REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786834104
RESUMO
O presente artigo visa analisar duas questões sobre o acesso e regularidade de leitura em bibliotecas de um questionário aplicado aos acadêmicos ingressantes dos cursos presenciais de Letras e Pedagogia das instituições que integraram o Projeto de cooperação Acadêmica Interinstitucional (PROCAD)1: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Assis, Marília e Presidente Prudente, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Universidade de Passo fundo (UPF). O questionário total foi formado por questões abertas e fechadas, contendo oito categorias de análise sendo: perfil dos sujeitos, perfil leitor, espaços e modos de ler, gêneros textuais, estratégias de leitura, materialidade, o papel das instituições e dos mediadores e suportes de textos. Para este estudo, opta-se por um recorte referente à biblioteca, tendo em vista que esse espaço que permite o acesso democrático ao livro. Para tanto, buscou-se subsídios bibliográficos em Roger Chartier (1991, 1998), Michèle Petit (2009), Silvia Castrillón (2011), Geneviève Patê (2012) e Vincent Jouve (2002). Também, utiliza-se das considerações dos seguintes estudiosos contemporâneos acerca da leitura na formação de professores: Constanza Mékis (2016), Flávia Ramos e Ângela Balça (2013), Gilda Carvalho e Thatty Castello Branco (2016), Ângela Balça e Renata Junqueira de Souza (2016). Os resultados apontam que a biblioteca, por ser um lugar que propicia a construção do conhecimento, se torna um espaço importante para o fortalecimento de ações leitoras na formação inicial dos futuros professores de Letras e de Pedagogia.
Palavras-chave: biblioteca; espaço de ler; leitura; formação inicial de professores.
ABSTRACT
This article analyzes two aspects related to access to and reading practices in libraries based on data collected through a questionnaire administered to first-year undergraduate students enrolled in on-campus Language and Literature and Pedagogy programs at the institutions participating in the Interinstitutional Academic Cooperation Project (PROCAD): São Paulo State University (UNESP), Assis, Marília, and Presidente Prudente campuses; the Federal University of Espírito Santo (UFES); and the University of Passo Fundo (UPF). The questionnaire consisted of both open- and closed-ended questions organized into eight analytical categories: participants’ profile, reading profile, reading spaces and practices, textual genres, reading strategies, materiality, the role of institutions and mediators, and text formats. This study focuses specifically on the category related to libraries, considering their role as democratic spaces that promote access to books and reading. The theoretical framework is grounded in the works of Roger Chartier (1991, 1998), Michèle Petit (2009), Silvia Castrillón (2011), Geneviève Patê (2012), and Vincent Jouve (2002), as well as contemporary studies on reading and teacher education by Constanza Mékis (2016), Flávia Ramos e Ângela Balça (2013), Gilda Carvalho e Thatty Castello Branco (2016), Ângela Balça e Renata Junqueira de Souza (2016). The findings indicate that libraries play a fundamental role in the construction of knowledge and constitute essential environments for fostering reading practices during the initial education of future Language and Literature and Pedagogy teachers.
Keywords: library; reading spaces; reading; initial teacher education.
1. INTRODUÇÃO
A formação de leitores é um assunto que vem sendo alvo de preocupações e discussões na sociedade atualmente. Os dados levantados pela última avaliação do PISA, divulgados em 2022, mostram que o Brasil permaneceu abaixo da média em leitura da OCDE, com metade dos estudantes brasileiros apresentando desempenho abaixo do nível 2 de proficiência.
Os resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) mostram que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra (impressa ou digital) nos três meses anteriores à pesquisa. Os dados desta última entrevista apontam o maior percentual de não-leitores desde todas as edições da pesquisa que começou em 2007.
Entende-se que a leitura é primordial para a formação do pensamento crítico dos sujeitos. Logo, os índices do PISA e da Retratos da Leitura no Brasil acende uma preocupação urgente em relação à formação de leitores. Em muitos casos, as instituições de ensino são os únicos espaços em que os estudantes possuem acesso ao livro e a leitura. Com isso, o contato com a leitura se faz primordial aos estudantes de Letras e de Pedagogia, pois atuarão diretamente com os mais variados tipos de linguagem, imprescindíveis ao desenvolvimento da capacidade crítica e da participação cidadã, desde a educação infantil até o fim do ensino médio.
A convergência desses dados reforça a necessidade de políticas públicas consistentes e de iniciativas sociais que promovam o gosto pela leitura e ampliem o acesso a práticas leitoras significativas, sob pena de perpetuar um ciclo de baixo desempenho educacional e restrição cultural.
Diante disso, o presente trabalho possui por objetivo analisar alguns dados sobre a biblioteca como espaço de ler de estudantes universitários obtidos por meio de um questionário aplicado aos ingressantes de Letras e de Pedagogia das seguintes instituições de ensino superior brasileiras: Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP), de Assis, de Marília e de Presidente Prudente, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Universidade de Passo Fundo (UPF).
Conhecer os resultados que apontam se os participantes da pesquisa tiveram acesso à biblioteca durante o período escolar e se esse espaço é frequentado para a leitura se torna relevante, porque essas informações ajudam a compreender como os estudantes constroem seus hábitos de leitura e utilizam os recursos acadêmicos desde o início da graduação.
A fim de desenvolvermos a discussão aqui proposta, buscamos auxílio teórico nos estudos de Roger Chartier (1991, 1998), Michèle Petit (2009), Silvia Castrillón (2011), Geneviève Patê (2012) e Vincent Jouve (2002). Também, nos valemos das considerações dos seguintes estudiosos contemporâneos acerca da leitura na formação de professores: Constanza Mékis (2016), Flávia Ramos e Ângela Balça (2013), Gilda Carvalho e Thatty Castello Branco (2016) e Ângela Balça e Renata Junqueira de Souza (2016).
O presente trabalho se estrutura em cinco partes. Em primeiro, algumas considerações teóricas sobre a biblioteca e a formação de leituras; depois, a metodologia da pesquisa; na sequência, a apresentação e análise dos dados, seguida dos resultados obtidos e por fim, as considerações finais.
2. BIBLIOTECA E LEITURA NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES
Quando se pensa acerca da relevância da biblioteca na formação de leitores, um leque de possibilidades aparece. Roger Chartier (1998) alega que a biblioteca deve reunir todos os saberes acumulados, ser a base dos conhecimentos humanos, colocar à disposição de cada um as diversas obras escritas ao longo dos séculos. Logo, nota-se a relevância desse lugar que possibilita o contato com o livro em todos os níveis de escolaridade.
A leitura age diretamente na formação do pensamento crítico do ser humano. Um sujeito com tal característica tende a ser participativo e autônomo diante das adversidades locais ou globais que podem vivenciar na sociedade em que vive. Diante disso, a biblioteca como espaço de ler viabiliza diretamente o contato democrático do sujeito com o livro.
Ao mencionar a relevância da biblioteca como espaço fundamental na formação do ser humano, Silvia Castrillón (2011) enfatiza que a sociedade precisa de bibliotecas que fomentem o interesse e gosto pela leitura, que seja um espaço que propicie a descoberta do valor que ela tem como meio de busca de sentido, como uma referência de si mesma no mundo, bem como para o reconhecimento do outro. Em suma, a biblioteca deve ser um lugar imprescindível para um projeto de vida que pretenda superar uma sobrevivência cotidiana, pois este ambiente “teria muito por fazer, tanto em facilitar o acesso da população à informação científica, cultura, artística [...]” (Castrillón, 2011, p. 78). Michèle Petit, por sua vez, enfatiza que:
Se existe um lugar propício aos desvios e aos encontros inesperados, é a biblioteca – com a condição de que as obras propostas sejam de acesso livre e de que os usuários se beneficiem, em diversos momentos de seu percurso, do acompanhamento de profissionais, ou ao menos de voluntários formados. Ali podemos experimentar uma relação com o livro que não se funda somente nas perspectivas utilitaristas da instrução, e nos abandonar a esses tempos de devaneio em que não se deve prestar contas a ninguém, nos quais se forja o sujeito e que, tanto quanto aos aprendizados, ajudam a crescer e a viver. A biblioteca é particularmente qualificada para dar lugar às várias facetas da leitura, a seu caráter complexo, múltiplo [...] (Petit, 2009, p. 273).
Diante do exposto, atenta-se para o fato de que a biblioteca pode ser um espaço enriquecedor na formação do ser humano e, em muitos casos, o único lugar que o sujeito pode ter acesso ao livro. Neste sentido, “entre os espaços necessários para o funcionamento de uma escola, além de secretaria, refeitório, entre outros, está a biblioteca, como um ambiente necessário para a formação do estudante [...]” (Ramos; Balça, 2013, p. 161).
Com isso, a biblioteca pode assumir um papel (re) estruturante na sociedade na medida em que amplia o seu lugar de depósito de livros para um espaço em que se desenvolvam ações leitoras. De acordo com Geneviève Pate (2012), a biblioteca propõe um ambiente cultural único e profundamente humano. Ao mesmo tempo, a estudiosa encoraja os leitores a seguir seus próprios caminhos e favorece a emergência das identidades. É onde a expressão das diferenças é possível, desejável e encorajada; um espaço onde se pode aprender a construir relações com o outro, bem como a tentar compreender-se.
Entende-se que no ato de ler o leitor se apropria do texto, o interpreta, transforma o seu sentido, vive sua fantasia, seus medos, desejos, angústias, frustrações. É em meio a essa atividade que o receptor se constrói, pois o texto libera algo que o leitor possui dentro de si e, muitas vezes, encontra ali a energia, a força para sair de um contexto ao qual estava preso, para se transformar.
Sendo assim, “o charme da leitura provém em grande parte das emoções que ela suscita. Se a recepção do texto recorre às capacidades reflexivas do leitor, influi igualmente – talvez, sobretudo – sobre sua afetividade” (Jouve, 2002, p. 19). E a biblioteca pode propiciar o encontro do leitor consigo mesmo e com o mundo através do livro.
De acordo com Gilda Maria Rocha de Carvalho e Thatty Castelo Branco (2016), os espaços de ler permitem que o leitor tenha um contato mais próximo com o texto. Mas, a mediação é primordial para que o texto lido seja um mecanismo de mudança no sujeito. Assim, a leitura serve como uma ponte para o homem que, quando completada, pode transformar o modo como o receptor vê e se relaciona com o mundo.
Logo, a relação entre os futuros professores de Letras e de Pedagogia e a biblioteca se torna primordial, pois através desse lugar também podem ampliar o repertório de leituras se tiverem mediadores. Segundo Silva:
O cerne do desenvolvimento da identidade de um professor é, sem dúvida, a leitura. Para ele, a leitura constitui, além de instrumento e/ou prática, uma “forma de ser e de existir”. Isto porque o seu compromisso fundamental, conforme a expectativa da sociedade, se volta para a (re) produção do conhecimento e para a preparação educacional das novas gerações. Professor, sujeito que lê, e a leitura, conduta profissional, são termos indicotomizáveis – um nó que não se pode nem se deve desatar (Silva, 2009, p. 23).
Diante do exposto, entende-se que a disseminação da leitura propicia a democratização do saber e, com isso, a possibilidade de o receptor se tornar um sujeito emancipado. Sendo assim “as leituras do professor influenciam sua prática pedagógica e, portanto, ampliando-se seu universo de leitura, abrem-se espaços para que colabore mais efetivamente para o processo de letramento de seus alunos.” (Balça; Souza, 2012, p. 378).
A leitura possibilita o estímulo do senso crítico, pois “com frequência o saber é pensado como a chave da liberdade, como um meio de não ficar à margem de seu tempo, como um meio de participar do mundo e de ali encontrar um lugar.” (Petit, 2013, p. 106). O leitor, então, transforma o texto e é transformado por ele, porque durante a prática da leitura percebe que pode elaborar possibilidades em relação à maneira de pensar.
Nesse sentido, Silvia Castrillón (2011, p. 38) menciona que: “Enfim, precisamos de bibliotecas que fomentem o interesse e o gosto pela leitura, que permitam a descoberta do valor que ela tem como meio de busca de sentido, como referência de si mesmo no mundo e para o reconhecimento do outro.”.
De acordo com Chartier (1991), os momentos passados na biblioteca asseguram o afastamento do sujeito de outras esferas como: do público em geral, dos negócios, da família, da casa, das relações sociais. Nesse espaço, o indivíduo é dono do seu tempo, do seu ócio e do seu estudo. A biblioteca, então, se torna relevante na formação dos sujeitos, porque oferece acesso à leitura e, consequentemente, aproxima as pessoas da cultura. Conforme Mékis (2016, p. 179), tal lugar deve ser “um espaço que surpreenda, fomente a curiosidade, a imaginação e o engenho, além de mostrar que está dedicado aos leitores”.
Silva,
[...] a leitura é um fazer que se aprende com o outro por meio de diferentes tipos de convivência social em determinadas comunidades de prática ao alcance de nossa participação. Resumindo, a leitura é uma prática socialmente – educacionalmente – construída e culturalmente mediada (Silva, 2016, p. 109-110).
Logo, a leitura é uma prática que pode ser construída em algum meio social. Com isso, uma formação sólida no que se refere à leitura e o contato com a biblioteca como um espaço de ler durante o percurso acadêmico dos estudantes das áreas de Letras e de Pedagogia, viabiliza a esses sujeitos expandir as várias possibilidades de relacionar o que leem com a realidade que os cerca.
3. A METODOLOGIA DA PESQUISA
O presente estudo parte da elaboração e aplicação de um questionário com 85 questões abertas e fechadas aos 455 universitários ingressantes em cursos superiores presenciais de Letras e de Pedagogia no primeiro semestre de 2015 das IES integrantes da pesquisa “Leitura nas licenciaturas: espaços, materialidades e contextos na formação docente” do Projeto de Cooperação Acadêmica Interinstitucional (PROCAD): Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP), de Assis, de Marília e de Presidente Prudente, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade de Passo Fundo (UPF).
O questionário foi estruturado em duas partes no sentido de recolher alguns dados que nos permitissem conhecer o perfil dos sujeitos e o perfil leitor. As questões contemplaram os seguintes itens: dados pessoais, tipos de textos lidos habitualmente, o que procura ler e por que motivo, os suportes de leitura, espaços de leitura, tempos de leitura, dimensões valorizadas na leitura e indicação de uma preferência específica, que hábitos possui antes, durante e depois da leitura. Vale mencionar que tal estudo diz respeito somente aos ingressantes da graduação, porque o questionário foi aplicado apenas a esses acadêmicos (as).
Após a coleta das respostas e tabulação dos dados, o resultado foi dividido em blocos temáticos: “Espaços e modos de ler”, “Gêneros textuais”, “Estratégias de leitura”, “Materialidade”, “O papel das instituições e dos mediadores” e “Suportes de textos” e distribuído para estudo às equipes do projeto que foram compostas por professores doutores com vínculo efetivo nas instituições que integram a parceria interinstitucional e com atuação nos cursos de licenciatura em Letras ou Pedagogia e/ou nos Programas de Pós-Graduação em Educação e/ou em Letras.
Para auxiliar na análise dos resultados, buscamos auxílio na teoria do paradigma indiciário proposta por Carlo Ginzburg (1989). Segundo esse estudioso, o apreciador da arte, no intuito de distinguir uma obra original da cópia, precisa seguir pistas, indícios para chegar a uma conclusão.
Nesse sentido, segundo Ginzburg (1989), o homem aprendeu a observar, farejar, registrar, interpretar, fazer uma “leitura” dessas pistas para alcançar o seu objetivo. Com isso, Ginzburg (1989, p. 145) comenta que “o conhecedor da arte é comparável ao detetive que descobre o autor do crime (do quadro) baseado em indícios imperceptíveis para a maioria”.
A linguagem, então, assume as funções de relatar, registrar, ler e interpretar. Com isso, as formas de comunicação servem para relatar a nossa história e cultura, uma vez que “existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” (Ginzburg, 1989, p. 177). Logo, neste estudo, opta-se por observar detalhadamente os resultados obtidos para analisar se os sujeitos respondentes da pesquisa do PROCAD tiveram acesso à biblioteca durante a formação escolar e se utilizam esse espaço para ler. Então, a partir disso, levanta-se algumas conclusões.
4. PANORAMA DE ACESSO E LEITURA EM BIBLIOTECAS DOS ESTUDANTES DE LETRAS E PEDAGOGIA
O estudo apresentado trilha por um uma abordagem quali-quantativa, o que propicia uma visão holística, ou seja, a compreensão dos números e dos significados por trás deles. Os resultados obtidos na pesquisa do PROCAD possuem embasamento no paradigma indiciário de Carlo Ginzburg, tendo em vista que, para a análise e interpretação dos dados, seguimos pistas, indícios e vestígios apresentados nas respostas do questionário.
A partir dos resultados obtidos na pesquisa do PROCAD, realizou-se uma triagem e a escolha de duas questões que apresentam os dados separados conforme os respondentes de cada uma das universidades integrantes do projeto: Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP), de Assis, de Marília e de Presidente Prudente, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade de Passo Fundo (UPF).
Assim, para a análise constam dois quadros que abordam se os ingressantes de Letras e de Pedagogia tiveram acesso a bibliotecas escolares, salas de leitura ou espaços equivalentes durante a formação escolar e se leem com regularidade em bibliotecas ou salas de leitura.
A questão 21, apresenta o seguinte resultado:
Quadro 1. Na sua formação escolar, você teve acesso regular a bibliotecas escolares, salas de leitura escolares ou espaço equivalente?
| 21. Na sua formação escolar, você teve acesso regular a bibliotecas escolares, salas de leitura escolares ou espaço equivalente? [Assinale apenas uma resposta] | Total | ||||||
Sempre | Em alguns momentos no Ensino Fundamental | Em alguns momentos no Ensino Médio | Em alguns momentos no Ensino Fundamental e em alguns no Ensino Médio | Não | Em branco | |||
Pólo | UNESP Marília | 42 | 2 | 2 | 27 | 4 | 0 | 77 |
UPF | 68 | 16 | 9 | 10 | 0 | 1 | 104 | |
UFES | 59 | 6 | 5 | 10 | 6 | 0 | 86 | |
UNESP Assis | 66 | 13 | 18 | 7 | 7 | 8 | 119 | |
UNESP Prudente | 28 | 9 | 27 | 5 | 0 | 0 | 69 | |
Total | 263 | 46 | 61 | 59 | 17 | 9 | 455 | |
Fonte: Procad/2016
A partir do resultado obtido na questão 21, é possível perceber que mais da metade dos sujeitos respondentes de todas as universidades participantes do PROCAD alegam que, na formação escolar, sempre tiveram acesso a bibliotecas ou espaços de leitura. Esse número é positivo, pois indica que esses universitários de Letras e de Pedagogia estiveram ao alcance dos livros e que esses espaços ainda são centrais na formação leitora.
É significativo observar que o maior número se situa no grupo de respondentes da Universidade de Passo Fundo (UPF), seguido pela UNESP de Assis, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), UNESP de Marília e o menor número da UNESP de Presidente Prudente. O resultado que se refere ao acesso em alguns momentos no ensino fundamental também evidencia que o número maior se concentra nos respondentes da Universidade de Passo Fundo (UPF) em relação aos sujeitos das equipes das demais instituições.
Um grupo expressivo de 166 pessoas, somando fundamental, médio e ambos, alega que teve contato apenas em determinados períodos. Esse dado pode indicar desigualdade ou descontinuidade de políticas escolares que primam pelo acesso à biblioteca.
Contudo, no que se refere às respostas sobre o acesso em alguns momentos no ensino médio, nota-se que o maior número é registrado na UNESP de Presidente Prudente, depois na UNESP de Assis, na sequência na Universidade de Passo Fundo (UPF), na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e na UNESP de Marília. Já, ao relatarem a aproximação com a biblioteca em alguns momentos no ensino fundamental e no ensino médio, a quantia maior é documentada na UNESP de Marília.
Em relação aos que responderam não terem tido acesso a biblioteca ou espaços equivalentes, o maior número se aglomera na UNESP de Assis, depois na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e, por fim, na UNESP de Marília. Os resultados em branco indicam maior concentração na UNESP de Assis e na Universidade de Passo Fundo (UPF).
Ao observar a soma dos resultados de cada seção da pergunta, percebe-se que a maior quantidade de acesso à biblioteca ou espaços equivalentes ocorre no ensino médio. Logo, infere-se que isso pode ocorrer devido à prova do vestibular, momento que leva os estudantes a retirarem livros literários, a fim de se prepararem para a prova, ou devido à elaboração de trabalhos em equipe solicitados pelos professores.
Vale ressaltar que não é possível saber se em todas as escolas em que os respondentes da pesquisa cursaram o ensino fundamental e o ensino médio existiam bibliotecas e, caso houvesse, se esses estudantes eram incentivados a frequentarem tais espaços, bem como se as práticas de leitura aconteciam na biblioteca.
Apenas 17 universitários mencionam não terem tido acesso, mostrando que a exclusão completa é minoritária, mas ainda relevante. Os 9 casos que deixam a resposta em branco podem refletir desatenção ou dificuldade em se posicionar, mas também podem indicar experiências pouco relevantes com bibliotecas. Mesmo que sejam resultados baixos, diante da totalidade de respondentes, esses 28 sujeitos não usufruíram do contato com uma biblioteca, espaço de aquisição do saber.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), ao solicitar a frequência com que os entrevistados costumam ir a bibliotecas obteve o seguinte resultado: 3% alegaram frequentar a biblioteca sempre, 9% às vezes, 12% raramente e 75% nunca. Ao perguntar que tipo de biblioteca frequenta, 45% disseram que foi a escolar, 13% a universitária e 44% a pública. Então, pode-se inferir que a baixa frequência às bibliotecas é um fenômeno generalizado, não restrito apenas aos acadêmicos de Letras e de Pedagogia.
Dando sequência à análise dos resultados da pesquisa do PROCAD, a questão 52 apresenta o seguinte:
Quadro 2. Lê com regularidade em bibliotecas ou salas de leitura?
| 52. Lê com regularidade em bibliotecas ou salas de leitura? [Considere tanto a situação de ler materiais emprestados pela biblioteca, quanto materiais que você leve pra ler lá. Assinale uma ou mais respostas.] | Total | |||||
Sim, em bibliotecas ou salas municipais, estaduais ou federais | Sim, em bibliotecas ou salas escolares ou universitárias | Sim, em bibliotecas privadas ou salas de leitura privadas | Não | Em branco | |||
Pólo | UNESP Marília | 3 | 27 | 0 | 46 | 1 | 77 |
UPF | 18 | 11 | 6 | 67 | 2 | 104 | |
UFES | 5 | 33 | 0 | 48 | 0 | 86 | |
UNESP Assis | 3 | 39 | 3 | 74 | 0 | 119 | |
UNESP Prudente | 0 | 15 | 0 | 54 | 0 | 69 | |
Total | 29 | 125 | 9 | 289 | 3 | 455 | |
Fonte: Procad/2016
É importante observar que o número maior de respondentes menciona ler em bibliotecas ou salas de leitura escolares ou universitárias em detrimento das salas municipais, estaduais ou federais e das bibliotecas ou salas privadas. Nesse sentido, podemos inferir que o acesso e a prática de leitura em bibliotecas estão fortemente associados ao contexto educacional.
Por meio dos dados obtidos, nota-se que uma boa parte dos respondentes reconhece a biblioteca como um lugar para se praticar a leitura, porém, a maioria, sendo um número bem significativo, alegou não ler em tal espaço. Crê-se que esses respondentes da pesquisa do PROCAD não consideram a biblioteca como um espaço para ler, ou não tiveram incentivo para frequentar esse ambiente. Essa visão pode estar enraizada na crença de que a biblioteca é apenas um ambiente de depósito e retirada de livros, bem como outros tipos de materiais. Essa informação revela um desafio para políticas de incentivo à leitura nesses espaços.
Embora sejam espaços de acesso democrático e de uso público, apenas 29 pessoas relatam uso regular de bibliotecas, ou salas municipais, estaduais ou federais sugerindo necessidade de maior divulgação e valorização desses ambientes como meio de contato com a leitura e a cultura.
O número de 9 pessoas que alega praticar a leitura em bibliotecas ou salas de leitura privadas mostra que apenas um pequeno percentual possui acesso esse tipo de espaço, sendo este pouco representativo para a maioria dos respondentes, possivelmente por barreiras de acesso como custos, localização e exclusividade.
Esses resultados evidenciam um ciclo cultural de que a biblioteca deixa de ser vista como espaço de referência para leitura. Além disso, a consequência é preocupante, pois futuros professores das áreas de Letras e Pedagogia, que serão mediadores da leitura, podem reproduzir essa distância em sua prática pedagógica, perpetuando o afastamento das bibliotecas durante a atuação profissional.
Então, tem-se aqui informações importantes que são pertinentes ao questionário analisado, no que se refere à biblioteca enquanto espaço para se praticar a leitura, já que o panorama apresentado nas respostas dos respondentes da pesquisa do PROCAD possui consistência de resultados com a Retrato da Leitura no Brasil.
5. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Após apresentar as informações coletadas a partir do questionário da pesquisa do PROCAD, chega-se a algumas conclusões. Em primeiro, vale ressaltar que houve participação efetiva dos sujeitos respondentes, o que significa profícuo interesse em relatar a sua relação com a leitura para um estudo desta proporção, que almeja fomentar discussões e propostas de práticas de leitura na formação inicial de professores de Letras e Pedagogia.
Também é importante considerar de que a maioria dos acadêmicos de Letras e Pedagogia tiveram acesso às bibliotecas, indicando que estiveram um contato com a construção do conhecimento que o universo dos livros proporciona. Isso reforça a relevância da biblioteca como parte estruturante da escola e da universidade.
Os respondentes que alegaram ter acesso as bibliotecas ou salas de leitura apenas em momentos específicos revelam que a presença desses espaços não é constante ao longo da trajetória escolar, o que pode impactar negativamente a formação leitora.
A pequena parcela que mencionou não ter acesso merece uma atenção, pois mostra que ainda existem contextos educacionais sem oferta de espaços de leitura, o que pode ocasionar desigualdade
Já o resultado obtido na questão sobre a regularidade com que leem em bibliotecas ou salas de leitura mostra que a maioria dos participantes alegou que não pratica a leitura nesses espaços – aspecto sinalizador que pode indicar falta de hábito, dificuldade de acesso físico, ou preferência por outros meios de leitura como o digital por exemplo.
Mas mesmo que muitos mencionaram não ler em bibliotecas ou salas de leituras, a presença desses lugares em escolas e universidades reforça o papel da instituição de ensino como principal e, muitas vezes, única que viabiliza acesso aos livros.
É possível perceber que essa análise se torna uma ferramenta que viabiliza ver e interpretar a relação dos acadêmicos de Letras e Pedagogia com a biblioteca. A partir disso, construir práticas de acesso e de leitura podem ser capazes de modificar a ótica que esses futuros professores possuem desse espaço.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Faz-se preciso retomar o objetivo deste trabalho: analisar duas questões sobre o acesso e regularidade de leitura em bibliotecas de um questionário aplicado aos acadêmicos integrantes dos cursos presenciais de Letras e Pedagogia das instituições que integraram o Projeto de cooperação Acadêmica Interinstitucional (PROCAD).
Diante da análise apresentada, os resultados dos dados obtidos por meio da pesquisa “Leitura nas licenciaturas: espaços, materialidades e contextos na formação docente” do Projeto de Cooperação Acadêmica Interinstitucional (PROCAD) cujas instituições de ensino superior integrantes são: Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP), de Assis, de Marília e de Presidente Prudente, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade de Passo Fundo (UPF), permite responder ao questionamento do título deste artigo: biblioteca é um espaço que comporta o acesso ao livro e à cultura, mas precisa se tornar um lugar onde também se desenvolvam práticas leitoras durante a formação inicial dos futuros professores de Letras e de Pedagogia, respondentes do estudo.
Vale mencionar que a Universidade de Passo Fundo (UPF), além da Biblioteca Central e de algumas bibliotecas setoriais, possui um espaço chamado Centro de Referência de Literatura e Multimeios – Mundo da Leitura2 que iniciou suas atividades em 1997. Tal ambiente se caracteriza como laboratório do curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e viabiliza a professores e alunos a realização de atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Este lugar atende a comunidade da cidade de Passo Fundo e da região e tem um amplo acervo de diferentes suportes de leitura como: livros impressos, CDs, DVDs, empréstimo de sacolas de leitura e salas para o desenvolvimento de ações leitoras, bem como outras atividades de estudo. O público pode retirar livros impressos e acessar a internet por meio de computadores locais. O Mundo da Leitura também oferta serviços de visitas agendadas para professores, alunos e outros grupos.
A Faculdade de Ciência e Tecnologia da UNESP de Presidente Prudente conta com o Centro de Estudos em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil “Maria Betty Coelho Silva” – CELLIJ3 que foi criado em 1995 com o intuito de formar leitores literários e proporcionar um diálogo com professores, jovens alunos, instâncias governamentais responsáveis pela implementação de políticas públicas no campo da Educação e também com acadêmicos do curso de Pedagogia, seus docentes e com integrantes do Programa de Pós-Graduação em Educação. Esse espaço atende crianças e jovens da Educação Infantil até os anos finais do Ensino Fundamental.
Também por meio de projetos financiados a nível nacional e internacional, o CELLIJ trabalha com políticas públicas de incentivo à leitura, pesquisa e compara indicativos de desempenho de alunos da Educação infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental e com práticas que possam reduzir os déficits de aprendizagem de tais estudantes. A universidade também conta com a BIP – Biblioteca infantil da UNESP de Presidente Prudente.
Sobre as bibliotecas das instituições de ensino superior UNESP de Assis, UNESP de Marília e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), percebe-se que essas universidades também possuem bibliotecas universitárias com amplo acervo de livros, bem como estrutura para ações de pesquisa e de leitura.
O contato com a biblioteca durante a formação inicial dos futuros professores de Letras e de Pedagogia vai além do acesso aos livros, pois reforça a vivência com um ambiente que estimula a curiosidade intelectual, a autonomia e a formação de repertório cultural.
Portanto, crê-se que a partir das respostas dos acadêmicos tem-se um panorama para a criação de projetos que primem pelo desenvolvimento de práticas significativas de leitura em bibliotecas. O vínculo com esse espaço fortalece tanto a identidade profissional quanto a capacidade de inspirar novas gerações a lerem de forma significativa.
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1 Os dados obtidos a partir do questionário aplicado foram utilizados em diversas discussões e análises em trabalhos como iniciação científica, trabalho de conclusão de curso, artigos científicos por professores e estudantes de Letras e Pedagogia das Instituições de Ensino Superior participantes do PROCAD. Alguns dados desta pesquisa também serviram como corpus da tese de doutorado da autora deste artigo.
2 Informações sobre o Mundo da Leitura foram retiradas do site: https://www.upf.br/mundodaleitura
3 Informações acerca do CELLIJ foram extraídas do endereço eletrônico: http://www2.fct.unesp.br/congresso/cellij/vicilij/