REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791152749
RESUMO
As apostas esportivas online expandem-se com a digitalização, a disponibilidade contínua das plataformas e sua crescente integração às práticas esportivas, suscitando preocupações acerca da saúde mental de jovens adultos. Este estudo analisa as evidências científicas sobre as relações entre apostas esportivas online, comportamento problemático e indicadores de saúde mental nessa população. Realizou-se uma revisão integrativa da literatura, de natureza bibliográfica e com síntese predominantemente qualitativa, mediante buscas nas bases SciELO, Scopus e Web of Science, considerando publicações de 2022 a 2026. Após a triagem, a retirada das duplicidades, a aplicação dos critérios de elegibilidade e a leitura integral, 12 artigos compuseram o corpus. Os dados foram submetidos à análise descritiva e comparativa e organizados em eixos temáticos. Os resultados indicam que a maior gravidade do comportamento problemático se associa de maneira mais consistente a sintomas de ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psicológico. A participação ou a frequência das apostas, quando avaliadas sem medidas específicas de gravidade, não apresenta associação uniforme com esses desfechos. Fatores individuais, sociais, comerciais e tecnológicos também se relacionam a padrões de maior risco. As evidências não permitem estabelecer causalidade nem determinar a direção temporal dessas relações, permanecendo necessária a realização de estudos longitudinais direcionados aos jovens adultos e ao contexto brasileiro.
Palavras-chave: Apostas esportivas online; Saúde mental; Jovens adultos; Ansiedade; Depressão.
ABSTRACT
Online sports betting is expanding alongside digitalization, the continuous availability of betting platforms, and its growing integration into sports practices, raising concerns about the mental health of young adults. This study analyzes scientific evidence on the relationships between online sports betting, problematic betting behavior, and mental health indicators in this population. An integrative literature review was conducted using a bibliographic design and predominantly qualitative synthesis. Searches were performed in the SciELO, Scopus, and Web of Science databases, covering publications from 2022 to 2026. After screening, duplicate removal, application of the eligibility criteria, and full-text assessment, 12 articles comprised the review corpus. The data were subjected to descriptive and comparative analysis and organized into thematic axes. The results indicate that greater severity of problematic betting behavior is more consistently associated with symptoms of anxiety, depression, stress, and psychological distress. Betting participation or frequency, when assessed without specific measures of severity, does not show a consistent association with these outcomes. Individual, social, commercial, and technological factors are also related to higher-risk patterns. The available evidence does not establish causality or determine the temporal direction of these relationships, highlighting the need for longitudinal studies focused on young adults and the Brazilian context.
Keywords: Online sports betting; Mental health; Young adults; Anxiety; Depression.
1. INTRODUÇÃO
As apostas esportivas online têm adquirido crescente visibilidade com a expansão das tecnologias digitais e a incorporação de dispositivos móveis ao cotidiano. A facilidade de acesso, a disponibilidade contínua das plataformas e as estratégias de comercialização contribuem para ampliar a participação nessas práticas e aproximá-las das experiências contemporâneas de lazer e entretenimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024) destaca que a digitalização, o marketing e os patrocínios favorecem o crescimento e a rápida normalização dos jogos de azar e das apostas em diferentes contextos sociais.
No âmbito esportivo, esse processo assume particular relevância devido à presença recorrente das plataformas de apostas em transmissões, competições, mídias sociais e ações de patrocínio. A associação das apostas com ligas, clubes e eventos esportivos populares amplia sua visibilidade e pode favorecer a percepção dessas práticas como parte habitual da experiência de acompanhar esportes. A OMS (2024) alerta que a intensa promoção do jogo online por meio do esporte pode contribuir para sua normalização, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.
As características próprias do ambiente digital também influenciam as formas de envolvimento com as apostas. Griffiths (2003) identifica elementos como acessibilidade, conveniência, anonimato, interatividade e elevada frequência de eventos, além de características situacionais e estruturais relacionadas ao início e à manutenção do comportamento de apostar. Nessa perspectiva, o desenvolvimento do jogo problemático não decorre de um único fator, mas da interação entre condições ambientais, cognitivas, comportamentais, emocionais e biológicas (Blaszczynski; Nower, 2002).
A participação em apostas, entretanto, não corresponde necessariamente à presença de um transtorno mental. Os prejuízos podem ocorrer em diferentes níveis de gravidade, desde dificuldades financeiras e conflitos interpessoais até comprometimentos significativos da saúde mental e do funcionamento cotidiano. A OMS (2024) estima que aproximadamente 1,2% da população adulta mundial apresente transtorno do jogo e reconhece que danos relacionados às apostas também podem ocorrer sem que sejam preenchidos os critérios diagnósticos. O DSM-5-TR caracteriza o transtorno do jogo como um padrão persistente e recorrente de comportamento associado a sofrimento ou comprometimento clinicamente significativo (American Psychiatric Association, 2022).
Entre os possíveis indicadores de sofrimento psicológico associados ao comportamento de apostar, destacam-se os sintomas de ansiedade e depressão. A relação entre esses fenômenos é complexa e não deve ser compreendida a partir de uma única direção causal. Blaszczynski e Nower (2002) descrevem trajetórias nas quais indivíduos emocionalmente vulneráveis podem apresentar ansiedade ou depressão antes do desenvolvimento do jogo problemático e recorrer às apostas como forma de modulação de estados afetivos negativos. Em outras situações, esses sintomas podem surgir ou se intensificar diante das consequências do comportamento excessivo, como perdas financeiras, conflitos interpessoais e dificuldades de controle.
Evidências empíricas apontam associações entre gravidade dos problemas relacionados ao jogo e sofrimento psicológico, embora essas relações variem conforme a modalidade investigada, o nível de envolvimento e as formas de mensuração empregadas. Gainsbury, Angus e Blaszczynski (2019), ao investigarem usuários de serviços de jogos pela internet, identificaram relações entre determinadas modalidades de jogo, gravidade do comportamento problemático e sofrimento psicológico. Os autores também observaram maior vulnerabilidade entre participantes mais jovens, o que reforça a pertinência de investigar especificamente os jovens adultos.
No Brasil, o crescimento das apostas eletrônicas e seus possíveis impactos também passaram a mobilizar respostas institucionais no campo da saúde pública. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (2025), os Ministérios da Saúde e da Fazenda instituíram o Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas, destinado à integração de informações e ao desenvolvimento de estratégias de prevenção e cuidado. Entre as ações anunciadas encontram-se mecanismos de autoexclusão das plataformas, orientação para acesso à rede pública e organização de uma linha de cuidado específica no Sistema Único de Saúde, evidenciando o reconhecimento dos problemas relacionados às apostas como questão relevante para a saúde mental no país.
Apesar da crescente atenção destinada ao tema, as evidências sobre apostas esportivas online, ansiedade e depressão encontram-se distribuídas entre estudos com diferentes populações, delineamentos, modalidades de jogo e formas de avaliação do comportamento de apostar. Além disso, parte das pesquisas examina a frequência ou a participação nas apostas, enquanto outras investigam especificamente a gravidade do comportamento problemático, distinção que pode influenciar os resultados relativos à saúde mental. Ainda são restritas as sínteses que examinam conjuntamente as apostas esportivas online, os jovens adultos e os sintomas de ansiedade e depressão, considerando essas diferenças metodológicas.
Diante dessa lacuna, estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: quais evidências disponíveis na literatura científica apontam para a relação entre apostas esportivas online e sintomas de ansiedade e depressão em jovens adultos?
O presente estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as evidências científicas acerca da relação entre apostas esportivas online e sintomas de ansiedade e depressão em jovens adultos. Especificamente, busca identificar e sintetizar os principais achados sobre essa associação, examinar as diferenças relacionadas às formas de mensuração do envolvimento com as apostas e reconhecer lacunas na produção científica que possam orientar futuras investigações e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e promoção da saúde mental.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. Apostas Esportivas Online e Sua Expansão no Ambiente Digital
As apostas esportivas constituem uma modalidade de jogo de azar na qual o participante arrisca determinado valor financeiro sobre o resultado incerto de um evento esportivo, com a expectativa de obter retorno superior ao montante apostado. Embora essa prática seja anterior ao desenvolvimento das tecnologias digitais, sua configuração contemporânea passou por transformações relacionadas à expansão da internet e à utilização crescente de dispositivos móveis. Nesse processo, as apostas deixaram de depender predominantemente de estabelecimentos físicos e passaram a integrar um mercado digital caracterizado pela ampliação das oportunidades de participação, pela disponibilidade contínua de eventos e pela redução das barreiras espaciais e temporais de acesso (Figueiredo Filho et al., 2024; Cavalcante, 2024).
A influência das tecnologias sobre as práticas de jogo foi analisada por Griffiths (2003), que identificou características situacionais e estruturais capazes de interferir no início e na manutenção do comportamento de apostar. Entre os elementos próprios do ambiente online, destacam-se acessibilidade, conveniência, anonimato, interatividade e elevada frequência de eventos. Essas características diferenciam as modalidades digitais das formas tradicionais de jogo, pois permitem que o indivíduo acesse as plataformas e realize apostas em diferentes ambientes, sem depender da presença física em locais específicos.
A disseminação dos smartphones intensificou essa transformação. A utilização de sites e aplicativos permite acesso imediato às plataformas, realização de transações financeiras eletrônicas e acompanhamento contínuo dos eventos esportivos. Aguerri et al. (2026) situam as apostas online em um ecossistema mais amplo de consumo digital, no qual atividades relacionadas ao jogo passam a integrar diferentes formas de lazer e entretenimento. Nesse ambiente, as apostas esportivas podem ser realizadas de maneira contínua e associadas a outras práticas digitais, ampliando as oportunidades de participação.
Entre as modalidades favorecidas por essa infraestrutura encontram-se as apostas in-play, também denominadas apostas ao vivo, efetuadas durante o andamento das partidas. Souto Salom (2024) explica que essa modalidade depende da produção, do processamento e da transmissão de dados esportivos em tempo real, conectando os acontecimentos das competições diretamente às plataformas. Essa estrutura permite que os usuários acompanhem as alterações dos eventos e realizem sucessivas apostas durante uma mesma partida, contribuindo para transformar uma prática anteriormente mais eventual em uma atividade potencialmente contínua e recorrente.
Paralelamente às transformações tecnológicas, a expansão das apostas esportivas online tem sido acompanhada pela ampliação das estratégias de comercialização, publicidade e patrocínio. A divulgação das plataformas ocorre em transmissões esportivas, uniformes de clubes, placas em estádios, redes sociais e outros espaços midiáticos, frequentemente associada à oferta de bônus, promoções e incentivos comerciais. Atletas, comentaristas e influenciadores digitais também participam de campanhas publicitárias do setor, aproximando as marcas de apostas do universo esportivo e contribuindo para sua incorporação à experiência de acompanhar competições (Cavalcante, 2024).
No Brasil, a aproximação entre o futebol e as empresas de apostas tornou-se mais evidente após alterações no ambiente regulatório. A Lei nº 13.756/2018 instituiu a modalidade lotérica de apostas de quota fixa relativa a eventos esportivos, enquanto a Lei nº 14.790/2023 estabeleceu disposições para sua regulamentação e exploração comercial. Nesse contexto, a presença de empresas vinculadas ao setor de apostas entre os patrocinadores de clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro demonstra a crescente utilização do futebol como espaço de divulgação e consolidação dessas marcas (Figueiredo Filho et al., 2024; Knies et al., 2025).
A articulação entre disponibilidade tecnológica, estratégias comerciais e práticas esportivas também participa do processo de normalização das apostas. A OMS (2024) destaca que a digitalização, o marketing, os patrocínios e as associações com atividades esportivas populares contribuem para ampliar a familiaridade social com os jogos de azar. Em perspectiva semelhante, Aguerri et al. (2026) utilizam o conceito de gamblification para descrever a incorporação de elementos associados ao jogo em diferentes formas de lazer digital. Esse processo não ocorre de maneira homogênea entre os grupos populacionais e assume especial relevância entre os jovens adultos, cuja ampla inserção nos ambientes digitais pode aumentar o contato com plataformas, publicidade e oportunidades de aposta. Torna-se necessário, portanto, examinar os fatores individuais e contextuais relacionados à vulnerabilidade dessa população às apostas esportivas online.
2.2. Jovens Adultos e Vulnerabilidade às Apostas Esportivas Online
Os jovens adultos constituem uma população relevante para a compreensão dos riscos associados às apostas esportivas online. A elevada inserção desse grupo nos ambientes digitais, somada à presença das apostas nas práticas de lazer e de acompanhamento esportivo, amplia seu contato com plataformas, publicidade e oportunidades de aposta. Estudos também apontam maior participação de indivíduos mais jovens nessa modalidade, sobretudo homens, e sua presença expressiva entre aqueles que apresentam problemas relacionados ao comportamento de apostar (Di Censo; Delfabbro; King, 2024).
A vulnerabilidade às apostas esportivas online não decorre exclusivamente da idade, mas da interação entre características individuais e condições sociais, comerciais e tecnológicas. Entre os fatores individuais, destacam-se impulsividade, dificuldades de regulação emocional e menor controle sobre o comportamento. Di Censo, Delfabbro e King (2024) identificaram a urgência negativa – tendência a agir impulsivamente diante de estados emocionais negativos – como um dos fatores associados à maior gravidade do jogo problemático entre jovens apostadores esportivos. Essa característica pode aumentar a propensão à tomada de decisões imediatas em situações de sofrimento emocional, especialmente quando as oportunidades de aposta estão prontamente disponíveis.
As normas sociais e as relações entre pares também participam do envolvimento dos jovens com as apostas. Shen (2023), ao investigar estudantes universitários, verificou que a intenção de apostar esteve relacionada às atitudes favoráveis às apostas, às normas subjetivas e à motivação para corresponder às expectativas de outras pessoas. O estudo também apontou que apostadores esportivos podiam superestimar a frequência com que outras pessoas apostavam e perceber maior aprovação social dessa prática. Essas percepções podem contribuir para a manutenção de normas favoráveis às apostas e reduzir a avaliação crítica de seus possíveis riscos.
Hing et al. (2026) demonstram que as influências pró-aposta podem ser construídas progressivamente, por meio da convivência familiar, das relações entre pares, da exposição publicitária e da associação das apostas à cultura esportiva. Entre jovens adultos com danos moderados ou elevados relacionados às apostas esportivas, a prática de apostar integrava experiências de amizade, competição e pertencimento grupal. Nesse contexto, o envolvimento não se relacionava apenas à expectativa de ganhos financeiros, mas também a recompensas sociais percebidas, como reconhecimento, integração e status entre os pares.
As características das plataformas digitais acrescentam outra dimensão à vulnerabilidade dos jovens adultos. A possibilidade de apostar imediatamente, a disponibilidade durante 24 horas, a privacidade, as transações financeiras eletrônicas e a oferta de apostas ao vivo reduzem barreiras práticas e permitem que o comportamento ocorra em diferentes locais e situações. Hing et al. (2024b) observaram que a combinação entre smartphones, aplicativos e funcionalidades das plataformas estava relacionada, nos relatos dos participantes, a maior frequência e gasto, apostas impulsivas ou espontâneas, perseguição de perdas e maior exposição a incentivos sociais.
Em estudo sobre as características valorizadas por jovens apostadores, Hing et al. (2024a) também identificaram a preferência por recursos como acesso imediato, disponibilidade contínua e facilidade para realizar transações financeiras. Entretanto, os resultados exigem interpretação cuidadosa: no experimento de escolha discreta, não foram identificadas diferenças significativas de preferência segundo a gravidade do jogo. Nos dados descritivos, participantes classificados nas categorias de risco moderado ou jogo problemático atribuíram maior importância a determinadas características, como apostas ao vivo, privacidade, promoções e utilização de múltiplos operadores. Dessa forma, os achados não demonstram que as funcionalidades das plataformas produzam, isoladamente, o comportamento problemático, mas indicam que podem compor o contexto em que ele se desenvolve.
A exposição ao marketing também se relaciona ao envolvimento dessa população com as apostas. Di Censo, Delfabbro e King (2024) identificaram associação entre escores mais elevados de jogo problemático e decisões de apostar influenciadas pela publicidade, bem como maior suscetibilidade percebida aos incentivos promocionais. A quantidade de publicidade à qual os participantes foram expostos, considerada isoladamente, não permaneceu como preditora significativa no modelo final. Esse resultado sugere que a resposta individual às estratégias comerciais pode ser mais relevante do que a simples exposição quantitativa à publicidade.
Além de incentivar a participação, a presença recorrente das apostas em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas com personalidades públicas pode contribuir para sua normalização. Hing et al. (2026) identificaram relatos de exposição a influências pró-aposta desde etapas anteriores à vida adulta, associando essa prática a diversão, excitação, conhecimento esportivo, amizade e possibilidade de ganhos financeiros. A repetição dessas mensagens pode favorecer a percepção das apostas como atividade recreativa habitual e socialmente aceita.
A percepção reduzida dos riscos constitui outro fator de vulnerabilidade. Carcelén-García, Díaz-Bustamante Ventisca e Galmes-Cerezo (2023) verificaram que parte dos jovens investigados não reconhecia riscos ou apresentava dificuldade para avaliar adequadamente atividades como apostas e jogos de azar online. No caso das apostas esportivas, essa percepção também pode ser influenciada pela crença de que o conhecimento sobre esportes possibilita prever resultados e controlar eventos essencialmente incertos. A superestimação da própria habilidade e a avaliação inadequada das probabilidades podem, assim, favorecer decisões de aposta mais arriscadas (Ayala-Rojas et al., 2025).
Algumas dessas influências podem estar presentes antes mesmo da vida adulta. Sohn e Son (2024), ao investigarem adolescentes, identificaram associações entre jogo problemático, pressão dos pares, convivência com amigos que apostavam e participação em comunidades online. Embora essa população não corresponda diretamente aos jovens adultos, os resultados indicam que influências sociais relacionadas ao jogo podem surgir antes dos 18 anos e integrar trajetórias posteriores de envolvimento com apostas.
A literatura examinada relaciona a vulnerabilidade dos jovens às apostas esportivas online à interação entre características individuais, influências sociais, estratégias comerciais e recursos tecnológicos. Entre os fatores investigados encontram-se impulsividade, urgência negativa, menor controle comportamental percebido, normas sociais favoráveis às apostas, exposição à publicidade, disponibilidade contínua das plataformas e percepção reduzida de risco. Alguns desses fatores também aparecem associados ao sofrimento emocional e ao agravamento do comportamento de aposta, aspecto que fundamenta a discussão sobre as relações entre apostas esportivas online, ansiedade e depressão (Di Censo; Delfabbro; King, 2024; Shen, 2023; Hing et al., 2024a, 2024b, 2026; Carcelén-García; Díaz-Bustamante Ventisca; Galmes-Cerezo, 2023).
2.3. Apostas Esportivas Online e Saúde Mental: Relações com Ansiedade e Depressão
O envolvimento com jogos de azar pode apresentar diferentes níveis de frequência, intensidade e comprometimento. Por essa razão, a participação em apostas, o comportamento problemático e o transtorno do jogo não devem ser tratados como condições equivalentes. A participação corresponde à realização da atividade, independentemente de sua frequência ou de seus efeitos; o comportamento problemático envolve padrões associados a riscos, dificuldades de controle ou prejuízos; e o transtorno do jogo constitui uma condição clínica definida por critérios diagnósticos específicos.
O DSM-5-TR classifica o transtorno do jogo entre os transtornos não relacionados a substâncias e o caracteriza pela presença de um padrão persistente e recorrente de comportamento associado a sofrimento ou comprometimento clinicamente significativo. O diagnóstico requer a ocorrência de pelo menos quatro critérios no período de 12 meses. Entre eles estão a necessidade de apostar quantias progressivamente maiores, a inquietação ou irritabilidade diante da tentativa de reduzir o comportamento, os esforços malsucedidos para controlá-lo, a preocupação recorrente com o jogo, a tentativa de recuperar perdas e a continuidade das apostas apesar de prejuízos interpessoais, profissionais ou financeiros (American Psychiatric Association, 2022).
Entre os critérios descritos pelo DSM-5-TR encontra-se a tendência de apostar diante de estados de sofrimento emocional, como sentimentos de impotência, culpa, ansiedade ou depressão. O manual também registra a ocorrência de transtornos depressivos, transtornos de ansiedade, transtornos relacionados ao uso de substâncias e outras condições psiquiátricas entre pessoas com transtorno do jogo. A presença dessas comorbidades, entretanto, não permite determinar por si só se os sintomas psicológicos antecedem o comportamento problemático, decorrem de seus prejuízos ou se desenvolvem por meio de relações recíprocas (American Psychiatric Association, 2022).
A complexidade dessa relação é abordada pelo modelo de trajetórias do jogo problemático e patológico proposto por Blaszczynski e Nower (2002). O modelo descreve diferentes percursos para o desenvolvimento e a manutenção do comportamento problemático, considerando a interação entre fatores ambientais, cognitivos, comportamentais, emocionais e biológicos. Entre os perfis apresentados encontra-se o dos apostadores emocionalmente vulneráveis, nos quais sintomas de ansiedade ou depressão podem estar presentes antes do agravamento do comportamento de jogo e acompanhados por dificuldades de enfrentamento e resolução de problemas.
Nessa trajetória, as apostas podem ser utilizadas como forma de modulação de estados afetivos negativos ou como tentativa de afastamento temporário de experiências emocionais desagradáveis. Esse alívio pode contribuir para a repetição do comportamento, sem solucionar as condições que motivaram a aposta. A disponibilidade contínua das plataformas digitais e a possibilidade de acesso imediato podem facilitar essa repetição, especialmente quando associadas à impulsividade e às dificuldades de regulação emocional (Blaszczynski; Nower, 2002; Hing et al., 2024b).
O modelo também contempla trajetórias nas quais os sintomas de ansiedade e depressão surgem ou se intensificam em associação aos prejuízos provocados pelo comportamento excessivo de apostar. Perdas financeiras, endividamento, conflitos interpessoais, ocultação do comportamento e dificuldades para interromper as apostas podem aumentar o sofrimento psicológico. Assim, indivíduos sem psicopatologia anterior significativa também podem desenvolver sintomas emocionais em decorrência dos problemas associados à repetição e à perda de controle sobre o comportamento de jogo (Blaszczynski; Nower, 2002).
Estudos com jovens adultos têm investigado essas relações por meio de diferentes indicadores. Algumas pesquisas avaliam a gravidade do comportamento problemático com instrumentos específicos e examinam sua associação com ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psicológico; outras consideram apenas a frequência de participação ou o envolvimento com jogos online. Essas formas de mensuração representam dimensões distintas e podem produzir resultados diferentes, razão pela qual a participação em apostas não deve ser interpretada como equivalente à presença de sofrimento psicológico ou transtorno mental (Shaygan et al., 2024; Manu et al., 2024; Mohan, 2026).
As pesquisas também apresentam diferenças quanto às populações, às modalidades de jogo e aos delineamentos metodológicos. O predomínio de estudos transversais limita a determinação da sequência temporal entre sofrimento emocional e comportamento problemático, uma vez que associações observadas em um único momento não demonstram causalidade. A literatura sustenta, portanto, a necessidade de examinar separadamente a modalidade de aposta, a frequência de participação, a gravidade do comportamento e os indicadores específicos de saúde mental ao analisar as relações entre apostas esportivas online, ansiedade e depressão (Blaszczynski; Nower, 2002; Shaygan et al., 2024; Manu et al., 2024).
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza bibliográfica e com síntese predominantemente qualitativa. Esse delineamento foi adotado para reunir, organizar e analisar estudos com diferentes abordagens e delineamentos metodológicos acerca das relações entre apostas esportivas online e sintomas de ansiedade e depressão em jovens adultos. A perspectiva qualitativa orientou a interpretação comparativa dos achados, considerando as características das populações, as formas de mensuração e os contextos em que os fenômenos foram investigados (Minayo, 2014).
A revisão integrativa permite reunir conhecimentos provenientes de estudos distintos e produzir uma compreensão abrangente sobre determinado objeto de investigação. Sua condução compreende procedimentos sistemáticos de formulação do problema, busca na literatura, aplicação dos critérios de elegibilidade, extração das informações, análise dos dados e apresentação dos resultados (Whittemore; Knafl, 2005). Além da descrição das pesquisas incluídas, esse método envolve a comparação e a integração dos achados, possibilitando reconhecer aproximações, divergências, limitações e lacunas na produção científica analisada (Torraco, 2005).
Para o desenvolvimento da revisão, foram definidos procedimentos referentes à estratégia de busca, aos critérios de inclusão e exclusão, à seleção dos estudos, à extração e organização das informações, à análise e síntese dos dados e aos aspectos éticos. Esses procedimentos são apresentados nas subseções seguintes.
3.1. Estratégia de Busca
Na SciELO, utilizou-se a estratégia “apostas” OR “jogos de azar” OR “gambling”, que recuperou inicialmente 128 registros. Após a aplicação do recorte temporal de 2022 a 2026, permaneceram 22 publicações. Além do período, aplicou-se apenas o filtro referente ao tipo de literatura, restringindo-se os resultados a artigos. Não foram estabelecidas restrições quanto às coleções, aos periódicos, aos idiomas, às áreas temáticas ou às demais categorias disponíveis na base. Após a leitura dos títulos e resumos, três estudos foram selecionados para avaliação de elegibilidade mediante leitura na íntegra.
Na Scopus, empregou-se a estratégia “online sports betting” AND “digital”, que recuperou inicialmente 14 registros. Foram aplicados filtros referentes às áreas de Ciências Sociais, Psicologia, Medicina, Farmacologia, Toxicologia e Farmacêutica e Artes e Humanidades; ao tipo de documento, restringindo-se os resultados a artigos; aos idiomas inglês, espanhol e português; e às palavras-chave relacionadas ao objeto da revisão; incluindo esportes; apostas esportivas; apostas esportivas online; jogos de azar; esporte; jogo patológico; saúde mental; humanos; humano e plataformas digitais; Após a aplicação desses filtros; permaneceram cinco registros; A leitura dos títulos e resumos resultou na seleção de quatro estudos para avaliação de elegibilidade; O quantitativo obtido após a aplicação isolada do recorte temporal não foi registrado durante a realização da busca e; por essa razão; não é apresentado.
Na Web of Science, foram realizadas duas estratégias complementares. A primeira foi direcionada à população jovem e aos fatores relacionados à vulnerabilidade e ao comportamento problemático, utilizando-se a combinação (“young adults” OR “young people” OR youth) AND (“online sports betting” OR “sports betting” OR “online gambling”) AND (vulnerability OR “risk factors” OR susceptibility OR “problem gambling” OR harm). Essa estratégia recuperou inicialmente 118 registros, dos quais 69 permaneceram após a aplicação do recorte temporal de 2022 a 2026. Em seguida, aplicou-se o filtro referente ao tipo de documento, restringindo-se os resultados a artigos, sem delimitação por categoria temática. Após essa etapa, permaneceram 61 registros. A leitura dos títulos e resumos resultou na pré-seleção de 12 estudos. Durante a verificação manual das duplicidades, cinco registros foram excluídos, permanecendo sete estudos para avaliação de elegibilidade.
A segunda estratégia realizada na Web of Science foi direcionada à relação entre apostas e saúde mental, utilizando-se a combinação (“online sports betting” OR “sports betting” OR “online gambling”) AND (“mental health” OR “psychological distress”) AND (anxiety OR depression). A busca recuperou inicialmente 38 registros, dos quais 28 permaneceram após a aplicação do recorte temporal de 2022 a 2026. Em seguida, os resultados foram restringidos a artigos classificados nas categorias Abuso de Substâncias, Psiquiatria, Psicologia Multidisciplinar, Psicologia Clínica, Saúde Ocupacional, Ambiental e Pública, Medicina Geral e Interna, Negócios, Educação e Pesquisa Educacional, Psicologia do Desenvolvimento, Questões Sociais, Serviço Social, Ciências do Esporte e Cirurgia. Após a aplicação desses filtros, permaneceram cinco registros, todos selecionados para avaliação de elegibilidade mediante leitura na íntegra.
Consideradas as diferentes estratégias de busca e a exclusão das duplicidades identificadas, 19 estudos foram selecionados para leitura na íntegra e avaliação de elegibilidade. A Tabela 1 apresenta as estratégias empregadas e os quantitativos correspondentes às diferentes etapas do processo de busca.
Tabela 1. Estratégias de busca e processo de seleção dos estudos
Base de dados | Estratégia de busca | Total encontrado | Após recorte 2022–2026 | Após filtros | Pré-selecionados | Avaliados para elegibilidade |
SciELO | "apostas" OR "jogos de azar" OR "gambling" | 128 | 22 | 22 | 3 | 3 |
Scopus | "online sports betting" AND "digital" | 14 | —¹ | 5 | 4 | 4 |
Web of Science – Busca 1 | ("young adults" OR "young people" OR youth) AND ("online sports betting" OR "sports betting" OR "online gambling") AND (vulnerability OR "risk factors" OR susceptibility OR "problem gambling" OR harm) | 118 | 69 | 61 | 12 | 7² |
Web of Science – Busca 2 | ("online sports betting" OR "sports betting" OR "online gambling") AND ("mental health" OR "psychological distress") AND (anxiety OR depression) | 38 | 28 | 5 | 5 | 5 |
Total avaliado para elegibilidade | — | — | — | — | — | 19 |
Fonte: Elaborada pelos autores (2026).
Nota 1: O quantitativo de registros da Scopus resultante da aplicação exclusiva do recorte temporal não foi registrado durante a realização da busca; por essa razão, o dado não é apresentado.
Nota 2: Na primeira estratégia realizada na Web of Science, 12 estudos foram inicialmente pré-selecionados após a leitura dos títulos e resumos. Durante a verificação manual das duplicidades, cinco registros foram excluídos, permanecendo sete estudos para avaliação de elegibilidade.
Após a leitura na íntegra dos 19 estudos e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, sete foram excluídos e 12 constituíram o corpus final da revisão integrativa. O processo de elegibilidade e seleção final é detalhado na subseção 3.3.
3.2. Critérios de Inclusão e Exclusão
Foram considerados elegíveis artigos científicos originais publicados entre 2022 e 2026, nos idiomas português, inglês ou espanhol e disponíveis para leitura na íntegra. Em relação ao objeto da revisão, foram incluídos prioritariamente estudos que investigassem apostas esportivas online, jovens adultos e indicadores de saúde mental, especialmente sintomas de ansiedade, depressão, estresse ou sofrimento psicológico.
Também foram admitidos estudos de caráter complementar que abordassem modalidades de jogo online relacionadas ao fenômeno investigado ou populações adultas com maior amplitude etária, desde que examinassem pelo menos uma dimensão diretamente associada ao envolvimento problemático com apostas. Entre essas dimensões foram considerados gravidade do comportamento de jogo, impulsividade, regulação emocional, controle comportamental percebido, influência social, exposição ao marketing, percepção de risco e características das plataformas digitais. Esses estudos foram utilizados para contextualizar os fatores associados ao comportamento problemático e foram diferenciados, durante a análise, daqueles diretamente voltados às apostas esportivas online, aos jovens adultos e aos indicadores de ansiedade e depressão.
Foram excluídos editoriais, cartas, resumos de eventos, dissertações, teses, ensaios e outras publicações que não correspondessem a artigos científicos originais. Também foram excluídos estudos publicados fora do recorte temporal estabelecido, redigidos em idiomas diferentes dos definidos, indisponíveis para leitura na íntegra ou sem aderência às dimensões investigadas.
Quanto ao conteúdo, foram excluídas pesquisas centradas em modalidades de jogo sem relação com apostas esportivas online ou com o ambiente de jogo online; estudos exclusivamente legislativos, comerciais ou laborais que não analisassem o comportamento dos apostadores nem variáveis psicológicas ou sociais relacionadas às apostas; e investigações que não abordassem indicadores de saúde mental, fatores de vulnerabilidade ou aspectos associados ao envolvimento problemático com jogos e apostas.
3.3. Seleção dos Estudos
Após a aplicação das estratégias de busca e dos filtros definidos em cada base, os registros recuperados foram submetidos à triagem mediante leitura dos títulos e resumos. Nessa etapa, verificou-se a correspondência das publicações com o objetivo da revisão e com os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Os estudos que apresentaram possível aderência ao objeto investigado foram selecionados para leitura na íntegra.
Durante o processo de triagem, realizou-se a verificação manual das duplicidades. Após a retirada dos registros duplicados, 19 artigos foram submetidos à avaliação de elegibilidade por meio da leitura integral.
Nessa avaliação, sete artigos foram excluídos por não atenderem integralmente aos critérios estabelecidos. Os motivos de exclusão compreenderam publicação fora do recorte temporal; incompatibilidade com o critério de artigo científico original; enfoque exclusivamente legislativo, comercial ou laboral, sem análise de aspectos comportamentais ou psicológicos; ausência de investigação de indicadores de saúde mental ou fatores de vulnerabilidade; e abordagem de modalidades de jogo sem relação suficiente com as apostas esportivas online ou com o ambiente de jogo online.
Ao final do processo de seleção, 12 artigos atenderam aos critérios de elegibilidade e constituíram o corpus da revisão integrativa. Esses estudos foram submetidos às etapas de extração, organização, análise e síntese dos dados.
3.4. Extração e Organização dos Dados
Após a definição do corpus, procedeu-se à extração das informações dos 12 artigos incluídos na revisão. Foram coletados dados referentes à autoria e ao ano de publicação, ao país de realização do estudo, às características e à faixa etária da amostra, ao delineamento metodológico, aos objetivos da pesquisa e aos principais resultados relacionados ao objeto investigado.
As informações extraídas foram registradas em uma matriz de síntese elaborada para padronizar a coleta dos dados e facilitar a comparação entre os estudos. Durante esse processo, também foram consideradas as modalidades de aposta ou de jogo investigadas, as formas de mensuração do envolvimento com as apostas, os indicadores de saúde mental avaliados e os fatores de vulnerabilidade examinados.
Posteriormente, os dados foram sistematizados em um quadro sinóptico, no qual os estudos foram caracterizados de acordo com autoria e ano, país, amostra, delineamento, objetivo e principais achados. Para orientar as etapas posteriores da revisão, também foi registrada a relação de cada estudo com o objeto investigado, distinguindo-se as evidências diretamente voltadas às apostas esportivas online e aos indicadores de saúde mental daquelas que contribuíram de maneira complementar para a compreensão dos fatores associados ao comportamento problemático.
3.5. Análise dos Dados
Os dados extraídos foram submetidos à análise descritiva e comparativa, de acordo com os princípios da revisão integrativa propostos por Whittemore e Knafl (2005). Inicialmente, as características metodológicas e os resultados dos estudos foram examinados em conjunto, com o propósito de identificar padrões, aproximações e diferenças relacionadas às populações investigadas, às modalidades de aposta ou de jogo, às formas de mensuração e aos indicadores de saúde mental e vulnerabilidade avaliados.
Em seguida, os achados foram comparados e organizados em eixos temáticos recorrentes, definidos a partir das questões abordadas pelos estudos e de sua relação com os objetivos da revisão. Esse processo resultou em quatro eixos de análise: vulnerabilidade dos jovens adultos e fatores associados ao envolvimento problemático com apostas esportivas online; apostas esportivas online, ansiedade, depressão e sofrimento psicológico; relações entre sofrimento emocional e comportamento problemático, incluindo sua direção e seus possíveis mecanismos; e convergências, divergências e lacunas da literatura.
Durante a interpretação, foram diferenciadas as evidências diretamente relacionadas às apostas esportivas online, aos jovens adultos e aos indicadores de saúde mental daquelas que contribuíram de maneira complementar para a compreensão do fenômeno. Também foram consideradas as diferenças de delineamento, população, modalidade investigada, instrumento de mensuração e nível de envolvimento com as apostas, a fim de evitar a comparação equivalente de estudos com objetos e procedimentos distintos.
A síntese foi elaborada de forma integrada, articulando os resultados dos estudos em torno dos eixos definidos e evitando sua apresentação como descrições isoladas. A interpretação considerou os pontos de concordância, os resultados divergentes, as limitações metodológicas e as lacunas identificadas no conjunto da literatura, em consonância com a perspectiva de análise crítica e integração dos conhecimentos proposta por Torraco (2005).
3.6. Aspectos Éticos
Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida exclusivamente a partir de materiais científicos previamente publicados e sem participação direta de seres humanos, coleta de dados pessoais ou acesso a informações identificáveis, não há necessidade de submissão ao Sistema CEP/CONEP, considerando as disposições da Resolução CNS nº 510, de 7 de abril de 2016 (Brasil, 2016).
Durante todas as etapas da pesquisa, foram observados os princípios de integridade científica e ética acadêmica, assegurando-se a fidedignidade das informações, o uso responsável das fontes consultadas e a adequada atribuição de autoria. Nesse sentido, foram respeitados os princípios de honestidade intelectual e responsabilidade na produção e divulgação do conhecimento científico (Lordello; Silva, 2017).
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1. Caracterização dos Estudos Incluídos
Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, 12 artigos constituíram o corpus da revisão integrativa. Os estudos foram publicados entre 2023 e 2026 e apresentaram diferenças quanto aos países de realização, às características das amostras, aos delineamentos metodológicos, às modalidades de aposta ou de jogo investigadas e às formas de mensuração do comportamento de apostar e dos indicadores de saúde mental.
Para a caracterização das publicações, foram consideradas informações referentes à autoria e ao ano, ao país de realização, à amostra, ao delineamento, ao objetivo e aos principais achados. Também foi indicada a relação de cada estudo com o objeto da revisão. Foram classificados como evidências diretas os estudos que examinaram conjuntamente apostas esportivas online, jovens adultos e indicadores de saúde mental. Os estudos que abordaram apenas parte desses elementos, como vulnerabilidade, características das plataformas, marketing, jogo online em geral ou populações adultas mais amplas, foram classificados como evidências complementares. Os dados são apresentados no Quadro 1.
Quadro 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa
Autor e ano | País | Amostra | Delineamento | Objetivo | Principais achados | Relação com o objeto |
Brevers et al. (2024) | Bélgica e Luxemburgo | 65 apostadores esportivos frequentes, sendo 30 classificados como problemáticos e 35 como não problemáticos; média de idade de 26,04 anos | Estudo neurofuncional com fMRI e análise de conectividade funcional | Examinar diferenças na conectividade funcional cerebral diante da disponibilidade de oportunidades de aposta | Foram identificados diferentes padrões de conectividade funcional centrados na ínsula anterior ventral entre apostadores problemáticos e não problemáticos, em regiões relacionadas à saliência, à recompensa e ao comportamento orientado a objetivos | Complementar: aborda apostadores esportivos jovens e comportamento problemático, mas não avalia ansiedade ou depressão |
Aguerri et al. (2026) | Espanha | 1.429 adultos entre 18 e 65 anos | Quantitativo e transversal, realizado por levantamento | Investigar a gamblification e a normalização do jogo no lazer digital | Os jogadores online apresentaram perfil predominantemente mais jovem e masculino. As apostas esportivas online relacionaram-se a outras modalidades de jogo digital | Complementar: contextualiza o ambiente digital, mas não se restringe a jovens adultos nem avalia ansiedade ou depressão |
Di Censo, Delfabbro e King (2024) | Austrália | 567 jovens de 18 a 24 anos com conta ativa e participação recente em apostas esportivas | Quantitativo e transversal | Examinar se variáveis relacionadas ao marketing prediziam escores de jogo problemático | Decisões influenciadas pela publicidade, suscetibilidade percebida aos incentivos, maior gasto por sessão, apostas in-play e urgência negativa associaram-se a escores mais elevados no PGSI. A exposição quantitativa à publicidade, isoladamente, não foi preditora significativa | Complementar: aborda jovens e apostas esportivas, mas se concentra em marketing e gravidade do jogo problemático |
Hing et al. (2024a) | Austrália | 616 jovens de 18 a 29 anos que apostavam mensalmente em esportes, esportes eletrônicos ou daily fantasy sports | Quantitativo, com experimento de escolha discreta | Examinar as características de plataformas e dispositivos valorizadas por jovens apostadores | Acesso imediato, disponibilidade contínua e transações eletrônicas estiveram entre as características mais valorizadas. O experimento não identificou diferenças significativas de preferência segundo a gravidade do jogo | Complementar: examina características das plataformas, sem avaliar diretamente ansiedade ou depressão |
Hing et al. (2024b) | Austrália | 33 jovens de 18 a 29 anos que apostavam regularmente em esportes, esportes eletrônicos ou fantasy sports | Qualitativo, fundamentado na Grounded Theory | Compreender como smartphones e características das apostas online influenciam o comportamento de jovens apostadores | O acesso por smartphones foi relacionado pelos participantes a maior frequência e gasto, impulsividade, apostas mais arriscadas, perseguição de perdas e influências sociais | Complementar: aborda jovens e apostas esportivas, mas não avalia diretamente indicadores de saúde mental |
Hing et al. (2026) | Austrália | 50 jovens de 18 a 25 anos com danos moderados ou elevados relacionados às apostas esportivas | Qualitativo, com análise narrativa temática | Examinar trajetórias e influências relacionadas ao envolvimento e aos danos associados às apostas esportivas | Foram identificadas influências familiares, sociais e publicitárias, normalização das apostas e associações com pertencimento, status e cultura esportiva | Complementar: examina trajetórias de vulnerabilidade e danos, sem mensuração específica de ansiedade ou depressão |
Shen (2023) | Estados Unidos | 311 universitários; média de idade de 20,87 anos | Quantitativo e transversal, com modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais | Examinar fatores associados à intenção de apostar e ao comportamento problemático entre universitários | A intenção relacionou-se a atitudes, normas subjetivas e motivação para atender às expectativas de outras pessoas. O comportamento problemático associou-se positivamente à intenção e negativamente ao controle comportamental percebido | Complementar: examina jovens e comportamento problemático, mas não avalia diretamente ansiedade ou depressão |
Carcelén-García, Díaz-Bustamante Ventisca e Galmes-Cerezo (2023) | Espanha | 1.500 jovens entre 18 e 35 anos | Quantitativo, transversal e não experimental | Identificar variáveis relacionadas à percepção dos riscos de atividades online | Aproximadamente 30% dos participantes não reconheceram risco ou não responderam sobre apostas e jogos online. As variáveis emocionais foram analisadas em relação à percepção de risco, e não como consequências clínicas das apostas | Complementar: aborda percepção de risco e vulnerabilidade digital, sem examinar especificamente apostas esportivas ou desfechos clínicos |
Kovan e Yıldırım (2026) | Turquia | Estudo I: 674 participantes, com média de 35,23 anos; Estudo II: 813 participantes, com média de 34,76 anos | Quantitativo e transversal, com análise fatorial e modelagem de equações estruturais | Adaptar o Online Problem Gambling Behavior Index e examinar relações entre reatividade emocional, sofrimento psicológico e jogo online problemático | A reatividade emocional apresentou efeitos diretos e indiretos sobre dimensões do jogo online problemático por meio de depressão, ansiedade e estresse; o estresse apresentou o papel mediador mais consistente | Complementar: avalia saúde mental e jogo online problemático, mas não diferencia apostas esportivas nem se restringe a jovens adultos |
Mohan (2026) | Irlanda | Mais de 4.200 jovens, avaliados aos 17 e 20 anos | Análise quantitativa de dados de coorte | Examinar relações entre frequência de jogo, participação online, saúde mental e dificuldades financeiras | Após os ajustes estatísticos, frequência de jogo e participação online não apresentaram associação significativa com depressão, estresse ou satisfação com a vida. Foram observadas associações com dificuldades financeiras | Complementar: aborda jovens e saúde mental, mas investiga jogos de azar de forma ampla e não utiliza medida específica de gravidade |
Shaygan et al. (2024) | Estados Unidos | 221 apostadores esportivos de 18 a 29 anos | Quantitativo e transversal | Examinar relações entre gravidade das apostas esportivas problemáticas, saúde mental e bem-estar | Maior gravidade esteve associada a níveis mais elevados de depressão, ansiedade, estresse, sofrimento psicológico e solidão, além de piores indicadores de bem-estar | Direta: examina apostas esportivas, jovens adultos e indicadores específicos de saúde mental |
Manu et al. (2024) | Gana | 403 jovens envolvidos com apostas esportivas online | Quantitativo e transversal, com utilização da DASS-21 e do PGSI | Examinar indicadores de saúde mental e sua relação com a gravidade do jogo | Foram identificados sintomas de depressão, ansiedade e estresse, além de associação entre maior gravidade do jogo e maior sofrimento psicológico | Direta: examina apostas esportivas online, jovens e indicadores específicos de saúde mental |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Dos 12 estudos incluídos, oito adotaram delineamento quantitativo transversal, dois utilizaram abordagem qualitativa, um realizou investigação neurofuncional e um analisou dados quantitativos de coorte. A predominância dos delineamentos transversais restringe a análise da temporalidade das associações, pois a mensuração das variáveis em um único momento não permite determinar relações de antecedência ou consequência.
Quanto às populações, a maior parte dos estudos investigou jovens ou jovens adultos, incluindo universitários e apostadores com idades concentradas entre 18 e 29 anos. Aguerri et al. (2026) e Kovan e Yıldırım (2026), entretanto, utilizaram amostras adultas com maior amplitude etária. Também foram observadas diferenças quanto ao objeto: alguns estudos examinaram especificamente apostas esportivas, enquanto outros abordaram jogos online ou jogos de azar de maneira mais ampla.
A heterogeneidade também esteve presente nas formas de mensuração. Parte dos estudos avaliou a gravidade do comportamento problemático por meio de instrumentos específicos, enquanto outros investigaram frequência de participação, exposição às apostas, características das plataformas, percepção de risco, influências sociais ou diferentes modalidades de jogo online. Nos estudos voltados à saúde mental, os indicadores incluíram ansiedade, depressão, estresse, sofrimento psicológico, solidão, satisfação com a vida e bem-estar.
Apenas Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) reuniram diretamente os principais elementos delimitados na pergunta da revisão: jovens, apostas esportivas e avaliação de indicadores de saúde mental. Kovan e Yıldırım (2026) e Mohan (2026) forneceram evidências complementares sobre sofrimento psicológico e participação em jogos online ou jogos de azar de forma mais ampla. Os demais estudos contribuíram principalmente para a compreensão dos fatores individuais, sociais, comerciais, tecnológicos e neurofuncionais relacionados à vulnerabilidade ou ao envolvimento problemático.
Essa diferença de aderência impede que todos os estudos sejam interpretados com o mesmo peso em relação à pergunta norteadora. Por essa razão, os estudos diretamente relacionados ao objeto fundamentaram prioritariamente a análise das relações entre apostas esportivas online, ansiedade e depressão, enquanto as evidências complementares foram utilizadas para contextualizar os fatores associados ao comportamento problemático e auxiliar na interpretação das convergências, divergências e lacunas do corpus.
4.2. Vulnerabilidade dos Jovens Adultos e Fatores Associados AO Envolvimento Problemático com Apostas Esportivas Online
Os estudos incluídos relacionaram o envolvimento problemático de jovens adultos com apostas esportivas online a fatores individuais, sociais, comerciais e tecnológicos. Embora essas dimensões tenham sido examinadas por diferentes delineamentos e instrumentos, os resultados indicaram que impulsividade, menor controle comportamental percebido, influência de pessoas significativas, resposta à publicidade e disponibilidade contínua das plataformas podem coexistir em padrões de maior risco. Os estudos não demonstraram a atuação isolada desses fatores nem estabeleceram relações causais entre eles e o comportamento problemático.
Entre os fatores individuais, Di Censo, Delfabbro e King (2024) identificaram associação entre escores mais elevados no Problem Gambling Severity Index e urgência negativa, maior gasto por sessão e participação em apostas in-play. A urgência negativa corresponde à tendência de agir impulsivamente diante de estados emocionais negativos e, no estudo, permaneceu associada à gravidade do comportamento mesmo quando considerada em conjunto com variáveis demográficas, psicológicas e comportamentais. Os resultados aproximam impulsividade e estados emocionais negativos, mas o delineamento transversal não permite determinar se essa característica antecede ou se intensifica com o comportamento problemático.
O controle comportamental percebido também foi examinado por Shen (2023). Entre estudantes universitários, o comportamento problemático relacionou-se positivamente à intenção de apostar e negativamente à percepção de controle sobre o próprio comportamento. A frequência das apostas e a tendência à aposta impulsiva exerceram efeitos moderadores em determinadas relações do modelo. Em comparação com Di Censo, Delfabbro e King (2024), os achados convergem quanto à relevância da impulsividade e do controle, embora os estudos tenham utilizado modelos analíticos e medidas distintas.
As influências sociais apareceram tanto nas intenções individuais quanto nas trajetórias de envolvimento. Shen (2023) identificou relações entre intenção de apostar, atitudes favoráveis, normas subjetivas e motivação para corresponder às expectativas de outras pessoas. Hing et al. (2026), por sua vez, observaram que influências familiares e dos pares, exposição publicitária e normalização das apostas estiveram presentes nas trajetórias de jovens com danos moderados ou elevados. Os relatos associaram as apostas a amizade, competição, pertencimento e status, indicando que o comportamento também pode adquirir funções sociais para além da expectativa de retorno financeiro.
A publicidade e os incentivos comerciais apresentaram resultados que exigem diferenciação. Em Di Censo, Delfabbro e King (2024), decisões influenciadas pela publicidade e maior suscetibilidade percebida às promoções associaram-se a escores mais elevados de jogo problemático. Entretanto, a quantidade de publicidade à qual os participantes relataram exposição, analisada isoladamente, não permaneceu como variável significativa no modelo final. Esse resultado sugere que a resposta do indivíduo às estratégias promocionais pode apresentar relação mais consistente com a gravidade do que a exposição quantitativa considerada de forma independente. Os relatos analisados por Hing et al. (2026) complementam essa interpretação ao situarem a publicidade em trajetórias sociais mais amplas de familiarização e normalização das apostas.
As características tecnológicas das plataformas também foram examinadas em dois estudos com jovens de 18 a 29 anos. Hing et al. (2024a) identificaram acesso imediato, disponibilidade durante 24 horas e transações financeiras eletrônicas entre as características mais valorizadas nas apostas por smartphone. No experimento de escolha discreta, contudo, as preferências não apresentaram diferenças significativas segundo a gravidade do jogo. Somente nos dados descritivos, os participantes classificados nas categorias de risco moderado ou jogo problemático atribuíram maior importância a recursos como apostas ao vivo, privacidade, promoções e uso de múltiplos operadores. Essa distinção impede afirmar que essas características foram preferidas de maneira estatisticamente diferente pelos grupos de maior risco no componente experimental.
Os resultados qualitativos de Hing et al. (2024b) acrescentaram a perspectiva dos participantes sobre o uso dos smartphones. O acesso imediato às plataformas foi relacionado a maior frequência e gasto, apostas espontâneas e impulsivas, comportamentos mais arriscados e perseguição de perdas. Em conjunto, os estudos de Hing et al. (2024a, 2024b) mostram que os dispositivos móveis concentram recursos que ampliam a disponibilidade e a conveniência das apostas. Entretanto, os delineamentos empregados não permitem concluir que o uso do smartphone produza, por si só, o comportamento problemático.
A inserção das apostas em um ambiente digital mais amplo foi contextualizada por Aguerri et al. (2026), que identificaram relações entre apostas esportivas online e outras modalidades de jogo digital. Como o estudo incluiu adultos de 18 a 65 anos e não investigou especificamente a gravidade do comportamento, seus resultados oferecem evidência complementar sobre a gamblification do lazer digital, mas não permitem inferências específicas sobre jovens adultos com problemas relacionados às apostas.
A percepção de risco acrescentou outra dimensão à vulnerabilidade. Carcelén-García, Díaz-Bustamante Ventisca e Galmes-Cerezo (2023) verificaram que aproximadamente 30% dos jovens investigados não reconheceram risco ou não responderam sobre apostas e jogos online. Esse resultado indica dificuldade de uma parcela da amostra em identificar os possíveis riscos dessas atividades, mas não demonstra que a percepção reduzida tenha provocado maior frequência de apostas ou comportamento problemático, pois o estudo não avaliou essa sequência causal.
Brevers et al. (2024) contribuíram com evidências neurofuncionais ao identificarem diferenças na conectividade funcional centrada na ínsula anterior ventral entre apostadores esportivos problemáticos e não problemáticos diante de estímulos relacionados à disponibilidade de apostas. Os padrões envolveram regiões associadas ao processamento de saliência, recompensa e comportamento orientado a objetivos. Como o estudo não avaliou diretamente ansiedade ou depressão nem estabeleceu temporalidade, seus resultados devem ser compreendidos como evidência complementar de diferenças associadas à gravidade, e não como explicação causal do comportamento problemático.
Os resultados da subseção mostram que as dimensões individuais, sociais, comerciais e tecnológicas foram investigadas de maneira interdependente, embora por estudos com diferentes níveis de aderência ao objeto da revisão. A urgência negativa, a menor percepção de controle, as influências sociais, a resposta às estratégias promocionais e a disponibilidade imediata das apostas apresentaram associações com padrões de maior risco ou apareceram nas trajetórias relatadas pelos participantes (Di Censo; Delfabbro; King, 2024; Shen, 2023; Hing et al., 2024a, 2024b, 2026). A relação específica desses diferentes níveis de envolvimento com ansiedade, depressão e sofrimento psicológico é examinada na subseção seguinte.
4.3. Apostas Esportivas Online, Ansiedade, Depressão e Sofrimento Psicológico
Os estudos que examinaram a relação entre envolvimento com apostas e indicadores de saúde mental apresentaram resultados distintos conforme a modalidade investigada e a forma de mensuração do comportamento. Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) avaliaram diretamente a gravidade das apostas esportivas problemáticas entre jovens e sua associação com ansiedade, depressão e outros indicadores psicológicos. Kovan e Yıldırım (2026) e Mohan (2026), por outro lado, forneceram evidências complementares sobre jogo online problemático ou participação em jogos de azar de forma mais ampla.
Shaygan et al. (2024), em estudo com 221 apostadores esportivos de 18 a 29 anos, identificaram que maior gravidade das apostas esportivas problemáticas esteve associada a níveis mais elevados de depressão, ansiedade, estresse, sofrimento psicológico e solidão. Também foram observadas associações com piores indicadores de satisfação com a vida, conexão social e funcionamento psicossocial. Entre os indicadores examinados, o estresse apresentou a associação relativa mais elevada com a gravidade do comportamento problemático.
Resultados convergentes foram encontrados por Manu et al. (2024) em uma amostra de 403 jovens envolvidos com apostas esportivas online. Os autores identificaram percentuais de 43,6% para sintomas de depressão, 68,8% para ansiedade e 31,1% para estresse, além de 48% para sofrimento psicológico global. Os participantes classificados nas categorias de risco moderado ou jogo problemático apresentaram maior sofrimento psicológico quando comparados àqueles com menor gravidade.
A comparação entre Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) demonstra convergência quanto à associação entre maior gravidade do comportamento problemático e piores indicadores de saúde mental. Os estudos utilizaram amostras de jovens envolvidos especificamente com apostas esportivas e avaliaram a gravidade por meio de instrumentos próprios. Entretanto, diferenças entre os contextos de realização, as características das amostras e as medidas empregadas impedem que os percentuais encontrados em um estudo sejam diretamente generalizados para outras populações.
Kovan e Yıldırım (2026) acrescentaram evidências complementares ao examinarem as relações entre reatividade emocional, sofrimento psicológico e jogo online problemático. A reatividade emocional apresentou relações diretas com diferentes dimensões do comportamento problemático e relações indiretas por meio de depressão, ansiedade e estresse, tendo o estresse exercido o papel mediador mais consistente. Apesar da aproximação com os achados de Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024), o estudo abrangeu adultos com médias de idade superiores às faixas centrais desta revisão e não diferenciou as apostas esportivas de outras modalidades de jogo online. Seus resultados não podem, portanto, ser diretamente atribuídos aos jovens apostadores esportivos.
Mohan (2026) apresentou um contraponto aos estudos que identificaram relações entre gravidade e sofrimento psicológico. A partir de dados de uma coorte com mais de 4.200 jovens avaliados aos 17 e 20 anos, a autora não encontrou associação estatisticamente significativa entre frequência de participação em jogos ou envolvimento com jogos online e sintomas depressivos, estresse ou satisfação com a vida após os ajustes estatísticos. Foram identificadas, entretanto, associações entre maior frequência de jogo e dificuldades financeiras, especialmente problemas relacionados ao pagamento de empréstimos.
A divergência entre Mohan (2026) e os resultados de Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) deve ser interpretada considerando as diferentes medidas utilizadas. Os dois últimos estudos avaliaram a gravidade do comportamento problemático, enquanto Mohan examinou predominantemente a frequência e a participação em jogos, sem utilizar um instrumento específico de gravidade ou danos, como o Problem Gambling Severity Index. Desse modo, os estudos não avaliaram dimensões equivalentes do comportamento, o que limita a comparação direta entre seus resultados.
No corpus analisado, as associações com ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psicológico foram identificadas de maneira mais consistente nos estudos que avaliaram a gravidade do comportamento problemático. Em contraste, a participação ou a frequência de jogo, quando examinadas sem medida específica de gravidade, não apresentaram a mesma relação uniforme com os indicadores psicológicos. Essa diferença evidencia a necessidade de distinguir participação, frequência e gravidade na interpretação dos resultados sobre apostas e saúde mental (Shaygan et al., 2024; Manu et al., 2024; Mohan, 2026).
Embora os estudos de Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) demonstrem associações entre gravidade e sofrimento psicológico, seus delineamentos transversais não permitem estabelecer a direção temporal dessas relações. A possibilidade de os sintomas emocionais antecederem, decorrerem ou se relacionarem reciprocamente com o comportamento problemático é examinada na subseção seguinte.
4.4. Relações Entre Sofrimento Emocional e Comportamento Problemático: Direção e Possíveis Mecanismos
A direção temporal da relação entre sofrimento emocional e comportamento problemático de aposta não pôde ser determinada pelos estudos diretamente relacionados ao objeto da revisão. Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) identificaram associações entre maior gravidade e níveis mais elevados de ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psicológico, mas utilizaram delineamentos transversais. Esses resultados não permitem estabelecer se os sintomas emocionais antecederam o comportamento problemático, surgiram em decorrência de seus prejuízos ou se ambos se influenciaram reciprocamente.
Essa indeterminação é compatível com as diferentes trajetórias descritas por Blaszczynski e Nower (2002). No modelo proposto pelos autores, ansiedade e depressão podem estar presentes antes do desenvolvimento do jogo problemático, especialmente entre indivíduos emocionalmente vulneráveis que recorrem ao jogo para modular estados afetivos negativos. Em outras trajetórias, os sintomas podem surgir ou se intensificar em resposta às perdas financeiras, aos conflitos interpessoais e às dificuldades decorrentes da perda de controle. Os estudos incluídos sustentam a presença de associações, mas não permitem identificar qual dessas trajetórias predomina entre jovens envolvidos com apostas esportivas online.
Kovan e Yıldırım (2026) forneceram evidências complementares sobre a participação da reatividade emocional e do sofrimento psicológico no jogo online problemático. No modelo estatístico analisado, a reatividade emocional apresentou efeitos diretos sobre diferentes dimensões do comportamento problemático e efeitos indiretos por meio da depressão, da ansiedade e do estresse, sendo este último o mediador mais consistente. Contudo, a mediação estatística identificada em dados transversais não comprova uma sequência causal. Além disso, o estudo não diferenciou apostas esportivas de outras modalidades de jogo online e incluiu uma população adulta com idade média superior àquela delimitada nesta revisão.
A urgência negativa examinada por Di Censo, Delfabbro e King (2024) acrescentou uma dimensão comportamental à relação entre estados emocionais e apostas. Essa característica, definida como tendência a agir impulsivamente diante de emoções negativas, associou-se a escores mais elevados de jogo problemático entre jovens apostadores esportivos. Os autores consideraram que indivíduos com maior urgência negativa poderiam apresentar maior propensão a apostar em situações de humor negativo. Entretanto, o delineamento utilizado não permite determinar se essa característica constitui um antecedente estável, se é intensificada pelo comportamento problemático ou se ambas as possibilidades coexistem.
Os achados de Shen (2023) complementaram essa discussão ao mostrarem relação negativa entre controle comportamental percebido e comportamento problemático, além da participação da tendência à aposta impulsiva nas relações examinadas. Quando comparados aos resultados de Di Censo, Delfabbro e King (2024), esses dados indicam que impulsividade e percepção reduzida de controle podem estar associadas a padrões mais problemáticos. Os estudos, contudo, não demonstram uma sequência temporal entre essas características e o agravamento das apostas.
As condições oferecidas pelas plataformas digitais podem interagir com essas características individuais. Nos relatos analisados por Hing et al. (2024b), o acesso imediato às apostas por smartphones foi relacionado a decisões espontâneas, maior frequência e gasto, comportamentos mais arriscados e perseguição de perdas. A possibilidade de apostar em diferentes locais e momentos reduz barreiras práticas entre o impulso e a realização do comportamento. Essa aproximação entre disponibilidade tecnológica e impulsividade decorre da integração dos resultados de estudos distintos e deve ser interpretada como uma relação possível, não como mecanismo causal demonstrado pelo corpus.
Brevers et al. (2024) acrescentaram uma perspectiva neurofuncional ao identificarem diferenças na conectividade centrada na ínsula anterior ventral entre apostadores esportivos problemáticos e não problemáticos diante da disponibilidade de apostas. Os autores relacionaram esses padrões ao processamento de estímulos salientes, recompensa e comportamento orientado a objetivos. O estudo, entretanto, não avaliou diretamente ansiedade ou depressão e não esclareceu se as diferenças observadas antecederam ou resultaram do envolvimento problemático. Por isso, seus achados complementam a compreensão dos processos associados à gravidade, mas não explicam a direção da relação entre apostas e sofrimento emocional.
As evidências analisadas relacionam reatividade emocional, urgência negativa, impulsividade, menor controle comportamental percebido e disponibilidade imediata das apostas a diferentes dimensões do comportamento problemático. Entretanto, esses fatores foram examinados em estudos distintos e não formam uma cadeia explicativa comprovada. A predominância de delineamentos transversais impede determinar se ansiedade, depressão e estresse atuam como antecedentes, consequências ou condições reciprocamente relacionadas ao envolvimento problemático, mantendo em aberto as trajetórias previstas por Blaszczynski e Nower (2002).
4.5. Convergências, Divergências e Lacunas da Literatura
Uma das principais convergências identificadas no corpus refere-se ao caráter multifatorial do envolvimento problemático com apostas esportivas online. Os estudos relacionaram padrões de maior risco a características individuais, como urgência negativa, impulsividade e menor controle comportamental percebido; a influências sociais e comerciais, como normas favoráveis às apostas, publicidade e incentivos promocionais; e a recursos tecnológicos, como acesso imediato, disponibilidade contínua e apostas in-play (Di Censo; Delfabbro; King, 2024; Shen, 2023; Hing et al., 2024a, 2024b, 2026).
Quanto aos indicadores de saúde mental, Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) convergiram ao identificar associações entre maior gravidade do comportamento problemático e níveis mais elevados de ansiedade, depressão, estresse ou sofrimento psicológico. Apesar dessa concordância, os estudos foram realizados em contextos socioculturais diferentes e utilizaram amostras e procedimentos próprios, o que limita a generalização dos resultados e impede a comparação direta das prevalências encontradas.
A principal divergência foi observada entre os estudos que avaliaram a gravidade do comportamento problemático e aquele que examinou predominantemente a frequência ou a participação em jogos. Enquanto Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) encontraram relações entre maior gravidade e piores indicadores psicológicos, Mohan (2026) não identificou associações significativas entre frequência de jogo ou participação online e depressão, estresse ou satisfação com a vida após os ajustes estatísticos. Essa diferença não representa necessariamente resultados incompatíveis, pois os estudos avaliaram dimensões distintas do envolvimento com o jogo.
A heterogeneidade do corpus também se manifestou nas populações e modalidades investigadas. Parte dos estudos concentrou-se em jovens envolvidos especificamente com apostas esportivas, enquanto outros abrangeram adultos com maior amplitude etária, jogos de azar de maneira geral ou diferentes modalidades de jogo online. Kovan e Yıldırım (2026), por exemplo, examinaram sofrimento psicológico e jogo online problemático, mas não diferenciaram as apostas esportivas das demais modalidades nem utilizaram amostra restrita a jovens adultos. Mohan (2026), embora tenha investigado jovens, avaliou a participação em jogos de forma mais ampla. Essas diferenças restringem a transferência direta de seus resultados para o objeto específico da revisão.
Também foram utilizados diferentes indicadores e instrumentos de mensuração. Alguns estudos avaliaram a gravidade do comportamento problemático, enquanto outros examinaram frequência, exposição, percepção de risco, características das plataformas ou danos relacionados às apostas. Nos desfechos psicológicos, foram consideradas medidas de ansiedade, depressão, estresse, sofrimento psicológico, solidão, satisfação com a vida e bem-estar. Essa diversidade amplia a compreensão do fenômeno, mas reduz a comparabilidade entre os resultados e dificulta a identificação de um padrão único de associação.
Uma lacuna central refere-se à reduzida quantidade de estudos que reúnem simultaneamente os três elementos delimitados pela pergunta da revisão: jovens adultos, apostas esportivas online e avaliação específica de ansiedade e depressão. Apenas Shaygan et al. (2024) e Manu et al. (2024) apresentaram aderência direta a esses componentes. Os demais artigos contribuíram de maneira complementar ao investigar fatores de vulnerabilidade, comportamento problemático, características tecnológicas, influências sociais ou modalidades mais amplas de jogo.
Outra lacuna está relacionada à temporalidade das associações. A predominância de delineamentos transversais não permite determinar se ansiedade, depressão e estresse antecedem o comportamento problemático, surgem ou se intensificam em decorrência de seus prejuízos ou mantêm relações recíprocas com as apostas. Embora Mohan (2026) tenha utilizado dados de coorte, o estudo não avaliou especificamente a gravidade das apostas esportivas online. Permanecem restritas, portanto, as evidências longitudinais diretamente alinhadas à população, à modalidade de aposta e aos desfechos psicológicos investigados nesta revisão.
O corpus também revelou uma lacuna geográfica. Os estudos foram realizados em países como Austrália, Estados Unidos, Espanha, Gana, Irlanda, Turquia, Bélgica e Luxemburgo, sem investigação empírica brasileira diretamente voltada à relação entre apostas esportivas online, ansiedade e depressão em jovens adultos. Essa ausência limita a compreensão das possíveis influências das condições socioculturais, econômicas e regulatórias brasileiras sobre o comportamento de apostar e seus indicadores de saúde mental.
As diferenças de população, delineamento, modalidade de jogo e mensuração delimitam o alcance das evidências reunidas. O corpus oferece maior sustentação para a associação entre gravidade do comportamento problemático e sofrimento psicológico do que para uma relação uniforme entre simples participação nas apostas e sintomas de ansiedade ou depressão. Permanecem necessárias investigações diretamente centradas em jovens adultos, com medidas específicas de apostas esportivas online e saúde mental, delineamentos longitudinais e maior diversidade de contextos, incluindo o brasileiro.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As evidências analisadas indicam que a relação entre apostas esportivas online e saúde mental em jovens adultos se apresenta de maneira mais consistente quando considerada a gravidade do comportamento problemático. Níveis mais elevados de gravidade associam-se a piores indicadores psicológicos, especialmente ansiedade, depressão, estresse e sofrimento psicológico. A participação ou a frequência das apostas, quando examinadas sem uma medida específica de gravidade, não apresenta associação uniforme com esses desfechos. Os resultados não permitem estabelecer causalidade nem determinar se o sofrimento psicológico antecede, decorre ou se relaciona reciprocamente com o comportamento problemático.
A principal contribuição da revisão consiste em diferenciar frequência de participação e gravidade do comportamento, dimensões que não devem ser interpretadas como equivalentes. O estudo também reúne fatores individuais, sociais, comerciais e tecnológicos associados ao envolvimento problemático, destacando a necessidade de considerar a interação entre impulsividade, controle comportamental percebido, influência social, estratégias promocionais e disponibilidade das plataformas. Esses resultados podem contribuir para orientar ações de prevenção, identificação precoce e promoção da saúde mental, desde que consideradas as limitações das evidências disponíveis.
O alcance das conclusões é limitado pelo recorte temporal, pelas bases consultadas, pela heterogeneidade das populações, dos delineamentos e das formas de mensuração, bem como pelo número reduzido de estudos que examinam simultaneamente jovens adultos, apostas esportivas online, ansiedade e depressão. A ausência de avaliação formal da qualidade metodológica dos artigos incluídos também restringe a apreciação da robustez das evidências. Essas limitações impedem generalizações amplas e exigem cautela na interpretação das associações identificadas.
Permanecem necessárias pesquisas longitudinais que esclareçam a temporalidade e a direção das relações entre comportamento problemático, ansiedade e depressão. Também são necessários estudos especificamente direcionados aos jovens adultos e ao contexto brasileiro, com instrumentos que diferenciem participação, frequência, gravidade do comportamento e indicadores específicos de saúde mental.
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1 Discente do Curso de Psicologia do Centro Universitário FAMETRO – Sede. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso de Psicologia do Centro Universitário FAMETRO – Sede. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Professor orientador do Curso de Psicologia do Centro Universitário FAMETRO – Sede. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail