ATENUAÇÃO E ÊNFASE NA CONCLUSÃO DE ARTIGOS CIENTÍFICOS DA ÁREA DE SOCIOLINGUÍSTICA: UMA ANÁLISE DOS MARCADORES METADISCURSIVOS

MITIGATION AND EMPHASIS IN THE CONCLUSIONS OF SOCIOLINGUISTICS RESEARCH ARTICLES: AN ANALYSIS OF METADISCURSIVE MARKERS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786073738

RESUMO
Este artigo investiga o uso de marcadores metadiscursivos de atenuação e ênfase nas seções de conclusão de cinco artigos científicos da área de Sociolinguística, com base na tipologia de Hyland (2000). O objetivo é compreender como esses recursos discursivos operam na construção da voz autoral e na negociação de sentidos entre autor e leitor. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e descritivo-interpretativa, analisando artigos publicados entre 2023 e 2024 na revista Linguística. Foram identificadas 24 ocorrências, das quais 79,17% correspondem a atenuadores e 20,83% a enfatizadores, assimetria estatisticamente significativa (p ≈ 0,007) e compatível com a natureza interpretativa e não categórica da Sociolinguística. Observou-se que os autores utilizam atenuadores para sugerir hipóteses, reconhecer limites e projetar desdobramentos, enquanto enfatizadores são empregados para consolidar achados empíricos ou reforçar contribuições teóricas. Conclui-se que, nos artigos analisados, esses marcadores cumprem funções fundamentais para a argumentação científica em Sociolinguística, revelando uma postura discursiva que equilibra cautela interpretativa e afirmação analítica.
Palavras-chave: Metadiscurso interpessoal; Atenuadores e enfatizadores; Escrita acadêmica; Sociolinguística.

ABSTRACT
This article investigates the use of hedges and boosters in the concluding sections of five research articles in Sociolinguistics, drawing on Hyland’s (2000) taxonomy. It aims to understand how these resources operate in the construction of authorial voice and in the negotiation of meaning between writer and reader. The study adopts a qualitative, descriptive and interpretive approach and examines articles published between 2023 and 2024 in the journal Linguística. Twenty-four occurrences were identified, of which 79.17% are hedges and 20.83% boosters, a statistically significant asymmetry (p ≈ 007). Hedges cluster in the moves through which writers acknowledge limitations and project further research, whereas boosters consolidate empirical findings and underscore theoretical contributions. The findings indicate that such markers perform central functions in scientific argumentation, disclosing a discursive stance that combines interpretive caution and analytical assertion.
Keywords: Interpersonal metadiscourse; Hedges and boosters; Academic writing; Sociolinguistics.

1. INTRODUÇÃO

As pesquisas em torno dos gêneros acadêmicos vêm ganhando destaque dentro da comunidade acadêmica e Hyland (2009) aponta que o artigo acadêmico é o gênero de maior destaque na propagação do saber científico. A partir disso, muitos estudos vêm sendo desenvolvidos considerando a análise de partes constitutivas do artigo científico ou diferentes seções. Considerando os modos de elaboração e as marcas linguísticas deixadas na superfície do texto, esta pesquisa se propõe a analisar a presença de marcadores metadiscursivos nas conclusões de artigos de sociolinguística. Os marcadores metadiscursivos são considerados indicadores de construção textual e são fundamentais para apontar as relações interacionais ativadas em um intercâmbio comunicativo dentro do texto. Assim, a construção textual se estabelece como uma forma de ação instaurada visando a interação com os leitores (Ferreira; Dias, 2005).

Diante disso, considerando que a sociolinguística é uma das áreas de disseminação do conhecimento da linguagem focada nas relações de interação entre os participantes, considerando fatores internos e externos aos fatos linguísticos, buscamos analisar como os marcadores metadiscursivos se apresentam no interior das seções de conclusão em artigos acadêmicos da área de sociolinguística e estabelecem a interação com os leitores. Os artigos analisados foram retirados da Revista Linguística.

Segundo Bernardino (2006), dentro do contexto de produção acadêmica, defende-se que o espaço científico é um espaço de construção e negociação de significados mais do que, simplesmente, de apresentação de dados. Considerando que a produção científica não é feita sem razões específicas pensadas para o seu próprio meio de disseminação, o uso dos marcadores metadiscursivos carrega significados imbricados no fazer científico de uma área. Assim, as diferentes formas de produção escrita no espaço acadêmico não se limitam apenas aos conhecimentos específicos de área, mas também às formas de compartilhar esse conhecimento com a comunidade acadêmica.

Bernardino (2006) aponta que há diferentes formas de construir os conteúdos e conhecimento científico, as diferentes formas de partilhar esse conhecimento e também as diferentes maneiras de se engajar com o leitor, avaliar e modalizar as proposições e diferenças são resultantes de forças sociais e institucionais que carregam em si marcadores discursivos que possibilitam que o texto seja compreendido em um contexto cultural específico.

Com base no que foi ressaltado, geramos algumas perguntas para orientar o desenvolvimento da pesquisa: 1. Como os marcadores metadiscursivos (ênfase e atenuação) se apresentam na seção de conclusão em artigos da área de sociolinguística? 2. Quais dos marcadores metadiscursivos são mais recorrentes nas conclusões?

Para responder a essas questões, analisa-se uma amostra de cinco conclusões de artigos, selecionadas mediante a área do artigo, sociolinguística, utilizando como base para a análise as categorias de metadiscurso interpessoal (hedges e boosters) propostas por Hyland (2000).

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1. Construção de Sentidos do Texto: A Relação Texto-Autor-Leitor

De acordo com Koch e Elias (2011), a forma como se entende a construção de sentido de um texto está diretamente relacionada com o tipo de concepção de língua adotada. No decorrer dos estudos linguísticos, três concepções foram consolidadas. Na primeira a língua é entendida como representação do pensamento, e o foco dessa concepção, em relação a construção de sentido de um texto, está no autor; isto é, para que uma leitura do texto seja proficiente o leitor precisa captar exatamente as ideias, os pensamentos e as intenções de quem escreveu o texto. A segunda concepção entende a língua como estrutura, um mero instrumento de comunicação, de modo que o foco está no texto e na forma como ele é apresentado e organizado. Cabe, então, ao leitor atentar para o material linguístico, apenas ao que está dito, conhecendo os sentidos das palavras e as regras gramaticais.

A terceira concepção, adotada na nossa contemporaneidade, é a concepção interacional (ou dialógica) da língua, nela o foco encontra-se na interação entre leitor, autor e texto, reconhecendo-se a importância desses três elementos para a construção de significados. As autoras acrescentam que:

Nessa perspectiva, o sentido de um texto é construído na interação texto-sujeitos e não algo que preexista a essa interação. A leitura é pois, uma atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos, que se realiza evidentemente com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização, mas requer a mobilização de um vasto conjunto de saberes no interior do evento comunicativo (Koch; Elias, 2011, p. 11).

Desse modo, vários elementos de ordem cognitiva, sociocultural e interacional são considerados, e múltiplos conhecimentos são ativados para a construção do sentido de um texto, um processo que só ocorre a partir da interação entre os sujeitos e a materialidade textual. O leitor, de forma específica, para alcançar uma compreensão plena do texto, precisa ir além do que está explícito, ativando estratégias cognitivas e interacionais que contribuem para esse fim.

Sob a ótica do papel do autor, aspecto intrinsecamente ligado ao conteúdo deste artigo, compete a esse sujeito mobilizar estratégias linguísticas e discursivas para encaminhar o leitor ao sentido desejado. Assim, as escolhas do autor orientam o leitor na compreensão e interpretação do texto, ou seja, deve estar claro ao autor o efeito que suas escolhas lexicais e marcas de polidez, por exemplo, provocam no interlocutor. Nesse sentido, Antunes (2010) afirma que as formas linguísticas usadas no texto estão ali para significar e possibilitar o entendimento entre autor e leitor, de modo que o leitor perceba também as intenções do autor a partir das pistas linguísticas deixadas no texto. O ideal, portanto, é perceber a função de cada escolha e uso no texto. Nessa perspectiva, a leitura é uma atividade complexa, para a qual não basta a mera decodificação do código da língua; é necessário ir adiante do que está materializado, promovendo reflexões, questionamentos e relações com a realidade. Isso se justifica pelo fato de que o texto:

Apresenta espaços em branco e indeterminados; nem todas as relações e conhecimentos estão explícitos. O leitor vai construindo, preenchendo lacunas, relacionando informações internas ao texto com outras que ele mesmo traz. É como se o texto fosse reescrito a cada novo leitor que o lê (Costa; Salces, 2013, p. 43).

Assim, Cintra e Passarelli (2011) ressaltam a importância de o leitor assumir um papel ativo, em que a compreensão textual ocorre por meio da convergência entre as intenções do autor e o repertório prévio do leitor, consolidando o sentido na relação entre o texto e as expectativas de mundo do indivíduo. Logo, a compreensão do texto depende tanto da forma como ele foi escrito (por um autor imbuído de intenções) quanto da forma pela qual será lido (por um leitor que ative seus esquemas mentais).

Portanto, levando em consideração o objetivo deste artigo, que é investigar o uso de marcadores metadiscursivos na escrita acadêmica, podemos relacionar o mapeamento desses recursos ao que foi discutido até este momento sobre a construção de sentido. O escritor de textos acadêmicos, de forma intencional, faz escolhas lexicais e discursivas estratégicas a fim de encaminhar o leitor à compreensão de suas teses e demonstrar a relevância da pesquisa. Para alcançar esse objetivo, mobiliza marcadores metadiscursivos para apresentar e construir seu ponto de vista sobre o conteúdo discutido, ou seja, o autor sinaliza com pistas linguísticas para interagir com o leitor.

É claro que, como já vimos, mesmo diante do esforço do autor para orientar o leitor a uma interpretação, o sentido do texto também depende de o leitor estar atento às pistas e ativá-las para a construção de sentido do texto. Em outras palavras, o texto funciona como um espaço de diálogo entre autor e leitor. Sua interpretabilidade não é garantida apenas pela estrutura gramatical, pela organização lógica e pela marcação de temas, mas é também determinada pela capacidade do leitor de se engajar e processar o conteúdo de forma profunda.

2.2. Metadiscurso no Discurso Acadêmico

O metadiscurso pode ser entendido como um conjunto de marcas linguísticas que auxiliam na compreensão das relações estabelecidas entre os autores e seus próprios textos, bem como entre os autores e seus leitores (Hyland, 2005a). Em obra dedicada ao tema, Hyland (2005a) propõe a divisão desses recursos em dois grandes grupos, os interativos e os interacionais, os quais possibilitam uma análise mais aprofundada da construção da escrita acadêmica, especialmente quando se considera o contexto disciplinar em que esses textos são produzidos.

A noção, contudo, não nasceu com essa configuração. Coube a Vande Kopple (1985) a primeira sistematização do metadiscurso em categorias operacionais, formulada a partir da distinção entre um nível proposicional, responsável pelo conteúdo, e um nível que comenta esse conteúdo e orienta o leitor; a proposta viria a ser refinada por Crismore, Markkanen e Steffensen (1993), que reorganizaram as classes em textuais e interpessoais com base em corpus de textos persuasivos. Da revisão crítica desses modelos resultou o trabalho de Hyland e Tse (2004), no qual se argumenta que toda manifestação metadiscursiva é, em última instância, interpessoal, uma vez que mesmo os recursos de organização textual se destinam a antecipar as necessidades de um leitor projetado, tese que fundamenta a bipartição adotada nesta pesquisa.

Persiste, ainda assim, um problema de delimitação que a literatura reconhece de forma recorrente. Por definir-se funcionalmente, e não por classes formais fechadas, o metadiscurso admite fronteiras móveis: um mesmo item pode operar ora como comentário do autor sobre a proposição, ora como parte do próprio conteúdo proposicional. Ädel (2006), ao propor um modelo reflexivo de base metalinguística, restringe deliberadamente o escopo da categoria para contornar essa indeterminação, ao passo que Hyland (2005a) preserva escopo mais amplo e transfere ao analista o encargo de decidir caso a caso. A consequência metodológica é direta, e a ela se voltará adiante: sem inventário declarado de itens e sem critério explícito de inclusão, contagens obtidas em corpora comparáveis podem divergir de modo apreciável.

De acordo com Hyland (2005a), os recursos interativos estão relacionados à organização do discurso, atuando no modo como o autor estrutura o texto com o objetivo de guiar o leitor e antecipar determinados conhecimentos. Esses mecanismos permitem ao escritor controlar o fluxo de informações e direcionar as interpretações desejadas. Por outro lado, os recursos interacionais dizem respeito à forma como o autor expressa sua presença no texto, revelando sua postura, posicionamento e engajamento com os dados, argumentos e leitores. Considerando suas funções no texto, esses recursos são classificados em duas categorias distintas:

(i) Stance: refere-se à manifestação da voz autoral no texto. Trata-se da forma como o autor se posiciona, expressa suas opiniões, faz julgamentos e demonstra seu grau de comprometimento com o que está sendo dito.
(ii) Engagement: diz respeito à interação com o leitor. Envolve os recursos linguísticos que evidenciam o reconhecimento da presença do leitor no texto e o modo como o autor o envolve e o conduz ao longo dos argumentos e interpretações.

Cada uma dessas dimensões apresenta subdivisões específicas. Neste estudo, opta-se por focar a análise na categoria stance, com ênfase nos recursos conhecidos como hedges e boosters, elementos que possibilitam ao autor modular sua voz no discurso, seja atenuando, seja intensificando suas afirmações.

Os hedges são mecanismos linguísticos que possibilitam ao autor expressar certo grau de incerteza ou moderação, apresentando determinada informação como uma possibilidade ou interpretação, em vez de afirmá-la como um fato incontestável. Termos como might (poderia), perhaps (talvez) e possible (possível) são exemplos comuns desse tipo de estratégia, que contribui para suavizar o discurso. Em contraste, os boosters funcionam como marcadores de certeza, sendo utilizados para afirmar com convicção uma proposição ou ponto de vista. Expressões como must (deve), for sure (com certeza) e without doubt (sem dúvida) ilustram esse tipo de recurso.

Ao investigar um corpus composto por 240 artigos científicos, distribuídos entre oito áreas do conhecimento, Hyland (2005b, 2011) identificou diferenças significativas no uso desses recursos entre os textos das Ciências Humanas e Sociais e os das Ciências Exatas e Biológicas. Tais distinções refletem não apenas as práticas discursivas específicas de cada campo, mas também suas concepções sobre o que constitui conhecimento e pesquisa científica.

Segundo as análises de Hyland (2011), as Ciências Humanas e Sociais tendem a apresentar uma abordagem mais interpretativa, muitas vezes influenciada por contextos socioculturais e pela multiplicidade de leituras possíveis de um mesmo fenômeno. Nesse cenário, torna-se essencial reconhecer outras vozes e promover o diálogo acadêmico, o que se traduz em um uso mais frequente tanto de hedges quanto de boosters. Enquanto os primeiros permitem ao autor adotar uma postura mais cautelosa e aberta a diferentes interpretações, os segundos contribuem para afirmar a relevância e a autoridade de sua argumentação.

Hyland (2011) observa que, nas áreas de Engenharia e nas Ciências Exatas, predomina a ideia de que os dados e os resultados devem ser suficientemente claros para se sustentarem por si mesmos. Essa concepção leva os autores dessas disciplinas a adotarem uma linguagem mais objetiva, evitando posicionamentos interpretativos ou subjetivos. O pesquisador ainda destaca que, nesses campos, há um conhecimento compartilhado mais consolidado entre os membros da comunidade científica, uma vez que geralmente partem de bases teóricas semelhantes e utilizam metodologias próximas ou padronizadas.

Como consequência, há uma menor necessidade de recorrer a estratégias retóricas para justificar o valor ou a relevância do objeto de pesquisa, reduzindo, assim, o uso de marcadores de posicionamento discursivo. Essa característica contribui para a construção de uma escrita mais impessoal e indutiva, na qual o cientista é apresentado como alguém que revela a verdade, e não como um agente que a interpreta ou constrói. Ainda que os hedges e boosters também estejam presentes nesse tipo de produção textual, sua frequência é consideravelmente menor do que nas Ciências Humanas e Sociais, funcionando como forma de limitar a visibilidade do autor e preservar a aparência de neutralidade. A próxima seção expõe os procedimentos de coleta e de análise utilizados neste artigo.

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, descritivo-interpretativa, ancorada nos estudos de Hyland (2000; 2005a; 2005b; 2011) sobre o metadiscurso acadêmico. Fundamenta-se na concepção de que os autores de textos científicos utilizam estratégias linguístico-discursivas não apenas para apresentar proposições, mas também para se posicionar em relação a elas e ao seu público-alvo, construindo, assim, a interação entre autor e leitor por meio de marcas de atenuação e ênfase.

O corpus da pesquisa é composto por cinco artigos acadêmicos publicados entre 2023 e 2024 na revista Linguística, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ, com classificação Qualis A1 na área de Linguística. Os critérios de seleção consideraram: (a) textos com foco temático em estudos de base sociolinguística; (b) presença de seção explicitamente intitulada "Conclusão", "Considerações finais".

A análise centrou-se exclusivamente nas seções conclusivas dos artigos, por entender que esse espaço textual concentra a reafirmação de resultados e a negociação final com o leitor, cenário ideal para a manifestação explícita de marcas metadiscursivas. O aparato teórico-metodológico adotado baseia-se na tipologia de Hyland (2000), os marcadores de ênfase (boosters) e de atenuação (hedges) são o foco da investigação.

Adotou-se, na identificação dos itens, critério funcional restrito: computaram-se como metadiscurso interacional apenas as unidades que modulam o grau de comprometimento do autor com a proposição, seja atenuando-o, seja reforçando-o. Seguiu-se, nesse ponto, a orientação restritiva de Ädel (2006) e a ressalva de Hyland e Tse (2004) quanto à porosidade da categoria. Ficaram de fora, por conseguinte, os recursos interativos, transições e glosas de código, os marcadores atitudinais, que exprimem julgamento de valor e não certeza, e os predicados de conteúdo proposicional. O inventário de partida corresponde às listas de itens de dúvida e de certeza reunidas por Hyland (2000), adaptadas ao português nos casos em que a correspondência lexical não é direta.

As ocorrências foram organizadas em quadros, por artigo, com colunas que indiquem: (a) nome atribuído e numeração; (b) marcador segundo Hyland e sua posição no texto; (c) seu quantitativo.

A partir do corpus selecionado foi realizado, previamente, um estudo piloto de análise dos textos. Em seguida, formulou-se um modelo de quadro em que se mostrava o quantitativo de parágrafos e palavras presentes no corpus selecionado, depois disso, iniciou-se a análise com a presença de quadro para cada artigo selecionado com os marcadores e sua posição (parágrafo) no texto. Por fim, elaborou-se um quadro com a frequência dos marcadores e sua porcentagem nos artigos analisados para mostrar os resultados obtidos.

Em seguida, realizou-se a análise dos resultados, que permitiu interpretar e discutir os itens metadiscursivos estudados e sua variação no corpus analisado.

Os textos do corpus foram codificados para facilitar sua identificação. Cada conclusão do artigo de Sociolinguística (CAS) do corpus foi identificada com um código alfanumérico, conforme exemplo:

CAS - 1: Variação lexical: fatores que influenciam a variação a partir da análise de atividades em livros didáticos. Autor: LIMA, C. A, NEVES, H. SANTOS. R. L. A. Ano: 2024.

4. ANÁLISE DOS DADOS

Para realizar a análise dos componentes metadiscursivos na escrita acadêmica na área de Sociolinguística, observaram-se as ocorrências de itens metadiscursivos. Uma vez determinado que cada item coletado se qualificava como metadiscurso ou cumpria essa função dentro do discurso, foi classificado em uma das duas categorias selecionadas para posterior análise.

A fim de identificar os recursos metadiscursivos e analisar os casos detalhadamente, apresenta-se a seguir um quadro referente à extensão da amostra selecionada para o presente estudo, composta por cinco conclusões de artigos do corpus.

Quadro 1. Extensão de cada texto que compõe o corpus

Conclusões

Número de parágrafos

Total de palavras

CAS-1

4

213

CAS-2

2

287

CAS-3

4

542

CAS-4

3

297

CAS-5

4

342

Total

17

1.681

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

As etapas do processo de análise ocorreram da seguinte forma: primeiramente, foi realizada a coleta dos artigos científicos e, em seguida, a demarcação da seção de conclusão. Foi realizada a elaboração de quadros, bem como a identificação e tabulação manual dos elementos metadiscursivos em cada texto com a frequência dos itens metadiscursivos por categoria. Finalmente, as frequências foram tabuladas em planilha eletrônica, na qual se calcularam os totais absolutos, os percentuais e os índices normalizados por mil palavras.

Para identificar os itens metadiscursivos que representam as categorias analisadas, cada um dos artigos foi examinado separadamente. As palavras ou expressões metadiscursivas encontradas nos textos foram identificadas e analisadas caso a caso, manualmente, com base nas funções que desempenham no discurso.

Foi feita uma listagem das ocorrências dos itens metadiscursivos encontrados em cada uma das cinco conclusões de artigos científicos. Como exemplo, podemos ilustrar com os seguintes quadros e seus respectivos trechos de suas conclusões com os marcadores de atenuação (destaque azul) e ênfase (destaque amarelo).

Quadro 2. Marcadores metadiscursivos em CAS-1

CAS-1: Variação lexical: fatores que influenciam a variação a partir da análise de atividades em livros didáticos. Autor: LIMA, C. A, NEVES, H. SANTOS. R. L. A. Ano: 2024.

METADISCURSO INTERPESSOAL

Total de itens

Atenuadores

tendência (par.2)
poderia (par.3)

2

Enfatizadores

enfatiza (par. 2)
necessita (par.4)

2

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

A seguir trechos da conclusão do corpus onde se encontram os marcadores metadiscursivos:

Parágrafo 2: Essa observação enfatiza a relação da variação lexical com os aspectos voltados aos gêneros textuais e às demandas sociais e espaços em que eles circulam. Além disso, há uma tendência nas atividades dos LD analisados em utilizar exemplos com foco nos aspectos culturais que estão interligados diretamente às causas e características sociais. Diferentemente, o fator de variação regional/geográfico tem seu espaço, porém mais reduzido.

Parágrafo 3: Observamos que, na análise realizada, os LD entregam em suas páginas um conteúdo diversificado e que busca contemplar todos os espaços possíveis para o estudo do léxico. Apesar de em alguns momentos os LD não desenvolverem a atividade de uma forma mais ampla, que poderia contemplar outras possibilidades de estudo, em outros momentos, essa lacuna é preenchida.

Parágrafo 4: Esperamos que nosso trabalho contribua de forma significativa para o aprimoramento das abordagens feitas em livros didáticos acerca do estudo da variação lexical, de forma que o léxico seja entendido como algo que necessita ser visto em um contexto e nas suas formas variadas.

Quadro 3. Marcadores metadiscursivos em CAS-2

CAS-2:Vê se lê este artigo”: o surgimento de uma construção idiomática com vê/veja se s no português brasileiro. Autor: ALVES. D.O, PINHEIRO. D.O.R, OLIVEIRA. D.L Ano: 2023.

METADISCURSO INTERPESSOAL

Total de itens

Atenuadores

possíveis (par.2)
possível (par.2)

2

Enfatizadores

 

0

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

Parágrafo 2: Este estudo, porém, é apenas uma porta de entrada e deixa muitos caminhos a serem explorados. Um dos possíveis desdobramentos da pesquisa, dada a natureza inegavelmente intersubjetiva da construção em foco, é a análise de sua trajetória diacrônica à luz do tema da (inter)subjetividade (LANGACKER, 1991; TRAUGOTT; DASHER, 2002; VERHAGEN, 2005; TANTUCCI, 2020; 2021), entendida como uma dimensão da linguagem humana em que o significado reside no gerenciamento mútuo de ações conjuntas. Mais especificamente, um possível desdobramento desta investigação é uma avaliação empírica de duas propostas complementares presentes na literatura sobre mudança linguística: a proposta de Traugott e Dasher (2002), para quem a mudança ocorre no sentido do significado mais objetivo para o significado mais (inter)subjetivo; e a de Tantucci (2020; 2021), segundo a qual a mudança acontece no sentido da intersubjetividade imediata (baseada na relação entre o falante e interlocutores específicos presentes na situação comunicativa) para a intersubjetividade estendida (baseada na relação entre o falante e sujeitos de consciência difusos, não necessariamente presentes na situação comunicativa).

Quadro 4. Marcadores metadiscursivos em CAS-3

CAS-3: Eu tinha trago um cigarro antes que tivesse chego em casa”: um estudo sobre a emergência de novas formas de particípio no PB. Autor: MELO. M.A.S.L, DEUS. D.S. Ano: 2024.

METADISCURSO INTERPESSOAL

Total de itens

Atenuadores

podem (par.2)
pode estar (par.3)
pode (par.3)
parece (par.3);
provavelmente (par.3)
parece (par.4)

6

Enfatizadores

de fato (par.3)

1

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

Parágrafo 2: Os resultados do experimento de produção permitiram observar que as formas inovadoras trago e chego são produzidas por falantes universitários que passaram um período regular de escolarização, pressupondo a exposição desses participantes às formas canônicas do particípio - trazido e chegado, que por algum motivo não estão centralizadas em suas redes de conexões. Dessa forma, é possível depreender que há um processo de propagação dessas formas inovadores [sic] entre estudantes universitários, em função, dentro da visão dos Modelos de Exemplares, da ampliação da rede de conexões: as formas verbais participiais inovadoras [ˈtɾaɡʊ] trago e [ˈʃegʊ] chego no PB podem estar associadas a feixe de exemplares mais robustos de formas participiais irregulares – [ˈpeɡʊ] pego, [ˈpagʊ] pago – em razão da similaridade fonética (consoante oclusiva, velar, sonora) e, tal como as formas participais pego e pago, já serem formas existentes na língua.

Parágrafo 3: Os resultados do experimento de avaliação permitiram observar que, diferentemente das afirmações dos trabalhos anteriores sobre a variável, parece não haver uma preferência pelas formas irregulares do particípio. De fato, o que se observa é uma distribuição bem semelhante no que se refere à preferência dos falantes por formas regulares e irregulares. Provavelmente, a propagação de formas inovadoras de particípio pode estar ganhando força devido ao fato de essas formas não serem tão estigmatizadas por falantes com escolarização regular, sugerindo uma mudança de avaliação que pode ajudar a impulsionar a adoção de formas como trago e chego já atestadas em estudos anteriores, bem como a emergência de novas formas.

Parágrafo 4: … A aplicação somente a outras faixas etárias possibilitaria observarmos se há um processo de mudança em andamento. Também vemos a necessidade de incorporarmos novos verbos, pois em coletas aleatórias, outras formas participais puderam ser observadas, tais como: “ainda bem que fechei com o pedreiro anterior, pois o novo tinha peço um valor muito alto para concluir a obra”. Parece que a rede de particípios irregulares está se ampliando para outras formas de 1ª pessoa do singular (presente do indicativo) que não possuam a consoante [ɡ].

Quadro 5. Marcadores metadiscursivos em CAS-4

CAS-4: Produção e processamento de variantes: o caso dos pronomes acusativos de terceira pessoa em português brasileiro. Autor: PEREIRA. R, SILVA. M, ROSA. C. Ano: 2024.

METADISCURSO INTERPESSOAL

Total de itens

Atenuadores

pode trazer (par.1)
poderão (par.2)
deverá (par.2)
poderão (par.3)
o que sugere (par.3)

5

Enfatizadores

 

0

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

Parágrafo 1: A união de diferentes metodologias psicolinguísticas para o estudo da variação linguística traz diversas vantagens para a compreensão de certos fenómenos. No caso dos PO3 no PB, pelo facto de serem alvo do ensino escolar, essa união pode trazer dados importantes sobre o efeito cognitivo da aquisição por via escolar no conhecimento gramatical dos falantes, bem como trazer pistas sobre os processos que atuam na seleção de uma ou outra variante.

Parágrafo 2: Em suma, os resultados das tarefas de produção parecem apontar para uma efetiva aquisição dos PO3C por meio da escolarização (o que, aliás, indicará que as propriedades universais da morfologia ainda estão disponíveis para serem adquiridas aquando do início do ensino desses pronomes); a preferência por uma ou outra variante deverá ser mais uma questão de desempenho estimulada pela adequação social e contextual do que de competência (cf. Chomsky, 1981). Importantemente, estes resultados também sugerem que, em potenciais estudos que comparem, por exemplo, o desempenho de falantes nativos do PB a aprendentes do PB língua segunda por meio de tarefas que permitam um alto grau de monitorização, vieses poderão ocorrer caso tais aprendentes não sejam (ainda) sensíveis às nuances sociolinguísticas que permeiam o conhecimento dos nativos escolarizados.

Parágrafo 3: Por outro lado, ao analisarem-se os TR no processamento de frases com esses dois pronomes, não se observaram diferenças estatisticamente significativas nessa medida, o que sugere que fatores como o maior uso dos PO3C na tarefa anterior e uma suposta inibição dos PO3F poderão ter interferido nos TR, embora existam na literatura lacunas relativamente aos processos cognitivos envolvidos no processamento de variantes. Logo, ainda que os resultados cá obtidos apontem para determinadas direções, somente a continuidade nos estudos que aliem metodologias psicolinguísticas e sociolinguísticas variadas poderão trazer luz às dúvidas que permanecem e às outras que hão de surgir.

Quadro 6. Marcadores metadiscursivos em CAS-5

CAS-5: Avaliações sociolinguísticas acerca do uso de tu e você na variedade maranhense do português. Autor: LOPES. J.V.C, SANTOS. W.S. Ano: 2024.

METADISCURSO INTERPESSOAL

Total de itens

Atenuadores

minimamente (par.2)
sugerindo que (par.3)
parecem (par.4)
alguma medida (par.4)

4

Enfatizadores

evidenciou (par.2)
evidenciaram (par.3)

2

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

Parágrafo 2: Resumidamente, a análise das avaliações sociolinguísticas evidenciou que ludovicenses (Santos, 2015) e bacabalenses (Lopes, 2019) se diferenciam no que diz respeito aos tipos de metacomentários produzidos. Os ludovicenses (Santos, 2015), por um lado, identificam-se como falantes de um bom português e, espontaneamente, apresentam metacomentários sobre o discurso que trata sobre a supervalorização do português maranhense e, em alguma medida, apontam o pronome “tu” como uma marca linguística que justificaria esse discurso, principalmente, em São Luís, ao passo que o pronome “você” recebe, ainda que minimamente, uma avaliação negativa entre alguns ludovicenses.

Parágrafo 3: Por outro lado, as novas entrevistas gravadas com bacabalenses evidenciaram que, ao serem questionados diretamente sobre esse discurso e sobre a utilização do pronome “tu”, a maior parte dos bacabalenses teceu metacomentários positivos em relação à variedade maranhense, assim como os ludovicenses, sugerindo que os bacabalenses também acreditam que o maranhense fala a melhor variedade do português brasileiro. As avaliações em torno do uso do pronome “tu” mostram-no como uma marca linguística comum na variedade bacabalense, ainda que prevaleçam avaliações positivas do uso do pronome “você”. Esses resultados indicam a existência de uma divergência em relação à avaliação do uso do pronome você entre ludovicenses e bacabalenses.

Parágrafo 4: Por fim, a análise dos metacomentários dos informantes ludovicenses e bacabalenses realizada neste trabalho contribuiu, em alguma medida, para compreender o comportamento avaliativo explícito (Labov, 2008 [1972]; Guy, 2012) desses falantes em relação a aspectos da variedade maranhense, como a supervalorização e o uso do pronome tu. Esse resultado possibilita ampliar a descrição sociolinguística do português maranhense, ao evidenciar como os maranhenses percebem e avaliam sua própria variedade. De maneira geral, observa-se que as avaliações sociolinguísticas dos informantes ludovicenses e bacabalenses parecem endossar o discurso de superavaliação do português falado no Maranhão.

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Com o fim de apresentar os resultados referidos à análise das conclusões de artigos da área da sociolinguística, chegamos aos seguintes dados apresentados no quadro 7:

Quadro 7. Itens metadiscursivos em 5 artigos

MARCADOR METADISCURSIVO INTERPESSOAL

 

 

 

Frequência

Porcentagem

Atenuadores

19

79,17%

Enfatizadores

5

20,83%

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

Partindo desses dados, apresenta-se, a seguir, explanação detalhada de cada um dos 5 artigos analisados, a fim de compreendermos as possíveis causas que justifiquem as ocorrências dos marcadores metadiscursivos dentro das conclusões dos artigos científicos de sociolinguística.

No CAS-1, a atenuação, representada por termos como “tendência” e “poderia”, aparece como um recurso que suaviza as proposições apresentadas, permitindo ao autor assumir uma postura mais cautelosa diante das interpretações dos dados. Ao utilizar a palavra “tendência”, por exemplo, no trecho “há uma tendência nas atividades dos LD analisados em utilizar exemplos com foco nos aspectos culturais...”, o autor evita generalizações absolutas e indica que o comportamento identificado não é necessariamente recorrente em todos os casos. Da mesma forma, o uso do verbo “poderia”, como em “que poderia contemplar outras possibilidades de estudo”, revela uma abertura interpretativa, sugerindo possibilidades sem afirmar categoricamente a limitação dos livros didáticos. Esses elementos funcionam como hedges, ou seja, recursos de atenuação que reduzem o grau de comprometimento do autor com a totalidade da proposição, conforme propõe Hyland (2005a).

Entre os enfatizadores permanecem “enfatiza” e “necessita”, que reforçam a autoridade dos autores sobre os dados apresentados. No trecho “essa observação enfatiza a relação da variação lexical com os aspectos voltados aos gêneros textuais...”, o verbo opera como intensificador e atribui destaque à observação feita; já “necessita”, em “o léxico [...] necessita ser visto em um contexto”, introduz uma perspectiva de certeza e sustenta, com força argumentativa, que esse ensino deve ocorrer em contexto variado e significativo. Descartaram-se, por não modularem o comprometimento com a proposição, o adjunto de modo “diretamente” e o verbo lexical “entregam”.

No CAS-2, os atenuadores “possível” e “possíveis” funcionam como estratégias linguísticas que reduzem o grau de certeza nas proposições apresentadas. Ao empregar expressões como “um dos possíveis desdobramentos da pesquisa” e “um possível desdobramento desta investigação”, os autores sinalizam que as interpretações e projeções levantadas não são definitivas, mas sim especulações fundamentadas em indícios observados.

No CAS-2, por sua vez, não se registrou nenhum enfatizador segundo os critérios adotados. O advérbio “mais especificamente” cumpre função de glosa de código, isto é, integra o metadiscurso interativo, ao passo que “contribuir teoricamente” aparece subordinado a “buscou-se”, construção que atenua, em vez de reforçar, o comprometimento dos autores. A ausência de reforçadores numa conclusão inteiramente voltada a desdobramentos futuros constitui, ela própria, dado a reter.

Já no CAS-3, os atenuadores “podem”, “pode estar”, “parece” e “provavelmente” funcionam como estratégias linguísticas que reduzem o grau de comprometimento com as afirmações. Por exemplo, ao afirmar que “as formas verbais participais inovadoras podem estar associadas a feixe de exemplares mais robustos”, o autor suaviza a proposição, reconhecendo que a explicação sugerida ainda está no campo das inferências. Do mesmo modo, o uso de “parece” em “parece não haver uma preferência pelas formas irregulares do particípio” reforça a cautela analítica diante de resultados que contrastam com estudos anteriores, evitando contrapor-se diretamente a eles.

Em contraste, o único enfatizador identificado no CAS-3 é “de fato”, que funciona como intensificador e consolida a interpretação defendida como confiável e relevante. Excluíram-se dessa categoria “permitiram”, cuja construção “permitiram observar” reporta o alcance do experimento sem reforçar a asserção, e “diferentemente”, marca de contraste filiada aos recursos interativos.

Do mesmo modo, no CAS-4 os atenuadores identificados, “pode trazer”, “poderão”, com duas ocorrências, e “o que sugere”, mitigam o grau de certeza das proposições e expressam interpretações de maneira prudente. O emprego de “pode trazer” e “poderão” aponta para a possibilidade, e não para a certeza, de que certos resultados venham a ocorrer em estudos futuros, ao passo que “o que sugere” permite apresentar uma inferência sem lhe atribuir valor absoluto. A esses itens acrescenta-se “deverá”, inicialmente computado entre os enfatizadores: em “deverá ser mais uma questão de desempenho”, o auxiliar exprime probabilidade epistêmica. Quanto a “importantemente”, o item foi reclassificado como marcador atitudinal, uma vez que introduz julgamento de valor, e não intensificação da certeza; o CAS-4 permanece, assim, sem enfatizadores.

Por fim, o CAS-5 tem por atenuadores “alguma medida”, “minimamente”, “parecem” e “sugerindo que”. O emprego de “ainda que minimamente”, ao referir avaliações negativas do pronome “você” entre ludovicenses, suaviza a crítica e evita generalizações, reconhecendo que tais percepções não são homogêneas. Do mesmo modo, “sugerindo que os bacabalenses também acreditam...” indica inferência cautelosa, que respeita a possibilidade de outras leituras dos dados. Foram desconsiderados “por outro lado” e “ainda que”, que operam como transições, e “possibilita”, predicado factual desprovido de modulação epistêmica.

Já os enfatizadores “evidenciou” e “evidenciaram” reforçam a validade dos achados e destacam pontos centrais da análise, apresentando resultados de maneira direta e com convicção, o que confere ao texto tom de autoridade analítica. Excluiu-se “principalmente”, focalizador de escopo, e também “contribuiu”, que ocorre em “contribuiu, em alguma medida”: nesse ambiente, o atenuador incide sobre o próprio verbo e neutraliza qualquer efeito de reforço.

Portanto, o uso acentuadamente mais frequente de atenuadores indica a preocupação em não absolutizar as conclusões, traço da escrita acadêmica que lida com fenômenos sociais e linguísticos marcados pela variação. A presença, ainda que reduzida, de enfatizadores mostra o esforço dos autores em destacar contribuições da pesquisa e assegurar sua relevância no campo da Sociolinguística. A articulação entre atenuação e ênfase, tal como se configura nos textos examinados, mostra-se fundamental para a construção da credibilidade discursiva e para o engajamento com a comunidade científica.

Dada a variação de extensão entre as conclusões que compõem o corpus, que oscilam entre 213 e 542 palavras, as frequências brutas foram normalizadas por mil palavras. Os índices assim obtidos relativizam o peso do CAS-3: embora concentre sete ocorrências, número superior ao de três dos demais textos, sua densidade metadiscursiva, de 12,9 por mil palavras, situa-se entre as mais baixas da amostra. Na direção oposta despontam CAS-1 e CAS-5, com 18,8 e 17,5 ocorrências por mil palavras, ao passo que a média do corpus se fixa em 14,3. A amplitude registrada, de 7,0 a 18,8, recomenda cautela: variação dessa ordem, em amostra de cinco textos, dificilmente se explica por propriedades do campo disciplinar.

Convém, ainda, dimensionar a assimetria encontrada e explicitar sua dependência dos critérios de codificação. Sob o inventário restrito aqui adotado, dezenove atenuadores contra cinco enfatizadores produzem diferença que um teste binomial bilateral acusa como significativa (p ≈ 0,007). Caso se admitissem na contagem os itens de fronteira, transições, glosas de código, marcadores atitudinais e verbos lexicais de conteúdo proposicional, os totais subiriam para vinte e quinze, e a mesma prova estatística já não distinguiria o resultado do acaso (p ≈ 0,50). A constatação não enfraquece o achado: delimita-lhe o alcance e reforça a exigência, recorrente na literatura sobre metadiscurso (Hyland; Tse, 2004; Ädel, 2006), de que o inventário de itens seja declarado antes da análise.

No que concerne à segunda pergunta que orientou a investigação, o perfil lexical dos marcadores revela concentração acentuada em poucos itens. Das dezenove ocorrências de atenuação registradas, sete recobrem formas flexionadas de poder, poderia, podem, pode, pode estar, pode trazer e poderão, esta última duas vezes, e outras três, formas de parecer. Dois verbos modais respondem, assim, por mais da metade da atenuação identificada no corpus, o que aproxima os dados aqui obtidos do que a literatura vem descrevendo a respeito da modalidade epistêmica na prosa acadêmica em português. Entre os enfatizadores não se observa concentração equivalente: os cinco itens remanescentes distribuem-se por três textos, sem que nenhum lema ultrapasse duas ocorrências. A atenuação, em suma, dispõe de repertório gramaticalizado e estável; a ênfase, de repertório lexical e disperso.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise realizada neste trabalho demonstrou que nas seções de conclusão dos cinco artigos acadêmicos da área de Sociolinguística que foram examinados, o uso de marcadores metadiscursivos de atenuação e ênfase não é apenas recorrente, mas também altamente significativo na construção argumentativa e interacional do discurso acadêmico. Observou-se que tais recursos não funcionam como adereços estilísticos, mas como estratégias centrais para o posicionamento do autor diante da comunidade científica e da complexidade dos fenômenos analisados.

A predominância dos atenuadores (79,17%) sobre os enfatizadores (20,83%), assimetria que um teste binomial bilateral confirma como estatisticamente significativa (p ≈ 0,007), evidencia tendência própria da escrita sociolinguística: a valorização da prudência interpretativa, do reconhecimento da variação e da abertura ao diálogo com múltiplas possibilidades de leitura. Essa postura é coerente com os pressupostos epistemológicos do campo, que se apoia na observação de dados empíricos de natureza variável, condicionados por fatores sociais, históricos e individuais. Termos como “pode”, “parece”, “provavelmente” e “em alguma medida” ilustram essa cautela, como se observa no CAS-3, quando os autores discutem a propagação de formas participiais inovadoras, ou no CAS-5, ao tratarem das avaliações divergentes entre ludovicenses e bacabalenses.

Os enfatizadores remanescentes, “evidenciou”, “evidenciaram”, “de fato”, “enfatiza” e “necessita”, revelam que os autores também buscam reforçar a relevância de suas conclusões e de seus achados empíricos. No CAS-1, por exemplo, a afirmação de que o léxico “necessita ser visto em um contexto” marca posicionamento firme sobre a abordagem didática da variação lexical; no CAS-3, “de fato” consolida como confiável a distribuição observada entre formas regulares e irregulares do particípio.

As conclusões analisadas também revelam que os autores frequentemente utilizam os atenuadores ao sugerirem desdobramentos possíveis, hipóteses interpretativas ou limitações metodológicas, como no CAS-2, ao se referirem à intersubjetividade como eixo de análise futura, e recorrem aos enfatizadores para destacar contribuições concretas, reafirmar dados obtidos e posicionar o estudo dentro do debate sociolinguístico mais amplo.

Uma ressalva de ordem genérica se impõe, contudo, antes que se atribua o comportamento observado a propriedades epistemológicas da Sociolinguística. Conclusões de artigos científicos abrigam, por convenção retórica, os movimentos de reconhecimento de limitações e de projeção de desdobramentos futuros (Swales, 1990), e é justamente neles que se concentram os atenuadores do corpus: as ocorrências de CAS-2, CAS-3 e CAS-4 emergem, sem exceção, em passagens que anunciam pesquisas por fazer ou admitem lacunas do desenho metodológico. Discriminar o que decorre da cultura disciplinar e o que decorre da posição do segmento no artigo exigiria contraste com outra seção, a introdução, por exemplo, ou com conclusões de subáreas distintas, procedimento que fica indicado para investigações posteriores.

Cumpre igualmente reconhecer os limites do desenho adotado. A amostra reúne cinco conclusões e pouco menos de mil e setecentas palavras, extensão que autoriza descrição qualitativa, mas não generalização estatística; e o CAS-4, introduz na amostra um sistema modal cujas particularidades, entre elas o valor epistêmico de deverá, não foram controladas. Nenhuma dessas restrições invalida os padrões descritos, mas todas recomendam que se leiam os resultados como indícios a serem testados em corpus ampliado e disciplinarmente comparado.

Desse modo, os resultados obtidos respondem às perguntas que orientaram esta investigação: os marcadores metadiscursivos se manifestam de maneira funcional e distribuída nas conclusões dos artigos, e seu uso é diretamente condicionado pelas exigências discursivas da Sociolinguística, área que exige tanto a valorização da evidência empírica quanto o reconhecimento da heterogeneidade linguística e interpretativa. Conclui-se, portanto, que hedges e boosters são elementos centrais na construção da voz autoral dos sociolinguistas, pois viabilizam a negociação entre autoridade, cautela, engajamento e abertura a outros elementos essenciais para um campo científico comprometido com a observação da linguagem em uso e em contexto.

Futuros estudos poderão ampliar essa análise para outros gêneros acadêmicos da área, como resenhas, dissertações ou comunicações orais, ou ainda comparar o comportamento metadiscursivo da Sociolinguística com o de outras subáreas dos estudos linguísticos. Tais investigações poderão aprofundar a compreensão sobre como diferentes tradições teóricas modulam a relação entre o autor, o texto e o leitor, por meio da linguagem.

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1 Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Piauí (PPGEL/UFPI). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Piauí (PPGEL/UFPI). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.