CATASTROFIZAÇÃO DA DOR E CINESIOFOBIA COMO MEDIADORES DE INCAPACIDADE E INTENSIDADE DOLOROSA NA DOR LOMBAR CRÔNICA INESPECÍFICA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

PAIN CATASTROPHIZING AND KINESIOPHOBIA AS MEDIATORS OF DISABILITY AND PAIN INTENSITY IN NONSPECIFIC CHRONIC LOW BACK PAIN: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789786217

RESUMO
Introdução: A dor lombar crônica inespecífica (DLCI) tem etiologia multifatorial associada a fatores psicossociais, como catastrofização e cinesiofobia, que atuam como mediadores da intensidade da dor e incapacidade. Objetivo: Evidenciar o impacto desses fatores sobre a dor e funcionalidade na DLCI. Metodologia: Revisão integrativa (2016-2026) nas bases PUBMED, LILACS, PEDro e SciELO com os descritores "Catastrophization and Low Back Pain and Kinesiophobia". Resultados: Selecionou-se 12 artigos (1.621 pacientes), com alta homogeneidade no uso das escalas PCS e TSK. As intervenções eficazes abrangeram: Educação em Neurociência da Dor (END), exercícios ativos/Pilates e recursos tecnológicos (ETCC/PNE). Discussão: O movimento ativo quebra o ciclo de medo-evitação e ativa a hipoalgesia descendente. A END promove resegurança cognitiva, indicando que condutas unimodais são insuficientes. Conclusão: O manejo da DLCI exige superar o modelo biomédico por meio de uma abordagem terapêutica obrigatoriamente multimodal. 
Palavras-chave: Dor Lombar; Catastrofização da Dor; Cinesiofobia; Exercício Terapêutico; Educação em Neurociência da Dor.

ABSTRACT
Introduction: Nonspecific chronic low back pain (NCLBP) has a multifactorial etiology associated with psychosocial factors, such as catastrophizing and kinesiophobia, which act as mediators of pain intensity and disability. Objective: To highlight the impact of these factors on pain and functionality in NCLBP. Methodology: Integrative Review (2016-2026) in the PUBMED, LILACS, PEDro, and SciELO databases with the keywords "Catastrophization and Low Back Pain and Kinesiophobia". Results: 12 articles were selected (1.621 patients), with high homogeneity in the use of the PCS and TSK scales. Effective interventions included: Pain Neuroscience Education (PNE), active exercises/Pilates, and technological resources (tDCS/PNE). Discussion: Active movement breaks the fear-avoidance cycle and activates descending hypoalgesia. PNE promotes cognitive reassurance, indicating that unimodal approaches are insufficient. Conclusion: The management of NCLBP requires overcoming the biomedical model through a mandatorily multimodal therapeutic approach. 
Keywords: Low Back Pain; Pain Catastrophizing; Kinesiophobia; Exercise Therapy; Pain Neuroscience Education.

1. INTRODUÇÃO

A definição de dor revisada pela International Association for the Study of Pain (IASP) apresenta a dor como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial” (De Santana et al., 2020). Quanto à subclassificação temporal, ela pode ser aguda ou crônica, sendo a dor crônica (DC) aquela que persiste por três meses ou mais além do tempo habitual de cura de uma lesão, ou que está associada a processos patológicos crônicos que causam dor contínua ou recorrente (Rigotti; Ferreira, 2005). Para dores musculoesqueléticas não oncológicas, três meses é o ponto de divisão mais conveniente entre dor aguda e crônica, mas, para fins de pesquisa, o período de seis meses também é frequentemente utilizado (Merskey; Bogduk, 1994; Santiago, 2023).

A dor crônica é uma das principais causas de anos vividos com incapacidade em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o que a torna um relevante problema de saúde pública, uma vez que impacta negativamente os indivíduos e a sociedade (Santiago, 2023). A dor lombar crônica inespecífica (DLCI) consiste em um transtorno de saúde pública mundial, pois pode afetar pessoas de todas as faixas etárias e esferas socioeconômicas; além disso, tem prevalência estimada de 60% a 80% na população (Cargnin; Schneider; Schneider, 2020), sendo que cerca de 80% dos casos são classificados como inespecíficos e atingem mais mulheres do que homens (Hartvigsen et al., 2018; Marinho et al., 2022).

A dor lombar crônica inespecífica caracteriza-se como uma dor e desconforto que persiste por pelo menos 12 semanas, sem relação com doença espinhal específica, dor na raiz nervosa ou radiculopatia (Ma et al., 2019; Marinho et al., 2022). A DLCI configura uma das desordens musculoesqueléticas mais comuns, sendo classificada como a principal causa de incapacidade funcional (Maciel et al., 2022).

Sua etiologia é considerada multifatorial, pois pode estar correlacionada a fatores musculares, ligamentares, psicológicos e físicos em geral, o que gera uma grande inespecificidade dos sintomas. Além disso, é considerada um grave problema de saúde pública em todo o mundo, gerando impactos pessoal, social, ocupacional e econômico (Rocha et al., 2021).

Os sinais psicossociais, tais como crenças inapropriadas sobre a dor, cinesiofobia, ansiedade, estresse, depressão e baixa satisfação no trabalho, são característicos de indivíduos com lombalgia. Esses sinais clínicos atuam como mediadores da dor crônica e da incapacidade (Rocha et al., 2021; Marinho, 2022). A DLCI pode provocar a limitação das atividades de vida diária, absenteísmo no trabalho, distúrbios neuropsicológicos, danos funcionais e a catastrofização da dor, entre outras manifestações (Yang et al., 2016).

Entre os pacientes com dor lombar, também é observado um alto nível de catastrofização e cinesiofobia, entendidas como atitudes decorrentes de sintomas de ansiedade (Picavet et al., 2002). Atitudes de catastrofização como mecanismo de enfrentamento utilizado pelo paciente influenciam diretamente na cronificação da dor lombar e estão fortemente associadas à intensidade da dor e à incapacidade (Wertli et al., 2014).

A catastrofização é considerada um sofrimento mental exagerado diante de uma experiência dolorosa real ou antecipada, influenciada por crenças negativas sobre a dor, o que acaba levando à cinesiofobia (Wertli et al., 2014). Esse comportamento varia dependendo do momento vivido pelo paciente, do contexto e de suas crenças (Schutze et al., 2017), estando associado a sentimentos como preocupação, medo e dificuldades para suportar a dor (Edwards et al., 2011; Somers et al., 2009; Urquhart et al., 2015). Diante disso, a catastrofização pode exercer um impacto altamente negativo na qualidade de vida de pessoas com dor crônica (Da Silva et al., 2022).

Os sintomas psicossociais de cinesiofobia, catastrofização e depressão, quando manifestados em conjunto, foram identificados como mediadores de cerca de 42% da relação entre dor e incapacidade em pacientes com dor lombar crônica (Marshall et al., 2017). A dor lombar está intimamente relacionada a fatores psicossociais transitórios; contudo, tem crescido a evidência de que a percepção do paciente, influenciada por suas crenças, também pode interferir diretamente na sua queixa de dor e na sua funcionalidade (Corrêa, 2025).

Em razão da prevalência da DLCI e visando facilitar as tomadas de decisão clínica, a construção desta pesquisa busca evidenciar, com base na literatura científica atual, o impacto dos fatores psicossociais — com ênfase na catastrofização da dor e na cinesiofobia — sobre a intensidade da dor e a incapacidade funcional de indivíduos com dor lombar crônica inespecífica (DLCI).

2. METODOLOGIA

ESTRATÉGIA DE BUSCA

Foi realizada uma revisão integrativa da literatura nas bases de dados PUBMED, LILACS, PEDro e SciELO referente aos últimos dez anos. A busca foi realizada de maio a junho de 2026 tendo como descritores: “Catastrophization and Low Back Pain and Kinesiophobia”.

CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE

Os critérios de inclusão nesta revisão foram: (1) pesquisas escritas nos idiomas português ou inglês; (2) trabalhos que tenham investigado os efeitos da catastrofização da dor e da cinesiofobia em indivíduos com dor lombar crônica inespecífica; (3) trabalhos que relacionem a catastrofização e cinesiofobia à dor lombar crônica inespecífica com desfecho primário ou secundário e (4) estudos realizados em adultos maiores de 18 anos.

Os critérios de exclusão foram: (1) trabalhos escritos em outras línguas que não o português e inglês; (2) artigos duplicados nas bases de dados; (3) artigos com intervenções em animais; (4) resumos, teses e dissertações e (5) pesquisas que não se relacionem com o objetivo da pesquisa.

SELEÇÃO DOS ESTUDOS

As buscas nas bases de dados foram realizadas por um avaliador independente, que fez a filtragem de textos a partir da análise do título e resumo. Em sequência, se verificou os artigos selecionados e analisou sua duplicidade para posteriormente aplicar os critérios de exclusão. Após a seleção final, os artigos foram examinados na íntegra por um pelo avaliador, para coletar as informações mais relevantes a serem inseridas na revisão.

3. RESULTADOS

A busca a partir dos descritores resultou em 40 estudos, os quais foram selecionados nas bases de dados PUBMED, LILACS, PEDro e SciELO. Posteriormente, foram aplicados os critérios de elegibilidade e doze estudos foram selecionados para esta revisão. Na figura 1 está disposto o método de seleção dos artigos.

Figura 1. Fluxograma das Fases da Pesquisa

Fonte: Dados da Pesquisa de 2026

INFORMAÇÕES GERAIS DOS RESULTADOS

A totalidade dos artigos incluídos na revisão compreende publicações extremamente recentes, situadas cronologicamente entre os anos de 2023 e 2026. Somadas as amostras de todos os estudos avaliados, a população total analisada correspondeu a aproximadamente 1621 indivíduos diagnosticados com Dor Lombar Crônica Inespecífica (DLCI).

Quanto ao perfil metodológico do referencial bibliográfico obtido, observou-se um predomínio robusto de Ensaios Clínicos Randomizados Controlados (ECR), os quais totalizaram a maioria dos desenhos experimentais. Complementarmente, a amostra incluiu dois estudos transversais, um estudo piloto e de viabilidade e uma revisão sistemática com metanálise, garantindo um elevado nível de evidência científica para a análise dos desfechos. A tabela 1 contém as informações coletadas nos 12 estudos de forma sintetizada.

Tabela 1. Estudos que avaliaram a Catastrofização da Dor e Cinesiofobia em indivíduos com DLCI

Autor e Ano de Publicação

Tipo de Estudo

Objetivos

Instrumentos avaliativos

População

Conclusão

Vaillancourt, Nicolas et al. (2026)

Ensaio Clínico Randomizado Controlado de Dois Braços

Comparar os efeitos da terapia aquática (TA) versus o tratamento padrão (TP) nos resultados psicológicos, na dor e na incapacidade em pacientes com lombalgia crônica.

Escala Numérica de Avaliação da Dor (ENAD); Índice de Incapacidade de Oswestry Modificado (ODI); Questionário de Saúde de Forma Reduzida de 12 itens (SF-12); Escala de Catastrofização da Dor (PCS);Escala de Cinesiofobia de Tampa (TSK); Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HADS); Índice de Gravidade da Insônia (ISI)

34 participantes concluíram o programa e foram alocados aleatoriamente a cada grupo ( n  = 18, terapia aquática; n = 16, tratamento padrão).  

A terapia aquática pode oferecer uma alternativa de tratamento mais confortável para abordar os fatores psicológicos associados à lombalgia crônica.

Alcon, Cory et al. (2025)

Ensaio Clínico Randomizado Controlado

Comparar os efeitos da estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) ativa + educação em neurociência da dor (END) e da ETCC simulada + END em medidas de comportamentos de dor e função cognitiva em indivíduos com lombalgia crônica e alta catastrofização da dor, a fim de investigar os efeitos clínicos dessa intervenção combinada e a capacidade da ETCC de induzir a END.

Escala de Catastrofização da Dor (PCS); Escala de Cinesiofobia de Tampa (TSK); Escala Numérica de Avaliação da Dor (NPRS); Índice de Incapacidade de Oswestry Modificado (MODI); limiares de dor à pressão (PPTs); Teste de Cores e Palavras de Stroop (SCWT); Teste Abrangente de Trilhas – Segunda Edição (CTMT2)

20 participantes foram recrutados e alocados aleatoriamente nos grupos ETCC + END ativo ( n  =  10) ou ETCC + END simulado ( n  =  10).

Os resultados deste estudo sugerem que a ETCC ativa + END pareceu proporcionar uma melhora maior do que a ETCC simulada + END nos níveis de catastrofização da dor e interferência atencional em participantes com lombalgia crônica e alta catastrofização da dor.

