REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776636072
RESUMO
A obesidade configura-se como um dos principais desafios da saúde pública mundial, estando associada ao aumento de doenças crônicas não transmissíveis e à redução da qualidade de vida. Nesse contexto, destaca-se a necessidade de estratégias integradas de cuidado, nas quais o farmacêutico assume papel relevante, especialmente no âmbito da assistência farmacêutica e na atuação em consultórios farmacêuticos. Este estudo tem como objetivo reunir evidências sobre a atuação do farmacêutico no acompanhamento de indivíduos com obesidade, enfatizando sua contribuição para a otimização dos resultados terapêuticos e o papel estratégico do consultório farmacêutico como espaço de cuidado. Trata-se de uma revisão de literatura descritiva, com abordagem qualitativa, realizada a partir de buscas nas bases SciELO, PubMed e Google Scholar, utilizando os descritores obesidade, interações medicamentosas, consultório farmacêutico e assistência farmacêutica. Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2026, resultando na análise final de 25 artigos após aplicação dos critérios de elegibilidade. Os resultados evidenciam que o farmacêutico desempenha papel fundamental no manejo da obesidade, especialmente no acompanhamento farmacoterapêutico, prevenção de interações medicamentosas, monitoramento de reações adversas e promoção da adesão ao tratamento, além de atuação na equipe multiprofissional e no fortalecimento do cuidado integrado e seguro. Conclui-se que sua atuação deve integrar educação em saúde, qualificação profissional e protocolos específicos, promovendo assistência eficaz e melhoria da qualidade de vida. Adicionalmente, destaca-se a importância do vínculo com o paciente, favorecendo educação em saúde contínua, individualização das condutas e acompanhamento longitudinal efetivo e humanizado.
Palavras-chave: Consultório; Farmacêutico; Obesidade; Tratamento.
ABSTRACT
Obesity is one of the main challenges of global public health, being associated with an increase in chronic non-communicable diseases and a reduction in quality of life. In this context, the need for integrated care strategies stands out, in which the pharmacist assumes a relevant role, especially within pharmaceutical care and practice in pharmaceutical clinics. This study aims to gather evidence on the role of the pharmacist in monitoring individuals with obesity, emphasizing their contribution to optimizing therapeutic outcomes and the strategic role of the pharmaceutical clinic as a care setting. This is a descriptive literature review with a qualitative approach, conducted through searches in the SciELO, PubMed, and Google Scholar databases, using the descriptors obesity, drug interactions, pharmaceutical clinic, and pharmaceutical care. Studies published between 2020 and 2026 were included, resulting in a final analysis of 25 articles after applying eligibility criteria. The results show that the pharmacist plays a fundamental role in obesity management, especially in pharmacotherapeutic follow-up, prevention of drug interactions, monitoring of adverse reactions, and promotion of treatment adherence, as well as participation in the multidisciplinary team and strengthening of integrated and safe care. It is concluded that their practice should integrate health education, professional qualification, and specific protocols, promoting effective care and improvement in quality of life. Additionally, the importance of patient bonding is highlighted, favoring continuous health education, individualized care, and effective, humanized longitudinal follow-up.
Keywords: Clinic; Pharmacist; Obesity; Treatment.
1. INTRODUÇÃO
A obesidade se tornou um dos maiores desafios da saúde pública, apresentando elevada prevalência e possui ligação direta com o aparecimento de doenças crônicas, de acordo com pesquisas de Malveira et al. (2021) a população mundial adulta chegará a mais de 700 milhões de pessoas sofrendo com o sobrepeso e obesidade, sendo esse grupo extremamente suscetível à Doenças de Agravo Não Transmissíveis (DANTs).
O manejo adequado dessa condição demanda uma articulação multiprofissional e contínua, com o farmacêutico ocupando um papel central nos tratamentos, por inúmeros fatores, sendo um deles a utilização do consultório farmacêutico como uma alternativa viável e estratégica. Dentro desse contexto, torna-se importante citar a assistência farmacêutica, por se caracterizar como conjunto de ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde, envolvendo uma grande e complexa rede de segurança com os medicamentos e, também, é ligada ao uso racional desses produtos. Por isso, ela se torna um componente essencial para o sucesso do tratamento da obesidade, pelo fato de integrar o uso de medicamentos ao processo contínuo de cuidado em saúde. Essa atuação vai para mais que a simples dispensação, envolvendo a garantia do acesso, o uso racional dos medicamentos e o acompanhamento sistemático da farmacoterapia, aspectos fundamentais em condições como a obesidade (Peixoto et al. 2026).
Considerando que esses pacientes frequentemente apresentam comorbidades associadas, à assistência farmacêutica contribui para a prevenção da polifarmácia, identificação de interações medicamentosas, monitoramento de reações adversas e avaliação contínua da efetividade e segurança do tratamento, fortalecendo a adesão terapêutica e os desfechos clínicos positivos (Peixoto et al. 2026).
Outro fator importante é que a formação acadêmica do farmacêutico o capacita não só a entender o funcionamento do corpo humano e os riscos ocasionados pelo excesso de peso, mas também os perigos e limites no uso de medicamentos contra a obesidade, por conta do seu estudo aprofundado dos medicamentos, sendo esses fatores importantes no acompanhamento dos acometimentos paralelos causados pelo sobrepeso (Silva et al 2025).
Com base nisso, identificou-se a necessidade de um local o qual servirá para permitir o contato entre o profissional farmacêutico e o grupo que esteja durante o tratamento abordado, sendo esse responsável por fornecer serviços importantíssimos para a manutenção da saúde dos pacientes, na busca de evitar interações medicamentosas, fornecer informações sobre qualquer efeito esperado do tratamento e, não menos importante, auxiliar em mudanças comportamentais que influenciam o tratamento, mas respeitando a função de outros profissionais da saúde. Dessa forma, para que isso seja possível, é necessário fazer do consultório um local que facilite essa construção de vínculo (Brito, 2022).
Ao longo de sua consolidação no sistema de saúde brasileiro, a assistência farmacêutica passou por importantes transformações conceituais e organizacionais, acompanhando mudanças nas políticas públicas, sendo estas baseadas nas necessidades de saúde da população. Inicialmente estruturada sob uma perspectiva predominantemente técnico-administrativa, sua atuação esteve centrada em atividades relacionadas à seleção, aquisição, armazenamento e distribuição de medicamentos, com ênfase na garantia do sucesso do abastecimento dos serviços de saúde. Nesse contexto, os primeiros marcos institucionais voltados à organização do setor buscaram responder a necessidade de ampliar o acesso a medicamentos essenciais e estruturar questões regulatórias no âmbito público, ao estabelecer bases para a construção de políticas universais ligadas diretamente ao medicamento como peça estratégica do cuidado (De Oliveira Santos; Da Silva, 2025).
Com o avanço do SUS e a ampliação do conceito de integralidade da atenção, a assistência farmacêutica iniciou uma etapa que em que ela incorpora dimensões que ultrapassam a lógica unicamente operacional, ao assumir um caráter assistencial e clínico. A formulação de políticas nacionais voltadas aos medicamentos e, posteriormente, a própria assistência farmacêutica, contribuiu ao consolidar diretrizes relacionadas ao uso racional, ao aumento da qualidade dos serviços farmacêuticos e a integração do farmacêutico nas equipes multiprofissionais de saúde. A partir desse movimento, fortaleceram-se estratégias voltadas ao acompanhamento farmacoterapêutico, a educação em saúde e ao monitoramento de resultados clínicos, o que evidencia uma transição para um modelo em que o medicamento deixa de ser apenas objeto de gestão e inicia um momento de ser compreendido como elemento articulador de práticas de cuidado em saúde (De Oliveira Santos; Da Silva, 2025).
Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF) (2013), o consultório farmacêutico é importantíssimo, visto que se trata de espaço de prática clínica, caracterizado pela acessibilidade e pela proximidade com a comunidade, capaz de oferecer uma ampla abordagem em saúde à toda a população brasileira. Isso se dá pelo fato de se tratar de uma profissão que está bem distribuída pelo território brasileiro e por ela oferecer um atendimento democrático no âmbito financeiro, essa distribuição pode ser vista na pesquisa de Saboia (2021) que confirma essa ideia em Fortaleza, mas que facilmente pode ser usada para compreender a grande quantidade de farmácias em uma escala nacional. Todos esses aspectos confirmam que o farmacêutico deve ser cada vez mais um profissional com posição crucial dentro da rede de atenção à saúde.
Por conta disso, o presente estudo tem como objetivo reunir evidências da atuação do farmacêutico no acompanhamento de indivíduos com obesidade, ao evidenciar sua capacidade de potencializar os resultados terapêuticos por meio da tanto da orientação quanto ao uso racional de medicamentos, quanto com informações complementares sobre práticas comportamentais ou sobre indicação de profissionais para buscar durante o tratamento. Além disso, busca-se destacar o consultório farmacêutico como um espaço estratégico e acessível para a realização desse cuidado, isso sendo possível por conta de sua facilidade de acesso a um profissional de saúde extremamente competente.
2. REVISÃO DA LITERATURA
Ao se tratar de uma doença tão presente na sociedade atual, que é o caso da obesidade, é importante encontrar formas de maximizar o seu combate. Nesse cenário, torna-se relevante refletir sobre o papel do consultório farmacêutico, não só como um complemento, mas também como um espaço estratégico para ampliar o acesso da população a cuidados em saúde. A relevância das discussões sobre os consultórios farmacêuticos está baseada na sua contribuição significativa para a melhora da saúde da população brasileira, atuando tanto no tratamento quanto na prevenção de doenças, tal como a obesidade e suas complicações associadas (Alvarenga; Neto, 2022).
Para chegar ao ponto de o consultório farmacêutico tornar-se um pilar de destaque no combate ao sobrepeso é preciso evidenciar a população o quão qualificado e apto o farmacêutico é na atenção à saúde. Esse reconhecimento é essencial para consolidá-lo como espaço legítimo de cuidado e acompanhamento clínico, ampliando sua integração na rede de atenção à saúde, logo esse estudo busca destacar os pontos que possam fazer com que a sociedade tenha a segurança e confiança no trabalho farmacêutico (Alvarenga; Neto, 2022).
Após o reconhecimento da qualidade dos serviços prestados e, consequentemente, destacado a importância dos consultórios farmacêuticos, torna-se necessário o aumento do número de locais que permitam que esse ambiente seja criado. Considerando a ampla distribuição das farmácias pelo Brasil, a implementação de consultórios farmacêuticos nesse ambiente se apresenta como uma oportunidade viável para ampliar o acesso da população a atendimentos clínicos dos profissionais farmacêuticos. Essa estratégia poderia contribuir não apenas para descentralizar os serviços de saúde, mas também para fortalecer a ideia principal da saúde no Brasil, que é a acessibilidade totalmente democrática baseada na equidade para todos os brasileiros (Alvarenga; Neto, 2022; Barbosa; Reis; Marquez, 2022).
3. METODOLOGIA
3.1. Tipo do Estudo
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de literatura de natureza qualitativa e descritiva, realizada com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar informações disponíveis na literatura científica acerca do tema proposto.
3.2. Estratégias de Busca
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados SciELO, PubMed e Google Scholar. Foi utilizado os seguintes termos de busca: obesidade, interações medicamentosas, consultório farmacêutico, assistência farmacêutica.
3.3. Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram incluídos documentos oficiais de órgãos reguladores, artigos científicos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado publicados no período de 2020 até 2026, disponíveis de forma completa em português e que abordassem diretamente o tema investigado. Sobre os critérios de exclusão, foram excluídos os artigos duplicados entre as bases de dados, estudos que não apresentavam relação direta com o objetivo do trabalho, além de materiais como resumos, editoriais, dissertações e trabalhos que não apresentassem informações relevantes para a discussão proposta.
3.4. Análise de Dados
Após a realização das buscas nas bases de dados, foram identificados 43 artigos. Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos para verificação da elegibilidade, etapa em que 18 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos. Posteriormente, os estudos potencialmente relevantes foram analisados na íntegra, resultando na seleção final de 25 artigos, os quais compuseram a análise desta revisão.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1. Capacitação Farmacêutica: Abordagem Fisiológica
Para o bom entendimento acerca de alguma doença é de suma importância buscar visualizar todo o funcionamento fisiológico dela, visto que com base nisso é possível entender inúmeras questões que levaram a tomar decisões durante o tratamento. Em primeira análise, na obesidade, é necessário compreender qual o tipo de obesidade de cada paciente, isso será crucial para as tomadas de decisão relacionadas ao tratamento, vale citar que o tipo da obesidade está ligado a como irão funcionar o metabolismo no corpo, sendo essa condição diretamente ligada a desregulação de inúmeros hormônios. Dessa forma, a obesidade é caracterizada, principalmente, por problemas relacionados ao sistema endócrino, visto que existem alguns hormônios que estão diretamente ligados ao aparecimento da obesidade, principalmente, ligados ao hipotálamo, por conta de ele ser o centro do equilíbrio do corpo humano (Texeira, 2021).
Dentre os problemas possíveis é possível citar a via da leptina, sendo esse um hormônio, produzido principalmente pelos adipócitos, ele atua como um sinalizador, evidenciando como estão os níveis de reserva energética do organismo, regulando a fome e o gasto energético. Fisiologicamente, níveis adequados de leptina promovem saciedade e aumento do metabolismo. Entretanto, nos casos de obesidade, muitas vezes ocorre resistência à leptina, em que, apesar de níveis elevados do hormônio, o hipotálamo não responde adequadamente, resultando em aumento da ingestão alimentar e dificuldade na perda de peso (Silva; Mendonça, 2021). Além da resistência, outro fator que demonstra a complexidade da doença é que existem casos em que os pacientes possuem grandes quantidades de leptina no corpo, mas dessa vez não por problemas relacionados diretamente ao hormônio, mas aos seus receptores, fator determinante para o funcionamento da via (Oliveira; Siqueira, 2021). Além dessa via existem outras, como a dos hormônios tireoidianos, diretamente ligada a via da leptina a da grelina ou, até mesmo, a da própria insulina, todos estando ligados ao funcionamento correto do metabolismo (Veiga; Oliveira; Santana, 2021; Silva; Mendonça, 2021). Muitas vezes são esses distúrbios que determinam o tipo de obesidade que o paciente possui, existem casos em que essas desregulações ocorrem logo na parte inicial da infância, o que resulta em hiperfagia precoce e ganho acentuado desde a infância, essa fase é crucial para determinação do teor de gordura no corpo, por conta do crescimento hipercelular, fator que esse que caracteriza a obesidade monogênica (Rabelo et al, 2024).
Em relação ao tratamento, identifica-se a necessidade de abordar todas essas questões para entender quais indivíduos podem apresentar respostas adequadas a intervenções comportamentais convencionais e em quais será necessário abordagens terapêuticas direcionadas e específicas. Ao tratar de um funcionário da área da saúde destaca-se a questão de não possuir apenas a função de tratar diretamente uma doença em questão, mas sim tudo que esteja envolvido ao bem-estar da população. Então, está dentro da função do farmacêutico o auxílio no tratamento dos acometimentos em decorrência da obesidade, dentre os mais comuns estão a hipertensão arterial e a diabetes (Silva et al, 2020).
4.2. Capacitação Farmacêutica: Abordagem Farmacológica
Além do conhecimento fisiológico, o domínio da farmacologia confere ao farmacêutico um papel central no tratamento da obesidade, especialmente quando a terapêutica medicamentosa é indicada como estratégia adjuvante às mudanças no estilo de vida. Esse conhecimento permite compreender, de forma aprofundada, os mecanismos de ação dos fármacos utilizados, suas vias metabólicas, efeitos adversos e limitações clínicas, o que se traduz em maior segurança para o paciente (Conselho Federal de Farmácia, 2013). Durante o tratamento, o farmacêutico é capaz de avaliar a adequação da farmacoterapia ao perfil clínico individual, considerando fatores como comorbidades, idade, uso crônico de outros medicamentos e histórico de reações adversas. Além disso, sua atuação contribui para o uso racional dos medicamentos, evitando expectativas irreais de emagrecimento rápido e reforçando que a farmacoterapia não substitui intervenções não farmacológicas, mas deve atuar de forma integrada (Cordeiro; Silva, 2026). A literatura aponta que o acompanhamento farmacêutico contínuo favorece maior adesão ao tratamento, o que será observado por conta do melhor manejo dos efeitos colaterais e identificação precoce de problemas relacionados aos medicamentos, fatores esses que estão intrínsecas as funções dos farmacêuticos, impactando positivamente nos desfechos clínicos e na qualidade de vida do paciente obeso (Rodrigues et al, 2021).
Outro aspecto de extrema relevância é a prevenção e o manejo das interações medicamentosas, área em que o farmacêutico possui competência técnica diferenciada. Pacientes com obesidade frequentemente fazem uso de múltiplos fármacos para o controle de doenças associadas, como hipertensão, diabetes e dislipidemias, o que aumenta o risco de interações potencialmente graves quando medicamentos antiobesidade são introduzidos (Marques; Quintilio, 2021). O farmacêutico consegue identificar interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas que podem reduzir a eficácia do tratamento ou elevar a toxicidade, como alterações na absorção de nutrientes e vitaminas, efeitos cardiovasculares aditivos ou interferências no sistema nervoso central. Além disso, sua atuação educativa é fundamental para orientar o paciente sobre o uso correto dos medicamentos, riscos da automedicação e do uso de substâncias sem comprovação científica, prática ainda comum no contexto da obesidade. Dessa forma, o conhecimento farmacológico não apenas sustenta decisões terapêuticas mais seguras, mas também fortalece a abordagem multiprofissional, consolidando o farmacêutico como agente essencial na promoção de um tratamento eficaz, individualizado e baseado em evidências (CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA, 2013).
4.3. Farmacologia da Obesidade
Diante disso, a utilização de medicamentos no tratamento da obesidade tem assumido papel mais relevante no manejo clínico da obesidade, principalmente, diante da necessidade de alcançar perdas mais significativas e sustentadas ao longo do tempo. Segundo a diretriz da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), é recomendado a utilização de fármacos de alta potência para perda de peso, o qual se destaca a semaglutida como a opção terapêutica principal na atualidade. Esse medicamento atua como agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), isso por promover aumento da saciedade, retardamento do esvaziamento gástrico e redução do apetite por ação em nos centros hipotalâmicos que possuem relação com o controle da ingestão alimentar. Como consequência, observa-se diminuição sustentada do consumo energético e perda ponderal clinicamente significativa, associada ainda à melhora de parâmetros metabólicos e cardiovasculares. Além disso, a diretriz ressalta que sua utilização deve ocorrer de forma concomitante às intervenções de mudança de estilo de vida, considerando que o tratamento combinado amplia os benefícios clínicos e favorece melhor controle das complicações associadas à obesidade (ABESO, 2026).
4.4. Papel da Equipe Multiprofissional
O tratamento da obesidade envolve diferentes áreas da saúde, como Medicina, Nutrição, Educação Física e Farmácia, cada um com atribuições próprias e complementares. Dentro desse tratamento, os papéis mais conhecidos são o de nutricionista e o de educador físico, os quais focam nas causas mais comuns da obesidade, que seriam os maus hábitos. Os nutricionistas têm seu foco profissional, principalmente, em impedir o consumo excessivo e desnecessário de alimentos, na busca por atingir uma alimentação mais adequada, sendo esse fator crucial para impedir o desenvolvimento de problemas metabólicos e, posteriormente, doenças crônicas. Já os educadores físicos se atentaram a estimular e acompanhar o paciente na busca por uma vida mais ativa, visto que por meio desse profissional será possível trazer mais qualidade física ao paciente, esse fator é importante não só pela questão da obesidade, mas também para o funcionamento do corpo como um todo e para evitar problemas de saúde futuros. Em casos mais específicos faz-se necessário a utilização de medicamentos para o tratamento da obesidade. Nesse contexto, o profissional médico possui papel central na identificação de quais os casos são necessários a abordagem farmacológica e, por conta disso, possui a função de prescrever o medicamento ao paciente (Corrêa; Portilho; Luz, 2026).
Nesse cenário, o farmacêutico ocupa uma posição singular no tratamento da obesidade, pois seu núcleo de atuação está diretamente relacionado ao uso seguro e racional de medicamentos, frequentemente necessários em pacientes com obesidade e comorbidades associadas. Diferentemente de outros profissionais, o farmacêutico detém conhecimento aprofundado sobre farmacoterapia, interações medicamentosas, efeitos adversos e adesão ao tratamento, o que é fundamental em um contexto de polifarmácia comum nessa população. Seu limite profissional não está na prescrição dietética ou no diagnóstico clínico, mas na gestão do tratamento medicamentoso e no acompanhamento farmacoterapêutico contínuo, contribuindo para a integração da equipe e para a tomada de decisões compartilhadas. Dessa forma, o farmacêutico reforça a lógica da equipe-integração, na qual as funções são distintas, porém interdependentes, ampliando a segurança e a efetividade do cuidado à pessoa com obesidade (Penaforte, 2026).
Algumas dessas atribuições foram evidenciadas por Barros (2021), no qual sua atuação clínica se articula diretamente com os demais profissionais de saúde para qualificar a assistência prestada ao paciente crítico. O estudo constata que o farmacêutico possui capacidades únicas e de extrema importância para o sucesso de tratamentos, visto que o farmacêutico assume funções relacionadas ao acompanhamento farmacoterapêutico, à conciliação medicamentosa, à realização de intervenções farmacêuticas e, até mesmo, ao fornecimento de informações técnicas fundamentadas em evidências científicas para outros profissionais da saúde, colaborando de forma ativa nas decisões terapêuticas, o qual é explicitado pela autora ao afirmar que “o farmacêutico clínico atuando em conjunto com a equipe multidisciplinar promove orientação aos profissionais no tocante ao uso seguro e racional de medicamentos possibilitando a qualidade na terapia do paciente”. O que evidencia que a participação do farmacêutico no âmbito multiprofissional contribui diretamente para a otimização da farmacoterapia e para a integralidade do cuidado (Barros, 2021).
Além das atribuições relacionadas diretamente ao manejo farmacoterapêutico, a atuação do farmacêutico em equipe multiprofissional também se destaca pela capacidade de integrar informações clínicas que qualificam o cuidado desenvolvido em conjunto pelos diferentes profissionais de saúde. Suas capacidades favorecem a identificação de lacunas que podem não ser percebidas em atendimentos isolados, especialmente por acompanhar aspectos específicos do uso de medicamentos que interferem diretamente na resposta terapêutica. Na atenção contínua ao paciente, essa contribuição torna-se relevante ao permitir a observação de situações como armazenamento inadequado de medicamentos, automedicação, dificuldades de compreensão sobre a finalidade terapêutica e inconformidades entre o uso real dos medicamentos e os registros em prontuário, todos esses fatores que podem comprometer a efetividade do tratamento. Nesse processo, o farmacêutico fortalece a dinâmica multiprofissional ao fornecer informações técnicas que auxiliam a tomada de decisão clínica, contribuindo para que prescrições, orientações nutricionais e acompanhamento das condições associadas sejam conduzidos de forma articulada e segura. Assim, sua atuação contribui para um cuidado integrado, ampliando a adesão, a segurança terapêutica e o acompanhamento de pacientes, o que inclui aqueles com obesidade e outras condições associadas (Soares et al, 2025).
4.5. Consultório Farmacêutico Como Ferramenta Estratégica
O consultório farmacêutico, enquanto espaço físico dedicado ao cuidado em saúde, deve assumir um papel estratégico no tratamento da obesidade por estar inserido em locais de grande circulação e fácil acesso para a população. Diferente de outros serviços de saúde, esse ambiente se encontra no cotidiano das pessoas, o que reduz barreiras cruciais do trabalho em saúde, tais como deslocamento, tempo de espera e receio em buscar acompanhamento (Saboia, 2021).
Essa proximidade física transforma o consultório em um ponto estratégico, por se tratar de uma via inicial e contínua de cuidado, onde o paciente se sente mais confortável para procurar apoio ao longo do tratamento, favorecendo a continuidade e a regularidade do acompanhamento, diminuindo chances de problemas de saúde enunciados anteriormente, esses aspectos facilitam o manejo de uma condição crônica como é a obesidade (Lopes; Cruz, 2021). Após essa consolidação de vínculo entre farmacêutico e paciente, o consultório farmacêutico também irá contribuir de forma significativa para a qualidade do cuidado ao oferecer um ambiente reservado, organizado e acolhedor (Lopes; Cruz, 2021). A existência de um espaço físico próprio permite atendimentos individualizados, com privacidade, o que é fundamental para abordar questões sensíveis frequentemente associadas à obesidade, como imagem corporal, frustrações com tratamentos anteriores e dificuldades de adesão. Esse ambiente favorece uma escuta qualificada e uma relação mais próxima entre o paciente e o profissional de saúde, aumentando a confiança e o engajamento no processo, fatores diretamente relacionados ao sucesso não só do tratamento a obesidade, mas também a questões de saúde que possam aparecer (Alvarenga; Neto, 2022).
5. CONCLUSÃO
A obesidade configura-se como um relevante desafio para os sistemas de saúde, uma vez que causa consequências negativas na qualidade de vida dos indivíduos e contribui para o aumento da morbidade associada. Nesse contexto, o farmacêutico torna-se um profissional com potencial estratégico para atuar no cuidado de forma integral, especialmente quando inserido no consultório farmacêutico, visto que esse ambiente favorece o acompanhamento contínuo e individual de cada paciente. Dessa forma, torna-se necessário atuar em dois eixos principais para maximizar o potencial desse profissional.
De início, a realização de campanhas promovidas por órgãos de saúde, com o objetivo de informar a população acerca da possibilidade de um acompanhamento seguro, eficiente e acessível no tratamento da obesidade, pautado na atuação farmacêutica, configura-se como uma estratégia relevante. Porém, além da qualificação não apenas dos farmacêuticos já inseridos na prática assistencial, mas, sobretudo, daqueles em processo de formação ou em fase inicial, constitui outro pilar fundamental para que esse vínculo entre profissional e paciente seja, de fato, baseado em confiança e focado em buscar a melhor qualidade de vida do paciente.
Portanto, a elaboração de protocolos e documentos que estabeleçam diretrizes específicas para o manejo da obesidade no âmbito da atuação farmacêutica, visando apresentar as possibilidades existentes no âmbito do manejo terapêutico, bem como estabelecer limites para que as leis que regem a função de cada profissional de saúde não sejam infringidas, apresenta-se como uma estratégia eficaz, ao sistematizar condutas e modelos de atuação a serem seguidos, principalmente durante uma visita a um consultório farmacêutico. Essa iniciativa irá contribuir para a segurança e eficácia do tratamento ao promover uma assistência farmacêutica mais qualificada e resolutiva para a população brasileira.
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1 Graduando do curso de Farmácia. Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-1128-5822. E-mail: [email protected]
2 Doutor em Ecologia Aquática e Pesca. Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9706-4817. E-mail: [email protected]
3 Bacharel em Farmácia. Universidade Federal do Pará, Belém, Pará, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-9932-8248. E-mail: [email protected]