REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782321622
RESUMO
A enunciação ocorre quando um enunciador faz o uso da língua dentro de um contexto comunicativo. Atrelado ao conceito de enunciação tem-se o conceito de dêixis que são a tríade benvenistiana eu-aqui-agora. Com o interesse de conhecer como o ensino dos dêiticos ocorre na educação básica decidiu-se realizar este trabalho sobre os dêiticos pronominais no livro didático de língua portuguesa da turma do 9º ano do Ensino Fundamental sob o viés da Semântica da Enunciação. Realizou-se uma pesquisa de cunho bibliográfico realizada por meio de leitura de Benveniste (1976, 1999); Lopes (2007), Marques (2003), Flores e Teixeira (2017), Flores (2013), Fiorin (2014, 2017), Ilari (2019), Lyons (2018), Marcuschi (2008). Também ocorreu a pesquisa de natureza qualitativa feita com base na análise do Livro Didático de Língua Portuguesa do 9º ano do quadriênio 2020 – 2023. As análises demonstraram que no ensino sobre os dêiticos ainda recai a identificação e classificação de estruturas linguísticas, em vez de promover uma análise mais aprofundada do funcionamento dos índices de pessoa e da constituição do sujeito no discurso, conforme proposto por Benveniste.
Palavras-chave: Enunciação; dêixis; livro didático.
ABSTRACT
Enunciation occurs when a speaker makes use of language within a communicative context. Closely associated with the concept of enunciation is the notion of deixis, represented by Benveniste’s triad I–here–now. In order to investigate how deictic elements are taught in basic education, this study examines pronominal deictics in a Portuguese language textbook used in the 9th grade of Elementary Education from the perspective of the Semantics of Enunciation. A bibliographic study was conducted based on the works of Benveniste (1976, 1999), Lopes (2007), Marques (2003), Flores and Teixeira (2017), Flores (2013), Fiorin (2014, 2017), Ilari (2019), Lyons (2018), and Marcuschi (2008). In addition, a qualitative analysis was carried out focusing on the Portuguese Language Textbook adopted for the 9th grade during the 2020–2023 four-year cycle. The findings indicate that the teaching of deictics remains largely centered on the identification and classification of linguistic structures, rather than fostering a more in-depth analysis of the functioning of person indices and the constitution of the subject in discourse, as proposed by Benveniste.
Keywords: Enunciation; Deixis; Textbook.
1. INTRODUÇÃO
A enunciação ocorre quando um enunciador faz o uso da língua dentro de um contexto comunicativo. Atrelado ao conceito de enunciação tem-se o conceito de dêixis que são a tríade benvenistiana eu-aqui-agora. Com o interesse de conhecer melhor em como o ensino dos dêiticos ocorre na educação básica decidiu-se realizar este trabalho sobre os dêiticos pronominais no livro didático de língua portuguesa da turma do 9º ano do Ensino Fundamental sob o viés da Semântica da Enunciação, levando em consideração os seguintes questionamentos: 1) Como são trabalhados os dêiticos pronominais nos livros didáticos do 9º Ano do Ensino fundamental? 2) Como são apresentados os contextos semânticos que aparecem os dêiticos pronominais?
Para responder a esses questionamentos foram estabelecidos os seguintes objetivos: objetivo geral que consiste em desenvolver um estudo sobre como o livro didático do 9º ano do Ensino Fundamental aborda o ensino dos dêiticos pronominais sob a perspectiva da Semântica da Enunciação de Benveniste. De modo mais específico, foi proposto verificar as ocorrências do ensino dos dêiticos pronominais apresentadas no livro didático do 9º ano do Ensino Fundamental e analisar os contextos semânticos nos quais aparecem os dêiticos pronominais na perspectiva da semântica da enunciação.
Para que os objetivos traçados pudessem ser alcançados, levou-se em consideração os seguintes procedimentos metodológicos: em primeiro lugar realizou-se uma pesquisa de cunho bibliográfico realizada por meio de leitura de Benveniste (1976, 1999); Lopes (2007), Marques (2003), Ferrarezi Jr. (2019), Lenz (2013), Flores e Teixeira (2017), Flores (2013), Fiorin (2014, 2017), Ilari (2019), Lyons (2018), Marcuschi (2008), Sena (2016), Oliveira (2010), Koch e Elias (2018). Também ocorreu a pesquisa de natureza qualitativa feita com base na análise do Livro Didático de Língua Portuguesa do 9º ano do quadriênio 2020 – 2023. Para isso houve a seleção de uma unidade do livro didático, do qual foi selecionado para a análise dois (2) textos em que houve ocorrência dos dêiticos pronominais que foram analisados de acordo com a teoria da Enunciação de Émile Benveniste.
Diante disso, acredita-se que este trabalho teve uma grande relevância científica, principalmente se tratando da região do Alto Solimões em que se limita a localidade de região fronteiriça em que há grande diversidade linguística, tendo em vista que, após buscas em bancos de dados foram encontrados trabalhos dos autores Souza e Colarges (2019); Cabral e Santos (2016); Pires e Werner (2007) e outros. Entretanto, não foram encontradas pesquisas com este tema e com a referida abordagem teórica no Amazonas, o que caracteriza certo ineditismo da pesquisa nessa região.
Assim, a pesquisa é de grande relevância para o meio educacional, o emprego das dêixis de pessoa compõe os enunciados dos mesmos, e implica na construção de sentido. Além disso, esse conhecimento poderá enriquecer linguisticamente os estudantes da educação básica para que sejam leitores competentes, e os profissionais que atuam na área da educação principalmente no componente curricular de Língua Portuguesa.
O presente artigo está estruturado em três seções. A primeira seção aborda o referencial teórico que abrange três subseções, a primeira subseção aborda um breve percurso histórico sobre o que é semântica, e enfatizará sobre a Semântica da Enunciação e seu principal teórico. Na subseção seguinte, esclareceremos o objeto de estudo que fundamenta a pesquisa que são os dêiticos de pessoa. Na sequência, proporcionamos uma breve abordagem sobre gêneros textuais que será a peça primordial para entendermos os contextos que os dêiticos aparecem. Na segunda seção abordaremos os procedimentos metodológicos utilizados para a realização da pesquisa. A terceira seção corresponde as análises e discussões dos resultados que está subdividida em duas subseções. Assim, o artigo é finalizado com as considerações finais.
2. SEMÂNTICA: PERCURSO HISTÓRICO E ALGUNS CONCEITOS
Semântica é um termo complexo de se definir, pois sua abrangência e sua multidisciplinaridade nos conduzem para diversos caminhos, considerando que seu objeto de estudo também possui muitos atributos distintos. Segundo Lopes (2007, p. 232)
Por semântica entende-se, comumente, a ciência das “significações das línguas naturais”. Essa definição, assinala a diferença existente entre uma semântica linguística propriamente dita, que objetiva estudar a forma do plano de conteúdo das “línguas naturais”, e uma semântica semiótica que estuda a significação dos sistemas sígnicos secundários, [...].
Com esta definição o autor esclarece que há duas abordagens distintas dos estudos semânticos: uma que trabalha somente com a linguagem verbal e a outra que estuda todas as formas de manifestações linguísticas, como símbolos, gestos, sons etc. A partir desse esclarecimento, conduziremos o estudo dentro da abordagem da linguística propriamente dita, a qual trabalha com a linguagem verbal.
O termo semântico surgiu pela primeira vez no ano de 1883, através da publicação de um artigo do autor Michel Bréal, intitulado “ensaio de semântica: ciências das significações”. Essa informação é confirmada por Ferrarezi Junior (2019, p.15) ao afirmar que:
Quem forjou o termo “semântica” foi o linguista francês Michel Bréal, no fim do século XIX, antes ainda da ascensão das ideias de Saussure. Bréal também fez as primeiras incursões bem-sucedidas na organização dos fatos semânticos relevantes e na demonstração da importância de seu estudo para a compreensão das línguas naturais, no propósito de a semântica vir a ter cadeira cativa entre os estudos linguísticos europeus.
Ou seja, o surgimento da Semântica se deu antes mesmo das ideias de Saussure no ano de 1916, com o lançamento da obra póstuma Curso de linguística geral. Michel Bréal desenvolveu seus estudos dos fatos semânticos no intuito de demonstrar a importância da Semântica para a compreensão das línguas naturais. Bréal (apud Marques 2003, p.33) explica que:
O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a receber um nome. A preocupação da maioria dos linguistas tem-se voltado sobretudo para a análise do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de sentidos, à escolha de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram deixadas à margem ou apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do mesmo modo que a fonética e a morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos semântica (do verbo semaínein), isto é, a ciência das significações.
Entende-se que o surgimento dessa ciência se deu ao fato de buscar compreender os significados das palavras conforme o contexto do qual está sendo empregada, e que por isso merece ganhar notoriedade e nome como as demais ciências, uma vez que esta tem um objeto a ser investigado. Segundo Oliveira (2012, p. 23) “embora não seja tarefa fácil definir o objeto de estudos da semântica, afirma-se classicamente que seu objeto é o significado das palavras e das sentenças”.
Apesar de não haver um consenso entre os estudiosos do “significado do significado” a semântica se desenvolve em todas as tendências linguísticas, gerando assim as diferentes semânticas: semântica estruturalista, semântica transformacional, semântica lógica, semântica cognitiva, semântica argumentativa.
É importante ressaltar que Michel Bréal foi o primeiro a explicar que a semântica é a ciência das significações. No entanto, o conceito de semântica varia dentro das diferentes abordagens teóricas. Na visão de Marques (2003, p. 15):
semântica é o estudo do significado em linguagem, semântica é a disciplina linguística que estuda o sentido dos elementos formais da língua, aí incluídos morfemas, vocábulos, locuções e sentenças (= estruturas sintaticamente completas ou linguisticamente gramaticais), ou, ainda, semântica é o estudo da significação das formas linguísticas.
A Semântica tem por finalidade estudar os sentidos das palavras, abrangendo a menor unidade linguística que tem significado, as palavras que fazem parte de uma língua, e a expressão das mesmas na fala e a construção destas em uma oração. A partir desses conceitos percebemos o objeto de estudo, os objetivos da Semântica e sua metodologia. Mesmo que o objeto de estudo seja abordado de diferentes perspectivas, fato que dá origem as várias semânticas, a Semântica ganha status de ciência linguística, após décadas de obscuridade.
Os trabalhos de Gottlob Frege (1892) na Semântica Formal vão contribuir para os estudos do significado na vertente da Lógica, resgatando os silogismos de Aristóletes. Segundo Lopes (2007, p. 245-246) Gottlob Frege distinguia três aspectos na significação: referência, sentido e imagem associada. A referência é o objeto existente no mundo, o sentido são os atributos que associamos ao referente e a imagem ou representação é a conotação psíquica individual do referente. Tais aspectos estão concentrados no princípio de Condições de verdade, defendido por Frege (1892).
No auge da teoria chomskiana com a insatisfação de vários estudiosos do gerativismo, surge a Semântica Cognitiva que defende que “a mente é inerentemente corpórea, o pensamento é de modo geral inconsciente e os conceitos abstratos são em grande parte metafóricos” (Lenz, 2013, p. 38). Ou seja, o significado é perspectivado, enciclopédico, flexível e baseado no uso.
A Semântica Cognitiva tem várias teorias e por isso, são muitos os seus representantes: Lakoff e a Teoria da Metáfora conceptual (1980); Langacker e a Gramática Cognitiva (1987); Fauconnier e sua teoria dos espaços mentais (1988), Talmy e sua teoria de dinâmica de forças (1988), são exemplos de teóricos que fazem parte desse grupo de estudos.
2.1. A Semântica da Enunciação
No ano de 1966, o teórico Émile Benveniste com sua obra Problemas de Linguística Geral I e II faz uma releitura dos ensinamentos de Saussure e, ao mesmo tempo, propõe uma outra vertente semântica: a semântica da enunciação. Neste trabalho, focaremos na Semântica que se preocupa em estudar os fenômenos linguísticos em termos enunciativos; as teorias enunciativas estão ligadas à pensamentos saussurianos embora cada uma a sua maneira.
A Semântica da enunciação estuda a enunciação, todavia, é necessário que seja adotado um teórico para seguir o objeto a ser estudado, considerando que há várias teorias que estudam o mesmo objeto, no entanto, adotam diferentes concepções e metodologias para o estudo. Flores (2013, p. 96) explica que
A semântica da enunciação estuda a enunciação. No entanto, a enunciação é algo distinto para cada autor. Não há unanimidade; há, no máximo, pontos de aproximação. Isso quer dizer que, quando queremos fazer uma análise enunciativa, temos de nos vincular a uma das Teorias da Enunciação para fazer uma semântica da Enunciação.
Deste modo, entende-se que há diversificados modos de como estudar os fenômenos enunciativos, pois cada teórico busca estudá-los à sua maneira e tem concepções diferentes, resultando no conjunto de teorias da enunciação. Conforme Flores (2013, p. 94) esclarece “a expressão Teorias da Enunciação, no plural, nomeia as propostas individualizadas, geralmente, identificadas aos nomes de seus autores”. Neste trabalho, a ênfase será dada ao teórico Émile Benveniste, pois este ilustremente representa este ramo de estudo no campo da Semântica da enunciação. Na concepção de Flores e Teixeira (2017, p. 29)
Émile Benveniste talvez seja o primeiro linguista, a partir do quadro saussuriano, a desenvolver um modelo de análise da língua especificamente voltado à enunciação. O lugar desse autor é singular no contexto histórico em que suas reflexões foram produzidas: o apogeu do estruturalismo nas ciências humanas como método rigoroso de análise de fenômenos antes excluídos da investigação científica.
Desse modo, Benveniste se destaca por ter desenvolvido um método que estuda especificamente fenômenos linguísticos enunciativos, o que trouxe à tona os fenômenos já excluídos de pesquisas científicas, que o torna o principal representante desta teoria. Para Flores (2013, p. 98) uma das linhas gerais da análise enunciativa benvenistiana é:
A análise enunciativa relaciona o semiótico ao que Benveniste denomina semântico, ou seja, a um plano no qual está presente a instância da enunciação (tempo, espaço, pessoa). Nesse plano, os instrumentos linguísticos adquirem sentido único singular plural em função da instância de enunciação em que são proferidos.
É válido afirmar que nos textos, a teoria enunciativa pode ser algo recorrente, sob a visão benvenistiana, em que os significados têm a possibilidade de serem únicos, todavia, estão sujeitos a forma de transmissão dos mesmos, entretanto, devemos entender que esta teoria não se limita a apenas a um único sentido, pois a cada análise de textos o significado pode tomar uma forma diferente.
Para Benveniste (1999, p. 83) “a enunciação é este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”. Dessa forma, o teórico afirma que a enunciação está ligada ao discurso, ligada a ação de se comunicar dentro da língua de maneira individual, entende-se que essa individualidade do ato de se comunicar implica ao significado das palavras a cada usuário, ou seja, a enunciação é a própria fala. Nesta perspectiva, Fiorin (2014, p. 162) ressalta que:
O primeiro sentido de enunciação é, como vimos, o de ato produtor do enunciado. Benveniste diz que a enunciação é a colocação em funcionamento da língua por um ato individual de utilização (1974,80), ou seja, um falante utiliza-se da língua para produzir enunciados.
Ou seja, a enunciação está ligada a pôr em prática os enunciados de modo individual, sendo a língua um suporte para que o falante a utilize para criar e usar os enunciados. Benveniste (1999, p. 83-84)
O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro lugar o locutor como parâmetro nas condições necessárias da enunciação. Antes da enunciação, a língua não é senão possibilidade da língua. Depois da enunciação, a língua é efetuada em uma instância de discurso, que emana de um locutor, forma sonora que atinge um ouvinte e que suscita uma outra enunciação de retorno.
Pelo ato individual, ou seja, pela fala, há um diálogo entre aquele que está no papel de locutor e o de ouvinte, e essa interação entre ambos passa a produzir comunicação, pois há um retorno de falas entre eles e são compreendidas conforme a contextualização do discurso feito. Este ato individual é a prova de que o discurso torna o homem sujeito do que se fala e sua presença na língua, conforme sua própria citação “é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito” (Benveniste, 1976, p. 286).
O homem presente na língua está ligado ao conceito do ego, conforme a realidade por ele experienciada, trata-se da subjetividade, essa capacidade do homem ser sujeito daquilo que se fala. Conforme explica Benveniste (1976, p. 287)
A “subjetividade” de que tratamos aqui é a capacidade do locutor para se propor com “sujeito”. Define-se não pelo sentimento que cada um experimenta de ser ele mesmo (esse sentimento, na medida em que podemos considerá-lo, não é mais que um reflexo) mas como a unidade psíquica que transcende a totalidade das experiências vividas que reúne, e que assegura a permanência da consciência.
Diante disso, compreende-se que a subjetividade é a existência da pessoa na linguagem, isto envolve as experiências vividas pelo sujeito e do consciente, ou seja, trata-se de absorver primeiramente as vivências no interior do sujeito para que possa haver interação com outro, possibilitando a comunicação entre o eu e o tu e proporcionando assim, a troca dos interlocutores.
No que se refere ao ato de comunicação, trata-se da intersubjetividade esta que permite a comunicação linguística, o homem passa a ser sujeito do que se fala e valida seu discurso no ato em que fala com outro. Benveniste (1999, p. 8) esclarece que
A intersubjetividade tem, assim, sua temporalidade, suas dimensões. Isso reflete na linguagem a experiência de uma relação primordial, constante, indefinidamente reversível entre o falante e seu interlocutor. Em última análise, é sempre o ato de fala no processo de troca que é referido pela experiência humana inscrita na linguagem ( (Tradução nossa).
A intersubjetividade é o processo de troca existente na fala, isto é, o sujeito passa a externar suas experiências antes armazenadas no seu consciente e coloca em funcionamento com outro. Isso é o ato comunicativo em que o locutor transmite uma mensagem para o interlocutor e é, por ele entendido. Assim, pode-se entender que intersubjetividade é a troca de papel que há no ato de comunicação uma vez que o locutor fala e o interlocutor ouve, entende e precisa dar o retorno para o locutor. Para isso há a troca de papel, em que o que antes era o interlocutor torna-se o locutor e o outro interlocutor. Em outras palavras, é a reversibilidade em que um pressupõe o outro. Ressalta-se que, na visão de Benveniste, essa intersubjetividade ocorre, independente da presença física do outro, uma vez que ela pode ser reflexiva.
É válido destacar que Benveniste considera os atos acima citados como parte do aparelho formal da enunciação, a subjetividade e intersubjetividade estão ligados ao índice de pessoa. Flores (2013, p. 100) explica que
algumas indicações de fenômenos que servem de exemplo do que é possível fazer na análise enunciativa, tomando por base o que coloca Benveniste em “ O aparelho formal de enunciação”. São eles: a emergência dos índices de pessoa, os numerosos índices de ostensão, o paradigma das formas temporais, as grandes funções sintáticas e as modalidades formais.
No que tange o conceito do aparelho formal da enunciação, fazem parte dele os dêiticos, o fenômeno que faz parte do ato enunciativo, o foco será dado ao índice de pessoa dentro dos textos escritos, o que para Benveniste é considerado pessoa os pronomes eu e tu. Conforme mostra o Quadro de correlação de pessoalidade de Benveniste.
Quadro 1. Quadro de correlação de pessoalidade de Benveniste
Correlação de pessoalidade | Pessoa | Eu | Correlação de subjetividade | Pessoa subjetiva | Eu |
Pessoa | Tu | Pessoa não subjetiva | Tu | ||
Não pessoa | Ele | ||||
Fonte: Flores (2013, p. 102)
Conforme o Quadro 1, Benveniste considera pessoa, os pronomes eu e tu, o ele não é considerado pessoa. O pronome eu é pessoa subjetiva e tu pessoa não subjetiva e o ele não é considerado pessoa, pois, pode ser vários sujeitos ou até mesmo nenhum, portanto, não indica especificamente uma pessoa no texto, já os pronomes eu e tu alternam de papeis entre si. Nessa concepção Fiorin (2014, p. 164) explica que as “ pessoas enunciativas são aquelas que participam do ato de comunicação, ou seja, o eu e o tu, e pessoa enunciva é aquela que pertence ao domínio do enunciado, ou seja, ele”. Na intenção de evidenciar os significados das pessoas, Fiorin (2014, p. 164) acrescenta que
Os significados das pessoas são: eu: quem fala,, eu é quem diz eu; tu: aquele com quem se fala, aquele a quem o eu diz tu, que por esse fato se torna o enunciatário; ele: substituto pronominal de um grupo nominal, de que tira a referência; participante do enunciado; aquele de que eu e tu falam.
Assim, compreendemos que o “eu” é o sujeito que enuncia, portanto, o enunciador/locutor e o “tu” é o enunciatário/ouvinte. Sendo que, no evento comunicativo, há a troca desses papeis. “Ele” é, portanto, o referente sobre quem se fala algo. A partir disso, o tema mais central na obra de Benveniste é o da referência, o qual será tratado a seguir.
2.2. Referência e os Pronomes Dêiticos
É importante ressaltar que o conceito de referência na teoria benvenistiana difere do conceito de referência posto na Semântica Formal de Frege. Flores e Teixeira (2017, p. 36) explicam que “esse autor” referindo-se a Benveniste,
Inclui a referência nos estudos linguísticos, mas é de uma referência ao sujeito e não ao mundo que se trata aqui. O aparelho formal da enunciação é uma espécie de dispositivo que as línguas têm para que possam ser enunciadas. Esse aparelho nada mais é que a marcação da subjetividade na estrutura da língua. Nesse sentido, o aparelho formal da enunciação é fundamento estrutural de uso da língua.
Em outros termos, a referência faz parte da natureza da língua, não é algo “extralinguístico”, mas é referência à enunciação - “um ato individual de utilização da língua no qual estão tempo/espaço/pessoa – e não ao mundo” (Flores; Teixeira, 2017, p. 37). Dentro desse tema da referência é exposta a noção de dêixis, que muitos autores consideram uma noção bastante polêmica nos estudos de Benveniste. Ilari (2019, p. 55) argumenta que:
A palavra dêitico contém a ideia de apontar, e as expressões dêiticas mais típicas apontam para elementos fisicamente presentes na situação de fala. É o caso dos pronomes pessoais de primeira e segunda pessoa, eu e você que, na maioria de seus empregos, remetem para a pessoa que fala e para a pessoa com quem se fala.
A dêixis é um fenômeno linguístico que interage com o receptor dentro de um contexto comunicativo, em que alcança uma espécie de ligação da fala em nossa realidade. “A dêixis diz respeito principalmente às pessoas que participam da interação verbal, ou a lugares e tempos que são localizados a partir da situação de fala” (Ilari, 2019, p. 55).
Dêitico é a palavra que define a indicação de falas dentro dos textos escritos, para que haja compreensão de quem e para quem está sendo destinada a mensagem dentro do contexto comunicativo presente no texto, para isso, a presença dos pronomes pessoais é fundamental na construção de falas. Na perspectiva de Lyons (2018, p. 138):
A dêixis é como a referência, com a qual se sobrepõe, no sentido de que está relacionada ao contexto de ocorrência. Mas a dêixis é ao mesmo tempo mais ampla e mais restrita do que a referência. [...]. A propriedade essencial da dêixis (o termo vem da palavra “apontar” ou “mostrar”) é que ela determina a estrutura e a interpretação dos enunciados em relação a hora e ao lugar de sua ocorrência, à identidade do falante e do interlocutor, aos objetos e eventos, na situação real da enunciação.
O fenômeno da dêixis indica pessoa, o tempo e lugar, reforçando, de que estes têm a função de indicar uma real situação na enunciação, implicando na interpretação dos enunciados dispostos em textos escritos, caso a dêixis não esteja explícita dentro do texto o leitor deverá se atentar para entender as situações comunicativas presentes no texto. Ou seja, os fenômenos dêiticos só podem ser compreendidos a partir do ato enunciativo, dentro de um enunciado. De acordo com Fiorin (2017, p. 162)
Um dêitico só pode ser entendido dentro da situação da comunicação e, quando aparece, num texto escrito, a situação enunciativa deve ser explicitada. Se encontrarmos um bilhete em que esteja escrito. Ontem trabalhei muito aqui, não entenderemos plenamente a mensagem, pois não saberemos quem trabalhou, quando é ontem e onde é aqui. Em resumo, não se pode saber o sentido do eu, do ontem e do aqui da mensagem, pois falta o conhecimento da situação da comunicação.
É necessário saber a qual contexto este fenômeno linguístico está sendo empregado e sua situação de uso, pois pode ser que os conhecimentos dos códigos linguísticos se tornem insuficientes. Empregar a dêixis de forma descontextualizada pode ocasionar uma equivocada interpretação da mensagem transmitida, portanto, sem sentido para aquele que ler, por isso é indispensável que o emprego da dêixis ocorra dentro de um contexto, isso possibilitará uma boa comunicação. Para Possenti (2011, p. 375) “ os elementos de uma língua cuja função é embrear o enunciado às circunstâncias – tempo e espaço – e aos interlocutores” são a dêixis. Porém, o autor ainda acrescenta que
A dêixis pode ser vista como embreando o que se diz às circunstâncias (aqui seria o lugar físico onde está o locutor, agora seria o tempo cronológico no qual o locutor fala). Observe-se, no entanto, que os “mesmos” elementos dêiticos são passíveis de interpretações não estritamente contextuais. Em Hoje o mercado pode ser afetado por simples comandos de computador, por exemplo, hoje não designa o dia em que se escreve/lê ou fala/ouve, mas, digamos, o tempo da globalização e, portanto, esse tempo é discursivo, ideológico (Possenti, 2011, p. 375).
Dessa forma, entende-se que há uma distinção entre o contexto linguístico e o contexto discursivo, o que nos leva a compreensão da análise das marcas a partir de duas perspectivas: linguística e discursiva. Com base na teoria da enunciação benvenistiana, o dêitico a ser estudado será o dêitico de pessoa.
[...] é a situação de enunciação que especifica o que é pessoa e o que é não pessoa, pois é ela quem determina quem são os participantes do ato enunciativo e quem não participa dele. Chamaremos, então, pessoas enunciativas aquelas que participam do ato de comunicação, ou seja, o eu e o tu, e a pessoa enunciativa aquela que pertence ao domínio do enunciado, ou seja, o ele. (Fiorin, 2017, p. 164)
Estes elementos estão ligados ao processo de enunciação, ou seja, devem estar adequadamente inseridos nos textos, para que haja facilidade para a identificar a dêixis, contribuindo na boa interpretação daquele que ler um determinado texto, sendo que, a situação de enunciação dar ênfase ao que é pessoa e não pessoa dentro dos enunciados, deixando claro a qual pessoa o enunciado está se referindo, uma vez que, “usando os elementos dêiticos de uma língua, podemos localizar: as pessoas do discurso, com o uso de eu, você, ele etc.- dêixis pessoal; [...]” (Ferrarezi Jr. , 2019, p.143).
O uso dessas dêixis nos textos de forma explícita aponta a pessoa na oração, isto possibilita ter uma boa compreensão da mensagem que o texto busca transmitir. Não devemos esquecer a que contexto linguístico a mesma está sendo empregada, pois os pronomes usados nessa perspectiva referem-se a quem está enunciando, esclarecendo o sentido da mensagem que busca transmitir. De acordo com Flores (2013, p. 100), sobre as pessoas no texto:
Benveniste considera que descrição que dá sobre enunciação se aplica primeiramente ao estudo da emergência dos índices de pessoa (a relação eu-tu) que se produzem somente na e pela enunciação: o termo eu denotando o indivíduo que profere a enunciação; e o termo tu, o indivíduo que está presente como o alocutário.
É importante salientar que eu e tu transmite singularidade no ato enunciativo, pois ambos estão ligados na realização do ato, se há existência do eu dentro de um contexto enunciativo logo o tu, está presente pois, o uso destes dois pronomes é indispensável dentro da abordagem enunciativa, uma vez que não existe o eu sem o tu, e vice-versa. A BNCC (2018) afirma que o ensino de Língua Portuguesa deve assumir uma perspectiva enunciativo-discursiva e que o texto é a unidade central de trabalho, por isso, a seguir é feita uma breve abordagem sobre os gêneros textuais.
2.3. Gêneros Textuais
Marcuschi (2008, p. 179) aponta que “o livro didático é nitidamente um suporte textual, particularmente o de língua portuguesa é um suporte que contém muitos gêneros em suas identidades [...]”. Dentro dessa compreensão, o livro didático oferece atividades relacionadas ao funcionamento da língua. Vejamos um pouco sobre os gêneros textuais.
O trabalho com os gêneros textuais nas aulas de português deve ser um dos pontos primordiais que deve ser bem explorado por professores de Língua Portuguesa. O autor Oliveira (2010, p. 84) ressalta que:
Os gêneros textuais, que são textos empíricos, ou seja, textos concretos, que circulam socialmente. Consequentemente, os textos que circulam realizam funções comunicativas diversas: convidar, persuadir, dissuadir, ameaçar, informar, solicitar, autorizar, convocar, descrever, instruir, ordenar, entreter, ofender, ofender, desculpar-se, agradecer, protestar etc. Por essa razão, apresentar gêneros textuais diversos aos estudantes é essencial para o desenvolvimento de sua competência comunicativa e de suas habilidades de ler e produzir textos.
Conteúdos como estes devem ser constantemente trabalhados, pois há uma variedade de gêneros textuais e muitos que ainda estão por vir, pois os gêneros textuais estão presentes no meio social no qual vivemos, e circulam diariamente em nosso meio. Os gêneros textuais são modelos textuais de comunicação, e na visão de Marcuschi (2008, p. 154) “ é impossível não se comunicar por algum gênero, assim como é impossível se comunicar verbalmente por algum texto. Isso porque toda comunicação verbal se dá sempre por textos realizadas em algum gênero”.
Deste modo, fica claro que os gêneros textuais são constantemente utilizados em nosso cotidiano, e, por isso, não devemos pensar que gêneros textuais são apenas os de caráter escrito, mas é fundamental reconhecer os gêneros textuais orais. Marcuschi (2008.p 155) ainda enfatiza que:
Gênero textual refere os textos materializados em situações comunicativas recorrentes. Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos, concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas.
Neste sentido, entende-se que os gêneros textuais são muito mais do que uma estrutura formal, pois é válido considerar parte do conhecimento empírico, ou seja, o contato com gêneros textuais é muito comum, pois parte da experiência do qual diariamente temos. Assim o uso dos gêneros textuais não se limita ao âmbito escolar, pois estes se apresentam de diversificadas maneiras, indo de receita de cozinha a bate papo nas redes sociais. Conforme Koch e Elias (2018, p. 55) no que tange o gênero textual
Todas as nossas produções, quer orais, quer escritas, se baseiam em formas-padrão relativamente estáveis de estruturação de um todo a que denominamos gêneros. Longe de serem naturais ou resultado da ação de um indivíduo, essas práticas comunicativas são modeladas/ remodeladas em processos interacionais dos quais participam os sujeitos de uma determinada cultura.
Os textos permitem uma interação em que coloca em evidência os conhecimentos linguístico, social e cultural, em que o leitor passa a ser introduzido dentro deste contexto, todavia, cada tipo de texto deve atender a uma estrutura por isso o termo gênero.
Os gêneros são atividades discursivas socialmente estabilizadas que se prestam aos mais variados tipos de controle social e até mesmo ao exercício de poder. Pode-se, pois, dizer que os gêneros textuais são nossa forma de inserção, ação e controle social no dia-a-dia. [...]. Os gêneros são também necessários para a interlocução humana (Marcuschi, 2008, p. 161).
Portanto, os gêneros textuais escritos são importantes em nosso meio social, pois é uma forma de manter ordem no que se busca expressar tanto de modo formal ou informal, os gêneros são indispensáveis no que se refere a interação humana, para que a mensagem possa ser entendida da melhor forma. Dentre os diversos gêneros discursivos, ressaltamos os gêneros notícias e artigo de opinião, pois são os dois gêneros que estão presentes nas análises dos resultados.
Para Marcuschi (2008, p. 155), a notícia é um gênero jornalístico veiculado pelos meios de comunicação: jornais, revistas, televisão, internet, rádio, etc. A notícia trata-se de um texto informativo que está veiculada aos meios de comunicação e que traz uma linguagem clara, mas para que este texto possa circular de modo oral, precisa antes de tudo ser escrito e deve atender aos requisitos de uma estrutura de um texto desse caráter.
O artigo de opinião também é do gênero jornalístico, no entanto, objetiva expressar uma ideia de forma a persuadir o leitor. O trabalho com esse tipo de gênero é prescrito na BNCC (2017) para desenvolver a competência de “analisar textos de opinião (artigos de opinião, editoriais, cartas de leitores, comentários, posts de blog e de redes sociais, charges, memes, gifs etc.) e posicionar-se de forma crítica e fundamentada, ética e respeitosa frente a fatos e opiniões relacionados a esses textos” (Brasil, 2017, p. 177). Portanto, as atividades com esses gêneros textuais devem ser desenvolvidas em sala de aula tanto para a construção de textos orais quanto para textos escritos.
Por fim, ressalta-se que a impessoalidade é empregada em gêneros textuais como reportagem, notícias e em textos de divulgação científica, como os artigos de opinião. Conforme Fiorin (2014, p. 178) “o discurso científico tem como de sua regra constitutivas a eliminação de marcas enunciativas. Também o jornalismo com seu ideal de objetividade de neutralidade e de impessoalidade constrói textos sem marcas da enunciação”. Entretanto, Fiorin (2014, p. 164) enfatiza que “ não existem textos objetivos, pois eles são sempre fruto da subjetividade e da visão de mundo de um enunciador. O que há são textos que produzem um efeito de objetividade”. Ou seja, a subjetividade sempre existirá em todos os textos, embora haja, por parte do autor, a pretensão de ser objetivo para atender às exigências do cientificismo.
Diante disso, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa - PCN sobre a área do ensino da linguagem ressaltam que a escola deve garantir que os estudantes tenham acesso a saberes linguísticos.
O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade linguística, são condições de possibilidade de plena participação social. [...]. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de contribuir para garantir a todos os alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania. (Brasil, 1998, p. 19)
Neste sentido, inclui os conhecimentos semânticos, uma vez que está ligado a saberes linguísticos, e conhecimentos referentes sobre os marcadores de pessoa, dêiticos pronominais nos textos abordados no livro didático do Ensino Fundamental.
3. METODOLOGIA
Os procedimentos metodológicos para a realização da pesquisa serão descritos atendendo às exigências do método científico. Primeiramente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica no intuito de fundamentar teoricamente a investigação. Segundo Gil (2002, p. 44) “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído de livros e artigos científicos”. Neste sentido, este tipo de pesquisa foi fundamental para a realização do projeto, pois possibilitou maior entendimento sobre a temática investigada, a partir das leituras de autores como, Flores (2013); Fiorin (2017); Ilari (2019), Ferrarezi Jr. (2019); Marques (2003); Lyons (2018); Oliveira (2010); Marcuschi (2008); Lenz (2013); Benveniste (1976;1999). Além dos documentos como PCN de Língua Portuguesa (1998) e BNCC (2017; 2018).
Em segundo lugar, foi realizada uma pesquisa documental. Este tipo de pesquisa se assemelha a pesquisa bibliográfica, no entanto, para Gil (2008, p. 55), “a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa”. Sendo assim, como o objeto de análise é o livro didático, a pesquisa caracteriza-se como documental. O livro didático que foi selecionado para pesquisa faz parte do Programa Nacional do Livro e do Material Didático - PNLD para os anos 2020 a 2023 de autoria de Everaldo Nogueira, Greta Marchetti e Mirella L. Cleto voltado para o ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental anos finais 9º ano.
No que tange o uso do livro didático, Sena (2016, p. 13) ressalta que “o livro didático é um instrumento auxiliar na maior relevância na mediação do processo pedagógico. Como roteiro de trabalho, ele pode oferecer a alunos e professores uma sequência programática adequada aos interesses da disciplina”. Desta forma, o livro didático é um recurso que tem uma importância significativa para o corpo docente da educação básica, em se tratando de seu uso, ressalta-se o uso deste recurso nas aulas de língua portuguesa, uma vez que os livros didáticos de língua portuguesa abordam conteúdos que os estudantes venham desenvolver habilidades tais como, leitura, interpretação, produção de textos, compreensão de textos, engloba conteúdos gramaticais, literários, linguísticos etc.
Apesar de ser um recurso bastante utilizado o livro didático não está livre de críticas pois, há professores que acreditam que os conteúdos por ele abordado não são de importância para a realidade dos alunos, pois alguns conteúdos fogem do contexto do real vivenciado pelos estudantes e tais devem fazer com que o aluno reflita e saiba usar tal conhecimento trabalhado.
Destacamos que o corpus que foi analisado encontra-se na segunda unidade do livro que tem por tópico a língua na real, localizada na página 54-55. Esse tópico está dividido em três atividades e o objeto analisado encontra-se dentro dos textos propostos para leitura para realização das atividades.
Em terceiro e último lugar, a pesquisa adota a abordagem qualitativa, a qual para Lakatos e Marconi (2018, p. 300) “objetiva obter uma compreensão particular do objeto que investiga. Como focaliza sua atenção no específico, no peculiar, seu interesse não é explicar, mas compreender os fenômenos que estuda dentro do contexto que aparecem”. Assim, buscou-se compreender o fenômeno da dêixis na forma de pronomes a partir da abordagem teórica de Émile Benveniste.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Nesta seção apresentaremos as discussões e os resultados obtidos através das análises dos dados alcançados. Foram selecionadas 2 (duas) unidades do livro didático de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental da turma do 9º ano, entretanto, para a coleta dos dados apenas uma unidade foi escolhida e um tópico dessa unidade foi selecionado para que pudessem ser analisados os textos. Desse modo, os resultados que serão apresentados estão alinhados aos objetivos específicos propostos: 1) Verificar as ocorrências do ensino dos dêiticos pronominais apresentadas no livro didático do 9º ano do Ensino Fundamental e 2) Analisar os contextos semânticos nos quais aparecem os dêiticos pronominais na perspectiva da semântica da enunciação.
4.1. O Livro Didático e Sua Estrutura
Sabe-se que o livro didático é um recurso que auxilia o processo de ensino e aprendizagem e quando bem utilizado torna-se uma ferramenta muito produtiva. Para Marcuschi (2008, p. 179) “o livro didático é nitidamente um suporte textual, particularmente o de língua portuguesa é um suporte que contém muitos gêneros em suas identidades [...]”. Diante disso, segue a descrição da estrutura do livro selecionado para o estudo.
O livro didático tem oito unidades temáticas e dezesseis capítulos. Na abertura de cada unidade há uma imagem representativa com os gêneros textuais sobrepostos na imagem; os capítulos têm divisões por subseções intituladas: Texto, texto em estudo, Língua em estudo, Atividades, A língua na real e Agora é com você. No fechamento das unidades há mais duas subseções denominadas: atividades integradas e ideias em construção.
A primeira unidade do livro dedica-se a estudar o gênero textual conto psicológico e conto social. A segunda unidade aborda o gênero textual crônica e vlog de opinião. Na terceira unidade, o foco da unidade é o gênero textual crônica esportiva e reportagem. O gênero que é dedicado a ser estudado na quarta unidade é reportagem de divulgação científica e infográfico. A quinta unidade aborda gênero como roteiro de TV e roteiro de cinema. Gênero textual como, artigo de opinião e lei estão na abertura da sexta unidade. Na sétima unidade, a abertura é com gênero textual de resenha crítica. A oitava e última unidade do livro dedica-se em sua abertura em mostrar o gênero textual anúncio publicitário e propaganda. As unidades do livro têm propostas de atividades integradas ao término de cada conteúdo proposto nos capítulos.
A unidade escolhida para realizar a análise dos textos foi a segunda unidade, que em sua abertura aborda os gêneros textuais crônica e vlog de opinião. No primeiro capítulo desta unidade tem o tópico diálogo com o leitor. Inicialmente aborda uma crônica que foi escrita por Artur Azevedo; o próximo texto desta unidade é do gênero tirinha que tem como objetivo trabalhar conectivos que introduzem as orações substantivas; em seguida encontramos um trecho de um artigo de opinião. Um outro gênero textual que também foi encontrado dentro desta unidade foi notícia de jornal, ambos com intuito de trabalhar a impessoalização do discurso por meio das orações subjetivas.
O segundo capítulo da segunda unidade do livro tem por título rede de opiniões, o gênero textual que foi abordado no início do capítulo foi um vlog de opinião intitulado “menas”, escrito por Julia Tolezano, após a leitura do texto há uma atividade de interpretação textual, de contexto e produção, a linguagem do texto, comparação entre textos entre a crônica e a transcrição do vlog. O próximo conteúdo estudado é de teor gramatical que são orações subordinadas substantivas completivas nominais, predicativas e apositivas, com sugestões de atividades e com trechos de textos de notícia de jornal, de site de revista de divulgação científica e de artigo como base para compreensão de conteúdo.
Os textos contidos nos capítulos na unidade dois têm como objetivo trabalhar conteúdos linguísticos, gramatical e interpretação textual. O primeiro texto abordado no primeiro capítulo é uma crônica do autor Artur Azevedo, e propõe atividade com base na leitura da crônica e busca trabalhar a interpretação do referido texto, o conteúdo gramatical no qual os estudantes devem identificar classes gramaticais, forma verbal e recursos linguísticos utilizados na crônica. No início do capítulo, o livro traz a proposta de trabalhar conteúdo gramatical como: orações subordinadas substantivas subjetivas, objetivas diretas e objetivas indiretas. O livro apresenta uma atividade como forma de compreensão do conteúdo, a princípio na primeira questão propõe a leitura de texto um trecho extraído de uma coluna especializada em finanças pessoais, propondo que os estudantes percebam as orações dentro do texto e as classifiquem.
No tópico do livro “A língua na real” é abordada a impessoalização do discurso por meio das orações subjetivas. Para iniciar, há uma proposta de atividade que sugere leitura de trechos que foram extraídas de sites, de artigo de opinião e notícia de jornal, estes textos serviram como base para o desenvolvimento da atividade que busca trabalhar a impessoalização do discurso e as orações subjetivas. Para encerrar o primeiro capítulo, os autores propõem que haja produção de crônica e mostram cada etapa necessária para a criação do texto e após tudo desenvolvido sugerem como ocorrerá a circulação do que foi produzido.
Para fechar o último capítulo da unidade dois, há uma proposta de prática em que os estudantes deverão gravar um vlog de opinião, planejamento para a elaboração e circulação do vlog, por fim para encerrar a unidade há atividades integradas.
Diante dessa descrição do livro didático observamos que os autores procuraram usar textos de diversos gêneros textuais, buscando atender a necessidade de propor uma metodologia de abordagem voltada para o funcionamento da língua. Nesse sentido, Marcuschi (2008, p. 154) defende que “uma das teses centrais a ser defendida e adotada aqui é a de que é impossível não se comunicar por algum gênero, assim como é impossível se comunicar verbalmente por algum texto. Isso porque toda comunicação verbal se dá sempre por textos realizadas em algum gênero”. De uma forma geral, os autores do livro didático estão propondo um trabalho a partir dessa compreensão de que a comunicação só é possível por meio de gêneros textuais. Dessa forma, percebe-se a preocupação dos autores em propor metodologias baseadas no só na forma linguística, mas também no uso da língua. Assim, é possível verificar uma aproximação com a teoria de Benveniste.
Após a análise do livro observamos que na unidade dois e na unidade seis o tema sobre pronomes dêiticos aparece contemplado. Portanto, veremos a seguir esses dois contextos em que aparecem esses dêiticos.
Na unidade dois, a dêixis é discutida na parte sobre a impessoalização do discurso por meio das orações subordinadas substantivas subjetivas. Nesse contexto, os autores classificam essas orações como um recurso para se tornar um texto impessoal. No entanto, de acordo com a teoria de Benveniste nenhum texto é impessoal. “A linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo em seu discurso” (Benveniste, 1976, p. 286). Isso significa que aquele que escreve um texto se posiciona como sujeito, podendo até ser inconscientemente, mas sempre haverá uma pessoa por trás que exprime no texto opiniões e ideias pessoais. Em consonância com a teoria benvenistiana, Fiorin (2014, p. 164) reitera que “ não existem textos objetivos, pois eles são sempre fruto da subjetividade e da visão de mundo de um enunciador. O que há são textos que produzem um efeito de objetividade”.
Na unidade seis, os autores apresentam o tema sobre colocação pronominal que se refere as três posições que os pronomes pessoais oblíquos podem ocupar em uma frase em relação ao verbo: ênclise, próclise, mesóclise. Mesmo que não haja referência ao enunciador de forma explícita é possível identificar quem enuncia por meio da colocação pronominal. De acordo com Fiorin (2014, p. 165) “os pronomes pessoais exprimem as pessoas pura e simplesmente. Os retos exprimem a pessoa em função subjetiva e os oblíquos, em função de complemento”.
Dessa forma pode-se afirmar que o ensino dos pronomes dêiticos no livro didático selecionado não corresponde totalmente a teoria de Benveniste, uma vez que, não aborda o texto de forma dialógica, apesar de tratar todos os temas dentro de um gênero textual, o que possibilita verificar o funcionamento da língua. No entanto, para Benveniste (1999, p. 83) “a enunciação é este colocar em funcionamento a língua pelo individual de utilização”. Isso significa que um texto sempre deve refletir a interação entre o locutor e o ouvinte e marcar a presença do eu como sujeito.
Nas duas abordagens analisadas conclui-se que há uma tendência para a forma e não pelo o que é dito, o que não corresponde a teoria de Benveniste (1976, p. 286), pois esta defende que “é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito”. Após entendermos qual a abordagem do livro didático sobre os dêiticos, vejamos os contextos semânticos produzidos pelo o uso desses pronomes.
4.2. Contextos Semânticos Produzidos Pelos Dêiticos
Nesta parte, foi selecionado o tópico “a língua na real” da unidade dois para ser analisado. São propostas três atividades que serão avaliadas separadamente.
Figura 1. Atividade 1 sobre a impessoalização do discurso
A primeira atividade proposta consiste em perguntas voltadas para a identificação das marcas de subjetividade presentes em um trecho de texto digital, levando o estudante a reconhecer os elementos linguísticos que revelam a presença do sujeito na enunciação. Sob a perspectiva de Émile Benveniste, tais marcas constituem índices da enunciação, uma vez que remetem às categorias de pessoa envolvidas no ato discursivo. Nesse sentido, o pronome possessivo minha e as formas verbais e pronominais em primeira pessoa do singular presentes na segunda pergunta funcionam como elementos dêiticos que apontam para o locutor do enunciado, identificado como o candidato ao Enem. Esses recursos linguísticos só adquirem sentido pleno no contexto da situação comunicativa, pois dependem da relação entre o sujeito que enuncia e seu interlocutor, os atendentes com quem estabelece o diálogo. A atividade, portanto, possibilita ao estudante perceber que os pronomes dêiticos não possuem referência fixa, mas são definidos a partir da instância de discurso, conforme postula Benveniste ao tratar da relação entre “eu” e “tu” como fundamento da subjetividade na linguagem. Entretanto, ao final da atividade, observa-se uma mudança de foco, uma vez que a última questão solicita a classificação das orações subordinadas. Nesse momento, o objetivo desloca-se da análise enunciativa e semântica para o estudo da estrutura linguística, evidenciando a preocupação dos autores do livro didático com aspectos formais e gramaticais da língua.
Figura 2. Atividade 2 sobre a impessoalização no discurso
Nesta segunda atividade, há uma proposta de leitura de texto, para em seguida os estudantes responderem às questões solicitadas. Dentre essas questões, nota-se que a questão de letra c é destinada para que o estudante possa responder se há uso de primeira pessoa em um parágrafo específico do texto, e a questão de letra d complementa que há uso de pessoalidade dentro do texto, pois, solicita que o estudante possa reescrever o parágrafo e adequar ao texto.
O gênero textual trabalhado é o artigo de opinião. Sabe-se que artigo de opinião é um gênero textual no qual o autor defende uma ideia sobre determinado tema. Dentro desse gênero analisamos os efeitos semânticos pelo uso dos dêiticos, para tanto separamos alguns trechos.
Trecho a : é essencial dar uma boa orientação.
Trecho b: Não basta treinar bastante.
Trecho c: É preciso ensinar.
Em todos os trechos as orações sublinhadas são classificadas como orações subjetivas que são orações que exercem sintaticamente a função de sujeito da oração subordinada. Nesse sentido, o enunciador se posiciona nas orações subjetivas, sendo que os dêiticos não estão explícitos no texto, porém sabe-se que há um enunciador.
Flores e Teixeira, (2017, p. 32) explicam que “ [...] com Benveniste, a categoria de pessoa adquire outro estatuto, porque não basta defini-la em termos de presença/ausência do traço de pessoalidade, mas é necessário concebê-la em termos de subjetividade”. A presença de pessoa no texto não precisa estar exposta com os traços de pessoalidade no texto, mas entender o contexto comunicativo do qual se apresenta, entender quem são os participantes enunciativos, chamando a atenção para o real da língua, como diz o título da sessão do livro.
No entanto, em uma das questões a serem respondidas pelos alunos os autores do livro trabalham com a possibilidade de transformar essa estrutura sintática, substituindo pelo pronome pessoal eu, explicitando, portanto, o enunciador. Esse exercício de trocar a estrutura sintática é importante para o aluno perceber os traços de pessoalidade no texto, e entender o contexto comunicativo e quem são os participantes da enunciação. Dessa forma, embora o exercício mobilize elementos importantes para a compreensão da dêixis e da enunciação, o enfoque predominante recai sobre a identificação e classificação de estruturas linguísticas, em vez de promover uma análise mais aprofundada do funcionamento dos índices de pessoa e da constituição do sujeito no discurso, conforme proposto por Benveniste.
Figura 3. Atividade 3 sobre a impessoalização no discurso
Na terceira atividade, há uma proposta de leitura de texto do gênero notícia de jornal. Logo abaixo do texto há questões voltadas para a interpretação, entre as quais as letras c e d buscam trabalhar a impessoalidade, objetividade e subjetividade.
A impessoalidade é empregada em gêneros textuais como reportagem e em textos de divulgação científica, pois, “o discurso científico tem como de sua regra constitutivas a eliminação de marcas enunciativas. Também o jornalismo com seu ideal de objetividade de neutralidade e de impessoalidade constrói textos sem marcas da enunciação” (Fiorin, 2014, p. 178).
Sabe-se que o gênero textual notícia e reportagens classificam-se nos domínios discursivos (Marcuschi, 2008, p. 155) como um gênero jornalístico veiculado pelos meios de comunicação: jornais, revistas, televisão, internet, rádio, etc. A notícia trata-se de um texto informativo que está veiculada aos meios de comunicação e que traz uma linguagem clara, mas para que este texto possa circular de modo oral, precisa antes de tudo ser escrito e deve atender aos requisitos de uma estrutura de um texto desse caráter, por tais ações é considerável que, embora, busca ser impessoal, há sempre alguém que escreve para o outro e que espera que haja um retorno por mais indireto que seja.
Nesse sentido, o texto apresenta diferentes índices de pessoa que merecem atenção. Nas falas reproduzidas, aparecem formas verbais e referências ao consumidor que configuram uma relação entre locutor e interlocutor. Para Benveniste, a linguagem se estrutura a partir da intersubjetividade, isto é, da relação entre aquele que fala e aquele a quem se dirige o discurso. Mesmo quando os pronomes de primeira pessoa não aparecem explicitamente, a presença do sujeito pode ser percebida nas escolhas lexicais, nas modalizações e nas orientações argumentativas presentes no texto.
Dessa forma, este último exercício promove uma aproximação mais significativa com a teoria da enunciação do que os anteriores, sobretudo ao problematizar a noção de impessoalidade. Entretanto, a proposta ainda privilegia aspectos sintáticos e classificatórios da língua, deixando em segundo plano uma reflexão mais aprofundada sobre o funcionamento dos dêiticos e sobre o papel das categorias de pessoa na constituição do sujeito da enunciação, aspectos centrais da teoria de Benveniste.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obra de Émile Benveniste focaliza um conjunto de investigações abrigadas sob a terminologia de Semântica, para o que ele denomina de Semântica de Enunciação. A escolha dessa teoria se justifica pela ausência de pesquisas em nossa região que aborde uma proposta tão relevante para o ensino de línguas. A reflexão semântica, dentro da perspectiva benvenistiana, transcende o aspecto linguístico e nos conduz a compreensão das questões que envolvem o ensino de línguas em contextos de multiculturalidade e multilinguismo. O conjunto de artigos de Benveniste é carregado de diversidade e pluralidade, no entanto, tem um ponto convergente no que se refere a significação. Para ele, o propósito maior na pesquisa sobre a língua é saber como ela significa e como simboliza.
Os resultados apontados nas análises, demonstram que houve um avanço nas propostas didáticas encontradas no livro didático, há sim, tentativas de aproximação do conhecimento linguístico ao uso real da língua. Ao trabalhar os conteúdos gramaticais de forma contextualizada, os autores conseguem relacionar a forma e o uso da língua. Assim, foi verificado que os dêiticos pronominais no livro didático analisado são abordados a partir de diferentes gêneros textuais, porém, ainda são abordados dentro de uma visão formalista da língua. Os contextos semânticos, nos quais apareceram os dêiticos pronominais foram as orações subordinadas subjetivas, dentro da proposta de impessoalização do discurso.
Diante desses resultados, pode-se afirmar que existem lacunas que precisam ser preenchidas nessa transposição didática do saber, no momento da análise linguística ainda há uma predominância do formalismo sem reflexão. Para superar essas fragilidades, pode-se explorar mais a criticidade e subjetividade dos alunos, assim como é proposto por Benveniste.
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1 Docente do Curso de Licenciatura em Letras: Língua e Literatura Portuguesa e Língua e Literatura Espanhola do Instituto de Natureza e Cultura Campus Benjamin Constant/Universidade Federal do Amazonas . E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail