REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782861263
RESUMO
As duas estadias de Charles Darwin pelo Brasil entre os anos de 1832 e 1836, embora marcadamente contributivas para o avanço das Ciências Naturais, foram atravessadas pelas profundas contradições políticas e sociais do Império oitocentista. O olhar do jovem naturalista sobre as relações humanas na Bahia e no Rio de Janeiro revelou um persistente estranhamento e uma contundente crítica ao sistema escravocrata que recaia sobre as populações africanas e afrodescendentes. Este artigo analisa as narrativas, cartas e diários de Darwin produzidos nesse período, buscando tensionar sua postura humanística e abolicionista com as amarras ideológicas e logísticas do imperialismo britânico vitoriano. Para tanto, mobiliza-se a economia política da abolição, sob a ótica de Eric Williams, e a Semiótica da Cultura, a fim de decifrar os mal-entendidos socioculturais e as tecnologias corporais de resistência dos escravizados frente ao terrorismo senhorial. O estudo demonstra que, embora Darwin operasse como um denunciante perspicaz da crueldade mecânica do cativeiro, suas lentes interpretativas permaneciam limitadas pela alteridade burguesa europeia e pelo monogenismo hierárquico de sua época.
Palavras-chave: Charles Darwin; Trabalho Escravo; Imperialismo Britânico; Semiótica da Cultura; Eric Williams.
ABSTRACT
Charles Darwin's two visits to Brazil between 1832 and 1836, while significantly contributing to the development of Natural Sciences, were deeply entangled with the social and political tensions of the nineteenth-century Brazilian Empire. The young naturalist's perspective on human and social relations in Bahia and Rio de Janeiro revealed a persistent estrangement and a sharp critique of African slavery. This article analyzes Darwin's narratives, letters, and journals from this period, aiming to position his humanistic and abolitionist stance in relation to the ideological and logistical frameworks of Victorian British imperialism. To achieve this, it mobilizes the political economy of abolition through Eric Williams' perspective and the Semiotics of Culture to decipher the sociocultural misunderstandings and the bodily technologies of resistance employed by enslaved individuals against master-led terrorism. The study demonstrates that, although Darwin operated as an insightful denouncer of the mechanical cruelty of captivity, his interpretative lenses remained limited by European bourgeois alterity and the hierarchical monogenism of his time.
Keywords: Charles Darwin; Slave Labor; British Imperialism; Semiotics of Culture; Eric Williams.
1. INTRODUÇÃO: O IMPÉRIO DO BRASIL E OS OLHARES ESTRANGEIROS NO SÉCULO XIX
O século XIX consolidou o Brasil como um laboratório exótico e compulsório para a intelectualidade europeia. A abertura dos portos em 1808 e a subsequente consolidação da independência política em 1822 transformaram o jovem Império em um polo de atração para naturalistas, pintores, cartógrafos e diplomatas do Velho Mundo. Viajantes como Spix, Martius, Saint-Hilaire, Rugendas e Debret desembarcaram nas costas tropicais impulsionados por demandas científicas e estéticas distintas, mas todos compartilharam um destino analítico comum: o confronto com a contradição estrutural de uma nação que buscava a inserção na modernidade política sobre o alicerce econômico e social do tráfico transatlântico e da escravidão africana institucionalizada.
É nesse horizonte tensionado que se inserem as duas passagens de Charles Robert Darwin pelo território brasileiro entre os anos de 1832 e 1836. Convidado a integrar a histórica expedição do HMS Beagle, o jovem naturalista britânico, então com apenas 23 anos, experimentou em solo fluminense e baiano um duplo impacto de proporções epistemológicas. De um lado, a exuberância incomensurável da biodiversidade tropical forneceu os subsídios empíricos fundamentais para suas posteriores reflexões ecológicas, biogeográficas e evolucionistas. De outro, o contato imediato com a mecânica cotidiana da violência senhoril que lhe provocou um profundo trauma ético e filosófico, registrado de forma visceral em suas cartas íntimas e nas páginas de seu diário de campo.
O presente artigo não se apresenta como mais um trabalho biográfico sobre vida e obra de Charles Darwin. Ele se propõe analisar narrativas do naturalista, situando seus elogios à exuberância da natureza brasileira, contrastando com suas contundentes críticas à escravidão. Darwin, pessoalmente, registrou notas, escreveu cartas aos parentes na Europa e fez apontamentos em seu diário de bordo sobre vários aspectos da nossa fauna e flora. Paralelamente ao trabalho como naturalista, observou e registrou críticas severas ao tratamento brutal e desumano aplicado pelos senhores contra seus escravizados.
A análise aqui realizada tenta superar as abordagens de edificação moral que tendem a isolar o cientista Darwin de sua historicidade social e que podem o transformar em um herói moral atemporal. Identificamos com certa frequência, aos olhos de hoje, uma certa visão reducionista do referido naturalista, principalmente quando de algumas de suas abordagens que hoje poderiam ser consideradas etnocêntricas ou reducionistas ao tratar alguns escravos, com os quais se deparou, como se fossem pessoas omissas, passivas, seres humanos que demonstravam aceitar ou se conformar com a condição de submissão, exploração e violência a que eram submetidas. A partir dessa identificação, tentamos evidenciar o paradigma eurocêntrico e colonialista de onde partem os discursos do autor, que, em última instância, produz uma crítica do sistema ao próprio sistema, com o horizonte limitado de radicalidade e independência passível de ser gerado num ambiente e historicidade próprios do racismo estrutural, dentro do qual se estruturava o pensamento científico europeu.
