ATUAÇÃO DO FARMACÊUTICO NA FARMÁCIA COMERCIAL: UMA REVISÃO SOBRE PRÁTICAS E DESAFIOS

THE ROLE OF THE PHARMACIST IN A COMMERCIAL PHARMACY: A REVIEW OF PRACTICES AND CHALLENGES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781066176

RESUMO
A farmácia surgiu no século X, tornando-se independente em 1240. Com o passar do tempo, o farmacêutico passou a ser um profissional essencial na orientação e cuidado com pacientes. Hoje, na farmácia comercial, atua na promoção de cuidado e uso racional de medicamentos, assim como outras funções. Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura, o papel do farmacêutico na farmácia comercial, destacando suas principais práticas e desafios enfrentados no exercício da profissão. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa, com base na estratégia de PICO. A busca foi realizada nas bases LILACS, SciELO e Google Acadêmico. Foram incluídos artigos completos, em português, entre 2015 e 2026. A análise foi realizada de forma descritiva e interpretativa, organizando os dados em categorias temáticas para síntese das evidências. Foi selecionado 10 artigos para compor a revisão. E elencados três categorias temáticas: Práticas farmacêuticas e assistência na farmácia comercial; Desafios e limitações na atuação do farmacêutico; Impactos na qualidade de vida e saúde do profissional. Este estudo permitiu compreender, de forma ampla, o papel do farmacêutico nas farmácias comerciais, evidenciando a ampliação de suas atribuições e os desafios enfrentado no exercício da profissão.
Palavras-chave: Farmacêutico; Farmácia; Assistência Farmacêutica; Prática Profissional.

ABSTRACT
Pharmacy emerged in the 10th century, becoming independent in 1240. Over time, the pharmacist became an essential professional in guiding and caring for patients. Today, in commercial pharmacies, they work to promote care and the rational use of medications, as well as other functions. Therefore, this study aims to analyze, through a literature review, the role of the pharmacist in commercial pharmacies, highlighting their main practices and challenges faced in the exercise of the profession. This is a narrative literature review, with a qualitative approach, based on the PICO strategy. The search was conducted in the LILACS, SciELO, and Google Scholar databases. Full articles in Portuguese, published between 2015 and 2026, were included. The analysis was descriptive and interpretive, organizing the data into thematic categories for synthesis of the evidence. Ten articles were selected for the review. Three thematic categories were identified: Pharmaceutical practices and assistance in commercial pharmacies; Challenges and limitations in the pharmacist's role; Impacts on the professional's quality of life and health. This study allowed for a broad understanding of the pharmacist's role in commercial pharmacies, highlighting the expansion of their responsibilities and the challenges faced in the exercise of the profession.
Keywords: Pharmacist; Pharmacy; Pharmaceutical Care; Professional Practice.

1. INTRODUÇÃO

Por volta do século X, surge as atividades relacionadas á farmácia, os profissionais atuavam nas boticas ou apotecas, como eram conhecidas. Constituídos por estabelecimentos familiares, que tinha a responsabilidade de conhecer e curar as doenças, por meio de pesquisas, manipulações e avaliação de novos produtos, pois o objetivo era garantir que os medicamentos fossem puros e não sofressem alterações durante o seu preparo (Gracia, De Andrade, 2022).

Até o século XI, a farmácia fazia parte do estudo da medicina, sendo considerada uma profissão independente, apenas em meados de 1240, quando foi escrita a magna carta da profissão farmacêutica, por Frederico II, imperador romano. Baseado na argumentação de que a farmácia precisava de conhecimentos, habilidades e responsabilidades especiais (Braghirolli, Steffens, Rockenbach, 2017).

No início do século XX, o farmacêutico tornou-se um profissional de referência, nos aspectos dos medicamentos, pois era responsável pela produção e comercialização dos fármacos disponíveis da época. A farmácia passou a ser um centro de disseminação de cultura, não só para os que buscavam remédios, mas também os demais que procuravam notícias do mundo, já que os meios de comunicação eram escassos (Pita, 2023).

Com a industrialização de medicamentos, apresentou-se uma especialização do profissional farmacêutico, que seria responsável por tudo que dizia respeito aos medicamentos, desde a transcrição, prescrição, dispensação, administração e principalmente o acompanhamento do paciente juntamente a equipe de saúde, podendo então desenvolver suas habilidades relacionadas à farmacoterapia (Vieira et al., 2022).

A farmácia comercial, também conhecida como farmácia comunitária, configura-se como um importante estabelecimento de saúde inserido no contexto de atenção em saúde, desenvolvendo um papel fundamental na promoção do uso racional de fármacos e na orientação à população. Nesse cenário, o farmacêutico passar a atuar de forma clínica, não apenas como dispensador de medicamentos, cooperando assim, diretamente para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes por meio da atenção farmacêutica e acompanhamento farmacoterapêutico (De Lima, et al., 2025).

A atuação do farmacêutico nesse ambiente envolve uma série de responsabilidades técnicas e assistências, incluindo a dispensação adequada de medicamentos, a orientação quanto ao uso correto de fármacos, a prevenção de interações medicamentosas e a promoção da educação em saúde. Essas práticas visam garantir a segurança e a eficácia dos tratamentos, além de minimizar riscos ao uso inadequado de medicamentos (Gracia, De Andrade, 2022).

Além disso, a presença do farmacêutico comercial tem se tornado essencial para o fortalecimento da saúde pública, uma vez que esse profissional atua como ligação entre o paciente e o sistema de saúde, promovendo o acesso à informações seguras e contribuindo para a adesão ao tratamento. Assim, a farmácia deixa de ser apenas um espaço de comercialização de produtos e passa a ser reconhecida como um ambiente de cuidado a saúde (Moraes et al., 2025).

Entretanto, apensar da importância da sua atuação, o farmacêutico enfrenta diversos desafios no cotidiano da farmácia comercial, tais como a sobrecarga de trabalho, a pressão por metas comerciais e as limitações estruturais que dificultam a realização de atividades clínicas. Esses fatores comprometem a qualidade da assistência e evidenciam a necessidade de aprimoramento das práticas profissionais e das políticas de saúde voltadas a esse setor (Brito et al., 2022).

Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura, o papel do farmacêutico na farmácia comercial, destacando suas principais práticas e desafios enfrentados no exercício da profissão. Esse projeto surge a partir da necessidade de compreender o papel desse profissional na promoção da saúde e na garantia do uso seguro e racional de medicamentos, contribuindo para o fortalecimento da assistência farmacêutica no contexto brasileiro.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de revisão narrativa da literatura, com abordagem qualitativa, cujo objetivo é analisar a atuação do farmacêutico na farmácia comercial, considerando suas práticas profissionais, clínicas e gerenciais, bem como os desafios enfrentados nesse contexto. Este método permite a busca, a avaliação crítica e a síntese das evidências disponíveis sobre o tema, auxiliando assim para o aprofundamento do conhecimento acerca da temática pesquisada (Canuto; De Oliveira, 2020, Lozada; Nunes, 2019)

O estudo foi conduzido seguindo as etapas de formulação da questão norteadora, definição dos critérios de inclusão e exclusão, extração de dados e, por fim, análise e apresentação dos resultados.

Para a formulação da questão norteadora da pesquisa, utilizou-se a estratégia PICO, amplamente aplicada em estudos na área da saúde. Para este estudo, utilizou-se P - Farmacêuticos atuantes em farmácia comercial/comunitárias; I - Práticas profissionais, clínicas e gerenciais desempenhadas; C - não se aplica, devido à natureza descritiva da revisão; O - Identificação do papel do farmacêutico e dos principais desafios enfrentados.

A pesquisa iniciou-se com a escolha dos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) em seu endereço eletrônico, analisando quais seriam os mais adequados para obter uma boa base de dados para a discussão do trabalho. Então, foram escolhidos os seguintes descritores: “farmacêutico”, “farmácia”, “assistência farmacêutica” e “prática profissional”, utilizando o operador booleano AND entre eles.

Após a definição dos descritores, houve o levantamento dos artigos, nas bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), a Scientific Electronic Library Online (SciELO) e o Google Acadêmico, utilizando critérios de inclusão e exclusão. Assim, foram selecionados artigos originais, disponíveis na íntegra, publicados em língua portuguesa, no período compreendido entre 2015 e 2026, e que apresentassem relação direta com o tema proposto. Foram excluídos artigos duplicados, incompletos, artigos de revisão, publicados em outros idiomas, fora do recorte temporal e que não atendiam aos objetivos da pesquisa.

A seleção dos estudos ocorreu inicialmente por meio da leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura na íntegra dos textos potencialmente relevantes. Posteriormente, os dados foram analisados de forma descritiva e interpretativa, sendo organizados em categorias temáticas, permitindo a síntese e discussão das evidências encontradas.

Figura 1. Fluxo da seleção dos artigos.

Fonte: elaborado pelo autor (2026).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a realização da busca nas bases de dados, foram selecionados 10 artigos que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos e fizeram parte da amostra final do estudo. Esses artigos foram organizados e analisados, sendo categorizados de acordo com título, ano de publicação, autores, objetivos, delineamento metodológico e principais resultados, conforme apresentado no Quadro 1.

A análise dos estudos possibilitou um aprofundamento sobre a temática estudada, contribuindo para a identificação de padrões e lacunas na literatura. A partir dessa síntese, foram criadas categorias temáticas, que estruturam a apresentação dos resultados e orientam a discussão dos achados deste estudo.

Quadro 1. Artigos selecionados segundo título, ano, autor e resultados

TÍTULO, ANO, AUTOR

OBJETIVO

METODOLOGIA

RESULTADOS

1

Vacinação em drogarias: aspectos legais e atuação do profissional farmacêutico. Da Silva, Melo, Araújo, 2022.

descrever de que maneira as farmácias e drogarias podem desenvolver e aplicar o serviço de vacinação para a população

Pesquisa descritiva de natureza qualitativa

A resolução n° 574 de 22 de maio de 2013 estabelece as atribuições e competências do farmacêutico, do qual umas das suas atribuições é a dispensação e aplicação de vacinas. Foi possível observar que as farmácias e drogarias que desejam implantar esses serviços, precisaram atentar para alguns itens obrigatórios, como, licenciamento do órgão sanitário, estrutura física adequada, insumos de qualidade e principalmente profissional farmacêutico habilitado.

2

A gestão de drogaria e a atuação do farmacêutico: um estudo de caso em uma unidade de rede de varejo farmacêutico. Silva, A. F. A., 2025.

Discutir a atuação do farmacêutico na farmácia comunitária no contexto brasileiro.

Estudo de caso de natureza observacional, descritiva, com discussão argumentativa

Demonstrou que a gestão eficiente da drogaria influencia diretamente a qualidade dos serviços farmacêuticos e a atuação do profissional, destacando o papel estratégico do farmacêutico na administração.

3

Desafios e estratégias para a atuação clínica do farmacêutico. Exterkortter, et al., 2024.

Diagnosticar as principais dificuldades dos farmacêuticos atuantes em drogarias envolvendo a prática clínica e seu nível de conhecimento sobre alguns aspectos que envolvem a prática da prescrição farmacêutica.

Estudo descritivo.

Identificou desafios como falta de tempo, estrutura e reconhecimento profissional, além de apontar estratégias como capacitação e reorganização do processo de trabalho para ampliar a atuação clínica.

4

Mudanças no papel farmacêutico: levantamento comparativo entre drogarias de rede e drogaria única. Silva, et al., 2023.

Identificar mudanças no papel desenvolvido pelo farmacêutico em drogarias de rede; comparado ao seu trabalho anterior única.

Pesquisa qualitativa e quantitativa

Revelou diferenças significativas entre drogarias de rede e independentes, com maior padronização nas redes e maior autonomia nas drogarias únicas, impactando o papel do farmacêutico.

5

Atuação profissional dos farmacêuticos no Brasil: perfil sociodemográfico e dinâmica de trabalho em farmácias e drogarias privadas. Oliveira et al., 2017.

Conhecer as práticas e concepções dos farmacêuticos sobre a comercialização da contracepção de emergência no país.

Pesquisa de campo

Traçou o perfil sociodemográfico dos farmacêuticos e evidenciou jornadas extensas e foco em atividades comerciais, com menor ênfase na atenção farmacêutica.

6

Assistência e Atenção Farmacêutica: os desafios encontrados pelo profissional farmacêutico que atua em drogarias e farmácias de Porto Alegre, RS: um relato de experiência. Santos L.R.S.S.R., 2022.

Descrever um relato de experiência e avaliar os desafios do farmacêutico para aplicar a assistência e atenção farmacêutica em uma farmácia no município de Porto Alegre-RS nos meses de setembro a novembro de 2021.

Relato de experiência

Apontou dificuldades na implementação da atenção farmacêutica, mas destacou avanços na aproximação com o paciente e na promoção do uso racional de medicamentos.

7

A prática farmacêutica em drogarias do estado de Minas Gerais. Imbelloni, L.S.M. 2023.

Conhecer como os profissionais desenvolvem a assistência farmacêutica nas drogarias mineiras.

Pesquisa qualitativa descritiva

Mostrou que a prática ainda é predominantemente técnica e comercial, com avanços graduais na incorporação de serviços clínicos em drogarias.

8

Percepção de farmacêuticos sobre suas funções técnicos-assistências e técnicos-gerenciais em farmácias comunitárias privadas. Da Silva, et al., 2022.

Identificar as atribuições e/ou funções de farmacêuticos como técnicos-gerenciais e como técnicos assistenciais em farmácias comunitárias privadas.

Pesquisa exploratória, prospectiva, analítica e descritiva

Evidenciou que os farmacêuticos percebem forte sobrecarga de funções gerenciais e administrativas em farmácias comunitárias privadas, o que reduz o tempo disponível para atividades técnico-assistenciais. O estudo também apontou a existência de conflito entre as funções clínicas e gerenciais, além da necessidade de maior valorização e organização do trabalho farmacêutico para ampliação da atuação assistencial.

9

Pesquisa da qualidade de vida do profissional farmacêutico de rede de drogarias.  De Lima, Dolabela, 2021.

Avaliar a qualidade de vida entre farmacêuticos, em especial de rede de drogarias.

Estudo de caráter prospectivo, descritivo e qualitativo

Muitos farmacêuticos estão adoecendo durante o exercício da profissão, sendo importante adotar medidas de intervenção. É importante que órgãos relacionados a classe elaborem políticas que visem prevenção e recuperação da saúde dos profissionais, bem como de promoção da qualidade de vida.

10

Conhecimento dos farmacêuticos atuantes em farmácias e drogarias sobre prescrição farmacêutica. Soares e Fonseca, 2022.

Analisar o impacto das intervenções farmacêuticas em drogaria, farmácias, e consultórios e seu parecer durante a consulta evidenciando os efeitos sobre a saúde dos pacientes em relação ao acompanhamento farmacoterapêutico.

Pesquisa exploratória quantitativa

A importância do farmacêutico na sua atuação na farmácia clínica, onde as atividades desenvolvidas colaboram positivamente na adesão e compreensão do tratamento, aos cuidados na automedicação e aplicações de medidas não farmacológicas com o objetivo de prevenir e resolver os problemas farmacoterapêuticos.

3.1. Práticas Farmacêuticas e Assistência na Farmácia Comercial

A análise da literatura evidencia que o modelo de assistência nas farmácias comerciais brasileiras vem passando por uma significativa transformação, deixando de ser exclusivamente um ponto de venda de medicamentos para consolidar-se como uma unidade de saúde. Esse novo paradigma é sustentado pela Lei nº 13.021/2014, que redefine a farmácia como um estabelecimento de prestação de serviços voltados à assistência farmacêutica, à promoção da saúde e à orientação sanitária individual e coletiva (Brasil, 2014; Silva, 2025).

Nesse cenário, o profissional deixa de ser apenas um dispensador para assumir uma função clínica ativa, atuando agora como um agente que dissemina o uso racional de medicamentos, contribuindo assim para o aumento do número de imunização da população e melhora na qualidade de vida (Silva, 2022).

Assim, as práticas cotidianas desenvolvidas nas drogarias caracterizam-se por uma dualidade de funções técnico-gerenciais e as técnico-assistenciais. As atividades gerenciais focam na administração, logística e organização do estabelecimento, enquanto as assistenciais estão voltadas à promoção do uso racional de medicamentos e ao cuidado direto ao paciente. Entretanto, observa-se que as demandas operacionais frequentemente se sobrepõem às atividades clínicas, limitando a atuação assistencial do farmacêutico (Da Silva, et al., 2022).

Reforçando essa realidade, estudos apontam que grande parte do tempo de trabalho do farmacêutico é destinada a atividades administrativas e burocráticas, reduzindo sua disponibilidade para o atendimento clínico e a interação com os usuários. Nesse contexto, Bisson (2021), destaca que a prática farmacêutica deve ser centrada no cuidado ao paciente, sendo necessário deixar de lado todas as outras funções (Pereira; Freitas, 2018).

Esses achados são consistentes com outros estudos que aponta para a necessidade de reorganização do processo de trabalho, a fim de fortalecer a atuação clínico do farmacêutico (Oliveira et al., 2017).

Outra prática essencial na assistência farmacêutica é a relação farmacêutico-paciente, também chamada de relação terapêutica, que tem como objetivo a adesão dos pacientes ao tratamento proposto, facilitando a melhora da saúde e a qualidade de vida dos usuários (Marini; Bisson, 2023).

Além disso, funções como dispensação de medicamentos (93,6%), responsabilidade técnica (90,5%) e supervisão de funcionários (74,5%) estão entre as atividades mais frequentemente desempenhadas, muitas vezes de forma concomitante às práticas clínicas (Araújo et al., 2017).

A dispensação de medicamentos continua sendo a prática central no contexto do varejo farmacêutico, sendo apontado como função primordial por aproximadamente 89,6% dos profissionais. Entretanto, o modelo de assistência atual exige que a assistência do farmacêutico ultrapasse a simples entrega do produto, incorporando ações de educação em saúde e orientação ao paciente (Silva, 2023).

Nesse sentindo, o farmacêutico passa a atuar como um agente de cuidado, promovendo o uso seguro e racional de medicamentos e estabelecendo vínculos de confiança com a população. Durante essa prática, o farmacêutico é responsável por orientar o paciente sobre o uso correto dos medicamentos (Silva, 2023; Bermar, 2014).

Além da dispensação, os serviços clínicos farmacêuticos, têm ganhado relevância, especialmente após a regulamentação das atribuições clínicas e da prescrição farmacêutica pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) por meio das Resoluções nº 585 e 586/2013. Entre esses serviços, destacam-se a aferição de parâmetros fisiológicos, como pressão arterial e glicemia capilar, além do acompanhamento farmacoterapêutico, com foco na segurança do paciente e efetividade do tratamento medicamentoso (Oliveira et al., 2017; Santos, 2022).

A pandemia de COVID-19 intensificou esse protagonismo, consolidando a farmácia como um importante porta de entrada no sistema de saúde. Nesse período, os farmacêuticos atuaram diretamente na realização de triagens, testes rápidos e disseminação de informações confiáveis, reforçando seu papel nas equipes multiprofissionais e na promoção do uso adequado de medicamentos (Silva, et al., 2023).

Embora a pandemia tenha trazido destaque, ela também evidenciou fragilidades importantes, como o risco do uso irracional medicamentos e a necessidade de fortalecimento das ações de farmacovigilância para prevenção de possíveis reações adversas (Trytane, 2020; Santos, 2023).

Da Silva, Melo e Araújo (2022) abordam o serviço de vacinação como uma das diversas atividades inseridas nos serviços farmacêuticos. Nesse contexto, a Resolução n° 574, de 22 de maio de 2013 estabelece as atribuições e competências do farmacêutico, incluindo, entre elas, a dispensação e a administração de vacinas, somando a atuação desse profissional também na promoção da imunização e na prevenção de doenças.

Outro aspecto relevante refere-se à supervisão das equipes de vendas, especialmente em farmácias de rede, onde essa função assume papel de destaque. Evidências indicam que grande parte dos farmacêuticos exerce a supervisão da dispensação realizada por balconistas, o que reforça sua responsabilidade técnica e sanitária dentro do estabelecimento (Silva, 2023; Pereira et al., 2025).

Apesar dos avanços normativos e da ampliação das práticas clínicas, a consolidação dessas ações enfrenta barreiras importantes. Entre eles, destacam-se as barreiras estruturais e mercadológicas, uma vez que muitos estabelecimentos priorizam metas comerciais em detrimento da assistência farmacêutica. Tal cenário pode comprometer a autonomia profissional, reduzir o tempo dedicado ao cuidado individualizado e a dificultar a implementação efetiva de serviços clínicos (Carvalho; Ramos; Ferracini, 2021; Silva, 2025).

3.2. Desafios e Limitações na Atuação do Farmacêutico

A análise dos estudos evidenciou que o principal desafio na atuação farmacêutica comercial é o tensionamento entre a lógica do mercado e a ética do cuidado em saúde. Observa-se que o modelo varejista, orientado por metas de vendas, muitas vezes entra em conflito com a autonomia técnica do profissional. Nesse contexto, muitos estabelecimentos priorizam resultados econômicos em detrimento da assistência farmacêutica, o que pode comprometer a autonomia profissional, o tempo dedicado ao cuidado individualizado e a implementação de serviços clínicos (Carvalho; Ramos; Ferracini, 2021; Silva, 2025).

Essa dualidade impõe ao farmacêutico o desafio constante de conciliar o compromisso com a promoção da saúde pública com as demandas do varejo, que muitas vezes enxergam o farmacêutico apenas como um agente de vendas. Ademais, barreiras estruturais foram amplamente relatadas, destacando-se a sobrecarga de atividades técnicas e administrativas, a limitação de tempo para atendimentos individualizados e a ausência de espaço físico adequado para a realização de atendimentos clínicos com privacidade, fatores que restringem a plena execução da atenção farmacêutica (Silva, 2025; Pereira et al., 2025).

Outro aspecto relevante refere-se à infraestrutura inadequada e o acúmulo de funções burocráticas, que consomem grande parte da jornada de trabalho do farmacêutico, reduzindo sua atuação direta no cuidado ao paciente. Tais condições levam, a necessidade de improvisação por partes dos profissionais para garantir um atendimento qualificado (Oliveira et al., 2017).

No âmbito organizacional, a limitação de autonomia decisória, especialmente em redes de farmácias, associada a padronização excessiva via Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), tem sido apontada como fator de risco para desenvolvimento de estresse ocupacional e síndrome de Burnout. Soma-se a isso a presença, em muitos estabelecimentos, de apenas um farmacêutico responsável por múltiplas funções, o que contribui para sentimentos de exaustão e desvalorização profissional (Lima; Dolabela, 2021; Moraes Filho et al., 2022).

Adicionalmente, persiste uma barreira cultura, na qual o farmacêutico não é plenamente visto como um profissional de saúde pela equipe e pelos usuários. Nota-se que o farmacêutico sofre constrangimento pela equipe no trabalho e falta de reconhecimento para desenvolver o ciclo da assistência e atenção farmacêutica (Santos, 2022).

Esse cenário é agravado por deficiências na formação acadêmica, que muitas vezes não prepara o profissional para a realidade clínica do mercado. A literatura aponta que há evidências sobre o despreparo dos farmacêuticos para os serviços clínicos, indicando deficiências em sua formação enquanto acadêmica (Reis et al., 2015; Moraes Filho et al., 2022).

3.3. Impactos na Qualidade de Vida e Saúde do Profissional

A rotina nas farmácias comerciais, marcada pela sobrecarga de funções e pela pressão do modelo varejista, tem gerado impactos significativos na saúde física e mental dos farmacêuticos. A literatura demonstra que a transição para um modelo clínico ocorre muitas vezes sem a redução das demandas administrativas, resultando em esgotamento. (De Lima, Dolabela, 2021).

Estudos recentes contribuem com esse cenário, indicando que a intensificação do trabalho e a ambiguidade de papéis estão diretamente associadas à síndrome de burnout entre farmacêuticos comunitários (Silva et al., 2020; Ferreira; Sousa, 2022).

De acordo com De Lima e Dolabela (2021), muitos farmacêuticos afirmam que a sobrecarga de trabalho e a responsabilidade acumulada refletem-se diretamente na sua saúde, apontam ainda, enfrentar problemas como sensação de falta de energia, exaustão emocional ou esgotamento, fatores relacionados às longas jornadas de trabalho e à multiplicidade de tarefas administrativas. Essa realidade é reforçada por estudos que apontam que o acúmulo de funções compromete não apenas o bem-estar do profissional, mas também a qualidade da assistência prestada (Pereira et al., 2018; Oliveira e Lima, 2021)

Além disso, a qualidade de vida do farmacêutico no setor comercial também é afetada por fatores externos, como baixos salários e jornadas extensas, inclusive em fins de semana e feriados. A literatura reforça que o excesso de carga horária de trabalho e insatisfação com a remuneração são as principais reclamações dos profissionais (Serafin; Correia Júnior; Vargas, 2015; Oliveira et al., 2017).

Somado a isso, o sentimento de desvalorização social emerge como um elemento relevante no processo de adoecimento desses profissionais. Muitos farmacêuticos relatam falta de reconhecimento por parte da equipe multiprofissional e da sociedade. Conforme destaca Santos (2022), essa desvalorização pode levar à desmotivação e ao distanciamento das práticas de cuidado, fazendo com que o ambiente da farmácia seja percebido apenas como um espaço comercial.

Corroborando essa análise, estudos indicam que o reconhecimento profissional está diretamente relacionado à satisfação no trabalho e ao engajamento com práticas clínicas, sendo um fator essencial para a promoção da saúde mental e valorização da profissão. Além disso, pesquisas demonstram que ambientes organizacionais mais acolhedores e com suporte institucional contribuem significativamente para a redução do esgotamento emocional e aumento da satisfação profissional (Rodrigues et al., 2019; Almeida; Batista, 2023).

Outro fator que contribui para o desgaste físico e emocional dos farmacêuticos refere-se à pressão constante por produtividade e alcance de metas comerciais. Em muitas redes de farmácias, os profissionais são cobrados não apenas pela qualidade técnica dos serviços prestados, mas também pelo desempenho financeiro do estabelecimento. Essa realidade gera conflitos éticos e emocionais, principalmente quando as exigências comerciais se sobrepõem ao cuidado em saúde. Dessa forma, o farmacêutico passa a vivenciar um ambiente de trabalho marcado por tensão, insegurança e elevada cobrança psicológica, fatores que favorecem o adoecimento ocupacional (Patel et al., 2021).

Além das consequências emocionais, os impactos físicos decorrentes da rotina de trabalho também são frequentemente relatados na literatura. Permanecer longos períodos em pé, cumprir jornadas extensas e lidar constantemente com alta demanda de atendimento podem ocasionar fadiga, dores musculares, distúrbios do sono e outros problemas relacionados à saúde ocupacional. Tais condições afetam diretamente a disposição do profissional e podem reduzir sua capacidade de concentração durante o atendimento aos pacientes, comprometendo a segurança e a qualidade da assistência farmacêutica (Raber et al., 2022).

Outro aspecto importante refere-se à dificuldade de equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Muitos farmacêuticos relatam limitações no convívio familiar, redução do tempo destinado ao lazer e dificuldade para descanso adequado devido às escalas de trabalho e às responsabilidades acumuladas. Esse desequilíbrio contribui para o desenvolvimento de ansiedade, estresse crônico e desmotivação profissional, impactando negativamente a saúde mental e a satisfação no trabalho (Patel et al., 2021; Lima; Dolabela, 2021).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo permitiu compreender, de forma ampla, o papel do farmacêutico nas farmácias comerciais, evidenciando a ampliação de suas atribuições e os desafios enfrentado no exercício da profissão.

Evidenciou-se que ao longo do tempo, a farmácia passou a ser um espaço de dispensação de medicamentos, passando a ser compreendido como um importante estabelecimento de saúde, no qual o farmacêutico assume funções clínicas, assistências e gerenciais.

As atividades assistências tem seu desenvolvimento limitada, devido à dualidade de funções do farmacêutico, que exerce funções administrativas e comerciais, atrelado a isso, a sobrecarga de trabalho, a falta de infraestrutura adequada e restrições à autonomia profissional, também dificultado a consolidação de um modelo de assistência centrado no paciente.

A qualidade de vida e a saúde dos farmacêuticos sofrem impactos dessas condições. A sobrecarga de trabalho, acúmulo de responsabilidades e as longas jornadas favorecem o desenvolvimento de estresse ocupacional e síndrome de burnout, comprometendo não apenas o bem-estar do profissional, mas também a qualidade da assistência prestada à população.

Apesar dessas limitações, o estudo também evidenciou o potencial transformador da atuação farmacêutica, especialmente no que se refere à promoção do uso racional de medicamentos, acompanhamento farmacoterapêutico e à educação em saúde. A pandemia de COVID-19, inclusive, reforçou a importância desse profissional como agente destaque no sistema de saúde, ampliando seu reconhecimento social.

Diante desse cenário, é fundamental estratégias que visem a valorização do farmacêutico e a reestruturação do modelo de trabalho nas farmácias comerciais. Incluindo a melhoria das condições laborais, a ampliação da autonomia profissional, investimentos em capacitação clínica e a adoção de políticas públicas que fortaleçam a assistência farmacêutica como componente essencial da atenção à saúde.

Além disso, percebe-se que a atuação clínica do farmacêutico tende a crescer cada vez mais dentro das farmácias comunitárias, acompanhando as necessidades da população e as transformações no sistema de saúde. A ampliação dos serviços farmacêuticos, como vacinação, acompanhamento terapêutico e orientação em saúde, demonstra que esse profissional possui capacidade técnica e científica para contribuir diretamente na prevenção de doenças e na promoção da saúde coletiva. Dessa forma, torna-se indispensável incentivar práticas que fortaleçam o vínculo entre farmacêutico e paciente, promovendo um atendimento mais humanizado e resolutivo.

Outro ponto relevante observado neste estudo refere-se à necessidade de fortalecimento da formação acadêmica e da educação continuada dos profissionais farmacêuticos. A literatura analisada aponta que muitos desafios enfrentados no cotidiano da farmácia comercial estão relacionados à insuficiente preparação clínica durante a graduação. Assim, torna-se essencial que as instituições de ensino superior e os órgãos reguladores invistam em metodologias e capacitações que preparem o farmacêutico para atuar de forma mais segura, ética e integrada às equipes multiprofissionais de saúde.

Além disso, é importante destacar que o fortalecimento da assistência farmacêutica não depende apenas do profissional, mas também do comprometimento das instituições públicas e privadas em reconhecer a farmácia como um espaço de cuidado em saúde. A valorização profissional, associada a melhores condições de trabalho, remuneração adequada e reconhecimento social, pode contribuir significativamente para a melhoria da qualidade dos serviços prestados e para a satisfação dos farmacêuticos no exercício da profissão.

Por fim, conclui-se que o farmacêutico desempenha um papel indispensável na promoção da saúde e no cuidado ao paciente, sendo necessário superar os desafios ainda existentes para garantir uma atuação mais efetiva, humanizada e alinhada aos princípios do sistema de saúde, contribuindo assim para a melhoria da qualidade de vida da população e para o fortalecimento da profissão farmacêutica no Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Discente do curso de Farmácia da Faculdade Supremo Redentor. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente do curso de Farmácia da Faculdade Supremo Redentor. Especialista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail