrapartida, apresentam riscos cardiovasculares e tromboembólicos, influenciados pela dose de estrogênio e pela geração do progestagênio, com destaque para maior risco de acidente vascular cerebral e infarto em grupos com fatores predisponentes (tabagismo, hipertensão e enxaqueca com aura). Além disso, identificaram-se interações medicamentosas clinicamente relevantes com anticonvulsivantes indutores da CYP3A4 e com fitoterápicos, capazes de reduzir a eficácia do método. Conclui-se que o balanço risco-benefício é altamente individualizado. Nesse cenário, a atenção farmacêutica desempenha papel essencial na promoção do uso racional e seguro, orientando sobre a escolha adequada da formulação, o manejo de esquecimentos e a prevenção de reações adversas e interações medicamentosas.
Palavras-chave: Anticoncepcionais orais; Benefícios; Riscos; Atenção farmacêutica.
ABSTRACT
This study is a systematic literature review based on PRISMA guidelines that analyzed the therapeutic benefits, pharmacological risks, and implications for pharmaceutical care associated with the use of hormonal oral contraceptives in women of reproductive age. Twenty-six articles published between 2012 and 2026 were included. The results show that, in addition to high efficacy in preventing unplanned pregnancy (prevalence of use of 28% in Brazil), these drugs offer multiple non-contraceptive benefits, such as acne control (anti-androgenic action), management of painful endometriosis symptoms, and improvement of premenstrual syndrome (especially with drospirenone). Conversely, there are cardiovascular and thromboembolic risks, influenced by estrogen dosage and progestogen generation, with a notably higher risk of stroke and myocardial infarction in groups with predisposing factors (smoking, hypertension, and migraine with aura). Furthermore, clinically relevant drug interactions with anticonvulsants (CYP3A4 inducers) and herbal medicines were identified, which reduce the method's efficacy. It is concluded that the risk-benefit balance is highly individualized. In this context, pharmaceutical care plays an essential role in promoting rational and safe use by providing guidance on the appropriate choice of formulation, management of missed doses, and prevention of adverse reactions and drug interactions.
Keywords: Oral contraceptives; Benefits; Risks; Pharmaceutical care.
1. INTRODUÇÃO
Os contraceptivos hormonais orais constituem uma das principais formas de contracepção utilizadas por mulheres em idade reprodutiva (World Health Organization, 2015). Além da finalidade contraceptiva, esses medicamentos apresentam importantes aplicações terapêuticas, sendo empregados no controle de condições ginecológicas e hormonais (Brasil, 2025). Seu uso tem sido amplamente debatido na literatura em razão dos benefícios clínicos e dos possíveis riscos associados (Andrade et al., 2023).
No Brasil, os contraceptivos hormonais orais figuram entre os métodos mais utilizados por mulheres em idade reprodutiva: dados da Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM) mostram que cerca de 28,2% das brasileiras entre 15 e 49 anos fazem uso desses medicamentos, evidenciando a ampla adesão ao método no país (Farias et al., 2016). A mesma pesquisa demonstra a facilidade de acesso a tais fármacos, tanto por meio de farmácias quanto de serviços públicos de saúde, destacando a relevância das políticas públicas e da assistência farmacêutica nesse contexto (Farias et al., 2016).
Dado o uso generalizado desses medicamentos, destaca-se a importância da atuação do farmacêutico na orientação para o uso correto e seguro, sendo o acompanhamento farmacêutico essencial para o esclarecimento de dúvidas, a identificação de possíveis interações medicamentosas e contraindicações, o monitoramento de reações adversas e a promoção da adesão ao tratamento. Dessa forma, a assistência farmacêutica exerce papel de suma importância na garantia da eficácia terapêutica e na minimização dos riscos associados ao método (Silva; Pinto, 2021).
Apesar da ampla utilização dos contraceptivos orais hormonais na prática clínica, seu uso ainda suscita debate na literatura científica em razão tanto dos benefícios terapêuticos quanto dos possíveis riscos farmacológicos que podem impactar diretamente o organismo feminino (Andrade et al., 2023). Vinciguerra et al. (2023) demonstraram que, além da eficácia contraceptiva, esses medicamentos podem ter diversas aplicações terapêuticas; contudo, seu uso pode estar associado a eventos adversos que requerem avaliação individual e acompanhamento especializado. Nesse sentido, torna-se relevante investigar os benefícios e os riscos dos contraceptivos orais em mulheres em idade reprodutiva com base na literatura científica, bem como compreender as implicações desses achados para a prática da atenção farmacêutica.
Logo, o presente estudo teve como objetivo geral analisar, por meio de uma revisão sistemática, os benefícios terapêuticos, os riscos farmacológicos e as implicações para a atenção farmacêutica relacionados ao uso de contraceptivos orais hormonais em mulheres em idade reprodutiva, com base na literatura científica publicada entre 2012 e 2026. Especificamente, buscou-se: (a) identificar os principais benefícios terapêuticos descritos na literatura; (b) descrever os principais riscos farmacológicos, efeitos adversos e interações medicamentosas relacionados ao uso desses medicamentos; (c) analisar o balanço entre benefícios e riscos com base nas evidências selecionadas; e (d) discutir a importância da atenção farmacêutica na promoção do uso seguro e racional dos contraceptivos orais hormonais.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Farmacologia dos Contraceptivos
Os contraceptivos orais hormonais constituem um dos métodos contraceptivos mais utilizados mundialmente. Esses medicamentos são formulados a partir de hormônios sintéticos e atuam na regulação dos mecanismos fisiológicos da reprodução feminina. Quanto à composição, classificam-se em contraceptivos hormonais combinados, que contêm estrogênio e progestagênio, e contraceptivos exclusivamente de progestagênio, denominados minipílulas. Devido à elevada eficácia, à ampla disponibilidade e à diversidade de formulações, os anticoncepcionais orais são amplamente utilizados por mulheres em idade reprodutiva, tanto para a prevenção de gestação indesejada quanto para o manejo de condições patológicas (World Health Organization, 2015).
