AS AGRICULTORAS EXPERIMENTADORAS E GUARDIÃS DE SEMENTES NO ALTO JEQUITINHONHA – MG BRASIL

EXPERIMENTING WOMEN FARMERS AND SEED GUARDIANS IN THE UPPER JEQUITINHONHA VALLEY – MG, BRAZIL

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793379468

RESUMO
Os processos de usurpação da autonomia feminina se estabeleceram desde a implantação do sistema capitalista, com a transformação dos indivíduos em força de trabalho, reforçada com a chegada da Revolução Verde, com seu envenenamento e desapropriação dos conhecimentos tradicionais e soberania dos povos. A promoção da agroecologia e a soberania alimentar são caminhos para uma vida saudável em consonância com o meio e os recursos naturais, identificando possibilidades sociais e politicamente emancipadoras. Nossa busca pela conservação de sementes nos levou a identificar agricultoras experimentadoras, guardiãs de sementes e mulheres expressivas capazes de salvaguardar os saberes tradicionais e a agrobiodiversidade regional, bem como capazes de envergarem seu trajeto de engajamento político e social. Explicitar os saberes e práticas de mulheres agricultoras e guardiãs é uma estratégia de reconhecer e reverenciar a história das mulheres relacionando-a com a da agricultura, com a promoção da saúde e, consequentemente com a construção da agroecologia.
Palavras-chave: Agroecologia; Agrobiodiversidade; Autonomia; Saberes tradicionais; Soberania alimentar.

ABSTRACT
Processes of usurping women’s autonomy have been established since the onset of the capitalist system, through the transformation of individuals into a labor force, which was further reinforced by the arrival of the Green Revolution with its poisoning and expropriation of traditional knowledge and the sovereignty of peoples. The promotion of agroecology and food sovereignty are pathways toward a healthy life in harmony with the environment and natural resources, identifying socially and politically emancipatory possibilities. Our search for seed conservation led us to identify experimenting women farmers, seed guardians, and prominent women capable of safeguarding traditional knowledge and regional agrobiodiversity, as well as pursuing their own trajectories of political and social engagement. Making explicit the knowledge and practices of women farmers and guardians is a strategy to recognize and honor women’s history, connecting it with that of agriculture, health promotion, and, consequently, the construction of agroecology.
Keywords: Agroecology; Agrobiodiversity; Autonomy; Traditional knowledge; Food sovereignty.

INTRODUÇÃO

O processo de usurpação dos saberes tradicionais, do conhecimento das plantas e das ervas medicinais, da autonomia sobre a reprodução e sobre a sexualidade da vida das mulheres é bem retratado por Silvia Federici (2017) no período entre a idade média e a moderna, ou seja, entre o feudalismo e o capitalismo. Ela explica, fazendo paralelos com processos semelhantes na África, Ásia e América latina, que logo após a perda de terras comunais através dos cercamentos e expulsão dos camponeses de suas terras, no processo de acumulação primitiva do capital, as mulheres perderam sua autonomia para o trabalho e sofreram com desvalorização dos trabalhos domésticos e com os filhos, sendo agravados ainda pelo aumento da violência contra elas. Processos como este, bem como a “modernização conservadora” da Revolução Verde na segunda metade do século XX nas Américas, suplantaram no campo um modelo de produção de commodities para a exportação ao invés de produção de alimentos para o autoconsumo e, com o avanço do capitalismo, o campo foi transformado pela concentração fundiária com a falsa intenção da eficiência agrícola. Os camponeses foram empurrados ao êxodo rural ou a precarização de seus trabalhos (Federici, 2017; Sauer; Balestro, 2013) convertidos em força de trabalho. Em locais onde sofreram pressões externas como a de grandes empresas, agricultoras/es foram levados a perder sua autonomia na conservação de suas sementes (la Via Campesina; Grain, 2015), sendo transformados em agentes dependentes das tecnologias vendidas em pacotes fechados e que geraram muitos casos de endividamentos e perda de saúde.

A perspectiva agroecológica nos facilita trazer o olhar para mundo do trabalho no campo, considerando uma dimensão sobre o trabalho que emancipa, sendo importante para isso ter claro a perspectiva agroecológica de campesinato, como explicitam Guzmán e Molina (2005) “[...] o campesinato é, mais que uma categoria histórica ou sujeito social, uma forma de manejar os recursos naturais vinculada aos agroecossistemas locais e específicos de cada zona, utilizando um conhecimento sobre tal entorno condicionado pelo nível tecnológico de cada momento histórico e o grau de apropriação de tal tecnologia [...]”.

Como ressaltam Machado e Filho (2017), a agroecologia como uma ciência dialética, com princípios que tratam da produção de alimentos limpos para o homem e para o meio, necessita da pesquisa e dos saberes tradicionais ricamente herdados de povos ancestrais e camponeses atuais que desenvolveram suas práticas em consonância com agroecossistemas saudáveis. A Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) ainda destaca a perspectiva da Agroecologia como movimento social e político (ABA Agroecologia, 2015), ressaltando seu compromisso formativo no desenvolver de suas atividades.

Outro ponto importante que congrega as referências conceituais nas quais ancoramos nossas bases são os conceitos de Segurança Alimentar e Nutricional bem como o de Soberania Alimentar dos povos, bem definidos pela lei de segurança alimentar do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA, 2006). Percebemos sua relação direta com a conservação da biodiversidade, principalmente no contexto da agricultura campesina, que é a responsável pela produção de alimentos que a população brasileira acessa diariamente na sua rotina alimentar. Aspectos que atingem diretamente a preservação das sementes crioulas, como a intensa disputa pelo controle e manejo da biodiversidade, comprometem a segurança e soberania alimentar. Os camponeses e outros povos tradicionais têm no grande acervo de conhecimentos e práticas sobre as sementes e a biodiversidade local uma reconhecida fonte de sobrevivência e autonomia de suas comunidades. O cultivo, o cuidado e o intercâmbio das sementes entre os povos são práticas indispensáveis para mantê-las vivas, ao passo que mais da metade do mercado mundial de sementes concentra-se sob a representação de poucas empresas (la Via Campesina; Grain, 2015).

A conservação de sementes é uma das atividades que possuem grande potencial para o empoderamento das mulheres por meio da valorização de seu trabalho social e comercialmente, sendo de suma importância o apoio através de políticas públicas financiadoras e de suporte técnico, enfatiza Emma Siliprandi (2009). O protagonismo feminino, suas reivindicações, autonomia econômica e organização política em torno de pautas tanto compartilhadas com os demais trabalhadores campesinos, quanto específicas das relações de gênero, vêm tomando espaços de conscientização e de luta desde a década de 80 no Brasil (Siliprandi, 2009). É importante perceber que o empoderamento das mulheres se relaciona com as dinâmicas de inovações agroecológicas sendo indispensável a participação destas neste processo (Ferreira, 2009). Esta percepção é bem esclarecida por Maria Emília Pacheco (2009): “Ao mesmo tempo em que introduzem mudanças nos sistemas de produção, as mulheres vão experimentando transformações em sua vida cotidiana que as levam ao questionamento do modelo agrícola e social, consagrando-se como sujeitos políticos.”

As variedades de sementes crioulas, especialmente adaptadas ao seu ambiente, são um dos eixos condutores da soberania alimentar de cada rincão campesino. Quando as sementes são escolhidas e as formas de cultivos são definidas pelas(os) camponesas(es), tem-se um processo que caminha na direção da soberania alimentar dos povos (Siliprandi, 2009). A diversificação dos cultivos é um dos pilares da produção de alimentos saudáveis, em sinergia com a conservação do meio ambiente e dos recursos naturais (Siliprandi, 2009). Dessa forma, pretendemos nessa pesquisa identificar as agricultoras guardiãs de sementes e mestras dos saberes sobre as plantas alimentícias e medicinais da região de São Gonçalo do Rio Das Pedras, município de Serro – MG num processo de valorização de seus conhecimentos e de conexão entre elas e a Casa de Sementes da FUNIVALE/ Projeto Sementes, Agriculturas e Soberania Alimentar. Este caminho pretende enriquecer nosso acervo de sementes, bem como reconhecer e preservar as sementes locais, além de identificar as práticas agroecológicas que promovem a soberania alimentar dessas agricultoras.

METODOLOGIA

A iniciativa do projeto Sementes, Agriculturas e Soberania Alimentar ocorreu em 2017 com o edital para projetos de extensão da Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM e sua parceria com casa de sementes mantida pela Associação Pró-Fundação Universitária Vale do Jequitinhonha – FUNIVALE (município de Serro – MG). A FUNIVALE possui mais de 20 anos de experiência no cultivo de plantas alimentícias e medicinais, assegurando sua casa de sementes de espécies manejadas a partir de técnicas agroecológicas, como uma forma de formação continuada e espaço de troca de saberes com mestres e mestras locais. Os afazeres desenvolvidos na FUNIVALE, como replantio, colheita, seleção de sementes e manutenção das sementes na casa, são fruto do trabalho de voluntários, funcionários e de bolsistas envolvidos com os compromissos de uma agricultura limpa e da soberania alimentar. A continuidade do referido projeto tem possibilitado apoio mútuo entre as instituições, tanto potencializando a dinâmica de manutenção da Casa de Sementes, quanto viabilizando a troca de experiências entre agricultores locais e de outras regiões e entre os agricultores e estudantes da UFVJM.

Em 2018 o desenvolvimento do projeto possibilitou o apoio de trocas de experiências a partir da realização de feiras de trocas de sementes, no nível local, regional e nacional, com destaque para a participação na reunião do Fórum do vale, em que aconteceu o evento preparatório para o Encontro Nacional de Agroecologia - regional Vale do Jequitinhonha que ocorreu no IFNMG-Araçuaí e o IV Encontro Nacional de Agroecologia, ocorrido em Belo Horizonte, além de pelo menos mais quatro eventos e momentos de encontros, espaços formativos e trocas de saberes e sementes entre agricultores, estudantes da Licenciatura Educação do Campo e Agronomia, e população em geral. Tais atividades têm fomentado aprendizados e trocas de experiências sobre sementes crioulas, permacultura e agroecologia e tem apoiado e potencializado a inserção da UFVJM no alto Jequitinhonha. Sobretudo, essas experiências apontam para o potencial de uma casa de sementes em apoiar a autonomia dos agricultores em manter suas próprias sementes, fomentar a disseminação de sementes agroecológicas de hortaliças, verduras convencionais e não convencionais, plantas medicinais, assim como espécies nativas arbóreas, ornamentais, entre outras e, principalmente revelar mulheres guardiãs de sementes na região do alto Jequitinhonha.

Ao longo das atividades do projeto fomos capazes de reconhecer algumas das guardiãs de sementes e plantas desta região, bem como a formação de lideranças dentro do processo de engajamento social que esta concepção requer. Coletamos depoimentos de três mulheres envolvidas com estas práticas desde suas histórias de vida até suas atividades atualmente vinculadas ao projeto Sementes, Agriculturas e Soberania Alimentar. As entrevistadas foram Maria Flor de Maio de Jesus Silva4, 30 anos, agricultora, aluna da Licenciatura Educação do Campo/UFVJM e atualmente secretária executiva na FUNIVALE; Eva Aparecida Ribeiro Ferreira5, 59 anos, moradora e agricultora em São Gonçalo do Rio das Pedras e Nivalda Aparecida Severino Correia6, 50 anos, também moradora e agricultora na mesma comunidade. Seus relatos foram cedidos em 2018 e em 2019, bem como suas autorizações para divulgação.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Entre as falas que ouvimos das mulheres guardiãs e agricultoras, o conhecimento tradicional, aliado ao engajamento na realização de práticas agroecológicas, bem como suas atividades de envolvimento social, foram importantes para torná-las fortes referências sobre estas questões e representantes da soberania alimentar em São Gonçalo do Rio das Pedras.

Maria Flor, originária da Comunidade Quilombola Fazenda Santa Cruz e de família de agricultores, teve formação técnica em Horticultura orgânica oferecida pela FUNIVALE aos 16 anos de idade, onde ela descreve:

Foi assim que a cada dia mais eu me apaixonava pelo que eu fazia, o contato com a terra, as sementes, as produções com grandes variedades e abundância, onde melhorei minha alimentação. Quanto mais o tempo passava mais coisas aprendia, além da teoria e práticas oferecida no curso, comecei a valorizar e observar cada forma de plantar e cuidar na minha própria comunidade e fui levando novidades também para os agricultores lá.

Neste momento Maria Flor também iniciou sua formação em práticas agroecológicas, organização comunitária e movimentos sociais, mais tarde ampliado por seu trabalho na ONG Associação de Desenvolvimento Comunitário e Ação Social Do Clube de Mães de São Gonçalo do Rio das Pedras. Maria Flor possuía um contato com as sementes de sua família que promovia a segurança alimentar pois todos os anos guardavam as sementes do ano anterior e não necessitavam da compra de novas sementes. Promoviam assim a seleção das sementes e também sua variabilidade através da troca entre agricultores da região. O papel das mulheres, bem como o modo de vida camponês é bem descrito no seguinte trecho de seu depoimento:

[...] As formas de plantio os homens preparavam as terras fazendo a parte mais pesada e as mulheres selecionava as sementes e realizava os plantios das sementes no berço, nas capinas das culturas na maioria das vezes ficavam na responsabilidade das mulheres e filhos mais velhos que cuidavam, enquanto os homens iam trabalhar em garimpos para complementar a renda família. Lembro também que as mulheres trocavam dia uma com as outras ou seja faziam mutirão para uma ajudar a outra nas capinas e de repente terminavam todo trabalho.

A troca de dias de trabalho entre as mulheres é destacada no depoimento de Maria Flor do mesmo modo que mulheres de Chapada do Norte e Minas Novas, municípios do Vale do Jequitinhonha, realizavam entre si para cuidar dos roçados na ausência dos homens que migravam sazonalmente para as plantações de café (Tabaldini; Diniz; Gianasi, 2009).

Atualmente Flor organiza os trabalhos administrativos e práticos do plantio agroecológico de hortaliças e incentivo a Agroflorestas da FUNIVALE, bem como o Viveiro Berço da Flora, com produção de mudas aromáticas e medicinais e o trabalhado na identificação de guardiões de Sementes e organizações de feiras agroecológicas e trocas de sementes. Além disso, como estudante da Licenciatura em Educação do Campo – Ciências da Natureza UFVJM, ela entende o curso descrevendo-o da seguinte forma:

[...] onde cada dia mais me apaixono, porque Educação do Campo é uma forma de Educar, empoderar e protagonizar os sujeitos do Campo como eu, que busco a construção de alternativas coletivas para o desenvolvimento das comunidades rurais. É um instrumento de Luta contra opressões e exclusões realizando assim a formação holística e integral do ser humano como sujeito de direitos, com memória, história e capacidade de leitura da realidade contextualizada.

Estar matriculada em um curso de nível superior, que lhe garante condições de ampliar sua escolaridade, além de ir ao encontro das suas expectativas, como pode-se perceber no relato da Flor, é uma forma de ampliar e fortalecer sua ação como liderança local. Ao acessar a educação formal e escolar, como uma professora da rede pública, ela viabiliza um caminho para fortalecer a escola pública da sua região, pois terá uma profissional que tem origem na própria região, e com o compromisso de promover o campo a partir dos princípios e práticas agroecológicos. Essa é uma conquista também para a educação do campo e dos povos do campo.

No depoimento da agricultora Eva Aparecida, identificada como guardiã de sementes na região de São Gonçalo do Rio das Pedras – Serro/MG, forte parceira na troca das sementes, percebemos a trajetória que parte do aprendizado no manejo da terra entre plantas medicinais, alimentares e ornamentais em espaços de quintais até as hortas e espaços de trocas de saberes. Seu conhecimento sobre a qualidade dos alimentos produzidos fica evidente em sua fala “a semente é lançada no solo e o solo nos oferece essa riqueza, [...] fornece toda a energia para que essa planta ‘dê’ com abundância e nós só podemos colher e levar para nossa mesa né”[...] “esse solo maravilhoso! seja ele arenoso, argiloso, brejado, seco, semiárido”. Tamanho esclarecimento, evidencia sua noção em tratar o solo de acordo com suas características específicas e sua relação com a produção de alimentos. As falas de Dona Eva estão prontamente em consonância com os ensinamentos compilados por Ana Primavesi, agricultora experimentadora e cientista que destaca em seu livro Manual do solo vivo (Primavesi, 2017): “O homem somente terá saúde se os alimentos possuírem energia vital. Os alimentos somente possuem energia vital se as plantas forem saudáveis. As plantas somente serão saudáveis se o solo for saudável.”. Quando Dona Eva se diz “felicíssima em encontrar tantas sementes, tanta gente boa trabalhando na frente”, na ocasião de sua presença na Feira de Troca de Sementes de São Gonçalo do Rio Das Pedras em outubro de 2018, nos remete a um espaço de reconhecimento de seu próprio trabalho, desenvolvido já há muitos anos e então valorizado através da aproximação que os encontros propiciados pelo projeto trazem para o cotidiano de trabalho da roça, visão também compartilhada por Maria Flor. Desta forma, reconhecemos em seu trabalho uma forte iniciativa e disposição na frente de um trabalho agroecológico.

Nosso último depoimento foi o de Nivalda, uma agricultora experimentadora e guardiã, que colabora já há dois anos com aulas de botânica do curso de Licenciatura Educação do Campo da UFVJM. Ela se aproximou do projeto sementes pelo intermédio de Maria Flor. No seu relato ela nos revela que a autonomia das mulheres rurais está diretamente relacionada aos seus conhecimentos sobre ervas medicinais, produção de sementes e sua conservação, assim como explicita os desafios para construir os conhecimentos que garante sua autonomia enquanto agricultora.

Nestes depoimentos que coletamos, a segurança alimentar é manifestada nas variedades plantadas e coletadas pelas agricultoras (Quiabo, milho, arroz, café, mandioca, batata doce, cana de açúcar, feijão, fava, hortaliças diversas, urucum, jatobá, abacate, barba timão, coco, flores, ornamentais, mudas de espécies arbóreas) e fica evidente através do enriquecimento na qualidade de suas produções e alimentação familiar tanto herdadas no aprendizado de origem materna, quando ao longo do processo de formação acadêmica e dos trabalhos práticos na terra. Como no exemplo da rede de agricultoras-experimentadoras criado em Borborema – PA e seus quintais produtivos no trabalho de Adriana Freire (2018), as mulheres que conhecemos no desenrolar de nosso projeto também conservam as sementes locais, realizam experimentos de novos cultivos, trocam experiências e conhecimentos com demais agricultoras(es), contribuem com a formação de educadores do campo e, aos poucos, envergam seu trajeto de engajamento político e social. Este movimento torna suas ações, até então entendidas como locais e pequenas, capazes de reverberar em outros quintais, em feiras de trocas, em outras comunidades e regiões, demonstrando na prática que alternativas são possíveis e viáveis para enfrentar e se contrapor a produção agrícola convencional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste contexto de reconhecimento do trabalho de mulheres agricultoras, guardiãs e lideranças comunitárias, entendemos que a organização de Casas de sementes é uma estratégia que contribui para valorizar o conhecimento que os povos e comunidades tradicionais possuem sobre as plantas, assim como fortalecer a autonomia dessas comunidades, a partir do conhecimento e trabalho dessas mulheres.

Reconhecer seus saberes e práticas é um caminho para evidenciar as violências físicas e simbólicas que as silenciaram e ainda as silenciam no contexto político e social de construção dos conhecimentos. A prática de conservação das sementes é um trabalho realizado pelas mulheres e não pode ficar invisibilizado no contexto das atividades reprodutivas ou no contexto das atividades que são desenvolvidas nos quintais e no entorno das moradias. Explicitar e valorizar os saberes e práticas de mulheres agricultoras e guardiãs das sementes e plantas é uma estratégia de reconhecer e reverenciar a história das mulheres relacionando essa história com a construção de uma agricultura e saúde agroecológica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Bióloga, Mestra em Ecologia, Doutora em Agroecossistemas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Agricultora, Gestora Ambiental, Monitora Ambiental na área de proteção integral Monumento  Natural e Estadual Várzea do Lageado e Serra do Raio, Estudante da Licenciatura e Educação do Campo/ Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Diamantina, MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail 

3 Bióloga, Dra em Ciências Humanas, Professora do Curso de Licenciatura em Educação do Campo e do Mestrado em Estudos Rurais/Faculdade Interdisciplinar em Humanidades/ Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Diamantina, MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 SILVA, Maria Flor de M.J. Maria Flor de Maio de Jesus Silva: depoimento [jan. 2019]. Entrevistadora: Maraísa Resende Braga. Diamantina – MG, 2019. Entrevista concedida ao projeto de extensão Sementes, agriculturas e soberania alimentar - UFVJM.

5 FERREIRA, Eva Aparecida Ribeiro. 8Eva Aparecida Ribeiro Ferreira: depoimento [out. 2018]. Entrevistadora: Maraísa Resende Braga. Serro – MG, 2019. Entrevista concedida ao projeto de extensão Sementes, agriculturas e soberania alimentar - UFVJM.

6 CORREIA, Nivalda Aparecida Severino. Nivalda Aparecida Severino Correia: depoimento [fev. 2019]. Entrevistadora: Ivana Cristina Lovo. Serro – MG, 2019. Entrevista concedida ao projeto de extensão Sementes, agriculturas e soberania alimentar - UFVJM.