ASSISTÊNCIA TÉCNICA CONTINUADA E TECNOLOGIAS DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO: CAMINHOS PARA A AUTONOMIA E O FORTALECIMENTO DA AGRICULTURA QUILOMBOLA NA COMUNIDADE SÃO JOÃO ANTÔNIO GONÇALVES - BA

CONTINUOUS TECHNICAL ASSISTANCE AND COEXISTENCE TECHNOLOGIES WITH THE SEMI-ARID: PATHS TO AUTONOMY AND STRENGTHENING OF QUILOMBOLA AGRICULTURE IN THE SÃO JOÃO ANTÔNIO GONÇALVES COMMUNITY - BA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789804784

RESUMO
A agricultura familiar desempenha papel fundamental no desenvolvimento socioeconômico e na segurança alimentar das populações rurais do Semiárido brasileiro. Nesse contexto, a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) continuada, associada às tecnologias sociais de convivência com o Semiárido e aos princípios da agroecologia, constitui uma estratégia essencial para fortalecer a autonomia produtiva, econômica e social das famílias agricultoras. Esta pesquisa teve como objetivo compreender os resultados percebidos da assistência técnica continuada e das tecnologias sociais na promoção da autonomia de homens e mulheres do Quilombo São João, localizado no município de Antônio Gonçalves, Bahia. A investigação caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, utilizando revisão bibliográfica, pesquisa documental, observação participante e entrevistas semiestruturadas realizadas com agricultores e com um técnico da entidade executora de ATER. Os resultados evidenciam que a assistência técnica continuada contribuiu para o fortalecimento da agricultura familiar por meio da implantação de tecnologias sociais, como cisternas de produção, aviários, quintais produtivos, incentivo ao uso de sementes crioulas e práticas agroecológicas, promovendo maior segurança hídrica, diversificação da produção, melhoria da alimentação, ampliação da renda e valorização dos conhecimentos tradicionais. Entre os principais desafios identificados destacam-se a necessidade de continuidade das políticas públicas de ATER, o acesso à terra e o fortalecimento dos canais de comercialização da produção. Conclui-se que a articulação entre assistência técnica continuada, agroecologia e tecnologias sociais constitui importante instrumento para a promoção do desenvolvimento rural sustentável, da segurança alimentar e da autonomia das famílias quilombolas, reafirmando a importância das políticas públicas voltadas à convivência com o Semiárido.
Palavras-chave: Agricultura familiar; Assistência Técnica e Extensão Rural; Agroecologia; Tecnologias sociais; Convivência com o Semiárido; Comunidade quilombola.

ABSTRACT
Family farming plays a fundamental role in the socioeconomic development and food security of rural populations in the Brazilian Semiarid region. In this context, continuous Technical Assistance and Rural Extension (ATER)—combined with social technologies for living with the Semiarid environment and agroecological principles—constitutes an essential strategy for strengthening the productive, economic, and social autonomy of farming families. This research aimed to understand the perceived outcomes of continuous technical assistance and social technologies in fostering the autonomy of men and women in the São João Quilombo (an Afro-Brazilian community), located in the municipality of Antônio Gonçalves, Bahia. The study is qualitative, exploratory, and descriptive in nature, employing a literature review, document analysis, participant observation, and semi-structured interviews with farmers and a technician from the ATER-implementing agency. The results demonstrate that continuous technical assistance contributed to strengthening family farming through the implementation of social technologies—such as production cisterns, poultry units, and productive home gardens—and by encouraging the use of heirloom seeds and agroecological practices. These measures promoted greater water security, production diversification, improved nutrition, increased income, and the valuing of traditional knowledge. Key challenges identified include the need for the continuity of public ATER policies, access to land, and the strengthening of market channels for produce. The study concludes that the integration of continuous technical assistance, agroecology, and social technologies serves as a vital tool for promoting sustainable rural development, food security, and the autonomy of quilombola families, reaffirming the importance of public policies aimed at living sustainably within the Semiarid region.
Keywords: Family farming; Technical Assistance and Rural Extension; Agroecology; Social technologies; Living with the Semiarid; Quilombola community.

INTRODUÇÃO

O Semiárido brasileiro constitui um território marcado por significativa diversidade ambiental, social, cultural e econômica. Suas condições climáticas, caracterizadas principalmente pela irregularidade temporal e espacial das precipitações, associadas às elevadas temperaturas e taxas de evapotranspiração, impõem desafios às atividades agrícolas e à criação de animais. Nesse contexto, a agricultura familiar desempenha papel relevante na produção de alimentos, na reprodução social das famílias e na manutenção de práticas e conhecimentos construídos historicamente nos territórios.

A perspectiva de convivência com o Semiárido contrapõe-se à concepção histórica de “combate à seca” ao valorizar as potencialidades locais e o desenvolvimento de estratégias adaptadas às condições socioambientais da região. Nessa perspectiva, a agroecologia contribui para a construção de sistemas produtivos diversificados, para a conservação dos recursos naturais e para a articulação entre conhecimentos científicos e saberes tradicionais. As tecnologias sociais, como cisternas de produção, quintais produtivos, barreiros e sementes crioulas, constituem estratégias que podem ampliar as possibilidades de produção e segurança hídrica das famílias agricultoras.

A Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), quando desenvolvida de forma continuada e participativa, pode desempenhar papel importante nesse processo, ao favorecer o diálogo entre conhecimentos, apoiar o planejamento das atividades produtivas e acompanhar a utilização de práticas agroecológicas e tecnologias sociais. Diferentemente de uma assistência pontual, a continuidade do acompanhamento possibilita maior aproximação entre técnicos e agricultores, permitindo identificar dificuldades, avaliar experiências e construir estratégias adequadas às especificidades de cada território.

Essa discussão assume particular importância nas comunidades quilombolas, onde a agricultura está relacionada não apenas à produção e à geração de renda, mas também aos conhecimentos tradicionais, à identidade cultural, à organização comunitária e às formas de relação com o território. Entretanto, essas comunidades enfrentam desafios relacionados ao acesso à água, às tecnologias apropriadas, à comercialização, às políticas públicas e à continuidade das ações de assistência técnica.

É nesse contexto que se insere a Comunidade Quilombola São João, localizada no município de Antônio Gonçalves, Bahia. A agricultura familiar constitui uma importante base das estratégias de produção e reprodução social das famílias, articulando práticas produtivas, conhecimentos tradicionais e recursos disponíveis no território. Ao mesmo tempo, a comunidade vivencia desafios relacionados à produção, à gestão da água, à comercialização e à continuidade das estratégias de convivência com o Semiárido.

Diante dessa realidade, torna-se relevante compreender não apenas a presença das tecnologias sociais e das ações de ATER, mas também como os próprios agricultores e agricultoras percebem suas contribuições, possibilidades e limitações. A análise dessa experiência permite discutir a ATER para além da perspectiva de transferência de tecnologias, considerando-a como uma prática que pode favorecer processos de construção coletiva de conhecimentos e ampliação das capacidades produtivas e organizativas das famílias.

Assim, este estudo teve como objetivo compreender os resultados percebidos e os desafios da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) continuada e das tecnologias sociais de convivência com o Semiárido na promoção da autonomia produtiva e econômica de homens e mulheres da Comunidade Quilombola São João, em Antônio Gonçalves, Bahia.

REFERENCIAL TEÓRICO

ATER, construção participativa do conhecimento e autonomia

Historicamente, a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) esteve associada a uma perspectiva difusionista, baseada na transferência de tecnologias e na disseminação de conhecimentos técnicos destinados ao aumento da produtividade agrícola. Nesse modelo, os agricultores eram predominantemente concebidos como receptores das orientações dos extensionistas, enquanto o conhecimento científico ocupava posição central nos processos de intervenção rural (MANUAL DA EXTENSÃO RURAL, 2023).

A partir dos anos 2000, observa-se uma reorientação das políticas públicas de desenvolvimento rural, com maior reconhecimento da diversidade dos sujeitos do campo e das especificidades da agricultura familiar, dos povos e comunidades tradicionais e de outros grupos historicamente marginalizados. Nesse processo, a Lei nº 12.188/2010, que instituiu a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), consolidou princípios relacionados ao desenvolvimento rural sustentável, à agroecologia e à utilização de metodologias participativas.

Nessa perspectiva, a ATER passa a ser compreendida não apenas como instrumento de difusão tecnológica, mas como processo educativo fundamentado no diálogo e na construção coletiva do conhecimento. O trabalho extensionista envolve a articulação entre conhecimentos técnico científicos e saberes produzidos pelas próprias comunidades, reconhecendo os agricultores como sujeitos ativos na identificação de problemas e na construção de estratégias para enfrentá-los. Essa abordagem amplia a compreensão da ATER como instrumento de fortalecimento da autonomia, da organização social e da capacidade de decisão das famílias agricultoras.

A construção participativa do conhecimento assume especial relevância no Semiárido, onde os agricultores desenvolveram, historicamente, estratégias de manejo da terra, da água, das sementes e da biodiversidade adaptadas às condições socioambientais locais. Assim, a valorização dos saberes tradicionais não significa rejeitar o conhecimento técnico, mas estabelecer relações de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, favorecendo processos de aprendizagem mútua e de construção de soluções contextualizadas.

Convivência com o Semiárido e tecnologias sociais

A perspectiva da convivência com o Semiárido contrapõe-se à lógica histórica de “combate à seca”, ao reconhecer o Semiárido como território de possibilidades e não apenas como espaço marcado pela escassez. Essa concepção valoriza as características ambientais, sociais e culturais da região e propõe estratégias produtivas compatíveis com seus ciclos naturais e condições climáticas (ASA BRASIL, 2015).

As tecnologias sociais constituem importantes estratégias para essa convivência, especialmente quando articuladas aos conhecimentos locais, à organização comunitária e ao acompanhamento técnico. Cisternas de captação e armazenamento de água, quintais produtivos, barreiros, sementes crioulas, sistemas agroecológicos e outras práticas de manejo constituem alternativas voltadas à segurança hídrica, à produção de alimentos e ao fortalecimento da autonomia das famílias agricultoras (ASA BRASIL, 2014).

Nesse contexto, a ATER continuada assume papel relevante ao acompanhar os processos produtivos de forma permanente, possibilitando a experimentação, a adaptação e a apropriação das tecnologias pelas famílias. Entretanto, a adoção de uma tecnologia, isoladamente, não garante autonomia. Seus resultados dependem das condições de acesso aos recursos, da capacidade de manutenção, da organização comunitária, da continuidade do acompanhamento técnico e da articulação com políticas públicas.

No contexto baiano, o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável na Região Semiárida da Bahia (Pró-Semiárido) constitui uma experiência de política pública orientada para o desenvolvimento rural sustentável, tendo entre suas estratégias a oferta de ATER continuada, o fortalecimento da produção sustentável, o apoio às organizações rurais e a ampliação do acesso das famílias às políticas públicas e aos mercados. Essas ações são particularmente relevantes para agricultores familiares e comunidades tradicionais inseridos no Semiárido.

É nesse contexto que se insere a presente pesquisa, realizada na Comunidade Quilombola São João, em Antônio Gonçalves (BA), no âmbito das ações de ATER desenvolvidas no território. A análise parte da compreensão de que a construção da autonomia produtiva e econômica não decorre exclusivamente da oferta de assistência técnica ou da implantação de tecnologias sociais, mas da articulação entre acompanhamento continuado, conhecimentos locais, práticas agroecológicas, organização comunitária e políticas públicas.

Comunidades quilombolas, território e agricultura no Semiárido

As comunidades quilombolas são reconhecidas pelo Decreto nº 4.887/2003 como grupos étnico-raciais que possuem trajetória histórica própria, relações territoriais específicas, ancestralidade negra e identidade baseada na autoatribuição. O reconhecimento dessas populações nas estatísticas oficiais foi ampliado pelo Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que incorporou as comunidades quilombolas e seus territórios à base territorial do levantamento, contribuindo para maior visibilidade de suas características sociais, culturais e territoriais.

Para essas comunidades, o território ultrapassa a dimensão da propriedade da terra, constituindo espaço de pertencimento, memória, produção, reprodução social e construção de identidades coletivas. A defesa territorial está, portanto, diretamente relacionada à preservação dos modos de vida, dos conhecimentos tradicionais e das formas próprias de organização social e produtiva. Nesse sentido, Bispo (2023) destaca relações fundamentadas no pertencimento, na reciprocidade e na convivência com o território, em contraposição às formas de apropriação orientadas predominantemente pela exploração e mercantilização da natureza.

A agricultura quilombola constitui parte importante das estratégias de reprodução social e econômica das famílias, articulando produção de alimentos, geração de renda, segurança alimentar e preservação de conhecimentos construídos historicamente. Conforme Fidelis (2013), práticas como a conservação de sementes, o manejo da fertilidade dos solos e o uso de recursos disponíveis no território evidenciam formas próprias de organização da produção, aproximando-se dos princípios da Agroecologia por valorizarem os recursos, conhecimentos e insumos locais.

No Semiárido, essas estratégias estão relacionadas à necessidade de enfrentar a irregularidade das chuvas, a escassez hídrica e outras limitações produtivas. Nesse contexto, a convivência com o Semiárido envolve a valorização dos conhecimentos locais e a adoção de estratégias e tecnologias sociais, como cisternas de produção, barreiros, quintais produtivos, sementes crioulas e práticas agroecológicas, que podem contribuir para a segurança hídrica, a produção de alimentos e a autonomia das famílias.

A Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) continuada pode contribuir nesse processo ao articular conhecimentos técnicos e saberes construídos pelas comunidades, apoiando a adaptação das tecnologias às condições locais e fortalecendo processos de planejamento, organização produtiva e participação. Assim, uma ATER contextualizada e participativa ultrapassa a transmissão de tecnologias e pode favorecer processos de aprendizagem, valorização dos conhecimentos tradicionais e construção da autonomia.

No Quilombo São João, localizado no município de Antônio Gonçalves, Bahia, essa relação entre território, agricultura, conhecimentos tradicionais, tecnologias de convivência e ATER assume particular relevância. Conforme relatos dos moradores mais antigos, a comunidade teve origem por volta de 1800 e atualmente reúne aproximadamente 60 famílias, cuja principal fonte de subsistência e geração de renda está relacionada à agricultura camponesa diversificada.

Localizada a aproximadamente seis quilômetros da sede municipal e inserida no domínio da Caatinga, a comunidade enfrenta condições características do Semiárido, como irregularidade das chuvas e períodos de estiagem, que impõem desafios à produção agrícola e à criação de animais. Nesse contexto, as famílias mobilizam conhecimentos acumulados ao longo das gerações e estratégias voltadas ao armazenamento e uso da água, à conservação dos recursos naturais, à diversificação produtiva e à agroecologia.

Desse modo, compreender a agricultura desenvolvida no Quilombo São João requer considerar não apenas sua dimensão produtiva, mas também suas relações com o território, a cultura, os conhecimentos tradicionais e a organização comunitária. É nesse contexto que a análise da ATER continuada e das tecnologias sociais de convivência com o Semiárido permite compreender suas contribuições, possibilidades e limites para o fortalecimento da autonomia produtiva e econômica das famílias quilombolas.

METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de caráter descritivo, exploratório e participativo, desenvolvida na Comunidade Quilombola São João, localizada no município de Antônio Gonçalves, Bahia. O estudo teve como objetivo compreender os resultados percebidos e os desafios da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) continuada e das tecnologias sociais de convivência com o Semiárido na promoção da autonomia produtiva e econômica de homens e mulheres da comunidade. A abordagem qualitativa mostrou-se adequada por possibilitar a compreensão das experiências, percepções, conhecimentos, práticas e significados atribuídos pelos sujeitos às ações de ATER e às estratégias de convivência com o Semiárido (MINAYO, 2014).

A comunidade estudada está inserida no Semiárido baiano e é constituída por aproximadamente 60 famílias, tendo a agricultura camponesa diversificada como importante base de subsistência, produção de alimentos e geração de renda. A escolha do campo empírico esteve relacionada à trajetória de organização comunitária, à presença de tecnologias sociais e à participação das famílias em ações de ATER continuada.

A pesquisa foi desenvolvida entre o final de 2025 e agosto de 2026, com atividades de campo realizadas principalmente entre fevereiro e junho de 2026. A produção dos dados ocorreu por meio de pesquisa documental, observação participante, entrevistas semiestruturadas e grupo focal, possibilitando a articulação de diferentes fontes de informação.

Participaram das entrevistas seis sujeitos: quatro agricultores e agricultoras, uma liderança comunitária e um representante de instituição parceira, com idades entre 35 e 70 anos. A seleção foi intencional, considerando a relação dos participantes com as atividades produtivas, as ações de ATER, as tecnologias sociais e a organização comunitária. Como critérios de inclusão, foram considerados a idade mínima de 18 anos, a relação direta com o território e com o objeto da pesquisa e a concordância voluntária mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para preservar a identidade dos participantes, foram utilizados códigos ou denominações fictícias na apresentação dos resultados.

As entrevistas semiestruturadas abordaram as atividades produtivas, experiências com a ATER continuada, tecnologias sociais, práticas agroecológicas, mudanças percebidas na produção e na geração de renda, autonomia produtiva e econômica, participação de homens e mulheres e desafios relacionados à convivência com o Semiárido. As entrevistas foram realizadas entre maio e junho de 2026, com duração aproximada de 30 a 60 minutos, sendo registradas por escrito e posteriormente sistematizadas para análise.

Também foi realizado um grupo focal com dez agricultores e agricultoras, em 28 de fevereiro de 2026, no espaço utilizado para as reuniões da associação comunitária, com duração aproximada de duas horas. A atividade buscou identificar percepções coletivas sobre ATER, tecnologias sociais, práticas produtivas, agroecologia, participação de homens e mulheres e desafios para a continuidade das estratégias de convivência com o Semiárido. Utilizou-se a dinâmica participativa de “chuva de ideias”, cujas contribuições foram registradas e posteriormente organizadas por aproximação temática.

A observação participante ocorreu entre fevereiro e junho de 2026, durante reuniões comunitárias, atividades produtivas e momentos de interação entre agricultores, agricultoras e liderança comunitária. Foram observadas práticas produtivas, utilização de tecnologias sociais, formas de organização e processos de interação entre conhecimentos técnicos e saberes locais. As informações foram registradas em diário de campo, utilizado posteriormente como fonte complementar de análise.

A pesquisa documental contemplou documentos efetivamente acessados e relacionados à trajetória da comunidade, às atividades produtivas, à organização comunitária e às ações de ATER desenvolvidas no território. Foram analisados 12 documentos, sendo cinco relatórios técnicos de ATER, cinco registros ou relatórios de atividades comunitárias, um documento relacionado à certificação quilombola e um registro histórico da comunidade.

Os dados provenientes das entrevistas, do grupo focal, da observação participante e dos documentos foram organizados e analisados por meio da Análise de Conteúdo, conforme Bardin (2016), considerando as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento, inferência e interpretação dos resultados. A análise contemplou categorias relacionadas às contribuições da ATER continuada, tecnologias sociais e convivência com o Semiárido, práticas agroecológicas e saberes locais, autonomia produtiva e econômica, participação de homens e mulheres e desafios para a continuidade das ações.

A interpretação foi realizada por meio da triangulação das diferentes fontes de informação, buscando identificar convergências, divergências e complementaridades entre os relatos dos participantes, as discussões coletivas, as situações observadas em campo e os documentos analisados. A produção das entrevistas foi encerrada considerando a recorrência das informações e sua suficiência para contemplar os objetivos da pesquisa, articulada às demais fontes de dados.

A pesquisa observou os procedimentos éticos aplicáveis à investigação com seres humanos, mediante esclarecimento aos participantes sobre os objetivos do estudo, participação voluntária, garantia de confidencialidade e assinatura do TCLE.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados evidenciaram que a ATER continuada contribuiu para fortalecer conhecimentos, práticas agroecológicas e capacidades produtivas das famílias do Quilombo São João. Diferentemente de uma assistência pontual, o acompanhamento contínuo favoreceu a construção de confiança, o diálogo entre conhecimentos técnicos e saberes locais e a adoção de práticas como sementes crioulas, adubação orgânica, biofertilizantes, defensivos naturais, quintais produtivos e tecnologias de armazenamento de água.

As tecnologias sociais foram identificadas como estratégias importantes de convivência com o Semiárido, especialmente por ampliarem as possibilidades de produção e enfrentamento das limitações hídricas. A participação comunitária, a organização dos agricultores e o acesso a políticas de comercialização também contribuíram para fortalecer as possibilidades de autonomia.

Os resultados apontaram ainda a participação das mulheres nas atividades produtivas e nos quintais, evidenciando sua importância para a produção de alimentos, conservação de conhecimentos e fortalecimento da autonomia familiar.

A triangulação entre entrevistas, grupo focal, observação e documentos demonstrou que os resultados não decorreram exclusivamente da ATER, mas da articulação entre assistência técnica, conhecimentos locais, tecnologias sociais, agroecologia, organização comunitária e políticas públicas. Permanecem, entretanto, desafios relacionados à continuidade das ações, recursos, comercialização e manutenção das tecnologias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa evidenciou que a ATER contínua desempenha papel relevante no fortalecimento das capacidades produtivas e na construção de estratégias de convivência com o Semiárido no Quilombo São João. Diferentemente de uma assistência baseada apenas na transmissão de técnicas, o acompanhamento contínuo possibilitou maior aproximação entre agricultores, técnicos e comunidade, favorecendo o diálogo entre conhecimentos técnicos e saberes construídos no território.

As tecnologias sociais identificadas, associadas às práticas agroecológicas, contribuíram para ampliar as possibilidades de produção, melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis e enfrentar limitações relacionadas à água e às condições do Semiárido. Destacaram-se as cisternas, quintais produtivos, sementes crioulas, adubação orgânica, biofertilizantes e práticas de controle natural de pragas.

A pesquisa também evidenciou a importância da organização comunitária e da participação das mulheres nos processos produtivos, na segurança alimentar, na conservação das sementes e na transmissão de conhecimentos. Esses elementos demonstram que a autonomia das famílias está relacionada não apenas à produção, mas também à capacidade de organização, tomada de decisões e valorização dos conhecimentos e recursos do próprio território.

Entretanto, os resultados também apontaram desafios, como a necessidade de continuidade da assistência técnica, acesso a recursos, manutenção das tecnologias sociais, fortalecimento da comercialização e permanência das políticas públicas. Assim, a autonomia não deve ser compreendida como independência da assistência ou das políticas públicas, mas como a ampliação das capacidades dos agricultores para conduzir seus processos produtivos e tomar decisões de forma mais participativa e contextualizada.

Conclui-se, portanto, que a construção da autonomia no Quilombo São João resulta da articulação entre ATER continuada, conhecimentos tradicionais, tecnologias sociais, agroecologia, organização comunitária e políticas públicas. Nesse sentido, o fortalecimento de uma ATER participativa, permanente e adequada às especificidades dos territórios quilombolas constitui uma estratégia importante para a agricultura familiar e para a convivência sustentável com o Semiárido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTIERI, Miguel. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

ASA – Articulação Semiárido Brasileiro. Convivência com o Semiárido: práticas e saberes. Recife: ASA, 2015. ASA – Disponível em: https://asabrasil.org.br/2014/10/09/a-convivncia-com-o-semirido-e-suas-potencialidades/. ASA Brasil. Semiárido. Recife: ASA, 2014. Acesso em: 07 de janeiro de 2026.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos.

BRASIL. Lei nº 12.188, de 11 de janeiro de 2010. Institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária – PNATER.

CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Agroecologia: enfoque científico e estratégico. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, v. 3, n. 2, p. 13-16, abr./jun. 2002.

FIDELIS, Lourival de Moraes; BERGAMASCO, Sonia M. P. P. Quilombos e a agroecologia: a agricultura tradicional como estratégia de resistência da comunidade quilombola João Surá. Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Três Lagoas, Três Lagoas, v. 1, n. 18, p. 112-141, 2013.

FREIRE, Paulo. F934e Extensão ou comunicação? tradução de Rosisca Dar- cy de Oliveira ¿ prefácio de Jacques Chonchol 7ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983 93 p. (O Mundo, Hoje, v. 24).

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Comunidades Quilombolas. Brasília, DF, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br. Acesso em: 07 de janeiro de 2026.

IBGE – Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/pt/sobre/povos-e-comunidades-tradicionais.html Acessado em 25 agosto de 2026.

MANUAL DA EXTENSÃO RURAL: prática coletiva, acesso ao mercado e monitoramento econômico para grupos sociais [recurso eletrônico] / org. Cleiton Silva Ferreira Milagres ... [et al.]. – Palmas: EDUFT, 2023.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/ Piseagrama, 2023.

SILVA, José de Souza. Agroecologia: uma ciência para a vida e não para o desenvolvimento. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, DF, v. 31, n. 1, p. 163-168, jan./abr. 2014.