Os contraceptivos orais combinados associam um estrogênio a um progestagênio e representam a categoria mais utilizada na prática clínica. As minipílulas contêm apenas um componente hormonal e constituem alternativa para mulheres com contraindicação ao uso de estrogênio, como lactantes, hipertensas e tabagistas acima de 35 anos. Ambas as categorias apresentam elevada eficácia contraceptiva quando utilizadas corretamente, diferindo principalmente na composição hormonal e em algumas indicações clínicas específicas (Ritter et al., 2025).
Entre os estrogênios sintéticos, o etinilestradiol é o mais utilizado nas formulações contraceptivas, embora preparações mais recentes empreguem estradiol ou seus derivados. Os progestagênios são substâncias sintéticas desenvolvidas para reproduzir os efeitos da progesterona natural, sendo responsáveis por parte da atividade contraceptiva. Diferentes progestagênios podem ser empregados nas formulações, com características farmacológicas específicas que influenciam a eficácia, a segurança e o perfil de efeitos adversos de cada preparação (Brunton et al., 2023).
As formulações apresentam diferenças quanto à distribuição dos hormônios ao longo do ciclo de administração. Entre as apresentações mais utilizadas estão as monofásicas, bifásicas e trifásicas, geralmente disponibilizadas em cartelas de 28 dias, nas quais parte dos comprimidos contém hormônios ativos e os comprimidos finais são constituídos por substâncias inertes. Nas formulações monofásicas, as quantidades de estrogênio e progestagênio permanecem constantes durante todo o período de uso dos comprimidos ativos; nas bifásicas e trifásicas, ocorre variação programada das doses ao longo do ciclo, o que possibilita maior individualização da contracepção hormonal (Speroff; Fritz, 2011).
A diversidade de combinações hormonais e esquemas de administração possibilita a adequação às necessidades clínicas de cada paciente, ampliando sua aplicabilidade na prática assistencial (Farias et al., 2016). Apesar dos benefícios, o uso desses métodos pode estar associado à ocorrência de efeitos adversos que interferem na continuidade do tratamento, de modo que a escolha do método deve ser individualizada, considerando as características e necessidades de cada paciente (Pannain et al., 2022).
2.2. Gerações de Progestagênios
Os progestagênios atuam por meio dos receptores de progesterona e constituem um dos principais componentes dos contraceptivos hormonais orais. Ao longo do tempo, diferentes progestagênios foram sintetizados a partir de modificações estruturais da progesterona ou de seus derivados, com o intuito de aprimorar a eficácia contraceptiva e reduzir efeitos indesejados, dando origem às diferentes gerações atualmente empregadas na prática clínica (Ritter et al., 2025).
A primeira geração inclui alguns dos primeiros progestagênios utilizados, como a noretisterona e o noretinodrel. A segunda geração foi obtida com o desenvolvimento de compostos potentes, como o levonorgestrel e o norgestrel, que mantiveram alta eficácia contraceptiva e passaram a ser muito usados; por serem derivados da testosterona, ainda apresentam certo grau de atividade androgênica, embora com perfil farmacológico mais favorável do que alguns representantes da primeira geração (Burchardt et al., 2021).
Em seguida, foram desenvolvidos os progestagênios de terceira geração, entre os quais se destacam o desogestrel, o gestodeno e o norgestimato. O principal objetivo dessa geração foi diminuir os efeitos androgênicos observados nas gerações anteriores; como resultado, esses fármacos apresentam melhor perfil dermatológico, sendo associados a menor ocorrência de acne e oleosidade em determinadas pacientes (Burchardt et al., 2021). Em relação ao bem-estar e à qualidade de vida, contudo, um ensaio clínico revelou que contraceptivos de primeira e de terceira geração causam impactos semelhantes no humor de mulheres jovens, sem diferença significativa entre gerações (Zethraeus et al., 2017).
A quarta geração inclui compostos de estruturas variadas: dienogeste (derivado da 19-nortestosterona), drospirenona (derivada da espironolactona) e compostos como clormadinona e nomegestrol (derivados da progesterona/17α-hidroxiprogesterona). Esses fármacos foram desenvolvidos com o objetivo de apresentar características farmacológicas tão semelhantes quanto possível às da progesterona endógena, reduzindo a atividade androgênica e ampliando as possibilidades terapêuticas (Burchardt et al., 2021). Demonstrando a relevância clínica dessas propriedades, o uso de contraceptivos com progestagênios antiandrogênicos, como a drospirenona e o acetato de ciproterona, promoveu melhora na qualidade de vida de mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP), atenuando manifestações do hiperandrogenismo e irregularidades do ciclo menstrual (Amiri et al., 2020).
As gerações de progestagênio também diferem quanto ao risco de tromboembolismo venoso (TEV). Esses riscos estão associados principalmente à interação entre o progestagênio e o componente estrogênico dos contraceptivos combinados, especialmente o etinilestradiol, que pode promover alterações na coagulação sanguínea. De modo geral, contraceptivos com progestagênios de terceira geração apresentam risco de TEV superior ao daqueles de segunda geração com levonorgestrel, enquanto os de quarta geração, como a drospirenona, apresentam perfil de risco variável, devendo ser avaliados de acordo com as características individuais de cada paciente (Lidegaard et al., 2012). O Quadro 1 sintetiza essas características.
Quadro 1. Gerações dos progestagênios e perfil farmacológico
Geração | Progestagênio | Estrogênio | Perfil farmacológico | Risco de TEV |
1ª geração | Noretinodrel, noretisterona | Etinilestradiol (alto: 50–150 mcg) | Maior atividade androgênica; descontinuados ou raros atualmente | Alto |
2ª geração | Levonorgestrel, norgestrel | Etinilestradiol (30–40 mcg) | Atividade androgênica moderada; boa eficácia contraceptiva; menor custo | Moderado |
3ª geração | Desogestrel, gestodeno, norgestimato | Etinilestradiol (20–30 mcg) | Menor atividade androgênica; melhor perfil lipídico; maior risco de TEV que a 2ª geração | Moderado a elevado |
4ª geração | Drospirenona, dienogeste, clormadinona | Etinilestradiol (15–30 mcg) ou valerato de estradiol | Ação antiandrogênica (drospirenona); indicada em SOP e acne; novo perfil de risco | Variável |
Minipílula | Desogestrel, noretisterona (isolados) | Sem estrogênio | Indicada na amamentação, HAS, enxaqueca e tabagistas > 35 anos; menor eficácia se uso irregular | Baixo |
Fonte: Adaptado de Brunton et al. (2023) e Lidegaard et al. (2012).
Nota: TEV – tromboembolismo venoso; SOP – síndrome dos ovários policísticos; HAS – hipertensão arterial sistêmica.
Os contraceptivos exclusivamente de progestagênio (minipílulas) são uma opção para mulheres com contraindicações ao uso de estrogênios. Diferentemente dos combinados, não estão associados a eventos tromboembólicos e são indicados também para lactantes, uma vez que não interferem significativamente na produção de leite. Entretanto, seu uso pode estar relacionado a alterações no padrão de sangramento menstrual, como sangramento irregular e escape, uma das principais causas de descontinuação do tratamento (Brunton et al., 2023). As diferenças farmacológicas entre as gerações reforçam a importância do farmacêutico na identificação do perfil de risco da paciente e na avaliação de possíveis contraindicações no momento da dispensação.
2.3. Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação dos contraceptivos hormonais orais está diretamente relacionado à modulação do eixo hipotálamo-hipófise-ovário, responsável pela regulação do ciclo menstrual. Em condições fisiológicas, o hipotálamo secreta o hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), que estimula a adeno-hipófise a produzir os hormônios folículo-estimulante (FSH) e luteinizante (LH). O FSH estimula o crescimento e a maturação dos folículos ovarianos e favorece a produção de estrogênio, enquanto o LH participa da maturação folicular e desencadeia a ovulação por meio do pico característico do ciclo. A secreção de GnRH, FSH e LH é regulada por retroalimentação exercida pelos hormônios sexuais, principalmente estrogênios e progestagênios (Ritter et al., 2025).
A inibição da ovulação constitui o principal mecanismo de ação dos contraceptivos orais hormonais. Os progestagênios reduzem a frequência dos pulsos hipotalâmicos de GnRH, suprimindo o pico de LH hipofisário; a ausência ou diminuição significativa desse pico impede a maturação folicular adequada e a liberação do óvulo. Além desse efeito central, os progestagênios tornam o muco cervical mais espesso e menos permeável, dificultando a passagem dos espermatozoides, e modificam o endométrio, tornando-o menos receptivo à implantação (Brunton et al., 2023). Evidências demonstram que a eficácia desse mecanismo se mantém mesmo em esquemas terapêuticos complexos, como na coadministração do antineoplásico zanubrutinibe com etinilestradiol e levonorgestrel (Jurczak et al., 2020).
2.4. Benefícios Terapêuticos
Os contraceptivos orais combinados representam um dos métodos mais eficazes para a prevenção da gravidez não planejada, contribuindo para o planejamento reprodutivo e para a autonomia da mulher na decisão sobre a gestação. Sua efetividade, entretanto, pode ser influenciada pela adesão ao tratamento e por interações medicamentosas que alteram o metabolismo hormonal (Li et al., 2023).
Além da eficácia contraceptiva, esses medicamentos podem proporcionar controle do ciclo menstrual e redução dos sintomas pré-menstruais. Formulações com drospirenona associada ao etinilestradiol contribuem para a melhora das manifestações físicas e emocionais da tensão pré-menstrual, reduzindo seu impacto na produtividade diária (Fu et al., 2014). Adicionalmente, o uso em regime estendido tem sido associado à redução de sintomas menstruais, como cólicas e cefaleia, e à alta satisfação das usuárias (Nappi et al., 2018).
Os contraceptivos orais combinados também se apresentam como alternativa para o controle dos sintomas da endometriose, principalmente da dor pélvica e da dismenorreia. Em comparação ao dienogeste, o contraceptivo contendo etinilestradiol e drospirenona apresentou efeito semelhante no alívio da dor pélvica e na melhora da qualidade de vida (El Taha et al., 2021). No manejo pós-operatório, ensaios clínicos mostram que o contraceptivo oral combinado proporciona controle da dor equivalente ao de progestagênios de longa duração em acompanhamento de três anos, consolidando a pílula como opção de primeira linha na prevenção de recidivas dolorosas (Cooper et al., 2024).
No controle da acne, Moubasher et al. (2020) avaliaram, em ensaio clínico randomizado, o uso de levonorgestrel associado ao etinilestradiol em comparação ao levonorgestrel isolado durante seis meses, observando redução significativa dos níveis séricos de testosterona livre e do escore de acne no grupo que utilizou a associação. Por fim, os contraceptivos orais hormonais desempenham papel relevante no manejo da síndrome dos ovários policísticos, principalmente quando associados à metformina em mulheres com excesso de peso, favorecendo o controle dos sintomas e a melhora da resistência à insulina e do perfil metabólico (Dokras et al., 2025).
2.5. Riscos Farmacológicos
O uso de contraceptivos orais combinados, principalmente aqueles que contêm etinilestradiol, está associado a alterações fisiológicas que podem aumentar o risco de eventos tromboembólicos. O componente estrogênico estimula a síntese hepática de proteínas envolvidas na coagulação, promovendo um estado pró-coagulante dose-dependente. Em mulheres saudáveis e não fumantes, ocorre concomitante aumento da atividade fibrinolítica, que contribui para o equilíbrio hemostático; esse mecanismo, porém, encontra-se reduzido em fumantes, elevando o risco de complicações cardiovasculares (Brunton et al., 2023).
Os contraceptivos também estão relacionados à indução de alterações endoteliais, inflamatórias e metabólicas, como aumento da endotelina, do peroxinitrito e da angiotensina II, intensificação do estresse oxidativo e da resistência à insulina, além de redução da produção de óxido nítrico e prostaciclina. Em conjunto, essas modificações favorecem um estado vasoconstritor e inflamatório, aumentando a suscetibilidade a lesões cardiovasculares e à progressão da aterosclerose (Gomes et al., 2022). Em pacientes com SOP, o uso prolongado não alterou peso corporal, glicemia de jejum e pressão arterial, mas formulações com progestagênios de terceira e quarta geração induziram elevações mais rápidas de triglicerídeos e colesterol em comparação ao acetato de ciproterona, demandando monitoramento periódico (Amiri et al., 2017).
O risco de acidente vascular cerebral (AVC) associado aos contraceptivos combinados está diretamente relacionado à dose de estrogênio. As primeiras formulações, com concentrações elevadas, apresentavam maior incidência de eventos tromboembólicos e cerebrovasculares; a redução progressiva da dose resultou em menor ocorrência de trombose venosa, embolia pulmonar e AVC. Ainda assim, os contraceptivos de baixa dose não são isentos de riscos, sobretudo em mulheres com fatores predisponentes, como tabagismo, hipertensão arterial e histórico de doenças cardiovasculares (Lidegaard et al., 2012).
Quanto a outros efeitos adversos, em estudo multicêntrico com 1.921 mulheres, 12,9% relataram reações durante o uso de contraceptivo com drospirenona e etinilestradiol, sendo as mais frequentes náusea, dor mamária e aumento das mamas, com redução do sangramento intracíclico ao longo dos ciclos (Sun et al., 2020). Em lesões endometrióticas, observou-se que, mesmo com alívio sintomático, os hormônios exógenos podem interferir na expressão de fatores pró-angiogênicos, como VEGF e FGF, na vascularização dessas lesões (Siampalis et al., 2025).
2.6. Interações Medicamentosas
As interações medicamentosas podem modificar a eficácia e a segurança dos contraceptivos hormonais, ocorrendo quando um fármaco altera a ação de outro por mecanismos farmacocinéticos ou farmacodinâmicos. Processos de indução enzimática podem reduzir as concentrações plasmáticas dos hormônios e, consequentemente, a eficácia contraceptiva (Sarayani et al., 2021). Um dos principais mecanismos envolvidos é a indução do sistema citocromo P450, especialmente da isoenzima CYP3A, responsável pela metabolização dos esteroides contraceptivos. Além disso, alguns antibióticos, como rifampicina e rifabutina, têm sido relacionados à alteração da microbiota intestinal, interferindo na circulação entero-hepática do estrogênio e reduzindo a reabsorção da forma ativa do hormônio (Turcato; Correa, 2017).
Entre as interações de maior relevância destacam-se aquelas com antiepilépticos indutores enzimáticos, como a carbamazepina, que aumentam o metabolismo dos hormônios contraceptivos por meio da indução da CYP3A4, elevando o risco de falha contraceptiva e de gestação não planejada (Sarayani et al., 2021). Os fitoterápicos também podem interferir na eficácia do método; entre eles, destaca-se a erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), cujo uso concomitante pode reduzir a atividade contraceptiva, devendo ser cuidadosamente avaliado (Grünenthal do Brasil, 2025; Brasil, 2022).
Além das interações com fármacos clássicos e produtos naturais, é fundamental avaliar o impacto da coadministração de novos agentes terapêuticos sobre a farmacocinética dos contraceptivos. Iavarone et al. (2026) avaliaram, em ensaio de fase I, o potencial de interação de um novo agente antituberculoso com contraceptivo oral combinado, ilustrando a necessidade de supervisão farmacêutica diante do surgimento ou agravamento de efeitos hormonais. Por outro lado, nem toda coadministração compromete a eficácia: a iclepertina manteve os parâmetros farmacocinéticos do etinilestradiol e do levonorgestrel dentro dos limites de bioequivalência (Madari et al., 2025), assim como o abrocitinibe (Yuan et al., 2024) e o zanubrutinibe (Jurczak et al., 2020), que resultaram em alterações mínimas e clinicamente irrelevantes na exposição hormonal.
2.7. Papel do Farmacêutico
A contracepção constitui importante recurso para o planejamento reprodutivo e para a prevenção de gestações não planejadas. A orientação farmacêutica pode ampliar o acesso às informações sobre os métodos contraceptivos, auxiliando as mulheres na escolha e na utilização adequada desses medicamentos. Evidências demonstram que o aconselhamento realizado por farmacêuticos está relacionado ao acesso e à dispensação de contraceptivos (Abrams; Look, 2023), e que o fornecimento de informações estruturadas no momento da orientação melhora a compreensão das usuárias, favorecendo a adesão e prevenindo falhas (Serfaty et al., 2016).
O farmacêutico atua também na orientação sobre a contracepção de emergência decorrente de falhas de uso, considerando opções como o levonorgestrel e o acetato de ulipristal (Creinin et al., 2015). Para promover a adesão contínua, as intervenções devem direcionar estratégias de mudança de comportamento que atuem na capacidade de compreensão, no acesso e na motivação para o uso correto e diário do medicamento (Michie; Van Stralen; West, 2014).
