ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM NO ENFRENTAMENTO DA MENINGITE BACTERIANA EM REGIÕES RIBEIRINHAS DO AMAZONAS: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

NURSING PRACTICE IN ADDRESSING BACTERIAL MENINGITIS IN RIVERINE REGIONS OF THE AMAZON: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792277134

RESUMO
A meningite bacteriana é uma patologia de alta gravidade, caracterizada pela inflamação das meninges e rápida evolução clínica, o que exige intervenções imediatas para a redução de óbitos e sequelas permanentes. O objetivo deste estudo foi analisar a produção científica sobre a atuação da enfermagem no enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas do Amazonas, focando nas práticas de cuidado, prevenção e desafios logísticos. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada em bases de dados como SciELO, PubMed e LILACS, abrangendo publicações entre 2016 e 2026. Os resultados evidenciam que a enfermagem atua como pilar central na vigilância epidemiológica e imunização, enfrentando, contudo, severas barreiras geográficas e estruturais inerentes ao território amazônico. Conclui-se que a sistematização das evidências reforça a necessidade de estratégias assistenciais adaptadas às realidades ribeirinhas para fortalecer o combate à doença.
Palavras-chave: Meningite bacteriana; Enfermagem; Populações ribeirinhas; Amazonas.

ABSTRACT
Bacterial meningitisis a highly severe condition characterized by inflammation of the meninges and rapid clinical progression, necessitating immediate intervention to reduce mortality and permanent sequelae. This study aimed to analyzes cientific literature regardingthe role of nursing in addressing bacterial meningitis among river ine populations in the Amazon, focus in gon care practices, prevention, and logistical challenges. Na integrative literature review was conducted using databases such as SciELO, PubMed, and LILACS, covering publications from 2016 to 2026. The results highlight that nursing serves as a corners tone of epidemiological surveillance and immunization efforts, while facings evere geographic and structural barriers in herentto the Amazon region. The study concludes that the synthesis of evidence under scores the need for care strategies tailored to the realities of river in ecommunities to strengthen the fight against the disease.
Keywords: Bacterial meningitis; Nursing; Riverine populations; Amazonas.

1. INTRODUÇÃO

De acordo com Batista et al. (2022) A meningite meningocócica, desencadeada pela bactéria Neisseria meningitidis, é classificada como uma das doenças imunopreveníveis de maior impacto na saúde pública, dada sua capacidade de evoluir para quadros de infecção generalizada e meningococcemia. O processo inflamatório atinge as leptomeninges do sistema nervoso central, sendo transmitido por vias aéreas e apresentando uma disseminação hematogênica como principal via de acesso às meninges.

Conforme Ramos et al. (2025) dados epidemiológicos recentes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) indicam uma tendência de aumento no número de casos no Brasil no período de 2020 a 2024, o que coloca a vigilância epidemiológica em estado de alerta para o monitoramento contínuo.

Segundo Sztajnbok (2012) as manifestações clínicas da doença são variadas e dependem da idade e do estado imunológico do paciente, incluindo sintomas clássicos como febre alta, rigidez de nuca, fotofobia e vômitos, além de sinais críticos como petéquias e equimoses que podem sinalizar necrose tecidual e evolução para o óbito em poucas horas.

Ramos (2025) afirma que embora a prevenção seja viabilizada por meio de um robusto Programa Nacional de Imunizações (PNI) e medidas de quimioprofilaxia de contatos, a efetividade do controle da meningite bacteriana está intrinsecamente ligada à capacidade de resposta das equipes de saúde na ponta do sistema.

Nesse cenário, o profissional de enfermagem assume um papel estratégico, sendo responsável pelo reconhecimento precoce dos sinais clínicos, pela gestão do cuidado ao paciente crítico e pela articulação de ações educativas e vacinais junto à comunidade. Entretanto, a execução dessas práticas encontra obstáculos significativos em regiões ribeirinhas do Amazonas.

Nesses territórios, a dispersão geográfica e a dependência do transporte fluvial impõem uma dinâmica de isolamento que retarda o acesso ao diagnóstico e ao tratamento oportuno. Conforme aponta a literatura, as dificuldades enfrentadas não se limitam à distância, mas englobam a fragilidade estrutural dos serviços de saúde e a carência de recursos materiais em áreas remotas.

As populações ribeirinhas vivem sob especificidades socioculturais e econômicas que moldam sua relação com o processo saúde-doença, exigindo abordagens de cuidado que respeitem suas realidades locais. Apesar da relevância desse contexto, observa-se uma lacuna considerável na produção científica brasileira sobre a saúde ribeirinha, o que contribui para a invisibilidade desses grupos nas políticas públicas. Portanto, sistematizar o conhecimento existente sobre a atuação da enfermagem nesses contextos vulneráveis é fundamental para fortalecer as práticas de assistência e prevenção.

Diante do exposto, o presente estudo justifica-se pela necessidade de reunir as evidências disponíveis para subsidiar discussões acadêmicas e profissionais mais consistentes. O objetivo desta pesquisa foi analisar, à luz da literatura científica, a atuação da enfermagem no enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas do Amazonas, enfatizando as práticas de cuidado, as estratégias de prevenção e os desafios estruturais e geográficos evidenciados.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Meningite Bacteriana: Aspectos Clínicos, Epidemiológicos e Preventivos

A meningite bacteriana constitui um importante problema de saúde pública devido à sua gravidade clínica, à possibilidade de evolução rápida e ao risco de mortalidade e sequelas permanentes. Caracterizada pela inflamação das meninges, estruturas que revestem o sistema nervoso central, essa doença exige reconhecimento precoce dos sinais clínicos e assistência imediata. Entre os agentes etiológicos de relevância estão Neisseria meningitidis, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae, microrganismos identificados em estudos sobre infecções do sistema nervoso central na região amazônica (Marinho et al., 2023).

Segundo Batista et al. (2022), a meningite meningocócica merece atenção especial em razão de sua capacidade de provocar manifestações sistêmicas graves, incluindo a meningococcemia. As manifestações clínicas podem incluir febre, rigidez de nuca, fotofobia e vômitos, embora a apresentação varie conforme a idade e as condições clínicas do indivíduo. Sztajnbok (2012) destaca a importância do reconhecimento das manifestações da meningite bacteriana aguda, considerando o potencial de agravamento do quadro e a necessidade de intervenção oportuna.

Nesse contexto, a vigilância epidemiológica constitui um instrumento fundamental para o monitoramento dos casos, a identificação de possíveis alterações no perfil de ocorrência da doença e o direcionamento das medidas de prevenção e controle. Ramos, Anjos e Santos (2025), ao investigarem retrospectivamente a ocorrência de doença meningocócica no Amazonas entre 2020 e 2024, contribuem para a discussão sobre a importância do acompanhamento epidemiológico regional. A utilização de informações sobre a ocorrência dos casos permite subsidiar o planejamento das ações de saúde e orientar a organização dos serviços diante das necessidades identificadas.

A prevenção da meningite bacteriana envolve, entre outras medidas, a vacinação, a vigilância epidemiológica e a adoção de medidas específicas de controle, conforme o agente etiológico e as orientações sanitárias vigentes. Nesse processo, a enfermagem participa da organização das ações de imunização, da orientação da população, do acompanhamento das condições de saúde e da identificação de situações que necessitam de avaliação imediata. A efetividade dessas ações, entretanto, depende da disponibilidade de recursos, da organização dos serviços e da capacidade de alcançar os diferentes grupos populacionais.

2.2. A Atuação da Enfermagem na Prevenção, Identificação e Assistência à Meningite Bacteriana

A enfermagem desempenha uma função estratégica na organização da assistência à saúde, especialmente na atenção primária, na vigilância epidemiológica e no atendimento inicial de pessoas com suspeita de doenças infecciosas. No enfrentamento da meningite bacteriana, sua atuação envolve a identificação de sinais de alerta, a avaliação inicial do paciente, a comunicação com os demais profissionais da equipe, o encaminhamento para serviços de referência e a participação nas ações de prevenção e educação em saúde.

A identificação precoce de manifestações clínicas sugestivas de meningite é particularmente importante diante da possibilidade de deterioração rápida do estado geral do paciente. Nesse sentido, a atuação da equipe de enfermagem deve estar associada à avaliação sistemática das condições clínicas, ao reconhecimento de sinais de gravidade e à adoção dos fluxos assistenciais estabelecidos pelos serviços de saúde. Essas ações precisam estar articuladas à disponibilidade de atendimento médico, de recursos diagnósticos e de tratamento adequado, uma vez que o cuidado não depende exclusivamente da atuação individual de um profissional.

A prevenção também constitui uma dimensão essencial do trabalho da enfermagem. As atividades educativas permitem orientar a população sobre a vacinação, os sinais e sintomas que exigem atendimento imediato e a importância de procurar os serviços de saúde diante de suspeitas da doença. Além disso, a participação nas ações de imunização e vigilância contribui para o acompanhamento das condições epidemiológicas e para o planejamento das intervenções preventivas.

Entretanto, o desenvolvimento dessas atribuições exige formação profissional compatível com as necessidades epidemiológicas e territoriais da população atendida. Souza Filho et al. (2022), ao analisarem a produção do conhecimento e a formação de recursos humanos em enfermagem voltados à população amazônica, evidenciam a relevância de aproximar a formação profissional das demandas regionais. Essa perspectiva é importante para compreender que a assistência de enfermagem em áreas remotas requer não apenas conhecimento técnico-científico, mas também capacidade de adaptação às condições de acesso, aos recursos disponíveis e às características socioculturais das comunidades.

Dessa forma, a qualidade da assistência à meningite bacteriana depende da articulação entre competência profissional, educação permanente, vigilância epidemiológica, organização dos serviços e integração entre os diferentes níveis de atenção. Em regiões onde o deslocamento até unidades de maior complexidade pode ser demorado, essas condições tornam-se ainda mais relevantes, pois o reconhecimento de um possível caso precisa estar acompanhado de mecanismos efetivos de encaminhamento e continuidade do cuidado.

2.3. Populações Ribeirinhas do Amazonas e os Desafios do Acesso aos Serviços de Saúde

As populações ribeirinhas da Amazônia apresentam necessidades de saúde relacionadas às condições geográficas, sociais e estruturais dos territórios em que vivem. A dispersão das comunidades, as grandes distâncias entre localidades e a dependência do transporte fluvial influenciam a organização da assistência e podem dificultar o acesso oportuno aos serviços de saúde. Por essa razão, a prestação do cuidado nesses contextos exige estratégias que considerem as características do território e as necessidades específicas da população.

Figueira et al. (2020), ao investigarem o processo de trabalho de equipes de saúde da família fluviais em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira, destacam aspectos relacionados à organização do trabalho, aos profissionais, às tecnologias utilizadas e aos desafios encontrados na assistência. Os autores apontam a importância da adequação das ações às necessidades da população, bem como da educação permanente, da disponibilidade de materiais e da melhoria dos fluxos de encaminhamento. Esses elementos demonstram que a efetividade do cuidado está relacionada tanto à capacidade técnica das equipes quanto às condições estruturais necessárias para o desenvolvimento de suas atividades.

As dificuldades de acesso também se manifestam no atendimento de urgência e emergência. Lança et al. (2021), ao analisarem um serviço de emergência em contexto ribeirinho, evidenciaram a relevância das remoções de pacientes e os desafios associados ao transporte e à evolução clínica durante o atendimento. Os resultados demonstram que o deslocamento constitui um componente importante da assistência e que a organização dos serviços de emergência precisa considerar as particularidades geográficas das comunidades atendidas.

No enfrentamento da meningite bacteriana, essas condições assumem importância especial. A necessidade de reconhecimento rápido dos sinais clínicos, avaliação inicial e encaminhamento para diagnóstico e tratamento adequados torna o tempo de deslocamento um fator relevante para a organização da assistência. Assim, mesmo quando a suspeita da doença é identificada pela equipe de saúde, a distância dos serviços de referência e a disponibilidade de transporte podem representar obstáculos adicionais à continuidade do cuidado.

A organização da atenção primária também precisa considerar o perfil epidemiológico dessas comunidades. Pinheiro et al. (2021), ao estudarem as doenças infecciosas e a rede de atenção primária à saúde em comunidades ribeirinhas, identificaram registros de diferentes agravos infecciosos, incluindo casos de meningite. Os autores também descreveram a estrutura da rede de atenção existente e apontaram limitações relacionadas às necessidades assistenciais da população. Esses achados reforçam a importância do planejamento das ações de saúde com base nas características epidemiológicas e territoriais das comunidades.

Portanto, compreender a saúde das populações ribeirinhas requer considerar que o acesso aos serviços não depende apenas da existência formal de unidades de atendimento. É necessário avaliar também sua localização, capacidade de funcionamento, disponibilidade de profissionais e insumos, meios de transporte e articulação com os serviços de maior complexidade. Essas condições influenciam diretamente as possibilidades de prevenção, identificação de agravos e continuidade da assistência.

2.4. Estratégias de Atenção à Saúde e Organização da Assistência em Comunidades Ribeirinhas

Diante das barreiras geográficas e estruturais presentes na Amazônia, a organização de modelos assistenciais adaptados ao território constitui uma estratégia importante para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde. Entre essas iniciativas, destacam-se as unidades básicas de saúde fluviais, que possibilitam a oferta de ações de atenção primária em localidades nas quais o acesso terrestre é limitado ou inexistente.

Fortes-Filho, Melo-Fortes e Aliberti (2024), ao descreverem o modelo de unidade básica de saúde fluvial na floresta amazônica, apresentam essa modalidade assistencial como uma alternativa para aproximar os serviços de saúde das comunidades ribeirinhas. A atuação dessas unidades favorece a oferta de serviços de atenção primária e representa uma possibilidade de ampliar o acompanhamento da população em territórios de difícil acesso.

Nesse modelo, a enfermagem pode contribuir para a realização de ações educativas, vacinação, acompanhamento dos usuários, identificação de sinais de alerta e encaminhamento de casos que necessitem de avaliação especializada. A organização do trabalho deve considerar a programação das visitas, a disponibilidade de materiais e insumos, a continuidade das ações e a articulação com outros pontos da rede de atenção à saúde.

Entretanto, a presença de unidades fluviais não elimina, por si só, todas as dificuldades assistenciais. A efetividade desse modelo depende da capacidade operacional dos serviços, da disponibilidade de equipes qualificadas e da existência de fluxos de referência que possibilitem a transferência dos pacientes quando houver necessidade de atendimento de maior complexidade. No caso da meningite bacteriana, a identificação de uma possível infecção precisa estar vinculada à possibilidade de encaminhamento oportuno para confirmação diagnóstica e tratamento.

Além da organização logística, é necessário que as estratégias assistenciais respeitem as particularidades socioculturais das comunidades. A educação em saúde deve ser desenvolvida por meio de orientações compreensíveis e compatíveis com a realidade local, favorecendo o diálogo entre os profissionais e os usuários. A participação comunitária pode contribuir para a identificação de necessidades, o fortalecimento das ações preventivas e a construção de relações de confiança entre a população e os serviços.

Desse modo, a atenção à saúde em comunidades ribeirinhas exige uma organização que integre recursos humanos, infraestrutura, transporte, educação permanente e planejamento territorial. A enfermagem ocupa posição relevante nesse processo, mas sua capacidade de resposta depende de condições institucionais que assegurem suporte ao trabalho desenvolvido.

2.5. Lacunas do Conhecimento e a Necessidade de Aprofundamento da Atuação da Enfermagem no Enfrentamento da Meningite Bacteriana

A análise da literatura selecionada demonstra que existem estudos sobre o processo de trabalho das equipes fluviais, o atendimento de emergência em áreas ribeirinhas, a ocorrência de doenças infecciosas, a formação de profissionais de enfermagem, as infecções do sistema nervoso central na Amazônia e os modelos de atenção primária adaptados ao território. Em conjunto, essas publicações oferecem elementos para compreender as condições que influenciam a assistência à saúde das populações ribeirinhas.

Entretanto, os estudos abordam dimensões distintas do problema e não apresentam, em sua totalidade, uma investigação específica sobre todas as etapas da atuação da enfermagem no enfrentamento da meningite bacteriana em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Enquanto algumas pesquisas se concentram na organização dos serviços e nas dificuldades de deslocamento, outras investigam a ocorrência de doenças infecciosas, os perfis clínicos e laboratoriais ou a produção de conhecimento em enfermagem.

Essa diversidade evidencia a necessidade de articular os conhecimentos disponíveis para compreender como as condições territoriais, a organização da rede assistencial e as práticas profissionais se relacionam no enfrentamento da doença. Também indica a importância de aprofundar investigações sobre as estratégias de prevenção, o reconhecimento inicial dos casos, os mecanismos de encaminhamento e as condições de continuidade do cuidado em comunidades de difícil acesso.

Souza Filho et al. (2022) contribuem para essa discussão ao destacarem a necessidade de ampliar a produção de conhecimento em enfermagem relacionada às populações tradicionais da Amazônia. Essa questão é relevante porque o desenvolvimento de práticas assistenciais adequadas depende da existência de evidências que considerem as especificidades regionais e as necessidades dos grupos atendidos.

Assim, a realização de uma revisão integrativa sobre a atuação da enfermagem no enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas do Amazonas justifica-se pela possibilidade de reunir e analisar evidências provenientes de diferentes perspectivas de investigação. Ao sistematizar os estudos disponíveis, pretende-se identificar contribuições, desafios e aspectos que ainda necessitam de aprofundamento, oferecendo subsídios para a reflexão sobre as práticas profissionais e a organização da assistência.

Portanto, o referencial teórico sustenta a compreensão de que o enfrentamento da meningite bacteriana em comunidades ribeirinhas não se restringe ao reconhecimento clínico da doença. Trata-se de um processo que envolve prevenção, vigilância epidemiológica, qualificação profissional, acesso aos serviços, transporte, encaminhamento e integração da rede de atenção à saúde. A análise dessas dimensões permite discutir a atuação da enfermagem de maneira articulada às condições reais do território amazônico e às necessidades das populações atendidas.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada com o objetivo de reunir e analisar estudos relacionados à atuação da enfermagem no enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas do Amazonas. A revisão integrativa foi escolhida por possibilitar a reunião de diferentes estudos sobre o tema, permitindo uma visão mais ampla do conhecimento produzido. A partir disso, estabeleceu-se como questão norteadora: Como a enfermagem atua no enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas do Amazonas?

A busca dos estudos foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS, SciELO e Google Acadêmico. A utilização dessas fontes permitiu contemplar diferentes áreas de produção científica relacionadas à saúde, enfermagem, doenças infecciosas e às condições de vida e assistência das populações ribeirinhas da região amazônica. As buscas foram realizadas de forma independente em cada fonte, considerando as características e ferramentas de pesquisa de cada plataforma. Foram considerados estudos publicados no período estabelecido para a pesquisa, nos idiomas selecionados e de acordo com os critérios de inclusão e exclusão definidos previamente.

Para a realização das buscas, foram utilizados descritores controlados e termos livres relacionados aos principais conceitos da pesquisa. A estratégia foi organizada em quatro eixos: meningite bacteriana, enfermagem, populações ribeirinhas e contexto amazônico. No eixo relacionado à meningite, foram utilizados os termos “meningite bacteriana”, “meningite”, “bacterialmeningitis” e “meningitis”. No eixo da enfermagem, foram empregados os termos “enfermagem”, “cuidados de enfermagem”, “nursing”, “nursingcare” e “enfermería”. 

Para a identificação de estudos relacionados às populações ribeirinhas e áreas remotas, foram utilizados “população ribeirinha”, “populações ribeirinhas”, “comunidades ribeirinhas”, “ribeirinhos”, “riverinepopulation”, “riverinecommunities”, “rivercommunities” e “remotecommunities”. No eixo referente ao contexto amazônico, foram utilizados “Amazonas”, “Amazônia”, “Amazonia”, “AmazonRegion”, “BrazilianAmazon” e “Región Amazónica”. No PubMed/MEDLINE, foram utilizados descritores do vocabulário MeSH, associados aos termos livres correspondentes, especialmente para meningite e enfermagem. 

Nas buscas realizadas na BVS/LILACS, foram considerados os descritores DeCS e seus respectivos termos livres em português, inglês e espanhol. Na SciELO e no Google Acadêmico, foram empregados principalmente termos livres, utilizando as diferentes formas de escrita dos conceitos investigados. A estratégia principal combinou os quatro eixos: meningite, enfermagem, população ribeirinha ou áreas remotas e contexto amazônico. Também foram realizadas buscas complementares com a retirada de alguns dos eixos, com o objetivo de ampliar a identificação de estudos relacionados ao tema.

A pesquisa considerou estudos publicados entre 2016 e 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol. Como critérios de inclusão, estabeleceram-se artigos científicos disponíveis na íntegra, publicados no período definido e relacionados ao tema da pesquisa. Foram contemplados estudos sobre meningite bacteriana, infecções do sistema nervoso central, atuação da enfermagem, populações ribeirinhas, comunidades em áreas remotas e assistência à saúde no contexto amazônico.

A exclusão envolveu artigos duplicados, teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso, editoriais, cartas ao editor, resumos de eventos e capítulos de livros. Também não foram considerados estudos publicados fora do período estabelecido, em outros idiomas, sem texto completo disponível ou que não apresentassem relação com a questão norteadora após a análise do título, resumo e texto completo.

A busca nas fontes de informação identificou 5 registros no PubMed/MEDLINE e 8 registros na SciELO, totalizando 13 registros inicialmente considerados para a pesquisa. Não foram contabilizados registros adicionais da BVS, LILACS ou Google Acadêmico no conjunto inicial utilizado para a seleção. Após a conferência dos resultados, foi identificado 1 registro duplicado, resultando em 12 estudos para as etapas seguintes da seleção.

Os 12 artigos foram avaliados por meio da leitura dos títulos e resumos. Nessa etapa, 4 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos, permanecendo 8 estudos para leitura do texto completo. Na etapa de elegibilidade, os 8 textos completos foram analisados de acordo com os critérios de inclusão e exclusão definidos para a pesquisa. Após essa avaliação, 2 artigos foram excluídos por não apresentarem relação suficiente com a questão norteadora ou com os critérios de elegibilidade. Ao final, 6 artigos foram incluídos na revisão integrativa e utilizados para a análise dos resultados. Ao final do processo de seleção, seis estudos foram incluídos na síntese da revisão integrativa.

Quadro 1. Fluxograma da revisão integrativa.

Fonte: Os autores

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Os estudos selecionados apontaram que a assistência à saúde das populações ribeirinhas da Amazônia está diretamente relacionada às características do território, às dificuldades de deslocamento e à organização dos serviços.

TÍTULO

AUTORES

ANO/PAÍS/BASE DE DADOS/AMOSTRA

DELIANMENTO DO ESTUDO/NÍVEL DE EVIDÊNCIA/INSTRUMENTOS

RESULTADOS

SÍNTESE DE CONCLUSÕES

Fluvial family health: work process of teams in river side communites of the Brazilian Amazon

Maura Cristiane e Silva Figueira; Dalvani Marques; Maria Filomena Gouveia Vilela; Jéssica de Aquino Pereira; Jennifer Bazílio; Eliete Maria Silva

2020 / Brasil / PubMed / 27 trabalhadores de equipes municipais de saúde fluvial do Pará.

Pesquisa-ação / Nível VI / grupos focais, entrevistas individuais e observação participante.

Foram identificados aspectos relacionados ao objeto de trabalho, aos profissionais, às tecnologias utilizadas e aos desafios do processo de trabalho das equipes fluviais.

A assistência deve considerar as necessidades da população, com organização do trabalho, educação permanente, disponibilidade de materiais e melhoria do fluxo de encaminhamento.

A river in emergency health service: characteristics and factors related to patients' clinical evolution

llen de Fátima Caetano Lança; Lêda Lima Sobral; Rita de Cássia Almeida Vieira; Lilia de Souza Nogueira; Regina Marcia Cardoso de Sousa

2021 / Brasil / PubMed e SciELO / dados dos atendimentos de 2009–2015 e amostra prospectiva no 1º semestre de 2016.

Estudo descritivo / Nível VI / registros de atendimento e Rapid Emergency Medicine Score.

Cerca de 90% dos atendimentos envolveram remoção. Em 2016, 68,5% mantiveram o estado clínico, 18% pioraram e 13,5% melhoraram. O tempo médio de resposta foi de 84 minutos e o atendimento fluvial total, 172 minutos.

Evidenciou dificuldades relacionadas ao atendimento e transporte fluvial, indicando necessidade de melhor estruturação e organização do serviço de emergência.

Doenças infecciosas e a rede de atenção primária à saúde em comunidades ribeirinhas

Ana Kedma Correa Pinheiro; Laura Maria Vidal Nogueira; Suzana Rosa André; Ivaneide Leal Ataíde Rodrigues; Lidiane de Nazaré Mota Trindade; Ana Paula Rezendes de Oliveira

2021 / Brasil / SciELO / 393 casos de doenças infecciosas registrados entre 2013–2017.

Estudo epidemiológico descritivo / Nível VI / dados do SINAN e levantamento da rede de atenção primária; análise descritiva e teste do Qui-quadrado de Pearson.

Foram identificados 393 casos, incluindo 15 casos de meningite. A rede contava com UBSF, eSFR, 26 postos de saúde e quatro equipes de ACS.

A rede de atenção primária apresentava limitações frente às necessidades da população ribeirinha, reforçando a necessidade de planejamento das ações de saúde e enfermagem conforme o perfil epidemiológico e territorial.

Nursing care for the Amazon population: knowledge production and human resource development

Zilmar Augusto de Souza Filho; Antonia Margareth Moita Sá; Linda Karolinne Rodrigues Almeida Cunha; Tainan Fabrício da Silva; Rafaela Barros dos Santos; Flávia Regina Souza Ramos; Marta Lenise do Prado

2022 / Brasil / PubMed / 105 dissertações analisadas.

Estudo descritivo, quantitativo e documental / Nível VI / análise documental e estatística descritiva.

Das 105 dissertações, 30 (28,6%) estavam relacionadas a doenças tropicais negligenciadas e apenas 11 (10,5%) envolveram populações tradicionais da Amazônia.

A produção científica da pós-graduação em enfermagem apresenta relação com as demandas amazônicas, mas ainda precisa ampliar sua produção voltada às populações tradicionais e às necessidades específicas da região.

Pediatric central nervous system infections in the Amazon: clinical and laboratory profiles

Eveny Perlize Melo Marinho et al.

2023 / Brasil / PubMed / 689 amostras incluídas; 108 casos confirmados de infecção do SNC.

Estudo transversal retrospectivo / Nível VI / prontuários, banco laboratorial, análise do líquor, cultura, coloração de Gram, PCR/qPCR, sorologia e análise estatística.

Dos 689 casos analisados, 108 apresentaram infecção confirmada no líquor. Entre as bactérias, destacaram-se Neisseria meningitidis C, Streptococcus pneumoniae e Haemophilusinfluenzae.

Demonstrou a circulação de agentes causadores de infecções do SNC, incluindo agentes preveníveis por vacinação, reforçando a importância da vigilância, diagnóstico laboratorial e prevenção.

The Floating Primary Health Center Model in the Amazon Rainforest

Sileno de Queiroz Fortes-Filho; Juliana de Araújo Melo-Fortes; Márlon Juliano Romero Aliberti

2024 / Brasil / PubMed / amostra: não se aplica — estudo sobre o modelo de unidade fluvial.

Estudo descritivo/modelo de assistência / Nível VI / descrição do modelo de atenção e dos serviços oferecidos pela unidade fluvial.

O trabalho apresenta o modelo de unidades básicas fluviais como estratégia para levar serviços de atenção primária às comunidades ribeirinhas, diante das grandes distâncias e dificuldades de acesso.

As unidades fluviais ampliam o acesso à atenção primária em áreas remotas e representam uma estratégia importante para aproximar os serviços de saúde das populações ribeirinhas.

Fonte: Os autores.

Figueira et al. (2020), em Fluvial family health: work process of teams in riverside communities of the Brazilian Amazon, evidenciaram que o trabalho das equipes de saúde fluvial exige uma organização diferenciada da assistência, considerando as distâncias percorridas, as condições de acesso e a necessidade de adaptação das ações de saúde à realidade das comunidades. Nesse cenário, a enfermagem assume papel importante na realização das ações de atenção à saúde e no acompanhamento da população.

Essa realidade também aparece no estudo de Lança et al. (2021), A river in emergency health service: characteristics and factors related to patients' clinical evolution, que demonstrou a importância do atendimento de emergência em áreas ribeirinhas e as dificuldades relacionadas ao transporte e ao acesso oportuno aos serviços de maior complexidade.

Para o enfrentamento de doenças como a meningite bacteriana, essas condições ganham importância, uma vez que o reconhecimento dos sinais e sintomas, a avaliação inicial e o encaminhamento adequado precisam ocorrer em um território no qual o deslocamento pode ser demorado. Nesse contexto, a atuação da enfermagem envolve não apenas o cuidado direto, mas também a identificação de situações de gravidade e a articulação com os demais pontos da rede de atenção.

O estudo Doenças infecciosas e a rede de atenção primária à saúde em comunidades ribeirinhas (2021) reforçou a presença das doenças infecciosas entre as populações ribeirinhas e a importância da atenção primária no acompanhamento desses agravos. A identificação de registros relacionados à meningite demonstra que essas doenças também fazem parte das demandas de saúde encontradas nesses territórios.

Dessa forma, a enfermagem inserida na atenção primária pode contribuir para ações de prevenção, orientação da população, identificação de sinais de alerta, acompanhamento dos casos e encaminhamento dos pacientes quando necessário. Entretanto, a efetividade dessas ações depende das condições de funcionamento da rede e da possibilidade de acesso aos serviços de referência.

A dimensão da enfermagem também foi abordada por Souza Filho et al. (2021), em Nursing care for the Amazon population: knowledge production and human resource development. Os autores destacaram a necessidade de uma formação profissional relacionada às particularidades da população amazônica. Esse aspecto é relevante para o enfrentamento da meningite, pois o profissional precisa reconhecer as características epidemiológicas e territoriais da região, além de compreender as dificuldades enfrentadas pela população para chegar aos serviços de saúde. Assim, a formação e a qualificação dos profissionais aparecem como elementos importantes para uma assistência adequada às necessidades locais.

Marinho et al. (2023), em Pediatric central nervous system infections in theAmazon: clinicalandlaboratory profiles, contribuíram para a compreensão das infecções do sistema nervoso central em crianças na Amazônia, incluindo casos de meningite. Os achados clínicos e laboratoriais apresentados pelos autores reforçam a necessidade de reconhecimento rápido dos quadros infecciosos e de encaminhamento adequado dos pacientes.

Embora o estudo não esteja direcionado especificamente às comunidades ribeirinhas, seus resultados são relevantes para a discussão da meningite no contexto amazônico, principalmente quando se considera que crianças residentes em áreas remotas podem enfrentar maiores dificuldades para acessar serviços especializados.

Fortes-Filho, Melo-Fortes e Aliberti (2024), em The Floating Primary Health Center Model in the Amazon Rainforest, descreveram as unidades básicas de saúde fluviais como uma estratégia de ampliação do acesso aos serviços de saúde para comunidades ribeirinhas. A presença dessas unidades possibilita a realização de ações de atenção primária mais próximas da população e amplia as oportunidades de acompanhamento e prevenção. Para a enfermagem, esse modelo representa um espaço importante para ações educativas, vacinação, acompanhamento dos usuários, identificação de sinais de alerta e encaminhamento de casos que necessitem de avaliação especializada.

A análise conjunta dos estudos mostra que a atuação da enfermagem no contexto ribeirinho não pode ser compreendida apenas a partir do atendimento realizado dentro das unidades de saúde. O trabalho está relacionado também à prevenção, à educação em saúde, à identificação precoce de agravos, ao acompanhamento dos usuários e à articulação com os demais serviços da rede. No caso da meningite bacteriana, essas ações são especialmente importantes devido à necessidade de reconhecimento rápido do quadro e encaminhamento oportuno.

Outro aspecto que se destaca é a influência das condições territoriais sobre a assistência. As distâncias entre as comunidades e os serviços de referência, o transporte predominantemente fluvial e a disponibilidade limitada de recursos podem interferir no tempo de atendimento. Dessa forma, mesmo quando a equipe consegue reconhecer um possível caso de meningite, o deslocamento até um serviço com capacidade diagnóstica e terapêutica adequada pode representar uma dificuldade adicional.

Os estudos também permitem observar que a atenção primária possui papel importante no enfrentamento das doenças infecciosas nas comunidades ribeirinhas. A atuação da enfermagem nesse nível de atenção pode favorecer a identificação de alterações no estado de saúde, a orientação dos usuários e a continuidade do cuidado. Entretanto, a assistência não depende exclusivamente da atuação individual do profissional, sendo necessária uma rede organizada e capaz de garantir o encaminhamento e o atendimento dos casos que demandem maior complexidade.

Nesse sentido, os resultados encontrados indicam que o enfrentamento da meningite bacteriana em populações ribeirinhas envolve uma combinação de ações de prevenção, reconhecimento dos sinais e sintomas, assistência inicial, encaminhamento e continuidade do cuidado. As particularidades do território amazônico tornam necessário que a enfermagem desenvolva sua atuação considerando não apenas os aspectos clínicos da doença, mas também as condições sociais, geográficas e de acesso aos serviços de saúde. Assim, os estudos selecionados apontam para a necessidade de uma assistência organizada de acordo com a realidade ribeirinha e integrada aos diferentes níveis da rede de atenção à saúde.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização desta revisão permitiu sistematizar o conhecimento sobre a atuação da enfermagem no combate à meningite bacteriana no contexto amazônico. As evidências demonstram que, embora a enfermagem desempenhe um papel vital na prevenção e no manejo clínico inicial, o sucesso dessas intervenções é condicionado pelas limitações impostas pelo território. A dificuldade de acesso e a precariedade estrutural dos serviços de saúde ribeirinhos configuram-se como os principais fatores que elevam a vulnerabilidade dessas populações. 

Conclui-se que o fortalecimento da assistência de enfermagem em áreas ribeirinhas depende não apenas de capacitação técnica, mas de investimentos em logística e infraestrutura que considerem as particularidades da região. Faz-se necessário ampliar a produção científica sobre este tema para que as políticas públicas possam ser desenhadas de forma mais assertiva, garantindo equidade e segurança no atendimento de saúde às populações mais remotas da Amazônia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Fametro Campus Manaus. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superiorde Enfermagem do Instituto Fametro Campus Manaus. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Fametro Campus Manaus. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Fametro Campus Manaus. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail