REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779672332
RESUMO
O presente estudo propôs-se entender os aspectos psicossociais do impacto da pandemia de COVID-19 na vida dos universitários brasileiros identificando as representações sociais sobre a vida universitária durante a pandemia de COVID-19. A pandemia do SARS-COV-2 desafiou todos os sistemas tradicionais implementados e testou diversos setores da vida cotidiana. Apesar de ter como ponto nevrálgico a área da saúde, também impôs desafios à educação, ao comércio, à economia e às relações interpessoais. Na educação básica os efeitos deletérios foram visíveis com evasão alta e desempenho considerado muito abaixo do desejável. No ensino superior os desafios também foram grandes, atingindo desde a dinâmica de ensino-aprendizagem, como também a impossibilidade desse setor em lidar com as angústias e medos gerados pela vivência de uma pandemia. Utilizando a Teoria das Representações Sociais criada por Serge Moscovici, buscamos identificar os aspectos psicossociais envolvidos na relação de universitários com a universidade e seus projetos profissionais durante a pandemia. foram entrevistados 134 universitários de curso de graduação e pós-graduação. Utilizamos como ferramenta, o google forms com uma tarefa de evocação livre e perguntas abertas para a coleta de dados. Os resultados apontam, que as representações sociais dos universitários acerca das dificuldades enfrentadas na pandemia giram em torno de problemas e sofrimentos psicológicos e falta de estrutura para continuidade dos estudos.
Palavras-chave: Ensino superior; COVID-19; Representações sociais.
ABSTRACT
This study aimed to understand the psychosocial aspects of the impact of the COVID-19 pandemic on the lives of Brazilian university students, identifying social representations of university life during the COVID-19 pandemic. The SARS-CoV-2 pandemic challenged all traditional systems and tested various sectors of daily life. Although its central point was the health sector, it also posed challenges to education, commerce, the economy, and interpersonal relationships. In basic education, the deleterious effects were visible with high dropout rates and performance considered far below desirable. In higher education, the challenges were also great, affecting both the dynamics of teaching and learning, as well as the inability of this sector to cope with the anxieties and fears generated by experiencing a pandemic. Using the Theory of Social Representations created by Serge Moscovici, we sought to identify the psychosocial aspects involved in the relationship of university students with the university and their professional projects during the pandemic. 134 undergraduate and graduate students were interviewed. We used Google Forms as a tool, with a free-recall task and open-ended questions for data collection. The results indicate that the social representations of university students regarding the difficulties faced during the pandemic revolve around psychological problems and suffering, and a lack of structure for continuing their studies.
Keywords: Higher education; COVID-19; Social representations.
INTRODUÇÃO
A educação é um direito humano fundamental estabelecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), e deve ser vista, também, como um direito cuja realização influencia diretamente o exercício de todos os demais. Ela é um vetor para o desenvolvimento, já que pode sustentar os níveis de saúde de um país e promover a igualdade de gênero, e é uma das melhores maneiras de reduzir a pobreza, o analfabetismo, pois quem estuda e é qualificado, poderia ter mais chance à acesso a um emprego qualificado de maior renda. Como um bem comum global, ela contribui para a implementação adequada dos dezessete (17) objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas e deve ser a base de sociedades pacíficas, justas, igualitárias e inclusivas.
Por isso, quando os sistemas educacionais entram em colapso, a paz, a prosperidade e o bom funcionamento das sociedades não são mais garantidos. O que motivou o falecido presidente Nelson Mandela da África do Sul a afirmar que “a educação é a arma mais poderosa que existe para mudar o mundo” (tradução nossa)1 e Paulo Freire que complementou dizendo “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” mostrando que a educação somada a outras políticas tem poder transformador. A educação é a base do progresso, a base para a formação de uma sociedade por e para todos, onde os direitos de todos sejam igualmente respeitados, acrescenta Victor Hugo (1881, s/p., tradução nossa)2 quando disse “cada criança que ensinamos é um homem que ganhamos / [...] / a ignorância é a noite que começa o abismo”. Nesse sentido, a educação permite ao ser humano se enquadrar no tecido socioeconômico local e ter acesso a um empregoestável e duradouro, além de estimular a produtividade, a inovação e o empreendedorismo.
A educação de qualidade pode contribuir para uma melhor compreensão das questões políticas e econômicas de um país e permitir que todos se envolvam ativamente na sociedade e apoiem a evolução do país até o seu desenvolvimento econômico e estabilidade política. Embora a educação seja um canal para o sucesso socioeconômico, é importante lembrar que muitas vezes não é fácil para todo mundo ter acesso a ela do ponto de vista das realidades e condições de vida de cada família e isso depende do continente, do país, da cidade ou mesmo do lugar onde cada um estiver. Atualmente, muito se discute sobre a provável relação existente entre os fenômenos da exclusão social e os da baixa escolaridade (Naiff, L.A.M., Sá. C.P. & Naiff, D.G.M. 2008 p.126)3. Isso implica que esforços também devem ser feitos pelos governos para melhorar a situação socioeconômica das populações com mais políticas de inclusão social.
No Brasil, a educação vem enfrentando muitas dificuldades há vários anos em todos os seus níveis. Notam-se as dificuldades de ordem estrutural, a falta de recursos, a desmotivação dos docentes e o desinteresse dos alunos por falta de perspectivas de futuro ou mesmo do mercado de trabalho que não lhes garante necessariamente uma boa inserção profissional. Particularmente no nível do ensino superior público, universitário e no campo da pesquisa científica essa situação vem promovendo evasão educacional. No Brasil, 40 % dos jovens com ensino superior não tem emprego qualificado aponta um estudo da revista ECONOMIA4 no GloboNews e G1 publicado por Bianca Lima e Luiz Guilherme Gerbelli ( Lima & Gerbelli, 2022).
Não se trata de apenas focar na relação direta e inequívoca da necessidade cada vez maior de escolaridade para inserção no mercado de trabalho. Os aspectos psicossociais e identitários são extremamente relevantes para se pensar o que afeta a vida escolar dos grupos sociais mais vulneráveis economicamente (Naiff, 2005). Soma-se a isso o acesso à universidade pública para todos, que não é uma realidade na prática, ainda que nos últimos anos tenha havido um real aumento de vagas e ações afirmativas importantes que impactaram no acesso e permanência. Esta situação é totalmente contrária ao quarto objetivo de desenvolvimento sustentável estabelecido pelas Nações Unidas no final da conferência Rio+20. Este objetivo formulado da seguinte forma: O acesso à educação de qualidade para todos, desafia então os atores educacionais dos países-membros da ONU porque, falar de acesso a uma educação de qualidade implica em: qualidade da educação oferecida, práticas pedagógicas adotadas, esforço focado no sucesso acadêmico, gestão dos fracassos para evitar a evasão dos alunos, etc.
Portanto, um sistema de ensino já fragilizado por uma infinidade de problemas para os quais os atores lutam para encontrarem soluções duráveis, sofre no início de 2020 uma verdadeira reviravolta com o surgimento da pandemia da COVID-19 que também colocou à prova todos os sistemas de ensino dos países do mundo, incluindo àqueles que estavam em melhores condições. Isso porque para conter o contágio da COVID-19, os locais de grandes aglomerações foram forçados a fechar. Nesta lista, estão as escolas e universidades.
As universidades começaram suspendendo temporariamente as aulas e, conforme a situação pandêmica foi piorando, as suspensões foram sendo prorrogadas até atingirem dois anos completo. No Brasil, o que se viu foi que todo o sistema educacional foi surpreendido pela pandemia, sem que tivessem um planejamento para aulas virtuais. Os alunos mais vulneráveis economicamente, que bem antes desta pandemia, na sua maioria, careciam muitos problemas de apoio financeiro, material, social ou mesmo psicológico para se manterem no sistema, tiveram que adaptar-se ao novo método de ensino a distância, implicando custos e gastos extras, nomeadamente a aquisição de computador, de internet. Lembre-se que por mais simples que pareça, nem todos os alunos tinham acesso a essas ferramentas e suporte, aponta uma pesquisa do IBGE5 (IBGE, 2019) que revela que 4,3 milhões de estudantes da rede pública não tem acesso à internet.
Os objetivos gerais do presente estudo foram : 1) Identificar as representações dos universitários sobre ser estudante durante a pandemia de COVID-19; 2) Identificar as dificuldades a respeito do ensino remoto durante a pandemia da COVID-19; 3) Identificar as prováveis causas de reprovação e evasão universitárias em geral e em particular nesse período da pandemia da COVID-19. Especificamente buscamos identificar os aspectos psicossociais das dificuldades que os universitários vivenciaram durante a pandemia que afinal de conta impactaram os seus desempenhos acadêmicos e as consequências na vida deles.
A pandemia da COVID-19 desafiou todos os sistemas tradicionais implementados e testados em todos os setores da vida cotidiana. O sistema educacional não foi poupado, pelo contrário, algumas universidades, por falta de recursos, não conseguiram oferecer aos seus alunos a oportunidade de uma educação à distância, pelo menos, da forma adequada. Aquelas que puderam, o fizeram com recursos ainda muito limitados, na medida do possível, o que certamente tem gerado dificuldades para os alunos. Desse modo, a presente dissertação apresenta as questões relacionadas ao ensino superior no Brasil (história, desenvolvimentos, grandes avanços e desafios) no seu primeiro capítulo; em seguida no segundo capítulo as questões relacionadas à pandemia de COVID-19 (seu surgimento, seus efeitos e medidas adotadas pelos diversos governos do mundo em geral e principalmente o caso do Brasil no campo do ensino superior); no terceiro capítulo a apresentação da teoria das Representações Sociais de Serge Moscovici, no quarto capítulo o método de estudo que nos permitiu coletar e analisar os dados e por fim no quinto capítulo a apresentação dos resultados e a discussão que nos permitiu avançar para considerações finais e sugestões de pesquisas futuras.
CAPÍTULO 1: O ENSINO SUPERIOR NO BRASIL
1.1. Histórico e Evolução do Ensino Superior Brasileiro
O ensino superior surgiu no Brasil exatamente em dezembro de 1792 durante o reinado de Dona Maria I com a criação no Rio de Janeiro da “Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho”, que deu origem à “Escola Politécnica segundo Panizzi, (2003: 53). É importante lembrar que durante o período colonial não existiam universidades ou escolas de ensino superior no Brasil. Ao contrário de outros países latino-americanos, a instalação de universidades no Brasil foi gradual e bem posterior à era colonial. Assim foram criadas as primeiras universidades no Rio de Janeiro e depois na Bahia, antiga capital da colônia (Panizzi, 2003).
Com o advento da república em 1889, inicia-se finalmente uma nova era com a criação, em vários Estados, de escolas e faculdades essencialmente orientadas para a formação profissional e técnica em áreas como medicina, engenharia e também direito. Mais tarde, em 1910, algumas cidades do Brasil como São Paulo, Manaus e Curitiba terão a chance de experimentar uma primeira tentativa de criação de universidades, mas que não deu certo, (Panizzi, 2003).
Somente em 1920, durante as comemorações da independência do país que será criada a Universidade do Rio, que mais tarde se tornou a Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Logo depois seguirá a criação da Universidade de Minas Gerais em Belo horizonte em 1927. Mas com a chegada ao poder de Getúlio Dorneles Vargas, abre-se uma nova era para o ensino superior no Brasil. Assim se estabelecerá o status da universidade brasileira sob a influência do novo ministério da educação e Saúde. A reunião de escolas e faculdades já existentes no território permitiu a criação de novas universidades respectivamente em São Paulo e Porto Alegre em 1934, em Recife e Bahia em 1946, (Panizzi, 2003). Deve-se notar também que este período da chegada ao poder de Getúlio Dorneles Vargas foi um período em que foram criadas as primeiras universidades privadas no Brasil: a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e a de São Paulo em 1946 e depois a de Porto Alegre em 1948.
Em 1950, inicia-se uma outra nova era, a da federalização das universidades públicas, com exceção da Universidade de São Paulo. Assim, as diversas universidades públicas que foram criadas passarão a ser administradas pelo governo federal. A partir desse momento a universidade pública experimentará uma grande e notável revolução com a criação de uma dezena de universidades federais sob os diferentes regimes de Getúlio Dorneles Vargas e Juscelino Kubitschek.
Os governos seguintes continuaram esse processo de criação de várias universidades federais e estaduais, incluindo institutos e outros centros de formação universitária pública, (Panizzi, 2003).
Vale destacar o grande aumento do número de universidades e centros universitários privados de formação espalhados por todo o Brasil pela demanda de matrícula que crescia, como podemos ver na tabela abaixo.
Tabela 1: Número de Instituições de Ensino Superior no Brasil (2022)
Natureza da instituição | Número |
Federal | 107 |
Estadual | 119 |
Municipal | 76 |
Privada | 2306 |
Total | 2608 |
Fonte: Ministério da Educação e Cultura (MEC)
Com o passar do tempo, a universidade pública brasileira forjou-se uma reputação que a torna referência na América Latina e no mundo. No entanto, uma universidade pública que não vai ao encontro dos anseios de todos os cidadãos na medida em que o seu acesso, embora gratuito, suscite tantas ambiguidades do ponto de vista das condições de ingresso através de um exame muito seletivo com vagas limitadas, explica, a existência de grande número de universidades privadas que foram instaladas ao longo do tempo. Ao ler a tabela acima, percebe-se claramente a grande diferença entre o número de universidades privadas e o de universidades públicas. O verdadeiro paradoxo no acesso às universidades públicas no Brasil é que, segundo a revista Studyrama, publicada no dia 03 de março de 2008, os alunos de famílias de classe social superior, que concluíram o ensino médio privado, onde o ensino é mais completo e de boa qualidade, ocupam, em sua maioria, as vagas das universidades públicas e gratuitas. Isso porque o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o vestibular das universidades públicas é extremamente difícil e tem um número limitado de vagas. A consequência desse desequilíbrio é que jovens de classes sociais desfavorecidas, que saem do ensino médio público, só têm a possibilidade de continuar seus estudos em universidades privadas, onde as taxas de matrícula são muito altas, tradução nossa6, (STUDYRAMA, 2016)
1.2. Funcionamento do Ensino Superior no Brasil
No Brasil, o ensino superior é administrado pelo Ministério da Educação (MEC) e coordenado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que desenvolvem e implementam as principais orientações e políticas educacionais do País. Para ingressar no ensino superior é importante que o aluno conclua o ensino médio sancionado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) institudo em 1998 durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), esta é a forma mais tradicional de avaliar os conhecimentos dos alunos. No entanto, algumas universidades ainda mantêm seu próprio exame, o vestibular (STUDYRAMA, 2016).
Conforme estabelece o art.43 da Lei de Diretrizes e Bases – LDB: o ensino superior no Brasil é ministrado por instituições de educação superior (IES) públicas e privadas e tem como finalidade:
estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo;
formar e diplomar pessoas nas diferentes áreas do conhecimento, tornando-as aptas para a inserção em setores profissionais e para participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, propiciando-lhes ainda formação contínua;
incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento sobre o homem e o meio em que vive;
promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber por meio do ensino, de publicações e de outras formas de comunicação;
suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a consequente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;
estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais;
prestar serviços especializados à comunidade, estabelecendo com ela relações de reciprocidade;
promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição.
Divido em dois níveis, temos a graduação, que permite aos alunos de terminarem seu curso como bacharelados, as licenciaturas e os tecnólogos, O bacharelado tem duração entre 3 e 6 anos, voltado para área acadêmica e também prepara para o mercado de trabalho. A licenciatura com duração entre 3 e 5 anos tem como objetivo principal habilitar o profissional para lecionar em escolas. E o tecnólogo com duração entre 2 e 3 anos é um curso com foco na prática que qualifica o profissional para atuar numa área específica. O segundo nível universitário que chamamos de pós-graduação é composto de:
dos cursos de especialização, ideal para profissionais que desejam aprofundar conhecimentos técnicos ou buscam atualização na área em que atuam. Diferente do bacharelado e do tecnólogo, aborda temas específicos;
do MBA, a sigla MBA significa Master in Business Administration (ou Mestre em Administração de Negócios). Basicamente, é um curso de formação de executivos em áreas como Finanças, Marketing e Recursos Humanos. Apesar do nome, o MBA não é reconhecido como um mestrado aqui no Brasil. Ele é entendido apenas como uma especialização profissional dentro da área de Administração de Empresas;
do mestrado, que é tradicionalmente o primeiro curso de pós-graduação realizado por aqueles que se formaram na faculdade e pensam em seguir carreira acadêmica (fazer pesquisas e dar aulas no ensino superior). É preciso notar que existe também mestrado profissional que tem como objetivo aprofundar conhecimentos técnicos e científicos indispensáveis para o dia a dia no mercado de trabalho.
do doutorado, que é o diploma mais alto que qualquer aluno pode conquistar no Brasil. É indispensável para aqueles que pretendem atingir os mais altos níveis da carreira acadêmica. Para obter o título de doutor, o aluno precisa propor, pesquisar e defender uma tese com algum grau de ineditismo em sua área. Os programas tendem a durar tanto quanto um bacharelado ou uma licenciatura.
do pós-doutorado, que na verdade não é a última etapa do ensino superior! Ele não é obrigatório, não oferece diploma e não conta como um grau acadêmico. Mesmo assim, essa modalidade pode ser bem interessante para quem acabou de concluir o doutorado e deseja estender sua pesquisa. O trabalho final pode ser um relatório de extensão, um artigo científico ou uma inovação tecnológica.
Além disso, cabe destacar que o ensino superior no Brasil, embora tenha evoluído ao longo do tempo e ocupado um dos melhores lugares na América Latina e no mundo, não é poupado de dificuldades que continuam a manchar sua imagem ou mesmo a qualidade da oferta educacional. É hora de ela enfrentar os grandes desafios do momento.
1.3. Os Desafios do Ensino Superior no Brasil
A educação superior no Brasil se depara com múltiplos problemas, apesar dos esforços dos vários governos que se sucederam, incluindo todos os atores do sistema. Por este fato são impostos desafios ao sistema para sua melhoria. Os grandes desafios da educação superior estão relacionados a inúmeras questões, tais como: a ampliação do acesso e maior eqüidade nas condições do acesso; formação com qualidade; diversificação da oferta de cursos e níveis de formação; qualificação dos profissionais docentes; garantia de financiamento, etc, (Clarissa Eckert Baeta Neves, p.3, 2007)
Aliás a questão de permaneça sempre surge pois não basta garantir o ingresso nas universidades, mas ainda será melhor garantir a permanência dos alunos nas universidades. Referindo-se ao oitavo fórum nacional de reitores e dirigentes das universidades parceiras da futura, os reitores alertaram para a necessidade de uma atenção especial à retenção de alunos na graduação e pós-graduação. Segundo o último censo, (Notas estatísticas censo da educação superior 2020), nota-se que o Brasil registrou, pela primeira vez, queda de matrículas nas universidades federais. Os dados apontam que de 2019 para 2020, houve uma redução de 1,3 milhão para 1,2 milhão de matrículas, muito devido ao número recorde de trancamento de matrículas: 270 mil. (Veja tabela abaixo).
Tabela 2: Número de vagas de cursos de graduação por tipo de vaga e categoria administrativa – 2020
Categoria Administrativa | Vagas de Cursos de Graduação | |||
Total geral de vagas | Vagas novas oferecidas | Vagas de programas especiais | Vagas remanescente | |
Total Geral | 19.626.441 | 14.328.139 | 60.859 | 5.237.443 |
Pública | 863.520 | 668.890 | 9.930 | 184.700 |
Federal | 492.599 | 373.185 | 3.160 | 116.254 |
Estadual | 247.972 | 203.705 | 6.347 | 37.920 |
Municipal | 122.949 | 92.000 | 423 | 30.526 |
Privada | 18.762.921 | 13.659.249 | 50.929 | 5.052.743 |
Fonte: notas estatísticas censo da educação superior 2020.
Essa situação de trancamento ao longo período deixa lugar a evasão universitária pois a evasão geralmente se consta depois um trancamento prolongado sem esquecer os fracassos. Referindo-se novamente ao oitavo fórum nacional de reitores e dirigentes das universidades parceiras da futura, nota-se a fala do Reitor da Universidade Federal do Pernambuco, Alfredo Gomes que lembra que as últimas edições do Enem, de 2021 e 2022, tiveram as menores quantidades de inscrição desde 2005, muito em função dos problemas decorrentes da pandemia da COVID-19. O que nos remete a questão dos sistemas estaduais de educação que são onde estão 90% das matrículas no ensino médio, para que os alunos estejam mais bem preparados para os exames de acesso às universidades. Então sobre estratégia de retenção o reitor explica que o poder público precisa se fazer mais presente nesse contexto de deterioração econômica7, (O GLOBO, 2022). Além disso, lembremos que a aprendizagem é contínua, por isso a universidade não pode ser o espaço de segregação e que reproduze a violência de forma alguma, mas um espaço de produção e veículo de conhecimento, de pesquisa e de uma vida social pois prepara o indivíduo para sociedade.
Nesse sentido nota-se a instituição da lei 13245 de julho 2015 da inclusão de pessoas com deficiência destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Sem esquecer as questões da democracia racial no que se diz respeito às cortas raciais e às políticas de ações afirmativas que têm proporcionado a um grande contingente de jovens, além da inserção nas universidades públicas, a melhoria na qualidade de vida.
CAPITULO 2: A pandemia da COVID-19
2.1. Covid-19 no Mundo e no Brasil, Breve Resumo
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2020), a COVID-19 é uma doença infecciosa causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 e apareceu no dia 16 de novembro de 2019 em Wuhan, cidade da província de Hubei, na China. Na época, a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan, relatou uns casos de pneumonia entre os moradores, um novo coronavírus foi então identificado. Daí a origem do nome COVID-19 porque ainda estávamos em 2019, quase no final do ano.
Em poucas semanas, a cidade de Wuhan registrou vários casos com sintomas semelhantes. De repente os hospitais e centros de saúde começaram a lotar e as primeiras mortes se seguiram. Oficialmente até o momento, a China registrou um total de 5.226 mortes por COVID-19, segundo as autoridades da República Popular da China.
Apesar da quarentena da cidade, outros casos foram registrados em outras províncias da China. O mundo inteiro estava falando de um vírus chinês. Já no início de fevereiro de 2020, casos de coronavírus também são registrados em vários países como Japão, Alemanha, Filipinas, França e em alguns países europeus que registraram suas primeiras mortes levando em consideração o deslocamento feito pelos seres humanos que transportavam com eles este vírus ainda desconhecido por muita gente.
Devido a extensão da contaminação de uma pessoa para outra e de um país para outro, os casos infetados e o número de óbitos registrados em um período de tempo muito curto, a OMS declarou a COVID-19 como pandemia no dia 11 de março de 2020. Para o efeito, a OMS lançou nos dias 13 e 18 de março juntamente com os seus parceiros, respetivamente, um Fundo de Solidariedade de combate à COVID-19, com o objetivo de recolher donativos de particulares, empresas e instituições e o ensaio “SOLIDARITY”, que é um ensaio clínico internacional que visa gerar dados sólidos de todo o mundo para encontrar os tratamentos mais eficazes para COVID-19.
A pandemia de COVID-19, em pouco tempo, alastrou-se aos quatro cantos do mundo e começou a pôr em marcha os sistemas de saúde já debilitados, colocando a prova o tecido social e os vários projetos e programas dos governos de cada país e especialmente em países com alta taxa de população. Até o dia 17 de Março de 2024, a OMS relatou um total de 774.954.393 casos no mundo inteiro, incluindo cerca de sete milhões de mortos.
Segundo o chefe da OMS, nas últimas duas semanas o número de novos casos diários, fora da China, aumentou 13 vezes. E a quantidade de países afetados triplicou. Até esta quarta-feira, existem mais de 118 mil casos e 4.291 mortes. Ghebreyesus contou que "milhares de pessoas estão lutando pela vida em hospitais” e que “nos próximos dias e semanas, espera-se que o número de casos, de mortes e de países afetados suba ainda mais.” O diretor-geral disse que a OMS está acompanhando o vírus 24 horas por dia e está “profundamente preocupada com os níveis alarmantes de contágio e de falta de ação.” Tedros explicou que a palavra pandemia “não é usada de forma fácil ou sem cuidados.” E que é um termo que “se for usado erroneamente pode causar medo e desistência de lutar contra o vírus levando a sofrimentos e mortes desnecessárias.”
(ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2020).
Em fevereiro de 2020, os brasileiros se preocuparam muito pouco com esse novo vírus que migrou em poucas semanas da China para a Europa. O Carnaval era então o assunto principal do momento. No entanto, no dia 26 de fevereiro, um morador de São Paulo apresentou sinais de infecção pulmonar após retornar da Itália. Assim o homem de 61 anos deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein no dia 27 de fevereiro (UNA-SUS do dia 27 de fevereiro de 2020). O primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi então registrado oficialmente no Brasil e meses depois os casos explodiram em todo o país com um número considerável de infecções e mortes diárias que mergulharam o país no medo e consternação total. (veja os gráficos e diagramas abaixos).
Grafico 1: Número total de caso de COVID-19 no Brasil atualizado no dia 23/03/2024
Grafico 2: Número total de óbitos devidos à COVID-19 no Brasil atualizado no dia23/03/2024
A partir desses dois gráficos, verifica-se que desde o surgimento da pandemia de coronavírus, oficialmente, um total de 38.729.836 (trinta e oito milhões, setecentos e vinte e nove mil, oitocentos e trinta e seis) casos deram positivo, incluindo 711.249 (setecentos e onze mil e duzencentos e quarenta e nove) óbitos foram registrados no Brasil, segundo os dados recolhidos das secretarias estaduais de saúde. Assim podemos notar uma grande incidência dos efeitos da covid- 19 nos estados do sudeste, nordeste e sul.
Gráfica 3: Incidência COVID-19/100 mil habitantes no Brasil atualizado no dia 23/03/2024
Gráfica 4: Taxa Mortalidade/100 habitantes no Brasil atualizado no dia 23/03/2024
Dos dois diagramas acima, verifica-se que os estados do centro-oeste e sudeste têm registrado mais casos de óbito devido à covid-19 que os demais estados, talvez por motivos de alta concentração populacional nesses estados.
Aeroportos, primeiros vetores de contágio, além de escolas, centros de ensino e universidades, igrejas tiveram que fechar tanto no Brasil como em muitos países do mundo para conter o contágio que estava no auge.
‘’A pandemia de COVID-19 submeteu os sistemas educacionais a um choque sem precedentes na história, interrompendo a vida de quase 1,6 bilhão de alunos e estudantes em mais de 190 países em todos os continentes. O fechamento de escolas e outros locais de aprendizagem afetaram 94% da população escolar global e até 99% em países de baixa e média renda’’ (tradução nossa)8. Note de synthèse: L’éducation en temps de covid-19 et après, (Nation Unies, Août 2020, pp. 2)
O despreparo do mundo para tal pandemia foi imenso, obrigando as pessoas a adotarem novos hábitos e tendo que reorganizar suas vidas em termos de manutenção da proteção.
No Brasil, a decisão de fechar as universidades foi gradual. Em primeiro lugar, várias universidades suspenderam as aulas presenciais poucos dias após o carnaval de 2020, quando os casos começaram a se multiplicar e o risco de contágio se tornou cada vez mais alto. Então, a decisão de fechar temporária e definitivamente sem datas de reabertura previsíveis veio com o aumento do número de casos de coronavírus e um número considerável de mortes registradas diariamente. Esta situação colocou muitos alunos, professores, pais de alunos, atores do sistema em situações difíceis.
2.2. As Medidas Paliativas Durante a COVID-19 no Brasil
O surto da pandemia de COVID-19 trouxe muitos desafios para os governos do mundo, e o Brasil não foi poupado. As consequências adversas da pandemia afetaram particularmente grupos e comunidades vulneráveis e desfavorecidos, que já enfrentam condições de vida difíceis, por vezes agravadas por contextos de segurança frágeis marcados por vários conflitos. Para proteger a saúde e os meios de subsistência das pessoas e evitar o colapso econômico, a maioria dos países do mundo tomou medidas significativas durante a pandemia.
O Brasil, surpreendido e duramente atingido pela pandemia do coronavírus, também teve que enfrentar muitos problemas e fenômenos sociais que, de qualquer forma, atrapalharam o cotidiano dos cidadãos. Vale lembrar que o Brasil é um dos países que pagou caro por essa pandemia. Esta é uma oportunidade para enaltecer os esforços e grandes avanços feitos pela ciência durante esta pandemia para aliviar o sofrimento da população planetária. Embora a política liderada pelo governo brasileiro em relação ao desenvolvimento e disposição de vacinas não tenha sido a melhor.
Assim, várias medidas paliativas foram tomadas pelos diversos atores, seja em termos de medidas sanitárias, políticas econômicas e planos de emergência postos em prática pelos governantes para aliviar por um tempo ou pouco aqueles que diretamente ou indiretamente sofreram as consequências da COVID-19 e que, portanto, ainda sofrem com isso até hoje. Entre estes últimos, a quarentena decretada com atendimento mínimo para evitar a propagação do vírus e também limitar o contágio através da circulação de pessoas de um país para outro. Porque cabe destacar que a circulação de seres humanos foi um grande vetor de contaminação e explosão de casos positivos em tão pouco tempo. Em seguida, o uso obrigatório de máscaras. A digitalização de vários serviços para os usúarios de serviços públicos e privados e também o ensino a distância que se efetivou após um longo período de suspensão dos cursos presenciais por várias universidades e centros de formação, quarentena, restrições de viagem não essenciais, fechamento das fronteiras, o programa de auxílio emergencial levando em consideração os necessitados e as pessoas afetadas economicamente pela pandemia que hoje se tornou auxílio Brasil, dentre outras.
A grande dificuldade foi a adaptação da população a essas múltiplas medidas paliativas. Uma campanha agressiva de conscientização e propaganda era necessária para uma conscientização efetiva. Note-se que havia muitas pessoas, inclusive os governantes, que eram contra as medidas de quarentena, e também as vacinas. Que, aliás, dificultou a gestão da pandemia no Brasil.
Mas graças aos avanços da medicina e dos cientistas, surgiram as primeiras vacinas aprovadas pela Organização Mundial da Saúde, notadamente a do Reino Unido no dia 8 de dezembro de 2020 aprovada pela OMS para uso emergencial. Seguiram-se então outras vacinas testadas e aprovadas. Vários países, inclusive o Brasil, lançaram vastas campanhas de vacinação, o que também possibilitou conter a pandemia em muitos países e, assim, reduzir consideravelmente o número de casos positivos e de mortes diárias. Para tanto, segundo os dados recolhidos no portal das secretarias estaduais de saúde, 518.518.208 (quinhentos e dezoito milhões e quinhentos e dezoitomil e duzentos e oito) doses no total foram administradas no Brasil até o dia 02 de abril de 2024 às 06:01:10, levando em conta um total de 175.286.048 (cento e setenta e quinze milhões duzentose oitenta e seis mil quarenta e oito) de pessoas vacinadas no território nacional representando 81,41 %9 da população brasileira. (veja o gráfico abaixo)
Grafica 5: Dados de vacinação no Brasil atualizados no dia 02/04/2024
A partir deste gráfico é fácil observar o esforço de todas as autoridades sanitárias do Brasil para uma boa cobertura vacinal para poder controlar a pandemia do coronavírus. No entanto, o surgimento de diferentes vacinas, embora não tenham reduzido o contágio e o número de mortes por COVID-19 por pouco tempo, também dificultou o sistema de saúde e os esforços dos governantes com o aparecimento sucessivo de diferentes variantes do vírus SARS-CoV-2. Hoje em dia , vários esforços foram feitos para facilitar a vida das pessoas, mas observe que, embora não se tenha mais uma pandemia, o contágio continua porque ainda existem subtipos de virus da COVID-19.
CAPITULO 3: TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
3.1. Histórico e Evolução da Teoria das Representações Sociais
Desde sua formulação inicial, a Teoria das Representações Sociais (TRS), Moscovici, 1961, experimentou notável crescimento em todo o mundo e hoje constitui uma teoria importante dentro do campo disciplinar da psicologia social. No entanto, devido às diferentes orientações desenvolvidas dentro desta teoria, sua disseminação e sucesso foram em grande parte para além dos limites desta disciplina sendo utilizada amplamente na área de pesquisas em educação, saúde e organizações. Este capítulo propõe-se traçar os contornos da TRS, oferecendo um panorama das diferentes orientações que viu nascer, das aplicações à que tem sido sujeita e das metodologias que utiliza e que ela cunhou.
Segundo Jodelet: ‘’as representações sociais são uma modalidade de conhecimentos, socialmente elaborada e compartilhada, com o objetivo prático que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social’’. (2001, p. 36). Nessa perspectiva, as representações sociais não são simples universos de opiniões, mas sim pensamentos sociais criados e estruturados a partir das necessidades de um grupo.
O conceito da representação já era utilizado pelo sociologo francês Durkheim (1898). Ele propôs então a noção de representação coletiva para explicar vários fenômenos sociológicos. Segundo Durkheim, a sociedade forma um conjunto, uma entidade epistemológica, diferente da simples soma dos indivíduos que a compõem. Falando da representação coletiva, Durkheim traz a ideia que a representação coletiva apresenta modos de pensar e agir ao indivíduo e se materializa nas instituições sociais por meio de normas sociais, morais e jurídicas. Portanto, Durkheim enfatiza a importância dos elementos sociais no pensamento e no comportamento.
Em 1961, por ocasião da sua tese de doutorado em que estudou as representações sociais da psicanálise em Paris, Moscovici retomou as representações coletivas a partir das conquistas de Durkheim. Assim cunhou a teoria das representações sociais que, segundo ele, são formas ingênuas de conhecimento, destinadas a organizar, conduzir e orientar as comunicações no cotidiano. Ou seja, diferente de representações coletivas rígidas e tradicionais, as representações sociais são adaptáveis ao tempo presente e ao senso comum. Este conhecimento natural constitui as especificidades dos grupos sociais que o produziram. A tese de doutorado de Moscovici foi posteriormente publicada no livro, La psychanalyse etson image de 1961. Jodelet ainda complementa sobre representações sociais:
Como fenômenos cognitivos, elas combinam pertencimento social dos indivíduos a implicações emocionais e normativas, a internalização de experiências, práticas, padrões de comportamento e pensamentos socialmente inculcados ou transmitidos pelos meios de comunicação sociais. Por essa razão, seu estudo constitui uma contribuição decisiva para a aproximação da vida mental individual e coletiva. (JODELET, 2001, p. 22).
Segundo Abric, (1987) as representações sociais são o produto e o processo de uma atividade mental pela qual um indivíduo ou grupo reconstitui a realidade com a qual é confrontado e lhe dá um significado específico. Dito isso, são três os principais aspectos característicos e independentes que emergem dos constituintes da TRS: a comunicação, a reconstrução da realidade e o controle do meio ambiente.
a comunicação: Uma vez que as representações sociais oferecem às pessoas, um código para as suas trocas e um código para nomear e classificar de forma inequívoca as partes do seu mundo e da sua história individual ou coletiva. Para Moscovici (1961), a comunicação revela-se, portanto, um fator muito importante na construção de uma representação social, na medida em que serve de ponte entre as divergências dos indivíduos na sociedade.
a reconstrução da realidade: As representações sociais guiam-nos na forma de nomear e definir juntos os diferentes aspectos da nossa realidade quotidiana; na forma de interpretá-los, de pronunciá-los e, se for caso disso, de se posicionar a seu respeito e de defendê-la, que, para Jodelet (1992) nos orienta e influencia nosso posicionamento em relação a um fato e direciona nossa forma de interpretar esse fato.
o domínio do meio ambiente pelo sujeito: Todas essas representações ou conhecimentos práticos permitem que os humanos se situem em seu meio ambiente e o controlem. Esta é uma dimensão mais concreta do que as anteriores, pois o domínio do meio ambiente nos remete em parte à utilidade social da noção de representação. Mas seria errado pensar que essa elaboração do agora, do imediato, se constitui isoladamente do passado. Assim, as representações sociais atuais estão sempre em dívida com um ‘’antes’’ do qual extraem significados e que se transforma em relação às questões contemporâneas levantadas pelo objeto. De acordo com Rouquette (1994, p. 179):
A propriedade fundamental de uma representação social é de ser histórica. Isso significa, por um lado, que procede da história entendida como devir das sociedades, por outro, que ela mesma tem uma história entendida como um desenvolvimento lógico-temporal que basicamente articula gênese, transformação e declínio. A representação é, portanto, um produto do devir e um produto em devir; mudança não é um acidente para ela, é em sua essência / [...] /. (tradução nossa)10
Ao analisar o pensamento deste autor, podemos compreender que definir uma representação seria antes de tudo referir-se a ela num momento especifico do tempo, porque não podemos negar-lhe do seu estado inicial. No mesmo sentido, Rouquette (1997, p. 90), pontua que as representações sociais são ‘’tanto o resultado quanto o momento de uma história; que se refere, por um lado, à sua gênese e, por outro, à sua própria transcendência, e que não é totalmente inteligível se o abstrairmos dessa dialética‘’. De fato, os processos em funcionamento na gênese das representações sociais são marcados tanto pelos acontecimentos atuais da sociedade quanto por sua história (ROUSSIAU & BONARDI, 2002).
O surgimento gradual de uma representação, que ocorre de forma espontânea, baseia-se, portanto, em três ordens de fenômenos que constituem as condições para o seu surgimento: a dispersão da informação, o enfoque e a pressão à inferência. Mas esses próprios fenômenos se desenvolvem contra a teia de fundo de dois processos principais definidos por Moscovici: objetificação e ancoragem. Moscovici (1976, p. 56) acredita que esse processo participa da reconstrução do objeto. De acordo com ele:
/ [...] /representar uma coisa, um estado não são na verdade simplesmente duplicá-la, repeti-la ou reproduzi-la, é reconstituí-la, retocá-la, mudar o texto dela
A partir desse pensamento, segue-se claramente que uma representação social sempre parece ser inovadora e persistente, fluída e rígida. Assim, para entender a aplicabilidade da TRS, poderíamos tentar fazer um inventário das pesquisas que o mobilizaram. Veríamos então que muitas questões sociais foram abordadas por este meio em campos tão diversos como os da saúde, educação, economia, marketing, meio ambiente ou a relação com as novas tecnologias. A lista não é exaustiva. Em soma, a TRS é uma teoria flexível e adaptável, é uma teoria psicossocial do senso comum, e que impulsionou o desenvolvimento de pesquisas em várias áreas.
No entanto, a contribuição da TRS em nossa pesquisa nos permitira analisar as complexas interações que estão em jogo nas situações educacionais, com os sistemas de crenças e valores mobilizados pelos grupos sociais presentes, correspondendo aos fundamentos das representações sociais. Por outro lado, a mudança é uma característica essencial da educação, é o objetivo de toda ação educativa. É também um ponto central da teoria das representações sociais, notadamente com a articulação entre práticas e representações sociais. Como Garnier e Rouquette especificam:
A complexidade do objeto da educação torna-o um campo que se apoia simultaneamente em várias disciplinas; na verdade, é uma área por excelência da interdisciplinaridade e o conceito de representação social responde, através do seu desenvolvimento científico, de forma original a esta posição epistemológica. (Garnier, C., & Rouquette, M. L. 2000), (tradução nossa)11.
Portanto, os problemas de fracasso e evasão extrapolam o sistema educacional, passam a integrar dimensões sociais, mas também a transformação destas, decorrente da evolução da sociedade. Esta situação puxa o sistema educacional em seu rastro, oferecendo-lhe novos desafios. Podemos, então, considerar que a universidade é um relevante objeto de estudo da representação social e pode fornecer elementos que facilitem a compreensão do funcionamento psicossociológico dos grupos presentes. Trata-se, portanto, de ver o posicionamento dos grupos sociais em relação à universidade justamente no contexto da pandemia da COVID-19.
3.2. A Teoria do Núcleo Central
A ideia fundamental da teoria do núcleo central é que no conjunto de cognições relativas a um objeto de representação, certos elementos desempenham um papel diferente de outros. Esses elementos chamados elementos centrais são agrupados em uma estrutura chamada “núcleo central” ou “núcleo estruturante”. Esta pesquisa pretende então adotar a abordagem de Abric (1976, 1987, 1994) que mostrou que quando nos interessamos pelos elementos de uma representação social, alguns são mais importantes do que outros, pois são geradores de significado, de senso e garantem uma função organizadora na representação. Esta teoria, que postula que uma representação social é organizada em torno de um sistema duplo de núcleo central e sistema periférico, baseia-se no fato de que uma representação social é:
uma manifestação do pensamento social e que, em todo pensamento social, certo número de crenças geradas coletivamente e historicamente determinadas não podem ser postas em causa porque são as fundações dos modos de vida e organizam a identidade e a sustentabilidade de um grupo social. (Abric, 2001, p. 83), (tradução nossa)12
Abric (1994b, p.19) volta às origens da ideia de ‘’centralidade’’ ou ‘’núcleo’’, especificando que Heider (1927) e Asch (1946) destacaram o papel central desempenhado por certos elementos: um traço de caráter na percepção de um suposto indivíduo descrito por sete traços por Asch e um núcleo unitário carregando causalidade nos fenômenos de atribuição para Heider. Segundo Abric, a teoria do núcleo central baseia-se em parte no conceito de núcleo figurativo do trabalho de Moscovici (1961) sobre a psicanálise. Este núcleo figurativo, esquematização da psicanálise, resultante do processo de objetivação é ‘’um núcleo simples, concreto, colorido e coerente, corresponde também ao sistema de valores a que o indivíduo se refere, ou seja, carrega a marca da cultura e das normas sociais circundantes’’ (Abric, Idem, p.21). Abaixo a figura e tabela explicativas da teoria do nucle central.
Figura 1: O conteúdo e o funcionamento do núcleo central
Tabela 3: Características e funções diferenciais de cada um dos sistemas de representação
Sistema central Ligado à memória coletiva e à história do grupo,consensual, define a homogeneidade do grupo, estável, coerente, rígido. | Sistema periférico Permite a integração das experiências e histórias individuais, suporta a heterogeneidadedo grupo, flexível, suporta contradições. |
Sistema periférico Permite a integração das experiências e histórias individuais, suporta a heterogeneidade do grupo, flexível, suporta contradições. | Sistema periférico Permite a integração das experiências e histórias individuais, suporta a heterogeneidadedo grupo, flexível, suporta contradições. |
Fonte: Abric, (1994b, p.80, apud SÁ, 1996, p.74.)
Além das funções organizadoras e geradoras de sentido, o núcleo central de uma representação social é caracterizado por três outras funções: (1) a construção da base comum, propriamente social e coletiva, que define a homogeneidade de um grupo; (2) a definição dos principais fundamentos em torno dos quais se constituem as representações; e (3) a estabilidade e consistência da representação. Assim, o núcleo central pode ser considerado singular dentro do intragrupo, pois corresponde ao que os membros de um grupo compartilham em relação ao significado que deve ser atribuído a um determinado objeto social. É, portanto, essa homogeneidade dentro do mesmo grupo que confere ao núcleo central estabilidade e evolução lenta. No entanto, mudanças bruscas podem, por sua vez, desequilibrar o consenso do grupo em relação ao objeto da representação, bem como a estabilidade da identidade do grupo. É por isso que podemos observar que indivíduos que compartilham a mesma representação organizada em torno de um mesmo núcleo central, às vezes possuem práticas significativamente diferentes. De fato, ‘’cada grupo opta por reconstruir a realidade social de uma forma compatível com seus valores e interesses’’ (tradução nossa)13 (MOLINER, 2001, p. 34), pois como observa Rouquette (1997), as representações sociais contribuem a manter o consenso intragrupo.
3.3. Estudo de Representações Sociais da COVID-19
Apesar da COVID-19 ser uma temática recente, ela influenciou muitas pesquisas e despertou a curiosidade de vários pesquisadores. Um dos motivos fundamentais é que a COVID-19 não era conhecida de todos e para alguns ainda era um mito, transformando-a em um fenômeno não familiar ou não conhecido. Com isso, a COVID-19 tornou-se um objeto de representações sociais então um fenómeno psicossocial que tem interpelado os pesquisadores por seu papel social. Nesses últimos dois anos, vários pesquisadores têm realizado estudos de representações sociais da COVID-19 levando em conta públicos-alvo, cujo objetivo é compreender como esses se apropriam das informações veiculadas sobre o novo coronavírus e a pandemia desde a sua gênese, os devidos tratamentos e as medidas de proteção individual e coletiva.
A compreensão da COVID-19 e o mal-estar decorrente da COVID-19, leva nos a entender o papel que a mídia tem desempenhado na divulgação de informações, o que supõe que vários são os brasileiros que tomaram conhecimento da pandemia através das mídias e construíram uma certa representação com base nas informações tanto formais quanto informais espalhadas pelas mídias. A principal idéia circulante foi que a COVID-19 é resultante de um vírusde origem chinês e que possui alta capacidade de disseminação, característica importante na instituição da pandemia. Nesse caso, as mídias podem ter participação na forma que os brasileiros criaram e espalharam representações sobre a COVID-19. No entanto, aqueles cujos pais ou eles próprios foram infectados e que o vivenciaram de perto também construíram uma representação da COVID-19 que compara a doença a da gripe por terem sintomas semelhantes. (Pinto, Coelho & Caputo, 2021)
Nota-se que as representações sociais são consideradas como princípios que organizam as práticas sociais e as relações simbólicas entre as pessoas diante dos objetos sociais que as permeiam. (Doise, 2001; Moscovici, 2017). Assim, a partir dessa ideia, a representação passa por dois processos de natureza social e cognitiva: ancoragem e objetivação. A ancoragem permite que o indivíduo diante de um objeto desconhecido (a COVID-19) busque em sua memória conteúdos, acontecimentos e pessoas que conhece e transformá-los em um ideal, comparando-os ao novo elemento que é desafiado. Então, na ancoragem, o novo elemento é assimilado ao existente. Por sua vez, no processo de objetivação, reproduz-se um conceito desconhecido da realidade, transferindo-a para um nível concreto, visível e tangível. Assim um estudo sobre as representações e ancoragens do novo coronavírus e o tratamento da COVID-19 por brasileiros cujo objetivo foi compreender a gênese das representações sociais do novo corona vírus, bem como o tratamento da COVID-19, considerando as diferentes ancoragens sociais, revela que as representações sociais da COVID-19 estão ancoradas em sensação de preocupação em relação à disseminação do vírus e ao estado emocional. O tratamento para o COVID-19 foi por muita gente, portanto, por automedicação de acordo com os sintomas dos casos declarados. Assim pesquisas realizadas têm sugerido que o medo de ser infectado por um vírus potencialmente fatal, de rápida disseminação, cujas origens, natureza e curso ainda são pouco conhecidos, acaba por afetar o bem-estar psicológico de muitas pessoas (ASMUNDSON; TAYLOR, 2020; CARVALHO ET AL., 2020). Sintomas de depressão, ansiedade e estresse diante da pandemia têm sido identificados na população geral (WANG ET AL., 2020).
Conforme indicado no segundo capítulo sobre a COVID-19, uma das medidas paliativas que têm vindo a ser adotadas e fortemente recomendadas pelos sistemas de saúde e em particular pela Organização Mundial de Saúde (OMS) com o objetivo de reduzir o contágio e a propagação do novo coronavírus, foi o uso de máscaras. As máscaras, segundo a OMS, devem ser usadas como parte de uma estratégia abrangente de medidas para interromper a transmissão e salvar vidas. Em alguns países chegou-se a falar em obrigação sob pena de pagamento de multa.
Todo esse discurso, ainda que com respaldo da OMS, não foi feito sem polêmica. Grupos sociais, que depois vieram a ser chamados de negacionistas, duvidavam da eficácia das medidas adotadas pelos governos e pela OMS para o combate da pandemia. Por isso muitas polêmicas foram de fato abordadas em todo o mundo. Um estudo realizado sobre o uso de máscaras intitulado: ‘’A máscara salva”: representações sociais da pandemia de covid-19 por meio dos desenhos de crianças cariocas (ALVARO et al., 2021) cujo objetivo foi analisar a percepção das crianças sobre o SARS-CoV-2, a covid-19 e os vírus em geral” (ALVARO et al., 2021, p. 3), tendo como público-alvo as crianças do Rio de janeiro (Brasil) na faixa etária de 8 e 10 anos, revelou que crianças mostraram-se cautelosas com a pandemia devido ao reconhecimento da importância do distanciamento social, uso de máscaras e higiene. O que leva a entender claramente que a COVID-19 impactou também emocionalmente a rotina das crianças devido as medidas de combate à pandemia que foram tomadas. O facto de estar longe dos colegas, dos professores e reclusos em casa para assistir as aulas e fazer deveres com uma tela fez que eles sentissem angústia, tristeza e raiva por conta da pandemia da COVID-19 (ALVARO et al., 2021).
Além disso, é importante lembrar que, com o advento da COVID-19, as pessoas com sistema imunológico debilitado ficaram mais preocupadas com o fato de correrem o risco de comorbidade. Nesta longa lista podemos citar: pessoas que sofrem de pressão arterial, diabetes, HIV, câncer dentre outros. Com base nisso, um estudo intitulado, ‘’Jovens em tratamento oncológico durante a COVID-19: indicadores da representação social do coronavírus (SILVA et al., 2021), teve como objetivo compreender indicadores da representação social do corona vírus em jovens em tratamento oncológico durante a pandemia da COVID-19 (SILVA et al., 2021, p. 197), levando em consideração as pessoas em tratamento, ou com o tratamento recém-finalizado, para o câncer em hospitais pernambucanos, na faixa etária de 18 a 24 anos. O estudo apontou que os participantes mostravam certo receio e medo em relação à exposição à covid-19, associada à imunossupressão causada pelo tratamento oncológico. Um público relativamente vulnerável que já enfrenta muitos problemas no processo de tratamento deve se acostumar a uma rotina mais restrita. O facto de estarem permanente no hospital por causa de tratamento correndo o risco de contagio da COVID-19 acaba gerando um sentimento de medo e consternação na vida desses pacientes.
De todo o exposto, depreende-se dos vários estudos acima citados sobre as representações sociais da COVID-19 que os públicos-alvo tiveram várias representações da COVID-19 em função dos canais de informação, através das mídias, as plataformas de comunicação de massa, as redes sociais, que incluiam informações advindas do universo reificado e do campo científico como também as chamadas “Fakes News” oriundas de grupos políticos e ideológicos dedicados a confrontar o discurso oficial. Além, é claro, das próprias vivências pessoais e coletivas. Assim, o medo de contrair a COVID-19 acabou causando em muitas pessoas um desequilíbrio emocional e fenômenos relacionados, cuja lista está longe de ser exaustiva.
Utilizando a teoria das representações sociais e a partir das revisões bibliográficas apresentadas, apresentararemos o estudo empírico realizado no universo universitário brasileiro tanto na rede publíca quanto privada.
CAPITULO 4: MÉTODO DE PESQUISA
4.1. Participantes
A amostra de estudo é composta por 134 alunos, ambos do curso de graduação e de pós-graduação que tiveram pelo menos dois períodos cursados durante a fase mais grave da pandemia da COVID-19.
4.2. Instrumento e procedimentos de coleta
Esta pesquisa foi submetida a plataforma Brasil e foi aprovada pelo comitê de ética do hospital geral de Nova Iguaçu (HGNI) conforme o parecer CAAE: 69723823.3.0000.5254 Número do Parecer: 6.318.013.
No que concerne a coleta de dados, esta pesquisa utilizou as seguintes ferramentas:
Questionário eletrônico de levantamento (disponível em formato Google forms para coleta remota de dados) que facilitou a coleta das informações em tempo real com uma tarefa de evocação livre e perguntas abertas. O procedimento da coleta com os universitários foi feito por distribuição nas redes sociais e também na rede de conhecimento dos membros do Laboratório de Pesquisa em Psicologia Social (LAPPSO) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Análise de documentos (sites, softwares, revistas, jornais, livros e relatórios, leis, regulamentos, decretos, regras e normas técnicas);
O formulário eletrônico para coleta de dados continha ao total quatorze (14) perguntas classificadas em três categorias. A primeira categoria trata da caracterização do público alvo com cinco (05) perguntas para fim de recolher os dados sociodemográficos dos respondentes. Assim os participantes começavam informando a idade, o gênero, a escolaridade, a rede de estudo e o estado em que estuda.
A segunda categoria trata da contextualização do objeto de estudo. Nessa seção os participantes foram submetidos a uma tarefa de evocação livre na qual foi pedido para eles darem cincos (05) palavras que vêm imediatamente na mente ao ouvir a seguinte frase: ‘’SER ESTUDANTE NA PANDEMIA DA COVID-19’’.
A terceira e última categoria é composta por oito (08) perguntas abertas com algumas com direitos de responder por SIM ou NÃO e outras com direito de responder dando sua opinião em formato de frase. As perguntas abertas foram formuladas da seguinte forma:
Quantos períodos você chegou a cursar durante a pandemia de COVID-19?
Como se adaptou ao ensino remoto?
Você conhece alguém que desistiu do curso durante a pandemia?
Você conhece alguém que trancou uma ou mais disciplina durante a pandemia?
Sabe o que levou ele/ela a desistir do curso ou a trancar a disciplina?
Você já pensou em algum momento em desistir durante a pandemia da covid-19?
O que te levaria a desistir?
Conte em algumas linhas qual foi o impacto da pandemia da COVID-19 na sua vida.
4.3. Técnica de análise de dados
Os dados recolhidos da tarefa de evocação livre foram trabalhados pelo software Iramuteq que deu apoio na construção do quadro de quatro casas e análise de similitude da tarefa de evocação livre. Assim, a análise se baseou na teoria das representações sociais que nos permitiu identificar os elementos centrais e os periféricos para uma interpretação dos dados coletados e que se comunicaram com a revisão de literatura feita nos capítulos teóricos. Os dados oriundos das perguntas abertas tiveram como estratégia de análise dos dados a transcrição dos dados qualitativos em grelha de análise, para codificar e processar as informações recolhidas através da técnica de análise temática de conteúdo da Bardin (1990).
CAPITULO 5: RESULTADOS E DISCUSSÃO
Caracterização da amostra:
Gráfica 6: Faixa etária dos participantes
A maioria dos participantes tem entre 18 e 30 anos, em seguida , 31 a 40 anos e por fim a faixa etária de 41 a 60 anos que compõem menos participantes.
Gráfica 7: Gênero dos participantes
A maioria dos participantes da pesquisa se declarou do sexo feminino com uma porcentagem de 61,9%.
Gráfica 8: Escolaridade dos participantes
57,5% dos entrevistados são de curso de graduação e 42,5% da pós-graduação, dando a maior porcentagem aos entrevistados de curso de graduação.
Gráfica 9: Rede de estudos dos participantes
Esta pesquisa incluiu tanto os alunos das universidades da rede pública quanto da rede privada. Assim, 82,1% dos entrevistados da pesquisa vêm da rede pública e 17,9% vêm da rede privada.
Gráfica 10: Estado onde estuda
Nesta pesquisa conseguimos entrevistar alunos em nove (09) estados do Brasil (Rio de janeiro, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santos, Piauí, Roraima, Pará, Rio Grande do Sul e São Paulo). A maioria dos participantes vem do estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Contextualização do Objeto de Estudo
1. Análise prototípica
A análise prototípica desenvolvida por Pierre Vergès é uma interpretação dos processos de categorização e classificação e permite-nos conceptualizar a emergência de categorias e representações sociais que ganham significado para as pessoas, no que diz respeito ao significado funcional dos diferentes “objetos” e às reações que provocam. Ela é um método descritivo que consiste em cruzar a frequência de aparecimento e a classificação média de importância de cada elemento para obter uma identificação inicial da organização estrutural da representação social pela distinção de quatro zonas (Abric, 2005).
Essa técnica de análise utilizada na Teoria das Representações Sociais busca identificar os elementos centrais e periféricos presentes nas representações sociais de um determinado fenômeno, Jodelet (2001). O protótipo é o modelo ou o “tipo ideal” que condensa o significado de uma categoria, ele é o elemento mais representativo possuindo características mais consensuais e é facilmente reconhecido pelos indivíduos desta categoria. Isso resulta então na definição de um protótipo como sendo um conjunto abstrato de caracteres geralmente associados a membros de uma categoria. No entanto, o sistema periférico composto por elementos periféricos prescreve práticas em relação ao objeto, mas essas prescrições podem variar dependendo do contexto e dos membros do grupo. Os elementos periféricos garantem, portanto, a inscrição da representação na realidade concreta e autorizam diversas individualizações desta representação. Eles são aqueles que têm menor consenso e menor frequência de evocação ao comparar aos elementos centrais. É por isso que podemos observar que indivíduos que partilham a mesma representação organizada em torno do mesmo núcleo central têm por vezes práticas significativamente diferentes.
Portanto a análise prototípica sendo uma das técnicas mais difundidas para caracterização estrutural de uma representação social foi a escolhida no presente estudo. pois oferece uma visão particular que favorece uma melhor compreensão da dinâmica social envolvida nas questões relevantes da sociedade. Já que, segundo Jodelet (2001) é ‘’uma forma de conhecimento, socialmente desenvolvida e partilhada, com finalidade prática e que contribui para a construção de uma realidade comum a um grupo social’’
Figura 2: Análise prototípica da questão de evocação livre do termo indutor: ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’.
Ordem Média de Evocação = 2,6 | |||||
ELEMENTOS CENTRAIS Problemas psicológicos Desafiador Ead Medo Cansaço |
55 47 42 30 23 |
2,6 1,9 2,0 2,6 2,6 | PRIMEIRA PERIFERIA Falta de motivação |
32 |
3,1 |
ZONA INTERMEDIÁRIA (CONTRASTE) Estresse Insegurança Adaptação Frequência Mínima: 19,61 | 19 12 7 | 2,4 2,6 2,4 | SEGUNDA PERIFERIA solidão Isolamento Remota Tristeza Incerteza Casa Rec. tecnológicos Desespero Péssimo |
16 15 11 10 8 7 7 6 6 |
2,8 3,3 4,1 2,9 3,0 3,0 2,9 3,7 3,0 |
Fonte: Elaborado pelo autor
Nesta pesquisa, a tarefa de evocação livre objetivou identificar 05 palavras que vêm à mente dos participantes ao pensar no termo indutor: ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’. A análise desta tarefa iniciou-se agrupando algumas expressões por sinônimos ou que carregavam alguns sentidos similares, como por exemplo:
Problemas psicológicos: ansiedade, depressão, angústia, exaustão mental, exaustivo, pressão, agonia, transtornos mentais.
Desafiador: difícil, dificuldade, desafio, confusão, luta, trabalhoso.
Falta de motivação: desencorajamento, desânimo, preguiça, sem foco, procrastinação.
Recursos tecnológicos: Notebook, tecnologia, computador.
Estresse: Burnout, desgastante, desgaste, nervoso, nervosismo.
A análise prototípica do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’ nos deu o quadro de quatro casas organizadas por frequência e ordem média de evocação. Assim, é possível observar que os seguintes termos: ‘’problemas psicológicos’’, ‘’desafiador’’, ‘’EAD’’, ‘’medo’’ e ‘’cansaço’’ compõem provavelmente o núcleo central da representação social que os participantes da pesquisa têm do termo indutor: ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’. ‘’Problemas psicológicos’’ foi o elemento mais evocado pelos participantes da pesquisa o que explica a relevância desse problema durante a pandemia de COVID-19 e indica o quanto a saúde mental dos estudantes, antes já comprometida pela rotina de estudos, tem sido ainda mais afetada durante a pandemia de COVID-19, gerando diferentes sintomas psíquicos (Torres, A. G., Nolasco, L. E. L., de Oliveira, M. G. M. L., & Martins, A. M. 2021). O termo ‘’desafiador’’ se relaciona às dificuldades decorrentes do novo formato de ensino a distância (EAD) que também aparece no núcleo central com frequência. Sabe-se que já existia antes da pandemia o , mas durante esse período que as aulas presenciais foram suspensas, o formato EAD cresceu muito no país, pois foi uma das medidas adotadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) como alternativa para manter as aulas nas instituições de ensino que acabou gerando para os estudantes que não estavam acostumados a esse modo, várias dificuldades de adaptação e consequentemente se tornando um grande desafio.
O medo da transmissão e do contágio é uma das implicações afetivas que aparece na estrutura das Representações Sociais do novo coronavírus. O medo que o vírus provoca nas pessoas se deve porque a doença gera impactos na saúde física e causa sofrimento emocional (Ferreira de Almeida, R. M., Azevedo Queiroz, A. B., de Assunção Ferreira, M., & Celestino da Silva, R. 2021). Isso explica a presença com frequência considerável desse termo no núcleo central da representação social dos participantes desta pesquisa diante do termo indutor. Por fim, o termo ‘’cansaço’’ foi evocado também com muita frequência pelo fato de estar provavelmente ligado ao termo ‘’desafiador’’. As dificuldades sofridas pelos estudantes devido a COVID-19 podem causar para os mesmos, cansaço diante da rotina estudantil.
Na primeira periferia aparece o termo ‘’falta de motivação’’ que pode estar ligado aos elementos do núcleo central principalmente com os termos ‘’problemas psicológicos’’ e ‘’ desafiador’’. Esse termo aparece como característica dos estudantes que vivem sintomas psíquicos decorrentes de inumeráveis problemas psicológicos e também os desafios impostos por uma educação a distância durante a pandemia de COVID-19. Vários fatores da rotina podem levar uma pessoa a ter falta de motivação. É importante salientar que a falta de motivação é um sintoma comum da depressão, pode também estar relacionada com outros transtornos psicológicos, como a ansiedade.
Na análise prototípica do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’, os termos ‘’estresse’’, ‘’insegurança’’ e ‘’adaptação’ aparecem no quadrante inferior esquerdo e constituem a zona de contraste. Ela “comporta elementos que caracterizam variações da representação em função de subgrupos, sem, no entanto, modificar os elementos centrais e a própria representação, ou seja, denotam mudanças ou transição de uma representação social”, (Oliveira, D. D., Marques, S. C., Gomes, A. M. T., Teixeira, M. C. T. V., & Amaral, M. A. D. (2005).
Por fim, na segunda periferia da análise, foram identificados os termos ‘’solidão’’, ‘’isolamento’’, ‘’remoto’’, ‘’tristeza’’, ‘’incerteza’’, ‘’casa’’, ‘’recursos tecnológicos’’, ‘’desespero’’ e ‘’péssimo’’. Os termos solidão e isolamento que aparecem com mais frequência nessa periferia podem indicar a representação que os estudantes têm perante ao ensino online durante a pandemia de COVID-19. Em seguida, a presença frequente dos termos remoto, casa e recursos tecnológicos indica o quanto a tecnologia se fez muito presente e importante durante esse período e como a falta desta pode causar grande dificuldades de aprendizagem para os estudantes durante as aulas remotas. No entanto, a dificuldade de acesso à tecnologia, ainda presente em grande parte da nossa sociedade, é um dos pontos que contribui fortemente para o afastamento dos discentes do processo de formação e contribui para o afastamento observado entre as decisões e ações emergenciais adotadas pelas universidades públicas e pelas privadas, (Torres, A. C. M. ., Alves , L. R. G. ., & Costa , A. C. N. da. 2020). A tristeza, a incerteza, o desespero e péssimo são aspectos psicossociais que interferiram na vivência dos estudantes durante a pandemia de COVID-19 e se relacionam com a qualidade de vida que as aulas remotas proporcionaram para os estudantes durante esse período crítico.
2. Análise de similitude
A análise de similitude, (Flament 1986) é uma técnica utilizada nos estudos de representações sociais que nos permite averiguar as conexões que um determinado elemento da representação mantém com os outros elementos representacionais a partir da evocação de um termo indutor. Assim, conseguimos entender como se estrutura o pensamento do grupo em estudo através da relação entre as palavras evocadas e as suas conectividades em cada contexto.
Quanto mais espessa for a aresta entre elementos, maior o nível de conexão entre elementos do mesmo conjunto. Quanto maior o traço entre um elemento e outro, maior a sua conexão (Chaves, 2020 apud Marchand; Ratinaud, 2012, Flament, 1985, Pereira, 1997).
Figura 3: Analise de similitude do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’
Observa-se na analise de similitude da evocação do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’ a presença dos termos ‘’problemas psicologicos’’, ‘’desafiador’’, ‘’falta de motivação’’ e ‘’medo’’ como elementos centrais e organizadores. A presença desses eixos organizadores reforça a ideia do nucleo central presente no quadro de quatro casas. Os termos como ‘’solidão’’ e ‘’ead’’ aparecem também como provaveis elementos centrais.
Perguntas abertas:
O instrumento de coleta de dados nesta pesquisa contém nove (09) perguntas abertas. Algumas com possibilidade de responder por SIM ou NÃO e outras com possibilidade de responder com frases curtas ou até mesmo informar diretamente a resposta caso seja numérica. Assim, a primeira pergunta aberta está relacionada ao número de período cursado durante a pandemia de COVID-19.
Gráfica 11: Número de Períodos cursados durante a pandemia de COVID-19
A maior parte dos participante (74,63%) cursou entre 2 e 4 periodos durante a pandemia de COVID-19, em seguida 14,92 dos participantes cursou um periodo duarante a pandemia. 05,22% cursou zero período seguido de 4, 48% que cusou entre 5 a 6 períodos. E por fim 0,75% dos participantes cursou 7 períodos durante a pandmeia de COVID-19.
Gráfica 12: Adapatação ao ensino remoto
Esta pergunta teve como objetivo saber como os particpantes se adaptaram ao ensino remoto durante a pandemia da COVID-19. Tinha três opções de resposta. Responder por dificilmente, ou facilmente ou ainda ‘’outra’’ caso a adaptação nesse período não se encaixe nas duas primeiras opções. Assim, 52,2% dos particpantes declararam que a adaptação ao ensino remoto durante a pandemia da COVID-19 foi difícil, contra 34,3% que declararam que foi fácil a adaptação e a seguir 13,4% dos participantes escolheram nenhuma das duas opções.
Gráfica 13: Desistência do curso durante a pandemia
A maioria, 60% dos particpantes nesta pesquisa declararam conhecer alguem que desistiu do curso duranta a pandemia da COVID-19.
Gráfica 14: Trancamento de disciplinas durante a pandemia de COVID-19
A maioria, 57% dos participantes nesta pesquisa declararam conhecer alguém que trancou uma ou mais disciplinas durante a pandemia da COVID-19.
Gráfica 15: Pensar em desistir durante a pandemia de COVID-19
Devido a dificuldade de adaptação dos alunos ao ensino remoto, essa pergunta tem como objetivo em saber se apesar dessas dificuldades, os alunos já pensaram em desistir do curso durante a pandemia da COVID-19 mas a maioria, 57,5% dos participantes nesta pesquisa declarou que não pensou em momento algum em desistir do curso contra 42,5% dos participantes que declarou que já pensou em desistir do curso durante a pandemia.
Análise de conteúdo:
Nesta seção, Três questões abertas (as questões 10, 13 e 14) foram analisadas através do método da análise de conteúdo da Bardin (1990) que tem como objetivo apresentar uma apreciação crítica de análises de conteúdo como uma forma de tratamento em pesquisas qualitativas. Assim, os resultados das questões abertas foram categorizados por aproximações de significado e sentido de conteúdo, de acordo com a proposta da Bardin.
Tabela 4: Analise de conteúdo da questão 10: ‘’Sabe o que levou ele/ela a desistir do curso ou a trancar disciplina?’’
Categoria | Número de ocorrência | Percentagem % |
Não | 54 | 28,27% |
Ensino-aprendizagem | 30 | 15,71% |
Recursos | 28 | 14,66% |
Saúde | 25 | 13,09% |
Adaptação | 21 | 11% |
Motivação | 11 | 5,76% |
Trabalho | 09 | 4,71% |
Mudança | 06 | 3,14% |
Apoio | 04 | 2,09% |
Incerteza | 03 | 1,57% |
Total | 191 | 100% |
O objetivo desta questão é identificar os diferentes motivos que levaram os alunos a desistirem dos cursos durante a pandemia de COVID-19 já que a questão 9 tratou em saber se os participantes da pesquisa conhecem colegas que desistiram do curso nesse período. Registramos nesta questão 155 unidades de respostas e conseguimos agrupá-las em 10 categorias por aproximação de significado recorrendo-se a técnica de análise de conteúdo temática por frequência da seguinte forma: Não, recursos, adaptação, ensino-aprendizagem, saúde, motivação, trabalho, apoio, mudança e incerteza.
Categoria 1: Nâo
‘’Não conheço ninguem que desistiu’’.
‘’Não recordo’’.
‘’Nada’’.
Categoria 2: Respostas relacionadas ao ensino-aprendizagem
‘’Professores chatos, as aulas remotas eram péssimas e um ensino ruim’’.
‘’Medo de não ter um bom ensino’’.
‘’Baixa qualidade no ensino e dificuldades na aprendizagem’’.
‘’Porque ele não conseguia entender o curso, pois é estatística’’.
‘’Falta de preparo tanto dos professores quanto os nossos, e a preferencia de voltar após a pandemia’’.
‘’Sentiu que o curso não estava servindo’’.
‘’Ausência de estar na sala de aula e falta de práticas’’.
Categoria 3: Respostas relacionadas a recursos
‘’Falta de acesso a internet’’.
‘’Não tinha dinheiro para comprar notebook’’.
‘’Falta de recursos para sustentar as aulas remotas’’.
‘’Corte de bolsa’’.
‘’Dificuldades econômicas’’.
Categoria 4: Respostas relacionadas a saude
‘’problemas psicologicos’’ (angustias, ansiedade, depressão, exaustão, sobrecarga emocional...)
‘’Estresse’’.
‘’Saúde dos pais’’.
‘’Exaustão mental’’.
‘’Atravessamentos subjetivos bastante relacionados ao emocional’’.
‘’Perda de familiares devido a COVID-19’’.
‘’Medo de se expor e expor a familia a COVID-19’’.
Categoria 5: Respostas relavionadas a adaptação
‘’Dificuldades de locomoção para realizar as pesquisas na universidade’’.
‘’Dificuldade para compreender o novo formato digital’’.
‘’Não estava acostumado’’ .
‘’Eu mesmo, dificuldade na adaptação’’.
‘’Não se adaptou ao curso, desistência para tentar outro curso’’.
Categoria 6: Respostas relacionadas a motivação
‘’Falta de motivação’’.
‘’Dificuldade de concentração’’.
‘’Falta de disciplina em cumprir as atividades propostas’’.
‘’Não conseguir focar’’.
‘’Pouco incentivo’’.
Categoria 7: Respostas relacionadas a trabalho
‘’Ficou desempregado’’.
‘’A necessidade de trabalhar (na ocasião eu ainda estava na rede pública)’’.
‘’Precisou trabalhar para se sustentar’’.
‘’Entre trabalhar e estudar um curso mal adaptado para o EAD a pessoa escolheu trabalhar’’.
Categoria 8: Respostas relacionadas a mudança
‘’Mudança de emprego’’.
‘’Mudança de estado’’.
‘’A Passaram em outra faculdade’’.
Categoria 9: Respostas relacionadas a apoio
‘’Amparo assistencial da instituição’’.
‘’Falta de apoio da faculdade’’.
‘’Falta de uma estrutura adequada de apoio’’.
Categoria 10: Respostas relacionadas Incerteza
‘’Decidiu parar para ver até onde iria a situação da covid-19 para depois retomar algo’’.
‘’Incerteza durante a pandemia da covid-19’’.
A maior parte dos participantes nesta pesquisa com uma porcentagem de 28,27% das respostas afirmaram não conhecer particularmente os reais motivos que levaram os colegas e/ou conhecidos a desistirem dos cursos ou a trancarem disciplinas durante a pandemia de COVID-19. Mas em seguida as respostas relacionadas a ensino-aprendizagem foram maioria com 15,71% das respostas. Fundamentalmente a preocupação dos participantes relacionou-se a qualidade do ensino e da aprendizagem durante a pandemia de COVID-19, pois a pandemia de COVID-19 surpreendeu o mundo e nenhuma escola, centro de ensino e particularmente as Instituições de Ensino Superior no Brasil foram preparados por essa situação. O que com certeza gerou muitas dificuldades tanto para os professores quanto para os alunos. Esse despreparo acabou afetando a qualidade do ensino e da aprendizagem que levou muitos alunos a trancarem disciplinas ou até desistirem do curso. De acordo com (Gusso, H. L., Archer, A. B., Luiz, F. B., Sahão, F. T., Luca, G. G. D., Henklain, M. H. O., ... & Gonçalves, V. M. 2020), da suspensão das aulas presenciais nas universidades públicas e privadas decorreu a necessidade de desenvolvimento de maneiras alternativas de ensino, como as tentativas de adaptação e implementação de sistemas digitais. Essas tentativas, por sua vez, acabam por expor diversas (“novas”) problemáticas. Entre elas encontram-se: a baixa qualidade no ensino (resultante da falta de planejamento de atividades em “meios digitais”); a sobrecarga de trabalho atribuída aos professores e o descontentamento dos estudantes.
A questão de recursos foi levantada com insistência, especialmente no que diz respeito a falta de recurso financeiro e tecnológico (falta de acesso à internet, dificuldade de ter um notebook, espaço adequado, falta ou corte de bolsa de estudo) para sustentar as aulas remotas. Do total de casos de falta de recurso mencionado nas respostas, 14,66% constituem essa categoria. O surgimento da COVID-19 teve um impacto devastador na economia brasileira com fechamento de empresas, a restrição de ida e vinda dos cidadãos que de fato provocou a queda brusca da capacidade financeira e do poder aquisitivo dos povos e particularmente de famílias de baixa renda. Nesse mesmo tempo, pais de alunos e alunos tiveram que arcar com gastos extras com aquisição de material de apoio às aulas remotas. No Brasil, relatos sobre a alta quantidade de estudantes excluídos de acesso on-line pela falta de computadores ou de acesso à Internet, bem como sobre a falta de condições adequadas para estudo nas residências e a cronificação da situação socioeconômica das famílias brasileiras, destacam a dimensão e a complexidade do problema (TENENTE, 2020). Os alunos que antes da pandemia já tinham um problema crônico de acesso à tecnologia e internet encontram-se em situação de falta não somente por questão do problema existente, mas porque a pandemia de COVID-19 evidenciou mais essa precariedade. O que de fato motivou a desistência nos cursos e também o trancamento de disciplinas por muitos alunos durante esse período.
As respostas relacionadas à questão da saúde totalizam 13,09% e mostram o quanto as questões relacionadas à saúde impactaram os estudantes durante a pandemia de COVID-19 e foram motivos relevantes de desistência dos cursos e de trancamento de disciplinas. Nessa categoria, as respostas foram bem diversas. Vários participantes afirmam terem tido problemas psicológicos (depressão, exaustão mental, angústias, ansiedade, agonia, medo, pressão alta). O medo da transmissão e do contágio é uma das implicações afetivas que apareceu em várias respostas desta categoria. Também a morte de familiares foi um fator determinante. De acordo com um estudo desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), com participação de pesquisadores do IOC e da Universidade Federal Fluminense (UFF), 45% dos alunos foram diagnosticados com ansiedade generalizada e 17% com depressão durante o primeiro ano da pandemia. Além disso, mais de 60% relataram crises de ansiedade e dificuldade para dormir. A falta de motivação e problemas de concentração foram reportados por quase 80%, (Corrêa, R. P., Castro, H. C., Ferreira, R. R., Araújo-Jorge, T., & Stephens, P. R. S. 2022).
O que se explica com as próximas categorias relacionadas respectivamente a questão de adaptação, 11% das respostas e de motivação, 5,76% das respostas. As aulas remotas durante a pandemia da COVID-19 tornaram-se um grande desafio tanto para os professores quantos para os alunos, o que de fato diminui a motivação de muitos estudantes a seguirem com as aulas pois segundo os dados recolhidos nesta pesquisa, muitos dos participantes tiveram problemas sérios com a adaptação às aulas remotas, particularmente com matérias práticas que já de forma presencial eram muito difícil assimilar e essa dificuldade só piorou durante a pandemia com as aulas remotas. Segundo Nunes (2021), no seu trabalho sobre ‘’um olhar sobre a evasão de estudantes universitários durante os estudos remotos provocados pela pandemia do COVID-19’’, os resultados indicam que os estudantes estão cansados, ansiosos, estressados, desanimados, desmotivados e aprendendo menos. Muitos estudantes relacionam a falta de tempo como razão para a desistência, por trás dessa resposta revelam-se a sobrecarga de trabalho, as tarefas domésticas, mas esconde-se a falta de uma rotina de estudos.
A seguir, 4,7% das respostas se relacionam a questão de trabalho. Nessa categoria duas situações surgem. A primeira é a situação de desemprego de alguns alunos por causa das restrições que causaram o fechamento de empresas e consequentemente impactou diretamente a situação financeira de vários alunos da rede privada que pagavam os cursos e também dos alunos da rede pública sem bolsas que se sustentavam com a renda oriundo do trabalho. A segunda situação é uma escolha feita por vários alunos em deixarem as aulas para focar no trabalho e como afirmam alguns participantes, ‘’ Entre trabalhar e estudar um curso mal adaptado para o EAD a pessoa escolheu trabalhar’’.
O fechamento das universidades e as aulas remotas trouxeram para os alunos universitários várias mudanças como mudança de emprego, mudança de estado e mudança de curso e também de faculdade, o que explica a desistência de alguns alunos do curso. Nessa categoria totalizou-se 3,14% das respostas. E por fim as categorias de resposta relacionada a apoio e incerteza que totalizaram respectivamente 2,09% e 1,57% das respostas. Estudar nunca foi fácil e cursar uma faculdade sempre foi desafiador pros alunos. Durante o período da pandemia da COVID-19, muitos dos participantes nessa pesquisa afirmaram que se sentiram abandonados tanto pela universidade quanto pelos familiares. Um momento crítico durante o qual foi preciso ter um apoio, o que de fato deixou muitos alunos com sentimento de incerteza em continuarem as aulas já que bem no início da suspensão das aulas presenciais, não tinha nenhuma previsão para retorno.
Tabela 5: Análise de conteúdo da questão 13: ‘’O que te levaria a desistir do curso?‘’
Categoria | Número de ocorrência | Percentagem % |
Nada | 30 | 21,13% |
Adaptação | 24 | 16,90% |
Ensino-Aprendizagem | 19 | 13,38% |
Saúde | 18 | 12,68% |
Desinteresse | 15 | 10,56% |
Recursos | 13 | 9,15% |
Apoio | 10 | 7,04% |
Não pensei | 08 | 5,63% |
N/A | 05 | 3,52% |
Total | 142 | 100,00% |
Visto que a pergunta anterior procurou saber os diferente motivos que levaram colegas e amigos dos participantes desta pesquisa a desistirem do curso ou a trancarem disciplinas durante a pandemia da COVID-19, esta pergunta tem como objetivo de entender o que levaria os participantes desta pesquisa a fazerem o mesmo. A finalidade é identificar se existem mais motivos que não foram identificados na pergunta anterior ou mesmo se corroboram as respostas dadas referenciando os colegas. Considerando que algumas respostas se enquadram em mais de uma categoria, 05 foram consideradas como não avaliáveis (N/A). Assim, registramos nesta questão 137 unidades de respostas que foram agrupadas em 8 categorias por aproximação de significado recorrendo-se a técnica de análise de conteúdo temática por frequência da seguinte forma: nada, adaptação, Ensino-Aprendizagem, saúde, desinteresse, recursos, apoio, não pensei.
Categoria 1: Nada
‘’Não vou desistir porque nada pode me impedir de estudar’’
‘’Apesar de tudo sou obrigada a estudar’’
‘’Nada pois meu sonho de me garduar sempre falou mais alto’’.
Categoria 2: Adaptação
‘’Medo de não conseguir trabalho com a maternidade’’
‘’No meu caso ,eu tinha acabado de fazer o curso de português para estrangeiros então fazer aulas online para mim era dificil por dois motivos o primeiro eu nunca tinha feito aula online o segundo , eu mal entendia as pessoas presencialmente então imaginei como seria online’’.
‘’Não adaptação ao modelo de ensino’’.
Categoria 3: Ensino-Aprendizagem
‘’sobrecarga de trabalho acadêmico e muita cobrança’’
‘’Minha orientadora fez a vida dos orientandos um inferno durante o período remoto, creio que se continuar desse jeito desistiria do curso’’.
‘’A reprovação em disciplinas me levaria a desistir’’.’
‘’Absorção pedagógica e praticas, pois meu curso é muito mais pratico que teórico’’.’
‘’A falta de aulas práticas’’.
‘’difícil aprender, me sentir um futuro profissional da saúde ruim por não aprender o básico de maneira correta’’.
‘’Baixo contato com a aéra’’.
Categoria 4: Saúde
‘’Estresse e problemas psicológicos (anxiedade, depressão angustia...)’’.
‘’’problema de saude devido a COVID-19’’.
‘’O fato de me expor ao vírus e pegar a doença’’
‘’A morte de familiar me levaria a desistir’’.
Categoria 5: Desinteresse
‘’A falta de motivação’’.
‘’Incerteza do futuro e desinteresse no curso’’.
‘’Dificuldade de comunicação com alguns professores’’.
‘’Pouco incentivo, a falta de perspectiva e insegurança com relação ao futuro’’.
Categoria 6: Recursos
‘’Aspectos financeiros’’.
‘’A falta ou a corta de bolsa de estudo’’.
‘’A falta de recursos materiais e financeiros para conseguir acessar as aulas on-line’’.
Categoria 7: Apoio
‘’A falta de suporte da universidade’’.
‘’A falta de uma estrutura adequada’’.
‘’A falt de apoio’’.
Categoria 8: Não pensei
‘’Não pensei, porque trancar o curso não era uma opção para mim’’.
‘’Não pensei em desistir principalmente porque o meu laboratório não parou, apenas fixaram-se escalas e praticas de biossegurança’’.
‘’No meu caso, não pensei em desistir. Eu troquei de curso na faculdade que atualmente é o que eu sempre quis fazer, durante a pandemia pude desfrutar de muito autoconhecimento e por isso decidi fazer a troca do curso’’.
Nessa questão, a maior parte dos participantes desta pesquisa com uma porcentagem de 21,13% das respostas afirmaram que nada poderia levá-los a desistirem das aulas durante a pandemia de COVID-19 pois para alguns, apesar das dificuldades de adaptação e outros problemas decorrente da pandemia, nada podia os impedir de estudar . Para outros, o sonho de se formar sempre falou mais alto e daí são obrigados a estudar.
Em seguida, as categorias das respostas relacionadas a questão de adaptação com uma porcentagem de 16,90% e do ensino-aprendizagem com uma percentagem de 13,38%. Nesta análise, podemos observar que estas categorias se relacionam ao termo ‘’desafiador’’ que é um elemento central e organizador da análise de similitude da evocação do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’. Isso reforça a ideia pela qual no contexto da pandemia, a adaptação ao ensino remoto foi bem complicada para os discentes e poderia ser motivo de desistência dos cursos.
A questão da saúde foi identificada novamente como provável motivo de desistência dos cursos. Esta categoria totalizou 12,68% das respostas, a COVID-19 causou muitos sofrimentos para a população, particularmente aos estudantes no que diz respeito tanto à saúde física quanto à saúde mental. Os estudos encontrados relatam aumento nos sintomas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, ideação suicida e problemas de sono (Cobo, R., Vega, A., & García, D. 2020). Nesta categoria de saúde inclui-se também os casos de morte que tiveram impacto considerável na vida dos estudantes e como afirmou um participante, ‘’a morte de um familiar me levaria a desistir do curso’’.
A categoria relacionada ao desinteresse totalizou 10,56% das respostas e pode ser ligada também ao termo ‘’falta de motivação’’ que apareceu como elemento central na análise de similitude da evocação do termo indutor como elemento organizador. O que reforça a relevância desse termo como motivo que poderia levar os estudantes a desistirem do curso.
Diante de tantos problemas relacionados à saúde, os alunos relataram suas vivências e seus sentimentos diante de tal situação que assolou o Brasil e o mundo, como mudança de rotina, alterações do sono, desânimo para realizar atividades, falta do ambiente acadêmico e dos colegas, questões relacionadas ao produtivíssimo, receio pelos familiares grupo de risco, dentre outros, (Coelho, A. P. S., Oliveira, D. S., Fernandes, E. T. B. S., de Souza Santos, A. L., Rios, M. O., Fernandes, E. S. F., ... & Fernandes, T. S. S. 2020), uma situação que pode causa o desinteresse para os estudantes.
As categorias relacionadas a ‘’recursos’’ e ‘’apoio’’ totalizaram respectivamente 09,15% e 07,04% das respostas. Apesar de aparecerem com menor frequência ao comparar as outras respostas. A análise dessas categorias mostra também a força desses elementos como motivo de desistência dos cursos, pois os mesmos já foram identificados na pergunta anterior como motivo que levou os colegas e conhecidos dos participantes da pesquisa a desistirem dos cursos ou trancarem disciplinas. Por fim, a categoria dos participantes que apesar de todas as dificuldades não pensaram desistir dos cursos. Essa categoria totalizou 05,63% das respostas, bem menor, mas faz todo sentido para quem teve nesse período de COVID-19 várias condições reunidas para seguir com as aulas remotas.
Tabela 6: Análise de conteúdo da questão 14: ‘’Conte em algumas linhas qual foi o impacto da pandemia da COVID-19 na sua vida’’
Categoria | Número de ocorrência | Percentagem % |
Impacto negativo | 164 | 86,32% |
Impacto positivo | 26 | 13,68 |
Total | 190 | 100,00% |
Essa pergunta procurou entender como foi o impacto da pandemia de COVID-19 em relação aos projetos pessoais dos estudantes. A finalidade é identificar se existem alguns pontos positivos em meio a tantas dificuldades vividas pelos estudantes. Assim, registramos nesta questão 190 unidades de respostas que foram agrupadas em duas (02) categorias por aproximação de significado recorrendo-se a técnica de análise de conteúdo temática por frequência da seguinte forma: impacto negativo e impacto positivo.
Categoria 1: Impacto negativo
‘’Esgotamento mental relacionado a multitarefas por ser mãe, estudante e trabalhadora’’.
‘’Meus pais faleceram juntos de covid-19 e outros familiares na sequência. Foram 4 perdas em 1 ano’’.
‘’Foi realmente difícil, por mais que tenha conseguido realizar as tarefas durante o mestrado. Os acontecimentos que ocorreram durante o período levaram a comportamentos que refletem até hoje’’.
‘’Tive tanto impacto financeiro, mas o psicológico foi o mais grave ao meu vê, problemas psicológicos aumentaram, a sensação constante de incerteza no futuro’’.
‘’De começo eu não consegui entender, pra pobre não teve muito né, mas hoje consigo sentir me mais ansioso, ataques de pánico, acredito ser efeito da pandemia’’.
As sequelas psicológicas estão presentes até hoje. O medo de perder as pessoas, a ansiedade aumentou demais, pensamentos intrusivos/catastróficos começaram a aparecer com mais força após a pandemia da covid-19’’.
Categoria 2: Impacto positivo
‘’A pandemia impactou minha vida, inicialmente com a reflexão sobre as coisas que são importantes para mim, em termos de relacionamentos e trabalho, posteriormente de busca por desenvolvimento espiritual, e então como uma forma de ressignificar meu propósito, e ir em direção a ele, inclusive iniciando o mestrado, que surgiu desta inquietação’’.
‘’A pandemia teve impacto positivo, me permitiu ser aprovado facilmente nas matérias difícil do meu curso’’.
‘’De uma forma geral, me considero com sorte pois a pandemia me trouxe um beneficio positivo. Consegui adiantar os meus cursos fazendo aulas diversas vezes por dia. Super privilégio meu mas no geral, eu adiantei muito minha vida acadêmica’’.
‘’Foi um período de muito aprendizado e reflexão, e aprendi a valorizar ainda mais as coisas simples da vida. Apesar dos desafios, a pandemia também me proporcionou a oportunidade de me conectar comigo mesmo, minha família e amigos, de uma maneira mais profunda e significativa’’.
‘’A pandemia me ajudou bastante a planejar melhor o meu tempo e entender que além das aulas podemos fazer outras coisas proveitosas’’.
‘’O isolamento social me fez trocar de uma rotina extremamente corrida e agitada a uma rotina tranquila, a qual me fazia muito bem e gostava. Estudando, trabalhando, participando de projetos de extensão universitária, namorando’’.
A categoria relacionada ao impacto negativo, totalizou 86,32% das respostas sendo a maioria. A análise desta questão nos permitiu entender a natureza do impacto caracterizado em primeiro lugar pelas questões de saúde, particularmente no que diz respeito à saúde mental. Os participantes afirmaram ter tido muitos problemas psicológicos devido às suas vivências nesse período que envolve o medo de contágio, a perda de familiares e amigos, e o isolamento. E muitos ainda carregam as sequelas. Isso reforça a presença deste elemento no núcleo central da análise prototípica da evocação do termo indutor ‘’SER ESTUDANTE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19’’. Observaram-se reações emocionais descritas por estresse, ansiedade, luto, raiva e pânico, associadas à preocupação com o atraso das atividades acadêmicas e ao medo de adoecer (Gundim, V. A., da Encarnação, J. P., Santos, F. C., dos Santos, J. E., Vasconcellos, E. A., & de Souza, R. C. 2021). Em segundo lugar, observa-se o impacto financeiro por questão de perda de emprego, de bolsa, e falta de recurso para sustentar as aulas remotas, o que motivou a desistência dos cursos e trancamento de disciplinas durante a pandemia de COVID-19.
A segunda categoria relacionada ao impacto positivo, totalizou 13,68% das respostas, bem menor que a primeira, mas é importante para essa pesquisa. Sabendo que é notório as dificuldades vividas pelos estudantes durante a pandemia que acabou gerando um impacto negativo na vida dos mesmos, mas na análise desta questão percebe-se que a COVID-19 não impactou só negativamente a vida dos universitários, mas teve também segundo alguns relatos impacto positivo. Por exemplo, alguns estudantes relataram que conseguiram ser aprovados em disciplinas difíceis e que se fosse presencial seria difícil ou impossível passar nelas. O fato de estudar remotamente ajudou também vários estudantes a se reorganizar com a vida pessoal fazendo outras coisas fora de estudo que trouxeram muitos benefícios para eles. Além das dificuldades impostas pelo isolamento social, ajudou alguns estudantes a trocarem a rotina corrida e agitada por uma rotina mais tranquila.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pesquisar os aspectos psicossociais do impacto da pandemia de COVID-19 na vida dos universitários é muito importante para uma boa compreensão das dificuldades e desafios que a COVID-19 impôs aos estudantes e também ao sistema educativo em contexto de pandemia.
Assim, a contribuição da teoria das representações sociais em nossa pesquisa nos permitiu analisar as complexas interações que estão em jogo nas situações educacionais durante a pandemia de COVID-19 com os sistemas de crenças e valores mobilizados pelos grupos sociais presentes, correspondendo aos fundamentos das representações sociais.
Os resultados apontam, que as representações sociais dos universitários acerca das dificuldades enfrentadas na pandemia giram em torno de problemas e sofrimentos psicológicos e falta de estrutura para continuidade dos estudos. A universidade, segundo os estudantes, participantes desta pesquisa, não apresentou soluções efetivas para contornar os problemas relacionados às dificuldades em assistir as aulas remotas, lidar com as angústias de provas e prazos, mas reconhecem que esse foi um problema para todos, inclusive para os professores. Em vários relatos, surgiram também, a questão da falta de recurso tanto tecnológico quanto financeiro que foi motivo relevante na desistência dos cursos e de trancamento de disciplinas durante a pandemia de COVID-19.
À guisa de conclusão, é preciso ressaltar que apesar da covid-19 ser uma temática recente, ela influenciou muitas pesquisas e despertou a curiosidade de vários pesquisadores tornando-se um objeto de representações sociais emergente em nível mundial. Faz-se então, necessário futuras pesquisas, para entender como a pandemia ressignificou diversas camadas da vivência em sociedade.
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Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Psicologia, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPSI) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Orientadora: Luciene Alves Miguez Naiff
1 L’éducation est l'arme la plus puissante qui existe pour changer le monde
2 Chaque en enfant qu’on enseigne est un homme qu’on gagne / [...] / l’ignorance est la nuit qui commence l’abîme
3 Não se trata de, nesta postulação, focar apenas a relação direta e inequívoca da necessidade cada vez maior de escolaridade para inserção no mercado de trabalho. Os aspectos psicossociais e identitários são extremamente relevantes para se pensar o que afeta a vida escolar dos grupos sociais mais vulneráveis economicamente (NAIFF, 2005)
4 No primeiro trimestre de 2020, 40% dos brasileiros entre 22 e 25 anos com faculdade no currículo eram considerados sobre educados, revela um levantamento realizado pela consultoria I Dados. Ou seja, eram 525,2 mil jovens graduados que estavam em ocupações que não exigem ensino superior. Desde 2014, os jovens que entraram ou se formaram no ensino superior enfrentam um mercado de trabalho bastante fragilizado. Nesse período, entre 2015 e 2016, houve uma forte recessão provocada pelos vários desequilíbrios macroeconômicose pela turbulência política do governo Dilma Rousseff. Os anos seguintes foram de baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), insuficientes para recuperar todas as perdas da economia [...]
5 Em 2019, cerca de 4,3 milhões de estudantes em todo o país não tinham acesso à internet, seja por razões econômicas ou indisponibilidade do serviço na área em que vivem. Desse total, 4,1 milhões são alunos da rede pública. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad) Contínua, que investigou no último trimestre de 2019 o acesso à Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). As informações foram divulgadas no dia 14 de março de 2021. Entre os principais motivos para alunos da rede pública não possuírem internet em casa estão o custo do serviço, falta de conhecimento sobre como usar e indisponibilidade do produto. “Considerando a rede de ensino, vimos algumas diferenças importantes. Enquanto os estudantes da rede privada, 98,4% utilizaram internet, entre os estudantes da rede pública o percentual era menor, 83.7%”, avalia a analista da Pnad Contínua TIC do IBGE, Alessandra Brito. [...]
6 les élèves des familles de la classe sociale aisée, sortis d’établissements secondaires privés où l’enseignement est plus complet et de bonne qualité, occupent en majorité les bancs des universités publiques. Des universités dont les frais d’inscriptions sont gratuits, d’où un examen d’entrée extrêmement difficile et um nombre de place limité. La conséquence de ce déséquilibre est que les jeunes issus de classes sociales défavorisées, sortis d’établissements secondaires publics, n’ont plus que la possibilité de poursuivre leur études dans les universités privées, où les frais d’inscriptions sont très élevé.
7 Os índices de evasão tendem a crescer por causa das condições econômicas. Então são fundamentais bolsas de permanência, como para alimentação, precisamos ampliar o volume de recursos destinados a esse mecanismo. A política de cotas garante pelo menos 50% de ingresso, então é necessário repensar essa política de forma mais ampla, fortalecendo a permanência com preservação da diversidade étnico-racial, permanência dos alunos com deficiência, e convivência das culturas de povos originários -- disse Gomes
8 ‘’La pandémie de COVID-19 a fait subir aux systèmes éducatifs un choc sans précédent dans l’histoire, bouleversant la vie de près de 1,6 milliard d’élèves et d’étudiants dans plus de 190 pays sur tous les continents. Les fermetures d’écoles et d’autres lieux d’apprentissage ont concerné 94 % dela population scolarisée mondiale, et jusqu’à 99 % dans les pays à faible revenu et à revenu intermédiaireinférieur’’
9 Ces données indiquent le nombre total de doses administrées sur l’ensemble du territoire Bréslien à la date du 05/09/2022. Plusieurs doses étant nécessaires pour certains vaccins, le nombre de personnes vaccinées est souvent moins élevé.
10 Une représentation sociale a pour propriété fondamentale d’être historique. Cela signifie, d’une part qu’elle procède de l’histoire entendue comme devenir des sociétés, d’autre part qu’elle a elle-même une histoire entendue comme développement logico temporel qui articule typiquement genèse, transformation et dépérissement. La représentation est ainsi à la fois un produit du devenir et un produit en devenir ; le changement n’est pas pour elleun accident, il appartient à son essence / [...] /
11 La complexité de l’objet de l’éducation en fait un champ qui s’appuie simultanément sur plusieurs disciplines; en fait, c’est un terrain, par excellence, de l’interdisciplinarité et le concept de représentation sociale répond, par son développement scientifique, de manière originale à cette position épistémologique. (op, cit. p. XVI)
12 Une manifestation de la pensée sociale et que, dans toute pensée sociale, un certain nombre de croyances collectivement engendrées et historiquement déterminées, ne peuvent être remises en question car elles sont les fondements des modes de vie et qu’elles organisent l’identité et la pérennité d’un groupe social. (Abric, 2001, p.83)
13 « chaque groupe choisit de reconstruire la réalité sociale sous une forme compatible avec ses valeurs et ses intérêts » (Moliner, 2001, p. 34)