REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780550863
RESUMO
Este estudo visou analisar a violência digital contra meninas no contexto escolar, compreendendo suas manifestações e impactos a partir de uma revisão de literatura recente. Desse modo, buscou-se identificar os conceitos e fundamentos que sustentam a discussão sobre a temática e compreender os efeitos emocionais, pedagógicos e sociais decorrentes das práticas de violência digital, destacando lacunas e desafios para o enfrentamento. Quanto à metodologia, utilizamos uma abordagem qualitativa de caráter narrativo, fundamentada em revisão de literatura realizada entre 2020 e 2026, com coleta de dados em 4 bases de dados: Scopus, Web of Science, SciELO e Google acadêmico. Os resultados evidenciam que o cyberbullying e o assédio virtual foram/são formas mais recorrentes de violência digital, com impactos significativos na autoestima, desempenho escolar e permanência, especialmente do público feminino no contexto escolar. Sendo assim, o enfrentamento desse impasse exige políticas públicas integradas, práticas pedagógicas reflexivas e estratégias educativas voltadas para a cidadania digital a fim da transformação no ambiente escolar.
Palavras-chave: violência digital; gênero; cyberbullying; contexto escolar.
ABSTRACT
This study aimed to analyze digital violence against girls in the school context, understanding its manifestations and impacts based on a recent literature review. Thus, it sought to identify the concepts and foundations that support the discussion on the subject and understand the emotional, pedagogical, and social effects resulting from digital violence practices, highlighting gaps and challenges for addressing it. Regarding the methodology, we used a qualitative narrative approach, based on a literature review conducted between 2020 and 2026, with data collection in 4 databases: Scopus, Web of Science, SciELO and Google Scholar. The results show that cyberbullying and online harassment were/are the most recurrent forms of digital violence, with significant impacts on self-esteem, school performance, and retention, especially among female students in the school context. Therefore, addressing this impasse requires integrated public policies, reflective pedagogical practices, and educational strategies focused on digital citizenship in order to transform the school environment.
Keywords: digital violence; gender; Cyberbullying in a school setting.
RESUMEN
Este estudio tuvo como objetivo analizar la violencia digital contra las niñas en el contexto escolar, comprendiendo sus manifestaciones e impactos a partir de una revisión reciente de la literatura. Se buscó identificar los conceptos y fundamentos que sustentan el debate sobre el tema y comprender los efectos emocionales, pedagógicos y sociales derivados de las prácticas de violencia digital, destacando las brechas y los desafíos para abordarla. En cuanto a la metodología, se utilizó un enfoque cualitativo narrativo, basado en una revisión de la literatura realizada entre 2020 y 2026, con recopilación de datos en 4 bases de datos: Scopus, Web of Science, SciELO y Google Académico. Los resultados muestran que el ciberacoso y el acoso en línea fueron/son las formas más recurrentes de violencia digital, con impactos significativos en la autoestima, el rendimiento escolar y la permanencia, especialmente entre las estudiantes. Por lo tanto, abordar este problema requiere políticas públicas integradas, prácticas pedagógicas reflexivas y estrategias educativas centradas en la ciudadanía digital para transformar el entorno escolar.
Palabras-clave: violencia digital; género; ciberacoso en el ámbito escolar.
INTRODUÇÃO
A violência digital, atualmente presente também no contexto escolar, constitui um fenômeno emergente e de grande relevância social, especialmente diante da crescente inserção de crianças e adolescentes em ambientes virtuais. Com a expansão das redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais de interação, novas formas de agressão passaram a se manifestar, extrapolando os limites físicos da escola e alcançando o ciberespaço. Nesse sentido, Rivoli (2025) argumenta sobre a necessidade de uma análise crítica e aprofundada, capaz de diferenciar a violência tradicional das práticas que emergem no ambiente digital, reconhecendo seus impactos na subjetividade e no desenvolvimento integral dos sujeitos.
Sob esse viés, o presente estudo compreende esse tipo de violência como multifacetada, abrangendo práticas como cyberbullying, assédio virtual, discurso de ódio, exposição indevida de imagens e sexting não consentido. Tais manifestações, tendem a comprometerem a dignidade e a privacidade das vítimas, aspectos que interferem tanto na saúde emocional, como na trajetória escolar dos estudantes. Desse modo, a escola, enquanto espaço privilegiado de socialização e formação cidadã, torna-se palco para observar e enfrentar essas práticas, que se configuram como extensão das violências estruturais presentes na sociedade contemporânea.
Diante dessa perspectiva, temos por objetivo analisar a produção acadêmica em torno dessa temática no período de 2020 a 2026, buscando identificar tendências, lacunas e contribuições teóricas que possam subsidiar estratégias de enfrentamento. Como objetivos específicos, pretende-se mapear os conceitos e fundamentos que sustentam a discussão sobre violência digital; compreender os impactos emocionais, pedagógicos e sociais decorrentes dessas práticas e refletir sobre os desafios que ainda persistem na construção de uma cultura digital ética e responsável.
Desse modo, o estudo é relevante para compreendermos como as tecnologias digitais, ao mesmo tempo, em que ampliam as possibilidades de interação e aprendizagem, também criam novos espaços de conflito e violência. Ao destacar os efeitos da violência digital sobre meninas, por exemplo, o estudo contribui para o debate sobre gênero, cidadania digital e proteção integral de crianças e adolescentes. Além disso, reforça a importância de políticas públicas e práticas pedagógicas que articulem educação, saúde e convivência ética no contexto escolar.
Para alcançar tais objetivos, estruturamos nosso debate da seguinte forma: fundamentos conceituais da violência digital, com destaque para suas especificidades em relação ao bullying tradicional; análise da violência digital no contexto escolar, evidenciando seus impactos emocionais, pedagógicos e institucionais e a discussão sobre políticas, práticas e desafios de enfrentamento, considerando o arcabouço jurídico e as iniciativas educativas para concluir as discussões teóricas. Adiante, detalhamos a metodologia utilizada para a coleta dos dados e em seguida, analisamos os dados, que sintetizam os achados da revisão de literatura, feita em 4 bases de dados, abarcando os últimos 6 anos. Essa organização busca oferecer uma visão abrangente e crítica sobre o tema, articulando teoria, prática e implicações sociais a respeito da temática que se faz atual e pertinente em nossa sociedade atual.
Fundamentos Conceituais da Violência Digital
A violência digital, também denominada violência online ou violência mediada por tecnologias, constitui um fenômeno crescente na sociedade contemporânea. Com a expansão das redes sociais, aplicativos de mensagens e ambientes virtuais de interação, novas formas de agressão passaram a se manifestar, segundo Van Dijck (2009), extrapolando, assim, os limites físicos da escola e alcançando os espaços digitais. Esse cenário exige uma compreensão teórica consistente, capaz de diferenciar a violência tradicional das práticas que emergem no ciberespaço, tendo em vista que, nos últimos anos, ela “emergiu como um fenômeno complexo e multifacetado, representando uma ameaça significativa aos direitos humanos fundamentais, particularmente o direito à privacidade e à dignidade” (Rivelli, 2025, p. 60).
Entre os conceitos mais recorrentes pautados no espaço virtual a respeito desse tipo de violência, destaca-se o cyberbullying, caracterizado por agressões repetitivas realizadas por meio de dispositivos digitais, geralmente com intenção de humilhar ou intimidar a vítima. Conforme Rivelli (2025, p. 67), ele engloba o “envio de mensagens ofensivas, a divulgação de informações pessoais ou embaraçosas, a exclusão social online, entre outras práticas.” O autor evidencia que essa prática tende a gerar sérias consequências nas vítimas, “incluindo depressão, ansiedade e, em casos extremos, pensamentos suicidas” (ibid, p. 67 Além dele, outras práticas como o assédio virtual, o discurso de ódio, exposição indevida de imagens, cyberstalking, spyware e sexting não consentido também configuram modalidades de violência digital, segundo os apontamentos do autor. Tendo em vista a diversidade de termos, observamos a complexidade que esse fenômeno tem na atualidade, sendo necessária a reflexão sobre o assunto a fim de propor resolutivas para amenizar, inicialmente, e posteriormente extinguir essas práticas.
É válido frisar que a principal diferença entre a violência presencial e a digital reside em fatores como o anonimato, a ampliação do alcance e a permanência das agressões. Enquanto o bullying tradicional ocorre em espaços delimitados, a violência digital pode ser reproduzida indefinidamente, atingindo públicos muito maiores e perpetuando o sofrimento da vítima. Rivelle (2025, p. 65) ressalta que isso acontece, pois ela “envolve o uso de tecnologias para perpetuar abusos emocionais, psicológicos e, em alguns casos, físicos contra as vítimas, praticando os crimes digitais. Essa característica confere ao fenômeno uma dimensão mais duradoura e, muitas vezes, mais devastadora, já que a vítima pode se sentir desencorajada a buscar refúgio fora da escola e nos demais espaços sociais.
Do ponto de vista teórico, os estudos da cibercultura oferecem instrumentos para compreender como as tecnologias digitais não apenas ampliam as possibilidades de interação, mas também criam novos espaços de conflito e de violência. Sob essa perspectiva, Lévy (1999) a entende como uma expressão da cultura contemporânea, resultante do uso generalizado das tecnologias de comunicação e informação. Essa transformação cultural, ao mesmo tempo em que potencializa a inteligência coletiva e a colaboração, também abre margem para práticas nocivas, a exemplo do cyberbullying e do assédio virtual. Assim, a violência digital pode ser interpretada como um efeito colateral da própria dinâmica da cibercultura: um ambiente em que os modos de aprender, se relacionar e produzir conhecimento são atravessados por tensões sociais que se reproduzem e se intensificam no espaço virtual.
Como consequência dessa nova configuração, vemos os impactos desse tipo de violência na subjetividade de crianças e adolescentes. Atualmente, é crescente as denúncias de práticas delitivas sobre essa temática, estas decorrentes de “transformações e evoluções tecnológicas que refletem em todos os segmentos da sociedade, acarretando novas relações jurídicas e sociais”, conforme Mikaelian (2018, p. 18 Ademais, Simões dos Santos e Nascimento Ferreira (2025) destacam que as vivências de violência digital acarretam sérias consequências emocionais para os sujeitos, a exemplo de “ansiedade, queda na autoestima, isolamento e dificuldades de aprendizagem, o que compromete sua participação nas atividades escolares e prejudica seu desenvolvimento integral” (ibid., p. 4).
Tais impactos, em junção à exposição contínua a esse tipo de situação, fragilizam ainda mais a construção da autoestima e da identidade, dimensões fundamentais para a formação de sujeitos críticos e autônomos. Logo, compreender os fundamentos conceituais da violência digital implica reconhecer seus efeitos diretos sobre a saúde mental, os quais serão repercutidos no processo educativo, evidenciando a necessidade de abordagens pedagógicas e institucionais que considerem tais repercussões. Desse modo, algumas proposições resolutivas seriam a integração entre “educação digital, convivência ética, participação da comunidade escolar e fortalecimento das relações interpessoais” (ibid., p. 2).
Por fim, é importante destacar que a violência digital não deve ser analisada apenas como um fenômeno tecnológico, mas como uma expressão das relações sociais contemporâneas. A escola, enquanto espaço de socialização e formação cidadã, torna-se palco privilegiado para observar e enfrentar essas práticas. Assim, o estudo e a compreensão dos conceitos e fundamentos dessa área constituem etapa essencial para a construção de estratégias de prevenção e intervenção aplicadas no ambiente escolar, familiar e demais espaços sociais.
Violência Digital no Contexto Escolar
A escola, enquanto espaço privilegiado de socialização, não está imune às transformações trazidas pelas tecnologias digitais, especialmente no que se refere a contextos e situações de violência. Tal perspectiva é abarcada, pois a “violência é um traço constante ao longo da história, porém sua interpretação se transforma de acordo com o tempo, o local e o contexto sociocultural, tornando-a dinâmica na sociedade” (Santos, 2023, p. 25).
Desse modo, o ambiente escolar, tradicionalmente associado ao convívio presencial, passou a ser atravessado por interações que se estendem para o ciberespaço. Nesse sentido, a violência digital emerge como um fenômeno que repercute diretamente nas relações entre estudantes, professores e comunidade escolar, exigindo novas formas de compreensão e enfrentamento.
Sob esse viés, o Boletim técnico do MEC (2025) evidencia que o cyberbullying se consolidou como uma das manifestações mais recorrentes da violência digital em escolas, ampliando os impactos da violência tradicional para o ambiente virtual. As formas mais comuns dessa prática incluem insultos, humilhações públicas, disseminação de boatos e exposição indevida de imagens ou informações pessoais. Diferente do bullying presencial, ele intensifica seus efeitos, pois a vítima é exposta a um público muito maior e, muitas vezes, de maneira contínua e ininterrupta. Em vista disso, as consequências para adolescentes são profundas e devastadoras, já que Boletim (BRASIL, 2025) aponta que jovens submetidos a essa situação apresentam maior propensão a desenvolver problemas emocionais, como ansiedade, depressão e isolamento social, além de queda no desempenho escolar e aumento da evasão. Soma-se a isso a dificuldade de controle e responsabilização, já que a violência digital se espalha rapidamente e rompe as barreiras de alcance do espaço escolar, tornando-se um desafio que ultrapassa os limites institucionais.
Ao enfatizar tais impactos, o documento reforça que o fenômeno não pode ser tratado apenas como uma questão disciplinar, mas como um problema de saúde pública, que exige respostas integradas entre educação, saúde e políticas sociais. Nesse sentido, vemos que a violência digital tem se revelado como um problema estrutural, inserido no cotidiano escolar como extensão das práticas de exclusão e intimidação já presentes no espaço físico.
Ademais, é válido mencionar que o ambiente escolar, por sua própria natureza, torna-se um campo fértil para a reprodução dessas práticas. A convivência diária entre pares, somada ao uso intenso de dispositivos móveis, favorece a continuidade das agressões fora dos muros da escola. Logo, “considerando que as tecnologias, numa visão crítica, são produtos das relações entre o homem e a sociedade, é preciso conhecer e promover o uso das tecnologias para uma formação mais humana dos sujeitos” (Souza, 2023, p.25).
Assim, a tecnologia pode ser compreendida como uma importante aliada da educação, exercendo impacto direto na formação integral dos indivíduos. Ao reforçar o papel social da escola — que consiste em promover a consciência crítica e a autonomia dos sujeitos — os recursos tecnológicos devem ser aplicados de forma intencional, contribuindo para a eliminação de práticas discriminatórias e para a conscientização dos estudantes sobre como agir diante de situações de violência digital. Dessa maneira, ampliam-se as possibilidades de aprendizagem e fortalece-se a construção de cidadãos mais críticos, reflexivos e preparados para enfrentar os desafios da sociedade contemporânea.
Outrossim, observamos que a violência causa o comprometimento pedagógico, diminuição dos escores de desempenho escolar e até mesmo desinteresse pelos estudos/escola, conforme Gadelha e Souza (2024). O autor ainda reforça que os prejuízos vão além da esfera psicológica, atingindo dimensões acadêmicas, sociais e institucionais. Embora no âmbito escolar, o cyberbullying comprometa diretamente o desempenho dos estudantes, os efeitos se estendem às relações sociais, já que as vítimas tendem ao isolamento, evitando interações com colegas e prejudicando o desenvolvimento de competências de convivência e cooperação. Outro aspecto importante é o impacto institucional, tendo em vista que ele repercute na dinâmica pedagógica e relacional da escola, mesmo quando os episódios ocorrem fora do horário escolar. Isso acontece porque professores e demais sujeitos do espaço escolar enfrentam dificuldades para delimitar responsabilidades/penalidades aos agressores e garantir um ambiente seguro.
Diante desse cenário, entende-se que a violência digital no contexto escolar não pode ser compreendida apenas como um problema tecnológico, mas como uma questão social e educacional. A escola, enquanto espaço de formação cidadã, precisa assumir o papel de mediadora e promotora de práticas de convivência ética no ambiente digital. Isso inclui a “responsabilidade de criar um ambiente seguro e acolhedor e de instrumentalizar os estudantes para reconhecer e enfrentar as violências sofridas e experimentadas cotidianamente, e contribuem para o adoecimento dos adolescentes” (Mota 2023, p. 100).
Contudo, reconhecer a existência e os impactos da violência digital constitui o primeiro passo essencial para a elaboração de estratégias eficazes de enfrentamento, pois somente a partir dessa consciência coletiva é possível transformar a escola em um espaço de resistência, prevenção e promoção de uma cultura digital pautada no respeito e na dignidade humana.
Políticas, Práticas e Desafios de Enfrentamento
Frente aos debates apresentados e considerando a violência escolar no contexto escolar, vemos a necessidade de uma articulação entre políticas públicas, práticas pedagógicas e ações comunitárias para resolver a situação. A complexidade do fenômeno exige que a escola não atue isoladamente, mas em consonância com legislações nacionais e iniciativas institucionais que reconheçam a gravidade das agressões virtuais. Nesse sentido, compreender os marcos normativos e as estratégias já implementadas é fundamental para avaliar os avanços e as lacunas existentes.
No Brasil, por exemplo, a inserção de crianças e adolescentes em ambientes digitais revisitou novas formas de violência, exigindo do Estado e da sociedade mecanismos de proteção adequados. Nesse contexto, instrumentos legais como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Lei nº 13.185/2015, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, e o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) configuram um arcabouço jurídico voltado para a garantia de direitos e a prevenção de abusos. No entanto, a efetividade dessas normas depende diretamente de sua aplicação concreta no cotidiano escolar e familiar.
O ECA, em sua essência, estabelece a proteção integral de crianças e adolescentes contra qualquer forma de violência, incluindo aquelas que ocorrem em ambientes digitais. Com atualizações recentes, o estatuto passou a exigir das plataformas digitais mecanismos de supervisão e restrição de conteúdos nocivos, reforçando o papel das famílias e das escolas na orientação e acompanhamento do uso da internet. Já a Lei nº 13.185/2015 define o bullying como prática de violência física ou psicológica repetitiva e intencional, abrangendo também o cyberbullying, caracterizado por ofensas, exclusão e difamação em redes sociais. Essa legislação impõe às instituições de ensino a responsabilidade de criar programas de prevenção e conscientização, envolvendo professores, alunos e famílias em ações educativas. Por sua vez, o Marco Civil da Internet estabelece princípios de liberdade, privacidade e proteção de dados, impondo aos provedores de serviços digitais a obrigação de colaborar em investigações e garantir que os direitos dos usuários sejam respeitados, especialmente no que diz respeito à exposição indevida e ao assédio virtual.
Apesar da solidez do arcabouço jurídico existente, o maior desafio está em transformar essas normas em práticas efetivas no cotidiano escolar. Para isso, é indispensável que as instituições de ensino estabeleçam protocolos claros de enfrentamento à violência digital, articulando suas ações com famílias e órgãos de fiscalização, de modo a fortalecer a proteção prevista em lei. Paralelamente, a promoção da cidadania digital e da conscientização sobre o uso responsável da internet torna-se essencial para garantir que os dispositivos legais cumpram sua função. Nesse contexto, programas de prevenção e reflexão sobre o impacto das tecnologias digitais devem ser incorporados ao ambiente escolar, acompanhados de campanhas educativas, palestras e projetos interdisciplinares capazes de sensibilizar e orientar estudantes e professores quanto aos riscos da violência online, fomentando uma cultura de respeito e empatia. A mediação escolar, por sua vez, configura-se como estratégia relevante para a resolução de conflitos e para a prevenção da intensificação de situações de agressão no espaço digital.
Em síntese, nosso país dispõe de um conjunto de leis que, em teoria, asseguram a proteção de crianças e adolescentes contra a violência digital. Contudo, a eficácia desse arcabouço jurídico não se limita à sua existência formal, mas depende da capacidade de articulação entre Estado, escolas e famílias, bem como da promoção de uma cultura de respeito e responsabilidade no ambiente virtual. É nesse ponto que se revela o desafio transformador das normativas em práticas concretas de proteção e prevenção, o que exige não apenas fiscalização e punição, mas sobretudo educação e sensibilização. Sob esse viés, observamos que a construção de uma cultura digital ética e responsável demanda esforços coletivos e contínuos, capazes de consolidar a escola como espaço de resistência à violência e de promoção da convivência saudável.
Mota (2023) propõe que, mais do que aplicar medidas punitivas, o enfrentamento da violência digital no contexto escolar deve estar orientado para a formação integral de sujeitos críticos e conscientes de seus direitos e deveres no mundo digital. Isso implica desenvolver competências socioemocionais, estimular o pensamento reflexivo e fomentar valores como empatia, solidariedade e respeito às diferenças. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que esse tipo de violência reflete dinâmicas sociais mais amplas, como desigualdade, exclusão e preconceito, o que reforça a importância de políticas públicas integradas e de práticas pedagógicas que articulem o uso das tecnologias com a promoção da cidadania. Assim, conforme as discussões de Simões dos Santos e Nascimento Ferreira (2025), compreendemos que o combate à violência digital não pode ser visto como uma ação isolada, mas como parte de um projeto educativo mais amplo, voltado para a construção de uma sociedade democrática, inclusiva e capaz de conviver de forma saudável tanto no espaço físico quanto no virtual.
METODOLOGIA
A presente pesquisa trata-se de uma revisão de literatura de caráter narrativo, fundamentada na análise de produções científicas recentes que articulam os campos da educação e dos estudos de gênero. Em vista disso, a enquadramos como qualitativa, já que Denzin e Lincoln (2006) compreendem a investigação qualitativa como um esforço interpretativo voltado para a compreensão dos fenômenos em seus cenários naturais. Essa escolha metodológica se justifica pela complexidade da violência digital no contexto escolar, em nossa atualidade, fenômeno que exige um estudo dos significados atribuídos pelos sujeitos e das formas como se manifesta nas produções acadêmicas recentes. Desse modo, tivemos por objetivo mapear e analisar estudos publicados entre os anos de 2020 e 2026, identificando tendências, lacunas e contribuições teóricas que pudessem subsidiar reflexões críticas sobre a temática.
Para isso, o processo de coleta de dados foi realizado em bases de referência, a saber, Scopus, Web of Science, SciELO e Google Acadêmico, utilizando palavras-chave: violência digital; cyberbullying; gênero e contexto escolar; inicialmente; foram encontrados 75 artigos; combinamos operadores booleanos e esse número foi reduzido para 44 artigos; Após a aplicação do recorte temporal dos últimos 6 anos; obtemos o quantitativo de 18 artigos; Em seguida; após a leitura dos resumos; objetivos e metodologias dos textos; identificamos e selecionamos nove artigos devido à sua objetividade a respeito do tema.
Quanto à análise dos dados, por se tratar de uma revisão de literatura, optamos pela descrição do conteúdo dos artigos referentes aos objetivos do trabalho, destacando as variáveis: autor, país, ano de publicação, palavras-chave e tipo de violência digital abordada. Após, foram identificados padrões recorrentes, como a predominância do cyberbullying enquanto foco central das pesquisas. Nesse momento, foram registradas também as contribuições teóricas e metodológicas de cada estudo, bem como suas limitações. Ao final, buscou-se sintetizar os achados em relação ao contexto escolar e às especificidades de gênero, comparando diferentes realidades culturais e temporais e destacando lacunas ainda presentes na literatura, a exemplo da pouca atenção às experiências específicas de meninas.
INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
A partir do corpus selecionado, composto por nove artigos provenientes de diferentes países e realidades educacionais, buscou-se identificar padrões, recorrências e especificidades que caracterizam esse fenômeno, bem como suas implicações pedagógicas, sociais e emocionais. Ademais, procuramos estabelecer relações entre os dados, evidenciar lacunas e apontar caminhos para futuras investigações, destacando a relevância da temática para a construção de estratégias de enfrentamento e prevenção no ambiente escolar.
Desse modo, os artigos selecionados na base Scopus demonstram uma visão abrangente e atualizada sobre o fenômeno da violência digital no contexto escolar, especialmente em 2024 e 2025, com ênfase no cyberbullying como a manifestação mais recorrente. Vejamos a ilustração dos achados no quadro 1 abaixo:
Quadro 1: Scopus
Nº | Título do Artigo | País / Ano de publicação | Autor(es) | Palavras- Chave | Tipo de Violência Digital |
01 | Efeitos diferenciais da amizade e das normas escolares na defesa de adolescentes em situações de cyberbullying: um experimento randomizado em ambiente escolar. | Alemanha/2025 | -Stefanie Richters, -Maor Shani, -Lea Geyer -Maarten HW van Zalk | -Cyberbullying - Relação professor-aluno - Adolescentes -Perspectiva intraindividual - Contexto escolar | Cyberbullying |
02 | Relações positivas entre professores e alunos levam a menos casos de cyberbullying: uma perspectiva intraindividual. | China/2024 | -Gao Ling, -Li Xuan, -Wu Xiani -Wang Xingchao | - Cyberbullying -Amizade entre pares -Normas escolares -Adolescentes -Intervenção escolar | Cyberbullying |
03 | Explorando a compreensão dos adolescentes sobre o cyberbullying nas redes sociais por meio da mineração de informações. | Indonésia/2025 | -Tita Melia Milyane,Muhammad Al Assad Rohimakumullah& Muhammad Rio Fariza | -Cyberbullying -Adolescentes -Redes sociais -Assédio online -Comunicação digital | Cyberbullying |
Fonte: arquivos das pesquisadoras (2025)
Por meio da leitura do primeiro estudo, realizado na Alemanha em 2025, vemos que as normas de amizade e os vínculos entre pares exercem papel decisivo na defesa de adolescentes em situações de agressão online. A pesquisa demonstra que relações de amizade fortalecidas funcionam como fator de proteção, estimulando comportamentos de apoio às vítimas e reduzindo a perpetuação das práticas de violência digital. Esse achado é relevante porque desloca o foco da análise apenas dos agressores para incluir também o papel dos espectadores, que podem atuar como agentes de resistência ou reforço da violência.
Em seguida, o segundo artigo, desenvolvido na China em 2024, reforça a importância das relações pedagógicas ao demonstrar que vínculos positivos entre professores e alunos reduzem significativamente a incidência de cyberbullying. Desse modo, podemos dizer que a contribuição central desse estudo está em reconhecer o professor como figura de proteção, capaz de atuar preventivamente por meio de relações de confiança e acolhimento. Contudo, a limitação reside na restrição cultural, já que o estudo foi realizado exclusivamente em escolas chinesas, o que pode dificultar a generalização dos resultados para outros contextos educacionais.
O último texto desse periódico, o qual relata a realidade da Indonésia em 2025, amplia a discussão ao investigar como adolescentes compreendem o cyberbullying nas redes sociais, utilizando técnicas de mineração de informação. Sob esse viés, o estudo evidencia as vozes dos próprios jovens, revelando que, embora reconheçam o cyberbullying como prática violenta, muitos o naturalizam como parte do cotidiano digital. Essa constatação aponta para um desafio pedagógico e social: a necessidade de desconstruir a banalização da violência online e promover uma cultura digital pautada no respeito e na empatia. Apesar de sua contribuição, ele apresenta como lacuna a ausência de uma análise mais aprofundada das experiências específicas de meninas, o que limita sua aplicabilidade para compreender a violência digital sob a perspectiva de gênero.
Em suma, os textos da Scopus convergem ao destacar que as relações interpessoais — sejam de amizade entre pares ou de vínculo entre professores e alunos — constituem fatores fundamentais na prevenção do cyberbullying. Além disso, evidenciam que a percepção dos adolescentes sobre a violência digital ainda é marcada por ambiguidades, oscilando entre o reconhecimento da agressão e sua naturalização. Essa ambivalência reforça a necessidade de estratégias educativas que promovam a conscientização crítica e o fortalecimento das relações humanas no ambiente escolar.
Adiante, os estudos selecionados na Web of Science ampliam nossa compreensão sobre a violência digital, especificamente contra meninas e adolescentes, trazendo perspectivas que articulam gênero, tecnologia e vulnerabilidade no espaço escolar e social. O quadro 2 abaixo ilustra os elementos centrais destacados nas publicações da Web of Science.
Quadro 2: Web of Science
Nº | Título do Artigo | País / Ano de publicação | Autor(es) | Palavras- Chave | Tipo de Violência Digital |
04 | Violência no ciberespaço contra meninas e adolescentes do sexo feminino | Estados Unidos /2020 | June F. Chisholm | -Violência digital -Cyberbullying -Meninas Adolescentes -Riscos na internet -Vitimização online | Cyberbullying |
05 | Reconceptualizando a divisão digital de gênero e acomodando novas formas de violência virtual baseada em gênero. | Estados Unidos/2025 | Elena López Arana Prado | -Divisão digital de gênero -Violência de gênero virtual -Violência digital -Desigualdade de gênero -Assédio online | Violência de gênero no ciberespaço |
Fonte: arquivos das pesquisadoras (2026).
Diante da leitura do quarto texto, intitulado “Violência no ciberespaço contra meninas e adolescentes do sexo feminino”, publicado nos Estados Unidos, vemos uma abordagem pioneira, a respeito da violência digital, ao discutir os riscos específicos enfrentados por meninas em ambientes digitais. Esse estudo evidencia que a vitimização online não se restringe ao cyberbullying, mas envolve práticas mais amplas de assédio, exposição indevida e exploração, ressaltando que meninas constituem um grupo particularmente vulnerável devido às desigualdades de gênero que se reproduzem no espaço virtual. Desse modo, a contribuição central do escrito está no reconhecimento da violência digital como uma extensão das violências estruturais já presentes na sociedade, o que reforça a necessidade de políticas públicas e estratégias educativas sensíveis às questões de gênero.
A seguir, o quinto artigo, selecionado, o qual foi publicado em 2025, aprofunda a discussão ao problematizar a chamada “divisão digital de gênero”. Ao longo do texto, a autora argumenta que, embora o acesso às tecnologias tenha se ampliado, persistem desigualdades que se manifestam tanto no uso quanto nas consequências da interação digital. Nesse sentido, o estudo evidencia que o sexo feminino não apenas enfrenta barreiras de acesso, mas também está exposto a formas específicas de violência, como o sexting não consentido, o cyberstalking e o discurso de ódio direcionado. Logo, o texto traz uma atualização conceitual, ao propor que a violência digital baseada em gênero deve ser compreendido como um fenômeno dinâmico, que acompanha as transformações tecnológicas e sociais contemporâneas.
Em síntese, os textos da Web of Science convergem ao destacar que a violência digital contra meninas não pode ser analisada apenas como um problema tecnológico ou disciplinar, mas como uma questão estrutural que reflete desigualdades de gênero e dinâmicas sociais mais amplas. Enquanto o primeiro estudo enfatiza a vulnerabilidade das adolescentes no espaço digital, o segundo amplia a discussão ao propor uma reconceituação da própria divisão digital, evidenciando que a violência online é atravessada por fatores culturais, sociais e institucionais.
Apesar de suas contribuições relevantes, ambos os textos apresentam limitações. O estudo de 2020 não contempla as transformações mais recentes das plataformas digitais e das práticas de violência. Já o artigo de 2025, embora atual, carece de análises empíricas mais aprofundadas especificamente sobre o contexto escolar, o que limita sua aplicabilidade direta para compreender a realidade vivida por meninas em ambientes educativos.
De modo geral, os textos desse periódico reforçam a importância de considerar a violência digital contra meninas como um fenômeno de gênero, que exige não apenas medidas de proteção tecnológica, mas sobretudo políticas educativas e sociais capazes de enfrentar as desigualdades que sustentam tais práticas.
A seguir, artigos selecionados na base SciELO oferecem uma perspectiva mais próxima da realidade latino-americana, especialmente no que se refere às práticas de violência digital no contexto escolar e às suas implicações sociais e pedagógicas. Diferentemente das produções internacionais, que tendem a enfatizar aspectos conceituais ou metodológicos específicos, os estudos da SciELO se destacam por trazer análises contextualizadas, vinculadas às dinâmicas culturais e institucionais próprias da região. Vejamos no quadro 3 abaixo o foco central dos textos analisados na SciELO:
Quadro 3: Scielo
Nº | Título do Artigo | País / Ano de publicação | Autor(es) | Palavras- Chave | Tipo de Violência Digital |
06 | Violências de gênero facilitadas pela tecnologia: a urgência da educação na proteção de meninas em contexto escolar. | Brasil/2025 | Ana Luiza Nogueira Braga | - Violência de gênero -Violência digital -Direito à educação -Lei da Escuta Protegida | Violência digital de gênero |
07 | Direito fundamental à igualdade de gênero e cyberviolências sexuais nas escolas brasileiras: análise fílmica a partir da série “Adolescência”. | Brasil/2025 | Nayane Stephane Antunes Costa, Mônica M. Tassigny & Bianca Mota do Nascimento Brasil Muniz | -Igualdade de gênero -Cyberviolências sexuais - Violência digital -Ambiente escolar - Análise fílmica | Violência digital de gênero |
Fonte: arquivos das pesquisadoras (2025).
Diante das leituras feitas, observamos que um dos pontos centrais é a ênfase no impacto da violência digital sobre o desempenho escolar e a saúde emocional dos estudantes, destacando as meninas e o público adolescente. Ambos os textos apontam que o cyberbullying e outras formas de agressão online repercutem diretamente na autoestima, na motivação para os estudos e na capacidade de interação social, ampliando os riscos de evasão escolar e de adoecimento psicológico. Essa abordagem reforça a ideia de que esse tipo de violência não pode ser compreendido apenas como um fenômeno tecnológico, mas como uma questão social e educacional que atravessa o cotidiano das escolas. Outro aspecto relevante é a articulação entre violência digital e desigualdades sociais, já que os autores destacam que meninas, especialmente aquelas em contextos de maior vulnerabilidade, estão mais expostas às práticas de assédio e exclusão online, o que amplia as desigualdades já presentes no espaço físico. Tal perspectiva contribui para compreender a violência digital como parte de um processo estrutural, que reflete preconceitos e discriminações de gênero, raça e classe.
Além disso, os estudos ressaltam a responsabilidade da escola como espaço de mediação e prevenção, defendendo que o enfrentamento da violência digital deve estar integrado às práticas pedagógicas e às políticas institucionais. Nesse sentido, destacam-se propostas de educação digital crítica, que envolvem não apenas o uso consciente das tecnologias, mas também a formação de valores como respeito, empatia e solidariedade. Logo, os autores seguem reforçando que a escola é vista como lugar privilegiado para promover a cidadania digital e preparar os estudantes para lidar com os desafios do mundo virtual.
Embora observemos as reflexões a respeito da temática, há uma predominância de análises descritivas, com menor aprofundamento metodológico ou ausência de estudos comparativos entre diferentes contextos culturais. No mais, há uma lacuna importante no que diz respeito à investigação focada nas experiências/narrativas de meninas, já que parte dos estudos aborda a violência digital de forma mais generalizada, sem considerar as particularidades de gênero.
Portanto, os achados nessa base de dados reforçam a necessidade de compreender a violência digital contra o público feminino, um fenômeno multifacetado, que exige respostas integradas entre escola, família e sociedade. Ao mesmo tempo, evidenciam que o enfrentamento desse problema passa pela construção de uma cultura digital ética e responsável, capaz de transformar o ambiente escolar em espaço de resistência e promoção da dignidade humana.
Por fim, artigos selecionados na base Google Acadêmico referem-se às práticas de violência digital no contexto escolar e às suas implicações sociais e pedagógicas. Vejamos os elementos centrais dos textos analisados do Google Acadêmico, no quadro 4 abaixo:
Quadro 4: Google Acadêmico
Nº | Título do Artigo | País / Ano de publicação | Autor(es) | Palavras- Chave | Tipo de Violência Digital |
08 | O papel da escola na construção das masculinidades e sua relação com a perpetuação ou prevenção da violência contra a mulher no ambiente escolar. | Brasil/2026 | -Wagner E. E. Paula -Jonathan J. Silva - Roni de M. Peronio -Eduardo J. S. Aguiar -Noemi R. Correa -Fábio B. Silva -Edmundo S. Souza -Evaldo B. M. Júnior -Fernanda C. Aloisio. | -Masculinidades - Violência de Gênero -Educação - Cultura Redpill | Violência Digital de gênero |
09 | Empodera-UEM no enfrentamento à violência contra mulheres e meninas no ambiente escolar | Brasil/2025 | -Carmem Lorena -Henrique Fernandes -Élica Vorpagel Biff -Natália Rocha Aguilar -Gláucia Valéria Pinheiro de Brida | -Violência de Gênero -Educação - Ambiente escolar | Violência Digital de gênero |
Fonte: arquivos das pesquisadoras (2026).
O estudo intitulado “O papel da escola na construção das masculinidades e sua relação com a perpetuação ou prevenção da violência contra a mulher no ambiente escolar” apresenta evidências de que a escola não é um espaço neutro; é um ambiente que pode reproduzir ou transformar padrões de masculinidade associados à dominação, agressividade e desigualdade de gênero. O texto destaca que práticas como bullying, cyberbullying, assédio e discursos misóginos são, na maioria das vezes, naturalizadas no cotidiano escolar, reforçando violências simbólicas e físicas contra meninas e estudantes que não se enquadram em padrões hegemônicos de gênero. A pesquisa contribui ao defender a necessidade de uma educação crítica com formação docente e práticas pedagógicas voltadas para a igualdade de gênero.
Mesmo com contribuições bastante relevantes, a pesquisa apresenta algumas lacunas importantes. Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, observa-se que o estudo não inclui relatos dos estudantes, limitando a compreensão das experiências concretas vividas no contexto escolar. Nesse sentido, a ausência desses dados restringe uma análise aprofundada sobre como essas masculinidades são construídas nas diferentes realidades das escolas e como as escolas enfrentam, na prática, situações relacionadas à misoginia e à cultura redpill.
O estudo “EMPODERA-UEM no enfrentamento à violência contra mulheres e meninas no ambiente escolar” faz uma reflexão sobre a importância das ações educativas no combate à violência de gênero dentro da escola. O artigo discute as experiências desenvolvidas pelo projeto de extensão Empodera-UEM, realizado em parceria com escolas e programas institucionais, promovendo debates sobre gênero, bullying, assédio, interseccionalidade e Lei Maria da Penha. De acordo com os autores, as atividades envolveram oficinas, recursos multimidiáticos e produções artísticas, que estimularam a participação ativa dos estudantes e ampliaram a consciência crítica sobre desigualdades de gênero e prevenção da violência. Dessa forma, o estudo contribui para demonstrar que práticas pedagógicas interdisciplinares e participativas promovem o diálogo, a reflexão e o desenvolvimento de atitudes mais respeitosas e igualitárias no ambiente escolar.
No entanto, o estudo também apresenta algumas lacunas. Por se tratar de um relato de experiência, a pesquisa não aprofunda análises, nem apresenta dados sobre possíveis mudanças comportamentais após as intervenções. Dessa forma, o trabalho aponta para a necessidade de novas pesquisas que acompanhem os efeitos das práticas educativas voltadas ao enfrentamento da violência contra mulheres e meninas nas escolas brasileiras.
Em síntese, embora haja avanços significativos na compreensão da violência digital ao longo desses 6 anos, ainda é necessário ampliar os estudos que considerem o papel da escola como espaço de resistência e estratégias pedagógicas inovadoras para enfrentar o problema. Diante da análise dos 4 períodos em questão, vimos que todas convergem reconhecendo o cyberbullying como prática recorrente e destacam os impactos emocionais, sociais e pedagógicos da violência digital no ambiente escolar. No entanto, enquanto o Scopus foca nas relações interpessoais como fatores de proteção, o Web of Science enfatiza a dimensão de gênero e desigualdade e o SciELO contextualiza os efeitos da violência digital na realidade e na prática pedagógica. No mais, reconhecemos a ausência de estudos que articulem de forma enfática a questão de gênero e contexto escolar, como também a predominância de análises descritivas em detrimento de abordagens críticas e comparativas e a escassez de pesquisas que deem voz às próprias meninas vítimas de violência digital.
Dadas as leituras, identificamos que a violência digital, especialmente no contexto escolar, constitui uma extensão das práticas de exclusão e intimidação já presentes no espaço físico. Ademais, fenômenos como o cyberbullying, o assédio virtual e a exposição indevida de imagens não apenas comprometem a dignidade e a privacidade das vítimas, mas também repercutem em sua saúde emocional, desempenho acadêmico e participação social. Nesse cenário, é indicado que o ambiente escolar atue como espaço estratégico de prevenção e enfrentamento, assumindo assim um papel ativo na promoção da cidadania digital e na construção de ambientes mais seguros e inclusivos.
Além disso, há evidências de que as relações interpessoais — tanto entre pares quanto entre professores e alunos — desempenham papel fundamental na redução dos casos de violência digital. Isso ocorre, pois os vínculos de confiança e amizade fortalecem a resistência às práticas de agressão online, já que revelam a ambivalência dos adolescentes, oscilando entre o reconhecimento da violência e sua naturalização como parte do cotidiano digital. Tal constatação reforça a necessidade de estratégias educativas que desconstruam a banalização da violência e promovam uma cultura de respeito e empatia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente investigação buscou compreender a violência digital contra meninas no contexto escolar, analisando suas manifestações e impactos a partir de uma revisão de literatura recente, de 2020 a 2026. O estudo evidenciou que práticas como cyberbullying e assédio virtual se configuram como as formas mais recorrentes de agressão, trazendo consequências diretas para a autoestima, o desempenho acadêmico e a permanência escolar das estudantes. Ao longo da análise, observamos que a violência digital não apenas reproduz, mas intensifica as dinâmicas de exclusão já presentes no espaço físico da escola, ampliando seus efeitos para o ciberespaço.
Nesse sentido, a pesquisa, diante do recorte apontado, confirma que a violência digital é um fenômeno multifacetado, com repercussões emocionais, pedagógicas e sociais profundas. As hipóteses iniciais foram validadas, demonstrando que meninas são particularmente vulneráveis e que o ambiente escolar sofre impactos significativos, exigindo estratégias específicas de enfrentamento.
Desse modo, a relevância do estudo reside em sua contribuição para o avanço científico e prático, ao consolidar uma visão crítica sobre a violência digital e ao oferecer subsídios para políticas públicas e práticas pedagógicas voltadas à proteção integral de crianças e adolescentes. Além disso, o trabalho reforça a importância da escola como espaço de resistência e de promoção da cidadania digital, articulando educação, saúde e convivência ética.
Entretanto, reconhecem-se as seguintes limitações: recorte temporal de seis anos e o número reduzido de artigos selecionados, o que restringe a abrangência dos resultados e a escolha de uma revisão narrativa, a qual também limita a generalização dos achados, ainda que tenha permitido uma análise aprofundada e reflexiva.
Logo, para uma análise aprofundada sobre o assunto, sugere-se ampliar a investigação sobre as experiências específicas de meninas em diferentes contextos culturais, explorar o papel das famílias e da comunidade escolar na prevenção, avaliar programas de cidadania digital já implementados e realizar estudos comparativos entre violência presencial e digital.
Em suma, para o enfrentamento da violência digital contra meninas no contexto escolar, exige-se mais do que legislações e medidas punitivas: demanda-se educação, sensibilização e práticas pedagógicas que promovam respeito, empatia e responsabilidade no ambiente virtual e presencial. Trata-se de um desafio coletivo que convoca escola, família e sociedade a atuarem de forma integrada para a construção de uma cultura digital ética e inclusiva.
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1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Cognição, Tecnologias e Instituições - PPGCTI, da Universidade Federal do Semi-Árido – UFERSA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0415-1116
2 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Cognição, Tecnologias e Instituições - PPGCTI, da Universidade Federal do Semi-Árido – UFERSA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6180-3695
3 Doutora do Programa de Pós-Graduação Cognição, Tecnologias e Instituições - PPGCTI, da Universidade Federal do Semi-Árido – UFERSA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID https://orcid.org/0000-0003-2130-2588