A SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM COMO INSTRUMENTO ESTRATÉGICO PARA A QUALIFICAÇÃO DO CUIDADO E O FORTALECIMENTO DA ATENÇÃO CONTINUADA AO PACIENTE

PDF: Clique aqui


REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18561521


Thiago Inocêncio Trofelli1


RESUMO
A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) constitui-se como um instrumento metodológico essencial para a organização do processo de trabalho do enfermeiro e para a qualificação do cuidado prestado ao paciente. Ao estruturar a assistência por meio de etapas inter-relacionadas, a SAE favorece a identificação das necessidades individuais, o planejamento adequado das intervenções e a avaliação contínua dos resultados, contribuindo para a continuidade e integralidade do cuidado. Este estudo teve como objetivo analisar a SAE como instrumento estratégico para a qualificação do cuidado e o fortalecimento da atenção continuada ao paciente. Trata-se de uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa e descritiva, realizada a partir de produções científicas nacionais e internacionais relacionadas à aplicação da SAE na prática assistencial de enfermagem. Os resultados evidenciaram que a utilização sistemática da SAE contribui para a organização do cuidado, a melhoria da comunicação entre os profissionais, o fortalecimento da autonomia do enfermeiro e a promoção da segurança do paciente. Conclui-se que a SAE representa um recurso indispensável para a prática profissional, devendo ser compreendida não apenas como uma exigência normativa, mas como uma estratégia fundamental para a promoção de uma assistência qualificada, contínua e centrada nas necessidades do paciente.
Palavras-chave: Atenção continuada; Cuidado em enfermagem; Sistematização da Assistência de Enfermagem; Processo de Enfermagem.

ABSTRACT
The Systematization of Nursing Care (SNC) is an essential methodological tool for organizing the nurse’s work process and improving the quality of patient care. By structuring care through interrelated stages, SNC facilitates the identification of individual needs, appropriate planning of interventions, and continuous evaluation of outcomes, thereby strengthening continuity and comprehensiveness of care. This study aimed to analyze SNC as a strategic instrument for the qualification of care and the strengthening of continuous patient care. This is a qualitative and descriptive literature review based on national and international scientific publications addressing the application of SNC in nursing practice. The findings indicate that the systematic use of SNC contributes to care organization, improved communication among healthcare professionals, enhanced nurse autonomy, and increased patient safety. It is concluded that SNC is an indispensable resource for professional practice and should be understood not merely as a regulatory requirement, but as a fundamental strategy for promoting qualified, continuous, and patient-centered care.
Keywords: Systematization of Nursing Care; Nursing Process; Continuity of care; Nursing care.

1. INTRODUÇÃO

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) constitui-se como um instrumento fundamental para a organização do trabalho do enfermeiro, orientando a prática profissional de forma científica, ética e segura. Regulamentada no Brasil pela Resolução COFEN nº 358/2009, a SAE operacionaliza o Processo de Enfermagem e assegura a continuidade do cuidado, a integralidade da assistência e a segurança do paciente em diferentes níveis de atenção à saúde.

No contexto contemporâneo dos serviços de saúde, marcados por crescente complexidade assistencial, demandas institucionais e necessidade de qualificação do cuidado, a SAE assume papel estratégico ao favorecer a tomada de decisão clínica, o registro sistematizado das ações de enfermagem e a comunicação eficaz entre os membros da equipe multiprofissional. Sua aplicação contribui não apenas para a melhoria dos resultados assistenciais, mas também para o fortalecimento da autonomia profissional do enfermeiro e para a valorização da enfermagem como prática baseada em evidências.

Além disso, a SAE apresenta elevada aplicabilidade prática nos campos da assistência, da gestão e do ensino, ao promover a padronização dos cuidados, reduzir riscos assistenciais e garantir maior continuidade do acompanhamento ao paciente ao longo do processo de cuidado. Dessa forma, sua efetiva implementação está diretamente relacionada à qualidade da atenção em saúde e ao cumprimento dos princípios da segurança do paciente.

Diante desse cenário, torna-se relevante analisar a SAE não apenas como exigência normativa, mas como ferramenta estratégica para a qualificação do cuidado e para o fortalecimento da atenção continuada. Assim, o presente estudo parte do seguinte problema de pesquisa: de que maneira a Sistematização da Assistência de Enfermagem contribui para a qualificação do cuidado e o fortalecimento da atenção continuada ao paciente?

2. OBJETIVOS

Objetivo Geral

Analisar a Sistematização da Assistência de Enfermagem como instrumento estratégico para a qualificação do cuidado e o fortalecimento da atenção continuada ao paciente.

Objetivos Específicos

  • Descrever a contribuição da Sistematização da Assistência de Enfermagem para a continuidade do cuidado ao paciente;

  • Identificar os benefícios da SAE para a autonomia profissional do enfermeiro e para a organização do processo de trabalho em enfermagem;

  • Analisar os principais desafios enfrentados na implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem nos serviços de saúde.

3. MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, de natureza descritiva, desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica narrativa, cujo objetivo central foi analisar a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) como instrumento estratégico para a qualificação do cuidado em saúde e o fortalecimento da atenção continuada ao paciente nos diferentes níveis de atenção. A opção pela abordagem qualitativa justifica-se por possibilitar a compreensão aprofundada dos significados, das práticas e das contribuições da SAE no contexto do processo de trabalho da enfermagem, considerando suas dimensões organizacionais, assistenciais e ético-profissionais. Já o caráter descritivo permite retratar e sistematizar o conhecimento produzido sobre o tema, sem a pretensão de estabelecer relações de causalidade, mas buscando identificar tendências, desafios e potencialidades evidenciadas na literatura científica (Gil, 2017).

A revisão bibliográfica narrativa mostrou-se adequada por possibilitar uma análise ampla e crítica das produções científicas existentes, permitindo a integração de diferentes perspectivas teóricas e empíricas acerca da Sistematização da Assistência de Enfermagem. Diferentemente das revisões sistemáticas, esse tipo de revisão favorece uma leitura interpretativa e contextualizada dos estudos, contribuindo para a compreensão do estado do conhecimento e para a construção de reflexões que subsidiam a prática profissional e a gestão do cuidado em enfermagem. Dessa forma, a revisão narrativa possibilitou identificar como a SAE tem sido compreendida, aplicada e avaliada nos serviços de saúde, bem como suas repercussões na organização do cuidado e na continuidade da assistência ao paciente (Lakatos; Marconi, 2017).

A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados científicas amplamente reconhecidas na área da saúde, a saber: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Google Acadêmico. A escolha dessas bases justifica-se por sua relevância, abrangência e credibilidade na disseminação da produção científica em enfermagem e áreas afins, especialmente no contexto latino-americano. Para a realização das buscas, foram utilizados descritores padronizados extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), tais como: “Sistematização da Assistência de Enfermagem”, “Processo de Enfermagem”, “Continuidade do Cuidado” e “Assistência de Enfermagem”, combinados entre si por meio de operadores booleanos AND e OR, visando ampliar a sensibilidade da busca e garantir maior precisão na recuperação dos estudos pertinentes ao tema investigado (BIREME, 2022).

No processo inicial de busca, foram identificados 87 estudos nas bases de dados selecionadas. Em seguida, realizou-se a leitura dos títulos e resumos, etapa fundamental para a verificação da aderência dos estudos aos objetivos da pesquisa. Nessa fase, foram excluídas publicações duplicadas, estudos que não abordavam diretamente a Sistematização da Assistência de Enfermagem, bem como aqueles que tratavam o tema de forma superficial ou desvinculada da prática profissional da enfermagem. Após essa triagem inicial, procedeu-se à leitura integral dos textos selecionados, resultando na exclusão de 52 publicações que não atendiam plenamente aos critérios estabelecidos. Ao final desse processo, 35 artigos científicos compuseram o corpus final da análise, constituindo o material empírico desta revisão bibliográfica.

Os critérios de inclusão adotados foram: artigos científicos publicados em língua portuguesa, disponíveis na íntegra, no período compreendido entre 2009 e 2024, que abordassem a aplicação da Sistematização da Assistência de Enfermagem no contexto da prática assistencial e sua relação com a organização do cuidado, a segurança do paciente e a continuidade da assistência. Foram excluídos estudos duplicados, resumos simples, editoriais, cartas ao leitor, produções de caráter exclusivamente opinativo, trabalhos incompletos e publicações que não estabeleciam relação direta com a SAE ou com o Processo de Enfermagem. A definição desses critérios visou garantir a qualidade, a atualidade e a relevância científica do material analisado, assegurando maior consistência aos resultados do estudo (Lakatos; Marconi, 2017).

A análise dos dados ocorreu de forma crítica e reflexiva, fundamentada nos pressupostos da análise qualitativa. Inicialmente, realizou-se uma leitura exploratória dos estudos selecionados, com o objetivo de obter uma visão geral do conteúdo. Em seguida, procedeu-se à leitura seletiva, buscando identificar os principais achados, conceitos e contribuições relacionadas à Sistematização da Assistência de Enfermagem. Por fim, realizou-se a leitura interpretativa, etapa em que os dados foram analisados de forma aprofundada, possibilitando a identificação de convergências, divergências e lacunas no conhecimento produzido sobre o tema. Esse processo permitiu a construção de categorias temáticas indutivas, elaboradas a partir da recorrência dos conteúdos presentes nos estudos analisados (Minayo, 2014).

A partir da análise, foram identificadas quatro categorias temáticas centrais: (1) a Sistematização da Assistência de Enfermagem como instrumento de organização do processo de trabalho em enfermagem; (2) as contribuições da SAE para a continuidade do cuidado ao paciente; (3) a relação entre a SAE e a segurança do paciente; e (4) os desafios institucionais, operacionais e formativos para a implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem nos serviços de saúde. Essas categorias orientaram a sistematização dos resultados e subsidiaram a discussão dos achados, possibilitando uma análise articulada entre teoria e prática profissional, à luz da literatura científica nacional (Minayo, 2014).

Do ponto de vista ético, por se tratar de um estudo de revisão bibliográfica, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelece a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, uma vez que não houve envolvimento direto de seres humanos nem utilização de dados primários identificáveis. Ainda assim, foram rigorosamente respeitados os princípios éticos que regem a pesquisa científica, especialmente no que se refere à fidedignidade das informações, à correta citação das fontes consultadas e ao compromisso com a integridade acadêmica, garantindo a transparência e a credibilidade do estudo desenvolvido (Brasil, 2012).

4. RESULTADOS E DISCUSÃO

A análise dos estudos selecionados evidência que a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) constitui um eixo estruturante do cuidado em enfermagem, ao organizar o processo de trabalho de forma lógica, contínua e fundamentada em critérios científicos. De modo geral, os resultados demonstram que a aplicação da SAE favorece a identificação sistemática das necessidades do paciente, o planejamento individualizado das intervenções e a avaliação contínua dos resultados, repercutindo positivamente na qualidade da assistência, na segurança do cuidado e na continuidade da atenção em diferentes níveis de saúde. Ao operacionalizar o Processo de Enfermagem em suas etapas coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação a SAE contribui para uma prática assistencial mais organizada, reflexiva e orientada por evidências, fortalecendo a autonomia profissional do enfermeiro e a visibilidade de sua atuação no contexto multiprofissional (Horta, 1979; Tannure; Pinheiro, 2011).

Os estudos analisados apontam, ainda, que a SAE se configura como um importante instrumento de qualificação do cuidado, ao permitir a padronização das ações de enfermagem sem desconsiderar a singularidade de cada paciente. A utilização de classificações padronizadas, como NANDA-I, NIC e NOC, quando associadas à Sistematização da Assistência de Enfermagem, possibilita maior clareza na comunicação entre os profissionais, favorece a continuidade do cuidado e reduz a ocorrência de falhas assistenciais. Dessa forma, a SAE não apenas organiza o trabalho da enfermagem, mas também fortalece a integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde, contribuindo para um cuidado mais seguro, resolutivo e centrado no paciente (Tannure; Pinheiro, 2011; Garcia; Nóbrega, 2019).

Outro aspecto recorrente nos estudos refere-se à contribuição da SAE para a humanização do cuidado e para o fortalecimento do vínculo entre profissional e paciente. Ao orientar a prática a partir de uma avaliação integral do indivíduo considerando aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais a Sistematização da Assistência de Enfermagem favorece uma abordagem holística do cuidado, alinhada aos princípios da integralidade e da atenção centrada na pessoa. Esse enfoque amplia a compreensão das necessidades do paciente e de sua família, promovendo intervenções mais sensíveis, éticas e adequadas ao contexto de vida do indivíduo assistido (Horta, 1979; Waldow, 2008).

Os achados também evidenciam que a implementação efetiva da SAE contribui significativamente para a segurança do paciente, na medida em que organiza o registro das ações de enfermagem, favorece a rastreabilidade das intervenções e subsidia a tomada de decisão clínica. A documentação sistematizada do cuidado, elemento essencial da SAE, permite a continuidade da assistência entre turnos e entre diferentes profissionais, além de constituir um importante respaldo legal e ético para a prática da enfermagem. Nesse sentido, a SAE apresenta-se como uma estratégia fundamental para a prevenção de eventos adversos e para a promoção de uma cultura de segurança nos serviços de saúde (Brasil, 2013; Pedreira, 2016).

Para fins de organização e maior clareza analítica, os achados desta revisão foram agrupados em cinco eixos temáticos: (1) a Sistematização da Assistência de Enfermagem como instrumento de organização do processo de trabalho em enfermagem; (2) a contribuição da SAE para a continuidade do cuidado e a integralidade da assistência; (3) a SAE como estratégia para a promoção da segurança do paciente; (4) a influência da Sistematização da Assistência de Enfermagem na qualidade do cuidado e na valorização profissional do enfermeiro; e (5) os desafios, limites e potencialidades para a implementação da SAE nos serviços de saúde. Esses eixos orientam a apresentação e a discussão dos resultados, permitindo uma análise sistematizada e crítica das contribuições da SAE para a prática assistencial e para a qualificação do cuidado em enfermagem, à luz da literatura científica nacional (Minayo, 2014).

4.1. SAE e Organização do Cuidado em Enfermagem

Os estudos analisados apontam que a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) exerce papel central na organização do processo de trabalho do enfermeiro, ao estruturar de forma sequencial e interdependente as etapas da assistência, compreendidas pela coleta de dados, diagnóstico de enfermagem, planejamento, implementação e avaliação do cuidado. Essa estrutura metodológica permite ao profissional compreender o paciente em sua totalidade, identificar necessidades reais e potenciais e definir intervenções compatíveis com o grau de complexidade apresentado, promovendo maior racionalidade e coerência nas ações assistenciais. Ao organizar o cuidado de maneira sistemática, a SAE contribui para a padronização das práticas, sem desconsiderar a singularidade do sujeito assistido, favorecendo uma atuação profissional mais segura, ética e fundamentada cientificamente (Horta, 1979; Kurcgant, 2016).

A sistematização do processo de trabalho possibilitada pela SAE também favorece a priorização das ações de enfermagem, aspecto fundamental em contextos de elevada demanda e limitação de recursos, como unidades hospitalares, serviços de urgência e atenção básica. Ao estabelecer critérios claros para a tomada de decisão, o enfermeiro consegue organizar suas atividades de forma mais eficiente, direcionando esforços para as necessidades mais urgentes e relevantes do paciente. Esse ordenamento das ações contribui para a otimização do tempo de trabalho, para a redução de retrabalho e para o uso mais adequado dos recursos humanos e materiais disponíveis nos serviços de saúde (Kurcgant, 2016; Garcia; Nóbrega, 2019).

A operacionalização do Processo de Enfermagem, viabilizada pela Sistematização da Assistência de Enfermagem, favorece uma prática profissional mais planejada, contínua e menos fragmentada, reduzindo a ocorrência de improvisações e condutas baseadas exclusivamente na experiência empírica. Ao utilizar instrumentos padronizados de registro e classificação, o enfermeiro fortalece a tomada de decisão clínica baseada em evidências científicas, promovendo maior consistência e qualidade nas intervenções realizadas. Além disso, a utilização sistemática do Processo de Enfermagem contribui para o fortalecimento da autonomia profissional, uma vez que delimita claramente o campo de atuação da enfermagem no contexto multiprofissional (Tannure; Pinheiro, 2011).

Outro aspecto destacado nos estudos refere-se ao impacto positivo da SAE na comunicação entre os membros da equipe de enfermagem e entre os diferentes profissionais de saúde. A documentação sistematizada das ações de enfermagem facilita a continuidade do cuidado entre turnos, reduz falhas de comunicação e assegura que as informações relevantes sobre o estado de saúde do paciente sejam devidamente registradas e acessadas. Dessa forma, a SAE consolida-se não apenas como um instrumento de organização do trabalho, mas também como um mecanismo de integração da equipe e de qualificação da assistência prestada (Kurcgant, 2016; Tannure; Pinheiro, 2011).

Nesse sentido, a Sistematização da Assistência de Enfermagem afirma-se como um instrumento essencial para a organização do processo de trabalho em enfermagem, ao articular teoria e prática de forma coerente e fundamentada. Ao estruturar o cuidado de maneira lógica e contínua, a SAE contribui para a qualificação da assistência, para a segurança do paciente e para o fortalecimento da identidade profissional do enfermeiro, reafirmando sua relevância no contexto dos serviços de saúde e na consolidação de uma prática assistencial baseada em princípios científicos e éticos (Horta, 1979; Kurcgant, 2016).

4.2. SAE e Fortalecimento da Atenção Continuada Ao Paciente

A literatura evidencia que a SAE contribui de maneira expressiva para a atenção continuada ao paciente, ao possibilitar o acompanhamento sistemático das respostas humanas frente às intervenções realizadas. Os registros sequenciais e padronizados permitem a manutenção das condutas assistenciais mesmo diante da rotatividade de profissionais e da transição entre diferentes serviços e níveis de atenção à saúde (Starfield, 2002; Mendes, 2011).

Nesse contexto, a SAE favorece a longitudinalidade do cuidado, especialmente na atenção primária à saúde, ao fortalecer o vínculo entre profissional e usuário e possibilitar o acompanhamento do indivíduo ao longo do ciclo vital. A continuidade do cuidado, entendida como a integração e a permanência das ações assistenciais, mostra-se diretamente relacionada à aplicação consistente da SAE na prática cotidiana (Mendes, 2011).

4.3. SAE e Segurança do Paciente

Outro eixo recorrente nos estudos refere-se à contribuição da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) para a segurança do paciente, aspecto considerado central nas políticas públicas de saúde e na qualificação da assistência. A sistematização do cuidado possibilita ao enfermeiro identificar riscos de forma precoce, reconhecer sinais clínicos de agravamento e planejar intervenções preventivas de maneira organizada e contínua. Ao estruturar o cuidado a partir de critérios científicos e registros sistematizados, a SAE reduz a fragmentação das ações assistenciais, minimiza falhas na comunicação entre os profissionais e contribui para a diminuição da ocorrência de eventos adversos relacionados à assistência à saúde, tais como erros de medicação, quedas e infecções associadas ao cuidado (Brasil, 2014; Organização Mundial da Saúde, 2017).

A aplicação do Processo de Enfermagem, operacionalizado por meio da SAE, fortalece o acompanhamento contínuo do paciente, permitindo a avaliação sistemática dos resultados das intervenções implementadas. Esse monitoramento constante favorece ajustes oportunos no plano de cuidados, garantindo maior efetividade e segurança nas ações assistenciais. Além disso, a utilização de instrumentos padronizados de registro assegura a rastreabilidade das decisões clínicas, aspecto fundamental para a gestão de riscos e para a melhoria contínua da qualidade dos serviços de saúde, conforme preconizado pelas diretrizes nacionais e internacionais de segurança do paciente (Brasil, 2014; Organização Mundial da Saúde, 2017).

A utilização de diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem padronizados, como aqueles propostos pelas classificações NANDA-I, NIC e NOC, favorece a coerência e a integração entre as diferentes etapas do cuidado. Essa padronização contribui para a uniformização da linguagem profissional, reduz ambiguidades na comunicação e fortalece a cultura de segurança nos serviços de saúde. Ao adotar uma linguagem comum e baseada em evidências, a equipe de enfermagem amplia sua capacidade de planejar, executar e avaliar o cuidado de forma segura e eficaz, promovendo maior confiabilidade nas práticas assistenciais (Donabedian, 2003; Potter; Perry, 2018).

Dessa forma, a SAE assume papel estratégico na promoção de práticas assistenciais seguras, ao articular planejamento, execução e avaliação do cuidado de maneira sistemática e contínua. Sua implementação contribui para a consolidação de uma cultura institucional voltada para a segurança do paciente, para a redução de riscos assistenciais e para a melhoria contínua da qualidade da assistência em enfermagem. Assim, a sistematização do cuidado configura-se como um elemento indispensável para o fortalecimento das políticas de segurança do paciente e para a oferta de um cuidado ético, qualificado e centrado nas necessidades do indivíduo (Donabedian, 2003; Potter; Perry, 2018).

4.4. SAE e Autonomia Profissional do Enfermeiro

Os resultados analisados indicam que a aplicação da SAE fortalece a autonomia profissional do enfermeiro, ao evidenciar seu papel como responsável pelo planejamento, execução e avaliação do cuidado de enfermagem. A utilização de instrumentos próprios da profissão, como os diagnósticos e intervenções de enfermagem, amplia a capacidade de tomada de decisão e reafirma a identidade profissional no contexto da equipe multiprofissional (Garcia; Nóbrega, 2009; Lunney, 2010).

Além disso, a SAE estimula o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo, ao exigir a análise contínua das respostas do paciente às intervenções realizadas. Esse processo contribui para a qualificação da prática assistencial e para o reconhecimento científico e social da enfermagem enquanto área do conhecimento fundamentada em bases teóricas e metodológicas próprias (Tannure; Pinheiro, 2011).

4.5. Desafios Institucionais para a Implementação da SAE

Apesar dos benefícios amplamente descritos, a literatura evidencia que a implementação efetiva da SAE ainda enfrenta desafios significativos nos serviços de saúde. Entre os principais entraves destacam-se a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos humanos, a limitação de recursos tecnológicos, a insuficiência de capacitação profissional e a resistência à mudança nos processos assistenciais (Amante; Rossetto; Schneider, 2009; Silva et al., 2015).

Os estudos apontam que a consolidação da SAE depende do comprometimento institucional, do suporte gerencial e do investimento em educação permanente. A incorporação de tecnologias da informação e a oferta de capacitações contínuas mostram-se essenciais para superar tais obstáculos e garantir a utilização plena da SAE como instrumento estratégico de qualificação do cuidado e fortalecimento da atenção continuada ao paciente (Costa; Meirelles, 2019; Gil, 2017).

CONCLUSÃO

A Sistematização da Assistência de Enfermagem configura-se como um instrumento essencial para a organização do cuidado e para o fortalecimento da atenção continuada ao paciente, ao possibilitar uma prática profissional estruturada, reflexiva e fundamentada em princípios científicos. Ao longo deste estudo, evidenciou-se que a SAE contribui de maneira significativa para a qualificação da assistência de enfermagem, favorecendo a superação de práticas fragmentadas e promovendo um cuidado mais integral, seguro e centrado nas necessidades individuais do paciente.

Verificou-se que a aplicação efetiva da SAE permite o acompanhamento contínuo da evolução clínica do paciente, assegurando a manutenção das condutas assistenciais e a coerência entre as ações de cuidado ao longo do tempo. A organização sistemática das informações e dos registros assistenciais fortalece a comunicação entre os profissionais e entre os diferentes níveis de atenção à saúde, reduzindo falhas no cuidado e contribuindo para a integralidade da assistência prestada.

Outro aspecto relevante identificado refere-se ao fortalecimento da autonomia profissional do enfermeiro, uma vez que a SAE favorece o desenvolvimento do raciocínio clínico, da tomada de decisão e da responsabilidade sobre o cuidado prestado. Ao utilizar instrumentos próprios da enfermagem, o profissional amplia sua capacidade de intervenção, reafirma sua identidade profissional e contribui para o reconhecimento da enfermagem como uma prática científica e socialmente indispensável no contexto da saúde.

Entretanto, constatou-se que a efetividade da SAE está diretamente relacionada às condições institucionais e organizacionais oferecidas pelos serviços de saúde. Fatores como dimensionamento adequado de pessoal, apoio da gestão, educação permanente e incorporação de tecnologias da informação mostram-se fundamentais para a consolidação da SAE no cotidiano assistencial. A ausência desses elementos pode comprometer sua aplicação e limitar seus impactos positivos sobre a qualidade do cuidado e a continuidade da assistência.

Como limitação deste estudo, destaca-se o fato de tratar-se de uma revisão bibliográfica narrativa, a qual, embora possibilite uma análise ampla e fundamentada da produção científica existente, não permite a generalização empírica dos achados nem a observação direta da aplicação da SAE nos diferentes contextos assistenciais. Além disso, a dependência de estudos previamente publicados pode restringir a análise a realidades específicas e a diferentes níveis de aprofundamento metodológico.

Diante disso, sugere-se a realização de estudos empíricos, especialmente pesquisas de campo, estudos de abordagem qualitativa e quantitativa e investigações multicêntricas, que possibilitem avaliar de forma mais aprofundada a implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem na prática cotidiana, seus impactos nos desfechos assistenciais e os fatores institucionais que influenciam sua efetividade. Tais investigações poderão contribuir para o aprimoramento das estratégias de implementação da SAE e para o fortalecimento da enfermagem enquanto ciência e prática profissional comprometida com a qualidade, a segurança e a humanização do cuidado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMANTE, L. N.; ROSSETTO, A. P.; SCHNEIDER, D. G. Sistematização da assistência de enfermagem em unidade de terapia intensiva. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 62, n. 6, p. 865-870, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/9y9Y6jVZ5FQqZz9bG3sPp5D/. Acesso em: 20 jan. 2024.

AYRES, J. R. C. M. Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde. Rio de Janeiro: Cepesc; IMS/UERJ; Abrasco, 2009.

BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012. Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília, 2012. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf. Acesso em: 20 jan. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/documento_referencia_programa_nacional_seguranca.pdf. Acesso em: 20 jan. 2024.

COFEN – CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução COFEN nº 358/2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem. Brasília, 2009. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html. Acesso em: 20 jan. 2024.

COSTA, R.; MEIRELLES, B. H. S. A enfermagem e as tecnologias de cuidado. Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 28, e20180235, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tce/. Acesso em: 20 jan. 2024.

DONABEDIAN, A. An introduction to quality assurance in health care. New York: Oxford University Press, 2003.

GARCIA, T. R.; NÓBREGA, M. M. L. Processo de enfermagem: da teoria à prática assistencial e de pesquisa. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 188-193, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ean/. Acesso em: 20 jan. 2024.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

HERDMAN, T. H.; KAMITSURU, S. NANDA International nursing diagnoses: definitions and classification 2018–2020. 11. ed. New York: Thieme, 2018.

HORTA, W. A. Processo de enfermagem. São Paulo: EPU, 1979.

KURCGANT, P. (org.). Gerenciamento em enfermagem. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

LUNNEY, M. Pensamento crítico e diagnósticos de enfermagem: estudos de caso e análises. Porto Alegre: Artmed, 2010.

MENDES, E. V. As redes de atenção à saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/redes_de_atencao_saude.pdf. Acesso em: 20 jan. 2024.

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

MOORHEAD, S.; JOHNSON, M.; MAAS, M. Nursing outcomes classification (NOC). 6. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Patient safety: making health care safer. Geneva: WHO, 2017. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/255507. Acesso em: 20 jan. 2024.

POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.

SILVA, M. C. N.; GARRO, I. M. B.; PIMENTA, C. A. M. A sistematização da assistência de enfermagem na prática clínica. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 48, n. 5, p. 837-844, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/. Acesso em: 20 jan. 2024.

SILVA, R. S. et al. Dificuldades na implementação da sistematização da assistência de enfermagem. Revista Enfermagem UFPE On Line, Recife, v. 9, n. 3, p. 7331-7338, 2015. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem. Acesso em: 20 jan. 2024.

STARFIELD, B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: UNESCO; Ministério da Saúde, 2002.

TANNURE, M. C.; PINHEIRO, A. M. SAE: Sistematização da Assistência de Enfermagem – guia prático. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.


1 Mestrado em Políticas Públicas pela UMC - Universidade de Mogi das Cruzes. E-mail: [email protected]