REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782249196
RESUMO
Este estudo apresenta uma revisão sistemática de literatura sobre os impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência, considerando as transformações produzidas pela cultura digital e suas implicações nos processos de construção da identidade, pertencimento grupal e desenvolvimento social. Foram analisados estudos nacionais publicados entre 2020 e 2026, selecionados a partir das bases de dados SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, seguindo os critérios metodológicos recomendados pelo protocolo PRISMA. Os resultados evidenciam que o bullying e o cyberbullying estão associados a prejuízos significativos para a saúde mental dos adolescentes, incluindo sofrimento emocional, diminuição da autoestima, isolamento social, dificuldades nas relações interpessoais e comprometimento do desempenho escolar. Verificou-se ainda que as características próprias dos ambientes digitais, como a rapidez na disseminação das informações, a ampliação da audiência, a permanência dos conteúdos publicados e a possibilidade de anonimato, contribuem para a intensificação das práticas de violência entre pares. Os estudos analisados também apontam que fatores relacionados às dinâmicas grupais, relações de poder, processos de exclusão social e a busca por pertencimento exercem papel relevante na ocorrência desses fenômenos. A revisão evidencia consenso quanto à necessidade de ações preventivas e interventivas que envolvam a escola, família e sociedade, fomentando ambientes mais seguros e inclusivos nos contextos presenciais e virtuais. Por fim, destaca-se a importância do fortalecimento de políticas públicas, estratégicas de educação digital e práticas voltadas à promoção da saúde mental e da cultura de respeito às diferenças entre adolescentes.
Palavras-chave: bullying; cyberbullying; psicologia social; adolescência; impactos psicossociais.
ABSTRACT
This study presents a systematic literature review on the psychosocial impacts of bullying and cyberbullying on adolescence, considering the transformations produced by digital culture and its implications for the processes of identity construction, group belonging, and social development. National studies published between 2020 and 2026 were analyzed, selected from the SciELO, Virtual Health Library (BVS), and Google Scholar databases, following the methodological criteria recommended by the PRISMA protocol. The results show that bullying and cyberbullying are associated with significant harm to the mental health of adolescents, including emotional distress, decreased self-esteem, social isolation, difficulties in interpersonal relationships, and impaired school performance. It was also found that the characteristics of digital environments, such as the speed of information dissemination, the expansion of the audience, the permanence of published content, and the possibility of anonymity, contribute to the intensification of violent practices among peers. The studies analyzed also indicate that factors related to group dynamics, power relations, processes of social exclusion, and the search for belonging play a relevant role in the occurrence of these phenomena. The review shows consensus regarding the need for preventive and interventional actions involving the school, family, and society, fostering safer and more inclusive environments in both face-to-face and virtual contexts. Finally, the importance of strengthening public policies, digital education strategies, and practices aimed at promoting mental health and a culture of respect for differences among adolescents is highlighted.
Keywords: bullying; cyberbullying; social psychology; adolescence; psychosocial impacts.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência constitui um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais e sociais, no qual os processos de construção de identidade e de pertencimento grupal assumem papel central no desenvolvimento humano. Nesse contexto, as relações estabelecidas com a família, os pares e as instituições sociais exercem influência significativa na formação subjetiva dos indivíduos, contribuindo para a construção de referências que orientam a inserção na vida social. A identidade, por sua vez, não se configura como uma condição estática, mas como um processo contínuo de construção e reconstrução que ocorre através das interações sociais e do reconhecimento do outro (Ciampa, 1984; Moraes, 2009).
Nas últimas décadas, o avanço das tecnologias digitais promoveu mudanças significativas nas formas de comunicação, interação e sociabilidade, modificando a maneira como crianças e adolescentes constroem vínculos, compartilham experiências e produzem sentidos sobre si mesmos e sobre o mundo. Embora a cultura digital tenha ampliado as possibilidades de participação social e acesso à informação, também favoreceu o surgimento de novos desafios relacionados à exposição constante, à vigilância e à ampliação das formas de violência mediadas pelas tecnologias. Dessa forma, os ambientes virtuais passaram a ocupar posição central nas experiências juvenis, influenciando processos de pertencimento e reconhecimento (Dias et al.,2019; Campana, 2025).
Entre as problemáticas que emergem nesse contexto, destacam-se o bullying e o cyberbullying, fenômenos que têm despertado crescente interesse de pesquisadores, educadores e profissionais da saúde em razão da seus impactos sobre o desenvolvimento psicossocial dos adolescentes. O bullying caracteriza-se por comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos, marcados pela desigualdade de poder entre os envolvidos, enquanto o cyberbullying corresponde à manifestação dessas práticas por meio de recursos tecnológicos e plataformas digitais. Embora apresentem especificidades distintas, ambas as formas de violência compartilham características relacionadas à exclusão, humilhação e ao sofrimento provocado às vítimas, devendo ser compreendidas para além de episódios isolados, considerando os aspectos relacionais, culturais e institucionais que favorecem sua ocorrência (Medeiros, 2012; Stelko- Pereira e Williams, 2010).
A literatura aponta que os efeitos do bullying e do cyberbullying ultrapassam o momento da agressão e podem repercutir de maneira significativa na saúde mental e nas relações sociais dos adolescentes. Entre as consequências mais frequentemente descritas encontram-se a diminuição da autoestima, sentimentos de tristeza, isolamento social, dificuldades de socialização, prejuízos no desempenho escolar e diferentes formas de sofrimento psíquico. Além disso, a lógica das redes digitais amplia a visibilidade das agressões, potencializa a exposição das vítimas e favorecendo a permanência dos conteúdos ofensivos, contribuindo para a intensificação dos danos emocionais e sociais associados a essas experiências (Pigozi e Machado, 2015; Dias et al.,2019; Campana, 2025).
Logo, torna-se necessário compreender de que forma a produção científica tem discutido os impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência, especialmente em um contexto marcado pela expansão das tecnologias digitais e pela reconfiguração das relações sociais. Assim, o presente estudo busca analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura, os impactos psicossociais associados a essas formas de violência, considerando suas implicações para a saúde mental, os processos identitários e as relações sociais dos adolescentes na contemporaneidade.
A partir dessa problemática, a pesquisa foi orientada pela seguinte questão norteadora: quais são os impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência descritos pela literatura científica contemporânea? Para responder a essa questão, definiu-se como objetivo geral analisar os impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência. Como objetivos específicos, buscou-se identificar as principais definições atribuídas aos fenômenos, bem como, levantar estudos sobre sua ocorrência entre adolescentes, sintetizar os impactos psicossociais descritos na literatura e investigar as implicações contemporâneas do cyberbullying nos contextos digitais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Bullying Como Fenômeno Social
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) apontam que 27,2% dos estudantes brasileiros relataram ter sofrido bullying de forma recorrente. Entre as vítimas, as meninas aparecem em maior proporção (30,1%) em comparação com os meninos (24,3%), evidenciando diferenças significativas na experiência dessa violência.
No ambiente digital, aproximadamente um em cada oito adolescentes afirmou ter sido vítima de cyberbullying, constatando que as agressões entre pares ultrapassam os limites físicos da escola e passam a ocupar também os espaços virtuais (IBGE, 2026).
De acordo com Medeiros (2012), o conceito de bullying envolve comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos, praticados entre pares e marcados pela existência de uma relação desigual de poder. Porém, reduzir o fenômeno apenas à interação entre agressor e vítima pode ocultar aspectos fundamentais relacionados à dinâmica dos grupos sociais nos quais essas práticas são ampliadas. Nesse sentido, o bullying deve ser compreendido como um fenômeno social que expressa relações de poder, meios de controle presentes na sociedade.
A escola representa um espaço de socialização singular, no qual diferentes sujeitos interagem, constroem vínculos e negociam posições sociais (alunos populares, líderes, etc). Stelko- Pereira e Williams (2010), afirmam que as manifestações de violência precisam ser observadas de maneira mais abrangente, uma vez que refletem aspectos sociais mais profundos que atravessam as relações estabelecidas entre estudantes, professores, famílias e comunidade. Por isso, considera-se a hipótese de que o bullying decorre das dinâmicas coletivas que favorecem a intolerância e a naturalização da violência.
As relações de poder ocupam um papel central neste processo. O agressor busca frequentemente firmar sua posição dentro do grupo através das intimidações, humilhações, desqualificação de características físicas (peso, altura, cabelo, cor), de nacionalidade, envolvendo também aspectos culturais e comportamentais, sendo utilizadas como justificativa para a violência, convertendo diferenças em motivos de exclusão. O exercício deste poder não se restringe ao agressor, mas envolve também a participação direta ou indireta, das testemunhas, podendo reforçar ou validar as agressões por meio do silêncio ou da omissão.
A consciência da definição de norma social também contribui para a compreensão do bullying como fenômeno coletivo. Os grupos sociais estabelecem expectativas acerca de comportamentos, aparências e formas de comportamentos considerados aceitáveis.
Quando um adolescente apresenta características percebidas como divergentes dessas expectativas, dilata-se a probabilidade de ser alvo de rejeição ou discriminação. A violência frequentemente recai sobre os indivíduos percebidos como diferentes, evidenciando a relação entre o bullying, preconceito e exclusão social.
Pigozi e Machado (2015) sinalizam que as consequências do bullying estão para além do momento da agressão, afetando a autoestima, podendo repercutir no desempenho escolar, nas relações interpessoais e na saúde mental dos adolescentes. Além das vítimas, os próprios espectadores podem sofrer impactos decorrentes da convivência em ambientes marcados pela violência, insegurança e medo. Logo, os reflexos do fenômeno atingem não apenas indivíduos específicos, mas também reverberam na qualidade das relações estabelecidas no ambiente escolar.
Segundo fontes do IBGE (2026) a violência entre adolescentes continua sendo uma preocupação relevante no cenário brasileiro, reforçando a necessidade de estratégias interventivas e preventivas direcionadas à promoção de ambientes mais seguros e inclusivos. Esta preocupação pode ser observada no campo jurídico, sobretudo após a promulgação da Lei nº 14.811/2024, que passou a tipificar o bullying e o cyberbullying no ordenamento jurídico brasileiro, reconhecendo oficialmente a gravidade dessas práticas.
2.2. Adolescência e Identidade
Ciampa (1984) define identidade como um processo contínuo de transformação que não é fixo nem definitivo. Para o autor, a identidade é construída historicamente nas relações sociais e encontra-se em permanente movimento, sendo resultado de interações que os sujeitos estabelecem ao longo de suas trajetórias. A identidade pode ser entendida por uma constante metamorfose, motivada pelos contextos sociais e experiências vividas.
Nessa perspectiva, os indivíduos passam a elaborar percepções acerca de si mesmos a partir das formas pelas quais são vistos, nomeados e reconhecidos pelos outros. Assim, experiências de valorização e acolhimento tendem a favorecer o desenvolvimento saudável da autoestima, em contrapartida, experiências marcadas pela rejeição e pela humilhação podem comprometer a forma como o sujeito percebe a si mesmo.
Quando o adolescente se torna alvo de bullying ou cyberbullying, esse processo pode ser significativamente afetado. As agressões repetidas, os apelidos depreciativos, a exclusão social e a exposição pública interferem na construção da identidade e no sentimento de pertencimento social. Em muitas situações os discursos violentos produzidos pelos agressores, os denominados “bullies”, passam a ser incorporados à própria vítima, influenciando negativamente sua autoestima e sua percepção de valor pessoal.
Pigozi e Machado (2015) destacam que o bullying está associado a diversos prejuízos emocionais, dentre eles, sentimentos de tristeza, insegurança, isolamento e baixa autoestima. Por isso, compreender os impactos do bullying e do cyberbullying requer considerar não apenas os danos psicológicos imediatos, mas também, suas implicações para os processos de construção identitária dos adolescentes e desenvolvimento psicossocial.
2.3. Escola Como Espaço Social
A escola constitui um dos principais espaços de socialização durante a infância e a adolescência, desempenhando um importante papel na formação dos indivíduos. Esse ambiente promove interações sociais que contribuem para a construção de valores, comportamentos, formas de convivência e de compreender a realidade, não se limitando somente à função pedagógica.
De acordo com Moraes (2009), a escola contribui para a formação da identidade, uma vez que proporciona o contato com diferentes grupos sociais e promove experiências que influenciam a maneira como os adolescentes percebem a si mesmos e aos outros. As relações estabelecidas entre estudantes, professores e demais membros da comunidade escolar, participam diretamente da constituição da subjetividade.
A subjetividade é compreendida como um processo construído nas relações sociais e culturais estabelecidas pelos indivíduos ao longo de suas trajetórias. Sob a perspectiva histórico-cultural de Vigotsky (2007), o desenvolvimento humano decorre da interação com o meio social, sendo as experiências compartilhadas fundamentais para a constituição dos processos psicológicos. A escola assume então papel relevante, pois, reúne diferentes valores, normas e formas de convivência que influenciam na formação dos adolescentes
Todavia, devido a escola reunir indivíduos com diferentes histórias, valores e perspectivas, também é um lugar marcado por conflitos. As discordâncias entre os estudantes fazem parte da convivência social representando oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento, quando acontecem de forma adequada. O problema desencadeia-se quando estes conflitos comprometem a qualidade das relações estabelecidas no ambiente escolar e resultam em formas de violência, discriminação ou exclusão.
Stelko-Pereira e Williams (2010) destacam que a violência escolar deve ser compreendida como um fenômeno complexo que envolve múltiplos fatores, dentre eles: individuais, sociais e institucionais. O bullying representa, nesse sentido, uma das manifestações dessa violência, pois seus impactos podem ser percebidos também no clima escolar e no desenvolvimento das relações coletivas.
A existência de regras de convivência, ações educativas e mecanismos de prevenção contribui para a construção de ambientes mais seguros e inclusivos. Contudo, as normas por si só, não garantem a extinção da violência. Torna-se necessário o movimento da escola em promover espaços de diálogo, respeito às diferenças e desenvolvimento de habilidades socioemocionais que propiciem relações mais saudáveis entre os estudantes.
Nesse sentido, se faz necessário a adoção de políticas públicas voltadas para a proteção de crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) estabelece que crianças e adolescentes têm direito à proteção integral e ao desenvolvimento em condições de dignidade, respeito e liberdade. De forma complementar, programas como o Programa Saúde na Escola (PSE) buscam fortalecer ações intersetoriais voltadas à promoção da saúde e à prevenção de diferentes formas de violência no contexto educacional.
2.4. Cyberbullying na Contemporaneidade
As transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas modificaram significativamente as formas de comunicação, interação social e construções das relações humanas. Com o advento das redes sociais, bem como, dos aplicativos de mensagens instantâneas e das plataformas digitais, ampliou-se as possibilidades de conexão entre os indivíduos, tornando as interações cada vez mais imediatas e constantes. A cultura digital, que emerge deste contexto contemporâneo, é marcado pela circulação acelerada de informações pela conectividade e permanente ampliação dos espaços de interação para além da convivência presencial.
Dessa forma, as experiências de crianças e adolescentes passaram a ocorrer simultaneamente nos ambientes presenciais e digitais. As redes sociais tornaram-se espaços de expressão, socialização, entretenimento e construção identitária, influenciando diretamente a forma como os jovens se relacionam. Dias et al. (2019), destacam que a presença dos adolescentes nas plataformas digitais faz parte dos processos contemporâneos de sociabilidade, configurando novas formas de participação social e de construção de pertencimento grupal.
Entretanto, as mesmas ferramentas que possibilitam aproximação e comunicação também podem favorecer práticas de violência. É nesse cenário que o cyberbullying emerge, sendo entendido como uma extensão ou reconfiguração do bullying tradicional nos ambientes digitais. O cyberbullying apresenta características específicas que amplificam seu potencial de dano, como a rapidez das informações, a possibilidade do anonimato e alcance praticamente ilimitado das publicações.
Pigozi e Machado (2015) afirmam que o uso excessivo das tecnologias e das mídias sociais pode produzir impactos significativos sobre a saúde emocional dos adolescentes. Quando utilizadas para prejudicar indivíduos, expondo, humilhando e ameaçando, essas ferramentas podem potencializar o sofrimento das vítimas e dificultar o encerramento das agressões. Comentários ofensivos, compartilhamento de imagens sem consentimento, divulgação de boatos, criação de perfis falsos e ataques públicos são algumas das formas pelas quais essa violência se manifesta.
Enquanto no bullying tradicional a agressão costuma ocorrer em contextos específicos e limitados, no ambiente digital a violência pode alcançar um número muito maior de pessoas em um curto espaço de tempo. A humilhação passa a circular por diferentes redes, grupos e plataformas, ampliando o alcance do constrangimento vivido pela vítima.
A vigilância é também outro elemento importante, sendo produzida pelas redes digitais. Por muitos adolescentes passarem um tempo significativo conectados, tendem a estarem continuamente expostos à observação, aos comentários e aos julgamentos de outras pessoas. Portanto, a violência não se limita ao momento da agressão inicial, mas pode ser constantemente reativada por curtidas, compartilhamentos, republicações e comentários. Assim, a vítima convive de forma recorrente com a possibilidade de reviver as situações de exposição e constrangimento.
Outra característica marcante do cyberbullying é a permanência dos conteúdos. Diferentemente de muitas agressões presenciais que tendem a se restringir ao momento em que ocorrem, publicações feitas na internet podem permanecer acessíveis por longos períodos, mesmo após tentativas de exclusão. Além disso, imagens, mensagens e vídeos podem ser capturados por meio de capturas de tela (prints), armazenados em dispositivos eletrônicos e compartilhados novamente por outros usuários, ampliando o alcance da violência e dificultando a remoção definitiva do conteúdo.
Campana (2025) salienta que as transformações tecnológicas contemporâneas têm produzido novas formas de subjetivação, influenciando a maneira como crianças e adolescentes constroem suas experiências emocionais e relacionais. Ou seja, a violência digital não pode ser reduzida a uma adaptação tecnológica do bullying tradicional mas como um fenômeno que emerge das próprias características da cultura digital contemporânea.
Reconhecendo os desafios impostos por essa realidade, o ordenamento jurídico brasileiro tem buscado atualizar os mecanismos de proteção outorgados às crianças e aos adolescentes. A lei nº 14.811/2024 que passou a tipificar o bullying e o cyberbullying, reconhece oficialmente a gravidade dessas práticas. Em seguida, a
Lei nº. 15. 211/2025 ampliou a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais, estabelecendo diretrizes relacionadas à segurança, privacidade e garantia de direitos no contexto virtual.
2.5. A Perspectiva Histórico-cultural de Vygotsky e a Compreensão do Bullying e do Cyberbullying
A teoria histórico- cultural elaborada por Vygotsky oferece importantes contribuições acerca da compreensão dos processos desenvolvimento humano, especialmente ao dar ênfase no papel das relações sociais na constituição de funções psicológicas superiores. Diferentemente das perspectivas que compreendem o desenvolvimento como resultado exclusivo de fatores biológicos, Vygotsky (2007) argumenta que os processos psicológicos se constroem por meio das interações estabelecidas entre os indivíduos e contexto sociocultural em que vivem.
Para Vygotsky , toda função psicológica surge inicialmente para o plano social, e só posteriormente, é internalizada pelo sujeito. Dessa forma, os processos interpessoais transformam-se em processos intrapessoais, revelando que o desenvolvimento humano decorre de relações estabelecidas com outros indivíduos.
Sob essa perspectiva, o bullying e o cyberbullying podem ser compreendidos como fenômenos que afetam diretamente os processos de desenvolvimento psicossocial dos adolescentes. Partindo-se do pressuposto de que as interações sociais constituem a base para a formação das funções psicológicas superiores, experiências marcadas pela violência, exclusão e humilhação tendem a repercutir significativamente na constituição subjetiva dos indivíduos.
Da mesma forma, a teoria histórico-cultural permite compreender que o bullying e o cyberbullying não devem resumir-se apenas aos indivíduos diretamente envolvidos, mas também, considerando os contextos sociais nos quais essas práticas são feitas. Outro fator que pode tanto favorecer quanto prevenir a ocorrência dessas formas de violência são as redes de apoio, bem como as relações estabelecidas na família, na escola nos demais grupos de amizade, igrejas, ou outras organizações, incluindo os ambientes digitais a fim de favorecer na construção de significados e comportamentos.
Ademais, Vygotsky (2007) também reforça o caráter social do aprendizado, que se dá por meio do contato com outras pessoas. Essa compreensão revela a importância do fomento a intervenções educativas que promovam a empatia, o respeito às diferenças e a resolução não violenta dos conflitos. A partir da compreensão de que o desenvolvimento humano está profundamente relacionado às experiências coletivas, torna-se possível compreender o valor de estratégias que envolvam não apenas os adolescentes, mas também toda a comunidade, famílias e escola .
3. METODOLOGIA
O presente trabalho foi desenvolvido com base na revisão sistemática de literatura, com abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório. A pesquisa teve como objetivo reunir, analisar e sintetizar produções científicas acerca dos impactos psicossociais do Bullying e Cyberbullying na adolescência, considerando suas implicações nas relações sociais, nos processos identitários e na saúde mental dos adolescentes na contemporaneidade.
A escolha pela revisão sistemática de literatura fundamentou-se devido a necessidade de compreender o fenômeno a partir de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, possibilitando a identificação de convergências, divergências, e lacunas existentes na produção científica recente. De acordo com Galvão e Ricarte (2019), por meio deste método é possível que estes recursos beneficiem a sociedade, demais instituições e governos que corroboram com a ciência.
As buscas foram realizadas nas bases BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) e Scielo (Scientific Electronic Library Online) contemplando publicações entre 2020 a 2026, preferencialmente na língua portuguesa. Adicionalmente, o Google Acadêmico foi utilizado como ferramenta complementar a fim de localizar estudos e verificar referências. Os operadores booleanos (OR/AND) foram combinados aos descritores: “Bullying”, cyberbullying”, “mundo digital”, “adolescents”, technology”, “psicossocial”, “subjective”, “redes sociais”, “ violência simbólica”, “Ericson”, Vigotsky”, entre outros.
Para a localização dos estudos, foram utilizados os descritores: “bullying escolar”, “bullying AND saúde mental” , "cyberbullying AND adolescentes” e “cyberbullying AND saúde mental”, combinados por meio do operador booleano AND.
Inicialmente, foram identificados 74 registros nas bases SciELO e BVS após a aplicação dos filtros de idioma, período de publicação e disponibilidade do texto completo. Em seguida, realizou-se a leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos os estudos duplicados, aqueles que não abordaram diretamente a temática investigada e os que não correspondiam ao público-alvo da pesquisa.
Os critérios de inclusão compreenderam artigos científicos publicados em português, disponíveis na íntegra, revisados por pares e que abordassem diretamente o bullying e o cyberbullying na adolescência, contemplando aspectos relacionados à saúde mental, relações sociais, identidade, exclusão social, fatores psicossociais associados e impactos no desenvolvimento dos adolescentes. Foram excluídos estudos duplicados, produções cujo foco principal não estivesse relacionado ao fenômeno investigado, pesquisas desenvolvidas predominantemente com crianças, bem como, editoriais, resenhas, dissertações, teses e materiais sem metodologia explicitada.
O processo de seleção dos estudos seguiu as recomendações do protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta- Analyses (PRISMA), abordando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. Após a aplicação dos critérios estabelecidos e a leitura dos textos completos, 13 estudos foram considerados elegíveis para compor a síntese qualitativa da revisão.
FLUXOGRAMA PRISMA - PROCESSO DE SELEÇÃO DOS ESTUDOS
Figura 1 - Fluxograma PRISMA do processo de seleção dos estudos
A extração dos dados foi obtida de maneira padronizada, embasando-se em informações referentes aos autores, ano de publicação, objetivos, delineamento metodológico, participantes e resultados dos estudos selecionados. Essas informações foram organizadas em quadros de síntese, possibilitando uma análise mais sistematizada das evidências encontradas e maior integração dos achados.
Posteriormente, os estudos foram submetidos à leitura analítica e comparativa, buscando identificar aspectos recorrentes relacionados aos impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência. A análise permitiu a identificação de convergências e divergências entre os estudos, bem como, a organização dos resultados em categorias temáticas representativas dos principais fenômenos investigados.
A partir dos dados extraídos, construíram-se eixos de análise relacionados aos impactos na saúde mental aos processos de identidade e exclusão social, às relações de poder presentes nas experiências de vitimização e às implicações da cultura digital na ampliação das práticas de violência entre pares. Essa organização possibilitou compreender como diferentes fatores sociais, familiares, escolares e tecnológicos atravessam as experiências de bullying e cyberbullying na adolescência.
Os resultados foram discutidos à luz do referencial teórico da Psicologia Social, especialmente das contribuições de Ciampa (1984), Moraes (2009), Vygotsky (2007), Dias et al., (2019) e Campana (2025), buscando articular os achados empíricos às discussões sobre identidade, pertencimento, exclusão social, desenvolvimento humano e cultura digital. Tal procedimento permitiu evidenciar aproximações e especificidades entre os estudos analisados, contribuindo para uma compreensão ampliada dos impactos psicossociais do bullying e cyberbullying na contemporaneidade.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os estudos selecionados para esta revista encontram-se organizados no Quadro 1, elaborado com objetivo de facilitar a visualização das especificidades metodológicas e dos principais achados das pesquisas incluídas. O quadro apresenta informações referentes à autoria, ano de publicação, objetivos, delineamento metodológico e principais resultados, favorecendo uma compreensão sistematizada para a temática investigada.
Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 13 estudos publicados entre 2020 e 2026, os quais abordaram diferentes dimensões do bullying e do cyberbullying na adolescência. Os artigos analisados revelam aspectos relacionados à saúde mental, identidade, exclusão social, relações interpessoais, fatores de vulnerabilidade e proteção, bem como os impactos das tecnologias digitais nas experiências de violência entre pares.
A análise dos estudos permitiu identificar convergências importantes quanto aos efeitos do bullying e do cyberbullying no desenvolvimento psicossocial dos adolescentes. Embora os trabalhos apresentam diferentes delineamentos metodológicos e enfoques teóricos, observou-se consenso acerca das repercussões negativas dessas práticas sobre a saúde mental, processos identitários e as relações sociais dos jovens.
Com objetivo de sistematizar os resultados encontrados, os achados foram organizados em, três categorias temáticas: (1) impactos na saúde mental e sofrimento psicossocial. (2) identidade, exclusão social e relações de poder. e (3) relações sociais, pertencimento e fatores associados aos bullying e cyberbullying. Essa organização possibilitou uma análise integrada dos estudos, articulando os resultados empíricos ao referencial teórico da Psicologia Social.
Quadro 1 - Caracterização dos estudos incluídos na revisão sistemática
Ordem | Autor | Objetivo | Periódico | Principais achados |
1 | Oliveira et al. (2021) | Analisar a relação entre desengajamento moral e bullying | Psicologia Escolar e Educacional | O desengajamento moral mostrou-se forte preditor do comportamento agressivo associado ao bullying. |
2 | Reisen, Leite e Santos Neto (2021) | Investigar a associação entre capital social e bullying em adolescentes | Ciência & Saúde Coletiva | Baixos níveis de capital social associaram-se à maior vitimização e agressão por bullying. |
3 | Faria , Gomes e Modena (2022) | Compreender vivências de bullying contra população LGBTQIA+ | Educação e Pesquisa | Evidenciou impactos do bullying relacionados à orientação sexual e identidade de gênero. |
4 | Figueira et al. (2022) | Analisar a associação entre supervisão parental e bullying | Epidemiologia e Serviços de Saúde | Maior supervisão parental reduziu a chance de vitimização e perpetração do bullying. |
5 | Silva et al. (2022) | Verificar diferenças em habilidades sociais de estudantes envolvidos em bullying | Psico- USF | Déficits em habilidades sociais estiveram associados ao envolvimento em situações de bullying. |
6 | Pigozi et al. (2023) | Avaliar a roda de conversa como estratégia de enfrentamento ao bullying | Interface- Comunicação, Saúde, Educação | A roda de conversa favoreceu a reflexão crítica e a redução da naturalização da violência escolar. |
7 | Malta et al. (2024) | Investigar a ocorrência de cyberbullying entre escolares brasileiros | Ciência & Saúde Coletiva | O cyberbullying associou-se à tristeza, isolamento social e sofrimento emocional. |
8 | Silva, Vilela e Oliveira (2024) | Analisar os efeitos de gênero, raça e nível socioeconômico no bullying | Educação e Pesquisa | O bullying mostrou relação com desigualdades sociais e marcadores de vulnerabilidade. |
9 | Ferreira, Oliveira Junior e Higarashi (2024) | Compreender manifestações e implicações do bullying na escola | Saúde e Sociedade | Evidenciou sofrimento emocional, exclusão social e prejuízos ao pertencimento escolar. |
10 | Gomes et al. (2024) | Avaliar fatores associados à vitimização por bullying | Ciência & Saúde Coletiva | A vitimização esteve associada à insatisfação corporal, exclusão social e vulnerabilidades psicossociais. |
11 | Araújo, Silva e Silva (2025) | Analisar a associação entre bullying e ideação suicida | Estudos Econômicos | O bullying mostrou associação significativa com ideação suicida em adolescentes. |
12 | Pacífico et al. (2025) | Investigar a relação entre prática de bullying e comportamentos de risco | Ciência & Saúde Coletiva | O envolvimento com bullying associou-se a comportamentos de risco e pior qualidade de vida. |
13 | Malta et al. (2026) | Investigar a prevalência e fatores associados à vitimização por bullying | Saúde em Debate | A vitimização esteve associada a solidão, sofrimento psíquico e dificuldades relacionais |
Fonte: Elaborada pela autora (2026).
A análise dos estudos apresentados no Quadro 1 permitiu identificar convergências importantes acerca dos impactos psicossociais do bullying e do cyberbullying na adolescência. Embora os artigos analisados apresentem diferentes delineamentos metodológicos e enfoques teóricos, observou-se consenso quanto às repercussões dessas práticas sobre a saúde mental, os processos identitários e as relações sociais dos adolescentes.
Os resultados evidenciam que o bullying e o cyberbullying constituem fenômenos complexos, influenciados por fatores individuais, familiares, escolares e socioculturais. Além disso, os estudos demonstram que essas formas de violência não se restringem ao ambiente escolar, produzindo efeitos que se estendem às relações interpessoais, ao desenvolvimento emocional e à construção da identidade dos adolescentes.
Com objetivo de sistematizar os principais achados encontrados na literatura, os resultados foram organizados em três categorias temáticas: (1) impactos na saúde mental e sofrimento psicossocial; (2) identidade, exclusão social e relações de poder; e (3) relações sociais, fatores de proteção e enfrentamento do bullying e cyberbullying.
4.1. Impactos na Saúde Mental e Sofrimento Psicossocial
Os estudos analisados atestam que o bullying e o cyberbullying estão associados a importantes prejuízos à saúde mental dos adolescentes, sendo frequentemente relacionados a sentimentos de tristeza, solidão, baixa autoestima, sofrimento emocional e ideação suicida. De modo geral, os autores convergem ao afirmar que a exposição contínua a situações de violência entre pares pode comprometer significativamente o desenvolvimento psicológico e social dos jovens.
Nesse sentido, Araújo, Silva e Silva (2025) identificaram associação significativa entre a vitimização por bullying e a ocorrência de ideação suicida entre adolescentes brasileiros, demonstrando que a exposição recorrente às agressões pode intensificar sentimentos de desesperança e vulnerabilidade emocional. Em consonância com esses achados, Malta et al. (2026) observaram que adolescentes vítimas de bullying apresentavam maiores índices de solidão, sofrimento psíquico e dificuldades nas relações interpessoais.
Ao investigarem especificamente o cyberbullying, Malta et al. (2024) verificaram que adolescentes expostos a agressões virtuais apresentavam maior frequência de sentimentos de tristeza, percepção de abandono, ausência de apoio social e pensamentos relacionados à desvalorização da própria vida. Os autores ressaltam que a violência mediada pelas tecnologias digitais amplia o alcance das agressões e dificulta o afastamento das situações de vitimização, potencializando seus efeitos emocionais.
Os resultados também dialogam com os achados de Gomes et al. (2024), que identificaram associações entre a vitimização por bullying, insatisfação corporal, exclusão social e outros fatores de vulnerabilidade. Embora os autores enfatizem os fatores associados ao fenômeno, os resultados reforçam a compreensão de que o bullying afeta negativamente a autoestima e o bem estar psicológico dos adolescentes.
De forma complementar, Pacífico et al. (2025) observaram que adolescentes envolvidos na prática do bullying apresentavam maior frequência de comportamentos de risco à saúde, incluindo uso de álcool, substâncias psicoativas e pior percepção da qualidade de vida. Embora o foco do estudo esteja voltado aos agressores, seus achados evidenciam que os impactos do fenômeno atingem diferentes sujeitos envolvidos na dinâmica da violência.
Os estudos convergem ao demonstrar que o bullying e o cyberbullying constituem importantes fatores de risco para o sofrimento psíquico na adolescência. Esses resultados dialogam com a perspectiva de Ciampa (1984), ao evidenciar que experiências de rejeição, humilhação e exclusão podem comprometer os processos de construção identitária e o reconhecimento social dos adolescentes.
4.2. Identidade, Exclusão Social e Relações de Poder
Os estudos analisados indicam que o bullying e o cyberbullying estão fortemente relacionados a processos de discriminação, exclusão social e reprodução de desigualdades presentes na sociedade. As agressões frequentemente recaem sobre características associadas ao gênero, orientação sexual, aparência física, raça e condição socioeconômica, evidenciando que a violência entre pares se articula a relações de poder construídas socialmente.
Silva, Vilela e Oliveira (2024) observaram que o envolvimento em situações de bullying sofre a influência de marcadores sociais como gênero, raça e nível socioeconômico. Os autores destacam que adolescentes pertencentes a grupos socialmente vulnerabilizados apresentam maior exposição à vitimização, enquanto determinados grupos ocupam maior frequência a posição de agressores, reproduzindo hierarquias sociais presentes fora do ambiente escolar.
Resultados semelhantes foram encontrados por Ferreira, Oliveira Junior e HIgarashi (2024), que identificaram que as experiências de bullying produzem sentimentos de sofrimento, desvalorização e afastamento em relação ao ambiente escolar. Os autores demonstraram que muitos adolescentes passam a associar a escola a experiências de medo e insegurança, comprometendo seu sentimento de pertencimento e participação social.
Ao investigarem as experiências de pessoas LGBTQIA +, Faria, Gomes e Modena (2022) verificaram que as agressões relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero constituem formas persistentes de exclusão social. Os autores destacam que essas violências ultrapassam os limites físicos da escola e podem ser ampliadas pelas tecnologias digitais, contribuindo para a perpetuação do sofrimento e da marginalização desses grupos.
Os estudos convergem ao indicar que o bullying não pode ser compreendido apenas como um comportamento agressivo individual, mas como um fenômeno social relacionado à intolerância às diferenças e à manutenção de padrões normativos de comportamento. Tal compreensão dialoga diretamente com Ciampa (1984), ao reconhecer que a identidade é construída por meio das relações sociais e do reconhecimento estabelecido entre o indivíduo e o outro.
4.3. Relações Sociais, Fatores de Proteção e Enfrentamento do Bullying e Cyberbullying
Além dos impactos psicossociais produzidos pelo bullying e pelo cyberbullying, os estudos analisados evidenciaram a importância de fatores familiares, escolares e comunitários na prevenção e no enfrentamento dessas práticas.
Reisen, Leite e Santos Neto (2021) observaram que adolescentes inseridos em contextos caracterizados por baixos níveis de capital social apresentavam maiores chances de envolvimento em situações de bullying. Os autores destacam que relações sociais fragilizadas e reduzido sentimento de pertencimento podem favorecer experiências de exclusão e vulnerabilidade.
De forma semelhante, Figueira et al. (2022) identificaram que maiores níveis de supervisão parental estão associados à redução das chances de vitimização e perpetração do bullying. Segundo os autores, o acompanhamento familiar funciona como importante fator de proteção, favorecendo o desenvolvimento de estratégias mais saudáveis de resolução de conflitos.
Corroborando com essa perspectiva, Silva et al. (2022) verificaram que estudantes não envolvidos em situações de bullying apresentaram melhores indicadores de habilidades sociais, especialmente em aspectos relacionados à empatia, participação social e autocontrole. Em contrapartida, adolescentes classificados como vítimas-agressoras demonstraram déficits significativos nessas competências.
Oliveira et al. (2021), ao investigarem os mecanismos de desengajamento moral, observaram que adolescentes que tendem a justificar ou minimizar comportamentos agressivos apresentam maior propensão ao envolvimento em práticas de bullying. Os autores ressaltam a importância de intervenções voltadas ao desenvolvimento da empatia, da responsabilidade moral e da reflexão crítica sobre as consequências da violência.
Por fim, Pigozi et al. (2023) destacam que estratégias participativas, como as rodas de conversa, favorecem a expressão de experiências anteriormente silenciadas e ampliam a compreensão dos adolescentes acerca das consequências do bullying. Os autores argumentam que espaços de diálogo e escuta podem contribuir para a desnaturalização da violência e para a construção de relações mais respeitosas no ambiente escolar.
Em conjunto, os estudos analisados evidenciam que o bullying e o cyberbullying são fenômenos multifatoriais, influenciados pelas interações estabelecidas nos contextos familiar, escolar e social. Essa compreensão aproxima-se das contribuições de Vygotsky (2007), ao reconhecer que o desenvolvimento humano ocorre por meio das relações sociais e dos processos de mediação construídos nos diferentes espaços de convivência.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão sistemática da literatura evidenciou que o bullying e o cyberbullying constituem importantes fenômenos de violência que impactam significativamente o desenvolvimento psicossocial de adolescentes. Os estudos analisados demonstraram que essas práticas produzem repercussões que ultrapassam episódios isolados de agressão, afetando a saúde mental, os processos de construção identitária, as relações interpessoais e o sentimento de pertencimento social de jovens.
Os resultados apontam que experiências de vitimização estão associadas a sentimentos de tristeza, solidão, sofrimento emocional, baixa autoestima e ideação suicida, além de comprometerem o desempenho escolar e a qualidade das relações sociais. Observou-se também que adolescentes pertencentes a grupos socialmente vulnerabilizado, especialmente aqueles marcados por diferenças relacionadas ao gênero, orientação sexual, raça e condição socioeconômica, encontram-se mais expostos a situações de discriminação e exclusão, evidenciando a influência das relações de poder e das desigualdades sociais na ocorrência do fenômeno.
Além dos impactos psicossociais, a revisão permitiu identificar fatores que podem atuar como elementos de proteção e enfrentamento do bullying e do cyberbullying. Aspectos como supervisão parental, fortalecimento das habilidades sociais, ampliação do capital social e desenvolvimento de estratégias educativas participativas mostraram-se relevantes para a prevenção da violência entre pares e para a promoção de ambientes mais seguros e inclusivos.
Os achados analisados reforçam as contribuições da Psicologia Social para a compreensão do fenômeno, ao evidenciar que o bullying e o cyberbullying não podem ser interpretados exclusivamente como comportamentos individuais mas como manifestações produzidas e sustentadas por relações sociais, processos de reconhecimento, exclusão e pertencimento. Nesse sentido, compreender essas práticas exige considerar os contextos familiares, escolares, culturais e tecnológicos nos quais os adolescentes estão inseridos.
Entretanto, torna-se fundamental reconhecer algumas limitações da literatura analisada. Observou-se predominância de estudos transversais e quantitativos, bem como diversidade metodológica entre as pesquisas, fatores que dificultam a generalização dos resultados e apontam para a necessidade de novas investigações que aprofundem a compreensão dos impactos do bullying e do cyberbullying ao longo do desenvolvimento adolescente.
Por fim, destaca-se a necessidade de fortalecimento de políticas públicas, ações educativas e estratégias intersetoriais voltadas à prevenção e ao enfrentamento dessas formas de violência. Investimentos em programas de promoção da saúde mental formação de profissionais da educação e desenvolvimento de espaços de diálogo e acolhimento podem contribuir para a construção de relações mais respeitosas e inclusivas, favorecendo o desenvolvimento saudável dos adolescentes e a redução dos impactos psicossociais associados ao bullying e ao cyberbullying na contemporaneidade.
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1 Faculdade Católica de Rondônia (FCR).
2 Faculdade Católica de Rondônia (FCR).