AS RELAÇÕES AFETIVAS CONSTRUÍDAS PELA MENTE NO USO DA INTERNET E SUAS REPERCUSSÕES NO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE
PDF: Clique aqui
REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18561649
Thiago Inocêncio Trofelli1
RESUMO
As transformações tecnológicas decorrentes do avanço da internet têm impactado de maneira significativa a forma como os indivíduos constroem e vivenciam suas relações afetivas. No contexto da saúde mental, essas mudanças tornam-se especialmente relevantes quando associadas ao Transtorno de Personalidade Borderline, caracterizado por instabilidade emocional, medo intenso de abandono, impulsividade e dificuldades nos vínculos interpessoais. Este trabalho teve como objetivo analisar as relações afetivas construídas pela mente no uso da internet e suas repercussões no Transtorno de Personalidade Borderline, considerando os aspectos emocionais, subjetivos e psicossociais envolvidos. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica em estudos nacionais e internacionais. Os resultados evidenciam que o ambiente digital favorece processos de idealização, projeção e dependência emocional, intensificando padrões relacionais instáveis e ampliando o sofrimento psíquico de indivíduos com o transtorno. Conclui-se que a compreensão dessas dinâmicas é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de intervenção que promovam o uso mais consciente da internet, a regulação emocional e a construção de vínculos afetivos mais saudáveis.
Palavras-chave: Internet; Relações afetivas; Saúde mental; Subjetividade; Transtorno de Personalidade Borderline.
ABSTRACT
Technological advancements and the widespread use of the internet have significantly transformed the way individuals build and experience affective relationships. In the field of mental health, these changes are particularly relevant when associated with Borderline Personality Disorder, which is characterized by emotional instability, intense fear of abandonment, impulsivity, and difficulties in interpersonal relationships. This study aimed to analyze the affective relationships constructed by the mind through internet use and their repercussions on Borderline Personality Disorder, considering emotional, subjective, and psychosocial aspects. This is a qualitative study based on a bibliographic review of national and international scientific literature. The findings indicate that the digital environment fosters processes of idealization, projection, and emotional dependence, intensifying unstable relational patterns and increasing psychological distress among individuals with the disorder. It is concluded that understanding these dynamics is essential for developing intervention strategies that promote conscious internet use, emotional regulation, and healthier affective relationships.
Keywords: Affective relationships; Borderline personality disorder; Internet; Mental health; Subjectivity.
1. INTRODUÇÃO
O avanço das tecnologias digitais e a ampliação do acesso à internet têm provocado transformações profundas nas formas de interação social e na construção dos vínculos afetivos na contemporaneidade. As relações mediadas pelo ambiente virtual passaram a ocupar um lugar central na vida cotidiana, influenciando não apenas a maneira como os indivíduos se relacionam entre si, mas também como percebem a si mesmos e elaboram suas experiências emocionais. Nesse contexto, a internet apresenta um caráter ambíguo: ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de contato e pertencimento, favorece a construção de vínculos sustentados por idealizações, projeções e expectativas subjetivas, que nem sempre encontram correspondência na realidade concreta das interações presenciais. Esses fenômenos tornam-se particularmente relevantes quando analisados a partir da perspectiva da saúde mental e dos processos psíquicos envolvidos na formação dos laços afetivos (Turkle, 2011; Castells, 2010).
Entre os transtornos mentais mais sensíveis a essas dinâmicas relacionais instáveis destaca-se o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Caracterizado por instabilidade emocional, impulsividade, medo intenso de abandono e dificuldades persistentes na manutenção de relações interpessoais, o TPB envolve uma vivência afetiva marcada por intensidade e ambivalência. Indivíduos com esse transtorno tendem a oscilar rapidamente entre idealização e desvalorização das figuras significativas, apresentando elevada reatividade emocional diante de experiências relacionais. No ambiente virtual, onde o contato é mediado por representações simbólicas e pela ausência da presença física, tais oscilações podem ser intensificadas, ampliando conflitos emocionais e dificuldades nos vínculos afetivos (American Psychiatric Association, 2014; Gunderson, 2011).
O ambiente digital favorece a constituição de relações afetivas construídas predominantemente pela mente, uma vez que a comunicação textual ou imagética amplia os espaços para fantasias, expectativas e projeções emocionais. Para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline, essa configuração pode intensificar sentimentos de dependência emocional, insegurança e sofrimento psíquico, especialmente diante de frustrações, ambiguidades comunicacionais ou rupturas abruptas nas interações online. Assim, a internet pode funcionar tanto como um espaço de acolhimento e validação emocional quanto como um fator de agravamento dos sintomas afetivos e relacionais característicos do transtorno, reforçando ciclos de idealização, frustração e abandono (Kernberg, 2004; Paris, 2015).
Diante desse cenário, este estudo parte da seguinte questão norteadora: de que maneira as relações afetivas mediadas pela internet impactam a vivência emocional e relacional de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline?
2. OBJETIVOS
2.1. Objetivo Geral
Analisar as repercussões das relações afetivas construídas pela mente no uso da internet na dinâmica afetiva e psicológica de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline.
2.2.2. Objetivos Específicos
Compreender como os processos de idealização e projeção se manifestam nas relações afetivas mediadas pela internet em indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline;
Examinar a intensificação da dependência emocional e do medo de abandono no ambiente digital no contexto do TPB;
Discutir os impactos psicossociais das relações afetivas virtuais na vida cotidiana de pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline;
Refletir sobre as implicações clínicas e terapêuticas do uso da internet na construção e manutenção de vínculos afetivos nesse transtorno
3. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, com abordagem descritiva e exploratória, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico. A opção por esse delineamento metodológico justifica-se pela necessidade de compreender, de forma aprofundada, os aspectos subjetivos envolvidos na construção das relações afetivas mediadas pela internet e suas repercussões no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), considerando a complexidade emocional, relacional e psicossocial inerente a esse transtorno. A pesquisa bibliográfica possibilita a análise crítica de diferentes perspectivas teóricas e empíricas consolidadas na literatura científica, favorecendo a construção de uma compreensão integrada do fenômeno investigado (Gil, 2019; Minayo, 2014).
A coleta de dados foi realizada a partir de fontes secundárias, incluindo livros, artigos científicos, manuais diagnósticos e publicações institucionais nacionais e internacionais. Foram priorizados estudos publicados em língua portuguesa, inglesa e espanhola, com recorte temporal preferencial dos últimos vinte anos, de modo a garantir atualidade teórica sem desconsiderar autores clássicos fundamentais para a compreensão do Transtorno de Personalidade Borderline e das relações afetivas no contexto digital. Essa estratégia permitiu identificar a evolução conceitual do tema e as principais contribuições científicas relacionadas à subjetividade, às interações virtuais e à saúde mental (Severino, 2016; Lakatos; Marconi, 2017).
As buscas bibliográficas foram realizadas em bases de dados científicas reconhecidas, tais como SciELO, PubMed, PsycINFO e Google Scholar, utilizando descritores relacionados ao tema, incluindo: “Transtorno de Personalidade Borderline”, “relações afetivas”, “internet”, “relações virtuais”, “vínculos emocionais” e “saúde mental”. Os descritores foram combinados por meio de operadores booleanos (AND/OR), com o objetivo de ampliar a abrangência da busca e assegurar maior precisão na seleção dos estudos relevantes (Pereira et al., 2018).
Inicialmente, foram identificados XX estudos nas bases de dados consultadas. Após a leitura dos títulos e resumos, bem como a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, XX estudos foram excluídos por não apresentarem relação direta com o Transtorno de Personalidade Borderline ou por abordarem os transtornos mentais de forma genérica. Ao final desse processo, XX artigos compuseram o corpus final da análise, constituindo o material empírico da presente pesquisa.
Os critérios de inclusão abrangeram estudos que abordassem diretamente o Transtorno de Personalidade Borderline, as relações afetivas e o uso da internet ou das tecnologias digitais como elementos centrais de análise. Foram excluídos trabalhos de caráter exclusivamente opinativo, publicações sem respaldo científico e estudos que não estabeleciam relação específica entre TPB e relações afetivas no ambiente virtual. A aplicação desses critérios contribuiu para a delimitação do corpus de análise, assegurando coerência temática e rigor metodológico ao estudo (Gil, 2019; Minayo, 2014).
A análise dos dados foi conduzida por meio de leitura exploratória, analítica e interpretativa das obras selecionadas, conforme os pressupostos da análise qualitativa de conteúdo. A partir da leitura sistemática do material, emergiram três categorias temáticas centrais, construídas de forma indutiva, a partir da recorrência e convergência dos conteúdos analisados:
(1) idealização e projeção nas relações virtuais;
(2) dependência emocional e medo de abandono;
(3) impactos psicossociais das relações digitais em indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline.
Essas categorias orientaram a organização e a interpretação dos dados, possibilitando a articulação entre o uso da internet, a construção subjetiva dos vínculos afetivos e as especificidades emocionais do TPB, bem como a discussão crítica dos achados à luz da literatura científica (Bardin, 2016; Severino, 2016).
Do ponto de vista ético, por se tratar de uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, não houve envolvimento direto de seres humanos, o que dispensa a submissão a Comitê de Ética em Pesquisa. Ainda assim, foram rigorosamente respeitados os princípios éticos da produção científica, tais como a fidelidade às ideias dos autores, a correta citação das fontes e o compromisso com a integridade acadêmica. Dessa forma, o estudo busca contribuir de maneira responsável para o debate sobre saúde mental, relações afetivas e tecnologia, especialmente no contexto do Transtorno de Personalidade Borderline (Lakatos; Marconi, 2017; Gil, 2019).
4. RESULTADOS E DISCUSÃO
A análise dos estudos selecionados evidencia que as relações afetivas mediadas pela internet exercem impacto significativo na vivência emocional de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), configurando-se como um elemento relevante na dinâmica contemporânea dos vínculos interpessoais. A literatura analisada aponta que o ambiente digital não atua como causa isolada do sofrimento psíquico, mas como um potente amplificador de fragilidades emocionais e relacionais já estruturantes do transtorno. Nesse sentido, as características próprias das interações virtuais como a comunicação contínua, a rapidez das trocas, a ausência de pistas presenciais e a possibilidade de idealização do outro — tendem a intensificar padrões típicos do TPB, tais como a idealização excessiva, a dependência emocional, o medo intenso de abandono e a instabilidade nas relações interpessoais.
Os estudos revisados indicam que o espaço digital favorece a projeção de expectativas afetivas idealizadas, muitas vezes dissociadas da realidade concreta da relação, o que contribui para ciclos recorrentes de frustração, ruptura e sofrimento emocional. Para indivíduos com TPB, cuja organização psíquica é marcada por dificuldades na regulação emocional e na integração da autoimagem, essas dinâmicas tornam-se particularmente intensas, potencializando respostas afetivas desproporcionais diante de ambiguidades comunicacionais, silêncios ou interrupções nas interações online. Assim, as relações virtuais passam a funcionar como cenários privilegiados para a reatualização de conflitos intrapsíquicos relacionados ao abandono, à rejeição e à insegurança afetiva.
Para fins analíticos, os resultados foram organizados em quatro eixos temáticos, o que possibilitou uma leitura integrada e multidimensional do fenômeno investigado. Essa organização permitiu articular contribuições da psicodinâmica, ao compreender os processos de idealização, projeção e dependência emocional; da sociologia, ao analisar as transformações contemporâneas nas formas de vinculação e comunicação mediadas pelas tecnologias digitais; e da clínica, ao discutir os impactos dessas relações no manejo terapêutico e no sofrimento psíquico de indivíduos com TPB. Dessa forma, os eixos temáticos não apenas sistematizam os achados da literatura, mas também evidenciam a complexidade das interações entre subjetividade, tecnologia e saúde mental na contemporaneidade.
4.1. Idealização e Projeção nas Relações Virtuais
Os estudos analisados indicam que o ambiente virtual favorece a construção de vínculos afetivos sustentados majoritariamente por representações mentais, projeções e fantasias, uma vez que a ausência de convivência presencial reduz os elementos concretos da interação e amplia o espaço para interpretações subjetivas. A comunicação mediada por tecnologias digitais, frequentemente baseada em mensagens escritas, imagens cuidadosamente selecionadas e recortes da vida cotidiana, contribui para a formação de narrativas idealizadas sobre o outro. Nesse contexto, o vínculo afetivo passa a ser construído não apenas a partir da interação real, mas sobretudo a partir das expectativas, desejos e necessidades emocionais de cada sujeito, o que pode gerar relações intensas, porém desconectadas da realidade relacional concreta. Conforme destacado por Turkle (2011), as relações mediadas por tecnologias digitais tendem a ser estruturadas mais pela imaginação e pela projeção subjetiva do que pela experiência compartilhada no mundo real.
Além disso, o caráter assíncrono e seletivo das interações virtuais permite que o indivíduo controle o que mostra, o que omite e como se apresenta, reforçando a construção de identidades idealizadas. Essa dinâmica pode intensificar sentimentos de proximidade emocional e intimidade rápida, ainda que sem a sustentação necessária de experiências presenciais que possibilitem a confirmação ou a frustração dessas idealizações. A ausência de sinais não verbais, como expressões faciais, entonação de voz e linguagem corporal, limita a percepção da complexidade emocional do outro, favorecendo leituras simplificadas e dicotômicas das relações afetivas no ambiente digital. Dessa forma, os vínculos virtuais podem assumir um caráter intenso, porém frágil, uma vez que se sustentam em bases simbólicas e imaginárias mais do que em experiências concretas e contínuas (Turkle, 2011).
No contexto do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), essa dinâmica relacional assume maior intensidade e complexidade. Estudos de orientação psicodinâmica apontam que indivíduos com TPB apresentam dificuldades significativas na integração dos aspectos positivos e negativos das figuras afetivas, manifestando padrões relacionais marcados por idealização extrema, dependência emocional e, posteriormente, desvalorização abrupta diante de frustrações reais ou percebidas. Segundo Kernberg (2004), essas oscilações refletem falhas nos processos de integração do self e do objeto, resultando em relações instáveis e emocionalmente intensas.
No ambiente virtual, essas características tendem a ser potencializadas, uma vez que a comunicação mediada por tecnologias favorece a projeção de conteúdos internos e a construção de vínculos baseados em fantasias idealizadas. Pequenas frustrações, atrasos na resposta ou mudanças no padrão de interação podem ser vivenciadas como rejeições intensas, desencadeando reações emocionais desproporcionais e rupturas abruptas do vínculo. Assim, os relacionamentos virtuais de indivíduos com TPB tendem a ser marcados por elevada intensidade emocional, rápida formação de apego e significativa instabilidade, reforçando padrões disfuncionais de relacionamento e sofrimento psíquico (Kernberg, 2004).
4.2. Dependência Emocional e Medo de Abandono no Ambiente Digital
Outro eixo recorrente na literatura refere-se à intensificação da dependência emocional nas relações virtuais, fenômeno amplamente associado às características do ambiente digital e às especificidades do funcionamento psíquico de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). A comunicação constante, a possibilidade de contato ininterrupto e a expectativa de respostas imediatas favorecem a construção de vínculos marcados por elevada necessidade de proximidade e validação externa. Nesse contexto, a interação virtual passa a funcionar como uma fonte contínua de regulação emocional, na qual o outro assume um papel central na manutenção do equilíbrio psíquico do sujeito. Para indivíduos com TPB, cuja estrutura emocional é marcada por medo intenso de abandono e instabilidade afetiva, essa dinâmica tende a reforçar padrões de dependência emocional e de apego inseguro (Gunderson, 2011; Paris, 2015).
Estudos clínicos indicam que atrasos nas respostas, períodos de silêncio ou mudanças sutis no padrão de interação virtual são frequentemente interpretados de forma catastrófica por indivíduos com TPB, sendo percebidos como sinais inequívocos de rejeição, abandono ou perda definitiva do vínculo. Essa interpretação distorcida da realidade relacional está associada a dificuldades na mentalização e à predominância de mecanismos de defesa primitivos, como a clivagem e a projeção. Assim, eventos aparentemente banais no ambiente digital adquirem significados emocionais intensos, desencadeando respostas afetivas desproporcionais e sofrimento psíquico significativo (Gunderson, 2011; Kernberg, 2004).
As pesquisas analisadas demonstram ainda que situações comuns no ambiente virtual, como bloqueios em redes sociais, interrupções abruptas de contato, exclusões de listas de amigos ou ambiguidades comunicacionais, podem atuar como gatilhos para crises emocionais intensas. Tais crises são frequentemente caracterizadas por sentimentos profundos de angústia, raiva, vazio, impulsividade e, em alguns casos, comportamentos autodestrutivos ou autolesivos. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, esses comportamentos estão diretamente relacionados à instabilidade afetiva e à dificuldade de lidar com frustrações interpessoais, características centrais do TPB (American Psychiatric Association, 2014).
Dessa forma, a internet, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de contato e interação social, pode reforçar ciclos repetitivos de idealização, frustração e ruptura nos vínculos afetivos de indivíduos com TPB. A rapidez com que os relacionamentos se formam no ambiente virtual tende a ser proporcional à rapidez com que se rompem, dificultando a construção de relações mais estáveis, seguras e duradouras. Assim, a dependência emocional intensificada pelas relações virtuais configura-se como um fator de vulnerabilidade adicional para esse público, exigindo atenção clínica e estratégias de intervenção que considerem os impactos específicos do uso das tecnologias digitais na dinâmica relacional desses indivíduos (Paris, 2015; Gunderson, 2011).
4.3. Impactos Psicossociais das Relações Digitais
Os resultados também evidenciam impactos psicossociais relevantes decorrentes do envolvimento excessivo em relações afetivas virtuais, especialmente quando essas interações passam a ocupar lugar central na vida do indivíduo. A literatura aponta que a priorização das relações online em detrimento das interações presenciais pode contribuir para o enfraquecimento de vínculos familiares e sociais, o isolamento progressivo e a redução das redes de apoio no mundo real. Esse afastamento compromete a qualidade das relações interpessoais e pode acarretar prejuízos significativos no funcionamento cotidiano, refletindo-se em dificuldades nos contextos familiar, acadêmico e profissional, além de impactar negativamente a autonomia e a capacidade de enfrentamento das demandas da vida diária (Paris, 2015; Gunderson, 2011).
No caso de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline, tais impactos tendem a ser ainda mais acentuados, em razão da instabilidade emocional e da dependência afetiva que caracterizam o transtorno. A centralidade das relações virtuais como principal fonte de vínculo e regulação emocional pode intensificar sentimentos de solidão e abandono, paradoxalmente agravando o sofrimento psíquico. A dificuldade em manter relações estáveis no ambiente presencial, somada à idealização dos vínculos online, contribui para um ciclo de aproximação intensa e afastamento abrupto, que reforça padrões disfuncionais de relacionamento e fragiliza ainda mais o suporte social do indivíduo (Gunderson, 2011; Paris, 2015).
Além disso, a lógica das redes sociais, fundamentada em métricas de visibilidade, como curtidas, visualizações, comentários e número de seguidores, tende a intensificar conflitos relacionados à autoimagem, à autoestima e à construção da identidade. A constante exposição a padrões idealizados de vida, sucesso e aparência favorece processos de comparação social, frequentemente acompanhados por sentimentos de inadequação e fracasso. Para indivíduos com TPB, cuja identidade é marcada por instabilidade, difusão do self e dificuldade de autoavaliação consistente, essa dinâmica pode amplificar o sofrimento emocional e a sensação de não pertencimento (Turkle, 2011; Odgers; Jensen, 2020).
A busca constante por validação digital, por meio da aprovação dos outros nas redes sociais, pode funcionar como uma tentativa de preencher sentimentos crônicos de vazio emocional, característicos do TPB. No entanto, essa validação tende a ser transitória e insuficiente para promover estabilidade emocional duradoura, o que leva à intensificação do uso das plataformas digitais e à dependência de feedback externo. Assim, em vez de reduzir o sofrimento psíquico, o envolvimento excessivo nas redes sociais pode aprofundar sentimentos de insegurança, ansiedade e instabilidade emocional, evidenciando a necessidade de abordagens terapêuticas e preventivas que considerem os impactos psicossociais do ambiente digital na saúde mental (Turkle, 2011; Odgers; Jensen, 2020).
4.4. Implicações Clínicas e Terapêuticas
Do ponto de vista clínico, os estudos analisados ressaltam a importância de intervenções que considerem o uso da internet como parte constitutiva do contexto relacional contemporâneo, especialmente no cuidado de indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Considerando que os vínculos afetivos mediados pelas tecnologias digitais passaram a integrar de forma significativa a experiência subjetiva dos sujeitos, torna-se imprescindível que as práticas terapêuticas incorporem a análise desses ambientes como espaços legítimos de expressão emocional, conflito e sofrimento psíquico. Abordagens voltadas ao fortalecimento da regulação emocional, ao desenvolvimento da autonomia afetiva e à ampliação da capacidade reflexiva diante das experiências relacionais virtuais mostram-se fundamentais para o manejo clínico do transtorno (Linehan, 2015).
A literatura especializada enfatiza que o objetivo das intervenções não deve ser a restrição absoluta do uso da internet, mas a promoção de um uso mais consciente, crítico e integrado à vida emocional e social do indivíduo. Estratégias terapêuticas que auxiliem o paciente a identificar padrões recorrentes de idealização, dependência emocional, hipervigilância relacional e reatividade afetiva no ambiente digital contribuem para a diminuição da intensidade das crises emocionais e para a construção de vínculos mais estáveis e seguros. Nesse sentido, a psicoterapia atua como espaço privilegiado para a elaboração simbólica das experiências vividas nas relações virtuais, favorecendo a diferenciação entre fantasia, expectativa e realidade relacional.
De modo geral, os resultados indicam que as relações afetivas construídas e mantidas no uso da internet exercem impacto direto na intensificação da instabilidade emocional característica do Transtorno de Personalidade Borderline. O ambiente digital potencializa processos de idealização, projeção e dependência emocional, não como fator isolado, mas em interação constante com as fragilidades estruturais do transtorno, tais como o medo intenso de abandono, a instabilidade da autoimagem e as dificuldades na regulação das emoções. Assim, a compreensão dessas dinâmicas revela-se essencial para o desenvolvimento de práticas clínicas e produções científicas que considerem, de forma crítica, as transformações tecnológicas contemporâneas e seus efeitos sobre a saúde mental, especialmente no que se refere às novas configurações dos vínculos afetivos (Linehan, 2015).
5. CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como objetivo analisar as relações afetivas construídas pela mente no uso da internet e suas repercussões no Transtorno de Personalidade Borderline, considerando os aspectos emocionais, relacionais e psicossociais envolvidos nesse processo. A partir da análise da literatura científica, foi possível compreender que o ambiente digital exerce influência significativa na forma como os vínculos afetivos são estabelecidos, mantidos e rompidos, especialmente em indivíduos que apresentam fragilidades emocionais e dificuldades na regulação afetiva.
Os resultados evidenciaram que as relações mediadas pela internet favorecem a construção de vínculos marcados por idealizações, projeções e expectativas subjetivas, uma vez que a ausência do contato presencial amplia o espaço para construções mentais sobre o outro. No caso do Transtorno de Personalidade Borderline, essas características intensificam padrões já existentes de instabilidade emocional, medo de abandono e dependência afetiva, contribuindo para ciclos repetitivos de envolvimento intenso e rupturas dolorosas.
Observou-se ainda que o uso excessivo da internet como principal meio de construção de vínculos afetivos pode gerar prejuízos significativos à vida social e ao funcionamento cotidiano. A priorização das relações virtuais em detrimento das interações presenciais tende a reforçar o isolamento social, dificultar o desenvolvimento de habilidades relacionais mais estáveis e comprometer a construção de uma identidade mais integrada. Esses fatores ampliam o sofrimento psíquico e dificultam a manutenção de relações interpessoais saudáveis e duradouras.
Outro aspecto relevante identificado foi a naturalização de comportamentos disfuncionais no ambiente digital, como a necessidade constante de validação, o monitoramento excessivo do outro e a ansiedade diante da ausência de respostas. Para indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline, essas dinâmicas reforçam a dependência emocional e dificultam o desenvolvimento da autonomia afetiva, tornando o ambiente virtual um potencial fator de agravamento dos sintomas emocionais.
Diante desse cenário, conclui-se que a compreensão das relações afetivas construídas pela mente no uso da internet exige uma abordagem ampliada da saúde mental, que considere as transformações tecnológicas e sociais contemporâneas. Não se trata de demonizar o uso da internet, mas de reconhecer seus impactos subjetivos e emocionais, especialmente em populações mais vulneráveis. Intervenções que promovam o fortalecimento da regulação emocional, a construção de vínculos mais conscientes e o uso saudável das tecnologias digitais mostram-se fundamentais para a redução do sofrimento psíquico.
Por fim, este estudo ressalta a importância de ampliar o debate acadêmico e profissional sobre a interface entre saúde mental, subjetividade e ambiente digital. A compreensão dessas dinâmicas contribui para o desenvolvimento de práticas mais sensíveis, éticas e eficazes, capazes de promover maior equilíbrio emocional, inclusão social e qualidade de vida para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2014.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
FONAGY, Peter; GERGELY, György; JURIST, Elliot L.; TARGET, Mary. Affect regulation, mentalization and the development of the self. New York: Other Press, 2017.
GUNDERSON, John G. Borderline personality disorder: a clinical guide. 2. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2011.
KERNBERG, Otto F. Aggressivity, narcissism, and self-destructiveness in the psychotherapeutic relationship. New Haven: Yale University Press, 2004.
LINEHAN, Marsha M. DBT skills training manual. 2. ed. New York: Guilford Press, 2015.
ODGERS, Candice L.; JENSEN, Mikaela R. Annual research review: adolescent mental health in the digital age. Journal of Child Psychology and Psychiatry, Hoboken, v. 61, n. 3, p. 336–348, 2020.
PARIS, Joel. Stepped care for borderline personality disorder: making treatment brief, effective, and accessible. New York: Academic Press, 2015.
TURKLE, Sherry. Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.
1 Mestrado em Políticas Públicas pela UMC - Universidade de Mogi das Cruzes. E-mail: [email protected]