REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778467153
RESUMO
O presente artigo analisa o filme Ainda Estou Aqui como uma narrativa que articula memória, direitos humanos e subjetividade no contexto da ditadura militar brasileira. A partir de uma abordagem interdisciplinar, fundamentada em autores como Boris Fausto, Elio Gaspari, Flávia Piovesan e Sílvia Lane, o estudo evidencia como o filme representa os impactos da repressão política na vida de cidadãos comuns, com destaque para o sofrimento dos familiares de desaparecidos políticos. A análise enfatiza o desaparecimento forçado como grave violação de direitos humanos, bem como seus efeitos psicológicos, sociais e históricos, marcados pela incerteza, pelo medo e pela impossibilidade de elaboração do luto. Além disso, discute-se o papel da memória como instrumento de resistência e de construção da verdade histórica, contrapondo-se ao apagamento promovido por regimes autoritários. Conclui-se que a obra cinematográfica contribui significativamente para a reflexão crítica sobre o passado, reforçando a importância da democracia, da justiça e da preservação dos direitos fundamentais.
Palavras-chave: Ditadura militar; Direitos humanos; Memória; Ainda Estou Aqui.
ABSTRACT
This article analyzes the film *I'm Still Here* as a narrative that articulates memory, human rights, and subjectivity within the context of the Brazilian military dictatorship. Using an interdisciplinary approach, grounded in authors such as Boris Fausto, Elio Gaspari, Flávia Piovesan, and Sílvia Lane, the study highlights how the film represents the impacts of political repression on the lives of ordinary citizens, particularly the suffering of the families of the politically disappeared. The analysis emphasizes forced disappearance as a serious violation of human rights, as well as its psychological, social, and historical effects, marked by uncertainty, fear, and the impossibility of processing grief. Furthermore, it discusses the role of memory as an instrument of resistance and construction of historical truth, contrasting with the erasure promoted by authoritarian regimes. It concludes that the film significantly contributes to critical reflection on the past, reinforcing the importance of democracy, justice, and the preservation of fundamental rights.
Keywords: Military dictatorship; Human rights; Memory; I'm still here.
INTRODUÇÃO
O cinema constitui uma importante ferramenta para a compreensão de processos históricos, sobretudo quando se propõe a representar períodos marcados por autoritarismo, violência e supressão de direitos. No caso brasileiro, a ditadura militar (1964–1985) ainda é objeto de intensos debates no campo acadêmico e social, sendo constantemente revisitada por meio de diferentes linguagens e suportes culturais. Entre essas produções, o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, destaca-se como uma obra relevante para a análise desse período, ao abordar a repressão política a partir de uma perspectiva íntima, centrada na experiência de uma família diretamente afetada pelas ações do regime.
Ambientado no Rio de Janeiro, o filme é baseado em fatos verídicos e retrata o desaparecimento de Rubens Paiva, ex-deputado federal, durante a ditadura militar. A narrativa acompanha a trajetória de Eunice Paiva, sua esposa, que passa a enfrentar não apenas a ausência do marido, mas também a falta de informações, a violência institucional e o medo generalizado característico daquele contexto histórico. Ao trazer à tona práticas como prisões arbitrárias, interrogatórios coercitivos e desaparecimentos forçados — intensificados após a promulgação do Ato Institucional Número Cinco —, a obra contribui para evidenciar as estratégias de repressão utilizadas pelo regime e seus impactos duradouros na sociedade brasileira.
Nesse sentido, o filme ultrapassa a dimensão do entretenimento e se configura como uma importante fonte de reflexão histórica, ao permitir o acesso a experiências subjetivas que, muitas vezes, não são plenamente captadas pelos documentos oficiais. A narrativa cinematográfica, ao explorar emoções, relações familiares e vivências cotidianas, possibilita uma compreensão mais ampla e humanizada dos efeitos da ditadura, especialmente no que se refere ao sofrimento das vítimas e de seus familiares. Dessa forma, o cinema se apresenta como um meio complementar à historiografia tradicional, contribuindo para a construção e preservação da memória social.
Diante disso, o presente artigo tem como objetivo analisar o filme Ainda Estou Aqui como fonte para a compreensão da ditadura militar brasileira, destacando suas contribuições para o entendimento das práticas repressivas e de suas consequências sociais e humanas. Para tanto, a metodologia adotada baseia-se em pesquisa de natureza qualitativa, tendo como principal aporte a análise do próprio filme, considerado aqui como documento histórico-cultural. A partir da observação detalhada da narrativa, das personagens, dos elementos simbólicos e do contexto retratado, realiza-se uma análise crítica que busca interpretar os significados produzidos pela obra.
Além disso, a análise é orientada por uma perspectiva interpretativa, que considera o cinema não apenas como representação da realidade, mas como construção discursiva que dialoga com o contexto histórico e com a memória coletiva. Nesse sentido, o filme é compreendido como uma fonte que, embora mediada por escolhas estéticas e narrativas, oferece importantes indícios sobre o período retratado, permitindo problematizar questões como a violência de Estado, o silenciamento imposto à sociedade e as formas de resistência desenvolvidas pelos indivíduos.
Assim, ao articular o estudo da obra cinematográfica com a reflexão histórica, este trabalho busca evidenciar a relevância do cinema como instrumento de análise e compreensão do passado, contribuindo para o debate sobre memória, verdade e justiça no Brasil. Ao dar visibilidade a histórias como a de Eunice Paiva, o filme reforça a importância de revisitar criticamente o período da ditadura, não apenas como exercício acadêmico, mas como forma de promover a consciência histórica e a valorização dos direitos democráticos. Para a composição do presente texto elaboramos um item inicial para a reflexão sobre o contexto histórico representado no filme, sendo esse o contexto ditatorial e na sequência realizamos a apresentação do filme com sua análise correspondente.
O contexto ditatorial na realidade brasileira
O período da ditadura militar no Brasil (1964–1985) teve início com o Golpe de 1964, que resultou na deposição do presidente João Goulart. O regime instaurado caracterizou-se pela centralização do poder, suspensão de direitos políticos, censura à imprensa e repressão a opositores. Segundo Fausto (2013), o novo governo buscou legitimar-se por meio do discurso de combate ao comunismo e de preservação da ordem, instaurando uma estrutura autoritária sustentada pelas Forças Armadas.
Durante esse período, foram editados os Atos Institucionais, especialmente o Ato Institucional nº 5, que marcou o endurecimento do regime ao permitir o fechamento do Congresso, a cassação de mandatos e a suspensão de garantias constitucionais. Conforme afirma Gaspari (2002, p. 45), “o AI-5 institucionalizou o arbítrio como prática de governo”, evidenciando o caráter repressivo do Estado nesse momento.
A repressão política foi intensificada por meio de órgãos de segurança e informação, que atuavam na vigilância, perseguição, prisão e tortura de opositores. De acordo com Alves (2005), a ditadura estruturou um sistema de controle social que atingiu estudantes, trabalhadores e intelectuais, limitando severamente as liberdades civis. Nesse contexto, a censura também desempenhou papel central, restringindo manifestações culturais e a circulação de ideias.
Apesar da repressão, houve resistência por parte de diversos setores da sociedade, incluindo movimentos estudantis, sindicatos, artistas e organizações clandestinas. Como destaca Dreifuss (1981), a oposição ao regime foi fundamental para o desgaste político da ditadura ao longo do tempo. A partir do final da década de 1970, iniciou-se um processo de abertura política gradual, impulsionado por pressões internas e externas.
A redemocratização consolidou-se com o fim do regime em 1985 e a posterior promulgação da Constituição de 1988, que restabeleceu os direitos fundamentais e instituiu um Estado Democrático de Direito. Assim, o período ditatorial deixou marcas profundas na sociedade brasileira, evidenciando a importância da defesa dos direitos humanos e das instituições democráticas. O filme, por outro lado, nos apresenta vivências de pessoas comuns, seres comuns que presenciaram o contexto ditatorial.
Eu Ainda Estou aqui: aproximações a plataforma fílmica em questão
O filme retrata de forma profunda e impactante um dos períodos mais difíceis da história do Brasil: a ditadura militar, instaurada após o golpe de 1964. Trata-se de um drama brasileiro dirigido por Walter Salles, inspirado em uma história real ocorrida no Rio de Janeiro, que evidencia as consequências da repressão política na vida de cidadãos comuns. A obra não apenas apresenta um recorte histórico, mas também provoca uma reflexão sobre os efeitos da ausência de liberdade, da censura e da violência institucionalizada.
A narrativa acompanha a trajetória da família Paiva, que vivia uma vida aparentemente estável até o momento em que Rubens Paiva, marido de Eunice, é levado por agentes do regime militar. Esse acontecimento marca uma ruptura brusca na rotina familiar, dando início a um período de dor, incerteza e sofrimento. A partir desse ponto, o filme passa a explorar o drama psicológico e emocional vivido pelos familiares de desaparecidos políticos, algo que foi recorrente durante a ditadura.
Eunice Paiva se torna a personagem central da trama, sendo retratada como uma mulher forte, resiliente e determinada. Diante do desaparecimento do marido, ela precisa assumir sozinha a responsabilidade de cuidar dos filhos e manter a estrutura familiar. Além disso, enfrenta o desafio de buscar respostas em um sistema opressor, que frequentemente negava informações e dificultava qualquer tentativa de investigação. Sua luta vai além do âmbito pessoal, representando também a resistência de muitas mulheres que enfrentaram situações semelhantes naquele período.
Ao longo do filme, são evidenciadas as práticas autoritárias adotadas pelo regime, especialmente após a decretação do Ato Institucional Número Cinco, que intensificou a repressão política. Prisões arbitrárias, torturas, censura e desaparecimentos forçados passaram a ser utilizados como instrumentos de controle social. Nesse contexto, o desaparecimento de Rubens não é um caso isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de silenciamento de opositores.
Outro aspecto importante abordado pela obra é o clima de medo que dominava a sociedade. As pessoas evitavam falar abertamente sobre política, temendo perseguições e represálias. Conversas precisavam ser feitas com cautela, muitas vezes em sigilo, e até mesmo amizades eram abaladas pelo receio de envolvimento com indivíduos considerados “suspeitos” pelo regime. Esse ambiente de tensão contribui para o isolamento de Eunice, que além de lidar com a dor da perda, enfrenta também o distanciamento social.
O filme também destaca a violência psicológica sofrida pelos familiares dos desaparecidos. A ausência de informações concretas sobre o destino de Rubens prolonga o sofrimento, pois não há confirmação de morte nem esperança real de reencontro. Essa incerteza gera uma dor contínua, marcada pela espera e pela impossibilidade de encerramento. Mesmo assim, Eunice persiste em sua busca, demonstrando coragem ao enfrentar interrogatórios, intimidações e ameaças constantes.
A atuação da protagonista reforça ainda mais a intensidade emocional da narrativa, transmitindo ao espectador a angústia, a força e a determinação da personagem. Sua luta por justiça e por memória transforma-se em um símbolo de resistência contra o apagamento histórico promovido pela ditadura. Ao insistir em buscar respostas, ela se recusa a aceitar o silêncio imposto pelo regime.
Além do drama individual, o filme cumpre um papel importante ao retratar o contexto político e social da época. A censura aos meios de comunicação impedia a divulgação de informações, manipulando a opinião pública e ocultando as violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo, o Estado exercia controle sobre diferentes esferas da sociedade, limitando a liberdade de expressão e reprimindo qualquer forma de oposição.
Dessa forma, a obra vai além de uma narrativa pessoal e se configura como um importante registro histórico. Ela evidencia como a ditadura militar foi um período marcado pelo medo, pela violência e pela supressão de direitos fundamentais. Ao dar voz às vítimas e mostrar as consequências dessas ações, o filme contribui para a preservação da memória coletiva e reforça a importância da democracia e do respeito aos direitos humanos.
Em síntese, o filme emociona e provoca reflexão ao mostrar que, por trás dos números e dos registros históricos, existiam famílias, histórias e vidas profundamente afetadas. A trajetória de Eunice Paiva representa a luta de muitas pessoas que enfrentaram a dor da perda e a injustiça, mantendo viva a memória daqueles que desapareceram. Assim, a obra se torna não apenas um relato do passado, mas também um alerta para que situações semelhantes nunca mais se repitam.
O filme retrata de forma profunda e impactante um dos períodos mais difíceis da história do Brasil: a ditadura militar, instaurada após o golpe de 1964. Trata-se de um drama brasileiro dirigido por Walter Salles, inspirado em uma história real ocorrida no Rio de Janeiro, que evidencia as consequências da repressão política na vida de cidadãos comuns. A obra não apenas apresenta um recorte histórico, mas também provoca uma reflexão sobre os efeitos da ausência de liberdade, da censura e da violência institucionalizada.
A narrativa acompanha a trajetória da família Paiva, que vivia uma vida aparentemente estável até o momento em que Rubens Paiva, marido de Eunice, é levado por agentes do regime militar. Esse acontecimento marca uma ruptura brusca na rotina familiar, dando início a um período de dor, incerteza e sofrimento. A partir desse ponto, o filme passa a explorar o drama psicológico e emocional vivido pelos familiares de desaparecidos políticos, algo que foi recorrente durante a ditadura.
Eunice Paiva se torna a personagem central da trama, sendo retratada como uma mulher forte, resiliente e determinada. Diante do desaparecimento do marido, ela precisa assumir sozinha a responsabilidade de cuidar dos filhos e manter a estrutura familiar. Além disso, enfrenta o desafio de buscar respostas em um sistema opressor, que frequentemente negava informações e dificultava qualquer tentativa de investigação. Sua luta vai além do âmbito pessoal, representando também a resistência de muitas mulheres que enfrentaram situações semelhantes naquele período.
Ao longo do filme, são evidenciadas as práticas autoritárias adotadas pelo regime, especialmente após a decretação do Ato Institucional Número Cinco, que intensificou a repressão política. Prisões arbitrárias, torturas, censura e desaparecimentos forçados passaram a ser utilizados como instrumentos de controle social. Nesse contexto, o desaparecimento de Rubens não é um caso isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de silenciamento de opositores.
Outro aspecto importante abordado pela obra é o clima de medo que dominava a sociedade. As pessoas evitavam falar abertamente sobre política, temendo perseguições e represálias. Conversas precisavam ser feitas com cautela, muitas vezes em sigilo, e até mesmo amizades eram abaladas pelo receio de envolvimento com indivíduos considerados “suspeitos” pelo regime. Esse ambiente de tensão contribui para o isolamento de Eunice, que além de lidar com a dor da perda, enfrenta também o distanciamento social.
O filme também destaca a violência psicológica sofrida pelos familiares dos desaparecidos. A ausência de informações concretas sobre o destino de Rubens prolonga o sofrimento, pois não há confirmação de morte nem esperança real de reencontro. Essa incerteza gera uma dor contínua, marcada pela espera e pela impossibilidade de encerramento. Mesmo assim, Eunice persiste em sua busca, demonstrando coragem ao enfrentar interrogatórios, intimidações e ameaças constantes.
A atuação da protagonista reforça ainda mais a intensidade emocional da narrativa, transmitindo ao espectador a angústia, a força e a determinação da personagem. Sua luta por justiça e por memória transforma-se em um símbolo de resistência contra o apagamento histórico promovido pela ditadura. Ao insistir em buscar respostas, ela se recusa a aceitar o silêncio imposto pelo regime.
Além do drama individual, o filme cumpre um papel importante ao retratar o contexto político e social da época. A censura aos meios de comunicação impedia a divulgação de informações, manipulando a opinião pública e ocultando as violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo, o Estado exercia controle sobre diferentes esferas da sociedade, limitando a liberdade de expressão e reprimindo qualquer forma de oposição.
Dessa forma, a obra vai além de uma narrativa pessoal e se configura como um importante registro histórico. Ela evidencia como a ditadura militar foi um período marcado pelo medo, pela violência e pela supressão de direitos fundamentais. Ao dar voz às vítimas e mostrar as consequências dessas ações, o filme contribui para a preservação da memória coletiva e reforça a importância da democracia e do respeito aos direitos humanos.
Em síntese, o filme emociona e provoca reflexão ao mostrar que, por trás dos números e dos registros históricos, existiam famílias, histórias e vidas profundamente afetadas. A trajetória de Eunice Paiva representa a luta de muitas pessoas que enfrentaram a dor da perda e a injustiça, mantendo viva a memória daqueles que desapareceram. Assim, a obra se torna não apenas um relato do passado, mas também um alerta para que situações semelhantes nunca mais se repitam.
Do ponto de vista histórico, o filme dialoga diretamente com interpretações clássicas sobre o período autoritário iniciado com o golpe de 1964. Conforme aponta Fausto (2013), a ditadura consolidou-se por meio da supressão de direitos políticos e da institucionalização da repressão, criando um aparato estatal voltado ao controle social. Essa leitura aparece no filme quando a prisão e o desaparecimento de Rubens Paiva são apresentados não como um evento isolado, mas como parte de uma engrenagem repressiva. Nesse sentido, a narrativa confirma a análise de que o regime operava através de mecanismos sistemáticos de silenciamento e violência.
A intensificação da repressão após o Ato Institucional nº 5 também é central na interpretação da obra. Como afirma Elio Gaspari (2002, p. 45), “o AI-5 institucionalizou o arbítrio como prática de governo”, permitindo ações como prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados. O filme evidencia essas práticas ao retratar a ausência de garantias legais e a impossibilidade de acesso à informação por parte da família, reforçando a ideia de um Estado que atua fora dos limites do direito.
Sob a perspectiva dos direitos humanos, a narrativa pode ser compreendida à luz das discussões de Piovesan (2018), que destaca que regimes autoritários são marcados pela negação sistemática da dignidade humana. A situação vivida por Eunice Paiva e seus filhos revela justamente essa violação: o desaparecimento forçado configura-se como uma das mais graves infrações aos direitos humanos, pois nega simultaneamente o direito à vida, à liberdade e à verdade. De forma indireta, o filme ilustra o argumento de Piovesan de que “não há direitos humanos sem o reconhecimento e a proteção da dignidade da pessoa humana” (op.cit., 2018, p.45).
Além disso, a obra permite uma leitura a partir da psicologia social crítica, especialmente no que se refere à constituição da subjetividade em contextos de opressão. De acordo com Lane (1984), o sujeito é produzido nas relações sociais e históricas, sendo profundamente afetado pelas condições concretas de existência. No filme, o sofrimento psicológico de Eunice não pode ser entendido apenas como uma experiência individual, mas como expressão de um contexto político violento. A incerteza sobre o destino do marido gera o que pode ser interpretado como um “luto suspenso”, marcado pela impossibilidade de elaboração simbólica da perda.
A dimensão do medo e do silêncio, amplamente retratada na narrativa, também encontra respaldo teórico. Segundo Maria Helena Moreira Alves (2005), a ditadura brasileira instituiu uma “cultura do medo”, na qual a vigilância e a repressão levavam à autocensura e ao isolamento social. Essa análise aparece de forma indireta no filme, nas relações fragilizadas e no receio constante de exposição, evidenciando como o controle estatal ultrapassava o campo político e atingia a vida privada.
Outro elemento relevante é a centralidade da figura feminina como símbolo de resistência. Eunice Paiva representa não apenas uma personagem individual, mas um coletivo de mulheres que assumiram papéis fundamentais na luta por memória e justiça. Sua trajetória dialoga com a noção de resistência cotidiana, na qual, mesmo em condições adversas, os sujeitos constroem estratégias para enfrentar a opressão. Nesse sentido, sua persistência em buscar respostas constitui um ato político, ainda que inserido no âmbito familiar.
Por fim, o filme pode ser interpretado como um dispositivo de memória social. Ao narrar uma história baseada em fatos reais, ele contribui para a construção da memória coletiva sobre a ditadura, contrapondo-se ao esquecimento e à negação histórica. Como afirma Gaspari (2002), compreender esse período é essencial para evitar a repetição de práticas autoritárias. A obra, portanto, não apenas emociona, mas também cumpre uma função pedagógica e política ao reafirmar a importância da democracia e dos direitos humanos.
CONCLUSÃO
A análise do filme Ainda Estou Aqui permite compreender, de forma sensível e crítica, as múltiplas dimensões da violência produzida pela ditadura militar brasileira, evidenciando que seus impactos ultrapassaram o campo político-institucional e atingiram profundamente a vida cotidiana, as relações sociais e a constituição subjetiva dos indivíduos. Ao articular elementos históricos, jurídicos e psicossociais, o estudo demonstra que a narrativa cinematográfica não apenas retrata um período autoritário, mas também revela os mecanismos de silenciamento, medo e desumanização que sustentaram o regime.
A trajetória de Eunice Paiva sintetiza, de maneira emblemática, o sofrimento e a resistência de familiares de desaparecidos políticos, evidenciando que a luta por verdade e justiça se configura como um processo contínuo e coletivo. Sua experiência explicita as consequências do desaparecimento forçado, prática que viola direitos fundamentais e impede a elaboração do luto, prolongando a dor e a incerteza. Nesse sentido, o filme reafirma a centralidade da memória como instrumento de enfrentamento ao apagamento histórico e à impunidade.
Além disso, a obra reforça a importância de compreender a ditadura a partir de uma perspectiva crítica, conforme apontam autores como Boris Fausto, Elio Gaspari e Flávia Piovesan, ao evidenciar que a negação de direitos e a institucionalização da violência não podem ser dissociadas de seus efeitos sociais e humanos. Do mesmo modo, à luz da psicologia social crítica de Sílvia Lane, torna-se possível compreender que o sofrimento retratado não é apenas individual, mas expressão de um contexto histórico de opressão que molda subjetividades.
Por fim, conclui-se que o filme cumpre um papel fundamental na preservação da memória coletiva e na promoção de uma consciência crítica sobre o passado recente do Brasil. Ao dar visibilidade às histórias silenciadas, a obra contribui para o fortalecimento dos valores democráticos e para a defesa dos direitos humanos, reafirmando a necessidade de vigilância permanente contra qualquer forma de autoritarismo. Assim, mais do que um relato histórico, o filme se configura como um chamado ético e político para que as violações do passado não sejam esquecidas nem repetidas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, M.H.M. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). São Paulo: Bauru, 2005.
DREIFUSS, R.A. 1964: A conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.
FAUSTO, B História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.
LANE, S. T. M. Psicologia social: o homem em movimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.
GASPARI, E. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
PIOVESAN, F. Temas de direitos humanos. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
Fontes
Ainda Estou Aqui. Direção: Walter Salles. Brasil: VideoFilmes, 2024.
1 Docente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. Mestre em Psicologia pela Unesp de Assis, Mestre em História pela Unesp de Assis e Doutora em História pela Unesp de Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis, e docente pelo Instituto de Ciências e Saúde da UNIP Assis. Graduada em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual de São Paulo, Unesp, Campus Assis. Especialista em Saúde Pública e Questões Ambientais pela FIO- Faculdade Integradas de Ourinhos. Mestre em Biociências pela Unesp de Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Discente do Curso Superior de Psicologia do Instituto de Ciências Humanas da UNIP, Campus Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail