COMUNICAÇÃO ENTRE A ATENÇÃO PRIMÁRIA E A ESPECIALIZADA: UM MAPEAMENTO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE O ENCAMINHAMENTO DE GESTANTES DE ALTO RISCO

COMMUNICATION BETWEEN PRIMARY AND SPECIALIZED CARE: A SCOPING REVIEW OF SCIENTIFIC PRODUCTION ON THE REFERRAL OF HIGH-RISK PREGNANT WOMEN

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788664104

RESUMO
Este estudo teve como objetivo analisar as evidências disponíveis sobre o processo de encaminhamento e a comunicação entre a Atenção Primária à Saúde e a atenção especializada no cuidado às gestantes de alto risco. Trata-se de uma revisão de escopo, conduzida com base na metodologia do Joanna Briggs Institute e estruturada conforme as recomendações do PRISMA-ScR. A pergunta norteadora foi elaborada a partir da estratégia PCC, considerando como população as gestantes de alto risco, como conceito o encaminhamento, a comunicação em saúde e a integração entre os níveis de atenção, e como contexto a articulação entre a Atenção Primária à Saúde e a atenção especializada. Foram consultadas bases de dados nacionais e internacionais, sem recorte temporal, sendo incluídos estudos em português, inglês e espanhol que abordassem estratégias, fluxos, ferramentas ou desafios relacionados ao encaminhamento e à comunicação entre os níveis de atenção. A revisão incluiu 21 estudos. Os achados evidenciaram fragilidades nos fluxos de referência e contrarreferência, na comunicação interprofissional e na continuidade do cuidado, ao mesmo tempo em que apontaram o potencial de protocolos, estratégias de regulação, apoio matricial e tecnologias digitais para fortalecer a integração da rede. Conclui-se que o fortalecimento da comunicação entre os níveis assistenciais, articulado aos princípios do letramento em saúde e do letramento em saúde organizacional, pode contribuir para qualificar o encaminhamento, ampliar a resolutividade da rede e subsidiar o desenvolvimento de ferramentas digitais voltadas ao cuidado das gestantes de alto risco.
Palavras-chave: Gestação de Alto Risco; Atenção Primária à Saúde; Atenção Especializada; Encaminhamento; Comunicação em Saúde.

ABSTRACT
This study analyzes the available evidence on the referral process and communication between Primary Health Care and specialized care in the management of high-risk pregnant women. It is a scoping review conducted according to the Joanna Briggs Institute methodology and structured in accordance with PRISMA-ScR recommendations. The guiding question was developed using the PCC strategy, considering high-risk pregnant women as the population, referral, health communication and integration between levels of care as the concept, and the articulation between Primary Health Care and specialized care as the context. National and international databases were consulted without time restrictions, including studies in Portuguese, English and Spanish addressing strategies, flows, tools or challenges related to referral and communication between levels of care. Twenty-one studies were included. The findings revealed weaknesses in referral and counter-referral flows, interprofessional communication and continuity of care, while also highlighting the potential of protocols, regulation strategies, matrix support and digital technologies to strengthen network integration. The study concludes that strengthening communication between levels of care, combined with the principles of health literacy and organizational health literacy, can improve referral processes, increase network effectiveness and support the development of digital tools for the care of high-risk pregnant women.
Keywords: High-Risk Pregnancy; Primary Health Care; Specialized Care; Referral; Health Communication.

1. INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável pelo acompanhamento contínuo dos indivíduos e pela coordenação do cuidado, especialmente no contexto da saúde materna (BrasiL, 2012). No entanto, diante da complexidade de alguns casos, torna-se necessária a articulação com a Atenção Especializada, de forma oportuna e resolutiva.

Nesse sentido, no Estado do Ceará, a experiência com os Consórcios Públicos de Saúde tem possibilitado avanços significativos na oferta de serviços especializados, organizando o acesso por meio da Central de Regulação e promovendo o uso racional da rede existente. As Policlínicas Regionais, implantadas com esse modelo de governança compartilhada entre Estado e municípios, têm contribuído para a ampliação da oferta de exames e consultas especializadas, especialmente em áreas historicamente desassistidas (Ceará, 2022).

No entanto, a simples disponibilidade de serviços não garante, por si só, a efetividade do cuidado. É preciso que haja uma comunicação fluida entre os profissionais da APS e da Atenção Especializada, com compartilhamento de informações clínicas e planos de cuidado integrados. A organização dos fluxos assistenciais entre a APS e a Atenção Especializada demanda mecanismos eficazes de estratificação de risco, capazes de identificar precocemente gestantes em situações de maior vulnerabilidade clínica e social. Essa abordagem possibilita intervenções oportunas e direcionadas, contribuindo para a redução de agravos e a melhoria dos desfechos materno-infantis (Mendes, 2020).

A estratificação de risco tem sido reconhecida, nesse contexto, como uma ferramenta estratégica. Ela permite classificar gestantes conforme o grau de complexidade e vulnerabilidade, possibilitando que os casos mais graves sejam acompanhados com maior frequência e prioridade (Brasil, 2012). A aplicação de critérios clínicos, epidemiológicos e sociais para essa estratificação requer, entretanto, instrumentos padronizados e interoperáveis entre os sistemas, de forma a evitar rupturas na linha de cuidado. Conforme ressalta Mendes (2011), a estratificação é um dos pilares para a construção de redes ordenadas pelo cuidado, com base na equidade e na resolutividade.

Nesse cenário, a Rede Alyne, enquanto iniciativa estadual cearense voltada à saúde materno-infantil, tem buscado integrar os serviços de pré-natal, parto e puerpério com os demais pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS), utilizando o planejamento regional como base de sustentação. A elaboração dos Planos de Ação Regional (PAR) e a definição de fluxos pactuados constituem importantes avanços nesse sentido. Entretanto, desafios como a baixa utilização de tecnologias de comunicação entre os profissionais da APS e da Atenção Especializada, a ausência de protocolos clínicos compartilhados e a escassez de ferramentas digitais para monitoramento da gestante de alto risco ainda comprometem a efetividade da rede (Ceará, 2023).

A Região de Saúde do Cariri destaca-se como uma referência estadual na organização da RAS, especialmente no que tange à atenção materno-infantil. Com a implantação do Plano de Ação Regional da Rede Alyne, a região avançou na estruturação dos pontos de atenção e na integração entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e os serviços especializados, garantindo maior resolutividade e coordenação do cuidado. A experiência do Cariri evidencia esforços exitosos na estratificação de risco de gestantes, no fortalecimento dos fluxos de encaminhamento e no uso de instrumentos de monitoramento e regulação, tornando-se um exemplo relevante para o desenvolvimento de tecnologias que aprimorem a comunicação entre os níveis de atenção, especialmente no cuidado às gestantes de alto risco (Ceará, 2024).

Considerando a relevância do tema e a escassez de estudos que abordem, de forma sistematizada, os mecanismos de comunicação entre a Atenção Primária e a Atenção Especializada no acompanhamento de gestantes de alto risco, esta revisão de escopo busca mapear e analisar as estratégias utilizadas nesse processo.

A produção científica sobre o tema ainda é incipiente, o que reforça a importância de sistematizar as evidências existentes para subsidiar a construção e validação de tecnologias digitais que promovam a integração e a resolutividade no cuidado materno-infantil. Soma-se a isso a necessidade de se considerar o papel do letramento em saúde e do letramento em saúde organizacional.

Nos últimos anos, o conceito de letramento em saúde tem ganhado destaque como uma ferramenta essencial para promover o empoderamento dos sujeitos no processo de cuidado, especialmente em contextos que exigem maior articulação entre os diferentes níveis de atenção. O letramento em saúde refere-se à capacidade dos indivíduos de acessar, compreender, avaliar e aplicar informações básicas de saúde necessárias para tomar decisões apropriadas sobre sua saúde e a dos que o cercam (World Health Organization – WHO, 2021).

No entanto, não se trata apenas de uma habilidade do indivíduo, mas de uma construção coletiva que envolve a forma como os serviços e profissionais assumem a responsabilidade de criar ambientes acessíveis e compreensíveis, promovendo a equidade na comunicação e contribuindo para a tomada de decisão compartilhada, o que configura o letramento em saúde organizacional (Brach et al., 2012, WHO, 2021).

Essa abordagem reconhece que a melhoria da comunicação entre profissionais e usuários, bem como entre diferentes níveis da rede de atenção, é condição essencial para o fortalecimento da integralidade e da resolutividade do cuidado.

Assim, qualquer iniciativa que vise aprimorar a integração entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a Atenção Especializada, como no caso do acompanhamento das gestantes de alto risco, deve necessariamente considerar estratégias que facilitem a compreensão das informações, respeitando os diferentes níveis de letramento dos usuários e dos profissionais. O uso de tecnologias digitais, quando guiado por princípios de letramento em saúde, pode se configurar como uma importante ferramenta para qualificar a comunicação, reduzir ruídos e tornar os fluxos de cuidado mais eficientes e acolhedores.

Diante desse cenário, torna-se essencial compreender como vem sendo realizado o processo de encaminhamento da gestante de alto risco e quais estratégias têm sido utilizadas para qualificar a comunicação entre os profissionais dos diferentes níveis de atenção. A escassez de literatura sobre o tema, especialmente voltada à utilização de tecnologias digitais, evidencia uma lacuna no campo da saúde pública que precisa ser preenchida.

Assim, o objetivo do presente estudo é realizar uma revisão de escopo para analisar as evidências disponíveis sobre o processo de encaminhamento e comunicação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a atenção especializada no cuidado às gestantes de alto risco. Esta revisão de escopo, portanto, justifica-se pela necessidade de mapear as evidências existentes, sistematizar boas práticas e subsidiar a construção de uma ferramenta digital que potencialize a integração entre a Atenção Primária e a Atenção Especializada, com foco na melhoria dos desfechos maternos e neonatais e apoiada nos fundamentos do letramento em saúde.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de escopo, conduzida com base na metodologia proposta pelo Instituto Joanna Briggs (JBI, 2020), cuja finalidade é mapear a literatura existente sobre determinado tema, identificar lacunas do conhecimento e orientar futuras investigações e desenvolvimentos tecnológicos. A elaboração do protocolo e a estruturação do estudo seguiram as recomendações do checklist PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews) (TRICCO et al., 2018).

A pergunta norteadora foi construída com base na estratégia PCC:

Elemento

Descrição

P (População)

Gestantes de alto risco

C (Conceito)

Encaminhamento, comunicação em saúde, integração entre níveis de atenção

C (Contexto)

Articulação entre Atenção Primária à Saúde e Atenção Especializada

Portanto, a pergunta-problema do estudo é: Como é feito o encaminhamento da gestante de alto risco da atenção primária para a atenção especializada?

Essa questão orienta a busca por evidências que subsidiem a construção e validação de uma ferramenta digital voltada à qualificação da comunicação entre os níveis de atenção e ao monitoramento contínuo das gestantes de alto risco. O estudo se fundamenta nos princípios das RAS, da integralidade e da equidade, com base nas contribuições teóricas de Mendes (2011, 2020) e nas experiências práticas desenvolvidas no Ceará (Ceará, 2024).

Para adequação às bases de dados e plataformas de busca foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCs) para as bases em português e espanhol, e os descritores do Medical Subject Headings (MeSH) para as bases em idioma inglês. Junto aos descritores foram empregados os termos boolenos: AND, OR e NOT para compor as chaves de busca a serem utilizadas.

A busca foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Base de Dados em Enfermagem), SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed/MEDLINE, BVS, Web of Science e Embase, conforme equações expostas no Quadro 1.

Quadro 1. Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados segundo idioma (português, espanhol e inglês) para a revisão de escopo sobre o processo de encaminhamento da gestante de alto risco da atenção primária para a atenção especializada.

Base de Dados

Português (PT)

Español (ES)

English (EN)

BVS (LILACS/BDENF)

("gestante de alto risco" OR "gravidez de alto risco") AND ("atenção primária") AND ("atenção especializada" OR "referência" OR "contrarreferência")

("embarazo de alto riesgo") AND ("atención primaria") AND ("atención especializada" OR "referencia" OR "contrarreferencia")

("high-risk pregnancy") AND ("primary care") AND ("specialized care" OR "referral")

SciELO

("gestante de alto risco" OR "gravidez de alto risco") AND ("atenção primária") AND ("atenção especializada" OR "referência" OR "contrarreferência") AND ("comunicação" OR "coordenação do cuidado")

("embarazo de alto riesgo") AND ("atención primaria") AND ("atención especializada" OR "referencia" OR "contrarreferencia") AND ("comunicación" OR "coordinación de la atención")

("high-risk pregnancy") AND ("primary care") AND ("specialized care" OR "referral") AND ("communication" OR "care coordination")

PubMed / Scopus / Embase

("gestante de alto risco") AND ("atenção primária") AND ("atenção especializada" OR "referência")

("embarazo de alto riesgo") AND ("atención primaria") AND ("atención especializada" OR "referencia")

("high-risk pregnancy") AND ("primary care") AND ("specialized care" OR "referral")

Web of Science

("gestante de alto risco") AND ("atenção primária") AND ("atenção especializada")

("embarazo de alto riesgo") AND ("atención primaria") AND ("atención especializada")

("high-risk pregnancy") AND ("primary care") AND ("specialized care")

Fonte: Própria autora, 2026.

Foram incluídos estudos publicados nos idiomas português, inglês e espanhol, sem recorte temporal, desde que abordassem estratégias, fluxos, ferramentas ou desafios relacionados ao encaminhamento e comunicação entre os níveis de atenção no cuidado às gestantes de alto risco. Foram aceitos artigos originais, dissertações, teses e documentos oficiais (como protocolos clínicos, manuais e diretrizes técnicas). A seleção dos estudos foi realizada por dois revisores independentes, em três etapas: Leitura dos títulos, Leitura dos resumos, Leitura na íntegra dos textos selecionados. Em caso de divergência, um terceiro revisor foi consultado.

Os dados extraídos dos estudos incluídos foram organizados em uma planilha padronizada, contendo as seguintes informações: autores, ano, país, objetivo, tipo de estudo, principais resultados, contribuições para o encaminhamento das gestantes de alto risco, inclusão ou não de um ou mais fundamentos do letramento em saúde. A análise foi descritiva e temática, permitindo identificar padrões, lacunas e recomendações práticas a fim de subsidiar a construção de ferramentas digitais que otimizem o processo de comunicação entre os profissionais da rede e, consequentemente, que contribuam para a formação de uma organização letrada em saúde.

3. RESULTADOS

3.1. Seleção dos Estudos

A busca nas bases de dados resultou em 34 estudos identificados, sendo 7 registros excluídos por duplicidade. Após a triagem dos títulos e resumos, 5 estudos foram considerados fora da temática proposta e, portanto, excluídos. Ao final, 21 artigos foram incluídos na análise da revisão de escopo, conforme demonstrado no fluxograma PRISMA. As bases com maior número de artigos incluídos foram a BVS (12) e a SciELO (6), conforme Figura 1.

Figura 1. Fluxograma PRISMA da revisão de escopo

Fonte: Própria autora, 2026.

Os estudos selecionados abordam majoritariamente os desafios e estratégias no cuidado à gestante de alto risco, com destaque para a articulação entre atenção primária e especializada e os fluxos de referência e contrarreferência.

3.2. Caracterização dos Estudos Incluídos

O Quadro 2 apresenta a caracterização dos 21 estudos selecionados, contendo informações sobre autores, ano de publicação, país de origem, objetivo(s) do estudo, tipo de estudo, principais achados e contribuições para a temática.

Observa-se uma maior concentração de estudos realizados no Brasil (11 – 52%), sendo que não há concentração específica de estudos nos demais países.

Quadro 2. Descrição dos estudos selecionados para a revisão de escopo sobre o processo de encaminhamento da gestante de alto risco da atenção primária para a atenção especializada.

Autor / Ano

País

Objetivo

Tipo de Estudo

Principais Achados

Contribuições para a temática

Al Teheawy, 1992

Arábia Saudita

Avaliar qualidade da atenção pré-natal em centros de APS.

Descritivo

Cobertura insuficiente; falhas em detecção precoce; ausência de protocolos.

Ressalta importância da APS organizada na prevenção de complicações.

Arruda et al., 2015

Brasil

Refletir sobre os princípios que norteiam as Redes de Atenção à Saúde à luz da Teoria da Complexidade de Edgar Morin.

Reflexão teórica

As Redes de Atenção são estruturas complexas, formadas por múltiplos pontos interconectados, cujo funcionamento depende da cooperação e integração entre níveis de atenção.

Fundamenta a compreensão das RAS como sistemas complexos, reforçando a necessidade de integração entre APS e níveis especializados.

Cabrita et al., 2013

Brasil

Descrever perfil epidemiológico de gestantes de alto risco.

Transversal

Predomínio de doenças crônicas; fatores socioeconômicos influenciaram encaminhamentos.

Evidencia necessidade de integração no sistema de referência.

Esparza del Valle et al., 2019

Espanha

Avaliar reorganização do seguimento de gestantes de baixo risco.

Estudo avaliativo

Redução de consultas hospitalares; aumento na APS; economia parcial de recursos.

Importância do monitoramento e integração entre níveis de atenção.

Evers et al., 2010

Holanda

Comparar mortalidade e morbidade entre baixo e alto risco.

Coorte

Maior risco de morte perinatal em gestações de baixo risco na APS.

Crítica ao modelo de divisão rígida entre níveis de atenção.

Fernandes et al., 2020

Brasil

Avaliar atenção à gestação de alto risco em quatro metrópoles.

Pesquisa avaliativa

Diferenças regionais; Campinas melhor desempenho; Fortaleza com maiores desafios.

Necessidade de integração entre APS e especializada.

Giovanella, 2006

Europa

Analisar as reformas organizacionais da atenção primária em países da União Europeia na década de 1990.

Estudo comparativo e analítico

Identificou-se diversificação de modelos organizacionais e fortalecimento da atenção primária como coordenadora dos cuidados.

Contribui com análise internacional sobre integração de níveis assistenciais e papel estratégico da APS como ordenadora do cuidado.

Gomes & Melo, 2023

Brasil

Analisar o processo de regulação do acesso à atenção especializada na APS do Rio de Janeiro.

Estudo de caso qualitativo

A descentralização da regulação para a APS favoreceu a coordenação do cuidado, mas manteve desafios na comunicação e equidade do acesso.

Evidencia a importância da regulação compartilhada e da sinergia entre APS e atenção especializada.

Iyer et al., 2017

Ruanda

Avaliar impacto de intervenção em centros de saúde distritais.

Quasi-experimental

Aumento de partos institucionais; leve melhora em referências de alto risco.

Demonstra uso de dados rotineiros em países de baixa renda.

Jack et al., 1998

EUA

Avaliar se identificação precoce de riscos favorece intervenção preventiva.

Ensaio clínico

Identificação de riscos não aumentou intervenções.

Necessidade de protocolos organizados para cuidado pré-concepcional.

Lima et al., 2024

Brasil

Avaliar o uso de aplicativo móvel como ferramenta de comunicação entre pontos da rede materno-infantil.

Estudo observacional

O uso do aplicativo melhorou o tempo de resposta e o acompanhamento entre APS e maternidade.

Mostra o potencial das tecnologias digitais na comunicação e continuidade do cuidado materno-infantil.

Molina-Amaya et al., 2021

Honduras

Propor protocolo de telemedicina para reduzir complicações maternas.

Protocolo de implementação

Esperada redução de complicações obstétricas e impacto econômico positivo.

Mostra potencial da telemedicina em regiões rurais.

Neuenschwander & Modell, 1997

Reino Unido

Auditar triagem pré-natal para doenças falciformes.

Auditoria clínica

Falhas na triagem e no encaminhamento para aconselhamento genético.

Necessidade de protocolos consistentes de rastreamento.

Oliveira, 2019

Brasil

Analisar acompanhamento de gestantes de alto risco na Maternidade Cachoeirinha.

Qualitativo

Lacunas na integralidade; necessidade de articulação entre APS e maternidade.

Importância de fluxos integrados entre APS e maternidade.

Sanine et al., 2019

Brasil

Avaliar fatores associados ao encaminhamento de gestantes de risco.

Transversal

Idade materna avançada, baixa escolaridade e histórico obstétrico associados ao alto risco.

Mostra importância da estratificação precoce.

Sanine et al., 2021

Brasil

Avaliar atenção às gestantes de alto risco na APS em São Paulo.

Qualitativo

Rotinas protocolizadas; fragilidades nos fluxos; corresponsabilização parcial da APS.

Reforça flexibilização de protocolos e comunicação entre níveis.

Sanine et al., 2021

Brasil

Avaliar atenção às gestantes de alto risco sob ótica dos profissionais da APS.

Qualitativo

Fragilidades em referência; rotina protocolar; corresponsabilização parcial.

Destaca flexibilização de protocolos e comunicação entre níveis.

Shimocomaqui et al., 2023

Brasil

Descrever a organização da atenção ambulatorial especializada à saúde materno-infantil em regiões do PlanificaSUS.

Estudo descritivo e transversal

A implantação do modelo PASA aumentou a integração entre APS e atenção especializada, com melhoria em parâmetros assistenciais e de comunicação.

Demonstra a efetividade da Planificação como estratégia para integração da rede materno-infantil.

Singh et al., 2019

Índia

Avaliar manejo e referência de condições de alto risco no pré-natal.

Estudo transversal

Baixo conhecimento sobre riscos; encaminhamentos precoces; fragilidade nos protocolos.

Necessidade de capacitação e reorganização dos fluxos.

Sousa & Shimizu, 2024

Brasil

Analisar a capacidade de coordenação do cuidado na Atenção Básica (2012–2018) e a integração com os demais níveis da Rede de Atenção à Saúde.

Estudo descritivo transversal e longitudinal (dados do PMAQ-AB)

Houve avanços na capacidade coordenadora da APS, com aumento da integração com a rede, ampliação do uso de prontuário eletrônico, existência de fluxos assistenciais definidos e melhoria do acesso a serviços especializados.

Evidencia a evolução da APS como coordenadora do cuidado e reforça a importância de instrumentos de regulação, fluxos pactuados e comunicação interprofissional para o fortalecimento das redes.

Tesser & Poli Neto, 2017

Brasil

Discutir o vazio organizacional da atenção ambulatorial especializada no SUS e propor modelo integrador baseado nos NASF.

Estudo teórico e analítico

Aponta a fragmentação da atenção especializada e propõe integração via apoio matricial e cuidado colaborativo entre APS e especialistas.

Fundamenta o papel da APS na coordenação e integração da atenção especializada no SUS.

Fonte: Própria autora

4. DISCUSSÃO

A presente revisão de escopo evidenciou que a atenção às gestantes de alto risco ainda apresenta fragilidades significativas em diferentes contextos nacionais e regionais. Apesar da diversidade metodológica observada entre os estudos analisados, incluindo pesquisas qualitativas, transversais, coortes, ensaios clínicos, auditorias e estudos avaliativos, há convergência em apontar que a fragmentação das redes de atenção e a insuficiente articulação entre a atenção primária e os serviços especializados permanecem como barreiras centrais para a integralidade do cuidado (Sanine et al., 2021; Oliveira, 2019; Singh et al., 2019).

No contexto brasileiro, verificou-se a predominância de investigações sobre a organização da rede de atenção materno-infantil, refletindo os esforços de consolidação de políticas como a Rede Cegonha e, mais recentemente, a Rede Alyne. Contudo, os resultados apontam para protocolização excessiva, fragilidade nos fluxos de referência e contrarreferência e pouca autonomia da APS, aspectos que comprometem sua função ordenadora do cuidado (Sanine et al., 2021; Fernandes et al., 2020). Esses achados dialogam com experiências internacionais, nas quais países de baixa e média renda, como Índia, Ruanda e Colômbia, enfrentam limitações similares, relacionadas sobretudo à baixa resolutividade da atenção primária e à escassez de protocolos claros para o manejo das gestações de risco (Iyer et al., 2017; Singh et al., 2019).

Por outro lado, experiências exitosas, como as relatadas na Espanha e em Campinas, demonstram que a fortalecimento da APS com protocolos flexíveis e integração com a atenção especializada pode resultar em maior racionalização dos recursos e melhor qualidade do cuidado (Esparza del Valle et al., 2019). Além disso, estratégias inovadoras foram identificadas em diferentes contextos: a telemedicina mostrou-se promissora em Honduras, com potencial para ampliar o acesso e reduzir complicações em áreas rurais (Molina-Amaya et al., 2021); auditorias clínicas no Reino Unido reforçaram a importância da rastreabilidade de risco genético no pré-natal (Neuenschwander; Modell, 1997); e análises de custo-efetividade na Espanha indicaram que a reorganização do seguimento das gestantes pode gerar economia, embora aquém das expectativas iniciais (Esparza del Valle et al., 2019).

Outro ponto relevante refere-se aos resultados maternos e neonatais, especialmente em estudos internacionais, que relacionaram falhas na triagem e atrasos no encaminhamento a maiores taxas de mortalidade materna e perinatal (Evers et al., 2010; Jack et al., 1998; Al Teheawy, 1992). No Brasil, embora a maioria das pesquisas enfatize a organização dos fluxos e a percepção de profissionais e usuárias, os dados sugerem que a insuficiente integração entre níveis de atenção impacta negativamente nos desfechos clínicos, reforçando a necessidade de avanços nesse campo.

A análise dos resultados também evidencia que muitas das fragilidades identificadas decorrem da baixa incorporação dos princípios do letramento em saúde e do letramento em saúde organizacional nas práticas de cuidado e gestão. Conforme definido na introdução, o letramento em saúde envolve a capacidade dos indivíduos de acessar, compreender e aplicar informações em saúde, enquanto o letramento em saúde organizacional refere-se à responsabilidade das instituições de criar ambientes comunicativos acessíveis e compreensíveis, que promovam a equidade e a tomada de decisão compartilhada (Brach et al., 2012; WHO, 2021). A ausência de estratégias operacionais baseadas nesses conceitos contribui para a manutenção das lacunas na comunicação entre os níveis assistenciais e limita o empoderamento tanto dos profissionais quanto das usuárias.

Os estudos analisados raramente abordam explicitamente esses conceitos, o que demonstra uma deficiente tradução dos fundamentos do letramento em saúde em ações concretas. Ainda que algumas experiências apontem avanços por meio do uso de tecnologias digitais, protocolos e instrumentos de regulação, observa-se que tais iniciativas não são sustentadas por abordagens que considerem o nível de letramento dos profissionais e das gestantes, tampouco a capacidade das instituições de adaptar seus fluxos comunicativos para garantir compreensão mútua e continuidade do cuidado. Essa lacuna compromete o potencial de resolutividade das redes e reforça a fragmentação observada em diferentes contextos.

Dessa forma, torna-se evidente que a consolidação de estratégias operacionais ancoradas no letramento em saúde e no letramento organizacional é um caminho essencial para a qualificação da comunicação entre a Atenção Primária e a Atenção Especializada. A adoção de práticas que simplifiquem a linguagem, promovam o uso de tecnologias acessíveis e fortaleçam o protagonismo dos profissionais e das usuárias pode contribuir para reduzir as desigualdades na compreensão das informações, melhorar o processo de encaminhamento e favorecer a integralidade do cuidado. Integrar esses conceitos à formação e à gestão das equipes de saúde representa, portanto, uma oportunidade concreta para transformar o letramento em instrumento de equidade e efetividade nas redes materno-infantis.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta revisão de escopo possibilitou mapear e sintetizar as evidências disponíveis, em âmbito nacional e internacional, acerca da atenção prestada às gestantes de alto risco. Os resultados revelaram que, apesar dos avanços alcançados nas últimas décadas, persistem fragilidades estruturais e organizacionais relacionadas, sobretudo, à fragmentação da rede de serviços, à descontinuidade do cuidado e às dificuldades de articulação entre a atenção primária e os serviços especializados.

Tais lacunas comprometem a integralidade, a equidade e a qualidade da assistência, reforçando a necessidade de repensar estratégias de gestão e de qualificação do cuidado obstétrico. Considerando os conceitos de letramento em saúde e letramento em saúde organizacional, estas lacunas podem ser reduzidas ao se incorporar os fundamentos deste campo do conhecimento à atenção prestada.

Verificou-se que a atenção primária à saúde desempenha papel central na ordenação do cuidado obstétrico, porém ainda enfrenta limitações relacionadas à autonomia profissional, à dependência de protocolos rígidos e à comunicação insuficiente com outros níveis de atenção. Por outro lado, experiências exitosas em diferentes países, assim como em determinados contextos brasileiros, evidenciam que a combinação entre protocolos claros, flexibilidade clínica, apoio matricial e inovação tecnológica pode ampliar a resolutividade da rede e melhorar os desfechos maternos e neonatais.

Assim, os achados desta revisão reforçam a necessidade de fortalecer a governança das redes de atenção obstétrica, assegurando maior integração entre os pontos de atenção, investimento em tecnologias digitais de apoio à comunicação, além de estratégias de educação permanente para os profissionais da APS. Tais medidas, alinhadas às políticas públicas já vigentes no Brasil, como a Rede Cegonha e a Rede Alyne, e articuladas com os fundamentos do letramento em saúde e letramento em saúde organizacional, podem contribuir para reduzir desigualdades regionais, promover cuidado mais humanizado e garantir maior segurança e qualidade na assistência às gestantes de alto risco.

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1 Mestranda em Gestão em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente em Gestão em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Mestra em Gestão em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Mestra em Saúde da Família da Universidade Regional do Cariri. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Mestranda em Gestão em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Mestranda em Gestão em Saúde da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Mestra em Saúde da Família da Universidade Regional do Cariri. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

8 Especialista em Saúde da Família da Universidade Regional do Cariri. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail