ANÁLISE DE INTERNAÇÕES POR TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTAIS EM ADOLESCENTES NO NORDESTE BRASILEIRO ENTRE 2016 E 2025

ANALYSIS OF HOSPITALIZATIONS FOR MENTAL AND BEHAVIORAL DISORDERS IN ADOLESCENTS IN NORTHEASTERN BRAZIL BETWEEN 2016 AND 2025

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776452245

RESUMO
Os transtornos mentais e comportamentais na adolescência configuram importante problema de saúde pública, com impactos no desenvolvimento biopsicossocial e na qualidade de vida. Este estudo objetivou descrever o perfil das internações hospitalares por esses transtornos em adolescentes no Nordeste brasileiro entre 2016 e 2025. Trata-se de um estudo descritivo, ecológico, com abordagem quantitativa, realizado a partir de dados secundários do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, disponíveis no DATASUS. Foram analisadas internações de adolescentes de 10 a 19 anos no Nordeste brasileiro, segundo ano de atendimento, sexo, faixa etária, raça/cor e grupos diagnósticos da CID-10. No período analisado, foram registradas 29.036 internações, com menor frequência em 2020 (2.112; 7,2%) e maior em 2025 (3.916; 13,5%). Houve predomínio do sexo masculino (55,6%), da faixa etária de 15 a 19 anos (81,0%) e da raça/cor parda (71,6%). O grupo diagnóstico mais frequente foi esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes (30,0%), seguido por transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas (21,3%) e transtornos do humor (16,7%). Houve aumento das internações por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes do Nordeste após 2020, com maior concentração entre 15 e 19 anos, no sexo masculino e em diagnósticos mais graves. Os achados dialogam com a literatura e reforçam a influência de fatores sociais, regionais e assistenciais no perfil dessas hospitalizações. O estudo contribui para um cenário ainda pouco explorado na região e reforça a necessidade de fortalecer a atenção psicossocial e as ações intersetoriais em saúde mental.
Palavras-chave: Epidemiologia; Jovem; Saúde mental.

ABSTRACT
Mental and behavioral disorders in adolescence constitute a significant public health problem, impacting biopsychosocial development and quality of life. This study aimed to describe the profile of hospitalizations for these disorders in adolescents in Northeast Brazil between 2016 and 2025. This is a descriptive, ecological study with a quantitative approach, conducted using secondary data from the SUS Hospital Information System, available on DATASUS. Hospitalizations of adolescents aged 10 to 19 years in Northeast Brazil were analyzed, according to year of care, sex, age group, race/color, and ICD-10 diagnostic groups. During the analyzed period, 29,036 hospitalizations were recorded, with the lowest frequency in 2020 (2,112; 7.2%) and the highest in 2025 (3,916; 13.5%). There was a predominance of males (55.6%), the 15-19 age group (81.0%), and brown/mixed race/color (71.6%). The most frequent diagnostic group was schizophrenia, schizotypal and delusional disorders (30.0%), followed by disorders related to the use of psychoactive substances (21.3%) and mood disorders (16.7%). There was an increase in hospitalizations for mental and behavioral disorders among adolescents in the Northeast region of Brazil after 2020, with a higher concentration among 15-19 year olds, males, and those with more severe diagnoses. The findings are consistent with the literature and reinforce the influence of social, regional, and healthcare factors on the profile of these hospitalizations. The study contributes to a scenario that is still little explored in the region and reinforces the need to strengthen psychosocial care and intersectoral actions in mental health.
Keywords: Epidemiology; Young; Mental health.

1. INTRODUÇÃO

Os transtornos mentais e comportamentais na adolescência constituem um importante problema de saúde pública, em razão de sua frequência e dos impactos sobre o desenvolvimento biopsicossocial. Estima-se que, cerca de um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos de idade, apresentem algum transtorno mental, com destaque para depressão, ansiedade e alterações comportamentais. Muitos desses casos têm início antes dos 14 anos de idade e podem comprometer atividades cotidianas (World Health Organization, 2024; Organização Pan-Americana da Sáude, 2023; Kieling et al., 2024).

A adolescência é marcada por mudanças intensas, que aumentam a vulnerabilidade às pressões externas. Nesse período, a internalização de padrões de beleza pode gerar insatisfação corporal, associada a sentimentos de inadequação, ansiedade e sintomas depressivos, evidenciando o peso das pressões sociais no agravamento do sofrimento psíquico (Nogueira; Albuquerque, 2021).

Além disso, os transtornos mentais nas fases iniciais da vida estão relacionados a desfechos negativos, como abandono escolar, menor inserção produtiva, maior vulnerabilidade social e risco de suicídio. Por isso, conhecer sua frequência e impacto é fundamental para orientar políticas públicas, estruturar os serviços de saúde e qualificar o cuidado ao longo da vida (Kieling et al., 2024).

No Brasil, o cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes está inserido no conjunto de ações de proteção e promoção da saúde dessa população. Nesse contexto, o uso de álcool e outras substâncias psicoativas entre adolescentes constitui um importante comportamento de risco, associado a diferentes vulnerabilidades e a possíveis repercussões para a saúde mental (Fernandes et al., 2022).

Entre as internações hospitalares por esses agravos em adolescentes, destacam-se os transtornos do humor, os quadros relacionados ao uso de substâncias psicoativas e as situações de autolesão. No Brasil, a autolesão tem apresentado crescimento nos últimos anos, com impacto relevante sobre os indicadores de hospitalização e mortalidade (Alves et al., 2024).

Paralelamente, a distribuição dos serviços especializados em saúde mental infantojuvenil permanece desigual no território nacional. Essa limitação pode comprometer o acesso oportuno ao cuidado e contribuir para a maior demanda por internações hospitalares. Somam-se a isso fatores sociais, como pobreza, violência e outras vulnerabilidades socioeconômicas, que agravam o sofrimento psíquico e dificultam a continuidade do tratamento (Machado et al., 2022).

Entre 2015 e 2024, o Brasil passou por mudanças relevantes na organização da atenção psicossocial, incluindo a ampliação da Rede de Atenção Psicossocial, revisões de diretrizes assistenciais e o enfrentamento da pandemia de COVID-19. Apesar disso, ainda são limitadas as análises sobre a repercussão dessas mudanças nos padrões de internação hospitalar de adolescentes, especialmente na região Nordeste, marcada por importantes desigualdades sociais e de acesso aos serviços de saúde (Rocha et al., 2021).

Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi descrever o perfil das internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes na região Nordeste do Brasil no período de 2016 a 2025.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, do tipo ecológico e de abordagem quantitativa, baseado na análise de dados secundários sobre transtornos mentais e comportamentais em adolescentes na Região Nordeste entre 2016 e 2025.

Um estudo descritivo, ecológico e quantitativo analisa dados agregados de populações, e não informações individuais, para identificar padrões, tendências e possíveis associações entre variáveis em diferentes locais ou períodos. Geralmente utiliza bases secundárias e métodos estatísticos aplicados a dados agrupados, como correlação e regressão linear. Esse tipo de estudo é útil para compreender fenômenos em nível populacional, embora não permita estabelecer relações causais em nível individual (Roumeliotis et al., 2021).

Os dados foram coletados no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), por meio do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). Neste estudo, foram selecionadas as internações por transtornos mentais e comportamentais ocorridas na Região Nordeste, no período de 2016 a 2025, entre indivíduos de 10 a 19 anos de idade. As variáveis analisadas incluíram ano de processamento, sexo, ano de atendimento, faixa etária, média de dias de permanência, raça/cor e grupos diagnósticos segundo o Capítulo V da Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão (CID-10), referente aos transtornos mentais e comportamentais, abrangendo classificados com base na CID-10: F00–F99.

O Sistema de Informações Hospitalares (SIH) registra e consolida dados das internações financiadas pelo SUS no Brasil. Ele reúne informações sobre AIH, diagnósticos, procedimentos, custos, tempo de permanência e desfechos, sendo essencial para monitorar a morbidade hospitalar, avaliar gastos e orientar políticas públicas de saúde (Neto; Chioro, 2021).

As informações coletadas foram organizadas e tabuladas no Microsoft Excel, com o objetivo de facilitar o ordenamento e a sistematização dos dados relevantes. Em seguida, procedeu-se à análise por estatística descritiva, utilizando médias, frequências absolutas e percentuais, além das taxas de internação hospitalar.

O presente estudo utilizou exclusivamente dados secundários, de acesso público e apresentados de forma agregada, sem identificação dos indivíduos. Assim, não foi necessária a apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, mantendo-se o respeito aos princípios éticos vigentes, conforme a Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde.

3. RESULTADOS

No período de 2016 a 2025, foram registradas 29.036 internações por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes de 10 a 19 anos de idade na região Nordeste do Brasil. Ao longo da série temporal, observou-se variação no número de internações, com menores frequências em 2020 (2.112 casos; 7,2%) e maiores em 2025 (3.916 casos; 13,5%). Após redução observada em 2020, verificou-se crescimento progressivo dos registros entre 2021 e 2025, passando de 2.691 para 3.916 internações (Tabela 1).

No que se refere aos tipos de morbidade, a categoria mais frequente foi ETED (esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes), com 8.717 internações (30,0%). As menores frequências foram observadas em TNRS (transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes), com 860 internações (2,9%), e em TUA (transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool), com 729 casos (2,5%) (Tabela 1).

Tabela 1: Aspectos epidemiológicos dos casos notificados transtornos mentais e comportamentais na faixa etária de 10 a 19 anos no Nordeste, no período de 2016 a 2025.

Lista de Morbidades (tipos de Transtornos)

n (casos)

n (%)

TUA

729

2,5

TSP

6.196

21,3

ETED

8.717

30

THA

4.871

16,7

TNRS

860

2,9

RM

1.731

5,9

Outros TMC

5.932

20,4

Raça/cor

n (casos)

n (%)

Branca

2.440

8,4

Preta

423

1,4

Parda

20.784

71,6

Amarela

581

2

Indígena

15

0,1

Sem informação

4.793

16,5

Ano

n (casos)

n (%)

2016

2.432

8,3

2017

2.257

7,7

2018

2.568

8,8

2019

2.783

9,5

2020

2.112

7,2

2021

2.691

9,2

2022

3.204

11,03

2023

3.422

11,7

2024

3.651

12,5

2025

3.916

13,5

Total

29.036

100

Fonte: SIH/SUS (DATASUS), 2026.

Legenda: TUA. transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool; TSP. transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas; ETED. esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes; THA. transtornos de humor (afetivos); TNRS. transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes; RM. retardo mental; OTMC. outros transtornos mentais e comportamentais.

Em relação à raça/cor, observou-se expressiva predominância de internações entre adolescentes pardos, com 20.784 registros (71,6%). Em seguida, apareceram os adolescentes de raça/cor branca, com 2.440 casos (8,4%), e amarela, com 581 casos (2,0%). As menores frequências foram observadas entre adolescentes pretos, com 423 internações (1,4%), e indígenas, com 15 casos (0,1%). Destaca-se, ainda, a presença de 4.793 registros sem informação de raça/cor, correspondendo a 16,5% do total (Tabela 1).

Observou-se que as internações ocorreram predominantemente entre adolescentes de 15 a 19 anos, correspondendo a 23.513 casos (81,0%), enquanto o grupo de 10 a 14 anos apresentou 5.523 casos (19,0%). De acordo com o Painel A da Figura 1, os maiores números de internações concentraram-se em ETED, TSP, THA e outros transtornos mentais e comportamentais, sendo mais frequentes no grupo de 15 a 19 anos quando comparado ao de 10 a 14 anos.

Em relação ao sexo, houve predomínio do sexo masculino, com 16.153 internações (55,6%), enquanto o sexo feminino totalizou 12.883 registros (44,4%). De acordo com o Painel B da Figura 1, os maiores números de internação no sexo masculino foram observados em ETED, TSP e retardo mental, ao passo que o sexo feminino apresentou maiores frequências em transtornos de humor, transtornos neuróticos relacionados ao estresse e somatoformes e outros TMC.

Considerando o conjunto das morbidades, ETED apresentou o maior número de internações (8.717; 30,0%), seguido por TSP (6.196; 21,3%), Outros TMC (5.871; 20,2%) e THA (4.871; 16,7%). As menores frequências foram observadas em demência (61 casos), TUA (729; 2,5%) e TNRS (860; 2,9%).

Figura 1: Distribuição dos transtornos mentais e comportamentais segundo faixa etária (Painel A) e relação entre morbidade e sexo (Painel B).

Fonte: SIH/SUS (DATASUS), 2026.

Quanto à média de permanência hospitalar segundo tipo de morbidade, verificou-se maior duração entre os casos classificados como RM, com média de 22,4 dias, seguido de TUA, com 22,7 dias, ETED, com 21,7 dias, e TSP, com 19,7 dias. As menores médias foram observadas em TNRS, com 7,7 dias, e em Outros TMC, com 12,7 dias. A média correspondente à categoria THA foi de 14,1 dias (figura 2).

Figura 2: Relação da Média de permanência hospitalar, em dias, segundo tipo de morbidade.

Fonte: SIH/SUS (DATASUS), 2026.

4. DISCUSSÕES

Este estudo evidenciou aumento das internações por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes do Nordeste do Brasil após o ano de 2020, com maior concentração entre 15 e 19 anos de idade, predominando o sexo masculino com maior prevalência de esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes. Em conjunto, esses achados indicam concentração das hospitalizações em quadros de maior gravidade clínica.

A redução observada em 2020, seguida de crescimento progressivo nos anos posteriores, podem estar relacionada aos efeitos da pandemia sobre o acesso aos serviços, a continuidade do cuidado e o agravamento de demandas psíquicas previamente existentes. Essa interpretação é compatível com achados recentes sobre a saúde mental de adolescentes no contexto pós-pandêmico (Garcia-Cerde et al., 2024).

Em comparação com estudos nacionais anteriores, conforme o conduzido por Rocha et al. (2021), que analisou as internações psiquiátricas pelo Sistema Único de Saúde no Brasil entre 2000 e 2014 e descreveu tendência de redução ao longo do tempo, os resultados do presente estudo apontam comportamento distinto na região Nordeste do Brasil. Esse contraste sugere que a dinâmica regional pode ter sido influenciada por desigualdades sociais e assistenciais que não se expressam de forma homogênea no cenário brasileiro.

De modo semelhante, Rodrigues et al. (2023), ao investigarem as internações hospitalares por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes no Brasil no período de 2008 a 2017, identificaram redução das taxas de internação no Nordeste, diferentemente do aumento observado no presente estudo após 2020. Essa divergência reforça a hipótese de mudança recente no perfil das hospitalizações na região e destaca a necessidade de investigações atualizadas sobre seus determinantes clínicos e sociais.

Outro achado relevante foi a expressiva participação dos transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, que corresponderam a parcela importante das internações. Esse padrão acompanha resultados de pesquisas nacionais e reforça o peso dessas condições na morbidade psiquiátrica juvenil grave, especialmente entre adolescentes de 15 a 19 anos de idade, faixa etária que concentrou a maior parte das internações, e no sexo masculino (Galvão et al., 2024).

A maior frequência de internações entre 15 e 19 anos de idade merece destaque, por indicar maior vulnerabilidade na segunda metade da adolescência. A primeira metade (10 a 14 anos de idade) é marcada por mudanças físicas e cognitivas iniciais, enquanto a segunda metade (15 a 19 anos de idade) envolve maior amadurecimento emocional, com maior exposição a riscos sociais, como conflitos, violência e uso de substâncias. Essa fase também traz transições para a vida adulta, o que pode agravar o sofrimento psíquico e aumentar a necessidade de internação (Toledo et al., 2024).

Estudos brasileiros de base populacional, como os de Orellana et al. (2020) e Lopes et al. (2016), ajudam a contextualizar esse cenário ao demonstrar elevada frequência de sofrimento psíquico em adolescentes. Nessa direção, achados sobre episódio depressivo maior e transtornos mentais comuns indicam que o adoecimento mental é amplo nessa faixa etária, ainda que nem sempre se traduza no mesmo perfil de hospitalização observado no presente estudo.

Quanto à raça/cor, observou-se predominância de adolescentes pardos, diferindo de estudos nacionais, a exemplo de Sabino et al. (2025) e Galvão et al. (2024), em que houve maior frequência de adolescentes brancos. Esse resultado provavelmente reflete a composição demográfica da região Nordeste do Brasil, mas também, pode expressar a sobreposição entre vulnerabilidades sociais e barreiras de acesso ao cuidado em saúde mental.

As diferenças entre os sexos também foram consistentes no perfil das internações. Entre o sexo masculino, destacaram-se mais os casos de esquizofrenia, uso de substâncias e retardo mental, enquanto no sexo feminino houve maior frequência de transtornos do humor, transtornos relacionados ao estresse e somatoformes, sugerindo formas distintas de manifestação do sofrimento psíquico (Wendt et al., 2023).

Além disso, a proporção de internações por uso de substâncias psicoativas observada neste estudo reforça a centralidade desse agravo no contexto da hospitalização psiquiátrica juvenil. O predomínio em adolescentes do sexo masculino corrobora a necessidade de intervenções direcionadas a contextos de maior vulnerabilidade social e exposição precoce ao consumo dessas substâncias (Galvão et al., 2024).

De forma complementar, dados nacionais recentes, como os apresentados pelo Ministério da Saúde, indicam que o suicídio ocupa posição de destaque entre as causas de morte na adolescência, sobretudo entre 15 e 19 anos de idade. Embora o presente estudo não tenha analisado esse desfecho especificamente, o aumento das internações e a predominância de quadros graves reforçam a necessidade de políticas intersetoriais de prevenção e cuidado contínuo em saúde mental juvenil (Brasil, 2024).

Outro aspecto relevante envolve a presença de fatores de risco precoces relacionados ao adoecimento mental na adolescência. Estudos realizados no Brasil, como os conduzidos por La Maison et al. (2018) e Bailey et al. (2025), destacam a influência de fatores como trauma, vulnerabilidade social, baixa escolaridade materna e sintomas depressivos maternos, os quais, embora não avaliados diretamente nesta pesquisa, são cruciais para compreender a progressão para quadros mais graves.

Além disso, evidências nacionais recentes indicam alta prevalência de transtornos mentais entre adolescentes brasileiros, com registros preocupantes de autolesão e suicídio. Estudo de Marchionatti et al. (2024) aponta aumento das notificações de autoagressão, enquanto pesquisa de Alves et al. (2024) revela que o suicídio é uma das principais causas de morte nessa faixa etária. Esses achados reforçam a necessidade de análises com dados secundários, como os do DATASUS, para subsidiar respostas mais eficazes em saúde pública.

Nesse contexto, o cuidado ao adolescente com transtorno mental exige articulação entre saúde, educação e assistência social. Entretanto, a persistência de falhas na comunicação entre os serviços e a ausência de protocolos dificultam a continuidade do cuidado, reforçando a necessidade de fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial com base em indicadores regionais (Escobar; Arruda; Sobrinho, 2024).

5. CONCLUSÕES

O presente estudo mostrou que as internações por transtornos mentais e comportamentais em adolescentes no Nordeste brasileiro aumentaram após o ano de 2020, concentrando-se principalmente entre jovens de 15 a 19 anos de idade, do sexo masculino, com maior frequência de diagnósticos relacionados à esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes. Esses achados sugerem que, na região, a hospitalização têm ocorrido sobretudo nos casos de maior gravidade.

Os resultados também reforçam a importância da saúde mental na adolescência como questão relevante de saúde pública. Além disso, mostram que as particularidades sociais e assistenciais do Nordeste devem ser consideradas na interpretação desse cenário, já que podem influenciar tanto o acesso ao cuidado quanto o perfil das internações.

Por fim, ainda são poucos os estudos voltados especificamente para essa região, o que evidencia a contribuição deste trabalho para a compreensão do temática.

Nesse sentido, fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial e ampliar ações articuladas entre saúde, educação e assistência social pode ser um caminho importante para reduzir internações evitáveis e qualificar o cuidado em saúde mental de adolescentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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2 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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3 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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4 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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5 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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6 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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7 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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8 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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9 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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10 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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11 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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12 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
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13 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED Juazeiro/BA. E-mail: 
[email protected]

14 Docente lotado do colegiado de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED, Juazeiro - BA, Brasil. E-mail: [email protected]

15 Docente lotado do colegiado de Medicina da Faculdade Estácio/IDOMED, Juazeiro - BA, Brasil. E-
mail: [email protected]