Buscamos, então, investigar a fratura lógica e ideológica existente em seus escritos: (1) o conflito latente entre a sua genuína repulsa moral ao cativeiro – gestada em um ambiente familiar progressista – e (2) a sua vinculação estrutural, logística e de classe às engrenagens do imperialismo britânico vitoriano. Através dessa abordagem crítica, investiga-se como o olhar de Darwin, embora marcadamente emancipatório para os padrões de sua época, revelava as limitações intransponíveis da alteridade burguesa europeia ao interpretar as estratégias corporais de sobrevivência e as insurreições silenciosas dos escravizados africanos diante do terrorismo dos seus senhores.
2. APORTE METODOLÓGICO: A RECONSTRUTIVIDADE HISTÓRICA E A ANÁLISE DOCUMENTAL CRÍTICA
O artigo foi elaborado tendo como metodologia a pesquisa bibliográfica, realizada considerando as análises de materiais já publicados, principalmente livros, revistas, publicações em periódicos e artigos científicos, jornais e cartas. Esse tipo de investigação tem como objetivo colocar o pesquisador em contato direto com materiais já escritos sobre o assunto da pesquisa. Na pesquisa bibliográfica, é importante que o pesquisador verifique a confiabilidade dos dados obtidos, observando as possíveis incoerências ou contradições que as obras possam apresentar (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 54).
Optamos, com fio norteador para a obtenção de resultados seguros e exitosos, realizar uma pesquisa documental, composta por relatos, cartas e registros do próprio Darwin. Cópias digitalizadas, de ampla disponibilidade gratuita e on-line, e reeditadas como a Viagem do Beagle (2024), A Origem do Homem e a Seleção Sexual (2024) e Darwin na Serra da Tiririca (2002) foram fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho.
Como forma de enriquecer nossas abordagens acerca da compreensão de Darwin sobre o Brasil oitocentista, principalmente no que se refere ao tema da escravidão, não nos descuidamos de utilizar fontes secundárias que igualmente analisaram as falas e discursos do naturalista inglês sobre o mesmo assunto. Ou seja, tivemos a preocupação de nos debruçar e mencionar outros pesquisadores que também trabalharam o a “escravidão moderna” tendo por base textos, cartas e obras escritas por Darwin. Contudo, é importante citar que nossa pesquisa contribui para o debate também em outra perspectiva: a de procurar compreender o discurso de Charles Darwin conectado aos interesses das potências imperialistas do século XIX.
Portanto, do ponto de vista histórico e antropológico, também fizemos questão de expor em nossas análises a importância de compreendermos Darwin como um ser social que, embora “liberal” aos padrões da época (abolicionista, reformista, favorável ao livre comércio e à ciência), era fruto de uma sociedade ainda com fortes traços de conservadorismo hierárquico – traços esses que se refletiam muitas vezes em comportamentos racistas, etnocêntricos e na aceitação de desigualdades sociais como naturais, visões comuns na Inglaterra vitoriana tanto entre liberais quanto entre conservadores.
Ademais, Darwin tinha apenas 23 anos quando embarcou no Beagle para sua viagem pelo continente americano e realizou suas duas passagens pelo Império Brasileiro entre os anos de 1832 e 1836. Para alguns estudiosos, como Salles & Abreu, (2002, p. 17), quando esteve no Brasil em 1832, Darwin se manifestava impulsionado pelos arroubos da juventude, tão característicos da idade, o que pode explicar algumas atitudes de indignação frente às situações de maus tratos presenciadas por ele nas relações dos senhores com seus escravizados. Mais tarde, já na velhice, Darwin assumiria, ao se juntar àqueles que defendiam uma hierarquia racial, um comportamento que hoje poderia ser considerado como racista e etnocêntrico. expressas em The Descent of Man (A Descendência do Homem) em 1871.
É importante que atentemos para os registros de Michael Taylor (2020) no sentido de expor a hipocrisia da elite inglesa que, embora defendesse o discurso pelo fim da escravidão, continuava a auferir grandes lucros com o trabalho dos escravizados que desejam libertar. É neste sentido que centramos nossos esforços com o objetivo de compreender o que era subjacente no discurso de Darwin sobre a escravidão no Brasil: uma ideologia colonialista que perpassava a sociedade inglesa do século XIX e que nem ele foi capaz de estabelecer uma crítica e combater verdedeiramente os seus efeitos.
No plano teórico-epistemológico, o artigo opera por meio de um cruzamento interdisciplinar entre a Economia Política da Escravidão e a Semiótica da Cultura. A primeira disciplina (com maior corpo) como suporte para crítica discursiva da macroestrutura socioeconômica que condicionava o abolicionismo britânico e delimitava o horizonte de radicalidade de Darwin, aqui analisada à luz da tese clássica de Eric Williams em Capitalismo e Escravidão (1944), tensionada pelas recentes revisões historiográficas de Michael Taylor (2020) sobre a resistência interna das elites inglesas.
Paralelamente, a segunda disciplina foi utilizada como método para interpretar, a partir dos relatos do próprio Darwin, as interações micropolíticas entre o naturalista e os sujeitos escravizados, os quais são submetidos à análise semiótica de matriz lotmaniana. Esse instrumental permite decodificar os choques de códigos culturais e as linguagens corporais defensivas que operavam nos espaços urbanos e rurais do Brasil oitocentista, superando a leitura reducionista que interpretava a tática de sobrevivência do oprimido como mera passividade psicológica.
3. A MATRIZ IDEOLÓGICA DE DARWIN: O ABOLICIONISMO FAMILIAR E A REDE VITORIANA
Como é de domínio público, Charles Robert Darwin foi um renomado naturalista, geólogo e biólogo britânico, internacionalmente reconhecido por ter proposto a Teoria da Evolução por Seleção Natural, uma das maiores revoluções científicas da era contemporânea. Sua obra mais célebre, On the Origin of Species publicada em 1859, estabeleceu as bases da biologia evolutiva e transformou, de maneira indelével, a compreensão da diversidade da vida e dos processos que moldam as espécies ao longo do tempo. Segundo a professora Dilva Frazão (2023), Darwin, por suas ricas contribuições às ciências naturais, é considerado o pai da teoria evolucionista e uma das figuras mais influentes da história da ciência.
Nosso protagonista nasceu em 12 de fevereiro de 1809, em Shrewsbury, no condado de Shropshire, Inglaterra. Era o quinto dos seis filhos de Robert Darwin (1766 - 1848), um médico e empresário bem-sucedido da época, e Susannah Wedgwood (1765 - 1817), herdeira da famosa família de ceramistas Wedgwood. A infância de Darwin foi marcada por uma curiosidade aguçada acerca da natureza, expressa em coleções de conchas, pedras, insetos e outros elementos do mundo natural. Esse fascínio precoce pela vida natural foi um prenúncio do que viria a ser sua trajetória científica.
Aos 16 anos, Darwin ingressou na Universidade de Edimburgo, na Escócia, com o objetivo de seguir a carreira médica, conforme os planos de seu pai. No entanto, demonstrou repulsa pelos procedimentos cirúrgicos da época, realizados com técnicas e uso de anestésicos rudimentares, abandonando o curso antes do seu término. Posteriormente, foi enviado ao Christ 's College, na Universidade de Cambridge, com a intenção de tornar-se clérigo anglicano. Durante esse período, apesar da formação voltada à teologia, desenvolveu um profundo interesse pelas ciências naturais, principalmente pela geologia e entomologia, impulsionado pelo contato com professores como John Stevens Henslow (1746-1861) e Adam Sedgwick (1785-1873). Ambos os docentes desempenharam papel decisivo na consolidação de sua formação acadêmica.
Em 1831, aos 22 anos, Darwin foi indicado por Henslow para participar de uma expedição científica a bordo do navio H.M.S. Beagle, cuja missão era realizar o mapeamento das costas da América do Sul. A viagem, originalmente planejada para durar dois anos, estendeu-se por quase cinco, percorrendo países como Brasil, Argentina, Chile, Peru e ilhas do Pacífico, incluindo o arquipélago de Galápagos, ponto-chave para a formulação de suas ideias evolutivas. Durante essa jornada, Darwin coletou milhares de espécimes, observou padrões geológicos e ecológicos, e registrou com precisão suas impressões em diários e cartas. Após o retorno à Inglaterra, em 1836, Darwin passou a organizar suas anotações e espécimes coletadas, estabelecendo-se como uma referência nos círculos científicos britânicos.
O contexto que indicia a sensibilidade de Charles Darwin em relação ao sofrimento dos corpos negros e à ilegitimidade jurídica da propriedade humana foi um fenômeno começado já nas primeiras décadas do século XIX, em que a Europa passava por um período de intensas transformações econômicas, políticas e sociais. No Reino Unido, o tráfico de escravos havia sido abolido em 1807, e a escravidão dentro do Império Britânico seria formalmente extinta em 1833 - com a Lei da Abolição da Escravatura. Ainda em sua infância, as propostas de libertação dos escravos já estavam bem estabelecidas na sociedade britânica, especialmente entre cientistas, religiosos e reformadores sociais, ainda na fase de sua infância.
Após o fim das Guerras Napoleônicas e a tentativa de restauração conservadora promovida pelo Congresso de Viena (1815), surgiram diversos movimentos liberais e nacionalistas que contestavam o retorno das monarquias absolutistas. A Revolução de Julho, ocorrida na França em 1830, foi um marco dessa insatisfação, levando à queda de Carlos X e à ascensão de Luís Filipe em uma monarquia constitucional. Esses ideais liberais também estavam ligados a uma crescente “crítica” à escravidão, que começava a ser vista como moralmente inaceitável em vários círculos intelectuais europeus.
A origem genealógica de Charles Darwin, tanto a ramificação paterna (os Darwin) quanto a materna (os Wedgwood), pertenciam a círculos intelectuais unitários e liberais que lideravam a contestação moral e política ao comércio de seres humanos na Europa Ocidental. Seu avô paterno, Erasmus Darwin, médico, filósofo da natureza e livre-pensador, já utilizava sua poesia científica no final do século XVIII para denunciar a barbárie do tráfico negreiro e propor uma visão de fraternidade biológica entre as raças humanas, antecipando intuições evolucionistas.
Já seu avô materno, Josiah Wedgwood, o célebre industrial de cerâmica vitoriana que desempenhou um papel icônico no movimento abolicionista transatlântico ao financiar e produzir em larga escala o famoso broche heráldico da Society for Effecting the Abolition of the Slave Trade. A peça, que se popularizara, exibia a imagem de um africano acorrentado de joelhos sob a inscrição "Am I not a man and a brother?", transformando-se no principal signo de propaganda humanitária da modernidade, sendo utilizada pela burguesia britânica como um distintivo de ética e engajamento civil.
Essa herança doméstica marcou Charles Darwin com uma aversão precoce e intransigente à escravidão antes mesmo de sua partida a bordo do HMS Beagle. Contudo, esse abolicionismo trazia consigo os limites ideológicos de sua extração de classe: uma condenação moral de caráter eminentemente filantrópico, jurídico e burguês. Essa perspectiva tendia a focar no excesso físico do castigo, na crueza dos castigos corporais e no sofrimento visível do cativo, sem necessariamente questionar as estruturas de dominação imperial ou a expropriação econômica global promovida pelas potências industrializadas europeias sobre os continentes africano e americano.
4. DARWIN ENTRE O VELHO E O NOVO MUNDO: A ECONOMIA POLÍTICA DA ABOLIÇÃO E O TENSIONAMENTO DE ERIC WILLIAMS
A historiografia liberal britânica tradicionalmente tendeu a classificar a cruzada legislativa e diplomática do abolicionismo como o ápice de uma evolução puramente humanitária, filantrópica e desinteressada da civilização europeia. Essa narrativa idealista e eurocêntrica foi duramente desconstruída pela obra clássica de Eric Williams, Capitalismo e Escravidão (1944). Williams demonstrou pioneiramente que o abolicionismo oficial da Grã-Bretanha não foi movido por um altruísmo moral isolado, mas seguiu as diretrizes e os imperativos macroeconômicos da transição do capitalismo comercial-mercantilista para o capitalismo industrial de base Manchesteriana.
O sistema de plantation escravocrata nas colônias antilhanas britânicas havia entrado em um declínio estrutural irreversível, tornando-se consideravelmente menos essencial para a acumulação de riqueza metropolitana do que o desenvolvimento das novas indústrias manufatureiras e o livre-comércio global. A destruição do regime de trabalho compulsório global atendia, em última instância, a dois objetivos estratégicos da burguesia inglesa:
Transformar a força de trabalho mundial em mercados consumidores assalariados para a sua produção industrial excedente;
Desarticular a concorrência agrícola de nações americanas concorrentes que ainda utilizavam a mão de obra escrava de baixo custo e alta produtividade, como o Império do Brasil e Cuba.
Como argumenta Williams (2012), a Grã-Bretanha converteu sua necessidade de reconfiguração econômica em virtude moral expansionista, utilizando o abolicionismo como uma poderosa ferramenta de coerção geopolítica para afirmar sua superioridade civilizacional e constranger as soberanias estrangeiras em nome do livre-mercado. Michael Taylor (2020), em The Interest, refina essa tese ao documentar a violenta resistência interna das elites financeiras londrinas que, nos bastidores do Parlamento, exigiram e obtiveram pesadas compensações financeiras para os senhores de escravos britânicos, demonstrando que os interesses do capital guiaram cada etapa da transição.
Charles Darwin, é verdade, criticou e se mostrou horrorizado com os maus tratos aos escravizados no Brasil. Porém, jamais se posicionou contrário aos interesses econômicos, políticos e imperialistas do seu país de origem. Não parece absurdo afirmar que ele próprio, mesmo na condição de naturalista na expedição do Beagle, acabava por se inserir na política imperialista da Inglaterra de sua época. Basta lembrar que a expedição, para a qual foi convidado, tinha como objetivo fazer um levantamento minucioso da hidrografia das costas da Patagônia e da Terra do Fogo. Portanto, tinha uma missão imperialista na medida em que procurava descobrir novas rotas comerciais para favorecer os interesses e o controle inglês na região.
Fora do continente europeu (principalmente na América Latina), o movimento abolicionista ainda era incipiente. Apegados aos grandes lucros advindos do tráfico negreiro e da exploração do trabalho compulsório, os senhores de terras, principalmente na América Portuguesa, continuavam ignorando as transformações advindas do Velho Mundo. Aliás, eram os mesmos descendentes dos europeus que viviam na América que se prendiam aos lucros advindos dessa forma de trabalho degradante e indigna, porém muito satisfatória economicamente para eles.
Portanto, enquanto na Europa Ocidental a escravidão negra já havia sido formalmente abolida no início do século XIX, especialmente no contexto das potências coloniais como o Reino Unido e a França; nas Américas, a produção econômica e as relações sociais eram ainda fortemente marcadas pela lógica escravocrata. O Brasil, em particular, foi um dos últimos países do Ocidente a abolir oficialmente a escravidão, o que só ocorreu em 1888, com a promulgação da Lei Áurea. Dessa forma, o contato de Darwin com a escravidão brasileira não apenas revelou uma distância considerável entre os valores europeus emergentes e a realidade colonial, mas também representou uma tensão simbólica entre dois mundos: de um lado, um pensamento europeu cada vez mais avesso à escravidão, e mais amparado nos valores liberais; de outro, uma sociedade colonial em que a exploração racial ainda era amplamente normalizada e sustentada por interesses econômicos e políticos.
Foi nesse contexto histórico, portanto, que Darwin aceitou o convite do capitão Robert FitzRoy e embarcou no H.M.S Beagle em sua expedição ao Novo Mundo. Quando desembarcou no Brasil em 1832, ficou profundamente impactado pelas cenas que presenciou, visto que a escravidão era uma prática amplamente disseminada na sociedade brasileira, constituindo a base da economia e das relações sociais do país.
Como é de conhecimento público, o Brasil ofereceu às pesquisas de Darwin uma riqueza de espécies e ecossistemas inéditos, como as florestas tropicais e os vastos manguezais. Durante sua estadia, ele coletou uma grande variedade de espécimes, incluindo aves, insetos e plantas, e fez observações sistemáticas sobre o comportamento e a adaptação das espécies ao ambiente natural. A viagem até o continente americano por longos cinco anos foi desgastante, porém mostrou-se exitosa, principalmente sob o aspecto da biodiversidade e, portanto, do enriquecimento de seus estudos no campo das ciências naturais.
Embora tenha registrado inúmeros momentos de encanto e admiração com tudo que lhe era novo, diferente e exótico em nossa biodiversidade, chama atenção uma das anotações mais interessantes do naturalista inglês sobre a beleza e a exuberância da flora e da fauna brasileiras:
O dia passou deliciosamente – Delicioso é, porém, um termo fraco para expressar os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, vagueia sozinho numa floresta brasileira. A elegância das gramíneas, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde brilhante da folhagem, mas, acima de tudo, a exuberância geral da vegetação, enche-me de admiração. (DARWIN, 1839 apud MIRANDA, 2024, p. 50-51)
Em meio ao deslumbramento com a biodiversidade encontrada na América, Charles Darwin acabou percebendo que a realidade social do Brasil contrastava com a beleza das flores, a diversidade das plantas parasitas e a exuberância geral da vegetação do Novo Mundo. E, neste sentido, os registros no seu livro de anotações e nas cartas endereçadas à Europa, não serão de beleza e deslumbramento, mas de desprezo, indignação e revolta.
Darwin, enquanto sujeito integrado às redes da alta burguesia e da intelectualidade vitoriana, endossava a autopercepção moral de sua pátria. Ele manifestava sincera indignação contra o atraso civilizacional e a barbárie dos senhores de terras brasileiros, porém, jamais se posicionou contrário aos interesses econômicos, políticos e imperialistas do seu país de origem. Ele permanecia em silêncio para o fato de que a riqueza industrial e a estabilidade financeira da Inglaterra – que financiavam a ciência, as universidades e as expedições globais – continuavam a sugar a mais-valia global através dos mecanismos macroeconômicos do imperialismo informal.
Não parece absurdo afirmar que ele próprio, mesmo na condição de naturalista na expedição do Beagle, acabava por se inserir na política imperialista da Inglaterra de sua época. Basta lembrar que a expedição, para a qual foi convidado, tinha como objetivo fazer um levantamento minucioso da hidrografia das costas da Patagônia e da Terra do Fogo. Portanto, tinha uma missão imperialista na medida em que procurava descobrir novas rotas comerciais para favorecer os interesses e o controle inglês na região.
Como observa Williams, a Grã-Bretanha aboliu a escravidão não porque a moralidade venceu o interesse, mas porque o capitalismo industrial já podia prescindir do escravismo colonial e passava a utilizá-lo como discurso de dominação e hegemonia atlântica.
A expedição do HMS Beagle, comandada pelo capitão Robert FitzRoy, foi planejada, financiada e rigidamente executada sob as ordens e instruções diretas do Almirantado Britânico. Seu objetivo primordial não era a coleta de espécimes botânicos ou zoológicos, mas sim um escopo marcadamente geopolítico, cartográfico e logístico: realizar o levantamento hidrográfico detalhado das costas da Patagônia, da Terra do Fogo e das bacias fluviais estratégicas da América do Sul. Essa intenção clara é indispensável para desconstruir o mito do HMS Beagle como um laboratório flutuante de ciência pura, neutra e desinteressada.
O controle e o conhecimento minucioso dessas rotas de navegação eram de vital importância para a consolidação do "imperialismo informal" britânico ao longo do século Oitocentista. Após a fragmentação dos impérios ibéricos nas Américas, a Grã-Bretanha optou por não buscar a conquista territorial direta ou a anexação colonial de novas províncias. Em vez disso, estabeleceu o domínio absoluto dos mares, das rotas comerciais e das infraestruturas portuárias, garantindo que as novas repúblicas hispano-americanas e o Império do Brasil operassem de forma subordinada como fornecedores de matérias-primas e consumidores cativos de manufaturados ingleses.
Mapear as correntes marinhas, os acidentes geográficos, os portos e o potencial extrativista mineral do território brasileiro significava fornecer ao capitalismo industrial inglês as coordenadas estratégicas para a sua expansão mercantil e militar. Darwin, embora viajasse na condição de naturalista civil e sem remuneração oficial do Estado, ocupava um lugar de destaque nessa engrenagem de poder e saber.
Seus relatórios sistemáticos sobre a geologia, as jazidas de carvão e a fertilidade dos solos tropicais possuíam valor duplo: operavam como avanço científico para a história natural e como relatórios de inteligência ecológica para o avanço das corporações mercantis britânicas, fato corroborado pelas análises documentais de Alencastro (2023) sobre o impacto das coletas biológicas na afirmação do poder científico europeu. As contundentes denúncias morais que Darwin desferia contra a escravidão brasileira eram enunciadas, portanto, a partir do convés de um navio de guerra que corporificava a vanguarda tecnológica e expansionista do Império Britânico.
5. O MONOGENISMO HIERÁRQUICO: AS CONTRADIÇÕES DA ANTROPOLOGIA DARWINIANA
Charles Darwin, filho de uma família progressista para os padrões da época, havia sido educado tendo contato com as discussões sobre o regime escravocrata e o quanto ele era degradante e desumano, em que pese, sua pátria - a própria Inglaterra – ter sido uma das nações que mais explorou esse tipo de mão de obra em suas colônias entre os séculos XVI e XVIII. Aliás, praticamente todos os países da Europa participaram do tráfico de escravos e da exploração dessa mão de obra no continente americano. Portanto, não é exagero dizer que no período colonial, a origem da riqueza dos países do Velho Mundo, que irá promover a consolidação do capitalismo industrial, principalmente na Inglaterra, tem como um de seus alicerces o tráfico negreiro.
Sobre o tráfico de escravos e a exploração da mão de obra africana pelos ingleses, o filósofo e economista alemão Karl Marx, já tinha denunciado que a acumulação primitiva de capital, que promoveu o desenvolvimento do capitalismo nos seus primórdios, principalmente na fase comercial, esteve associada ao tráfico de escravos africanos. Nesse sentido, o sistema que se impôs à crise do sistema feudal que o precedeu, nasceu à ferro, fogo e sangue. Este último, principalmente o sangue dos nativos americanos e dos africanos escravizados. Sobre a percepção de Karl Marx sobre a violência do sistema capitalista, que alçou à Inglaterra de Darwin à maior potência econômica do mundo no século XIX, é importante destacar o seguinte comentário:
A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para caça comercial de peles negras, caracterizam a aurora da produção capitalista” (MARX, 2013, p.821)
Charles Darwin não era cientista social como Marx e, evidentemente, não se aprofundou em estudos sobre a relação entre a escravidão negra e o surgimento do capitalismo na era moderna, focando principalmente suas observações na fauna, flora e tipos de minerais presentes nas regiões que visitou. No entanto, ele não se eximiu de registrar e expressar algumas de suas percepções sobre o tratamento desumano dispensado aos escravos. Igualmente, não deixou de mencionar seu desprezo e irritação com o tratamento dispensado aos cativos que viviam sob o signo da escravidão colonial na América da primeira metade do século XIX.
Apesar de revolucionário, quanto às descobertas no campo das Ciências Naturais, o impacto social e político da viagem de Darwin ao continente americano, em particular ao Brasil, não pode ser desconsiderado. É fato que vários estudos sobre suas descobertas atestam e evidenciam a importância para as Ciências Naturais. Contudo, é preciso reiterar a necessidade de compreender a passagem do naturalista inglês como parte de um projeto imperialista (neocolonialista) que tomava corpo na primeira metade do século XIX. Os vários trabalhos historiográficos utilizados como referência em nossa pesquisa, estão sempre preocupados em expor a importância das expedições de Darwin ao Brasil, porém sem discutir que ele era parte de uma estrutura de poder/saber que objetivava, paralelamente às descobertas científicas, perpetuar o domínio imperialista dos países europeus, sobretudo sobre os continentes africano e asiático.
Citando a importância de muitos viajantes europeus que estiveram no Brasil desde o período colonial, mas se detendo a analisar particularmente as passagens de Darwin pelo Brasil, o artigo de FERNANDES & MORAES (2008) abordou aspectos relacionados ao comportamento do naturalista frente às questões da fauna e da flora brasileira, bem como tratou de analisar a revolta de Charles Darwin com a escravidão negra com que ele se deparou e se horrorizou.
De maneira diferente, mas também mostrando a importância da viagem de Darwin ao Brasil, pesquisadores como DESMOND & MORE (2009), escreveram sobre o impacto da “A Viagem do Beagle” sobre a formulação da teoria da evolução de Darwin. Para esses autores, a presença do famoso naturalista no Brasil e a tese de que toda espécie deriva de um ancestral comum, contrapôs “verdades” até então defendidas por muitos daqueles que acreditavam que homens brancos e negros eram de origens distintas, sendo os primeiros superiores aos segundos.
No horizonte do debate antropológico e biomédico que fraturou o século XIX, as forças intelectuais dividiam-se entre o poligenismo e o monogenismo. O poligenismo, defendido por proeminentes cientistas da época, postulava que as diferentes raças humanas correspondiam a espécies biológicas distintas, geradas separadamente em centros de criação geográfica independentes. Essa vertente teórica fornecia a arquitetura pseudocientífica ideal para a legitimação do escravismo e do colonialismo, ao argumentar que o negro possuía uma essência biológica permanentemente inferior, o que justificaria sua submissão natural ao homem branco.
Ao demonstrar que todos os organismos vivos – e, por extensão, todos os agrupamentos humanos – derivam de um ancestral comum, Darwin forneceu o fundamento científico definitivo para o monogenismo. Sob sua ótica, todas as raças pertenciam a uma única e mesma família biológica. Essa tese desestruturava diretamente os pilares teológicos e biológicos mobilizados pelas elites senhoriais brasileiras para chancelar a coisificação e o tráfico de africanos.
Em seus registros durante a viagem pelo nosso país, Darwin estabeleceu críticas contundentes e fez reflexões sobre o trabalho degradante imposto pelos colonos aos escravos africanos aqui residentes. Suas notas sobre a escravidão são intercaladas com comentários elogiosos às belezas naturais do Brasil, mostrando seu lado humanístico e seu olhar atento como naturalista. Além disso, expressou sensibilidade e indignação em relação às injustiças sociais que presenciou, o que revela, além de seu interesse científico, uma preocupação com as condições sub-humanas a que eram submetidos os africanos e seus descendentes. Sobre o aspecto de sua sensibilidade, o naturalista descreveu em uma carta para sua irmã, Catherine Darwin, expondo uma situação na qual demonstrou sua simpatia e sensibilidade para com os negros escravizados que viviam no Brasil:
É impossivel ver um homem negro e não sentir simpatia por ele; expressões tão alegres, abertas e honestas e corpos tão belos e muscolosos (DARWIN, 1833, s/p)
A revolta de Darwin diante de práticas escravistas, observadas no Brasil, sugere que o papel da ciência pode se mostrar importante não apenas como instrumento de conhecimento, mas também como meio de elaborar críticas sociais e morais sobre determinados problemas. Sua postura revela como a ciência, quando aliada a princípios éticos, pode contribuir para a denúncia de injustiças e para o avanço de ideais de humanidade e dignidade.
Contudo, uma análise epistemológica minuciosa revela que a antropologia darwiniana carregava uma profunda contradição interna, classificada pela historiografia contemporânea como monogenismo hierárquico. Há um certo consenso entre os pesquisadores que, embora o autor da Origem das Espécies tenha assumido claramente uma posição antiescravista, suas palavras reproduzem, em certos momentos, uma postura que sugere uma certa “hierarquia racial”.
Darwin, no seu livro A Origem do Homem e a Seleção Sexual, publicado pela primeira vez em 1871, discorre sobre diferenças físicas e anatômicas entre povos de raças distintas, estabelecendo “diferenças nas faculdades mentais” entre povos de raças humanas diferentes, oferecendo indícios de sua compreensão sobre a existência de uma hierarquia racial entre os vários grupos humanos:
A variabilidade ou a diversidade das faculdades mentais dos homens da mesma raça, para não falar das diferenças bem maiores entre homens de raças diversas, é tão conhecida que não seria necessário acrescentar outra coisa. (Darwin, 1871, p. 40)
A partir daí, Darwin passou a ser reinterpretado e deu margem para que o pensamento eugenista ganhasse força na segunda metade do século XIX e início do século XX. A sua geração e as duas seguintes, entendiam que os seres humanos eram divididos em raças e estavam em diversos estágios de desenvolvimento, inclusive intelectual, mental, civilizacional, o que, nos dias de hoje, é considerado um comportamento racista. Lembrando que, embora muitos países europeus defendessem o fim da escravidão na época, a Europa do século XIX até início do século XX ainda buscava razões científicas para justificar comportamentos xenófobos, racista e segregador. Darwin, embora tivesse uma educação progressista, era fruto dessa sociedade, um homem do seu tempo.
Um dos comentários mais polêmicos atribuídos a Charles Darwin e que revela muito do seu pensamento interligado ao tempo em que viveu ocorreu ainda na expedição do HMS Beagle. Trata-se de um diálogo que ele tentou estabelecer com um escravo que o acompanhava em um barco em um de seus deslocamentos. Sem conseguir fazer-se entender pelo cativo, Darwin gesticulava de forma expansiva aproximando as mãos rosto do homem, tentando insistentemente se comunicar com ele. A reação do cativo, segundo o naturalista, foi simplesmente oferecer o rosto para ser espancado, em uma atitude compreendida por Darwin como de completa subserviência, passividade e estupidez:
Nunca vou esquecer meu sentimento de surpresa, repugnância e vergonha por ver um homem grande e forte com medo de se defender do que ele pensava ser um tapa no rosto. Aquele homem fora treinado para se habituar a um nível de degradação maior do que o da escravização de qualquer animal indefeso. (DARWIN, 1832, p. 21-22)
A Semiótica da Cultura permite desconstruir a interpretação etnocêntrica do cientista britânico. Sob a ótica de Yuri Lotman, o mal-entendido reside na colisão frontal entre duas "semiosferas" mutuamente exclusivas e temporariamente intraduzíveis. Darwin enunciava seu gesto a partir da semiosfera da burguesia liberal europeia, estruturada sob os códigos do individualismo, do direito abstrato à legítima defesa e da soberania do corpo civil. Para o naturalista, a reação natural e lógica diante de uma ameaça física de agressão deveria ser o revide ou a postura de guarda defensiva.
Por sua vez, o sujeito escravizado operava sob os códigos semióticos de uma semiosfera radicalmente distinta: o espaço de exceção jurídica e física do terrorismo senhorial colonial. Na gramática política da plantation e das cidades escravocratas, exaustivamente mapeada por Sidney Chalhoub (2012), o corpo negro era codificado como propriedade absoluta passível de suplício soberano. Qualquer esboço de reação física, olhar direto ou gesto interpretado como altivez por parte do escravizado era sumariamente decodificado pelo poder senhorial como insubordinação ou tentativa de insurreição, resultando em punições severas ou execuções.
A tabela abaixo sintetiza o descompasso de decodificação semiótica ocorrido no episódio:
Elemento Semiótico | Semiosfera Burguesa Liberal (Darwin) | Semiosfera do Terrorismo Senhorial (Escravizado) |
Gesto Emissor (Mãos ao rosto) | Tentativa expansiva de comunicação intercultural. | Entendimento de iminente agressão física senhorial. |
Código Corporal de Resposta | Expectativa de autodefesa física ou revide. | Oferta tática da face para diminuir os castigos. |
Significado Atribuído | Passividade biológica, estupidez e degradação animal. | Tecnologia corporal de sobrevivência e contenção de danos. |
Portanto, a oferta da face não configurava apatia moral ou covardia psicológica. Tratava-se de uma sofisticada e dolorosa tecnologia corporal de sobrevivência. Antecipar o impacto e demonstrar a aceitação formal da assimetria violenta era o signo pragmático necessário para encerrar a interação sem ativar o vetor letal do homem branco. O silêncio e a imobilidade estratégica constituíam formas de resistência passiva essenciais para a preservação da vida sob um regime de opressão extrema. O "mal-entendido" de Darwin, logo, não revela a psicologia do oprimido, mas desvela os limites epistemológicos de sua própria alteridade burguesa, que reduzia a complexa tática de preservação do escravizado ao estigma da passividade voluntária.
De outra forma, Charles Darwin em suas observações sobre o trabalho escravo, chegou a afirmar que o simples fato de testemunhar cenas de maus tratos com os escravos, o “fazia arder de raiva”, e que considerava inaceitável que seres humanos fossem tratados como propriedade. O naturalista fez menção direta à situação dos cativos no mercado de escravos no Rio de Janeiro, lugar em que os africanos eram comercializados quando chegavam nos navios negreiros. Assim, ele não deixou de observar, portanto, os maus-tratos que esses indivíduos sofriam em vários lugares e ambientes, principalmente nas residências dos seus senhores.
Relatos da violência praticada contra os escravos em vários momentos de sua passagem por nosso país. O trecho abaixo reforça o desolamento de Darwin com os maus tratados com os escravos:
(…) No Rio de Janeiro, morei em frente de uma velha senhora que possuía parafusos para comprimir os dedos de suas escravas. Estive numa casa onde um jovem mulato sofria, diariamente e a cada hora, aviltamentos, castigos e perseguições suficientes para despedaçar o espírito mesmo do animal mais desgraçado. Vi um menino de seis ou sete anos levar (antes que eu pudesse interferir) duas chicotadas na cabeça descoberta, por me haver dado um copo de água que não se achava bem limpo; vi seu pai tremer ao mero olhar do seu senhor. (Darwin, 1871, p. 129).
Conforme analisa Josephino (2013), o impacto das cenas de violência física sobre o naturalista era de natureza visceral, provocando-lhe reações de asco e desespero que transpareciam em sua escrita. Como descrito acima, Darwin também fez referência ao comportamento de mulheres brancas que possuíam escravos e cujo tratamento violento e desumano era igualmente chocante e desprezível – nem as crianças estavam isentas dos maus tratos e da violência física e psicológica impostos pelos seus senhores e suas senhoras.
Segundo a escritora Mary Karasch (2000), que se dedicou a estudar a vida cotidiana dos escravos no Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX, era comum que os senhores donos de escravos atribuíssem a aplicação de penas e punições de seus cativos às suas senhoras; tal tarefa cabia, portanto, muitas vezes às esposas, especialmente no caso dos escravos domésticos. Talvez, por isso, comenta Karasch, muitas mulheres adquiriram a fama de serem cruéis e violentas, como no caso da idosa mencionada por Darwin, que utilizava parafusos para comprimir os dedos das mãos de suas escravas.
Mesmo sendo alguns senhores considerados “benevolentes”, estes optavam por encaminhar os escravos, em caso de penas, às instituições públicas para que fossem castigados. Os instrumentos mais usuais de castigo - tanto em residências quanto em oficinas, fábricas e em instituições - eram o chicote de couro e a palmatória. As punições eram aplicadas como consequência de “faltas” cometidas durante o dia de trabalho, ou então nos chamados “castigos da noite”. Em alguns casos, apenas a intervenção de vizinhos conseguia atenuar o sofrimento dos escravos submetidos a essas punições noturnas. A aplicação de castigos físicos violentos por infrações mínimas, não operava como um surto de sadismo irracional ou isolado. Tratava-se de uma engrenagem de controle social profilático.
Essa racionalidade violenta ganha total inteligibilidade histórica quando confrontada com a cronologia das insurreições negras no período regencial. As duas passagens de Darwin pelo Brasil (1832 e 1836) emolduram temporalmente a eclosão da Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em janeiro de 1835. Embora o naturalista britânico não tenha testemunhado o levante diretamente por estar em águas internacionais ou em trânsito para o Pacífico, o "fantasma do haitianismo" e o pavor de insurreições negras organizadas assombravam de forma permanente a psicologia coletiva das elites proprietárias brasileiras.
O terror capilarizado exercido no interior das casas e das ruas funcionava como uma contra-insurgência preventiva diária. A punição exemplar e a manutenção do medo constante eram ferramentas estruturais necessárias para minar a articulação política e psicológica dos escravizados, buscando evitar que focos de insubordinação cotidiana se aglutinassem em revoltas macroestruturais como a de 1835. A imagem do pai que treme diante do mero olhar do senhor sintetiza o funcionamento daquilo que a historiografia contemporânea define como terrorismo psicológico preventivo.
Desencantado com o que presenciou na sociedade brasileira, particularmente no que diz respeito à escravidão, o naturalista inglês “esbravejou” uma frase no final do seu diário de viagem que resumiria sua percepção sobre tudo que presenciou durante sua viagem: “Finalmente deixamos as costas do Brasil. Graças a Deus, nunca hei de voltar a um país com escravidão” (DARWIN, 1839, n.p.)
As feridas do cativeiro continuam abertas, muita luta e resistência ainda serão necessárias empreender para curar as mazelas e a dor legados por um sistema que torturou, massacrou e matou milhares de seres humanos que foram capturados e trazidos da África para o continente americano.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: LIMINARES DA ALTERIDADE E DO RIGOR EPISTEMOLÓGICO
O exame aprofundado das narrativas de Charles Darwin sobre o Brasil oitocentista revela um ator histórico de complexidade multifacetada, cuja trajetória recusa leituras unilaterais ou hagiografias científicas. O jovem cientista atuou como um denunciante corajoso e visceral da engrenagem de tortura que sustentava o Império brasileiro, legando à posteridade registros testemunhais que operaram como potentes argumentos discursivos para o fortalecimento das redes abolicionistas transatlânticas do século XIX.
Contudo, a submissão de seus escritos ao crivo da economia política e da análise sígnica dos conflitos expõe os limites estruturais de sua própria posição de classe e nacionalidade. O abolicionismo moral de Darwin caminhava em perfeita simetria com a hegemonia geopolítica de sua pátria de origem, integrando uma expedição hidrográfica militarizada que pavimentava as rotas do imperialismo econômico informal britânico nas Américas.
Da mesma forma, suas análises psicológicas sobre a suposta passividade dos negros escravizados desvelam as barreiras intransponíveis de uma alteridade burguesa vitoriana, incapaz de compreender que as tecnologias corporais de submissão tática constituíam sofisticados mecanismos de preservação da vida face à onipresença da violência soberana.
Importante considerar, ainda, que pessoas como Charles Darwin ao condenar os maus tratos aos escravos de sua época, contribuíram muito para fortalecer a luta dos negros e seus defensores por liberdade e igualdade. Não sabemos se consciente ou inconscientemente, o lugar de fala de Darwin denunciando a desumanização promovida pela escravidão, fortaleceu o movimento abolicionista e lançou ainda mais luz sobre a necessidade de se pôr fim ao tráfico e à escravidão de seres humanos.
Essa ambiguidade conceitual demonstra que, no pensamento darwiniano, a unidade biológica não implicava equivalência civilizacional. Ao postular que as raças se encontravam em estágios evolutivos distintos – posicionando a civilização industrial europeia no ápice desse vetor –, Darwin, mesmo professando um abolicionismo convicto, acabou por oferecer subsídios teóricos que seriam paradoxalmente instrumentalizados, nas décadas seguintes, pelas correntes do darwinismo social e pelo eugenismo científico.
Mapear essas contradições epistemológicas e ideológicas no pensamento de Charles Darwin não diminui a relevância histórica de seu engajamento humanitário. Pelo contrário, enriquece a análise historiográfica contemporânea ao demonstrar que a ciência e os cientistas do século XIX, mesmo os mais revolucionários e progressistas, operavam de forma indissociável das estruturas de poder, saber e dominação que moldaram as franjas do mundo moderno.
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Este trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Brasil.
1 Professor Doutor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB).
2 Professor Doutor da Universidade Federal de campina Grande (UFCG).
3 Professor Mestre da Universidade Federal de campina Grande (UFCG).