ALÉM DO PRINCÍPIO VIRTUAL: ‘YOU LOOK LONELY, I CAN FIX THAT’

BEYOND THE VIRTUAL PRINCIPLE: ‘YOU LOOK LONELY, I CAN FIX THAT’

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775252312

RESUMO
A psicanálise, desde Freud – seu criador – se atenta às necessidades do zeitgeist da época e propõe meios de compreender o sofrimento psíquico dos sujeitos, bem como possibilidades de enfrentamento e melhora dos sintomas desses sofrimentos. Com o advento dos meios de comunicação em massa após o período da II Guerra Mundial, surgem novas necessidades e, mais especificamente, com o advento – no início do século XXI – das redes sociais, a vida dos sujeitos passaram a ser mediadas por estímulos por meio das telas e da virtualidade. Assim, na tentativa de estabelecer a relação da era das redes sociais e da hiperconectividade com a psicanálise de Freud e Lacan, este trabalho objetiva assimilar como as redes sociais contemporâneas e seus algoritmos impulsionam a busca incessante por satisfação imediata, alinhando-se ao que Freud chamou de princípio do prazer. A metodologia utilizada neste trabalho foi a análise documental, uma vez que pesquisamos documentos que tiveram tratamento científico (artigos, livros e capítulos de livros), como também observamos filmes, jogo de videogame e propagandas. O narcisismo digital emerge como um elemento central para a compreensão da relação entre o sujeito e a representação idealizada de si, do Outro e da sociedade no ambiente virtual; com a leitura que na virtualidade tudo é possível, não existe necessidade de adiar os desejos, pelo contrário, realiza-se de maneira compulsiva, instaura-se a compreensão de um supereu imperativo de gozo, o qual dificulta o princípio da realidade e determina a realização total dos objetos pulsionais. 
Palavras-chave: Redes sociais; princípio do prazer; alienação; pulsão; virtual.

ABSTRACT
Psychoanalysis, since Freud - its creator - is aware of the needs of the time zeitgeist and proposes ways of understanding the psychic suffering of subjects, as well as possibilities of confrontation and improve the symptoms of these suffering. With the advent of mass communication media after the period of World War II, new needs arises and more specifically, with advent XXXI -- of the early 21st century, the subjects' lives have passed to be mediated by stimuli through screens and virtuality. So, in the attempt to establish the relationship of the age of social media and hyperconnectivity with Freud and Lacan psychoanalysis, this objective work assimilate how contemporary social media and its algorithms impulsive the incessant pursuit of immediate satisfaction, aligning itself to what Freud called the pleasure principle. The methodology used in this job was documentary analysis, once we looked documents that had scientific treatment (articles, books and chapters), as we also observe movies, video game and advertising. Digital narcissism emerges as a central element to understanding the relationship between the subject and the idealized representation of itself, of the Other and society in virtual environment; with the reading that is possible, there is no need to postpone the desires, on the contrary, to compulsive way, instruct the understanding of an imperative come supere, which difficultens the total accomplishment of the bridal objects.
Keywords: Social media; pleasure principle; alienation; drive; virtual.

A Metamorfose e o Virtual

O que se segue é especulação, amiúde especulação
forçada, que o leitor tomará em consideração ou
porá de lado, de acordo com sua predileção individual.
É mais uma tentativa de acompanhar uma
ideia sistematicamente, só por curiosidade de ver
até onde ela levará.
(Freud, Além do Princípio do Prazer)

As redes sociais tiveram seu início em 1995 com o mIRC e, desde então, percorreu um caminho histórico com o lançamento de diversas outras redes, algumas presentes até hoje e outras já encerradas. Pesquisas realizadas pelo Relatório Digital 2024: 5 billion social media users, apontam que o Brasil desponta em terceiro lugar entre os países que mais gastam tempo utilizando redes sociais no mundo (Andrade, 2024); conectado às redes, podemos encontrar desde jovens até pessoas da terceira idade, até mesmo crianças podem ser vistas fazendo consumo de conteúdos presentes nas redes. Mas o que nos interessa sobre esse advento é relacioná-lo com os conceitos da psicanálise, mais especificamente com os conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte. 

Dentro das redes, o algoritmo utilizado pelo sistema captura informações referentes aos conteúdos que oferecem maior relevância e interesse para o sujeito, a partir das interações feitas nas publicações dentro do próprio aplicativo. Abas com os dizeres “esse conteúdo te interessa?” ou “não interessado” fornecem os recursos necessários para que as plataformas entreguem os conteúdos inescusável para manter as pessoas cada vez mais conectadas e sedentas por aquilo que está sendo publicado e vivido virtualmente. A partir desses mecanismos, aquele que está do outro lado da tela passa a vivenciar quase que ininterruptamente o prazer, satisfazendo então, consequentemente, o processo primário, ligado ao inconsciente do sujeito. A partir daí, observamos cada vez mais pessoas não só conectadas, mas reféns das redes sociais, seja fazendo uso ou produzindo conteúdo para consumo – acerca desse último, a produção de conteúdos relaciona-se com a satisfação do componente narcísico do eu

Para compreender, então, esse fenômeno contemporâneo, além dos conceitos de pulsão de vida e de morte, no decorrer deste artigo iremos perpassar os conceitos de instinto e pulsão, diferenciando-os a partir da tradução dos termos alemães utilizados por Freud e abordando os componentes da pulsão, traçando alguns paralelos com os conceitos descritos por Lacan, todos esses constituintes da formação do eu e tendo como objeto as redes sociais.

O advento do computador e da era virtual como boom histórico ocorreu com o nascimento das redes digitais, a saber, mIRC (1995), ICQ (1996), MSN (1999), MySpace (2002), Orkut (2004), Facebook (2004), YouTube (2005), Tumblr (2007), Twitter (2006), Instagram (2010), TikTok (2016), BeReal (2020) e Threads (2023) (Tecmundo, 2023), inaugurando uma nova configuração do sujeito em sua relação com o prazer e a realidade. Essas plataformas não apenas transformaram a comunicação e o modo como nos conectamos, mas também redefiniram as maneiras pelas quais buscamos satisfação e lidamos com o desprazer.

Sob as lentes de Freud (1920), se torna possível analisar essa transformação como uma mutação no princípio do prazer, que originalmente descrevia o impulso humano de evitar o desprazer e buscar satisfação imediata.  No universo virtual, essa busca pelo prazer se intensifica e se torna ainda mais imediata, quase sem barreiras, criando um ambiente inóspito para o princípio da realidade, que deveria regular e adiar a satisfação em prol de uma convivência social mais equilibrada. 

A busca por likes, compartilhamentos e seguidores pode ser vista como uma nova forma de pulsão - a pulsão escópica não dá conta de abarcar essa multiplicidade -, na qual o objeto de desejo tradicional é substituído por representações digitais idealizadas. Isso acaba perpetuando uma sensação de vazio e insatisfação, uma vez que o objeto de desejo satisfaz o prisma narcísico, com relações efêmeras e virtuais. Como Han expressa:

A comunicação digital, muito antes, faz com que a comunidade, o Nós eroda. Ela destrói o espaço público e aguça a individualização do ser humano. Não o “amor ao próximo”, mas sim o narcisismo domina a comunicação digital. A técnica digital não é uma “técnica do amor ao próximo”. Ela se mostra, muito antes, como uma máquina de ego narcisista. E ela não é uma mídia dialógica. (Han, 2018, p.27).

Inicialmente as redes eram para envio de mensagens, depois passou a integrar imagens e fotografias, como álbuns, e fazer a interação entre os usuários em assuntos de interesse comum, as comunidades. Da exposição de imagens do outro e pelo outro surge a imagem tirada por si mesmo, a selfie (narcisismo). Às imagens acrescentam-se filmes e a possibilidade de sua edição, há uma adequação do objeto na busca da satisfação. Inicia-se então as lives, são os vídeos apresentados ao vivo – já não basta o sujeito apenas, os outros podem participar deslocando-se para a realidade do outro, numa busca de satisfação própria. Aparecem então novos tipos de comportamento diante da máquina, são danças e coreografias “virais”, reproduzidas e observadas pelo espectador (escopofilia). Após tanta idealização, surgem as redes que valorizam a realidade sem edição, mostrando a vida através de imagens capturadas pelas câmeras frontal e traseira simultaneamente, cada um exibe como e onde está.

O Objeto Pulsional e a Virtualidade

Em todo homem, é claro, habita um demônio oculto:
O demônio da cólera, o demônio do prazer voluptuoso
Frente aos gritos da vítima torturada,
O demônio da luxúria sem peias.
(Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov)

Freud (1915), ao publicar seu texto Os instintos e suas vicissitudes, define a pulsão como um conceito que está no limite entre o psíquico e o somático, não se limitando exclusivamente nem a um campo, nem a outro,  e isso indica que a pulsão não podia ser estudada por si mesma, uma vez que Freud dá a ela um estatuto especulativo, não se trata de concebê-la como tendo um referente na realidade, mas sim, a partir de seus representantes-representações que se apresentam no registro psíquico do sujeito.

Vale saber que por questão de tradução e até mesmo por concepções errôneas, pulsão é confundida com instinto, como se esses conceitos fossem sinônimos. Diferem, entretanto, não somente pelo instinto possuir um objeto específico (no caso dos bebês, por exemplo, a sucção do leite no seio da mãe tem por única finalidade a sobrevivência), mas, sobretudo, por corresponder a um comportamento comum hereditário. Ademais, o instinto é comportamento repetitivo, que tem por única finalidade sanar um objetivo que, na maior parte das vezes, carece de racionalidade. Esclarece Rudge (1998) que:

[...] como já foi fartamente comentado na literatura, a tradução errônea, na Standart Edition, de Trieb por “instinto”, com sua conotação de comportamento adaptativo pré-formado, acarretou uma confusão entre conceitos que no texto freudiano estão distintos com toda a clareza. (p.11. Grifos da autora).

Ou seja, o instinto (instinkt) não traz em si o que seria a gênese do conceito de pulsão, isso porque visa explicar um comportamento repetitivo e adaptativo, de modo a não levar em consideração os atravessamentos que o sujeito tem, a saber, a linguagem. A linguagem, tira o sujeito da horda animalesca e o coloca no campo da civilização, ou seja, a partir da introjeção da cultura (língua) e das leis o sujeito constitui-se para viver em sociedade. Complementa Rudge (1998) que a partir da linguagem há uma desnaturalização do corpo.

Deste modo, a pulsão caracteriza-se por uma força que busca satisfação. Assim, o termo alemão que Freud utiliza para designar pulsão é Trieb e não Instinkt, como explicado anteriormente, o termo equivalente à instinto também tem variabilidade, no entanto essa é reduzida por ser condição da evolução; diferentemente do termo equivalente à pulsão, que permite uma variabilidade ao infinito de objetos, se constitui, portanto, como potência. É importante salientar que, apesar de ser uma força/excitação que busca a satisfação de sua meta, a pulsão não é semelhante a outros estímulos, posto que nestes em sua maioria, a satisfação do objeto ou meta se dá de maneira instantânea ao passo que ela é uma força constante. 

Em seu texto de 1915, Freud aborda, os quatro componentes da pulsão, os quais são necessários para compreender a pulsão: pressão, finalidade, objeto e fonte. “Por pressão [Drang] de um instinto compreendemos seu motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa. A característica de exercer pressão é comum a todos os instintos; é, de fato, sua própria essência” (Freud, 1915/1996, p. 127-128). Ou seja, é aquilo que impulsiona, que é a força motriz da pulsão, uma vez que exige que o psiquismo trabalhe constantemente para encontrar um destino para a mesma, por isso a pressão é permanentemente. 

Outro componente proposto por Freud (1915/1996) é a finalidade, segundo o autor “a finalidade [Ziel] de um instinto é sempre a satisfação, que só pode ser obtida eliminando-se o estado de estimulação na fonte do instinto” (p. 128). Muito embora exista uma finalidade única na pulsão – descarga energética - isso será conduzido por diferentes meios, uma vez que as finalidades próximas ou intermediárias são misturadas. A finalidade é encontrada quando se elimina a tensão exercida pela pressão pulsional, no entanto a satisfação é sempre parcial, a busca da satisfação procura reeditar uma satisfação que já aconteceu. A pulsão busca refazer um circuito de satisfação já conhecido; tendência à repetição de satisfações já percorridas (busca do objeto perdido). Assim, propõe-se que só há satisfação parcial, não há satisfação plena.

O objeto [Objekt] de um instinto é a coisa em relação à qual ou através da qual o instinto é capaz de atingir sua finalidade. É o que há de mais variável num instinto e, originalmente, não está ligado a ele, só lhe sendo destinado por ser peculiarmente adequado a tornar possível a satisfação. O objeto não é necessariamente algo estranho: poderá igualmente ser uma parte do próprio corpo do indivíduo. (Freud, 1915/1996, p. 128).

A pulsão demanda a existência de um objeto que a satisfaça, mas não necessariamente um objeto específico. O objeto é inespecífico. No entanto, a categoria inespecífica não significa que será um objeto qualquer, pelo contrário, este deve possuir uma aptidão peculiar para que seja possível a satisfação. Isso está ligado à história do sujeito, a sua constituição, ao seu desejo e às fantasias ligadas ao desejo. Para um sujeito produzir arte/moda, há que se comunicar com esses dois pontos, uma vez que entre a pulsão e o objeto, há o desejo e a fantasia. 

Por fim, Freud (1915/1996) nomeia a fonte da pulsão. “Por fonte [Quelle] de um instinto entendemos o processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por um instinto” (p. 129).O estímulo corporal é a fonte da pulsão, as excitações corporais vão organizar a pulsão e esta se manifestará no psiquismo pelos representantes psíquicos, a representação ideativa e o afeto, já discutidos anteriormente. 

E o que isso implica no cotidiano humano? A curto prazo quase que nenhuma alteração no contexto existencial, mas, a longo prazo, é capaz de deixá-lo insatisfeito, na mesma proporção que lhe causa satisfação. Ou seja, enquanto parte de sua estrutura, a pulsão traz a insatisfação como parte necessária da existência humana desde o início. Explica-se, desde sua origem, que o homem é um ser-de-objetivos/metas, de modo que sua satisfação nunca é completa, já que a realização de uma meta produz, necessariamente, a origem de outra, sendo assim, a força motriz que o faz realizado o torna incompleto. Então, chegamos à intersecção crucial da compreensão acerca da pulsão: no âmago pulsional, o que impele, a força motriz da busca não é à saciedade, mas a falta. 

A forma do movimento pulsional é semelhante a arco reflexo, cuja trajetória é a de retornar ao ponto de partida, ou, num vocabulário freudiano, à fonte. Essa dinâmica do retorno à origem se deve a tentativa de suprimir o estímulo causado pela excitação corporal. Ou, conforme as considerações feitas por Lacan (1964/2008) acerca do circuito pulsional, a pulsão tem como origem uma zona erógena, e que o autor propõe que possui uma estrutura de borda; a tensão é compreendida como um fecho, o qual sempre retorna sobre a zona erógena (borda). Assim, a pulsão tem início na zona erógena (borda), busca alcançar o objeto perdido (objeto a) e, após contorná-lo, volta para a zona erógena (borda).  Rudge (1998) postula – a partir das leituras de Freud – que qualquer parte do corpo pode se constituir como zona erógena “[...] desde que ofereça condições de evocar prazer. Desde que alguém nela evoque prazer, completa-se” (p. 13).

Freud (1915/1996) explica que há dois tipos de pulsões: as sexuais e as do ego (ou de auto conservação). Vale salientar, contudo, que a doutrina freudiana não define como invariáveis essas duas pulsões, sendo apenas hipóteses doutrinárias que auxiliam na compreensão do tema. Para esclarecer a diferença dessas duas pulsões, Garcia-Roza (1997) explica: 

A diferença básica entre os dois tipos de pulsão é que elas se encontram sob o predomínio de diferentes princípios de funcionamento: como as pulsões do ego só podem satisfazer-se com um objeto real, o princípio de realidade, enquanto as pulsões sexuais, podendo “satisfazer-se” com os objetos fantasmáticos, encontram-se sob o predomínio do princípio do prazer. (p. 124).

Progressivamente esse dualismo pulsional será substituído por outro. Esclarece Rudge (1998) que o abandono do conceito de pulsão de autoconservação se dá, principalmente, com o texto escrito por Freud (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução, “[...] todo campo pulsional passa a ter a libido como único substrato energético, com seu cunho sexual reafirmado” (Rudge, 1998, p. 18). A autora continua e propõe que:

Se é o eu o interessado na conservação, podemos depreender disso que a questão da conservação não é mais referida à pulsão, propriamente; já não é mais um alvo pulsional, transcendendo esse registro. Todo um mergulho na ordem simbólica está implicado na constituição dessa unidade, o eu, que se impõe como objeto libidinal. (Rudge, 1998, p. 18). 

O conceito de narcisismo atua, portanto, como um conceito ponte de uma teoria pulsional para a outra. Com o texto Além do princípio de prazer Freud (1920/1996), portanto, une as pulsões sexuais e a de autoconservação nas pulsões de vida e contrapõe essa à pulsão de morte (quando as forças pulsionais direcionam ao estado em que não há mais tensões, portanto, anorgânico). Notemos que na pulsão de morte os esforços são direcionados para eliminação total das tensões, diferente da pulsão de vida em que cada supressão de tensão origina novas metas/objetivos a serem alcançados. É interessante observarmos que essa dualidade pulsional proposta por Freud não elabora somente uma teoria das forças vitais que emanam do sujeito, mas é um retorno à questão existencial: a vida. 

Ora, pensar na pulsão de vida e pulsão de morte é considerar que as forças pulsionais do ser humano tem um começo, desenvolvimento (ainda que este seja um desenvolver-se ciclicamente, já que ao realizar uma meta, logo busca-se outra) e um telos (fim), no qual as pulsões retornam ao seu estado primordial: o de restaurar o estado inercio, inerente à vida orgânica. Tendo isso em vista poderia surgir um problema tautológico: se até então afirmamos que a pulsão é uma força que motiva o ser humano a desenvolver-se, como entender que o telos vital, ou seja, pulsão de morte, faz com que o sujeito busque seu estado inerte? Garcia-Roza (1997), explica que “se a pulsão é conservadora, se tende a restaurar um estado anterior das coisas, devemos concluir que o desenvolvimento deve ser atribuído a fatores externos que desviariam a pulsão de seu objeto – o de manter indefinitivamente o mesmo estado das coisas” (p.136).

Posto isso, podemos entender o porquê todas as pulsões de auto conservação e pulsões sexuais são entendidas como pulsões de vida. Enquanto a primeira preserva o organismo de ações externas que ameaçam o caminho natural da morte, a segunda assegura o padrão repetitivo do organismo, isto é “[...] enquanto pulsão de autoconservação, a pulsão de vida é manutenção do caminho para a morte, mas enquanto pulsão sexual ela garante, através do sêmen germinativo, a imortalidade do ser vivo” (Garcia-Roza, 1997, p. 137). 

O Eu-máquina e/ou A Mutação Virtual

A tecnologia é
um modo de ser
do ser humano.
(Heidegger, A questão da técnica)

Uma vez que,

O tempo é o ser do ser.
(Heidegger, O Ser e o tempo)

O tempo é uma abstração mental que se elabora à medida de nosso desenvolvimento cognitivo e afetivo. Através das epígrafes, pode-se compreender que o autor propõe que a tecnologia não é somente um instrumento, pelo contrário, é algo que pode moldar e definir a experiência humana, ademais, o tempo é a própria manifestação do ser, não é separado deste.

Assim, de certa forma, o tempo é uma construção subjetiva que se apoia em dados que brotam de uma elaboração interna da origem e da sucessão dos acontecimentos externos, em valores e medidas recebidos pelo viés da educação, assim como em indicadores externos que participam de ciclos repetitivos que permitem mensuração entre um acontecimento e outro. 

Mais ainda, Bergson (1968) argumenta que só temos acesso à temporalidade das coisas que nos rodeiam a partir de um “tempo interno”, no qual cada momento se encontra tecido pela memória do precedente, formando uma continuidade de instantes que se prolongam nos seguintes, permitindo a percepção dessa sucessão de elementos soltos como sendo eles partícipes de uma mesma e única realidade.

Em seu livro Infocracia, Han (2022) propõe uma leitura contemporânea do que se compreende como a constituição do sujeito, permeado por todos esses meios de comunicação digitais. O autor postula que atualmente o “sujeito submisso do regime de informação não é nem dócil, nem obediente. Ao contrário, supõe-se livre, autêntico e criativo. Produz-se e se performa” (p. 09).

E continua esclarecendo que:

O regime da informação se apodera das camadas pré-reflexivas, pulsionais, emotivas, do comportamento antepostas às ações conscientes. Sua psicopolítica dado-pulsional intervém em nosso comportamento, sem que fiquemos conscientes dessa intervenção. (Han, 2022, p. 23-24).

Em outro livro, No Enxame: perspectivas digitais (2018), o autor supracitado propõe que a falta de comunicação que o outro não consegue ultrapassar, tanto a comunicação oral, a comunicação gestual, o olhar como forma de comunicação cede o lugar ao mundo digital. Assim, o digital – pensando os registros do sujeito a partir da psicanálise lacaniana - :

[...] desconstrói o real e totaliza o imaginário. O smartphone funciona como um espelho digital para a nova versão pós-infantil do estágio do espelho. Ele abre um espaço narcísico, uma esfera do imaginário na qual eu me tranco [e] desaprendo a pensar de um modo complexo. (Han, 2018, p. 17).

Isso, de um modo, coaduna com o pensamento de Lacan (1998) ao propor que o sujeito se constitui a partir da interação com o outro, com as produções culturais da humanidade. Ademais, de acordo com pressupostos lacanianos, o sujeito se constitui alienado ao desejo do outro, uma vez que é apresentado para si pelo outro, através do olhar do outro. 

[...] o Estádio do Espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação - e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortopédica - e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental. (Lacan, 1998, p. 100).

Ora, se o estádio do espelho é um mecanismo pelo qual o sujeito não escapa para se constituir, como viver esse estágio se o outro – cuidadores – não são possibilidades de ocuparem esse lugar? Vale a pena fazer referência a Han (2018), ao postular que “a experiência enquanto irromper do outro interrompe o auto espelhamento imaginário. A positividade que habita o digital reduz a possibilidade de uma tal experiência. Ela promove o igual. [...] enfraquece a capacidade de lidar com o negativo” (p. 45).

O princípio do prazer, como um funcionamento primário do psiquismo, ao ser substituído pelo princípio da realidade, um funcionamento secundário, tem seu mecanismo alongado, onde se é adiada a satisfação desejada – a obtenção final do prazer. A aceitação deste alongamento já é reconhecida previamente pelo sujeito e, assim, o princípio do prazer continua funcionando, mas como uma pulsão sexual que, por vezes, pode superar o princípio da realidade. Isso se evidencia nos abusos e dependência da interação digital, do excesso de tempo dedicado à essa satisfação momentânea que traz o sujeito da realidade para a realização instantânea do prazer.

O jogo do início dos anos 2000 - especificamente 2003 - chamado Second Life traz muito esse princípio explicado anteriormente. O jogo foi inovado ao imitar a realidade da vida do sujeito, sem missões ou pontuação, a ideia é apenas levar jogadores a uma nova vida, sem limites para a criatividade. Com economia virtual própria e relacionamentos amorosos virtuais e reais, o jogo virou febre, mas passou por diversas mudanças desde o lançamento até os dias atuais. Com o passar do tempo, melhorias gráficas foram implementadas, integração com as redes sociais e até mesmo a criação de um marketplace.

O excesso de tela implica necessariamente um maior tempo consigo mesmo e, por consequência, um menor tempo com o outro. Sem o outro não há negativa, discordância, negociação, frustração, ou seja, há um aprendizado obstado, uma vida tangenciada pela realidade que se cria em uma idealização muito mais regressiva que o imaginário e a alienação ao desejo do Outro no Estádio do Espelho, proposto por Lacan. A mudança, o novo que se dá a partir do choque com a frustração, e que impõe a necessidade de desbastar o imaginário, fica tolhido o qual impõe de maneira de modo inclemente uma vida palatável, pasteurizada e que tem a ver com a realidade quase que exclusivamente digital do sujeito, que institui ser 'melhor viver nas redes, a vida das redes, que a realidade fora dela, os quais o princípio da realidade decreta o poder da amargura de lidar com a vida/sociedade. 

Assim, a satisfação instantânea é atraente e recompensadora, a ponto de trazer o sujeito para as telas até mesmo em seus momentos de lazer. O descanso pode até ser físico, mas nunca virtual, já que é preciso acompanhar e consumir aqueles que seguimos nas redes e, ainda, precisamos “gerar conteúdo” para aqueles que nos seguem. O fato de estarmos sempre ‘disponíveis’, nos determina ao excesso do princípio do prazer, um supereu que não adia, pelo contrário, é imperioso de gozo, de acordo com os pressupostos de Slavoj Zizek (1999). Vinculado a isso, e/ou uma realização de desejo virtual, que nunca dorme, nunca descansa, é - talvez - uma subversão de como Lacan definiu a pulsão, "não tem dia, nem noite, nem inverno, nem verão", ou seja, a virtualidade ocupa essa posição. 

O Princípio do Prazer ou a Realização Virtual?

A impressão de ter tudo o que se quer
e de não ter mais nada a desejar.
É o que o feto poderia pretender no que lhe diz respeito,
já que possui constantemente tudo o que lhe é necessário
à satisfação de suas pulsões, portanto,
nada tem a desejar, é desprovido de necessidades.
(Ferenczi, O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios)

Posteriormente a tudo que foi proposto, nota-se que o princípio do prazer está ligado ao processo psicológico primário, ou seja, são processos regidos pelo inconsciente, busca a obtenção de prazer imediato e visa diminuição do desprazer. O desprazer estaria relacionado a um aumento da tensão do aparelho psíquico. De acordo com Rudge (1998) os neurônios psi e o sistema perceptivo w, propostos por Freud, atuam – respectivamente – para afastar as experiências desagradáveis e na apreensão do verdadeiro a partir das percepções da realidade externa, assim, acontece a inibição dos processos primários a partir da diferenciação de memória e da percepção, inaugurando os processos psíquicos secundários. Sobre os processos psíquicos secundários, sabemos que é regido pelo pré-consciente e consciente, e possibilita a interação do sujeito com a cultura e sua principal função é inibir o processo primário. 

O mal-estar da humanidade repousa no fato de que nem todos os seus desejos e anseios mais profundos podem ser realizados na vida social porque são, por vezes, antissociais. Aquilo a que nosso inconsciente nos impulsiona desde o início de nossas vidas, se for realizado, resultará no fim da sociedade. 

O princípio de realidade visa obedecer às leis e contribui para o processo civilizatório, atua adiando a realização desmedida do prazer, proposto pelo princípio do prazer. O princípio de realidade, portanto, visa superar o princípio do prazer; e é esse princípio de realidade que também atua na organização do eu, desenvolvendo a função da razão ao indivíduo, o qual, se fosse regido somente pelo princípio do prazer, poderia culminar com a destruição da sociedade e do processo civilizatório. 

A atual dependência das redes sociais reorganiza o desejo dos sujeitos, que passam a buscar uma experiência de especulação quase exclusiva com o ‘digital’, isso ocorre porque o desejo é frequentemente mediado pelo outro. As redes sociais, ao promover uma interação baseada em imagens e representações digitais, acabam por criar um ambiente onde o desejo não é orientado para um objeto real, mas para uma versão idealizada e virtual de si próprio ou do outro. Contudo essa dinâmica pode levar a uma falta de desejo genuíno e à substituição do objeto do desejo por um reflexo digital, que reforçam a alienação e a insatisfação do sujeito, fragilizando sua capacidade de se relacionar de forma autêntica e significativa com o mundo real.

A violência que emerge nessas interações digitais pode ser melhor compreendida à luz da pulsão de morte, conceito freudiano já descrito anteriormente, que aponta para a tendência humana de buscar a eliminação de suas tensões internas, mesmo que isso signifique um retorno ao estado inorgânico. No ambiente das redes sociais, essa pulsão se manifesta de forma aguda, através de práticas como o cyberbullying e outras formas de agressão online, uma vez que o anonimato e a distância proporcionados pelo meio digital permitem que os indivíduos externalizam suas angústias e frustrações de maneira violenta, atacando no outro aquilo que não conseguem aceitar em si mesmos. Assim, o digital facilita e intensifica a expressão da pulsão de morte, aniquilando as bases da convivência social e reforçando o isolamento emocional dos sujeitos.

O sujeito se relaciona apenas com ele mesmo, através do celular, num espaço narcísico e diminuindo sua capacidade de interação com o outro e a capacidade de lidar com o negativo que vem do outro. Ao se deparar com algo que o afeta é capaz de praticar o cyberbulling com uma sensação de impunidade, deseja eliminar no outro aquilo que o incomoda em si mesmo.

Para Virtualizar, e (não necessariamente) Concluir...

Sua crescente falta de preocupação com os outros
dificilmente o surpreendeu,
ao passo que anteriormente
ele se orgulhava de ser atencioso.
(Kafka, Metamorfose)

Para não virtualizar é preciso realizar e reforçar o princípio da realidade. É grande o desafio e sem satisfação inicial instantânea, no entanto proporciona possibilidades de um bom uso de tudo o que é o advento da virtualidade e da tecnologia na sociedade. Potência que liberta, mas que pode aprisionar, tal como os suplício dos mitos gregos (tonel das danaides, sisífo) que dependem exclusivamente da repetição automatizada - uma releitura do que compreende Lacan como Tique, ao fazer releitura de Aristóteles - o qual busca a automatização da pulsão e do próprio Eu, sendo também uma forma, ou melhor, quase que exclusivamente a única forma  de obtenção do prazer.

De acordo com os desafios virtuais desenvolvidos, percebe-se como são profundos os desafios na compreensão da subjetividade e dos meandros das pulsões humanas, especialmente quando examinamos o uso das redes sociais na dinâmica dos desejos. O princípio do prazer, concebido como uma busca pelo alívio imediato do desprazer, encontra solo fértil no ambiente virtual, o qual tudo germina, e dá frutos, mesmo os mais diversos com o mesmo sabor.

A satisfação instantânea advinda do reflexo digital substitui a relação com o Outro através da experiência narcísica, limitando um desenvolvimento genuíno e promovendo um ciclo de alienação-emancipação-alienação (especificamente do eu) e insatisfação-satisfação-insatisfação (consigo e com a sociedade). A vida na virtualidade fornece sustentação para as fantasias do sujeito, os quais são perseguidos por fantasmas. Cabe, portanto, nesse final, uma subversão a um trecho do texto de Kafka Cartas a Milena, o qual propõe que ös fantasmas não morrerão de fome, mas nós afundaremos", e, essa subversão se dá ao propor que "o virtual não morrerá de fome, mas nós afundaremos em nossa incapacidade de adiar o excesso da virtualização". 

Compreende-se, portanto, a necessidade de reforçar o princípio da realidade, promovendo a autonomia e autoconhecimento como formas de resistência ao automatismo imposto pela era digital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Gabriela. “Brasil é o 2º país em que usuários passam mais tempo on-line”. Metrópoles. 04 Abr 2024. Disponível em: <https://www.metropoles.com/colunas/m-buzz/brasil-e-o-2-pais-em-que-usuarios-passam-mais-tempo-on-line>. Acesso em: 08 Set 2024. 

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1 Docente do curso de psicologia do Centro Universitário Antônio Eufrásio de Toledo de Presidente Prudente. Graduado e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Coordenador do Grupo de Estudo em Psicanálise e Subjetividade (Gepsi). E-mail: [email protected]

2 Discente do 3º ano do curso de psicologia do Centro Universitário Antonio Eufrásio de Toledo de Presidente Prudente. E-mail: [email protected]

3 Discente do 3º ano do curso de psicologia do Centro Universitário Antonio Eufrásio de Toledo de Presidente Prudente. E-mail: [email protected]

4 Discente do 3º ano do curso de psicologia do Centro Universitário Antonio Eufrásio de Toledo de Presidente Prudente. E-mail: [email protected]