Na orientação farmacêutica é essencial, ainda, o manejo de situações que podem comprometer a eficácia do método, como o esquecimento de comprimidos ou a ocorrência de vômitos e diarreia logo após a administração. Nesses casos, o farmacêutico deve orientar a conduta adequada, considerando o intervalo desde o esquecimento, a semana da cartela e o tipo de contraceptivo utilizado, uma vez que essas condições determinam a necessidade de métodos adicionais ou, quando indicado, da contracepção de emergência; vômitos e diarreia persistentes logo após a ingestão devem ser conduzidos de forma semelhante ao esquecimento da dose (Centers for Disease Control and Prevention, 2024).
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão sistemática conduzida segundo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), com o objetivo de identificar, analisar e sintetizar as evidências científicas acerca dos benefícios terapêuticos, dos riscos farmacológicos e das implicações para a atenção farmacêutica relacionados ao uso de contraceptivos orais hormonais em mulheres em idade reprodutiva. A pergunta norteadora foi: quais os benefícios terapêuticos e os riscos farmacológicos associados ao uso de contraceptivos orais hormonais em mulheres em idade reprodutiva, e quais as implicações desses achados para a prática da atenção farmacêutica?
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). No PubMed, utilizou-se a estratégia ("oral contraceptives" OR "oral contraceptive agents") AND ("treatment" OR "therapy" OR "therapeutic use"); na LILACS e na SciELO, ("anticoncepcionais orais" OR "contraceptivos orais") AND ("tratamento" OR "terapia" OR "uso terapêutico"). Em todas as bases, foram aplicados filtros de tipo de estudo (Clinical Trial, Randomized Controlled Trial, Observational Study, Cohort Study), a fim de priorizar estudos primários e reduzir a captação de artigos de revisão.
Foram incluídos artigos publicados entre 2012 e 2026, disponíveis na íntegra, em português e inglês, compreendendo estudos originais, metanálises, ensaios clínicos e estudos de farmacovigilância que abordassem contraceptivos orais hormonais combinados ou de progestagênio isolado, desde que relacionados aos benefícios terapêuticos, aos riscos farmacológicos, às interações medicamentosas ou à atuação da atenção farmacêutica em mulheres em idade reprodutiva. Foram excluídos artigos publicados antes de 2012, estudos fora do tema proposto, que avaliavam exclusivamente outros métodos contraceptivos, relatos de caso sem relevância farmacológica, estudos experimentais em animais, artigos de opinião, artigos de revisão (narrativa, integrativa ou sistemática) e estudos que não respondiam à pergunta norteadora.
A seleção seguiu as etapas recomendadas pelo PRISMA 2020: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. Na identificação, foram localizados 363 registros (340 no PubMed, 18 na LILACS e 5 na SciELO), sem duplicidades entre as bases. Os 363 registros foram submetidos à triagem por título e resumo, com exclusão de 273 estudos que não atendiam aos critérios de inclusão. Em seguida, 90 artigos foram avaliados na íntegra, dos quais 64 foram excluídos por consistirem em revisões de literatura, pesquisas sem amostra primária ou por abordarem desfechos não farmacológicos. Ao final, 26 artigos compuseram a amostra definitiva (Figura 1).
Figura 1. Fluxograma do processo de seleção dos estudos segundo o modelo PRISMA 2020
As informações extraídas dos estudos selecionados compreenderam autor, ano de publicação, delineamento metodológico, população estudada, objetivos, benefícios terapêuticos, riscos farmacológicos e interações medicamentosas. Posteriormente, os dados foram organizados em categorias temáticas e analisados de forma descritiva e comparativa, permitindo a síntese das principais evidências científicas.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Caracterização dos Estudos Incluídos
A partir do processo de seleção descrito, foram incluídos 26 artigos científicos. Quanto ao delineamento, predominaram os ensaios clínicos randomizados e/ou controlados (n = 10; 38,5%), seguidos dos ensaios de fase I com foco farmacocinético (n = 4) e dos estudos observacionais transversais (n = 4), conforme apresentado na Figura 2. As amostras variaram de 14 participantes, em estudo crossover, a mais de 1,6 milhão de mulheres, em coorte nacional dinamarquesa. A Tabela 1 apresenta a síntese dos estudos, com autor/ano, tipo de estudo, tamanho amostral, objetivo e principais resultados.
Figura 2. Distribuição dos estudos incluídos segundo o delineamento metodológico (n = 26)
Tabela 1. Síntese dos artigos incluídos na revisão sistemática
Autor / Ano | Tipo de estudo | Amostra | Objetivo | Principais resultados |
Abrams e Look (2023) | Observacional transversal | 1.093 mulheres em idade reprodutiva | Avaliar a relação entre aconselhamento contraceptivo e dispensação de contraceptivos por farmacêuticos comunitários | Entre as 270 mulheres que receberam aconselhamento, 37,4% receberam contraceptivos; aconselhamento e escolaridade associaram-se à dispensação, destacando o papel do farmacêutico no acesso |
Amiri et al. (2017) | Metanálise | 30 mulheres com SOP | Avaliar o efeito de 3 meses de contraceptivo combinado na expressão de receptores de andrógenos | Redução significativa da expressão dos receptores de andrógenos, demonstrando mecanismo de ação local |
Amiri et al. (2020) | Ensaio clínico | 88 mulheres | Comparar, em 6 meses, LNG versus progestagênios de nova geração (DSG, CPA e DRSP) na qualidade de vida de mulheres com SOP | DSG, CPA e DRSP mostraram não inferioridade em relação ao LNG; após seis meses, usuárias de CPA tiveram melhora mais significativa no escore de qualidade de vida |
Burchardt et al. (2021) | Coorte prospectiva | 107.069 mulheres | Avaliar associações entre formulações de contraceptivos orais e risco de câncer endometrial | Diferenças no risco de câncer endometrial conforme as formulações e os tipos de progestagênio |
Cooper et al. (2024) | Ensaio clínico randomizado | Mulheres em acompanhamento pós-cirúrgico de endometriose | Avaliar a terapia supressiva contínua com contraceptivos orais na dor e na recorrência da endometriose | A terapia contínua de longo prazo reduziu as taxas de recidiva da dor e de novas lesões, mantendo a qualidade de vida após a cirurgia |
Creinin et al. (2015) | Ensaio clínico randomizado | 1.503 mulheres em idade fértil | Avaliar a adesão autorrelatada e a adesão real verificada no uso de contraceptivo oral | Discrepância significativa: a falta de adesão real foi muito maior do que a relatada no diário |
Dokras et al. (2025) | Ensaio clínico randomizado duplo-cego (fase III) | 240 mulheres com SOP e sobrepeso/obesidade (18–40 anos) | Avaliar contraceptivo oral de baixa dose associado à metformina no tratamento da SOP | O contraceptivo combinado tratou os sintomas e melhorou a resistência à insulina |
El Taha et al. (2021) | Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, paralelo | 70 mulheres | Comparar dienogeste e contraceptivo combinado na dor pélvica, dismenorreia, dispareunia e qualidade de vida na endometriose | Ambos reduziram a dor e melhoraram a qualidade de vida; eficácia comparável, com melhor tolerabilidade do dienogeste |
Farias et al. (2016) | Transversal de base populacional | 20.404 domicílios (mulheres de 15 a 49 anos, não gestantes) | Avaliar a utilização e o acesso aos contraceptivos orais no Brasil | Prevalência de 28,2% de uso; acesso principalmente por compra em farmácias; monofásicos foram os mais utilizados |
Fu et al. (2014) | Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo | 187 mulheres | Avaliar eficácia e segurança de DRSP + etinilestradiol no transtorno disfórico pré-menstrual | Redução dos sintomas do TDPM; eventos adversos incluíram sangramento intermenstrual, menorragia e náusea |
Gomes et al. (2022) | Estudo crossover | 14 mulheres | Avaliar efeitos do exercício físico sobre o perfil lipídico e inflamatório de usuárias de contraceptivos combinados | O treinamento intervalado de alta intensidade melhorou o perfil lipídico e reduziu marcadores inflamatórios |
Iavarone et al. (2026) | Ensaio clínico de fase I | 20 mulheres | Avaliar interação medicamentosa farmacocinética | Avaliou o potencial de interação de novo antituberculoso sobre a farmacocinética dos contraceptivos orais |
Jurczak et al. (2020) | Ensaio clínico aberto | 22 mulheres | Avaliar o efeito do zanubrutinibe na farmacocinética de etinilestradiol e levonorgestrel | Alterações mínimas na exposição hormonal; coadministração segura, sem comprometer a eficácia |
Lidegaard et al. (2012) | Coorte nacional prospectiva | 1.626.158 mulheres | Avaliar a associação entre uso de contraceptivos e risco de AVC trombótico | Uso associado a maior risco de AVC e infarto agudo do miocárdio, principalmente com maiores doses de estrogênio |
Louw-du Toit et al. (2017) | Experimental in vitro | 9 progestagênios | Comparar propriedades androgênicas e estrogênicas de progestagênios usados em contracepção | Progestagênios de 1ª a 3ª geração apresentaram atividade androgênica; progesterona e alguns de 4ª geração, propriedades antiandrogênicas |
Madari et al. (2025) | Ensaio clínico de fase I | 19 mulheres saudáveis em idade fértil | Analisar o impacto da iclepertina na farmacocinética do contraceptivo combinado | Parâmetros farmacocinéticos mantidos dentro dos limites de bioequivalência |
Michie et al. (2014) | Ensaio clínico randomizado | 168 mulheres em 11 farmácias comunitárias | Avaliar intervenções de farmacêuticos comunitários na contracepção de emergência e no início de uso de contraceptivo | Oferta de cartela de progestagênio ou encaminhamento direto elevou a adoção de método eficaz (56% e 52%) frente ao atendimento padrão (16%) |
Moubasher et al. (2020) | Ensaio clínico randomizado, controlado, prospectivo | 80 mulheres | Avaliar LNG + etinilestradiol versus LNG isolado no tratamento da acne e do hirsutismo | Após 6 meses, a associação reduziu significativamente testosterona livre e escore de acne |
Nappi et al. (2018) | Observacional transversal | Usuárias de contraceptivo oral combinado | Avaliar adesão, satisfação e alívio de sintomas no regime estendido | Regime estendido reduziu cólicas e cefaleia, com alta satisfação; transtornos mentais e consumo de álcool de risco associaram-se a sintomas de humor |
Pannain et al. (2022) | Observacional | 536 mulheres | Avaliar a percepção de efeitos adversos dos métodos contraceptivos e a continuidade do tratamento | 122 mulheres (34,8%) interromperam o uso por efeitos adversos, reforçando a escolha individualizada do método |
Sarayani et al. (2021) | Coorte retrospectiva de base populacional | 108.741 episódios de uso concomitante | Avaliar falha contraceptiva com antiepilépticos indutores e não indutores enzimáticos | Carbamazepina associada a maior taxa de falha em comparação a lamotrigina ou levetiracetam |
Serfaty et al. (2016) | Intervencional prospectivo de educação ao paciente | Novas usuárias de contraceptivos orais | Avaliar ferramentas educativas no conhecimento e no uso correto do contraceptivo | A estratégia educativa (funcionamento, manejo de esquecimentos e tolerabilidade) promoveu maior segurança no uso |
Siampalis et al. (2025) | Ensaio clínico | 60 mulheres com endometriose | Avaliar a ação do contraceptivo combinado na angiogênese das lesões endometrióticas | Alívio dos sintomas clínicos, com inibição da angiogênese no tecido lesionado |
Sun et al. (2020) | Intervencional multicêntrico, aberto, braço único, pós-autorização | 1.921 mulheres | Avaliar segurança e eficácia de DRSP 3 mg + etinilestradiol 20 µg | 12,9% relataram reações adversas (náusea 2,6%; dor mamária 2,3%; aumento das mamas 1,3%); sem eventos tromboembólicos |
Yuan et al. (2024) | Ensaio clínico de fase I | Mulheres saudáveis em uso de contraceptivo combinado | Avaliar o efeito do abrocitinibe na farmacocinética de etinilestradiol e levonorgestrel | Sem interação farmacocinética clinicamente relevante; eficácia contraceptiva assegurada |
Zethraeus et al. (2017) | Ensaio clínico randomizado | 340 mulheres | Avaliar o efeito de contraceptivo combinado (LNG/etinilestradiol) na qualidade de vida e saúde mental | Leve redução no bem-estar geral, na energia e no autocontrole |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
Nota: SOP – síndrome dos ovários policísticos; LNG – levonorgestrel; DSG – desogestrel; CPA – acetato de ciproterona; DRSP – drospirenona; TDPM – transtorno disfórico pré-menstrual; AVC – acidente vascular cerebral.
Para facilitar a interpretação, os estudos foram agrupados em quatro eixos temáticos, apresentados no Quadro 2, que orientam a discussão a seguir.
Quadro 2. Organização temática dos estudos incluídos
Eixo temático | Principais achados | Estudos |
Benefícios terapêuticos | Controle da dor e da recorrência da endometriose; melhora da acne e do hiperandrogenismo; manejo da SOP e da resistência à insulina; alívio do TDPM e de sintomas menstruais | Cooper et al. (2024); El Taha et al. (2021); Siampalis et al. (2025); Moubasher et al. (2020); Amiri et al. (2017, 2020); Dokras et al. (2025); Fu et al. (2014); Nappi et al. (2018) |
Riscos e efeitos adversos | AVC e infarto, sobretudo com doses maiores de estrogênio; risco de câncer endometrial variável por formulação; efeitos adversos que levam à descontinuação; impacto no bem-estar | Lidegaard et al. (2012); Burchardt et al. (2021); Sun et al. (2020); Pannain et al. (2022); Zethraeus et al. (2017); Gomes et al. (2022); Louw-du Toit et al. (2017) |
Interações medicamentosas | Falha contraceptiva com carbamazepina; ausência de interação relevante com novos fármacos avaliados em fase I | Sarayani et al. (2021); Jurczak et al. (2020); Madari et al. (2025); Yuan et al. (2024); Iavarone et al. (2026) |
Atenção farmacêutica e adesão | Aconselhamento associado à dispensação; educação melhora o uso correto; discrepância entre adesão relatada e real; intervenções em farmácias elevam a adoção de métodos eficazes | Abrams e Look (2023); Serfaty et al. (2016); Creinin et al. (2015); Michie et al. (2014); Farias et al. (2016) |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026), a partir dos estudos incluídos.
4.2. Benefícios Terapêuticos
Dos 26 artigos incluídos, observou-se que os principais benefícios terapêuticos dos contraceptivos orais hormonais foram a elevada eficácia contraceptiva, a melhora de sintomas ginecológicos e da acne, a redução da dismenorreia, o controle do sangramento menstrual e o manejo da endometriose. Também foram relatados benefícios relacionados à melhora da qualidade de vida e à redução de marcadores inflamatórios em mulheres em idade reprodutiva usuárias desses medicamentos.
Os estudos mostram consenso quanto aos benefícios que ultrapassam a finalidade contraceptiva (Amiri et al., 2020). As evidências indicam contribuição para o manejo da endometriose (Cooper et al., 2024; El Taha et al., 2021), da acne (Moubasher et al., 2020) e do transtorno disfórico pré-menstrual (Fu et al., 2014), com melhora dos sintomas e da qualidade de vida. Esses efeitos relacionam-se à modulação hormonal promovida pelos contraceptivos, que suprime a ovulação, estabiliza o ciclo menstrual e reduz a atividade androgênica de determinadas formulações (Louw-du Toit et al., 2017). Em conjunto, essas evidências reforçam que os contraceptivos orais hormonais constituem importante opção terapêutica, desde que sua indicação se baseie na avaliação individualizada das necessidades de cada mulher (Amiri et al., 2020; Cooper et al., 2024).
4.3. Riscos Farmacológicos
Em relação aos riscos, os estudos mostram aumento do risco de eventos tromboembólicos, acidente vascular cerebral e infarto agudo do miocárdio em grupos específicos, além de efeitos adversos como náuseas, cefaleia, sangramento irregular e mastalgia. Também foram identificadas interações medicamentosas com anticonvulsivantes, antibióticos e fitoterápicos capazes de reduzir a eficácia contraceptiva.
Alguns estudos apresentam dados quantitativos relevantes. Farias et al. (2016), com 20.404 mulheres, identificaram prevalência de 28,2% de uso de contraceptivos orais, sendo os monofásicos os mais utilizados. Lidegaard et al. (2012), em coorte com 1.626.158 mulheres, mostraram associação entre o uso de contraceptivos hormonais e maior risco de AVC e infarto agudo do miocárdio, principalmente com formulações de maiores doses de estrogênio. Gomes et al. (2022), em estudo crossover com 14 mulheres, observaram que o treinamento físico intervalado melhorou o perfil lipídico e inflamatório de usuárias, sugerindo estratégia complementar de redução do risco cardiovascular.
As principais complicações descritas envolvem eventos tromboembólicos e cardiovasculares, especialmente em mulheres com fatores predisponentes, como tabagismo, hipertensão arterial, enxaqueca com aura e idade avançada, o que evidencia a necessidade de avaliação clínica antes da escolha do método (Lidegaard et al., 2012). Além disso, efeitos adversos como náuseas, sangramento irregular e mastalgia, embora geralmente leves, podem comprometer a adesão: no estudo de Pannain et al. (2022), 34,8% das mulheres interromperam o uso por esse motivo. Dessa forma, a segurança dos contraceptivos orais depende não apenas das características do medicamento, mas também do perfil clínico de cada paciente.
4.4. Balanço Risco-Benefício e Interações Medicamentosas
A comparação entre os estudos evidencia que benefícios e riscos variam de acordo com a formulação utilizada e com as características clínicas das usuárias. Enquanto estudos como o de Cooper et al. (2024) destacam resultados favoráveis no tratamento da endometriose, outros demonstram que determinadas formulações, principalmente aquelas com maiores doses de estrogênio ou usadas por mulheres com fatores predisponentes, estão associadas ao aumento de eventos cardiovasculares e tromboembólicos (Lidegaard et al., 2012). Esses achados não são contraditórios, mas complementares, uma vez que o resultado terapêutico depende da avaliação individual, da escolha adequada da formulação e do acompanhamento clínico durante o tratamento (Amiri et al., 2020).
Outro aspecto importante refere-se às interações medicamentosas, que podem comprometer a eficácia e aumentar o risco de gestações não planejadas. Sarayani et al. (2021) demonstraram que medicamentos indutores enzimáticos, especialmente anticonvulsivantes como a carbamazepina, aceleram o metabolismo dos hormônios contraceptivos, associando-se a maior taxa de falha. Por outro lado, estudos farmacocinéticos mostram que outros fármacos concomitantes não afetam de forma relevante o metabolismo contraceptivo (Jurczak et al., 2020; Madari et al., 2025; Yuan et al., 2024), o que reforça a necessidade de avaliação caso a caso, e não de restrições generalizadas.
4.5. Implicações para a Atenção Farmacêutica
Os resultados desta revisão evidenciam a importância da atenção farmacêutica para promover o uso seguro e racional dos contraceptivos orais hormonais. De acordo com Abrams e Look (2023), o farmacêutico desempenha papel fundamental no acesso e na orientação quanto ao uso correto, na identificação de contraindicações, no reconhecimento de possíveis interações medicamentosas e no monitoramento de efeitos adversos (Serfaty et al., 2016). Esse profissional contribui ainda para o esclarecimento de dúvidas, o fortalecimento da adesão e a prevenção de falhas terapêuticas (Creinin et al., 2015), de modo que sua atuação vai além da dispensação, constituindo estratégia essencial para a promoção da saúde e da segurança das pacientes.
Embora os estudos incluídos forneçam evidências relevantes, algumas limitações devem ser consideradas. Os artigos apresentam diferentes delineamentos, populações e objetivos, o que dificulta a comparação direta, e a diversidade das formulações hormonais e dos desfechos investigados pode influenciar a interpretação dos achados. Apesar disso, os estudos analisados permitiram reunir evidências consistentes sobre os principais benefícios, riscos e implicações para a atenção farmacêutica relacionados ao uso dos contraceptivos orais hormonais.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão sistemática analisou os benefícios terapêuticos, os riscos farmacológicos e as implicações para a atenção farmacêutica relacionados ao uso de contraceptivos orais hormonais em mulheres em idade reprodutiva. A análise permitiu compreender que esses medicamentos desempenham papel importante tanto na prevenção da gravidez não planejada quanto no tratamento de diferentes condições clínicas, constituindo estratégia terapêutica amplamente utilizada.
O balanço entre benefício e risco mostra-se favorável quando o uso é adequado e a indicação se baseia na avaliação clínica individualizada. Entre os principais benefícios destacam-se a elevada eficácia contraceptiva, o controle do ciclo menstrual e a melhora da dismenorreia, da acne, da síndrome pré-menstrual e da endometriose, com reflexos na qualidade de vida. Por outro lado, foram identificados riscos de eventos tromboembólicos e cardiovasculares em grupos específicos, efeitos adversos e interações medicamentosas capazes de comprometer a eficácia contraceptiva, o que exige que a decisão pelo uso respeite as características clínicas, os fatores predisponentes e as necessidades de cada paciente.
A avaliação do perfil clínico da mulher — idade, comorbidades, fatores de risco cardiovascular, uso concomitante de medicamentos e objetivos terapêuticos — deve ser parte essencial da escolha do método, permitindo maximizar os benefícios e reduzir a ocorrência de eventos adversos. Assim, a utilização dos contraceptivos orais hormonais deve inserir-se em um processo contínuo de acompanhamento e reavaliação.
Conclui-se que benefícios e riscos devem ser considerados de forma conjunta na tomada de decisão clínica, pois esse balanço não é uniforme para todas as mulheres. Nesse contexto, a atenção farmacêutica desempenha papel relevante na orientação das pacientes, na identificação de riscos, na prevenção de interações medicamentosas e na promoção do uso racional, favorecendo decisões terapêuticas fundamentadas nas evidências científicas e nas necessidades individuais de cada paciente.
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1 Discente do Curso de Bacharelado em Farmácia do Centro Universitário Campo Real, Guarapuava, PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Campo Real, Guarapuava, PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Campo Real, Guarapuava, PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Docente e Coordenadora do Curso de Bacharelado em Farmácia do Centro Universitário Campo Real, Guarapuava, PR. Doutora em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail