BULLYING E CYBERBULLYING NO ENSINO MÉDIO INTEGRADO: PERFIL DE ESTUDANTES ANTES DA IMPLEMENTAÇÃO DE UM PROGRAMA PREVENTIVO UNIVERSAL

BULLYING AND CYBERBULLYING IN INTEGRATED HIGH SCHOOL: STUDENT PROFILES BEFORE THE IMPLEMENTATION OF A UNIVERSAL PREVENTION PROGRAM

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785127536

RESUMO
Este estudo investigou as percepções, o nível de conhecimento e o envolvimento de estudantes do Ensino Médio Integrado em situações de bullying e cyberbullying antes da implementação de um programa preventivo universal e multicomponente em um Instituto Federal da região Sul do Brasil. Participaram da pesquisa 131 estudantes, com idades entre 14 e 18 anos, que responderam a questionários on-line sobre experiências de vitimização e autoria em situações de violência entre pares. As análises quantitativas foram realizadas no IBM SPSS Statistics 27, considerando variáveis sociodemográficas e índices compostos de vitimização e autoria. Os resultados indicaram que a maioria dos estudantes (76,3%) não relatou vitimização recente. Entretanto, aproximadamente 40% apresentaram envolvimento moderado ou elevado em bullying e cyberbullying, e a aparência corporal foi o motivo de humilhação mais frequentemente relatado (13%). Verificou-se, ainda, associação significativa entre vitimização e autoria, evidenciando o perfil vítima-agressor. Os achados ampliam o conhecimento sobre a distribuição dessas formas de violência entre estudantes do Ensino Médio Integrado, identificando padrões de envolvimento e fatores associados que podem subsidiar pesquisas futuras e o planejamento de estratégias institucionais de prevenção. Conclui-se que, embora os níveis médios de envolvimento tenham sido baixos, uma parcela expressiva dos estudantes encontra-se envolvida nessas práticas, reforçando a necessidade de programas preventivos universais e multicomponentes que envolvam toda a comunidade escolar e promovam um ambiente educacional mais seguro e inclusivo.
Palavras-chave: Bullying; Cyberbullying; Ensino Médio Integrado; Adolescentes; Prevenção escolar.

ABSTRACT
This study investigated the perceptions, level of knowledge, and involvement of Integrated High School students in bullying and cyberbullying before the implementation of a universal and multicomponent prevention program at a Federal Institute in southern Brazil. A total of 131 students, aged 14 to 18 years, completed online questionnaires assessing experiences of victimization and perpetration in peer violence. Quantitative analyses were conducted using IBM SPSS Statistics 27, considering sociodemographic variables and composite indices of victimization and perpetration. The results showed that most students (76.3%) did not report recent victimization. However, approximately 40% presented moderate or high involvement in bullying and cyberbullying, and body appearance was the most frequently reported reason for humiliation (13%). A significant association was also found between victimization and perpetration, highlighting the bully-victim profile. The findings contribute to the understanding of the distribution of bullying and cyberbullying among Integrated High School students by identifying patterns of involvement and associated factors that may inform future research and support the development of school-based prevention strategies. It is concluded that, although the overall levels of involvement were low, a substantial proportion of students were involved in these behaviors, reinforcing the need for universal and multicomponent prevention programs involving the entire school community to promote a safer and more inclusive educational environment. 
Keywords: Bullying; Cyberbullying; Integrated High School; Adolescents; School-based prevention.

1. INTRODUÇÃO

O bullying e o cyberbullying constituem importantes problemas de saúde pública e educação, em razão de sua elevada prevalência e dos impactos negativos que produzem no desenvolvimento de crianças e adolescentes. O termo bullying, derivado do inglês bully (valentão ou briguento), passou a ser utilizado em pesquisas conduzidas por Dan Olweus, na Noruega, durante a década de 1970, consolidando-se internacionalmente como referência para caracterizar comportamentos de violência sistemática entre pares no contexto escolar (Valle; Stelko-Pereira, 2020).

No contexto brasileiro, o bullying é definido pela Lei nº 13.185/2015 como toda intimidação sistemática, física ou psicológica, praticada de forma intencional e repetitiva contra uma ou mais pessoas, causando sofrimento físico ou emocional (Brasil, 2015). De forma complementar, o cyberbullying corresponde à manifestação dessas práticas no ambiente digital, por meio das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), preservando características como intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder entre os envolvidos (Amorim, 2020; Berne et al., 2013; Jenaro; Flores; Frías, 2018; Mello et al., 2017). Embora apresentem características específicas, bullying e cyberbullying frequentemente coexistem, uma vez que estudantes envolvidos em situações de violência presencial também podem participar de episódios de violência no ambiente virtual, seja como vítimas, autores ou vítimas-autoras. Essa sobreposição reforça a importância de investigar esses fenômenos de forma integrada.

Independentemente do contexto em que ocorrem, essas formas de violência podem manifestar-se de maneira direta ou indireta, por meio de agressões físicas, verbais, psicológicas ou relacionais, incluindo insultos, apelidos depreciativos, exclusão social, ameaças e intimidação (Moura; Cruz; Quevedo, 2011; Pigozi; Machado, 2015; Vieira et al., 2020). Além disso, o fenômeno não envolve apenas vítimas e agressores, mas também outros papéis sociais, como vítimas-agressoras e testemunhas, que igualmente podem sofrer repercussões emocionais e comportamentais decorrentes da violência presenciada ou vivenciada (Olweus, 2013; Rettew; Pawlowski, 2016). Embora frequentemente estejam cientes dessas situações, as testemunhas nem sempre intervêm por receio de represálias, exclusão do grupo ou insegurança quanto à forma de agir (Silva et al., 2017).

A relevância desse fenômeno também pode ser observada em dados epidemiológicos nacionais. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 23% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos relataram ter sido humilhados ou provocados repetidamente nos 30 dias anteriores à pesquisa, enquanto 13,2% afirmaram ter sofrido agressões verbais ou psicológicas em redes sociais ou aplicativos de mensagens (IBGE, 2021). Esses resultados evidenciam que o bullying e o cyberbullying permanecem presentes no cotidiano escolar brasileiro e reforçam a necessidade de monitoramento sistemático dessas formas de violência, subsidiando o desenvolvimento de estratégias preventivas baseadas em evidências. Corroborando, outros estudos demonstram que o bullying e o cyberbullying estão associados a prejuízos emocionais, sociais e acadêmicos, incluindo sintomas de ansiedade, depressão, isolamento social, queda do rendimento escolar e, em situações extremas, evasão escolar e episódios graves de violência (Evans et al., 2019; Halliday et al., 2021; Bhatia, 2023; Salameh, 2024; Silva et al., 2023; Wahyuni et al., 2024).

Considerando a complexidade desse fenômeno, sua compreensão demanda uma perspectiva que considere a interação entre fatores individuais, familiares, escolares e sociais. Nesse sentido, a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, proposta por Bronfenbrenner (1979, 1986), oferece um importante referencial para compreender como diferentes contextos influenciam tanto a ocorrência quanto a prevenção do bullying e do cyberbullying. Sob essa perspectiva, essas formas de violência resultam da interação entre características individuais e múltiplos contextos de desenvolvimento, incluindo família, escola, grupo de pares e comunidade, os quais podem atuar tanto como fatores de risco quanto de proteção ao desenvolvimento dos estudantes.

Paralelamente às evidências científicas, o enfrentamento ao bullying também encontra respaldo em diferentes dispositivos legais no Brasil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece que as instituições de ensino devem promover ações voltadas à prevenção de todas as formas de violência. Além disso, a Lei nº 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito ao respeito, à dignidade e à proteção contra tratamentos degradantes (Brasil, 1990; Brasil, 1996; Brasil, 2015). Mais recentemente, a Lei nº 14.811/2024 fortaleceu esse compromisso ao tipificar o bullying e o cyberbullying no ordenamento jurídico brasileiro (Brasil, 2024).

Embora os avanços científicos, teóricos e legais tenham ampliado a compreensão sobre o bullying e o cyberbullying, ainda são escassos os estudos que caracterizam o cenário inicial de estudantes do Ensino Médio Integrado antes da implementação de intervenções preventivas universais e multicomponentes. A caracterização desse contexto permite compreender a magnitude do fenômeno, identificar padrões de vitimização e autoria, reconhecer fatores associados à violência entre pares e produzir evidências que subsidiem avaliações futuras sobre a efetividade de programas preventivos.

Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo analisar as percepções, o nível de conhecimento e o envolvimento de estudantes do Ensino Médio Integrado em situações de bullying e cyberbullying antes da implementação de um programa preventivo universal e multicomponente em um Instituto Federal localizado na região Sul do Brasil. Para isso, buscou-se caracterizar as experiências de vitimização e autoria, identificar fatores associados às situações de violência entre pares e fornecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias institucionais de prevenção e promoção de um ambiente escolar mais seguro e inclusivo.

2. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa, de delineamento transversal, fundamentada nos pressupostos metodológicos descritos por Gil (2017) e Sampieri, Collado e Lucio (2017). Para as análises apresentadas neste artigo, foram considerados exclusivamente os dados coletados no pré-teste, antes da implementação do programa preventivo universal e multicomponente de enfrentamento ao bullying e ao cyberbullying.

Quanto aos participantes, a pesquisa contou com 131 estudantes regularmente matriculados no 1º e no 2º ano do Ensino Médio Integrado de cursos técnicos de uma instituição pública federal de educação profissional. A unidade de análise correspondeu aos próprios estudantes. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários online, aplicados em plataforma digital de pesquisa.

Em relação aos instrumentos de coleta de dados, os estudantes responderam a um questionário online, anônimo, composto por 42 itens provenientes de instrumentos validados e de questões autorais. Foram incluídos 10 itens da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) (IBGE, 2021), destinados a investigar a convivência entre pares, a vitimização, a autoria, o testemunho de bullying e cyberbullying e as reações dos estudantes diante dessas situações. Também foram incorporados oito itens da Escala de Violência Escolar (EVE) (Stelko-Pereira et al., 2019), voltados à avaliação da vitimização e da autoria de agressões entre pares.

Além disso, foram incluídos quatro itens autorais para avaliar experiências relacionadas à violência digital, coerção sexual e divulgação não consentida de conteúdo íntimo. O instrumento contemplou ainda um questionário composto por 17 itens sobre a percepção discente das ações institucionais de prevenção, intervenção e acompanhamento do bullying e do cyberbullying, desenvolvido por Alves (2025), bem como questões complementares referentes às emoções durante o preenchimento, à percepção de suporte psicológico e a um espaço destinado a comentários. As análises dos dados foram realizadas com o auxílio dos softwares Microsoft Excel e IBM SPSS Statistics 27.

Quanto ao tratamento dos dados, as variáveis relacionadas às experiências de bullying e cyberbullying foram recodificadas para facilitar as análises estatísticas. A categoria "1 = nenhuma vez" foi recodificada como "0", indicando ausência de ocorrência. As categorias "2" (1 ou 2 vezes) e "3" (3 ou 4 vezes) foram agrupadas na categoria "1", representando baixa frequência, enquanto as categorias "4" (5 ou 6 vezes) e "5" (7 vezes ou mais) foram reunidas na categoria "2", indicando alta frequência de ocorrência.

Com o objetivo de sintetizar as experiências de vitimização e autoria, foram construídos dois índices compostos pela soma das variáveis pertencentes ao mesmo construto, utilizando-se o IBM SPSS Statistics 27. Cada item foi codificado em uma escala ordinal de três pontos (1 = nenhuma vez; 2 = uma vez; 3 = duas ou mais vezes), resultando em escores totais variando de 6, correspondente à ausência de envolvimento, a 18, indicando ocorrência repetida em todas as formas de violência avaliadas.

Posteriormente, esses escores foram recategorizados em uma variável ordinal para possibilitar a comparação entre os grupos analisados, sendo classificados em: 0 = nenhuma vitimização (índice = 6), 1 = vitimização moderada (índice entre 7 e 8) e 2 = alta vitimização (índice entre 9 e 10). Essa categorização seguiu os pressupostos estatísticos descritos por Barbetta (2014), Field (2020) e Triola (2008).

Adicionalmente, realizou-se uma análise de contingência para verificar a associação entre os motivos de vitimização autorreferidos e a variável gênero, utilizando a seguinte questão: "Nos últimos 30 dias (mês), qual o motivo ou causa de seus colegas terem esculachado, zombado, zoado, caçoado, mangado, intimidado ou humilhado você?" Para as demais análises de associação entre variáveis categóricas, empregou-se o teste do qui-quadrado de Pearson, complementado pelo coeficiente V de Cramer para estimar a magnitude das associações, adotando-se nível de significância de 5% (p < 0,05).

Quanto aos aspectos éticos, todos os procedimentos atenderam aos princípios da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Paraná. Pais ou responsáveis assinaram o Registro de Consentimento Livre e Esclarecido, enquanto os estudantes assinaram o Registro de Assentimento Livre e Informado. Foram assegurados a confidencialidade das informações, o anonimato dos participantes e a preservação da identidade da instituição.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados apresentados a seguir referem-se à etapa pré-intervenção do estudo e contemplam a caracterização da amostra, bem como as análises relacionadas às experiências de vitimização e autoria em situações de bullying e cyberbullying entre os estudantes participantes.

Participaram da etapa pré-intervenção 131 estudantes do Ensino Médio Integrado. Quanto à identidade de gênero, 59,5% se identificaram como feminino, 38,9% como masculino e 0,8% indicaram outra identidade de gênero. Em relação à raça/etnia autodeclarada, a maioria (80,9%) declarou-se branca, seguida por parda (17,6%) e amarela (0,8%), não havendo registros de participantes autodeclarados pretos ou indígenas. A idade variou entre 14 e 18 anos, com média de 15,49 anos (desvio-padrão = 0,673) e mediana de 15 anos.

Após a caracterização da amostra, analisaram-se os principais motivos associados às experiências de humilhação relatadas pelos estudantes, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1. Tabulação cruzada: distribuição dos motivos de humilhação sofrida, conforme identidade de gênero.

Categoria

 

Feminino

Masculino

Outro.

Total 
n = 131

A aparência do meu corpo (ser mais gordo/a ou mais magro/a ou ser mais alto/a ou mais baixo/a que os demais).

0,0%

6,9%

6,1%

0,0%

13%

A aparência do meu rosto.

0,0%

1,5%

3,1%

0,0%

4,6%

A minha cor ou raça.

0,0%

0,0%

0,8%

0,0%

0,8%

A minha região de origem ou ter nascido em região diferente da maioria dos colegas.

0,0%

0,0%

1,5%

0,0%

1,5%

A minha religião.

0,0%

0,0%

1,5%

0,0%

1,5%

Nenhum

0,0%

50,4%

25,2%

0,8%

76,3%

Por ser ou parecer LGBTQIA+ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transexual, Queer, Intersexual, Assexual ou outra identidade da diversidade de gênero e sexualidade).

0,0%

0,8%

0,8%

0,0%

1,5%

Total

0,8%

59,5%

38,9%

0,8%

100%

FONTE: Dados da pesquisa (2025), elaborados pelo autor.
Nota: As categorias "Por razões de higiene" e "Ter algum tipo de deficiência" não foram mencionadas por nenhum participante (0,0%; n=131).

Conforme apresentado na Tabela 1, os principais motivos relatados pelos estudantes para terem sido alvo de zombarias, intimidações e humilhações estiveram relacionados à aparência do corpo (13%) e à aparência do rosto (4,6%), com maior frequência entre os estudantes do gênero masculino. Em contrapartida, a maioria dos participantes (76,3%) afirmou não ter vivenciado esse tipo de situação nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em menor proporção, também foram relatadas situações relacionadas à percepção de ser ou parecer LGBTQIA+ (1,5%), à religião (1,5%), à região de origem (1,5%) e à cor ou raça (0,8%). Além disso, registrou-se 0,8% de respostas omissas, correspondentes a estudantes que iniciaram o questionário, mas não responderam a essa questão.

A predominância da aparência física como principal motivo de humilhação converge com estudos nacionais que identificam características corporais entre os fatores mais frequentemente associados à vitimização por bullying durante a adolescência (Moura; Cruz; Quevedo, 2011; Pigozi; Machado, 2015). Esse resultado sugere que aspectos relacionados à imagem corporal permanecem como importantes marcadores de vulnerabilidade nas relações entre pares, reforçando a necessidade de estratégias preventivas que promovam o respeito às diferenças, a valorização da diversidade e a construção de um ambiente escolar mais inclusivo.

Embora a maioria dos estudantes não tenha relatado experiências recentes de humilhação, a identificação de diferentes formas de vitimização evidencia a necessidade de compreender não apenas os motivos dessas ocorrências, mas também a intensidade do envolvimento dos participantes em situações de bullying e cyberbullying. Nesse contexto, procedeu-se à análise dos índices compostos de vitimização e autoria, cujas estatísticas descritivas são apresentadas na Tabela 2.

Tabela 2. Estatísticas Descritivas dos Índices de Vitimização e Autoria de Bullying e Cyberbullying: Médias, Variâncias e Percentis

 

 

ÍNDICE DE VITIMIZAÇÃO

ÍNDICE DE AUTORIA

 

Omisso

1

1

Média

 

6,8

6,4

Variância

 

1,303

0,471

Mínimo

 

6

6

Máximo

 

11

9

Percentis

25

6

6

50

6

6

75

7

7

Dados da pesquisa (2025), elaborados pelo autor.

A Tabela 2 apresenta as estatísticas descritivas dos índices de vitimização e autoria em situações de bullying e cyberbullying. De modo geral, ambos os índices apresentaram valores próximos ao limite inferior da escala, indicando baixa frequência de envolvimento dos estudantes nas situações investigadas. Esse padrão é corroborado pela distribuição dos percentis, uma vez que tanto o primeiro quartil (Q1) quanto a mediana (Q2) corresponderam ao escore 6 em ambos os índices, indicando que pelo menos metade dos participantes apresentou ausência ou níveis muito baixos de vitimização e autoria. Da mesma forma, o terceiro quartil (Q3) atingiu, no máximo, o escore 7, evidenciando que os relatos permaneceram concentrados nos menores valores da escala.

Em conjunto, esses resultados indicam que, embora tenham sido identificados casos de vitimização e autoria, o envolvimento da maior parte dos estudantes nessas práticas foi reduzido durante o período investigado. Esse achado é consistente com estudos que demonstram que, embora a maioria dos adolescentes não participe diretamente de episódios recorrentes de bullying, uma parcela dos estudantes permanece exposta a essas experiências, seja como vítima, autor ou ambos, justificando a adoção de estratégias preventivas de caráter universal (Gaffney et al., 2021; Olweus, 2013). Assim, mesmo diante de baixos índices médios, a presença de estudantes com escores superiores ao mínimo evidencia que o bullying e o cyberbullying continuam presentes no contexto escolar e merecem atenção das instituições de ensino.

Considerando esse panorama, investigou-se, na sequência, se os níveis de vitimização e autoria apresentavam associação com a variável gênero, por meio de análises de contingência, cujos resultados são apresentados na Tabela 3.

Tabela 3. Análise Estatística da Associação entre Gênero e Ocorrência de Vitimização e Autoria em Bullying e Cyberbullying em Estudantes do Ensino Médio

 

Gênero

Sem vitimização

Moderada vitimização

Alta vitimização

χ²

p

Associação entre Gênero e Experiência de Vítima em Bullying e Cyberbullying

Feminino

59

30,7

10,3

1,45

0,835

Masculino

60,8

33,3

5,9

Outro

100

0

0

Associação entre Gênero e Experiência de Autoria em Bullying e Cyberbullying

Feminino

76,9

21,8

1,3

3,769

0,438

Masculino

64,7

35,3

0

Outro

100

0

0

Dados da pesquisa (2025), elaborados pelo autor.

Conforme apresentado na Tabela 3, a maioria dos estudantes não relatou experiências recentes de vitimização ou autoria em situações de bullying e cyberbullying. Em relação à vitimização, 59% das estudantes do gênero feminino, 60,8% do gênero masculino e 100% daqueles que se identificaram com outro gênero não relataram ter sido vítimas dessas práticas. De modo semelhante, quanto à autoria, 76,9% das estudantes, 64,7% dos estudantes e a totalidade dos participantes do outro grupo afirmaram não ter praticado comportamentos de bullying ou cyberbullying, enquanto os níveis moderados e elevados de envolvimento foram observados em menor proporção em todos os grupos.

As análises de associação indicaram que não houve relação estatisticamente significativa entre gênero e os níveis de vitimização (χ² = 1,45; p = 0,835) ou autoria (χ² = 3,769; p = 0,438). Além disso, os coeficientes V de Cramer (0,075 para vitimização e 0,120 para autoria) evidenciaram associações de baixa magnitude, indicando que, nesta amostra, o gênero não se mostrou um fator associado ao envolvimento em situações de bullying e cyberbullying. Esses resultados sugerem que tais experiências estiveram distribuídas de forma relativamente semelhante entre os diferentes grupos de gênero, indicando que outros fatores individuais, familiares, escolares e contextuais podem exercer maior influência sobre o envolvimento nessas práticas. Nesse contexto, a ausência de associação estatisticamente significativa reforça que o bullying e o cyberbullying constituem fenômenos complexos e multifatoriais, cuja compreensão exige considerar a interação entre diferentes fatores de risco e proteção. Essa interpretação está em consonância com Cunha et al. (2018), que destacam a coexistência de múltiplos papéis, como vítima, autor, espectador e seguidor, tornando o fenômeno dinâmico e de difícil identificação no contexto escolar.

Embora não tenham sido observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, aproximadamente 40% dos estudantes apresentaram níveis moderados ou elevados de vitimização ou autoria. Esse achado evidencia que uma parcela expressiva dos participantes esteve envolvida em situações de bullying e cyberbullying, demonstrando que baixos índices médios para o conjunto da amostra não eliminam a existência de grupos potencialmente mais vulneráveis. Esses resultados reforçam a importância da implementação de estratégias preventivas universais e multicomponentes, fundamentadas na abordagem whole-school, capazes de envolver estudantes, profissionais da educação, famílias e demais membros da comunidade escolar em ações articuladas de prevenção e enfrentamento dessas violências (Gaffney et al., 2021; George et al., 2024; Ng; Chua; Shorey, 2022).

Tabela 4. Análise Estatística da Associação entre Níveis de Vitimização e Autoria em Bullying e Cyberbullying em Estudantes do Ensino Médio

 

 

Nível de autoria

 

 

  

Nenhuma (%)

moderada (%)

Alta (%)

χ²

p

Nível de Vitimização

Nenhuma vitimização

54,6

4,6

0,8

41,726

<0,001

Vitimização moderada

16,2

15,4

0

Alta vitimização

1,5

6,9

0

Dados da pesquisa (2025), elaborados pelo autor.

A Tabela 4 apresenta a análise da associação entre os níveis de vitimização e autoria em situações de bullying e cyberbullying. Os resultados evidenciaram associação estatisticamente significativa entre essas variáveis (χ²(4) = 41,726; p < 0,001), indicando que o envolvimento em uma dessas condições esteve relacionado ao envolvimento na outra.

Observa-se que 54,6% dos estudantes não relataram experiências de vitimização nem de autoria, enquanto 4,6% apresentaram autoria moderada e 0,8% alta autoria, mesmo sem relatarem vitimização. Entre os participantes com vitimização moderada, 16,2% não relataram autoria e 15,4% apresentaram autoria moderada. Já entre aqueles classificados com alta vitimização, 6,9% também apresentaram autoria moderada, ao passo que apenas 1,5% relataram alta vitimização sem envolvimento como autores. Não foram registrados casos de alta autoria entre os estudantes classificados com vitimização moderada ou elevada.

Esses resultados demonstram que o aumento do nível de vitimização esteve associado a uma maior probabilidade de envolvimento em comportamentos de autoria, evidenciando a coexistência desses papéis entre parte dos estudantes. Esse padrão é compatível com o perfil denominado "vítima-agressor" (bully-victim), caracterizado por indivíduos que, além de sofrerem violência entre pares, também reproduzem comportamentos agressivos em relação a outros colegas (Olweus, 1993, 1996, 2013). Essa associação confirma a existência de um ciclo dinâmico entre vitimização e agressão, descrito por Espelage e Swearer (2004) e Ttofi e Farrington (2009), no qual estudantes vitimizados também podem assumir comportamentos agressivos. Estudos recentes demonstram que esse grupo apresenta maior vulnerabilidade psicossocial, piores indicadores de saúde mental e maior risco de envolvimento em diferentes formas de violência quando comparado aos estudantes que atuam exclusivamente como vítimas ou autores (Cook et al., 2010; Fernandes; Yunes; Dell'Aglio, 2022; George et al., 2024; Halliday et al., 2021; Lekamge et al., 2025; Valle; Williams; Stelko-Pereira, 2020).

Além disso, a predominância de níveis moderados de vitimização e autoria observada nesta pesquisa evidencia a importância da implementação de programas preventivos universais e multicomponentes, fundamentados na abordagem whole-school, capazes de identificar precocemente situações de violência antes que evoluam para formas mais graves. Intervenções direcionadas exclusivamente a vítimas ou autores tendem a não contemplar a complexidade das relações estabelecidas entre os diferentes papéis desempenhados pelos estudantes. Nesse contexto, programas que envolvem estudantes, profissionais da educação, famílias e demais membros da comunidade escolar têm sido apontados como uma das estratégias mais efetivas para a prevenção do bullying e do cyberbullying, por favorecerem o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, o fortalecimento das relações interpessoais e a melhoria do clima escolar (Fernandes; Yunes; Dell'Aglio, 2022; Gaffney et al., 2021; George et al., 2024; Lekamge et al., 2025; Ng; Chua; Shorey, 2022; Valle; Williams; Stelko-Pereira, 2020).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo atingiu o objetivo proposto ao analisar as percepções, o nível de conhecimento e o envolvimento de estudantes do Ensino Médio Integrado em situações de bullying e cyberbullying antes da implementação de um programa preventivo universal e multicomponente. Os resultados evidenciaram que, embora o envolvimento médio dos estudantes nessas práticas tenha sido reduzido, o fenômeno permanece presente no contexto escolar e envolve uma parcela expressiva dos participantes. Destaca-se, ainda, a associação entre vitimização e autoria, evidenciando a coexistência de diferentes papéis entre os estudantes e reforçando a complexidade dessas formas de violência.

Os achados indicam que o bullying e o cyberbullying constituem fenômenos multifatoriais, cuja compreensão requer a consideração de fatores individuais, relacionais e contextuais. Nesse sentido, os resultados ampliam o conhecimento sobre a distribuição dessas formas de violência entre estudantes do Ensino Médio Integrado, especialmente ao identificar padrões de envolvimento, motivos associados às experiências de humilhação e a presença do perfil vítima-agressor. Essas evidências contribuem para o avanço da literatura nacional sobre o tema e fornecem subsídios para o desenvolvimento de novas investigações em contextos educacionais semelhantes.

Como contribuição científica, este estudo caracteriza um cenário ainda pouco explorado na literatura brasileira sobre o Ensino Médio Integrado, oferecendo evidências empíricas que podem orientar pesquisas comparativas, estudos longitudinais e investigações voltadas aos fatores associados ao bullying e ao cyberbullying. Além disso, os resultados ampliam a compreensão sobre essas formas de violência em instituições federais de educação, contribuindo para a produção de conhecimento na interface entre Psicologia, Educação e Saúde.

Entre as limitações do estudo, destaca-se a realização da pesquisa em uma única instituição de ensino, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos educacionais. Além disso, o delineamento transversal não permite estabelecer relações de causalidade entre as variáveis investigadas. Assim, recomenda-se que pesquisas futuras ampliem a investigação para diferentes realidades escolares, contemplem amostras mais diversificadas e adotem delineamentos longitudinais capazes de acompanhar a evolução das experiências de vitimização e autoria ao longo do tempo.

Por fim, este estudo fornece evidências relevantes sobre o perfil de envolvimento de estudantes do Ensino Médio Integrado em situações de bullying e cyberbullying, contribuindo para a compreensão da magnitude e das características desse fenômeno no contexto escolar brasileiro. Espera-se que esses resultados estimulem novas pesquisas e fortaleçam a produção de evidências científicas voltadas à promoção da convivência escolar, da saúde mental e de ambientes educacionais mais seguros e inclusivos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BHATIA, R. The impact of bullying in childhood and adolescence. Current opinion in psychiatry, Philadelphia, v. 36, n. 6, p. 461–465, 2023.

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1 Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Paraná, Brasil. Psicólogo do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Campus Canoinhas, Canoinhas, Santa Catarina, Brasil. ORCID: www.//orcid.org/0009-0009-4953-893X. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Doutora. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Paraná, Brasil. ORCID: www.//orcid.org/0000-0002-8089-132X. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail