REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776189815
RESUMO
A formação em licenciatura em língua estrangeira inclui diversos fatores que vão além da habilidade técnica da língua, incluindo aspectos psicológicos, sociais e culturais que influenciam o percurso acadêmico dos estudantes. Porém, essas dimensões geralmente são pouco abordadas no processo de formação docente, o que pode contribuir para o surgimento de inseguranças linguísticas, ansiedade e sentimentos de inadequação em relação aos discentes. Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo analisar os aspectos psicossociais presentes na formação em Licenciatura em Língua Estrangeira à luz das contribuições da Linguística Aplicada crítica, sobretudo a partir das reflexões de Kanavillil Rajagopalan (2003). A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica e teórica, fundamentada na interpretação de trabalhos acadêmicos que discutem linguagem, identidade e relações de poder no ensino de línguas. O estudo também dialoga com contribuições da psicologia sócio-histórica, especialmente a partir das reflexões de Ana Mercês Bahia Bock, como também com as discussões sobre educação e sistematização dos saberes propostas por Edgar Morin. Os resultados apontam que os desafios que os estudantes enfrentam no processo de aprender uma nova língua não podem ser vistos apenas como dificuldades individuais, mas devem ser compreendidos a partir das narrativas, condições sociais e institucionais que influenciam a formação docente. Assim, é notória a importância de considerar os aspectos psicossociais na formação em língua estrangeira, reconhecendo a linguagem como prática social localizada no contexto social e como aspecto central na construção da identidade docente.
Palavras-chave: Formação docente, Linguística aplicada crítica, Aspectos psicossociais, Ensino de línguas, Identidade.
ABSTRACT
Teacher education in foreign language programs involves several factors that go beyond the technical mastery of language, including psychological, social, and cultural aspects that influence students' academic trajectories. However, these dimensions are often insufficiently addressed in teacher education processes, which may contribute to the emergence of linguistic insecurities, anxiety, and feelings of inadequacy among students. In this context, this article aims to analyze the psychosocial aspects present in Foreign Language Teacher Education in light of the contributions of Critical Applied Linguistics, particularly based on the reflections of Kanavillil Rajagopalan. This research is characterized as qualitative, bibliographic, and theoretical in nature, grounded in the interpretation of academic works that discuss language, identity, and power relations in language teaching. The study also engages with contributions from socio-historical psychology, especially the reflections of Ana Mercês Bahia Bock, as well as discussions on education and the organization of knowledge proposed by Edgar Morin. The results indicate that the challenges students face in the process of learning a new language cannot be understood solely as individual difficulties, but must be analyzed in relation to the narratives and social and institutional conditions that influence teacher education. Therefore, the study highlights the importance of considering psychosocial aspects in foreign language teacher education, recognizing language as a socially situated practice and as a central element in the construction of teacher identity.
Keywords: Teacher education, Critical applied linguistics, Psychosocial aspects, Language teaching, Identity.
1. INTRODUÇÃO
A formação em licenciatura em língua estrangeira é marcada por fenômenos que envolvem os aspectos psicológicos, emocionais, sociais, culturais entre outros que compõem a vida humana. No entanto por vezes esses aspectos tornam-se esquecidos ou pouco trabalhados no processo de formação. Percebe-se ao longo da formação acadêmica que surgem inseguranças linguísticas, que podem acarretar sintoma de ansiedade interpostos por pressões acadêmicas e sentimentos de inadequação diante da realidade em que os alunos se encontram. Esse contexto não pode ser visto somente como um fator individual, mas como implicações sociais que envolvem o sujeito e as relações de poder que estão em sua volta, estruturando a língua e seu ensino.
Partindo desta ideia, a linguística aplicada fornece contribuições significativas para que possamos compreender a formação docente sob o olhar crítico, em que se entende que a formação em licenciatura é ampla, ultrapassando a pura abordagem instrumental. Conforme aponta Kanavillil Rajagopalan (2003), a linguagem deve ser compreendida como prática social marcada pela ideologia, identidade e relações de poder, o que implica reconhecer que os processos de ensino e aprendizagem de línguas não são imparciais, mas localizados dentro da história e da política universal.
Desta forma, é possível apontar o problema de como os discursos sobre competência, natividade e capacidade linguística trazem impacto na construção subjetiva dos professores em formação em língua estrangeira, impactando seu percurso acadêmico e profissional. Considerando que a identidade docente é formada a partir da linguagem, percebe-se que os aspectos psicossociais que vivem esses estudantes durante o processo de formação não podem ser separados das condições sociais, institucionais e discursivas em que estão inseridos durante o processo. A Linguística Aplicada, sobretudo em seu aspecto crítico, colabora amplamente para as pesquisas em ensino, humanidades e processos educativos ao compreender a linguagem como prática social situada, que dos aspectos meramente estruturais da língua, integrando a cultura e o meio social do indivíduo, como as relações de poder e identidade. Esse campo passa a dialogar diretamente com áreas como a educação, a sociologia, a filosofia e a psicologia entre outras.
Neste sentido este artigo tem como objetivo analisar os aspectos psicossociais presentes na formação em Licenciatura em Língua Estrangeira à luz das contribuições da Linguística Aplicada crítica de Rajagopalan (2003), buscando demonstrar como linguagem, identidade e poder se articulam na produção do processo formativo, e podem tanto potencializar quanto fragilizar os sujeitos em formação.
Este artigo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter bibliográfico e teórico. O trabalho é fundamento a partir da análise de produções acadêmicas que apontam aspectos da formação docente em língua estrangeira, enfatizando as contribuições da linguística aplicada crítica.
A pesquisa bibliográfica possibilita sistematizar e analisar perspectivas distintas acerca do fenômeno, permitindo compreender as relações entre linguagem, identidade e poder presentes no processo de formação em língua estrangeira. Desta forma foram estudados os escritos de Kanavillil Rajagopalan (2003) cujas observações referentes a linguagem como prática social contribuem para melhor compreender os impactos psicossociais na formação docente. Além disso, o trabalho buscar dialogar com contribuições da psicologia sócio-histórica, especialmente a partir das interpretações de Bock (1999), que compreende o sujeito como formado a partir das relações sociais e históricas. Também são consideradas as discussões de Morin (2014) referentes à necessidade de uma educação que articule os saberes, indo além da fragmentação do conhecimento.
A partir dessas referências, é realizada uma análise teórica que procura compreender como os discursos sobre habilidade linguística, língua materna e desempenho podem gerar impactos psicossociais no processo de formação de licenciandos de língua estrangeira, como apresentamos nos dois tópicos abaixo.
2. LINGUAGEM, IDENTIDADE, E PODER NA FORMAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
A compreensão da formação em língua estrangeira requer um olhar que ultrapasse aspectos da habilidade técnica da língua, exigindo uma abordagem que compreenda os horizontes sociais, culturais e históricos dos sujeitos.
No contexto do ensino de línguas, Rajagopalan (2003) faz indagações a respeito da ausência de questionamento relacionado as motivações que levam o sujeito a aprender uma nova língua. Segundo o autor, o aprendizado de uma nova língua segue a expectativa de, ao longo do tempo, atingir-se ascensão social e o acesso de um “mundo melhor”, visto que o domínio das línguas estrangeiras sempre esteve associado ao prestígio social e a elevação cultural.
Este apontamento nos revela que o ensino de línguas compõe um aspecto simbólico que demonstra uma hierarquia social dos idiomas, produzindo expectativas de alto padrão. A própria diferença entre “língua” e “dialeto” aponta para as relações de poder que distinguem quais variações são legitimas e quais são marginalizadas. Desse ponto de vista aprender uma segunda língua não é um fato imparcial, mas um conjunto de práticas culturais marcadas por ideias de valor e prestigio social.
Dentro do campo da atuação e formação docente, esses discursos podem causar impactos psicossociais significativos. Adquirindo a ideia de que o domínio da língua estrangeira aponta para ascensão e prestígio social, o acadêmico pode passar por sentimentos de inadequação e frustração que acarretam em ansiedades, diante das dificuldades referentes ao processo de escrita e aprendizagem, principalmente quando este se depara distante do eu ideal para a sociedade que carrega a expectativa de que o ensino superior promova excelência máxima no domínio do conhecimento e na prática social dos indivíduos formados.
A formação em licenciatura em língua estrangeira não pode eleger o estudante como o único responsável pelo seu sucesso e/ou fracasso, pois, embora as dificuldades sejam vivenciadas por experiências individuais de cada sujeito ao longo de sua formação acadêmica, nem sempre tais dificuldades são marcadas por falta de esforço ou de capacidade, pois acontecem dentro do processo formativo que envolve o contexto social, histórico e institucional.
Para Bock (1999) a linguagem está no centro da constituição do sujeito. Voltando o olhar para a psicologia Sócio-Histórica a autora critica a ideia do sujeito 100% autônomo e independente. Nesta perspectiva, o fenômeno psicológico não está dentro do ser humano como algo pronto e natural, mas é construído a partir das relações sociais e condições históricas que o atravessa.
Esta compreensão traz aspectos relevantes quando analisamos a formação em língua estrangeira, pois torna evidente que os aspectos psicossociais que os estudantes vivenciam, não são provenientes de suas fragilidades individuais, mas de elementos históricos e culturais que possuem o ensino de línguas e os lugares sociais que ocupam.
A identidade compreendida sob a proposta de Rajagopalan (2003) traz contribuição direta para a prática da formação docente. Segundo o autor as identidades não são algo fixo ou acabado, pois estão em constante transformação, não existindo identidade sem relações sociais. Essa ideia dialoga com a psicologia sócio-histórica abordada por Bock (1999), que também encerra a ideia de que o sujeito já nasce pronto, pois para ela o individuo se constitui a partir das relações sociais e históricas, sendo a linguagem um processo fundamental.
Desta forma tanto Rajagopalan (2003) quanto Bock (1999), compreendem a identidade como mutável. Voltando nosso olhar para a formação em língua estrangeira, entende-se que a identidade docente é construída a partir das práticas sociais dos indivíduos, sob o discurso acadêmico das relações existentes dentro do ambiente universitário que envolvem o curso em língua estrangeira.
Partindo desta ótica, compreender a língua apenas como um sistema técnico ou natural torna limitadas as relações sociais que envolvem o ensino de línguas. Rajagopalan (2003) aponta que, quando a língua é vista como um fenômeno natural, torna-se difícil encontrar o problema entre os aspectos éticos e sociais a partir do seu uso. Contudo quando se passa a compreendê-la como um fato social a partir das relações humanas e convívio em sociedade, é possível perceber as relações de poder, os valores e as responsabilidades que implicam a prática da língua (Rajagopalan, 2003). Essa ideia contribui para compreender melhor o processo de ensino e aprendizagem das línguas estrangeiras e seu interesse no contexto social, causando impacto direto na formação docente e nas experiências subjetivas dos estudantes.
Desta forma, Morin (2014) reflete sobre uma educação que seja voltada a organização e articulação dos saberes, evitando a simples acumulação dos conhecimentos. Para o autor, o conhecimento envolve, ao mesmo tempo, processos de análise e integração, de separação e união entre as diferentes esferas da realidade. Porém, os modelos de ensino tracionais acabam fragmentando os conteúdos, tornando difícil a compreensão dos fenômenos em seu conjunto. Desta forma, no contexto da formação em língua estrangeira, é importante ir além de uma abordagem limitada aos aspectos técnicos da língua, procurando articular os elementos sociais, culturais e subjetivos que permeiam o processo de ensino e aprendizagem. Assim a relação entre linguagem, meio social e experiências subjetivas dos indivíduos auxilia para uma compreensão aprofundada e crítica da formação do professor.
Percebe-se a partir desta reflexão a necessidade de repensar a Linguística Aplicada (LA), considerando os apontamentos de Moita Lopes (2006), para quem a modernidade impõe à sociedade intensas transformações sociais, políticas, culturais e tecnológicas. Este autor traz críticas aos modelos tradicionais de produção do conhecimento, baseados no conhecimento científico ocidentalista, positivista e na separação entre teoria e prática, que tende a não olhar para o sofrimento humano, para as desigualdades sociais e vozes dos grupos marginalizados. O autor defende a construção de um novo paradigma epistemológico engajado na reconstrução da vida social e na formação de conhecimento com responsabilidade social.
Para Moita Lopes (2006) a centralidade do discurso, da mídia, das tecnologias e das múltiplas semioses na construção das identidades e das práticas sociais da vida contemporâneas, marcadas ao mesmo tempo por conectividade e exclusão, deflagra separação entre teoria e prática, assumindo a dependência entre conhecimento, poder e ética, operando como um campo de reflexão crítica, emancipação social e “ensaio da esperança” diante das injustiças do mundo atual.
Contudo para Fabrício (2006) a linguagem pode ser compreendida como prática social, inseparável das relações de poder, das ideologias e das várias semioses referentes ao processo de produção de significado através de signos, que formam a produção de sentidos na contemporaneidade. O autor faz críticas referentes as abordagens deterministas, que implicam uma realidade pré-definidas e estável, defendendo, em contraponto, perspectivas críticas e socio construcionistas.
Por fim a compreensão sobre a linguagem implica reconhecer os processos de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, pois estas não podem ser restritas somente à estrutura e ao campo técnico, pois envolve disputas simbólicas, relações de poder e produção dos sentidos que passam pela construção da identidade dos indivíduos. Esta reflexão traz a possibilidade de ampliar o olhar perante a formação docente, pois demonstra a existência de vivências acadêmicas que incluem dificuldades, inseguranças e sofrimentos significativos, que estão contidos no meio social e no discurso dos sujeitos envolvidos.
3. ASPECTOS PSICOSSOCIAIS E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Rajagopalan (2003) chama atenção para a forma como a linguagem geralmente é interpretada sob a ótica da transparência, onde se espera que ela seja objetiva, direta e bem representada dentro da realidade. Para o autor existe um paralelismo entra a expectativa e a ideia de transparência contida o no discurso democrático, o que torna evidente como elas se assemelham pela ideia de que a linguagem deveria funcionar de forma transparente e objetiva.
No campo de formação em língua estrangeira, essa expectativa pode gerar impactos psicossociais significativos, pois a concepção de que o uso da língua precisa ser conciso, correto e transparente pode acarretar sentimentos de inadequação nos estudantes, que enfrentam dificuldades subjetivas e individuais no seu processo acadêmico. Assim a pressão por um excelente desempenho na língua pode contribuir para o surgimento de inseguranças, ansiedades e frustrações ao longo do percurso formativo.
Diante das dificuldades enfrentadas no processo acadêmico, muitos estudantes passam a caracterizar as experiências dos sentimentos citados acima como fragilidades individuais. No entanto, segundo Cruz (2020), compreender esses sintomas psicológicos somente como exclusivos, pode levar a uma intepretação equivocada das emoções, pensamentos e percepções, como se acontecessem nas ausências das respostas dentro de um contexto social. Tais sentimentos e sensações precisam ser compreendidas a partir das condições sociais em que cada indivíduo estar inserido e expressa sua subjetividade.
Rajagopalan (2003) também argumenta a respeito da crença de que a linguagem seja somente uma forma neutra das representações sociais. Para ele, o uso da língua envolve processos de escolha importantes, a mesma não é perfeita e compreensível, e muitas vezes existe a expectativa de um ensino de língua perfeito, construído dentro da sociedade em que vivemos. No contexto da formação em língua estrangeira, essa ideia pode gerar impactos psicossociais significativos, ao considerar que os alunos são os únicos responsáveis pela aprendizagem satisfatória ou não. . Nesse sentido essas dificuldades podem gerar sentimentos de inadequação e inseguranças ao longo do percurso formativo.
Essa reflexão a respeito do processo formativo também pode ser ampliada a partir das contribuições de Morin (2014), que defende uma educação que seja capaz de articular os saberes, evitando a simples acumulação. Para ele o conhecimento envolve aspectos simultâneos de análise e síntese, de separação e ligação dos saberes. No entanto os modelos de educação atuais geralmente fragmentam os conhecimentos isolando alguns conteúdos em detrimento de outros. No contexto da formação em língua estrangeira, essa linha de raciocínio pode contribuir para um ensino voltado possivelmente para os aspectos técnicos da língua, deixando de lado as dimensões sociais, psicológicas e culturais que envolvem o processo de aprendizagem.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕESE DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise realizada neste trabalho aponta que a formação em licenciatura em língua estrangeira não é limitada somente ao desempenho e habilidade do uso da língua, mas está inserida no contexto social, cultural e subjetivo dos indivíduos que estão nesse processo de formação. A partir as contribuições da linguística aplicada crítica, é perceptível que a aprendizagem e o ensino de línguas estão contidos nas relações de poder, ideias linguísticas e processos sociais que causam impacto direto na formação dos estudantes durante todo seu percurso acadêmico.
Partindo desta perspectiva, Rajagopalan (2003) discute a respeito da linguagem interpretada como um sistema envolvido, não sendo caracterizada como imparcial ou simplesmente técnica, pois ela está associada às relações sociais e às torsões existentes no meio social. Esta ideia leva-nos a compreender o ensino de línguas estrangeiras como fator responsável por carregar consigo práticas e valores sociais construídos ao longo do tempo, como o domínio em comunicar-se com determinada língua e a ideia de “status” social, ascensão e alcance de oportunidades vantajosas.
No contexto da formação em licenciatura, estas representações podem gerar impactos psicossociais consideráveis. A expectativa de dominar uma língua estrangeria pode influenciar os estudantes a experimentarem sentimentos de inadequação, insegurança linguística e ansiedades frente às exigências do ensino superior e das idealizações e desejos geados pela expectativa da figura do professor de língua estrangeria. Neste sentido, as dificuldades que os indivíduos enfrentam no processo de aprendizagem nem sempre são de caráter individual de cada sujeito, mas estão relacionadas as experiências e estruturas sociais que exigem certos padrões de excelência linguística.
Essa análise também dialoga com as contribuições da psicologia sócio-histórica, como aponta Bock (1999), ao abordar os fenômenos psicológicos associados ao contexto social e histórico em que o indivíduo está inserido. Desta forma, emoções, percepções e sentimento vividos pelos estudantes em seu processo de formação não devem ser considerados particularmente como vulnerabilidades individuais, mas como manifestações das experiências sociais mais amplas da subjetividade dos sujeitos.
Tomando como elemento fundamental a linguagem no processo de formação do sujeito, é cabível entender a identidade docente como algo construído a partir das relações sociais e suas interações, por meio dos discursos acadêmicos e das experiências adquiridas na Universidade. Neste sentido, a identidade do professor que está em formação não é compreendida como sendo algo fixo ou estável, mas que está em constante processo de transformação, sendo influenciada pelas relações de poder e pelos sentidos que são atribuídos à língua estrangeira no contexto social.
Outro aspecto relevante, é referente ao método como os modelos de educação são frequentemente priorizados aos aspectos técnicos de aprender uma nova língua, deixando em segundo plano as questões referentes à formação humana e social que envolvem esse processo de formação. Nessa abordagem, estão as reflexões de Morin (2014) quando apresenta a problemática da fragmentação do conhecimento que estão presentes em muitos contextos educacionais. Quando defende a necessidade de uma educação que seja capaz de articular diferentes campos de saberes, para o autor a importância está em compreender os processos educacionais de forma mais integrada, sem dissociação do conhecimento.
Ao ser empregada no contexto de formação em língua estrangeira, essa perspectiva aponta para a necessidade de ampliar o olhar a respeito do ensino de línguas, observando que o processo de formação envolve não somente o desenvolvimento de habilidades linguísticas, mas também inclui os aspectos psíquicos, sociais e culturais dos sujeitos. Dessa forma, considerar os aspectos psicossociais presentes na formação acadêmica é um fato fundamental para examinar os desafios que são enfrentados ao longo da formação docente.
Com base nessas discussões a língua não é isolada, ela é utilizada por sujeitos que vivem os mais diversos contextos culturais, sociais e econômicos, quando compreendemos quem fala, onde fala, por que fala, e quais suas condições, percebemos que todos esses aspectos influenciam o uso da língua. A subjetividade de quem fala externa experiências únicas.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise realizada neste artigo, buscou-se compreender os aspectos psicossociais presentes na formação docente em língua estrangeira, com as contribuições da linguística aplicada crítica de Kanavillil Rajagopalan (2003). No decorrer da discussão, evidenciou-se que o processo de formação docente em língua estrangeira, não pode ser compreendido somente como domínio técnico da habilidade, mas envolve aspectos sociais, culturais e subjetivos dos sujeitos que o enfrentam.
Desta forma, as narrativas que envolvem a competência linguística, a condição do falante nativo e o desempenho ideal no ensino de línguas acarretam efeitos significativos na construção da identidade dos professores em formação. Esses discursos podem colaborar para os surgimentos de inseguranças linguísticas, sentimentos de inadequação e ansiedades no trajeto acadêmico, de modo especial quando os estudantes internalizam essas dificuldades como fragilidades próprias, deixando de lado o contexto social e institucional em que estão inseridos
A relação com a psicologia sócio-histórica, sob o olhar de Bock (1999), reforça a ideia de que os fenômenos psicológicos não podem ser interpretados de forma isolada diante do contexto social e histórico que formam o sujeito. Neste sentido a realidade vivenciada pelos alunos frente ao seu percurso formativo deve ser interpretada como parte da realidade social global, marcada pelas relações de poder, discursos e expectativas que envolvem o ensino de línguas.
Além disso, a partir da obra de Morin (2014), torna-se possível refletir sobre uma formação que necessita da articulação entre diversos saberes, que seja capaz de superar os modelos de educação fragmentada, que dá preferência apenas aos aspectos técnicos da aprendizagem. No âmbito da formação em língua estrangeria, esta ideia refere-se a importância de agregar às dimensões linguísticas, sociais, culturais e psicológicas durante o processo formativo.
Assim, permite-se concluir que os aspectos psicossociais na formação em língua estrangeira são de suma importância para melhor entendimento de forma ampliada dos desafios que os estudantes enfrentam no decorrer do seu percurso acadêmico. Deve-se reconhecer, portanto, a linguagem como prática social posicionada, repensando os processos de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras de forma mais crítica e sensível às vivências dos professores em formação, auxiliando na construção de formação mais reflexiva e humana.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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RAJAGOPALAN, Kanavillil. Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e a questão ética. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
1 Mestranda em Ensino de Humanidades e Linguagens pela Universidade Federal do Acre; Psicóloga - Universidade Federal do Acre -Campus Floresta, Cruzeiro do Sul, AC. E-mail: [email protected]
2 Doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho - UGF-RJ (2005); Pós-Doutor em Filosofia Contemporânea pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP (2018-2019). Atualmente é professor associado da Universidade Federal do Acre, ministrando disciplinas e orientando trabalhos na graduação e na pós graduação. Email: [email protected]