Den Bandt, Hester L. et al. (2025)

Estudo Transversal

Investigar se existem tendências lineares em variáveis psicológicas (cinesiofobia, catastrofização da dor), incapacidade e características somatossensoriais em uma amostra de pessoas com lombalgia aguda e crônica na atenção primária, em diferentes níveis de gravidade, com base no SBT e no CSI

Ferramenta de triagem Start Back (SBT); Inventário de Sensibilização Central (CSI); Escala de Tampa para Cinesiofobia (TSK); Escala de Catastrofização da Dor (PCS); Questionário de Incapacidade de Roland Morris (RMDQ); Escala Visual Analógica (EVA); Questionário painDETECT

100 participantes com lombalgia, com idade média de 42,36 anos (DP 10,84), participaram do estudo. 44 participantes eram do sexo masculino e 56 do sexo feminino

A cinesiofobia, a catastrofização da dor, a incapacidade e a intensidade da dor estão positivamente relacionadas com os níveis de gravidade avaliados pelo SBT e CSI em nossos participantes. Os resultados das alterações somatossensoriais, por vezes, estiveram relacionados com os níveis de gravidade.

Medina-Viedma, Luisa et al. (2025)

Revisão Sistemática e Meta-Análise

Levantar todas as evidências científicas atualmente disponíveis sobre a aplicação da educação em neurociência da dor (END) em pacientes com dor lombar crônica (DLC), a fim de avaliar a eficácia da END na redução da dor, da incapacidade, da cinesiofobia e da catastrofização nesses pacientes em três momentos: ao final da intervenção e aos 1 e 3 meses de acompanhamento.

Diretrizes PRISMA; critérios de inclusão foram definidos pela ferramenta PICOS; Escala PEDro foi utilizada para avaliar a qualidade metodológica e o risco de viés

Um total de 2517 estudos foram recuperados da busca inicial na literatura, dos quais 15 estudos foram incluídos nesta revisão. Esses estudos forneceram dados de 810 pacientes com lombalgia crônica (43,7 ± 5,2 anos, aproximadamente 61% mulheres), dos quais 407 pertenciam ao grupo de intervenção experimental (END) e 403 receberam as intervenções de controle.

Os achados demonstram que a END é uma abordagem terapêutica eficaz para o manejo da lombalgia crônica, reduzindo a dor, a incapacidade, a cinesiofobia e a catastrofização em pacientes com essa condição.

Vicente-Mampel, J.; Blanco-Giménez, P.; Barrios, C. (2025)

Análise Causal Secundária de um Ensaio Clínico Randomizado Controlado de Três Braços

Avaliar a relação entre catastrofização da dor, modalidade de tratamento, intensidade da dor e incapacidade funcional em pacientes com dor lombar crônica, considerando também os efeitos da cinesiofobia e da autoeficácia, utilizando modelos lineares mistos generalizados

Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI); Escala Visual Analógica (EVA); escala Likert de 4 pontos, Escala de Cinesiofobia de Tampa (TSK); Escala de Catastrofização da Dor (PCS); Questionário de Autoeficácia para Dor Crônica; escala do tipo Likert, variando de 0 a 10

48 participantes, sendo 17 no grupo de Terapia de Exercício (TE), 16 no grupo de TE com Terapia Manual e 15 no grupo de TE com Kinesiotape

Em conclusão, este estudo revelou que a percepção da dor e a incapacidade apresentaram melhora progressiva ao longo do tempo em todos os grupos de intervenção. No entanto, a associação entre fatores psicológicos e desfechos clínicos variou de acordo com a modalidade de tratamento.

Blanco-Giménez, Paula et al. (2024)

Ensaio Clínico Randomizado Controlado

Investigar o efeito do exercício físico isolado ou em combinação com terapia manual e cinesioterapia sobre a sensibilidade à dor, incapacidade, cinesiofobia, autoeficácia e catastrofização em pacientes com dor lombar crônica (DLC).

Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI); Escala de Cinesiofobia de Tampa (TSK); Escala de Catastrofização da Dor (PCS); questionário de autoeficácia para Dor; Limiar de Dor à Pressão (PPT) com algômetro analógico manual de força com dial

55 participantes foram recrutados e alocados aleatoriamente em um dos três grupos: (1) grupo de exercício isolado (ET; n = 19), (2) grupo de exercício + terapia manual (ET Terapia Manual; n = 18) e (3) grupo de exercício + bandagem neuromuscular (ET bandagem neuromuscular; n = 18)

A terapia manual prévia à técnica de exercícios de fortalecimento do core foi a abordagem mais eficaz para melhorar a funcionalidade relacionada à saúde, em comparação com exercícios isolados ou exercícios combinados com kinesiotape, em pacientes com lombalgia crônica.

Desgagnes, Amelie et al. (2024)

Estudo Piloto e de Viabilidade Randomizado Controlado

Determinar a viabilidade de um ensaio clínico randomizado controlado (ECR) que teste a eficácia da fisioterapia com abordagem psicológica (FIP), que inclui intervenções de fisioterapia usual (FU), em comparação com a FU, e explorar a eficácia preliminar das intervenções.

Índice de Deficiência de Oswestry; Escala de Classificação Numérica; Pontuações Físicas e Mentais do SF-12; Escala de Tampa para Cinesiofobia; Escala de Catastrofização da Dor;Inventário de Sensibilização Central; Escala de Autoeficácia para Dor Crônica; Escala Likert de 7 pontos; Classificação Global de Mudança

40 participantes em 9 meses, e 10 fisioterapeutas participaram do estudo

Como a maioria dos critérios de sucesso foi atendida, a realização de um ensaio clínico randomizado (ECR) avaliando fisioterapia com abordagem psicológica (PIPT) e fisioterapia usual (UP) é viável com algumas modificações. PIPT e UP parecem ter eficácia semelhante.

Kasimis, Konstantinos et al. (2024)

Ensaio Clínico Randomizado

Examinar os efeitos a curto e longo prazo da adição de estimulação nervosa periférica (PNE) com intervenção motivacional (MI) integrada a um programa de terapia manual sobre a intensidade da dor, o limiar de dor à pressão (LDP), a capacidade funcional da região lombar, a incapacidade, a cinesiofobia e a catastrofização em indivíduos com lombalgia crônica não específica

Escala Numérica de Avaliação da Dor (ENAD); Questionário de Incapacidade de Roland-Morris (RMDQ); Limiar de Dor à Pressão (LDP) usando Algometria de Pressão; Escala de Tampa para Cinesiofobia (TSK); Escala de Catastrofização da Dor (PCS); Escala de Desempenho das Costas (BPS)

70 indivíduos com DLCI foram recrutados e alocados aleatoriamente em dois grupos de intervenção e um grupo controle ( n = 20 em cada).

A adição de PNE com MI integrada potencializou os efeitos positivos de uma intervenção de terapia manual em todas as medidas de resultado. A combinação de terapia manual com PNE e MI integrada pareceu proporcionar maiores melhorias em comparação com a aplicação isolada de terapia manual, e essas melhorias também duraram mais tempo.

Barros, Edson et al. (2023)

Estudo Transversal

Traçar o perfil de funcionalidade de pessoas com dores persistentes na coluna por meio da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF).

Aplicação do método SCEBS (Somatic, Cognition, Emotion, Behavior and Social); Escala de Catastrofização da Dor; Escala de Cinesiofobia e Percepção Corporal

49 participantes com média de 25 anos

A catastrofização e cinesiofobia interferiram no perfil de funcionalidade dos participantes. As pessoas com dor persistente na coluna enfrentam prejuízos nas estruturas e funções corporais, limitação nas atividades e participação, fatores ambientais e pessoais.

Caña-Pino, A. et al. (2023)

Ensaio Clínico Randomizado

Investigar as alterações ocorridas após a aplicação de duas modalidades de exercício [Exercício Supervisionado (ES) e Exercício Guiado por Laser (EGL)] e PNE (Estimulação Neurofisiológica Psicomotora) sobre a dor, os limiares de pressão dolorosa , a incapacidade, a catastrofização, a cinesiofobia e a propriocepção lombar em indivíduos com lombalgia crônica não específica.

Escala Numérica de Avaliação da Dor (NPRS); Limiar de Dor à Pressão (LDP) usando Algometria de Pressão; Questionário de Incapacidade de Roland-Morris (RMDQ); Índice de Deficiência de Oswestry (ODI); Escala de Catastrofização da Dor (PCS); Escala de Tampa para Cinesiofobia (TSK); Erro de reposicionamento lombar (ERL)

60 indivíduos com lombalgia crônica não específica

Exercícios supervisionados, com ou sem feedback a laser, quando combinados com estimulação nervosa periférica (ENP), reduzem a intensidade da dor, a incapacidade, a catastrofização da dor e a cinesiofobia, além de melhorarem a propriocepção e os limiares de pressão à dor (LPD) em pacientes com lombalgia inespecífica crônica.

Rossetti, Estefani Serafim et al. (2023)

Ensaio Clínico Controlado Randomizado

Avaliar o efeito da Educação em Neurociência da Dor aliada ao Pilates na catastrofização da dor em idosos com lombalgia crônica inespecífica

Mini Exame do Estado Mental; Escala de Depressão Geriátrica; Escala de Catastrofização da Dor; Questionário de Incapacidade de Roland Morris (RMDQ); Escala Visual Analógica (EVA); Escala Tampa para Cinesiofobia (ETC)

80 participantes divididos em dois grupos: Grupo Pilates combinado com Educação em Neurociência da Dor – GPE, e Grupo Pilates– GP

A relevância clínica do estudo é que o Pilates é uma intervenção segura para idosos com dor lombar crônica inespecífica e a END pode aumentar a adesão ao exercício nessa população

Wood, Lianne et al. (2023)

Ensaio Clínico Randomizado Controlado com Quatro Braços

Utilizar a análise de mediação causal para determinar se o efeito do exercício de Pilates na intensidade da dor e na função física foi mediado por alterações na catastrofização da dor e na cinesiofobia.

Escala Numérica de Avaliação; Questionário de Incapacidade de Roland-Morris; Escala de Catastrofização da Dor; Escala de Cinesiofobia de Tampa

255 participantes, sendo 201 (75%) predominantemente do sexo feminino

A redução da catastrofização da dor e da cinesiofobia mediou parcialmente o caminho para a melhora da intensidade da dor e da função física ao utilizar o exercício de Pilates para dor lombar crônica.

Fonte: Dados da Pesquisa de 2026

DETALHAMENTO DOS RESULTADOS

Os instrumentos avaliativos utilizados nos estudos selecionados para mensurar as variáveis de interesse demonstraram uma grande homogeneidade metodológica na literatura internacional. Para a avaliação da catastrofização da dor, a ferramenta aplicada de forma unânime e soberana foi a Escala de Catastrofização da Dor (PCS), utilizada nos estudos de Vaillancourt et al. (2026), Alcon et al. (2025), Bandt et al. (2025), Vicente-Mampel et al. (2025), Blanco-Giménez et al. (2024), Desgagnes et al. (2024), Kasimis et al. (2024), Barros et al. (2023), Caña-Pino et al. (2023), Rossetti et al. (2023) e Wood et al. (2023). A cinesiofobia foi mensurada predominantemente por meio da Escala de Tampa para Cinesiofobia (TSK ou ETC), estando presente nas pesquisas de Vaillancourt et al. (2026), Alcon et al. (2025), Bandt et al. (2025), Vicente-Mampel et al. (2025), Blanco-Giménez et al. (2024), Desgagnes et al. (2024), Kasimis et al. (2024), Barros et al. (2023), Caña-Pino et al. (2023), Rossetti et al. (2023) e Wood et al. (2023).

No que tange à incapacidade funcional, os pesquisadores basearam-se no Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI/MODI), adotado por Vaillancourt et al. (2026), Alcon et al. (2025), Vicente-Mampel et al. (2025), Blanco-Giménez et al. (2024), Desgagnes et al. (2024) e Caña-Pino et al. (2023), bem como no Questionário de Incapacidade de Roland-Morris (RMDQ), preferido por Bandt et al. (2025), Kasimis et al. (2024), Caña-Pino et al. (2023), Rossetti et al. (2023) e Wood et al. (2023). Por fim, a intensidade da dor foi verificada através da Escala Numérica de Avaliação da Dor (ENAD/NPRS), aplicada por Vaillancourt et al. (2026), Alcon et al. (2025), Kasimis et al. (2024), Caña-Pino et al. (2023) e Wood et al. (2023), e da Escala Visual Analógica (EVA), instrumento de escolha nos trabalhos de Bandt et al. (2025), Vicente-Mampel et al. (2025) e Rossetti et al. (2023), o que consolida um padrão metodológico altamente comparável e robusto entre as pesquisas analisadas.

As intervenções propostas pelos estudos selecionados para o manejo da DLCI e o controle dos fatores psicológicos correlacionados puderam ser categorizadas em três grandes eixos de atuação clínica. No primeiro eixo, a Educação em Neurociência da Dor (END) foi apontada como uma abordagem terapêutica isolada eficaz no trabalho de Medina-Viedma et al. (2025), além de atuar como um recurso potencializador e integrador quando associada à estimulação transcraniana no estudo de Alcon et al. (2025) ou combinada ao método Pilates na pesquisa de Rossetti et al. (2023).

No segundo eixo, voltado ao Exercício Terapêutico Ativo e Pilates, intervenções baseadas em terapia aquática por Vaillancourt et al. (2026), terapia de exercícios por Vicente-Mampel et al. (2025), fortalecimento de core por Blanco-Giménez et al. (2024), exercícios supervisionados por Caña-Pino et al. (2023) e o método Pilates investigado por Rossetti et al. (2023) e Wood et al. (2023) demonstraram resultados positivos consistentes, atuando diretamente como mediadores da melhora na capacidade funcional e na redução dos índices de cinesiofobia e catastrofização.

Por fim, o terceiro eixo englobou as Terapias Combinadas e Recursos Tecnológicos adicionais, no qual intervenções que associaram o movimento ou o exercício à Terapia Manual pelos estudos de Blanco-Giménez et al. (2024) e Kasimis et al. (2024), à estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) por Alcon et al. (2025), à estimulação nervosa periférica (PNE/ENP) por Kasimis et al. (2024) e Caña-Pino et al. (2023), ou ao feedback visual guiado por laser por Caña-Pino et al. (2023), demonstraram capacidade de amplificar a magnitude e a durabilidade dos efeitos analgésicos e psicocomportamentais em pacientes com dor lombar crônica inespecífica.

4. DISCUSSÃO

A alta prevalência de Ensaios Clínicos Randomizados (ECR) e a homogeneidade na escolha dos instrumentos de avaliação nesta revisão refletem a consolidação de um padrão-ouro metodológico na investigação da Dor Lombar Crônica Inespecífica (DLCI) (Chiarotto et al., 2016). A escolha unânime da Pain Catastrophizing Scale (PCS) e da Tampa Scale for Kinesiophobia (TSK) pelos estudos analisados demonstra que a mensuração dos fatores cognitivos e comportamentais tornou-se indispensável no manejo da dor crônica, superando a antiga visão puramente anatômica ou biomédica da lombalgia (Vlaeyen; Linton, 2000; Maher; Underwood; Buchbinder, 2017). Esse consenso metodológico facilita a comparação direta entre diferentes populações e intervenções, conferindo alta confiabilidade aos desfechos clínicos observados na literatura atual (Foster et al., 2018).

Ao analisar as intervenções baseadas no movimento, observa-se que tanto a terapia aquática quanto o método Pilates e os exercícios supervisionados atuam como potentes mediadores na redução dos aspectos psicocomportamentais negativos. Mecanismos neurofisiológicos associados à prática regular de exercícios — como a liberação de endorfinas, a modulação descendente da dor e a neuroplasticidade positiva — parecem justificar a melhora funcional relatada por autores como Vaillancourt et al. (2026), Rossetti et al. (2023) e Wood et al. (2023). O exercício ativo quebra o ciclo vicioso da cinesiofobia: ao movimentar-se sem a ocorrência de uma nova lesão, o paciente reinterpreta a experiência dolorosa, o que reduz diretamente a catastrofização e, por conseguinte, a incapacidade funcional.

Essa quebra do ciclo encontra respaldo científico na recente atualização do Modelo de Medo-Evitação, que reitera o papel do movimento ativo como uma ferramenta de reexposição e quebra de crenças disfuncionais centrais (Vlaeyen et al., 2024). Evidências atuais em meta-análises confirmam que os exercícios supervisionados atuam primordialmente como potentes mediadores psicocomportamentais, modulando positivamente os escores de escalas como a PCS e a TSK antes mesmo de gerarem adaptações estruturais periféricas (Martinez-Calderon et al., 2025).

Do ponto de vista neurofisiológico, esse declínio nos aspectos negativos da dor correlaciona-se com a restauração dos mecanismos de hipoalgesia induzida pelo exercício, os quais promovem o recrutamento de vias inibitórias descendentes e atenuam a hiperexcitabilidade central (Nijs et al., 2024). Além disso, estudos contemporâneos de neuroimagem funcional demonstram que as terapias baseadas no movimento são capazes de induzir neuroplasticidade positiva, modificando áreas corticais associadas ao processamento cognitivo e afetivo da DLCI (Wun et al., 2024).

Adicionalmente, os achados desta revisão destacam o papel sinérgico e inovador da Educação em Neurociência da Dor (END) e dos recursos tecnológicos adicionais. A END atua reconfigurando as crenças limitantes do paciente sobre a dor, permitindo que intervenções subsequentes, como o Pilates (Rossetti et al., 2023) ou a estimulação transcraniana por corrente contínua (Alcon et al., 2025), encontrem um terreno cognitivo mais favorável. Da mesma forma, a associação de terapias como o feedback visual guiado por laser e a estimulação nervosa periférica, evidenciadas por Caña-Pino et al. (2023) e Kasimis et al. (2024), sugerem que o enriquecimento sensorial e a modulação periférica são capazes de prolongar os efeitos analgésicos e acelerar o processo de reabilitação. Portanto, o manejo ideal da DLCI na prática fisioterapêutica contemporânea parece exigir uma abordagem obrigatoriamente multimodal, integrando o movimento ativo ao suporte cognitivo e tecnológico.

Essa integração terapêutica encontra respaldo em evidências recentes que apontam que a END não deve ser aplicada como um recurso isolado, mas sim como um modulador de expectativas que prepara as vias de processamento central para receber estímulos físicos e neuromodulatórios de forma mais eficiente (Galán-Martín et al., 2024; Leysen et al., 2025). Ao promover o que a literatura chama de resegurança cognitiva, o paciente diminui o estado de alerta do sistema nervoso central, otimizando os efeitos terapêuticos de abordagens motoras subsequentes (Leysen et al., 2025).

Paralelamente, o uso de recursos de enriquecimento sensorial e biofeedback atua diretamente na reorganização dos mapas corticais e somatossensoriais, os quais frequentemente apresentam-se distorcidos em indivíduos com dor lombar crônica persistente (O’hagan et al., 2024). Sob essa ótica, consensos internacionais recentes consolidam a premissa de que intervenções unimodais são insuficientes frente à complexidade da DLCI; a consolidação de desfechos clínicos robustos e duradouros na atualidade depende da capacidade do clínico em arquitetar programas multimodais que entrelacem o movimento, a educação e a tecnologia de ponta (Nijs et al., 2026).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os fatores psicossociais, com especial ênfase na catastrofização da dor e na cinesiofobia, atuam como potentes mediadores diretos da intensidade da dor e da incapacidade funcional em indivíduos com Dor Lombar Crônica Inespecífica (DLCI). Os achados confirmam que o sofrimento mental associado ao medo do movimento e às crenças negativas sobre a dor cronifica a condição clínica, demonstrando que o manejo bem-sucedido da DLCI exige superar a abordagem puramente anatômica ou biomédica clássica.

As intervenções baseadas no movimento — tais como o método Pilates, a terapia aquática e os exercícios supervisionados — mostraram-se eficazes não apenas por respostas periféricas estruturais, mas por reconfigurarem a experiência dolorosa do paciente. Ao promover o movimento sem a ocorrência de novas lesões, essas terapias ativas quebram o ciclo vicioso do Modelo de Medo-Evitação, reduzindo de forma consistente a catastrofização e, por conseguinte, restaurando a capacidade funcional e ativando os mecanismos neurofisiológicos de hipoalgesia descendente.

O manejo ideal e contemporâneo da DLCI na prática fisioterapêutica requer, obrigatoriamente, um modelo terapêutico multimodal. A associação sinérgica da Educação em Neurociência da Dor (END) — que atua como um modulador de expectativas e promove a resegurança cognitiva — combinada ao exercício ativo e a recursos tecnológicos adicionais (como neuromodulação não-invasiva e enriquecimento sensorial) potencializa a magnitude e a durabilidade dos efeitos analgésicos. Abordagens unimodais mostram-se insuficientes frente à complexidade biopsicossocial da dor lombar crônica inespecífica.

Por fim, ressalta-se a alta homogeneidade metodológica da literatura internacional na adoção de ferramentas como a PCS e a TSK, o que confere robustez aos achados. Sugere-se a realização de novos estudos clínicos nacionais de longo prazo para avaliar o impacto da implementação prática desse modelo multimodal na saúde pública do país.

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1 Pós graduado em Fisioterapia Traumato Ortopédica pela FAVENI - Faculdade de Venda Nova do Imigrante e Pós graduado em Dor e Inflamação pela FACUVALE - Faculdade dos Vales. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail