ARTEGRAFEMAS: UMA PRÁTICA DE RESISTÊNCIA E CUIDADO NA SAÚDE DOCENTE

ARTEGRAFEMAS: A PRACTICE OF RESISTANCE AND CARE IN TEACHER HEALTH

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782843145

RESUMO
Este artigo apresenta o conceito-método-procedimento de Artegrafema, desenvolvido na dissertação "Artegrafemas: percursos entre a dor e a cor" (AUTORA, 2026), como prática de resistência e cuidado na saúde docente. Numa perspectiva esquizoanalítica e cartográfica, o Artegrafema articula arte, filosofia e educação numa escrita sensível e inventiva que opera não pela lógica da cura, mas pela afirmação da cor: a potência criadora que transforma a dor em matéria de invenção. Descrevem-se os três procedimentos Artegrafemáticos, as marcas cartográficas doloríficas, as escritas coloríficas e a fabulação entre Rabisco, Rascunho e Desenho, articulados ao par Meio-dia/Meia-noite (Nietzsche), que distingue Atual e Potencial. Apresentam-se os produtos educacionais: o livro digital Fabulações Artegrafemáticas e a Oficina de Escrita Artegrafemática. O referencial teórico mobiliza Deleuze e Guattari, Barthes, Rancière, Bourriaud e Corazza.
Palavras-chave: Artegrafema; saúde docente; cartografia; escrita sensível; resistência.

ABSTRACT
This article presents the concept-method-procedure of Artegrafema, developed in the dissertation "Artegrafemas: pathways between pain and color" (AUTORA, 2026), as a practice of resistance and care in teacher health. From a schizoanalytic-cartographic perspective, the Artegrafema articulates art, philosophy, and education through sensitive, inventive writing that operates not through the logic of cure, but through the affirmation of color: the creative potency that transforms pain into material for invention. It describes three Artegrafematic procedures, dolorific cartographic marks, colorific writings, and the fabulation between Scribble, Draft, and Drawing, articulated with the pair Midday/Midnight (Nietzsche), distinguishing Actual and Potential. It presents the educational products: the digital book Fabulações Artegrafemáticas and the Artegrafematic Writing Workshop. The theoretical framework draws on Deleuze and Guattari, Barthes, Rancière, Bourriaud, and Corazza.
Keywords: Artegrafema; teacher health; cartography; sensitive writing; resistance.

1. INTRODUÇÃO

Uma professora sentada em sua velha cadeira, diante de uma janela. Ora meio-dia, ora meia-noite. Entre a claridade que queima e a noite que acolhe, ela rumina ventanias, recolhe fragmentos, experimenta linhas de fuga. Essa figura, a Sra. M., personagem-intercessora da dissertação "Artegrafemas: percursos entre a dor e a cor", não é uma metáfora, tampouco se coloca entre afetos antagônicos. Ela se mostra como é: um corpo-professor que habita o campo potencial da docência atravessado por dores e cores, por sobrecargas e invenções, por esgotamentos e potências, e traduz suas sensações na escrita.

O campo da docência contemporânea é marcado por uma tensão estrutural que esta pesquisa nomeia: de um lado, as dores, sobrecarga de trabalho, aceleração do tempo escolar, exigências burocráticas, desvalorização e desgaste emocional; de outro, as cores, invenções pedagógicas, experiências de criação e brechas onde se experimenta outras formas de ensinar e viver (AUTORA, 2026). A questão que orienta este artigo não é como eliminar as dores, mas como afirmar as cores: como fazer da dor matéria de criação, e não causa de paralisação.

Esse deslocamento de perspectiva constitui a aposta política central do Artegrafema: não uma lógica de cura, que supõe o retorno impossível a um estado anterior à dor, mas uma lógica de saúde como afirmação da cor (AUTORA, 2026; Deleuze, 2018). A saúde, nesse sentido, não é ausência de dor, mas potência de invenção-criação que atravessa a dor e a transforma. Como formula a pesquisadora, trata-se de uma "posição de saúde: meia-noite", nem à luz do dia, nem na escuridão da noite, mas no limite, onde a ruptura com o círculo vicioso da repetição se torna possível.

Este artigo apresenta o Artegrafema, conceito-método-procedimento desenvolvido em dissertação de mestrado profissional (AUTORA, 2026), como prática de resistência e cuidado no campo da saúde docente. Organiza-se em cinco movimentos: primeiro, situa o problema da saúde docente e os limites do modelo normativo; segundo, apresenta a constelação de intercessores que sustenta o conceito; terceiro, descreve o Artegrafema como conceito-método-procedimento; quarto, analisa os produtos educacionais derivados da pesquisa; quinto, discute as implicações metodológicas e políticas do Artegrafema para a pesquisa em educação.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Arte, Filosofia e Educação Como Campos de Forças

O Artegrafema, proposto neste trabalho, não nasce de um único campo teórico: ele emerge do entrecruzamento de três nós: Biografema (Barthes, 1971), Cartografia (Deleuze; Guattari, 1995) e Arte (Deleuze; Guattari, 2007), que se encontram no Acontecimento. Cada nó contribui com uma dimensão específica do conceito, e sua força reside precisamente na impossibilidade de reduzi-lo a qualquer um deles isoladamente.

2.2. Do Conceito de Partida Ao Conceito de Chegada

O conceito de Biografema, forjado por Roland Barthes em Sade, Fourier, Loyola (Barthes, 1971) e retomado em Roland Barthes por Roland Barthes (Barthes, 1977), designa os pequenos fragmentos de vida que escapam à lógica biográfica linear: não a narrativa completa de uma existência, mas os traços singulares, os gestos, os hábitos, as preferências, os detalhes aparentemente banais que carregam o afeto e a marca de quem viveu. Para Barthes, diferentemente de uma biografia tradicional, o Biografema não busca construir uma narrativa contínua e totalizante, mas sim destacar fragmentos que, juntos, compõem uma espécie de "essência dispersa" do sujeito, aquilo que escapa às grandes narrativas e que, muitas vezes, é mais revelador do que os fatos considerados centrais. O Biografema é, ainda, o detalhe que toca, que produz punctum, para usar a terminologia de Barthes em A Câmara Clara (Barthes, 1984, p. 46): o que nos fere, nos atravessa, nos captura inesperadamente na imagem, em especial, na fotografia. O punctum não é o que a imagem "quer dizer", mas o que nela nos acontece, o detalhe que faz irrupção e nos mobiliza.

O Biografema funciona, na arquitetura conceitual do Artegrafema, como conceito de partida: a operação de tradução-criação que gera o Artegrafema como conceito de chegada parte precisamente da lógica biografemática. Assim como o Biografema recusa a narrativa totalizante da biografia clássica e propõe uma abordagem fragmentária, centrada em detalhes singulares e carregados de sentido, o Artegrafema recusa a representação totalizante da dor docente e propõe uma escrita fragmentária e inventiva que recolhe os traços singulares de uma existência docente, não para explicá-los, mas para tensioná-los em direção ao que ainda pode vir a ser. Essa tradução-criação, entretanto, não é uma transposição direta: ela incorpora ao fragmento biografemático a dimensão cartográfica (Deleuze; Guattari, 1995) e estética (Deleuze; Guattari, 2007), operando um deslocamento do registro biográfico-literário para o registro artístico-pedagógico. O que no Biografema é fragmento de vida, no Artegrafema torna-se matéria de dor e de cor: o traço mínimo não apenas revela a singularidade de uma existência, mas a tensiona em direção à invenção-criação. Se o Biografema produz punctum, o detalhe que nos afeta, o Artegrafema produz o "sensamento": a força motriz que instiga o corpo-professor a não paralisar e a escrever.

No Artegrafema, o Biografema opera como o procedimento de recolha: a pesquisadora-professora volta o olhar ao redor de sua existência docente e recolhe os pequenos fragmentos, uma cadeira gasta, uma janela embaçada, um gole de chá, uma aula que derivou do planejamento, que carregam a intensidade de um percurso vivido. Esses fragmentos não são ilustrações de uma tese: são as matérias brutas a partir das quais o Artegrafema se faz. Como afirma AUTORA (2026): "o que aqui se escreve não é uma biografia, mas um Artegrafema dela e de mim, do que flui no entorno e busca as bordas".

2.3. Cartografia, Arte e a Potência do Sensível

Deleuze e Guattari fornecem ao Artegrafema tanto o procedimento metodológico, a Cartografia, quanto a compreensão da Arte como campo de forças. A Cartografia, como método de pesquisa, funciona como um procedimento que mapeia e registra processos, forças, afetos, intensidades e deslocamentos que atravessam o viver, o ensinar e o pesquisar (AUTORA, 2026). O cartógrafo não parte de hipóteses pré-determinadas: ele permite que os territórios existenciais se revelem e alterem o curso da investigação.

A Arte, para os autores, é entendida como um bloco de sensações que atravessa o ser humano e o afeta, operando como força e potência de criação. O objetivo da arte é "arrancar o percepto das percepções do objeto e dos estados de um sujeito percipiente, arrancar o afecto das afecções, como passagem de um estado a um outro" (Deleuze; Guattari, 2007, p. 69). Não se trata de representar a realidade, mas de criar blocos de sensação que forcem o pensamento a sentir o indizível. Para o Artegrafema, isso implica em uma escrita que não explica a dor docente, mas a atravessa, que não representa o esgotamento, mas o tensiona em direção ao que ainda pode vir a ser.

2.4. Dimensão Política do Sensível

Jacques Rancière, filósofo francês, contribui com a dimensão política do Artegrafema através do conceito de Partilha do sensível (Rancière, 2005), para o autor, a arte tem a potência de redistribuir modos de ver, dizer e sentir, instaurando novas possibilidades de experiência e reposicionando quem pode falar, sentir e pensar dentro de um espaço coletivo. O Artegrafema, como prática de escrita sensível, é também um ato político: ao recusar a normalização do pensamento e abrir brechas de invenção, deste modo, ele redistribui o que pode ser dito e sentido no espaço educacional.

Bourriaud (2009) contribui com Artegrafema ao propor a noção de Estética Relacional, compreendendo a arte como produção de interstícios sociais, ou seja, espaços de encontro, convivência e experimentação que tensionam as lógicas mercantis e produtivistas do contemporâneo. Tal perspectiva mostra-se cabível ao artegrafema na medida em que possibilita compreender a escrita como prática que engendra modos de estar junto, partilha e invenção coletiva, afastando-se de uma ideia individualizante e isolada da produção escrita. No contexto da Oficina de Escrita Artegrafemática, essa dimensão se intensifica: não se trata de um espaço terapêutico ou confessional, mas de um campo de experimentação sensível em que docentes, ao escrever, rabiscar, desenhar e compor, produzem deslocamentos em suas formas de sentir, pensar e narrar as suas experiências. Dessa forma, por meio dos encontros, ao tensionar a funcionalidade dominante, tais práticas instauram zonas de suspensão, desvio e respiro no cotidiano, abrindo espaços ou pequenas frestas para que outras formas de relação, sensibilidade e experiência possam emergir. Nesse movimento, tornam-se possíveis micropolíticas de saúde que não eliminam as dores que atravessam o cotidiano docente, mas as deslocam, fazendo-as variar e, por vezes, transmutar-se em outras intensidades, talvez, em um pouco mais de cor.

2.5. O Corpo-Escrileitor

Sandra Corazza (2013a) fornece ao Artegrafema o conceito de Escrileitura: a atitude didático-tradutória que transita em contínuo recursivo e inseparável entre as práticas de escrever e ler, e a figura do professor-artistador (Corazza, 2006), não um professor que se torna artista, mas aquele que habita uma zona objetiva de indeterminação entre educador e artista, "invocando uma zona objetiva de indeterminação ou de incerteza, comum e indiscernível" (Corazza, 2006, p.26). O Artegrafema é, em parte, uma prática de artistagem ao compreender a escrita como gesto de invenção que não representa, mas cria modos de existência.

2.6. O Artegrafema Como Texto de Chegada

O Artegrafema é, em sentido preciso, um texto de chegada a partir do texto de partida constituído pelo Método Maquinatório de Pesquisa (De Araujo; Corazza, 2018; De Araujo; Santos; Motta, 2023). O diagrama do Conceito de Artegrafema, Figura 1 (AUTORA, 2026), é uma tradução-criação do diagrama do Maquinatório: o Desejo de Escrever substitui o Pensamento de Partida; os Procedimentos Artegrafemáticos substituem os procedimentos da Crítica Sintomatológica e da Clínica Maquinatória; as Marcas Cartográficas (Doloríficas e Coloríficas) e as Escritas Artegrafemáticas substituem o Arquivamento e a Arquivização; as Escrileituras permanecem como coluna vertebral do processo.

Esse processo tradutório, do Maquinatório ao Artegrafema, não se reduz a uma adaptação ou transposição metodológica, mas se configura como uma operação de invenção-criação, no sentido da transcriação proposta por Campos (2013), em que o texto de chegada não replica o texto de partida. O Artegrafema não aplica o Maquinatório à docência: ele o tensiona, o desdobra e o recria a partir de um encontro específico com as matérias doloríficas e coloríficas de uma professora- pesquisadora.

Trata-se de uma invenção-criação que singulariza o método original ao incorporar a dimensão estética da arte e a especificidade do campo da saúde docente.

3. METODOLOGIA

A metodologia desta pesquisa fundamenta-se no Artegrafema, concebido como conceito-método-procedimento que articula arte, filosofia e educação em uma prática de escrita sensível, inventiva e implicada. Em contraposição ao Modelo Normativo de saúde docente, centrado na correção de déficits individuais e na adaptação funcional dos sujeitos, o Artegrafema propõe uma abordagem cartográfica voltada ao acompanhamento de processos, afetos, intensidades e deslocamentos que atravessam o cotidiano da docência. Inspirado na Filosofia da Diferença e nas contribuições de Nietzsche, de Deleuze e Guattari e Sandra Corazza, opera a partir da tensão entre os planos do Meio-dia e da Meia-noite, compreendidos como regimes coexistentes de extensividades e intensidades. Metodologicamente, utiliza a Cartografia como prática de mapeamento das forças em circulação e a fabulação como procedimento de produção de realidade, deslocando a escrita de sua função representacional para constituí-la como espaço de criação e experimentação. O conceito de Artegrafema emerge, ainda, de um processo de tradução-criação do Método Maquinatório de Pesquisa (De Araujo; Santos; Motta, 2023), produzindo um dispositivo singular de investigação capaz de acompanhar os movimentos da vida docente e potencializar processos de invenção, cuidado e produção de saúde.

3.1. Porque a Cura Não Basta

A racionalidade dominante que orienta as políticas de saúde no trabalho docente opera sob o que esta pesquisa denomina Modelo Normativo: seu objetivo é "curar" o indivíduo quebrado para devolvê-lo à produtividade; seu método são diagnósticos fixos e protocolos psicanalíticos; seu foco é o que falta, a falha, a doença (AUTORA, 2026). Nessa lógica, a dor é o problema a ser suprimido, e a saúde é a conformidade funcional ao sistema.

O problema com esse modelo não é que ele falhe em tratar a dor, ele frequentemente consegue, no curto prazo. O problema é que ele trata a dor sem tocar a vida que a produz. Como analisa Byung-Chul Han (2015), a sociedade contemporânea do desempenho produz sistematicamente sujeitos esgotados que internalizam as demandas externas como falhas individuais, impedindo qualquer percepção das forças coletivas que produzem o sofrimento. O professor que adoece "por fraqueza" não percebe que o que o adoece é um sistema que opera pela lógica da sobrecarga, da aceleração e da desvalorização.

A alternativa que o Artegrafema propõe não é teórica: é prática e metodológica. Ela parte do conceito de Nietzsche (2011), um dos intercessores centrais da pesquisa, para distinguir entre o que a pesquisa nomeia como Meio-dia e Meia-noite. Para Nietzsche, o Meio-dia é o tempo da claridade das extensividades: "o ponto de máxima exposição, onde as significações queimam o corpo-humanidade", o plano daquilo que já é, a Atualidade (AUTORA, 2026). A Meia-noite é a dobra das intensidades: o momento potencial de atualização de um plano, o plano daquilo que ainda pode vir a ser, a potencialidade.

A distinção não é temporal, não se trata de esperar pela noite para então inventar. É ontológica: Meio-dia e Meia-noite são dois planos sobrepostos em constante agenciamento, dois regimes de matéria que coexistem e se tensionam no mesmo corpo, na mesma aula, no mesmo cotidiano. O Artegrafema opera precisamente nessa tensão: ele não nega o Meio-dia (as dores extensivas), mas potencializa a Meia-noite (as cores intensivas), a afirmação das intensidades que fazem dispersar as extensividades rígidas, abrindo possibilidades para uma política de saúde.

3.2. O Artegrafema Como Conceito-Método-Procedimento

O Artegrafema acontece como conceito-método-procedimento: três dimensões que não se separam, mas operam em simultâneo. Como conceito, ele nomeia uma prática de escrita sensível e inventiva que une arte, filosofia e educação. Como método, ele articula a Cartografia como procedimento de mapeamento de forças e deslocamentos. Como procedimento, ele descreve os gestos operatórios concretos pelos quais essa escrita se realiza (AUTORA, 2026). O diagrama, disposto na Figura 1, sintetiza a arquitetura completa do conceito:

Figura 1. Conceito de Artegrafema, a partir do conceito de Maquinatório (De Araujo; Santos; Motta, 2023).

Fonte: AUTORA (2026).

3.3. Uma Tradução-Criação

A leitura do diagrama exige que se compreenda primeiro sua origem: o Conceito de Artegrafema é um texto de chegada que tem como texto de partida o diagrama do Método Maquinatório de Pesquisa (De Araujo; Santos; Motta, 2023). Não se trata de uma aplicação do Maquinatório ao campo da docência, nem de uma adaptação que preserva a estrutura original: trata-se de uma invenção-criação que, ao transitar pelo Processo Tradutório (Campos, 2013) o desdobramento do diagrama, produz um conceito novo, singular, que carrega a herança do Maquinatório, mas a transforma pelo encontro com as matérias artísticas, filosóficas e educacionais que atravessam a pesquisa de AUTORA (2026).

Uma leitura comparada dos dois diagramas revela as semelhanças e as diferenças que constituem essa tradução-criação. No eixo do motor: o Pensamento de Partida (Maquinatório) torna-se Desejo de Escrever (Artegrafema). A substituição não é trivial, ela desloca o centro da pesquisa do pensamento para o desejo, da operação cognitiva para a força afetiva que instiga o corpo a não paralisar. O Desejo, como no Maquinatório, é tensionado pelo Tensor a partir do Caos; mas o Caos Artegrafemático é explicitamente nomeado em suas multiplicidades: Arte, Filosofia, Tecnologia, Educação, Sociedade, os campos que a pesquisa toca e pelos quais é tocada.

No eixo dos procedimentos: a Crítica Sintomatológica (com seus procedimentos de Ponto no Caos, Olhar ao redor e recolher matérias) torna-se o primeiro procedimento Artegrafemático: Ponto no Caos, Índice para recolher Matérias, Escrileituras de Arquivos. A Clínica Maquinatória (com a Maquinação de Invenções) torna-se o terceiro procedimento, as Escritas Artegrafemáticas Coloríficas. Entre eles, surge um procedimento novo, sem correspondente direto no Maquinatório: as Marcas Cartográficas Doloríficas, o registro cartográfico das extensividades da dor docente que precede e alimenta a escrita colorífica. Esse procedimento intermediário é a contribuição singular do Artegrafema: ele nomeia o espaço entre o arquivamento sintomatológico e a clínica maquinatória como o espaço específico das dores, exigindo um gesto de mapeamento antes que a invenção seja possível.

No eixo da fabulação: o Maquinatório articula Desterritorialização/Reterritorialização e Diferença/Traço/Atual como resultantes do processo fabulatório. O Artegrafema traduz esses pares na tríade Rabisco (Potencial), Desenho (Traço) e Rascunho (Atual), uma nomeação que incorpora o vocabulário artístico do risco, do esboço e da forma, tornando visível a dimensão estética que o Maquinatório mantinha em termos filosóficos. O Rabisco corresponde ao que ainda não tem forma: o Potencial puro; o Rascunho é o que já tem forma provisória: o Atual; o Desenho é o traço que os conecta, a diferença que se afirma entre um estado e outro.

No eixo das escrileituras: a correspondência é a mais direta. As Escrileituras permanecem como coluna vertebral em ambos os diagramas, com operadores homólogos: Leitura (com Toque nas Matérias, Perceptos-afectos-conceitos) e Escritura (com Gesto Artegrafemático, em lugar do Gesto de Arquivização). A diferença está no resultado: enquanto o Maquinatório produz Transcriação e Diferenciação, o Artegrafema produz Cores, Artegrafemas e Dores, nomeando explicitamente a polaridade entre os estados da matéria que o processo atravessa. Essa polaridade Dores/Cores é a marca registrada do Artegrafema: ela não existe no Maquinatório porque este não tem como campo de aplicação específico a saúde docente.

Por fim, no eixo da recursividade, ambos os diagramas partilham o Retorno ao Caos como garantia de que o processo não se fecha em si mesmo. No Artegrafema, esse retorno é explicitado pelo ritmo, dimensão que perpassa todo o diagrama de cima a baixo; e pelo Modo e Meio como coordenadas do deslocamento da pesquisa. O Ritmo Artegrafemático não é metáfora: é o operador que garante que as dores e as cores não se fixem, permitindo que o processo continue pulsando entre o Meio-dia e a Meia-noite.

3.4. O Desejo de Escrever

O ponto de partida do Artegrafema é o Desejo de Escrever: não a vontade consciente de produzir um texto, mas a força motriz, o "sensamento"(De Araujo, 2025), que instiga o corpo a não paralisar. O Desejo é tensionado pelo Tensor, conceito herdado de Deleuze e Guattari (De Araujo; Santos; Motta, 2023), a partir do Caos: as multiplicidades (Arte, Filosofia, Tecnologia, Educação, Sociedade) que habitam o exterior do sistema estruturado e cujas forças brutas pressionam as fronteiras da normalização.

O Tensor não é uma força suave de ligação: é a aplicação violenta da intensidade das relações sobre um ponto de fixidez. No contexto da saúde docente, o Tensor opera quando as dores docentes, a sobrecarga, a exaustão, a desvalorização, são tensionadas não para serem suprimidas ou curadas, mas para serem atravessadas pela potência inventiva, o que na perspectiva do Artegrafema funciona como um gesto de saúde e de invenção-criação. O Artegrafema não resolve a dor: ele a tensiona até que algo novo passe: até que a Meia-noite se torne possível dentro do Meio-dia.

3.5. Os Três Procedimentos Artegrafemáticos em Ritornelo

O coração do Método Artegrafemático é o Ritornelo de três procedimentos que operam em vaivém: "ora... ora... ora..." (Deleuze; Guattari, 2017c), não de forma linear ou sequencial, mas como alternâncias rítmicas aonde a pesquisa vai e volta, conforme as matérias se oferecem, se afetam e entram em relação.

Ora, o Ponto no Caos: a pesquisadora-professora lança um olhar ao redor, atenta ao que pulsa e atravessa e deixa-se atravessar. Esse primeiro gesto é um território mínimo de relação, não ainda uma hipótese, mas um ponto de parada no fluxo do cotidiano docente. Dele emergem os índices: os traços que apontam para arquivos de afeto, de experiência, de memória. Nos Artegrafemas da pesquisa, esse ponto manifesta-se nas cenas de Meio-dia, os momentos de claridade brutal em que a dor se torna visível: a sala cinza, a pilha de provas não corrigidas, a reunião que nada resolve, o silêncio da sala de professores.

Ora, as Marcas Cartográficas Doloríficas: a partir do Ponto no Caos, a pesquisadora recolhe as matérias doloríficas, os sintomas do sofrimento docente mapeados cartograficamente. Esses não são dados para serem analisados: são matérias a serem tocadas, deslocadas, rearranjadas. O procedimento aqui é o do arquivamento Artegrafemático: as escrileituras de arquivos que produzem intersecções, subtraem literalidades e encontram novos índices. As Marcas Doloríficas são o material bruto da dor, o material que já está em movimento, já está sendo trabalhado pelo Desejo de Escrever.

Ora, as Escritas Artegrafemáticas Coloríficas: é nesse terceiro movimento que a Meia-noite se instala. A partir das Marcas Doloríficas já tensionadas, a pesquisadora gestualiza novas conexões, apostando em maquinações fabulatórias: a escrita que não representa a dor, mas a transforma em Cor. O Gesto Artegrafemático, herdeiro do Gesto de Arquivização no Maquinatório, é aqui o ato de invenção-criação que singulariza as matérias, produzindo os Artegrafemas como formas de expressão inéditas: textos que misturam memória e fabulação, prosa e poesia, narrativa e fragmento.

3.6. Rabisco, Rascunho e Desenho

O diagrama do Conceito de Artegrafema (AUTORA, 2026) introduz uma tríade que articula os estados da matéria ao par Atual/Potencial: o Rabisco (Potencial), o Desenho (Traço) e o Rascunho (Atual). Essa tríade opera em tensão direta com os três procedimentos Artegrafemáticos: o Rabisco corresponde ao Ponto no Caos, o território mínimo, ainda indefinido; o Rascunho corresponde às Marcas Doloríficas, a matéria recolhida e organizada no plano do Atual; o Desenho corresponde às Escritas Coloríficas, o traço que afirma uma diferença, que transita entre o Atual e o Potencial.

A Fabulação (De Araujo; Santos; Motta, 2023; Deleuze, 1992, 1997), posicionada no diagrama como o elemento que conecta os três estados, é o operador dessa transitivização: ela designa o processo pelo qual uma matéria extensiva (Rascunho/Atual) é tensionada e posta em variação, tornando-se intensiva (Rabisco/Potencial) e produzindo um traço (Desenho). Na pesquisa, a Fabulação manifesta-se na escrita Artegrafemática que não reproduz a experiência vivida, mas a inventa-cria: os Artegrafemas do livro Fabulações Artegrafemáticas são textos que partem de situações docentes reais e as transcriam em blocos de sensação, fazendo da memória matéria de invenção.

3.7. As Escrileituras e o Retorno Ao Caos

As Escrileituras (Corazza, 2013a), coluna vertebral do processo Artegrafemático, acompanham os movimentos de escrita e de leitura que se fazem e se desfazem em deslocamentos recursivos (AUTORA, 2026). Elas não são um produto final, mas o próprio movimento da pesquisa. Cada Artegrafema é simultaneamente uma leitura (das matérias do arquivo docente) e uma escrita (da invenção que delas emerge). A Escrileitura Artegrafemática tem como operadores o Toque nas Matérias, os Perceptos-afectos-conceitos e o Gesto Artegrafemático, produzindo, do lado das Cores, os Artegrafemas; do lado das Dores, os registros cartográficos.

O processo completo não se encerra no Artegrafema produzido: ele retorna ao Caos, reinjetando as linhas de fuga no sistema de origem e mantendo a máquina Artegrafemática em funcionamento. Esse Retorno não é circularidade: é uma espiral diferenciante, onde cada retorno ao Caos se realiza em um plano distinto, enriquecido pelas matérias transitivizadas no percurso. O Ritmo, dimensão explícita no diagrama, é o que sustenta esse funcionamento: não há modo sem ritmo, não há Artegrafema sem a cadência do "ora... ora... ora...".

3.8. Implicações Metodológicas

O Artegrafema não é apenas um objeto de pesquisa: ele é também um modo de pesquisar. Como conceito-método-procedimento, ele implica que a pesquisadora seja simultaneamente um sujeito e um objeto do processo investigativo, não como problema metodológico a ser resolvido, mas como condição de possibilidade do Artegrafema. A pesquisa Artegrafemática é sempre pesquisa implicada: ela só pode acontecer a partir de um corpo que vive as dores e as cores que pesquisa.

Tal perspectiva tem efeitos diretos para a escrita acadêmica. O Artegrafema como modo de escrever recusa a separação entre a descrição teórica e a experiência sensível: o texto acadêmico que produz é também um Artegrafema, uma escrita que tensiona os limites da linguagem acadêmica, que mistura a voz da pesquisadora com as vozes dos intercessores, e que assim produz blocos de sensação dentro do texto científico. O ensaio não abandona o rigor, recusa que lhe seja prescrito de fora. Conforme Corazza (2017, p. 243), "isso exclui que repreendamos ao ensaio qualquer infidelidade a um rigor epistemológico, em face das liberdades que, porventura, ele tome diante de procedimentos científicos, filosóficos ou artísticos". Seu rigor é de outra ordem: aquele que Adorno (2003, p. 45) chama de lei formal do ensaio, a heresia, segundo a qual "apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível". Isso funciona como preparação exaustiva das condições para que algo novo passe.

Nesse sentido, o Artegrafema se inscreve em um campo metodológico mais amplo que inclui a pesquisa-intervenção, a cartografia como método (Kastrup; Escóssia, 2009), as pesquisas com narrativas de experiência e a pesquisa-criação. Mas ele se distingue de todas elas por um elemento específico: a centralidade da Fabulação (De Araujo; Santos; Motta, 2023; Deleuze, 1992, 1997). O Artegrafema não relata a experiência: ele a inventa-cria. Não reproduz o vivido: o transcreve. É nesse gesto de transcriação, herdado de Corazza (2013b) e de Campos (2013), que o Artegrafema encontra sua singularidade metodológica.

Essa singularidade implica também uma forma específica de validade: o Artegrafema não é validado pela correspondência com a realidade empírica, mas pela potência de afecção que produz, pela capacidade de fazer o leitor sentir o que o texto tensiona. Uma pesquisa Artegrafemática bem-sucedida não é aquela que "representa bem" o sofrimento docente: é aquela que produz no leitor um Ponto no Caos, que o coloca em posição de possibilidade de iniciar seu próprio processo Artegrafemático.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A pesquisa permitiu a problematização e a compreensão sobre o adoecimento docente, uma vez que o tema não pode ser reduzido a uma dimensão individual ou psicológica, tal como frequentemente ocorre nos modelos normativos de saúde. Ao acompanhar os processos que atravessam o cotidiano escolar, observou-se que a exaustão, o esgotamento e a perda de potência constituem efeitos de agenciamentos mais amplos, relacionados às formas contemporâneas de gestão da vida, do trabalho e do conhecimento, que trazem como efeitos o adoecimento docente. Nesse contexto, o Artegrafema emergiu como uma possibilidade metodológica e ética de deslocamento, produzindo brechas para a invenção de outros modos de existir na docência.

A principal contribuição da pesquisa foi a elaboração do Artegrafema como conceito-método-procedimento. Diferentemente das abordagens centradas na interpretação ou representação das experiências docentes, o Artegrafema opera por fabulação, cartografia e escrileituras, produzindo um campo de experimentação no qual a escrita deixa de ser mero instrumento de registro para tornar-se prática de criação e cuidado. A escrita, por meio do Artegrafema, passa a funcionar como dispositivo de produção de realidade, permitindo que afetos, intensidades e forças frequentemente invisibilizadas possam ganhar expressão.

Nesse processo, a personagem que recebe o nome de Sra. M. constituiu-se como um importante operador conceitual, que não somente representa uma professora específica, mas emerge como uma multiplicidade de professores, figura de passagem, um corpo-professor atravessado por múltiplas forças, capaz de expressar tanto as dores extensivas do Meio-dia quanto as potências intensivas da Meia-noite. Sua trajetória evidencia que a saúde não corresponde à ausência de sofrimento, mas à capacidade de produzir variações e criar novas possibilidades de vida em meio às condições que tendem à captura e ao esgotamento.

Os Artegrafemas de Meio-dia e de Meia-noite revelam-se particularmente potentes para pensar a saúde docente. Os primeiros tornaram visíveis as formas pelas quais o trabalho contemporâneo produz cansaço, endurecimento e perda de sensibilidade. Os segundos permitiram identificar movimentos de criação, fabulação e resistência, nos quais a vida encontra modos de escapar às formas que procuram fixá-la. A pesquisa sugere que a produção de saúde acontece precisamente nessa tensão entre dor e potência, entre captura e criação, entre estratificação e devir.

Outro resultado relevante foi a produção de dois dispositivos educacionais: o livro digital Fabulações Artegrafemáticas: entre a dor e a cor e a Oficina de Escrita Artegrafemática. Ambos materializam os princípios metodológicos da pesquisa, transformando o Artegrafema em prática compartilhável. Mais do que produtos, constituem espaços de experimentação nos quais a escrita opera como campo de encontros, afetos e invenções.

As discussões desenvolvidas ao longo da investigação permitem afirmar que o Artegrafema desloca o debate sobre saúde docente de uma perspectiva centrada na correção de déficits para uma perspectiva afirmativa da vida. Em vez de buscar a adaptação dos sujeitos a condições adoecedoras, propõe acompanhar os processos de criação que emergem no cotidiano e que tornam possível a produção de novos modos de existência. Nessa direção, a escrita sensível, a fabulação e a cartografia configuram-se como práticas micropolíticas capazes de sustentar a docência não apenas como profissão, mas como experiência ética, estética e política de invenção de si e do mundo.

4.1. Os Produtos Educacionais

A pesquisa gerou dois produtos educacionais que operacionalizam o Artegrafema como prática de saúde docente: o livro digital Fabulações Artegrafemáticas entre a dor e a cor (AUTORES, 2026a) e a Oficina de Escrita Artegrafemática (AUTORES, 2026b).

4.1.1. Fabulações Artegrafemáticas

O livro digital é constituído por uma prática de escrita Artegrafemática que reúne Artegrafemas de Meio-dia (doloríficos) e de Meia-noite (coloríficos), organizados em torno da figura da Sra. M., corpo-professor, Corpo sem Órgãos, "corpo-desejo de escriler" (AUTORA, 2026). O livro não é uma coletânea de relatos docentes: é uma obra artística-escritural que tensiona os limites da linguagem acadêmica e literária, entrecruzando prosa, poesia, fragmento, ficção e memória.

Os Artegrafemas doloríficos, como "Ela", "Uma Caminhada?", "Sombras da Noite" e "Desesperos", são textos que habitam o Meio-dia, e cartografam as extensividades da dor docente (a aceleração, o isolamento, a invisibilidade, o esgotamento) sem representá-las como patologia. Eles tocam a ferida sem propor a cura. Os Artegrafemas coloríficos, como "Porvires", "Múltiplos" e "Dores e Cores", habitam a Meia-noite, e cartografam as intensidades que emergem quando a dor é atravessada pelo Desejo de Escrever, quando o Rabisco se torna Desenho, quando a escrita produz cor.

A potência do livro como produto educacional reside precisamente nessa não- separação entre o teórico e o artístico, entre o acadêmico e o sensível. Ele não explica o Artegrafema: ele é um Artegrafema. O leitor-professor que o acessa não encontra prescrições ou técnicas: encontra matérias afetivas que podem tensionar sua própria experiência docente, abrindo nele o Ponto no Caos, do qual parte o processo Artegrafemático.

4.1.2. A Oficina de Escrita Artegrafemática

A Oficina de Escrita Artegrafemática (AUTORES, 2026b) é a segunda proposta do produto educacional: uma prática de experimentação sensível que se abre às dores e cores da docência, propondo o esvaziamento, no sentido de Meia-noite, e a saúde docente.

Ela se distingue radicalmente das oficinas de escrita terapêutica que operam na lógica do Modelo Normativo: seu objetivo não é "curar" professores, mas criar um espaço coletivo de experimentação artística e filosófica onde a escrita funciona como Tensor.

A estrutura da Oficina articula os três procedimentos Artegrafemáticos: parte de um Ponto no Caos, um fragmento, uma imagem, uma sensação que atravessa cada sujeito do grupo. Logo se abre para a recolha de Marcas Doloríficas de cada participante, e conduz à produção de Escritas Coloríficas como Artegrafemas. O ritmo da Oficina é o do Ritornelo: ela não segue um roteiro fechado, mas se deixa atravessar pelas matérias que emergem do encontro dos corpos-professores no espaço de escrita.

A Oficina opera na camada do Entorno (molecular) do diagrama da Máquina Abstrata: ela é o espaço das variações micropolíticas, das intensidades e dos devires emergentes que o Território molar da escola normalmente suprime. Ao criar um espaço de escrita sensível dentro da instituição, a Oficina não combate a escola: ela cria nela uma "Zona de Experimentação Esquizoanalítica" (Deleuze; Guattari, 2010) (AUTORA, 2026), um território dentro do território onde os professores podem devir-artistadores.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Segundo Perriand (1998), nas páginas iniciais de "Une vie de création": "Resista às ideias fixas. Diga sim à vida e à cor. Diga não à mera sobrevivência." Mais do que uma afirmação, a frase é uma convocação e sintetiza o gesto político central do Artegrafema: “não a resistência como reação ao que existe, mas como afirmação daquilo que pode vir a ser.”

O Artegrafema propõe uma virada na forma como pensamos a saúde docente. Em vez de perguntar como proteger o professor da dor, pergunta como fazer da dor matéria de invenção. Em vez de buscar um retorno ao estado anterior ao sofrimento, busca abrir, dentro do sofrimento, as fissuras por onde a cor pode passar. Não é uma proposta ingênua: ela não ignora a realidade material do adoecimento docente, as estruturas sistêmicas da precarização, as violências concretas do trabalho na educação. Ela afirma que, mesmo dentro dessas condições, há, e é possível, criar espaços de saúde como potência de invenção-criação.

A contribuição do Artegrafema para o campo da pesquisa em educação é dupla. Como conceito, ele oferece uma nova forma de compreender a saúde docente: não como ausência de dor, mas como afirmação da cor, a potência criadora que atravessa o sofrimento sem apagá-lo, mas transfigurando-o. Como método-procedimento, ele oferece uma forma de pesquisar que não separa o teórico do sensível, o acadêmico do artístico, o rigor da invenção.

Os produtos educacionais, o livro Fabulações Artegrafemáticas entre a dor e a cor e a Oficina de Escrita Artegrafemática, são as formas práticas pelas quais esse conceito se torna acessível a professores que não especificamente ou exclusivamente sejam pesquisadores acadêmicos. Eles traduzem o Artegrafema em gestos concretos de experimentação: a leitura de um Artegrafema que ressoa na própria experiência docente, a participação em uma Oficina que cria um espaço coletivo de escrita sensível. São, nesse sentido, instrumentos de uma micropolítica de saúde: não mudam a estrutura da escola por decreto, mas criam dentro dela pequenas Zonas de Experimentação Esquizoanalítica (Deleuze; Guattari, 2010) onde outra forma de habitar à docência se torna possível.

A saúde docente, nessa perspectiva, não é um estado a ser alcançado: é um processo a ser continuamente inventado-criado. Um processo que, como o Artegrafema, não descansa, mas alterna ritmos, oscila entre o Meio-dia e a Meia-noite, deseja fazer, faz e diz do que fez, e assim permanece aberto à experimentação, entregue à aventura de um "ainda a-pesquisar".

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1 Mestra em Educação (Programa de Pós-Graduação em Educação, Mestrado Profissional em Educação e Tecnologia Instituto Federal Sul-rio-grandense - IFSul) E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8959-9844.

2 Doutor em Educação (Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação, Mestrado e Doutorado Profissional em Educação e Tecnologia- Instituto Federal Sul-rio-grandense - IFSul) E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7700-9108