ADESÃO AO TRATAMENTO DA SÍFILIS EM HOMENS IDOSOS: CONTRIBUIÇÕES DA ENFERMAGEM EM UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

ADHERENCE TO SYPHILIS TREATMENT AMONG OLDER MEN: NURSING CONTRIBUTIONS IN A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791865548

RESUMO
A sífilis constitui importante problema de saúde pública e permanece como desafio para os serviços de saúde, inclusive entre pessoas idosas, com participação epidemiológica relevante da população masculina. Nesse grupo, aspectos como baixa percepção de vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis, lacunas de conhecimento, práticas sexuais desprotegidas e insuficiência de ações preventivas podem repercutir no percurso do cuidado. Este estudo tem como objetivo analisar, por meio da literatura científica, as evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos, considerando as vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e as contribuições da enfermagem. Trata-se de uma revisão de literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada a partir de publicações científicas do período de 2019 a 2026 e de documentos técnico-institucionais oficiais relacionados à temática. Os achados evidenciaram crescimento da sífilis na população idosa, com maior ocorrência entre homens, além de vulnerabilidades relacionadas ao conhecimento, à percepção de risco e às práticas preventivas. A enfermagem apresenta relevante atuação na prevenção, testagem, tratamento, educação em saúde e acompanhamento dos usuários. Entretanto, não foram identificados, entre os estudos selecionados, trabalhos direcionados especificamente à adesão terapêutica de homens idosos com sífilis, evidenciando uma lacuna na literatura analisada. Conclui-se que o fortalecimento do cuidado de enfermagem e a ampliação de estudos específicos sobre adesão terapêutica nessa população são necessários para subsidiar estratégias assistenciais adequadas às suas particularidades.
Palavras-chave: Sífilis; Idoso; Saúde do homem; Enfermagem; Adesão ao tratamento.

ABSTRACT
Syphilis is an important public health problem and remains a challenge for health services, including among older adults, with a relevant epidemiological burden among men. In this population, aspects such as low perceived vulnerability to sexually transmitted infections, knowledge gaps, unprotected sexual practices, and insufficient preventive actions may affect the care pathway. This study aims to analyze, through the scientific literature, the available evidence regarding adherence to syphilis treatment among older men, considering vulnerabilities related to the care pathway and the contributions of nursing. This is a qualitative, descriptive literature review based on scientific publications from 2019 to 2026 and official technical and institutional documents related to the topic. The findings showed an increase in syphilis among older adults, with a higher occurrence among men, as well as vulnerabilities related to knowledge, risk perception, and preventive practices. Nursing plays an important role in prevention, testing, treatment, health education, and patient follow-up. However, none of the selected studies specifically investigated treatment adherence among older men with syphilis, revealing a gap in the literature analyzed. It is concluded that strengthening nursing care and expanding specific studies on treatment adherence in this population are necessary to support care strategies appropriate to their particularities.
Keywords: Syphilis; Aged; Men’s Health; Nursing; Treatment Adherence.

1. INTRODUÇÃO

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum, de evolução sistêmica e potencialmente crônica quando não diagnosticada e tratada adequadamente. Apesar da disponibilidade de métodos diagnósticos e de tratamento eficaz, a infecção permanece como importante problema de saúde pública, apresentando ocorrência em diferentes grupos populacionais, inclusive entre pessoas idosas (Brasil, 2022a; Brasil, 2023; Cunha; Santos; Lima, 2024).

O envelhecimento populacional e as mudanças relacionadas à vivência da sexualidade na terceira idade têm ampliado a necessidade de atenção às infecções sexualmente transmissíveis nessa população. A manutenção da vida sexual ativa, quando associada à baixa percepção de vulnerabilidade, ao uso reduzido de preservativos e às lacunas de conhecimento sobre as IST, pode contribuir para maior exposição das pessoas idosas. Nesse contexto, aspectos relacionados à sexualidade, à prevenção e à percepção de risco devem ser considerados na abordagem dessa população pelos serviços de saúde (Natário et al., 2022; Nascimento et al., 2023; Ferreira et al., 2026).

No caso da sífilis, além das ações de prevenção e do diagnóstico oportuno, torna-se necessário considerar fatores que possam interferir na procura pelos serviços de saúde, no acompanhamento e na continuidade do cuidado. Na população idosa, a baixa percepção de vulnerabilidade, as lacunas de conhecimento sobre as IST e a insuficiência de estratégias preventivas direcionadas a esse grupo podem contribuir para a manutenção de comportamentos de risco e dificultar o enfrentamento da infecção. Tais aspectos assumem especial relevância entre os homens idosos, diante da necessidade de compreender como essas vulnerabilidades podem repercutir no percurso do cuidado e nas condições relacionadas à realização e à continuidade do tratamento (Natário et al., 2022; Nascimento et al., 2023; Cunha; Santos; Lima, 2024).

Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde ocupa posição relevante no enfrentamento da sífilis, por constituir espaço para ações de promoção da saúde, prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos usuários. A enfermagem participa diretamente dessas ações, especialmente por meio do acolhimento, da educação em saúde, da realização de testes rápidos, da orientação quanto ao tratamento e do acompanhamento dos usuários, contribuindo para ampliar o acesso ao cuidado e favorecer o controle da infecção (Frigeri et al., 2026).

A abordagem da população masculina idosa requer atenção às particularidades relacionadas ao envelhecimento, à sexualidade, à percepção de vulnerabilidade e às formas de utilização dos serviços de saúde. Nesse sentido, compreender as evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento da sífilis e os aspectos relacionados ao percurso do cuidado pode auxiliar na identificação de possibilidades de atuação da enfermagem voltadas às necessidades desse grupo.

Diante desse cenário, estabelece-se como questão norteadora deste estudo: quais evidências estão disponíveis na literatura acerca da adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos e das contribuições da enfermagem para o cuidado dessa população?

A realização deste estudo justifica-se pela relevância da sífilis na população idosa, especialmente entre os homens, e pela necessidade de ampliar a compreensão acerca das evidências disponíveis sobre adesão ao tratamento nessa população. A abordagem dessa temática mostra-se pertinente para a enfermagem por possibilitar a sistematização de conhecimentos relacionados às vulnerabilidades e ao percurso do cuidado, capazes de subsidiar ações de educação em saúde, prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento, particularmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde, considerando as especificidades da saúde sexual masculina durante o envelhecimento.

Nesse sentido, o estudo tem como objetivo geral analisar, por meio da literatura científica, as evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos, considerando as vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e as contribuições da enfermagem. Como objetivos específicos, busca-se: descrever o contexto epidemiológico da sífilis na população idosa, com atenção ao sexo masculino; identificar vulnerabilidades e aspectos relacionados ao percurso do cuidado que possam repercutir na prevenção, no tratamento e no acompanhamento da sífilis em homens idosos; e analisar as contribuições da enfermagem para a prevenção, o diagnóstico, o tratamento, o acompanhamento e a continuidade do cuidado dessa população.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A sífilis é transmitida predominantemente por via sexual, podendo também ocorrer transmissão vertical. Embora seja uma infecção prevenível e tratável, permanece como importante problema de saúde pública. Quando não diagnosticada e tratada adequadamente, pode evoluir de forma crônica e ocasionar comprometimentos em diferentes órgãos e sistemas. Sua evolução natural apresenta períodos com manifestações clínicas distintas, intercalados por fases de latência, nas quais não são observados sinais ou sintomas (Organização Mundial da Saúde, 2025; Brasil, 2021).

Clinicamente, a sífilis adquirida é classificada em estágios primário, secundário, latente e terciário. Na sífilis primária, a manifestação característica é o cancro duro, geralmente representado por lesão ulcerada no local de entrada do T. pallidum, frequentemente indolor. Na fase secundária, podem ocorrer manifestações cutaneomucosas, linfadenopatia e sintomas sistêmicos. A fase latente caracteriza-se pela ausência de sinais e sintomas clínicos, podendo ser classificada conforme o tempo de infecção. Já a sífilis terciária pode apresentar manifestações graves, envolvendo, entre outros, os sistemas cardiovascular e neurológico, além de comprometimentos cutâneos e ósseos (Brasil, 2022b).

A existência de períodos assintomáticos assume particular importância para o diagnóstico, uma vez que a ausência de manifestações clínicas não significa ausência da infecção. O diagnóstico da sífilis pode envolver exames diretos e testes imunológicos, sendo estes últimos divididos em testes treponêmicos e não treponêmicos. Os testes rápidos constituem importante recurso para ampliação do acesso ao diagnóstico, especialmente nos serviços de saúde, por possibilitarem a realização da testagem de forma oportuna e favorecerem o início das condutas recomendadas (Brasil, 2021; Brasil, 2022b).

O tratamento da sífilis é definido conforme o estágio clínico e o tempo de evolução da infecção, sendo a benzilpenicilina benzatina o medicamento de escolha para a maioria das formas de sífilis adquirida. Na sífilis recente (primária, secundária ou latente recente), o esquema preconizado utiliza 2,4 milhões de unidades internacionais (UI), em dose única. Nos casos de sífilis latente tardia, de duração ignorada ou terciária, recomenda-se dose total de 7,2 milhões de UI, administrada em três doses semanais de 2,4 milhões de UI. Situações de neurossífilis requerem esquema terapêutico específico (Brasil, 2022b).

Além da administração do medicamento, o manejo adequado da sífilis envolve acompanhamento clínico e laboratorial, orientação do usuário e atenção às parcerias sexuais. O seguimento é importante para avaliação da resposta ao tratamento e para identificação de situações que exijam nova abordagem. Nesse processo, a continuidade do cuidado assume relevância, pois diagnóstico e prescrição, isoladamente, não asseguram a conclusão adequada do acompanhamento terapêutico (Brasil, 2022b).

Na população idosa, essas características clínicas e assistenciais devem ser consideradas em conjunto com as particularidades do envelhecimento e da saúde sexual. A possibilidade de períodos assintomáticos e a necessidade de diagnóstico, tratamento e seguimento reforçam a importância de que os profissionais de saúde também reconheçam as pessoas idosas como população sexualmente ativa e potencialmente exposta às IST. Essa compreensão torna-se especialmente relevante para o presente estudo, uma vez que a efetividade do cuidado não depende apenas da disponibilidade do tratamento, mas também das condições que favorecem sua realização e continuidade.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida com a finalidade de reunir e analisar produções científicas relacionadas à sífilis em homens idosos, às evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento, às vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e às contribuições da enfermagem no cuidado a essa população.

A busca e o levantamento das publicações foram realizados no período de maio a setembro de 2026, por meio do Google Acadêmico, da Scientific Electronic Library Online (SciELO) e da PubMed. Complementarmente, foram realizadas consultas diretas aos portais oficiais do Ministério da Saúde (MS), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), para obtenção de documentos técnico-institucionais e informações epidemiológicas relacionadas à sífilis.

Para a localização das publicações, foram utilizados termos relacionados ao objeto de estudo, combinados de acordo com as características de cada base consultada. Empregaram-se os operadores booleanos AND, para a interseção entre diferentes conceitos, e OR, para o agrupamento de termos relacionados dentro de um mesmo conceito. As estratégias foram progressivamente refinadas considerando a população de interesse, a adesão ao tratamento e a atuação da enfermagem. No PubMed, os termos pesquisados foram também submetidos ao mecanismo de tradução automática da plataforma, que associou termos indexados no Medical Subject Headings (MeSH) à busca em todos os campos. As principais estratégias utilizadas estão apresentadas no Quadro 1.

Quadro 1. Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados

Base de dados

Estratégia de busca

Período

Resultados

Google Acadêmico

"sífilis" "homens idosos"

2019–2026

aprox. 155

Google Acadêmico

"sífilis" AND ("homens idosos" OR idosos) AND ("adesão ao tratamento" OR "adesão terapêutica")

2019–2026

aprox. 849

Google Acadêmico

"sífilis" AND ("homens idosos" OR idosos) AND enfermagem

2019–2026

aprox. 2.770

SciELO

"sífilis" AND (idosos OR "pessoas idosas")

2019–2026

4*

SciELO

"sífilis" AND (idosos OR "pessoas idosas") AND ("adesão ao tratamento" OR "adesão terapêutica")

2019–2026

0

SciELO

"sífilis" AND (idosos OR "pessoas idosas") AND enfermagem

2019–2026

0

PubMed

Syphilis AND Aged

2019–2026

1.920

PubMed

Syphilis AND Aged AND Male

2019–2026

1.554

Fonte: Elaborado pelos autores (2026).

* Na SciELO, o recorte temporal foi aplicado mediante a seleção, entre os anos disponibilizados pela plataforma para os resultados recuperados, daqueles compreendidos entre 2019 e 2026. Os quatro registros exibidos no período incluíam versões em diferentes idiomas das publicações recuperadas.

Os quantitativos apresentados no Quadro 1 correspondem aos registros recuperados em cada estratégia de busca e não foram somados entre si, considerando a sobreposição de resultados entre as diferentes combinações de termos e bases consultadas.

Como critérios de inclusão, foram consideradas publicações científicas do período de 2019 a 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra e relacionadas ao objeto da pesquisa e aos seus eixos de investigação. Foram contemplados artigos científicos e outras produções acadêmico-científicas pertinentes à temática. Foram excluídas publicações duplicadas, não disponíveis na íntegra, situadas fora do recorte temporal estabelecido ou que não apresentassem contribuição para o alcance do objetivo proposto.

A seleção das publicações foi realizada a partir da análise dos títulos e resumos e, posteriormente, da leitura integral dos trabalhos considerados pertinentes ao objeto investigado. Em razão da utilização de diferentes estratégias de busca e da consequente sobreposição de resultados entre as bases consultadas, não foi estabelecido um quantitativo global a partir da soma dos registros recuperados. Ao final do processo de seleção, sete produções científicas atenderam aos critérios estabelecidos e apresentaram conteúdo pertinente aos eixos de análise definidos para o estudo, constituindo o conjunto de publicações científicas utilizadas na revisão. A caracterização dessas produções encontra-se apresentada no Quadro 2.

Quadro 2. Caracterização das produções científicas selecionadas para a revisão

Autor/ano

Produção científica

Foco principal

Contribuição para a revisão

Natário et al. (2022)

Sífilis adquirida em idosos: uma revisão integrativa

Sífilis adquirida na população idosa

Subsidiou a compreensão da ocorrência da sífilis em idosos e das vulnerabilidades relacionadas à infecção nessa população.

Nascimento et al. (2023)

Vulnerabilidades em saúde às Infecções Sexualmente Transmissíveis pela pessoa idosa

Vulnerabilidades de pessoas idosas às IST

Contribuiu para a discussão sobre conhecimento, percepção de risco, práticas preventivas e vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado.

Cunha, Santos e Lima (2024)

Acquired syphilis in older people in Brazil from 2010–2020

Sífilis adquirida em pessoas idosas no Brasil

Forneceu evidências epidemiológicas sobre a sífilis na população idosa brasileira e sua distribuição segundo características sociodemográficas.

Vidal et al. (2025)

Sífilis em idosos no Brasil: uma abordagem epidemiológica de 2014 a 2023

Perfil epidemiológico da sífilis em idosos

Contribuiu para a contextualização da magnitude e do comportamento epidemiológico da sífilis na população idosa brasileira.

Oliveira et al. (2026)

Tendência da taxa de detecção de sífilis em idosos: análise de série temporal, Brasil, 2014–2023

Tendência temporal da detecção de sífilis em idosos

Subsidiou a análise da evolução temporal da sífilis em idosos e das diferenças observadas segundo características da população estudada.

Frigeri et al. (2026)

Atuação do enfermeiro no controle da sífilis na atenção primária à saúde: revisão integrativa

Atuação da enfermagem no controle da sífilis

Fundamentou a discussão sobre as contribuições da enfermagem na prevenção, testagem, tratamento, educação em saúde e acompanhamento dos usuários.

Ferreira et al. (2026)

Envelhecimento, sexualidade e infecções sexualmente transmissíveis: tendências epidemiológicas na população idosa brasileira

Envelhecimento, sexualidade e IST na população idosa

Contribuiu para a discussão das relações entre envelhecimento, sexualidade, vulnerabilidade às IST e necessidade de estratégias de prevenção direcionadas à população idosa.

Fonte: Elaborado pelos autores (2026).

A análise das produções selecionadas evidenciou que os estudos abordavam predominantemente aspectos epidemiológicos da sífilis na população idosa, vulnerabilidades relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis, sexualidade no envelhecimento e atuação da enfermagem no controle da sífilis. Não foram identificadas, entre as sete produções selecionadas, investigações direcionadas especificamente à adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos. Dessa forma, os aspectos relacionados à adesão terapêutica foram analisados a partir das evidências disponíveis acerca das vulnerabilidades e do percurso do cuidado, sem atribuir aos estudos selecionados conclusões específicas sobre abandono ou não adesão ao tratamento nessa população.

Complementarmente, foram utilizados seis documentos técnico-institucionais provenientes de fontes oficiais, sendo quatro do Ministério da Saúde, um da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Esses documentos foram empregados para a caracterização da sífilis, a contextualização epidemiológica e a fundamentação de aspectos relacionados à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. Dessa forma, o conjunto de fontes efetivamente utilizado na fundamentação e discussão do estudo foi constituído por 13 referências, correspondentes às sete produções científicas selecionadas e aos seis documentos técnico-institucionais oficiais.

Após a seleção, as publicações foram submetidas à leitura analítica, considerando-se a pertinência das informações ao objeto investigado. Para adequação à estrutura do artigo, as informações relativas às características da doença foram apresentadas no Referencial Teórico, enquanto os achados da revisão foram organizados em três eixos para apresentação e discussão dos resultados: Contexto Epidemiológico; Vulnerabilidades e Aspectos Relacionados ao Percurso do Cuidado; e Estratégias de Prevenção. A partir desses eixos, procedeu-se à análise e discussão dos resultados, com atenção às evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos, às vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e às contribuições da enfermagem para a prevenção, o diagnóstico, o tratamento, o acompanhamento e a continuidade da assistência.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Contexto Epidemiológico

A sífilis adquirida permanece como importante problema de saúde pública no Brasil, apresentando crescimento expressivo ao longo da última década. Dados do Ministério da Saúde indicam que, entre 2012 e junho de 2023, foram notificados mais de 1,3 milhão de casos de sífilis adquirida no país. Embora tenha sido observada redução da taxa de detecção em 2020, período marcado pela pandemia de COVID-19 e por possíveis impactos no acesso aos serviços de saúde e na notificação dos casos, verificou-se retomada do crescimento a partir de 2021 (Brasil, 2023).

Entre as pessoas com 50 anos ou mais, os dados nacionais também evidenciam aumento da ocorrência da infecção. Entre 2021 e 2022, a taxa de detecção de sífilis adquirida nessa faixa etária apresentou crescimento de 30,4%, passando de 49,9 para 65,1 casos por 100 mil habitantes. Esse comportamento reforça a necessidade de atenção às faixas etárias mais avançadas nas estratégias de vigilância, prevenção, diagnóstico e cuidado relacionadas à sífilis (Brasil, 2023).

Ao analisar especificamente a população com 60 anos ou mais no Brasil, Cunha, Santos e Lima (2024) identificaram crescimento dos casos de sífilis adquirida no período de 2010 a 2020, com maior ocorrência entre indivíduos do sexo masculino. Os autores também observaram média de idade de 68,04 anos entre os casos analisados, evidenciando a presença da infecção em diferentes faixas do envelhecimento.

Resultados semelhantes foram observados por Ferreira et al. (2026), ao analisarem as tendências epidemiológicas das infecções sexualmente transmissíveis na população idosa brasileira entre 2010 e 2023. Entre as notificações de IST consideradas no estudo, a sífilis correspondeu a 76,44% dos registros selecionados, com maior ocorrência no sexo masculino. Esses achados reforçam a relevância epidemiológica da sífilis entre pessoas idosas e a participação expressiva dos homens nesse cenário.

Oliveira et al. (2026), em análise de série temporal da taxa de detecção de sífilis em pessoas idosas no Brasil entre 2014 e 2023, identificaram 117.297 casos na população com 60 anos ou mais, correspondentes a 8,28% das notificações registradas no período analisado. A taxa média de detecção foi de 59,80 casos por 100 mil habitantes, sendo superior entre os homens (77,39 por 100 mil) em comparação às mulheres (50,65 por 100 mil). Entre as faixas etárias analisadas, o grupo de 70 a 79 anos apresentou a maior taxa média de detecção, com 80,75 casos por 100 mil habitantes.

Vidal et al. (2025), ao analisarem o perfil epidemiológico da sífilis em idosos no Brasil entre 2014 e 2023, também identificaram predomínio de casos no sexo masculino, correspondente a 60,09%, enquanto o sexo feminino representou 39,84%. Em relação à distribuição etária, os indivíduos de 60 a 64 anos corresponderam a 38,34% dos casos, seguidos daqueles de 65 a 69 anos, com 26,57%, e de 70 a 79 anos, com 26,53%.

Em conjunto, os estudos demonstram que a sífilis apresenta ocorrência relevante na população idosa brasileira, com crescimento ao longo dos períodos analisados e maior participação do sexo masculino. Embora os estudos utilizem períodos, indicadores e delineamentos distintos, os achados convergem ao evidenciar a necessidade de inclusão efetiva dos homens idosos nas estratégias de prevenção, testagem, diagnóstico oportuno e acompanhamento da sífilis, considerando as particularidades relacionadas ao envelhecimento e à saúde sexual.

4.2. Vulnerabilidades e Aspectos Relacionados Ao Percurso do Cuidado

A análise das publicações selecionadas evidenciou que a vulnerabilidade das pessoas idosas às infecções sexualmente transmissíveis envolve fatores relacionados ao conhecimento, à percepção de risco, às práticas preventivas e à abordagem da sexualidade nos serviços de saúde. Esses aspectos assumem relevância na compreensão do percurso do cuidado, uma vez que podem influenciar a procura pelos serviços, o acesso às ações de prevenção e diagnóstico e a continuidade do acompanhamento em saúde.

Nascimento et al. (2023), ao analisarem as vulnerabilidades em saúde relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis entre pessoas idosas, identificaram fragilidades no conhecimento acerca das IST e de suas formas de prevenção, além de comportamentos que podem ampliar a exposição às infecções. Os achados evidenciam a necessidade de ações educativas que considerem as particularidades do envelhecimento e reconheçam a sexualidade como dimensão presente nessa etapa da vida.

Natário et al. (2022), ao abordarem a sífilis adquirida na população idosa, também destacaram aspectos relacionados à baixa percepção de vulnerabilidade, ao conhecimento insuficiente acerca da infecção e às práticas sexuais desprotegidas. Esses elementos podem contribuir para a exposição à sífilis e para o diagnóstico tardio, reforçando a importância de estratégias de prevenção e de ampliação do acesso à informação e à testagem entre pessoas idosas.

Ferreira et al. (2026) ressaltam que o envelhecimento não implica interrupção da vida sexual e que a permanência de concepções sociais que associam a velhice à ausência de sexualidade pode contribuir para a invisibilidade das necessidades de saúde sexual dessa população. Nesse contexto, a insuficiência de abordagens preventivas direcionadas às pessoas idosas pode limitar oportunidades de orientação, identificação de vulnerabilidades e diagnóstico oportuno das IST.

Na população masculina idosa, essas questões assumem particular relevância diante da maior ocorrência de sífilis entre homens observada nos estudos epidemiológicos incluídos nesta revisão. Entretanto, os dados analisados não permitem estabelecer que o predomínio masculino esteja diretamente relacionado à menor adesão ao tratamento. O que as evidências selecionadas demonstram é a presença de vulnerabilidades que podem repercutir nas diferentes etapas do percurso do cuidado, desde a prevenção e a percepção de risco até a procura pelo serviço, a testagem e o acompanhamento.

Dessa forma, fatores como conhecimento insuficiente sobre as IST, baixa percepção de vulnerabilidade, práticas sexuais desprotegidas e limitações nas ações de saúde sexual destinadas às pessoas idosas devem ser compreendidos como elementos relevantes para a organização do cuidado. Esses achados, contudo, não constituem evidência direta de abandono, interrupção ou não adesão ao tratamento da sífilis entre homens idosos, uma vez que nenhuma das sete produções científicas selecionadas investigou especificamente esse desfecho nessa população.

A ausência de estudos direcionados especificamente à adesão terapêutica de homens idosos com sífilis constitui, portanto, um achado relevante desta revisão. Embora a literatura selecionada permita identificar vulnerabilidades potencialmente relacionadas ao percurso assistencial, permanece uma lacuna quanto à compreensão dos fatores diretamente associados à realização, continuidade e conclusão do tratamento nesse grupo. Essa limitação evidencia a necessidade de investigações específicas que avaliem a adesão terapêutica entre homens idosos com sífilis e os fatores que possam favorecer ou dificultar esse processo.

4.3. Estratégias de Prevenção

A prevenção da sífilis na população idosa requer estratégias que considerem as particularidades do envelhecimento, a manutenção da vida sexual e as vulnerabilidades relacionadas ao conhecimento, à percepção de risco e às práticas preventivas. Os achados desta revisão evidenciam a necessidade de superar a concepção de que as pessoas idosas seriam sexualmente inativas e, consequentemente, pouco suscetíveis às infecções sexualmente transmissíveis, uma vez que essa percepção pode contribuir para sua menor inclusão nas ações de promoção da saúde sexual e prevenção das IST.

Nascimento et al. (2023) destacam a importância de estratégias educativas direcionadas às pessoas idosas, especialmente diante das lacunas de conhecimento e das vulnerabilidades relacionadas às IST identificadas nessa população. A educação em saúde constitui, nesse contexto, importante instrumento para ampliar o acesso à informação, favorecer a percepção de vulnerabilidade e estimular práticas preventivas, devendo ser desenvolvida de forma compatível com as necessidades e particularidades desse grupo.

Natário et al. (2022) também evidenciam a necessidade de ampliar as ações de prevenção da sífilis entre pessoas idosas, incluindo orientação sobre práticas sexuais seguras, incentivo ao uso de preservativos e acesso à testagem. Essas medidas tornam-se relevantes diante da baixa percepção de risco e das fragilidades de conhecimento identificadas na população estudada, reforçando a necessidade de que a saúde sexual seja abordada também durante o envelhecimento.

Ferreira et al. (2026), ao discutirem envelhecimento, sexualidade e infecções sexualmente transmissíveis, reforçam a necessidade de estratégias preventivas direcionadas à população idosa e de maior atenção dos serviços de saúde às práticas sexuais nessa etapa da vida. A inclusão sistemática da temática da sexualidade nas ações de saúde destinadas às pessoas idosas pode contribuir para a identificação de vulnerabilidades e para a ampliação das oportunidades de prevenção e diagnóstico das IST.

Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde constitui espaço relevante para o desenvolvimento de ações de prevenção, identificação de vulnerabilidades, testagem, diagnóstico, tratamento e acompanhamento da sífilis. Por sua proximidade com os usuários e atuação nas diferentes etapas do cuidado, a enfermagem ocupa posição estratégica na abordagem dessa população, podendo contribuir para a ampliação do acesso às ações de saúde sexual e para a continuidade da assistência.

Frigeri et al. (2026), ao analisarem a atuação do enfermeiro no controle da sífilis na Atenção Primária à Saúde, destacam sua participação em ações de educação em saúde, realização de testes rápidos, orientação dos usuários, tratamento e acompanhamento. A atuação da enfermagem favorece a identificação de situações de vulnerabilidade e a oferta de cuidado em diferentes momentos do percurso assistencial, desde as ações preventivas até o seguimento dos usuários diagnosticados.

Além da atuação individual, as estratégias de prevenção requerem abordagem que reconheça as necessidades específicas da população masculina idosa. Os dados epidemiológicos identificados nesta revisão demonstraram maior ocorrência da sífilis entre homens idosos, enquanto os estudos sobre vulnerabilidades evidenciaram lacunas relacionadas ao conhecimento, à percepção de risco e às práticas preventivas. A articulação desses achados reforça a pertinência de ações educativas e assistenciais que incluam os homens idosos como público das estratégias de saúde sexual e prevenção das IST, sem pressupor ausência de atividade sexual em razão da idade.

Nesse sentido, as contribuições da enfermagem ultrapassam a realização de procedimentos e abrangem acolhimento, educação em saúde, orientação, testagem, participação no tratamento e acompanhamento dos usuários. No contexto da sífilis em homens idosos, essas ações podem contribuir para reduzir barreiras ao acesso à informação e ao cuidado, ampliar oportunidades de diagnóstico e favorecer a continuidade da assistência. Entretanto, considerando a ausência de estudos específicos sobre adesão terapêutica nessa população entre as produções selecionadas, não é possível afirmar, com base nos achados desta revisão, que essas estratégias produzam aumento mensurável da adesão ao tratamento em homens idosos com sífilis.

Assim, o fortalecimento das ações de enfermagem voltadas à saúde sexual da pessoa idosa, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde, mostra-se relevante para a prevenção e o enfrentamento da sífilis. A inclusão dos homens idosos nas ações educativas, preventivas, diagnósticas e assistenciais pode favorecer um cuidado mais compatível com suas necessidades e contribuir para a continuidade do acompanhamento, ao mesmo tempo em que a lacuna identificada na literatura evidencia a necessidade de estudos que avaliem especificamente os fatores relacionados à adesão terapêutica nessa população.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão permitiu analisar as evidências disponíveis acerca da adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos, considerando as vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e as contribuições da enfermagem. Os achados evidenciaram que a sífilis apresenta ocorrência relevante na população idosa brasileira, com maior participação masculina nos estudos epidemiológicos analisados, reforçando a necessidade de inclusão dos homens idosos nas ações de saúde sexual e de enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis.

Foram identificadas vulnerabilidades relacionadas ao conhecimento sobre as IST, à percepção de risco, às práticas preventivas e à abordagem da sexualidade durante o envelhecimento. Esses aspectos mostram-se relevantes para a compreensão do percurso do cuidado, podendo repercutir na prevenção, na procura pelos serviços, no acesso à testagem e na continuidade do acompanhamento. Entretanto, os estudos selecionados não permitem estabelecer relação direta entre essas vulnerabilidades e a não adesão ao tratamento da sífilis entre homens idosos.

A enfermagem apresenta importante atuação nas diferentes etapas do cuidado, por meio de ações de educação em saúde, prevenção, testagem, orientação, tratamento e acompanhamento dos usuários, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde. A inclusão da população masculina idosa nessas ações pode contribuir para ampliar o acesso à informação, favorecer o diagnóstico oportuno e fortalecer a continuidade da assistência, considerando as particularidades relacionadas ao envelhecimento e à saúde sexual.

Contudo, a revisão evidenciou uma lacuna relevante na literatura analisada, uma vez que não foram identificados, entre os estudos selecionados, trabalhos direcionados especificamente à adesão ao tratamento da sífilis em homens idosos. Dessa forma, embora as evidências disponíveis permitam reconhecer vulnerabilidades relacionadas ao percurso do cuidado e importantes possibilidades de atuação da enfermagem, não é possível determinar, com base nos estudos analisados, os fatores diretamente associados à adesão, à interrupção ou à conclusão do tratamento nessa população.

Conclui-se que o fortalecimento das ações de enfermagem voltadas à saúde sexual dos homens idosos e sua inclusão sistemática nas estratégias de prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento da sífilis constituem medidas relevantes para qualificar o cuidado. Recomenda-se, ainda, o desenvolvimento de pesquisas direcionadas especificamente à adesão terapêutica de homens idosos com sífilis, capazes de identificar fatores associados à realização e à continuidade do tratamento e subsidiar intervenções assistenciais fundamentadas nas necessidades dessa população.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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AGRADECIMENTOS

Agradecemos, primeiramente, a Deus, por nos conceder força, sabedoria e perseverança durante toda esta caminhada acadêmica.

Aos nossos familiares, pelo apoio, incentivo, compreensão e presença constante ao longo desta trajetória, especialmente nos momentos de maior dedicação e desafio.

Às nossas orientadoras, pela disponibilidade, pelas contribuições, pelo conhecimento compartilhado e pelas orientações fundamentais para o desenvolvimento e a conclusão deste trabalho.

A todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste estudo, expressamos nossa sincera gratidão.


1 Acadêmica do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-7022-8747

2 Acadêmico do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Acadêmica do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

4 Acadêmica do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

5 Professora tutora do Ensino Superior do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. Doutora em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva pelo INPA.

6 Professora tutora do Ensino Superior do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro, Manaus, Amazonas, Brasil. Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8244-8074.