REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790544434
RESUMO
Este artigo tem por finalidade caracterizar as atividades indígenas de uso dos recursos naturais da Comunidade Sapotal, no município de Tabatinga (AM). Ao avaliar alternativas para a gestão responsável da terra, da floresta e da água, é fundamental destacar o papel das populações tradicionais, cujos modos de vida demonstram ser possível conciliar a sobrevivência humana com a sustentabilidade ambiental. Adotamos na investigação a abordagem descritiva para compreender questões importantes da comunidade, sendo fundamental o uso dos três atos cognitivos: olhar, ouvir e escrever. Conforme as inquietações levantadas para o estudo, os dados revelam que as formas de uso dos recursos naturais visam, prioritariamente, à subsistência da unidade familiar, dada a sua importância para a manutenção dos costumes e o fortalecimento da cultura Kokama.
Palavras-chave: Atividades produtivas; Espaço; Lugar; Comunidade; Indígena Kokama.
ABSTRACT
This article aims to characterize the indigenous natural resource use activities of the Sapotal Community in the municipality of Tabatinga (AM). When evaluating alternatives for the responsible management of land, forests, and water, it is essential to highlight the role of traditional populations, whose ways of life demonstrate that it is possible to reconcile human survival with environmental sustainability. In this investigation, we adopted a descriptive approach to understand important issues within the community, relying fundamentally on three cognitive acts: looking, listening, and writing. In light of the concerns raised for the study, the data reveal that the ways in which natural resources are used aim primarily at the subsistence of the family unit, given their importance for maintaining customs and strengthening Kokama culture.
Keywords: Productive activities; Space; Place; Community; Kokama Indigenous.
1. INTRODUÇÃO
As atividades indígenas, por muito tempo, estiveram ou ainda continuam no centro das atenções devido à sua pluralidade nas formas de uso dos recursos naturais. Os indígenas cuidam da terra, da água e da floresta. Esse trabalho reforça a importância de integrar o saber tradicional ao conhecimento ocidental para enfrentar problemas como as mudanças climáticas e o desmatamento.
Nessa perspectiva, o trabalho discorre sobre as atividades indígenas, numa discussão envolvendo os indígenas da etnia Kokama. Quem são os Kokama? Onde estão situados? Os Kokama vivem em comunidades de famílias nucleares e extensas, situadas perto de rios e igarapés, onde mantêm uma relação de reciprocidade típica de sua cultura.
O povo Kokama habita as regiões do Alto, Médio e Baixo Solimões, onde convive com diversas etnias indígenas, como os Ticuna, Kanamari, Kambeba, Kaixana, Matsés, Matis, Marubo e Mayoruna, compondo uma vasta pluralidade étnica. Nesse contexto, o povo Kokama identifica-se por práticas culturais específicas que, aliadas ao seu etnoconhecimento, fundamentam a manutenção e a renovação de seu modo de vida.
A escolha da temática surgiu a partir do interesse investigativo em particular, partindo da minha tripla condição: Homem, indígena Kokama e morador da comunidade, aliando as condições transitórias de estudante e pesquisador. A pesquisa descritiva foi a mais adequada para estudar as atividades e o uso da natureza pelos indígenas. O etnoconhecimento reflete como cada grupo utiliza os recursos locais — naturais ou tecnológicos — para suprir suas necessidades sociais e espaciais.
Destaca-se na pesquisa a Comunidade Indígena Kokama Sapotal, localizada na margem esquerda do Rio Solimões, no município de Tabatinga (AM). O viver em comunidade ocorre através de atividades produtivas como meio de reproduzir o espaço e resistir a imposições sociais. Assim, o modo de vida e a identidade dos indivíduos coincidem com o que produzem e a maneira como o fazem; "o que os indivíduos são, por conseguinte, depende das condições materiais de sua produção" (Marx; Engels, 1932, p. 44).
As diferentes formas de uso dos recursos naturais desenvolvidas pelos indígenas dependem das condições materiais de produção, principalmente do etnoconhecimento. Nesse sentido, como questão norteadora, o problema central que marca o presente estudo é: Qual é a relação dos Kokama com a natureza? Como ocorre o processo de apropriação dos ambientes para as atividades indígenas?
Diante do exposto, para responder à questão levantada, no trabalho buscamos caracterizar as atividades indígenas de uso dos recursos naturais da Comunidade Sapotal, no município de Tabatinga (AM), enquanto os objetivos específicos visam identificar as diferentes atividades realizadas pelos Kokama de Sapotal e discorrer sobre a relação dos indígenas Kokama com a natureza a partir do uso dos recursos naturais.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este trabalho analisa conceitos como espaço, lugar, território, territorialidade e modo de vida. O texto contrasta a exploração capitalista da natureza, voltada à acumulação e ao poder (Moreira, 1982), com as práticas indígenas, que usam os recursos naturais para sustentar sua cultura.
Moreira (1982, p. 3), acerca das sociedades com culturas diferentes, enfatiza que isso se deu pelo "processo social de transformação da natureza em meios de subsistência e de produção"; portanto, releva a questão do arranjo espacial, considerando a sociedade em sua totalidade, particularizada pelos sujeitos na organização social.
Com base nas práticas de organização espacial e social, recorremos a Raffestin (1993, p. 144) para compreender que: "o espaço é, de certa forma, 'dado' como se fosse uma matéria-prima [...] preexistente a qualquer ação", ou seja, o espaço se molda pela ação do homem ao dar-lhe sentido de existência, isto é, de significados materiais por meio das atividades.
O próprio autor enfatiza que "o território se forma a partir do espaço" (Raffestin, 1993, p. 143-144); então, o espaço é apropriado pelo homem quando ele constrói e satisfaz suas necessidades – casas, ruas, entre outros – e explora o ambiente visando à produção de alimentos para subsistência. O território resulta do esforço coletivo de um determinado grupo em ocupar o ambiente, usar os recursos e controlar uma parcela do espaço (Little, 2002; Claval, 1999).
Sendo assim, o espaço "é um espaço produzido" (Moreira, 1982, p. 7), a partir da territorialização do homem como estratégia de apropriação e controle da área geográfica. Esses aspectos são condicionantes da territorialidade que, segundo Sack (2013, p. 63), "é o meio pelo qual espaço e sociedade estão inter-relacionados. As funções de mudança da territorialidade nos ajudam a entender as relações históricas entre sociedade, espaço e tempo".
Em síntese, o espaço apropriado e materializado transforma-se em território pertencente a um grupo coletivo e, respectivamente, a ação do grupo controla o espaço constituído pela territorialidade. A existência do grupo no espaço, portanto, toma sentido pela própria ação no território, evidenciando que os lugares nos quais os grupos se identificam foram construídos pelo homem, onde as relações mantidas nesse espaço são voltadas tanto às atividades produtivas de subsistência quanto às de ordem simbólica (Claval, 1999).
Os conceitos apresentados dão condições à expressão da identidade do grupo; portanto, Claval (1999, p. 14-15) afirma que "o que está em jogo é, ao mesmo tempo, o eu e o nós, que não podem ser concebidos sem um olhar sobre os outros, e muito frequentemente, sem o olhar dos outros [...] a identidade aparece como uma construção cultural", ou seja, uma formação coletiva relevante para os integrantes do grupo, cada qual com seus próprios costumes e modo de vida.
2.1. Espaço e Lugar Como Fortalecimento da Cultura Indígena
Para os povos indígenas, os conceitos de espaço e lugar são essenciais para fortalecer sua cultura. O espaço é visto como um recurso de riqueza e poder, sem valor afetivo. Já o lugar é um ambiente íntimo e humanizado, marcado por profundos vínculos afetivos. Assim, podemos afirmar que os indígenas, por meio de seus costumes e modo de vida, dão sentido à relação íntima de lugar no espaço (Tuan, 1983).
O espaço é, sem dúvida, mais do que um ponto de vista ou um sentimento complexo e fugaz. É uma condição para a sobrevivência biológica. Mas a questão de quanto espaço um homem necessita para viver confortavelmente não tem uma resposta simples. O espaço como recurso é uma apreciação cultural [...] O espaço, uma necessidade biológica de todos os animais, é também para os seres humanos uma necessidade psicológica, um requisito social, e mesmo um atributo espiritual (Tuan, 1983, p. 65-66).
Para Motta (2003, p. 95), lugar é um "espaço onde acontecem as relações de coexistência. É onde as pessoas se movem, individual e coletivamente, construindo uma realidade compartilhada". O lugar, que transcende o espaço e faz parte da vivência indígena, é utilizado para dar significado simbólico; também é uma forma de manter as visões de mundo, propriamente ditas, compartilhar a vivência e as relações recíprocas em comunidade, criando laços com e entre as pessoas (Motta, 2003).
Desse modo, o espaço como recurso e o lugar como encontro dos significados da cultura permitem estabelecer as manifestações simbólicas em relação às influências culturais e sociais de cada lugar (Alves, 2009), a partir das transformações dos costumes que são sentidos e vivenciados, sendo o lugar, portanto, representado por um ambiente de significados para os indígenas, relacionado aos sentimentos da própria cultura (Souza et al., 2009).
Nesse contexto, as categorias de espaço e lugar nos ajudam a compreender os acontecimentos vividos pelo grupo social. Segundo Alves (2009, p. 151), ao "estudarmos a vida cotidiana dos indivíduos, podemos entender a expressão local e específica de processos sociais e econômicos gerais, pois a vida cotidiana materializa e reproduz esses processos, mas também os modifica". Dito isso, afirmamos que o espaço e o lugar servem como meios de fortalecimento da cultura indígena, independentemente da localização em que se encontrem.
2.2. As Práticas Indígenas de Manejo e Exploração dos Recursos Naturais
O modo de vida indígena, pautado na dependência e no uso da terra, da floresta e da água para a produção de alimentos de autoconsumo ou de comercialização, caminha com os saberes locais que estão presentes em si, tratando de reproduzir a diversidade agrícola nos agroecossistemas para viabilizar a manutenção da unidade familiar (Dácio; Noda, 2018).
O modo de vida ribeirinho baseia-se na relação intrínseca do homem com o rio e a floresta, que são parte do seu espaço vivido. E é nesse contexto que se identificam as atividades que são comuns dessa população, tais como: a pesca, a colheita do açaí, a caça, o roçado e outras técnicas artesanais que formam um conjunto de técnicas que são arquitetadas para o uso próprio de determinada comunidade (Silva; Farias; Alves, 2016, p. 162).
Segundo Dácio e Noda (2018), as práticas indígenas são caracterizadas pelo seu processo e resultado de produção. Isso ocorre porque sua cultura se mantém através do repasse de conhecimentos que são renovados ao longo das gerações. Tomamos como base a relação intrínseca do homem com a natureza, em particular a relação indígena Kokama com a natureza, que é uma relação de uso necessária para a vida humana, visto que:
A unidade de produção familiar necessita estar plenamente dotada dos elementos necessários ao provimento das suas necessidades, da sua parentela e da comunidade como um todo, vista a prática da dádiva de bens do sistema agroflorestal de produção e a exigência da reciprocidade (Rodrigues, 2009, p. 81).
As atividades desenvolvidas pelos indígenas conferem significados ao lugar de moradia, pois a prática é uma forma de "coexistir". Já a formação social no espaço geográfico se dá por mais de um modo de produção, que coexiste para o fortalecimento da identidade. Nesse sentido, as formas de produção adotadas pelos indígenas no uso dos recursos naturais correspondem à territorialização dos diversos ambientes, uma vez que a organização representa a conjunção dos ambientes terrestres e aquáticos. Assim, há "o emprego da força de trabalho [...] a partir de estratégias de manejo integradas ao processo de conservação dos ambientes" (Dácio; Noda, 2018, p. 66).
3. METODOLOGIA
3.1. Área de Estudo
O lugar da pesquisa foi a Comunidade Sapotal (Figura 1), situada na margem esquerda do rio Solimões em Tabatinga, na microrregião do Alto Solimões, mesorregião Sudoeste Amazonense, em área fronteiriça entre Brasil, Colômbia e Peru.
A área situada na microrregião do Alto Solimões é banhada pelo rio Solimões em seu território brasileiro. A Comunidade Sapotal, de acordo com a autodesignação dos próprios moradores, localiza-se na unidade geomorfológica denominada terra de várzea, ambiente inundável, nomeada regionalmente de "beiradão". De acordo com o Google Earth (2022), Sapotal está a 47 km de distância em linha reta do porto de Tabatinga, ou 59 km pelo curso do rio. De canoa (9 metros e motor de 9 HP), o percurso entre os dois pontos dura aproximadamente três horas e meia.
A microrregião do Alto Solimões é reconhecida pela baixa densidade demográfica, sendo Tabatinga e Benjamin Constant os municípios mais populosos, com 66.837 e 37.648 habitantes, respectivamente (IBGE, 2022).
Figura 1. Localização da Comunidade Indígena Kokama Sapotal, Tabatinga/AM, Brasil
3.2. Seleção dos Sujeitos da Pesquisa
Os sujeitos sociais da pesquisa corresponderam a 40 unidades familiares, entre homens e mulheres, jovens e adultos, identificados conforme a disponibilidade deles para participar da pesquisa. A participação dos moradores possibilitaria compreender a diversidade de atividades realizadas no espaço e no lugar da comunidade.
Dos 40 moradores participantes da pesquisa – 14 casados(as), 23 amigados(as), 2 separados(as) e 1 viúvo(a) – a idade média é de 39,4 anos. Dos moradores selecionados, todos são agricultores, pescadores, criadores e extrativistas indígenas, uma vez que cresceram desenvolvendo a polivalência em estreita interação com a natureza.
3.3. Abordagem, Pesquisa de Campo e Procedimentos de Análise
Com base em Rampazzo (2002, p. 53), a pesquisa se caracteriza como descritiva, pois "observa, registra e analisa", permitindo-nos conhecer as situações e relações que ocorrem em um dado espaço e lugar, em paralelo aos três atos cognitivos: olhar, ouvir e escrever, fundamentais no decorrer da realização do trabalho de campo.
Na busca por responder aos objetivos propostos, foram realizados: a) levantamento bibliográfico fundamentado na metodologia de Minayo et al. (2002); e b) pesquisa de campo realizada em duas etapas, nos meses de maio e outubro de 2023. Na pesquisa de campo, usamos entrevistas, observação com fotos, diário e formulários para entender as atividades dos Kokama, como agricultura, pesca, criação de animais e extrativismo. Depois da pesquisa na Comunidade Sapotal, organizamos os dados coletados em gráficos no Excel e no Word. Essa análise quantitativa e qualitativa permitiu uma melhor compreensão da realidade estudada.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1. Espaços de Trabalho dos Kokama
Os espaços de trabalho caracterizam os ambientes explorados pelos Kokama em um dado momento e/ou continuamente ao longo do ano, em paralelo à dinâmica sazonal do rio Solimões. Para os Kokama, conforme as declarações obtidas nas entrevistas, o uso dos recursos naturais (Gráfico 1) é fundado na obtenção de alimentos, remédios, produção de necessidades materiais e na geração de renda para o sustento familiar.
As comunidades do Alto Solimões situam-se em terra firme ou várzea. Sapotal, por exemplo, fica em uma área de várzea alta, onde o povo Kokama ajusta a agricultura aos ciclos de cheias e vazantes do Rio Solimões. Devido a esses aspectos da vida Kokama, o trabalho familiar é uma estratégia usada para conservar o meio ambiente e aproveitar melhor o tempo e o espaço na produção de alimentos. Dessa forma, essas são as estratégias utilizadas para explorar os recursos naturais, uma vez que o método de produção define como os ambientes são cultivados.
Gráfico 1. Tipos de Uso dos Recursos Naturais na Comunidade Sapotal, Tabatinga, Amazonas
Conforme o Gráfico 1, destacam-se as atividades desenvolvidas pelas famílias Kokama, ainda que não sejam equitativamente praticadas por todos, dadas as necessidades particulares dos moradores da Comunidade Sapotal. Porém, quando falamos de agricultura, percebe-se que os moradores, em sua totalidade, a realizam para o provimento de insumos necessários para a subsistência, principalmente na fabricação da farinha de mandioca. Sendo assim, a pesca é praticada por 87,5% dos moradores, enquanto a criação animal é feita por 77,5%; já a caça e a extração de madeira são desenvolvidas por 30% dos Kokama. Em ambos os casos, visam satisfazer as necessidades da família. Mesmo que não tenha tido destaque no referido gráfico, os moradores também fazem uso de plantas medicinais.
Nesse contexto, as atividades são realizadas tanto em ambientes terrestres quanto aquáticos, demonstrando que os moradores exercem a polivalência. Em terra, eles praticam a agricultura itinerante, caçam, criam aves e constroem suas casas com quintal e terreiro. Já no ambiente aquático, dedicam-se ao extrativismo vegetal e à pesca de subsistência, vendendo o excedente para uma rede de consumidores indígenas e não indígenas. No entanto, vivem em estreita relação recíproca com a natureza; também se relacionam a partir dos diferentes usos feitos dos ambientes terrestres e aquáticos, interagindo de forma sustentável.
4.2. Lugares de Terra e de Água das Atividades Kokama
As atividades de agricultura, pesca, extrativismo e criação animal são formas de uso dos recursos naturais. Portanto, desenvolver o trabalho em lugares distintos se deve à "preocupação com a oferta regular de produtos destinados ao autoconsumo e à comercialização" (Dácio; Noda, 2018, p. 71).
As roças caracterizam a prática da agricultura; tais lugares são espaços agrícolas onde se cultiva mandioca (Manihot esculenta Crantz), além de banana (Musa sp.). Nas roças, foi identificado que as famílias cultivam, simultaneamente, de três a cinco espécies agrícolas (Tabela 1) de ciclo anual e curto. Em tese, a roça é o lugar onde se cultiva, predominantemente, a mandioca.
Tabela 1. Espécies Agrícolas Cultivadas nos Lugares de Terra na Comunidade Sapotal, Tabatinga, Amazonas
Espécies | Presença / % |
Macaxeira e banana | 39,5 |
Mandioca e milho | 22,9 |
Pimentão, tomate e chicória | 15,6 |
Mamão, ingá e abiu | 9,3 |
Coco, laranja e melancia | 7,4 |
Pepino, pimenta-cheirosa e jerimum | 5,3 |
Fonte: Dados de Campo de 2024.
O cultivo é realizado pelas famílias, independentemente da distância das áreas em relação à roça. Elas também mantêm capoeiras, que são terrenos deixados em descanso por até três anos para recuperar a fertilidade do solo. Nos locais de terra, em sua ampla utilização, os Kokama usam diferentes ferramentas, como terçado, enxada, pá, machado e forno, que dão condições para as famílias trabalharem na própria unidade de produção (Witkoski, 2010).
Após a colheita da mandioca, os Kokama usam o forno da casa de farinha para iniciar o preparo da farinha, que é um alimento regional importante. O fazer farinha é coletivo e envolve toda a unidade familiar Kokama, que também consome o que é produzido. Assim, a farinha é feita da seguinte forma: a) arrancar; b) descascar; c) lavar; d) transportar; e) sevar/ralar; f) prensar; g) peneirar; h) torrar; i) resfriar; e j) ensacar a farinha.
Conforme os dados de campo, é recorrente a criação animal em locais de terra, como o quintal e o terreiro da casa. Essa atividade é uma fonte essencial de proteína para as famílias, especialmente durante o cultivo nas roças. Além disso, é uma estratégia importante para os indígenas garantirem sua subsistência.
Geralmente, os animais de criação são aves – galinhas caipiras e patos, como ilustrado na Figura 2. As aves são alimentadas por uma variedade de produtos oriundos da produção Kokama, bem como por produtos industrializados, identificados da seguinte maneira: milho, farelo de farinha, resíduos de fabricação da farinha de mandioca, resíduos orgânicos e arroz, que garantem a reprodução das aves.
Figura 2. Aves se alimentando com farelo de farinha
A "floresta de trabalho" compreende as áreas de terra e água onde os Kokama coletam animais e plantas que não são cultivados por eles. As unidades familiares Kokama não apenas consomem produtos gerados pela sua força de trabalho, mas também fazem uso de itens disponíveis na floresta.
Os Kokama valorizam essas áreas da mata porque elas oferecem recursos essenciais, como frutas, plantas medicinais e animais para caça, destinados ao consumo próprio ou à venda. Além disso, a floresta fornece madeira para construir casas e canoas (Dácio; Noda, 2018).
Já a pesca é considerada um dos importantes meios de subsistência dos indígenas, sendo realizada em cursos-d'água por haver uma grande quantidade de peixes que são capturados pelos Kokama. Conforme relato dos moradores, entre os ambientes aquáticos frequentados, foi possível identificar quatro tipos: rio, beira do rio, lago e igapó, nos quais se faz uso de diversas técnicas relacionadas ao ambiente e ao tipo de peixe a ser pescado, constituindo-se em uma longa experiência de vida que demanda tempo e dedicação para sua realização com eficiência.
Os dados mostram que a pesca não é mais uma atividade exclusivamente masculina, pois hoje em dia há mulheres que a praticam, por vezes acompanhadas de homens. Os locais de pesca são fundamentais para a subsistência das famílias, pois oferecem diferentes oportunidades de trabalho e métodos específicos para a captura de determinadas espécies (Tabela 2).
Tabela 2. Espécies de peixes capturadas ao longo do ano na Comunidade Sapotal, Tabatinga, Amazonas
Lugares de Água | Espécies de Peixe |
Rio | Dourado, melado, flamengo, zebra, pirabutão, pacamu, filhote, piraíba, surubim, caparari, pirarara, barbado e tambaqui. |
Beira do rio | Mandi, bacu, sardinha, pacu, piau, matrinxã, curimatã e arenga. |
Lago | Bodó, curimatã, acará-açu, jiju, branquinha, acará, tucunaré, sulamba, traíra e aruanã. |
Igapó | Acará-açu, jiju e traíra. |
Fonte: Dados de Campo de 2024.
4.3. A Transformação dos Costumes Kokama Pela Influência do Mercado
Em contrapartida aos temas discutidos anteriormente, e como consequência das escolhas pessoais dos próprios moradores em relação aos produtos que consomem e/ou deixam de consumir na comunidade, foi possível observar que o mercado tem influenciado os costumes com a oferta de produtos industrializados, em sua maioria comestíveis, devido à proximidade do mercado com a comunidade.
Pois a unidade familiar, enquanto responsável, destina os produtos para o autoconsumo e para a comercialização, que são rendimentos provenientes das atividades de agricultura, pesca, extrativismo e criação animal. Nesta seção, chama a atenção o fato de os Kokama trocarem seus produtos agrícolas por mercadorias industrializadas. Eles seguem as práticas do mercado ocidental para adquirir gêneros alimentícios que não possuem produção local.
Este mercado oferece uma gama de produtos de consumo, sejam eles bens de consumo de curto a longo prazo, estando os sujeitos sociais inseridos nesta teia de fixos (comunidade e mercado) e fluxos (mercadorias/produtos). Neste caso, os Kokama envolvidos nessa realidade vendem seus produtos em troca de outros para satisfazer as próprias necessidades; isto é, no mercado adquirem um produto que não é produzido na comunidade.
Nesse sentido, os produtos oriundos de determinadas atividades servem tanto para o consumo quanto para a comercialização, o que, de maneira direta, contribui para a dinamicidade da vida e para as relações de troca dentro e fora da comunidade, resultando na introdução/participação dos sujeitos sociais no mercado local. Identificamos com os moradores os produtos industrializados comprados no mercado — café, açúcar, sal, óleo de cozinha, feijão, arroz, salsicha, frango de granja, entre outros — que mostram como a cultura Kokama está mudando, assim como seus hábitos e sua visão sobre o lugar onde vivem.
Logo, os produtos comercializáveis proporcionam a alteração de costumes; segundo a percepção de 87% dos participantes acima de 40 anos, tais produtos industrializados não eram comuns na comunidade devido ao alto custo e ao baixo valor dos peixes na época. Conforme a própria cultura e o modo de vida Kokama, o consumo diário era atrelado ao peixe (couro e escama), farinha de mandioca, macaxeira, banana, fruta-pão, arroz, feijão, entre outros. Assim, foi possível observar que os moradores Kokama fundamentam suas atividades para produzir algo que subsidie alimentos para a família, estando esta acepção além de simplesmente obter alimento.
Ainda que seja compreendido como uma forma de atender às necessidades da família Kokama, bem como de constituir as próprias relações comerciais e/ou de troca no mercado local, é algo que acontece cumulativamente pelo fato de os Kokama serem também produtores e precisarem se relacionar/envolver nesse mercado para usufruir de objetos para o consumo individual ou coletivo. Como bem destaca Witkoski (2010), as populações tradicionais exercem determinadas atividades produtivas para serem inseridas no mercado que as circunda, pelas quais estabelecem relações comerciais de troca com diferentes agentes de comercialização.
Sendo assim, percebe-se que os moradores se valem dos resultados obtidos com as atividades produtivas, em concordância com Ramos (2003, p. 26-27), já que "o hábito alimentar Kokama consiste basicamente no consumo de produtos agrícolas, da pesca e da caça, sendo enriquecido com os mais variados tipos de frutas", dos quais boa parte, por alternativa/opção familiar, é comercializada devido às necessidades do próprio núcleo ou família extensa, ambos fazendo jus ao trabalho despendido.
Então, por meio da observação em campo, logo se percebe que a procura imediata do mercado tem fomentado que os homens, entre os produtos industrializados, façam uso de bebida alcoólica em datas comemorativas, encontradas no mercado da cidade ou em comunidades não indígenas, o que contradiz as normas da Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI, que proíbe a venda, o uso e o consumo de bebidas alcoólicas em comunidades indígenas. Para os entrevistados, esse impedimento tem apresentado melhorias, até mesmo para os Kokama que vivem em comunidades e devem manter uma relação recíproca entre os membros.
Logo, os Kokama da Comunidade Sapotal, enquanto moradores, relacionam-se com pessoas de comunidades vizinhas como forma de manter o convívio com hábitos e culturas diferentes. Neste contexto, podemos compreender que os Kokama têm o próximo como seus próprios "parentes" (forma de relação local), isto é, os outros não são vistos como diferentes; porém, o outro tem o seu modo de vida e própria cultura para serem respeitados.
Mas também não podemos desconsiderar que o mercado tem influência na transformação da cultura indígena para além da prática nas atividades. Com a prática das atividades socioprodutivas, o mercado induz a unidade familiar a produzir/obter um produto com valor de uso para trocar por outro valor de uso e se valer da troca. Portanto, quando as famílias precisam obter um produto necessário, os responsáveis, ao realizarem a pesca, demonstram intensidade e ambição para a captura do peixe de couro denominado dourado, que, por sua valorização, possibilita a troca de produtos.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O povo Kokama usa os recursos naturais de forma estratégica para viver por muito tempo em áreas de várzea alta, mantendo uma relação próxima com a natureza. Os ambientes acessados para as atividades são espaços de fortalecimento da cultura do povo Kokama. Nesse sentido, as práticas desenvolvidas e as expressões de conhecimentos tradicionais são experiências geracionais.
Nosso trabalho mostra que o povo Kokama utiliza seus conhecimentos tradicionais para diversificar suas atividades, dando um valor simbólico especial aos produtos colhidos. Logo, isso fortalece dia após dia o modo de vida Kokama em um ambiente de várzea, onde a polivalência se tornou algo imperativo para se viver em comunidade.
Também se considera que os objetivos da pesquisa foram alcançados com os resultados obtidos ao caracterizar os ambientes das atividades Kokama, onde identificamos que a agricultura, a pesca, o extrativismo e a criação animal possibilitam a (re)produção física e social da unidade familiar. Diante das atividades realizadas pelos Kokama, a interação com a natureza torna-se uma relação de reciprocidade; portanto, os lugares de terra e de água agregam importância e fortalecem a cultura Kokama.
Dada a importância dos peixes de escama e de couro e do consumo de proteína animal, os Kokama acessam diferentes ambientes de pesca na busca de outras espécies, ocorrendo conflitos por território entre Kokama e Ticuna. Além disso, nesses espaços em disputa, encontram-se algumas espécies de peixes que servem para o autoconsumo e a comercialização Kokama.
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1 Mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (Universidade Federal do Amazonas). Docente da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC-Amazonas). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2605-1853.
2 Doutor em Sociologia (Universidade Federal do Ceará). Docente da Universidade Federal do Amazonas (Campus Universitário Senador Arthur Virgílio Filho). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5194-4074.
3 Doutor em Geografia (Universidade Federal de Rondônia). Docente da Universidade do Estado do Amazonas (Centro de Estudos Superiores de Tabatinga). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7158-8185.
4 Doutor em Biotecnologia (Universidade Federal do Amazonas). Docente da Universidade do Estado do Amazonas (Centro de Estudos Superiores de Tabatinga). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8204-620X.