REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793326784
RESUMO
A saúde mental constitui tema relevante para a Psicologia e envolve identidade, autoaceitação e regulação emocional. Esses aspectos ajudam a compreender o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), associado à instabilidade emocional, a dificuldades interpessoais e a alterações na percepção de si. Este estudo analisa autoaceitação, identidade e desregulação emocional na música Epiphany, interpretada por Jin, integrante do BTS, em diálogo com a literatura científica sobre o TPB. O objetivo foi analisar esses elementos e relacioná-los às discussões teóricas sobre o transtorno. Buscou-se identificar conteúdos ligados à autoaceitação, à identidade e à desregulação emocional; descrever esses conceitos com base na literatura; relacionar elementos da obra às discussões teóricas; e discutir contribuições da análise musical para a reflexão sobre fenômenos psicológicos. Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, realizada por revisão bibliográfica e análise documental. A análise foi organizada em três eixos: autoaceitação e valorização pessoal; identidade e autoimagem; e sofrimento e regulação emocional. Foram identificados na canção conteúdos relacionados ao reconhecimento do próprio valor, à relação consigo mesmo e à percepção da identidade. Esses temas permitem aproximações interpretativas com questões abordadas na literatura sobre o TPB, mas não constituem indicadores diagnósticos isolados. A música não é instrumento de diagnóstico, e a análise de uma obra limita a generalização dos resultados. Conclui-se que Epiphany favorece reflexões sobre autoaceitação, identidade e sofrimento emocional, contribuindo para discussões sobre saúde mental. Pesquisas futuras podem ampliar o conjunto de obras analisadas e comparar produções culturais, com critérios metodológicos explícitos e sem interpretações diagnósticas de obras artísticas.
Palavras-chave: Transtorno de Personalidade Borderline; Autoaceitação; Identidade; Desregulação emocional; Música.
ABSTRACT
Mental health is a relevant topic in psychology and involves identity, self-acceptance, and emotional regulation. These aspects help explain Borderline Personality Disorder (BPD), which is associated with emotional instability, interpersonal difficulties, and changes in self-perception. This study analyzes self-acceptance, identity, and emotional dysregulation in the song Epiphany, performed by Jin, a member of BTS, in dialogue with scientific literature on BPD. The objective was to analyze these elements and relate them to theoretical discussions of the disorder. Specifically, the study sought to identify content related to self-acceptance, identity, and emotional dysregulation; describe these concepts based on the literature; relate elements of the song to theoretical discussions; and discuss the contributions of musical analysis to reflection on psychological phenomena. This is a qualitative, exploratory, and descriptive study conducted through a literature review and documentary analysis. The analysis was organized around three themes: self-acceptance and personal worth; identity and self-image; and emotional suffering and regulation. The song was found to contain themes related to recognizing one’s own worth, one’s relationship with oneself, and perceptions of identity. These themes allow for interpretive connections with issues discussed in the literature on BPD, but they do not constitute independent diagnostic indicators. Music is not a diagnostic tool, and analyzing a single work limits the generalizability of the findings. It is concluded that Epiphany encourages reflection on self-acceptance, identity, and emotional suffering, contributing to discussions of mental health. Future research may expand the range of works analyzed and compare cultural productions using explicit methodological criteria and avoiding diagnostic interpretations of artistic works.
Keywords: Borderline Personality Disorder; Emotional dysregulation; Identity; Music; Self-acceptance.
1. INTRODUÇÃO
A saúde mental ocupa posição relevante nas discussões da Psicologia, especialmente diante da necessidade de compreender processos relacionados à identidade, à percepção de si e à vivência das emoções. Entre esses processos, a autoaceitação, a construção da identidade e a regulação emocional influenciam a forma como o indivíduo interpreta suas experiências e estabelece relações. No campo clínico, essas dimensões assumem especial relevância no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), marcado por instabilidade emocional, interpessoal, comportamental e relacionada à autoimagem. Estudos também ressaltam a importância de considerar a experiência subjetiva das pessoas diagnosticadas, evitando reduzir o transtorno a uma descrição exclusivamente sintomatológica (Dibenedetti et al., 2023).
Esses temas também aparecem em manifestações culturais. A música, enquanto forma de expressão simbólica, pode organizar experiências, evocar emoções e construir narrativas sobre o eu, constituindo objeto pertinente para pesquisas que aproximam Psicologia e cultura. Estudos apontam funções da escuta musical relacionadas à regulação emocional, à autoconsciência e à construção de significados pessoais (Schäfer et al., 2013; Saarikallio, 2011). Nesse contexto, destaca-se “Epiphany”, interpretada por Kim Seok-jin (김석진), integrante do grupo sul-coreano Bangtan Sonyeondan (BTS), cuja narrativa aborda a relação do sujeito consigo mesmo, o reconhecimento do próprio valor e a transformação da percepção de si.
A análise da obra exige, contudo, um limite metodológico: “Epiphany” não foi produzida para representar o TPB, e uma obra artística não constitui instrumento de avaliação ou diagnóstico psicológico. Assim, esta pesquisa não atribui características psicopatológicas ao intérprete ou aos compositores, mas identifica conteúdos expressos na letra e os coloca em diálogo com conceitos presentes na literatura científica. O estudo delimita-se, portanto, aos temas de autoaceitação, identidade e desregulação emocional presentes na canção, compreendidos à luz da literatura sobre o TPB. Sua relevância está na possibilidade de aproximar Psicologia e cultura e ampliar a discussão acadêmica sobre saúde mental por meio de uma produção cultural contemporânea.
A pesquisa é orientada pelo seguinte problema: como os temas de autoaceitação, identidade e desregulação emocional identificados na letra de “Epiphany”, do BTS, podem ser compreendidos à luz da literatura científica sobre o Transtorno de Personalidade Borderline? O objetivo geral consiste em analisar esses temas na letra da canção, relacionando-os às discussões científicas sobre o TPB. Como objetivos específicos, busca-se identificar elementos relacionados à autoaceitação, à identidade e à desregulação emocional; descrever esses conceitos a partir da literatura científica; relacionar os conteúdos identificados aos estudos selecionados; e discutir as possibilidades e os limites da utilização de produções musicais como objetos de reflexão psicológica.
Quanto aos procedimentos metodológicos, trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica e análise documental. O levantamento priorizou publicações de 2022 a 2026 sobre o Transtorno de Personalidade Borderline, identidade, autoimagem, autoaceitação e desregulação emocional. Entre os periódicos científicos representados nas referências utilizadas estão The Lancet, World Psychiatry, Neuropsychiatric Disease and Treatment, Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation e Behaviour Research and Therapy.
Para a discussão sobre música, identidade e regulação emocional, o trabalho também utiliza artigos de Psychology of Music e Frontiers in Psychology. A bibliografia inclui ainda estudos anteriores ao recorte temporal, publicados em Psychological Medicine e Journal of Consulting and Clinical Psychology, além de livros e manuais teóricos; essas obras foram mantidas como fundamentação conceitual e não são apresentadas como publicações de 2022 a 2026. As referências listadas documentam os periódicos efetivamente representados na bibliografia, mas não permitem afirmar, por si só, que tenham sido consultadas outras revistas ou bases além das identificadas no procedimento de busca.
A letra de “Epiphany” foi utilizada como documento de análise, com os conteúdos organizados em categorias temáticas e articulados à literatura selecionada. Não foram utilizados participantes, entrevistas, instrumentos psicológicos ou intervenções clínicas. As limitações do estudo incluem o caráter interpretativo da análise de uma única canção, a dependência das fontes bibliográficas selecionadas e a impossibilidade de generalizar os resultados para pessoas com TPB. A análise não permite estabelecer relações causais nem inferir diagnóstico sobre o intérprete, compositores ou ouvintes.
Como proposições para pesquisas futuras, sugere-se ampliar o corpus para outras produções musicais, explicitar e reproduzir as estratégias de busca em diferentes bases científicas e investigar, por meio de métodos apropriados e com cuidados éticos, como ouvintes atribuem sentidos a canções que abordam autoaceitação, identidade e sofrimento emocional. Essas possibilidades devem preservar a distinção entre expressão artística, experiência subjetiva e avaliação clínica (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).
2. AUTOACEITAÇÃO, IDENTIDADE, DESREGULAÇÃO EMOCIONAL E SUAS INTERFACES COM O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE
2.1. Transtorno de Personalidade Borderline: Conceitos Atuais
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é caracterizado por um padrão persistente de instabilidade que pode envolver a regulação emocional, os relacionamentos interpessoais, a autoimagem e o comportamento. O DSM-5-TR descreve, entre suas características diagnósticas, esforços para evitar abandono, relações interpessoais instáveis, perturbação da identidade, impulsividade, comportamentos suicidas ou autolesivos, instabilidade afetiva, sentimentos crônicos de vazio, raiva intensa e sintomas paranoides transitórios ou dissociativos relacionados ao estresse (American Psychiatric Association, 2022).
Revisões contemporâneas também destacam a interação entre dificuldades de identidade, instabilidade afetiva e funcionamento interpessoal, ressaltando a complexidade clínica do transtorno (Bohus et al., 2021; Leichsenring et al., 2024). A definição diagnóstica, entretanto, não deve ser confundida com uma descrição total da pessoa. O diagnóstico organiza informações clínicas relevantes, mas a experiência subjetiva é mais ampla do que os critérios utilizados para classificação.
Nesse sentido, estudos qualitativos ajudam a compreender como indivíduos com TPB percebem os impactos do transtorno em suas relações, na autoimagem e na vida cotidiana. DiBenedetti et al. (2023), por exemplo, encontraram relatos de respostas emocionais intensas, dificuldades interpessoais e problemas relacionados à autoimagem, impulsividade e sentimentos de vazio. Esses achados reforçam a importância de considerar a perspectiva da pessoa diagnosticada para além de uma leitura exclusivamente sintomatológica (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).
A instabilidade emocional é frequentemente apontada como dimensão central do transtorno. Isso significa que as emoções podem apresentar mudanças rápidas e intensas, acompanhadas de dificuldade para compreender, modular ou tolerar estados afetivos desagradáveis. A desregulação emocional não deve ser entendida apenas como intensidade, mas como uma combinação entre vulnerabilidade emocional e dificuldade de utilizar estratégias eficazes de regulação (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).
Essa compreensão permite diferenciar o sofrimento relacionado ao transtorno de experiências emocionais comuns que podem ocorrer em diferentes contextos da vida. Outro elemento importante é a perturbação da identidade. A percepção de quem se é pode apresentar pouca estabilidade, repercutindo sobre valores, objetivos, preferências e projetos de vida. Essa característica ajuda a compreender por que discussões sobre autoimagem e autoaceitação são pertinentes quando se aborda o TPB (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).
Ao mesmo tempo, é necessário evitar a ideia de que toda dificuldade de identidade é exclusiva do transtorno, pois a construção identitária é um processo humano complexo e contextual. A literatura sobre o funcionamento borderline, portanto, precisa ser lida considerando tanto os critérios clínicos quanto a experiência subjetiva descrita por pessoas diagnosticadas. Dalgalarrondo (2019) situa os transtornos de personalidade como padrões persistentes de funcionamento que podem repercutir sobre diferentes dimensões da vida psíquica e relacional.
No caso do TPB, a articulação entre afetividade, cognição, impulsividade e relações interpessoais ajuda a compreender por que manifestações aparentemente distintas podem aparecer conectadas. Dornelles e Alano (2021) também ressaltam a complexidade etiológica e clínica do transtorno, reforçando a necessidade de uma leitura que não reduza o quadro a uma única causa ou a um conjunto isolado de sintomas.
2.2. Identidade, Autoimagem e Autoaceitação no Transtorno de Personalidade Borderline
A identidade envolve a percepção de continuidade e coerência do próprio self, incluindo características pessoais, valores, vínculos, experiências e expectativas de futuro. No TPB, alterações nessa dimensão podem aparecer como mudanças marcantes na autoimagem e dificuldade de sustentar uma representação integrada de si. A instabilidade identitária pode, por sua vez, afetar a forma como o indivíduo interpreta relações e experiências de aceitação ou rejeição (Dibenedetti et al., 2023; Zanello, 2022).
A autoimagem refere-se à representação que a pessoa constrói sobre si, enquanto a autoaceitação envolve a possibilidade de reconhecer características pessoais, limites e potencialidades sem que a avaliação de si dependa exclusivamente de aprovação externa. Embora esses conceitos sejam relacionados, não são equivalentes. Uma pessoa pode reconhecer suas características e, ainda assim, apresentar dificuldade para aceitá-las; da mesma forma, uma autoimagem negativa pode coexistir com esforços de mudança (Dibenedetti et al., 2023; Zanello, 2022).
Na experiência borderline, a necessidade de validação pode assumir grande importância, especialmente em contextos interpessoais. Isso não significa que pessoas com TPB simplesmente “dependam” dos outros para saber quem são, mas que relações e sinais de aceitação ou rejeição podem adquirir forte peso emocional. A literatura sobre experiências de pacientes mostra que dificuldades de autoimagem, relações instáveis e respostas emocionais intensas frequentemente aparecem interligadas (Dibenedetti et al., 2023).
A discussão sobre autoaceitação também se aproxima da noção de validação presente na Terapia Comportamental Dialética. Validar uma experiência emocional significa reconhecê-la como compreensível no contexto da pessoa, sem necessariamente aprovar qualquer comportamento decorrente dela. Essa distinção é relevante porque a aceitação, em contextos clínicos, não equivale à passividade: pode constituir ponto de partida para mudanças comportamentais e para a construção de respostas mais adaptativas (Dibenedetti et al., 2023; Zanello, 2022).
Do ponto de vista dos processos de subjetivação, a relação que o sujeito estabelece consigo também é atravessada por valores sociais, relações e expectativas culturais. Birman (2019) discute o sofrimento psíquico em articulação com formas contemporâneas de subjetivação, enquanto Dunker (2017) chama atenção para a relação entre sofrimento, reconhecimento e construção de sentidos sobre a própria experiência. Essas contribuições ajudam a evitar uma leitura exclusivamente individualizante da autoimagem, mostrando que a percepção de si também se constitui em contextos relacionais e simbólicos.
Zanello (2022) enfatiza que os processos de subjetivação são atravessados por dispositivos culturais e sociais que participam da produção de expectativas sobre o sujeito. Nesse sentido, falar de autoaceitação não significa apenas considerar uma atitude interna, mas compreender que a maneira como uma pessoa se percebe pode ser influenciada pelos discursos e relações que a cercam. Para o presente estudo, essa perspectiva é relevante porque a música também constitui um espaço cultural no qual determinados modos de narrar a si mesmo são apresentados e compartilhados.
Assim, identidade, autoimagem e autoaceitação constituem dimensões interligadas, mas não sinônimas. A primeira remete à organização de uma percepção relativamente coerente de si; a segunda, à representação que o sujeito constrói sobre suas próprias características; e a terceira, à possibilidade de reconhecer a si mesmo sem depender exclusivamente de julgamentos externos. A análise de “Epiphany” será orientada por essa diferenciação, evitando atribuir à letra significados clínicos que ultrapassem aquilo que o texto efetivamente permite discutir (Dibenedetti et al., 2023; Zanello, 2022).
2.3. Desregulação Emocional e Terapia Comportamental Dialética (DBT)
A desregulação emocional constitui uma dimensão central para a compreensão do TPB. Em situações de estresse, indivíduos vulneráveis podem apresentar respostas afetivas intensas, dificuldade para reduzir a ativação emocional e tendência a comportamentos impulsivos. O sofrimento pode ser ampliado quando a pessoa interpreta o próprio estado emocional como intolerável ou quando não dispõe de estratégias eficazes para lidar com ele (Linehan, 2015; Leichsenring et al., 2024).
A Terapia Comportamental Dialética, desenvolvida por Marsha Linehan, foi estruturada para o tratamento de pessoas com padrões de desregulação emocional e comportamentos de alto risco. A abordagem articula estratégias de aceitação e mudança e trabalha habilidades de atenção plena, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal (Linehan, 2015).
Revisões e meta-análises indicam que a DBT apresenta evidências de eficácia para diferentes desfechos relacionados ao TPB, embora os efeitos variem conforme o desfecho, o desenho dos estudos e as condições de comparação (Cristea et al., 2017; Kliem; Kröger; Kosfelder, 2010). Pesquisas mais recentes também ajudam a compreender mecanismos associados à regulação emocional.
Schmidt et al. (2024), em estudo com pacientes ambulatoriais com TPB submetidos a treinamento de mindfulness, observaram associações entre não julgamento da experiência interna, consciência corporal, descentração e mudanças na desregulação emocional. Esses resultados não significam que mindfulness explique todo o processo terapêutico, mas reforçam a importância de habilidades de observação e de uma relação menos julgadora com a própria experiência.
Uma revisão contemporânea do TPB também destaca que diferentes psicoterapias estruturadas apresentam suporte empírico, não havendo evidência consistente de superioridade absoluta de uma única abordagem (Leichsenring et al., 2024). A DBT também oferece uma lente importante para pensar a autoaceitação. O princípio dialético procura manter simultaneamente duas possibilidades: reconhecer a experiência presente e trabalhar para produzir mudanças. Assim, aceitar a própria condição em determinado momento não significa permanecer sem mudanças.
Essa perspectiva é pertinente para a análise de “Epiphany”, pois a narrativa da canção pode ser lida como um movimento de reconhecimento do próprio valor acompanhado de transformação na maneira de se relacionar consigo mesmo. Além da aceitação, a DBT enfatiza a construção de habilidades. O foco não está somente em explicar por que uma emoção ocorre, mas em desenvolver recursos para reconhecê-la, tolerá-la e responder de forma mais funcional (Linehan, 2015; Leichsenring et al., 2024).
Estudos sobre mindfulness e regulação emocional ajudam a compreender componentes específicos desse processo, enquanto pesquisas de intervenção indicam que diferentes estratégias psicoterapêuticas podem ser utilizadas no tratamento do TPB (Schmidt et al., 2024; Sosić-Vasić et al., 2024). Essa dimensão é importante para diferenciar uma narrativa artística de uma intervenção clínica: a canção pode representar uma mudança de perspectiva, mas não substitui processos terapêuticos estruturados.
Outras investigações também reforçam que a desregulação emocional pode ser abordada por diferentes estratégias psicoterapêuticas. Cristea et al. (2017) discutem efeitos de longo prazo associados à DBT, enquanto Sosić-Vasić et al. (2024) investigaram uma intervenção breve baseada em imagery rescripting. A presença dessas diferentes linhas de investigação mostra que a regulação emocional é um campo amplo e que a compreensão do TPB não depende de uma única técnica ou explicação. Para este estudo, essas evidências servem como fundamento para compreender a complexidade do tema, e não para atribuir à música uma função terapêutica.
2.4. Música, Identidade e Compreensão de Fenômenos Psicológicos
A música constitui uma forma de expressão simbólica capaz de organizar experiências pessoais, evocar lembranças e favorecer a elaboração de estados afetivos. Schäfer et al. (2013) identificaram diferentes funções atribuídas à escuta musical, entre elas regulação de humor e ativação, autoconsciência e relação social. Saarikallio (2011), por sua vez, discutiu o uso da música como recurso de autorregulação emocional ao longo da vida adulta, mostrando que a escuta pode assumir diferentes objetivos e estratégias conforme as necessidades da pessoa.
No campo da identidade, a música pode participar da construção de narrativas sobre quem somos e a quais grupos pertencemos. Ruud (2022) destaca a relação entre música e identidade, enfatizando que experiências musicais podem funcionar como espaços de reconhecimento, pertencimento e elaboração de histórias pessoais. Isso ajuda a compreender por que determinadas canções assumem importância subjetiva para ouvintes, sobretudo quando suas narrativas são percebidas como próximas de experiências vividas.
Também é necessário considerar que a relação entre música e sofrimento emocional não é necessariamente terapêutica. Estudos sobre o uso da música em diferentes estados afetivos mostram que as pessoas podem escolher determinadas canções para acompanhar, modificar ou compreender o próprio humor, mas os efeitos dependem do contexto e da função atribuída à escuta (Saarikallio, 2011). Por isso, uma produção musical pode ser objeto de análise psicológica sem ser tratada automaticamente como instrumento clínico.
É necessário, contudo, diferenciar a função cultural e simbólica da música de uma intervenção psicoterapêutica. Uma canção pode favorecer identificação, reflexão e expressão emocional, mas isso não significa que sua presença produza, por si só, efeitos terapêuticos ou diagnósticos. Da mesma forma, uma letra que mencione sofrimento, rejeição ou insegurança não deve ser automaticamente interpretada como evidência de um transtorno (Schäfer et al., 2013; Ruud, 2022).
Nesse sentido, a análise de “Epiphany” é realizada como estudo de uma produção cultural. A música interessa não porque “prove” a existência de sintomas do TPB, mas porque oferece uma narrativa sobre relação consigo, valor pessoal e transformação. A aproximação com a literatura científica permite discutir esses temas com maior precisão conceitual, mantendo a distinção entre representação artística, experiência subjetiva e fenômeno clínico (Schäfer et al., 2013; Ruud, 2022).
2.5. Análise e Discussão da Letra “Epiphany”
A análise da letra de “Epiphany” permitiu organizar os conteúdos encontrados em três categorias: autoaceitação e valorização pessoal; identidade e autoimagem; e sofrimento e regulação emocional. As categorias não devem ser entendidas como dimensões independentes, pois aparecem articuladas ao longo da narrativa musical. O movimento central identificado é a passagem de uma posição marcada pela busca de reconhecimento externo para uma compreensão mais afirmativa da própria existência e do próprio valor (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
O aspecto mais relevante da primeira categoria é a ideia de que a valorização pessoal não precisa depender exclusivamente da resposta do outro. Essa discussão dialoga com a literatura sobre validação e identidade, na medida em que relações interpessoais exercem influência importante sobre a percepção de si. No entanto, a música apresenta esse processo em linguagem afirmativa e condensada, enquanto a experiência clínica do TPB pode envolver ambivalências, recaídas, comportamentos impulsivos e sofrimento persistente. A arte, portanto, simplifica e simboliza uma experiência que, clinicamente, é mais complexa (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
Na segunda categoria, identidade e autoimagem, a obra apresenta uma narrativa de reconhecimento de si. O sujeito passa a olhar para características que anteriormente eram vivenciadas de modo negativo e constrói uma relação diferente com a própria imagem. Esse conteúdo dialoga com a literatura que identifica perturbações da identidade como dimensão relevante do TPB (American Psychiatric Association, 2022). A aproximação, entretanto, ocorre no nível temático: reconhecer a própria identidade é um tema comum à experiência humana e não constitui marcador diagnóstico isolado.
A relação entre identidade e autoaceitação também permite uma leitura sobre integração do self. Em vez de buscar uma versão idealizada de si para ser aceita, a narrativa aponta para o reconhecimento de características reais e imperfeitas. Esse aspecto é importante porque a autoaceitação, em uma perspectiva psicológica, não significa considerar-se perfeito, mas sustentar uma relação consigo que tolere limitações e contradições. No contexto borderline, a construção de uma percepção mais estável de si pode ser uma dimensão relevante do processo terapêutico (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
Na terceira categoria, sofrimento e regulação emocional, a canção não descreve diretamente estratégias clínicas de regulação emocional, mas apresenta um processo de transformação na relação com experiências internas. O sofrimento aparece associado à percepção de não se reconhecer ou de buscar no outro uma resposta para a própria insegurança. A literatura sobre TPB, por outro lado, descreve a desregulação emocional de maneira mais abrangente, incluindo intensidade afetiva, dificuldade de modulação e possíveis respostas impulsivas. Portanto, a música dialoga com o tema do sofrimento emocional, mas não apresenta todos os componentes clínicos da desregulação (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
Essa diferença é fundamental para a interpretação dos resultados. Se a análise tratasse qualquer manifestação de sofrimento como sintoma de TPB, haveria risco de patologizar uma experiência humana comum. A presença de tristeza, insegurança, necessidade de reconhecimento ou conflitos internos em uma obra artística não permite inferir diagnóstico. O valor analítico está justamente em observar como a cultura representa essas experiências e como elas podem ser colocadas em diálogo com conceitos científicos sem serem confundidas com eles (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
A análise também evidencia a importância da música como objeto cultural para pesquisas em Psicologia. O estudo de letras pode revelar representações socialmente compartilhadas sobre amor, rejeição, identidade, autoestima e sofrimento. Ao mesmo tempo, a interpretação precisa considerar o contexto artístico e evitar transformar metáforas em indicadores clínicos. Nesse sentido, a contribuição da pesquisa não é diagnosticar a canção, mas mostrar como uma produção musical pode servir de ponto de partida para discutir conceitos psicológicos complexos (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
Os resultados dialogam ainda com estudos que valorizam a perspectiva subjetiva das pessoas com TPB. DiBenedetti et al. (2023) mostram que participantes diagnosticados relataram impactos importantes de respostas emocionais intensas, relações interpessoais e dificuldades de autoimagem. Embora “Epiphany” não seja um relato clínico, a ênfase da obra na relação consigo ajuda a trazer para o centro da discussão uma dimensão subjetiva que, por vezes, fica obscurecida quando o transtorno é apresentado apenas por critérios diagnósticos.
De forma complementar, a literatura sobre música e regulação emocional permite compreender por que uma narrativa musical pode ser percebida como significativa por ouvintes. Schäfer et al. (2013) e Saarikallio (2011) apontam que a música pode assumir funções relacionadas à regulação do humor, à autoconsciência, à construção de significado e à experiência social. Essa contribuição não significa que uma determinada letra produza efeito terapêutico universal, mas ajuda a compreender seu potencial como linguagem cultural para tematizar experiências emocionais.
Dessa forma, a análise responde ao problema de pesquisa ao demonstrar que os temas de autoaceitação, identidade e desregulação emocional presentes na canção podem ser compreendidos em diálogo com a literatura sobre TPB, sobretudo no que se refere à percepção de si, ao reconhecimento do próprio valor e à experiência emocional. Contudo, a relação estabelecida é temática e interpretativa, e não diagnóstica ou causal. O resultado central do estudo não é afirmar que “Epiphany” representa o TPB, mas demonstrar que a obra oferece elementos simbólicos que podem ser discutidos à luz de conceitos psicológicos, desde que os limites conceituais e metodológicos sejam preservados (American Psychiatric Association, 2022; Saarikallio, 2011).
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
O presente estudo teve como objetivo analisar os temas de autoaceitação, identidade e desregulação emocional presentes na letra de “Epiphany”, do grupo BTS, relacionando-os às discussões da literatura científica sobre o Transtorno de Personalidade Borderline. A pesquisa utilizou revisão bibliográfica e análise documental, com abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo. O levantamento priorizou publicações de 2022 a 2026, considerando periódicos como Neuropsychiatric Disease and Treatment (2023), World Psychiatry (2024) e Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation (2024), além de referências anteriores utilizadas como fundamentação teórica.
Os resultados indicaram que a canção apresenta uma narrativa de reconhecimento do próprio valor, transformação da autoimagem e construção de uma relação mais acolhedora consigo. Esses elementos dialogam com discussões sobre identidade, validação e sofrimento emocional presentes na literatura sobre TPB. A análise também evidenciou que a música apresenta esses conteúdos de forma simbólica e condensada, enquanto a experiência clínica do transtorno é mais complexa e envolve diferentes dimensões do funcionamento psicológico.
Em resposta ao problema de pesquisa, identificou-se que os temas presentes na canção podem ser compreendidos em diálogo com a literatura científica sobre o TPB, principalmente quando se consideram questões relacionadas à percepção de si, à necessidade de reconhecimento e às experiências emocionais. Entretanto, esse diálogo permanece no plano temático e interpretativo. A música constitui uma produção artística e não um instrumento de avaliação psicológica, de modo que seus conteúdos não permitem inferir diagnóstico sobre a obra, seus autores, sua intérprete ou seus ouvintes.
A principal contribuição do trabalho está na possibilidade de aproximar Psicologia e cultura de maneira crítica. Produções musicais podem oferecer representações simbólicas relevantes para discutir experiências subjetivas, mas precisam ser analisadas considerando seus limites, seu contexto e sua linguagem própria. Nesse sentido, “Epiphany” mostra-se um objeto pertinente para refletir sobre autoaceitação e identidade, sem que seja necessário transformá-la em evidência clínica ou em representação literal do TPB.
Como limitações, destacam-se o caráter interpretativo da análise, a ausência de participantes e a impossibilidade de generalização dos resultados para pessoas com TPB. Diferentes pesquisadores podem atribuir sentidos distintos a uma produção artística, especialmente quando a linguagem é metafórica. Além disso, a análise de uma única obra restringe a amplitude das conclusões. Pesquisas futuras podem comparar outras músicas e manifestações culturais, investigar a recepção dessas narrativas por diferentes públicos e examinar, empiricamente, como produções musicais podem ser utilizadas em contextos de psicoeducação ou reflexão, sem confundi-las com intervenções clínicas.
Conclui-se, portanto, que a análise de “Epiphany” permite estabelecer um diálogo entre cultura e Psicologia, desde que sejam preservadas as diferenças entre expressão artística, experiência subjetiva e diagnóstico clínico. A pesquisa reforça a importância de uma leitura crítica das produções culturais e aponta que a música pode constituir um ponto de partida para discutir identidade, autoaceitação e sofrimento emocional, contribuindo para ampliar as formas de abordar temas de saúde mental no campo acadêmico.
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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail