A TEORIA DA MODIFICABILIDADE COGNITIVA ESTRUTURAL NA RELAÇÃO DOCENTE E DISCENTE NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR

THE THEORY OF STRUCTURAL COGNITIVE MODIFIABILITY IN THE TEACHER-STUDENT RELATIONSHIP IN THE CONTEXT OF HIGHER EDUCATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775801988

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo apresentar os princípios da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, a fim de que verificar sua aplicabilidade na relação docente e discente no Ensino Superior. A boa relação entre docente e discente pode favorecer a motivação no processo de ensino e aprendizagem no Educação Superior, diminuindo a frustração e a evasão nos cursos superiores. Destacando as potencialidades e despertando a atenção do estudante diante de detalhes que por vezes poderiam passar despercebidos, o docente tem papel importante como mediador no processo de aprendizagem. Baseado nisso, pode-se perceber que professores não atuam somente repassando informações e/ou conhecimento técnico, mas atuam como mediadores, estimulando a cognição dos alunos, criando vínculos de confiança, para que o processo de construção e transmissão de saberes ganhe, a partir dessa experiência interpessoal, um significado real e fortalecido.
Palavras-chave: Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural; Educação Superior; Relação docente e discente.

ABSTRACT
This article aims to present the principles of the Theory of Structural Cognitive Modifiability, in order to verify its applicability in the teacher-student relationship in Higher Education. A good relationship between teacher and student can favor motivation in the teaching and learning process in Higher Education, reducing frustration and dropout rates in higher education courses. By highlighting potential and drawing the student's attention to details that might otherwise go unnoticed, the teacher plays an important role as a mediator in the learning process. Based on this, it can be seen that teachers do not only pass on information and/or technical knowledge, but act as mediators, stimulating students' cognition, creating bonds of trust, so that the process of constructing and transmitting knowledge gains, from this interpersonal experience, a real and strengthened meaning.
Keywords: Theory of Structural Cognitive Modifiability; Higher Education; Teacher-student relationship.

RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo presentar los principios de la Teoría de la Modificabilidad Cognitiva Estructural, con el fin de verificar su aplicabilidad en la relación entre profesores y estudiantes en la Educación Superior. Una buena relación entre profesor y estudiante puede promover la motivación en el proceso de enseñanza y aprendizaje en la Educación Superior, reduciendo la frustración y las tasas de deserción en los cursos de educación superior. Al resaltar el potencial y llamar la atención del estudiante sobre detalles que a veces pueden pasar desapercibidos, el profesor juega un papel importante como mediador en el proceso de aprendizaje. Con base en esto, se puede observar que los docentes no sólo actúan transmitiendo información y/o conocimientos técnicos, sino que actúan como mediadores, estimulando la cognición de los estudiantes, creando vínculos de confianza, para que el proceso de construcción y transmisión de conocimientos gane, a partir de esta experiencia interpersonal, un significado real y fortificado.
Palabras-clave: Teoría de la Modificabilidad Cognitiva Estructural; Educación Superior; Relación profesor-estudiante.

INTRODUÇÃO

O contexto educacional é sempre marcado por diversas relações, cada qual detentora de seu valor simbólico. Sabe-se que a escola e a universidade, por vezes, especialmente em função de um modelo educacional cientificista e neoliberal, tornaram-se um espaço exclusivamente dedicado à transmissão de saberes técnicos, científicos e empíricos, desvirtuando-se de sua missão originária de formação humana integral e produção de saberes individuais de modo construtivista.

Neste cenário, no qual o papel do professor foi reduzido a um mero transmissor de teorias, não-responsável pela formação de seu estudante como um sujeito humano, ético, singular e pensante, a relação entre docente e discentes viu-se fragilizada.

Cada vez mais, no entanto, surgem teorias, embasadas na prática pedagógica em seus distintos contextos e fases, que se estruturam na afirmação da importância do relacionamento entre docentes e discentes para um aprendizado mais efetivo. Poder-se-ia perguntar: como a intervenção do professor, no processo pedagógico, pode dirimir dificuldades e proporcionar uma formação mais assertiva e menos reducionista do estudante universitário?

Uma dessas teorias é a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, de Reuven Feuerstein, cujo conteúdo é a análise de casos bem-sucedidos de superação e modificabilidade da realidade pedagógica, existencial e circunstancial dos estudantes, por meio da mediação do professor.

O presente artigo, resultado de uma investigação de caráter bibliográfico, com uma abordagem dialética, tem como objetivo apresentar a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, como embasamento para a afirmação da relevância da relação entre docente e discente na Educação Superior.

Para atingir o objetivo proposto, constará das seguintes temáticas: uma análise da crise na relação entre docente e discentes; a apresentação da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural; e, por fim, alguns acenos à importância do ambiente acadêmico, no qual o estudante é o protagonista e o professor o mediador do processo cognitivo.

1. DESAFIOS NA RELAÇÃO DOCENTE-DISCENTE

É inequívoca a deficiência, em determinados tempos e contextos, na relação entre docentes e discentes. Se considerado o contexto universitário hodierno e o de tempos precedentes, parece ter havido um distanciamento entre o professor e seus estudantes, numa relação que se tornou estritamente técnica e restrita à sala de aula, indiferente, inclusive, as singularidades do docente e do discente.

Uma tentativa de compreensão e análise desse fenômeno é capaz de apontar possíveis respostas: a violência no contexto educacional, produto da violência em toda a sociedade; os efeitos distanciadores e desumanizadores da recente pandemia de COVID; efeitos socioculturais de uma modernidade cada vez mais “líquida”, na qual as relações são instáveis, efêmeras e voláteis. Queremos enfatizar, no entanto, dois aspectos que nos parecem particularmente relevantes: a interferência do atual modelo econômico vigente na educação; e uma análise, em grandes linhas, da influência do comportamento da sociedade pós-moderna no processo pedagógico.

O ambiente escolar e, em especial, o universitário - objeto de estudo do artigo presente - em atenção à proposta capitalista, em ascensão contínua desde a década de 1980, tem sido marcado pela meritocracia.

Nesse contexto, cada vez mais é incluído na prática pedagógica um pensamento de necessidade de produção, especialmente atrelado à ideia de pretensa superioridade técnico-científica, intelectual e de competição. Muitas vezes, o docente é incentivado a focar apenas na transmissão de conhecimentos teóricos, deixando em segundo plano saberes humanos, vivenciais e relacionais, fundamentais para compreender a realidade singular dos discentes como sujeitos históricos.

Guindani e Koga (2017) acreditam que esse fenômeno social e educacional se deve à tentativa, já não tão velada, do sistema econômico de introjetar-se no sistema educativo, em vista de sempre mais turvar os princípios de direito social e de igualdade, fundamentais para toda e qualquer sociedade democrática.

De acordo com Guindani e Koga (2017, p. 94):

Assim, diante desse papel atribuído à educação, aliado à diminuição cada vez maior do Estado, a educação foi sendo enquadrada no setor de prestação de serviços. [...] E esse mercado dinâmico e flexível, oposto à rigidez do sistema educacional tradicional, poderá promover mecanismos que garantam a eficácia e a eficiência dos serviços oferecidos. Tais mecanismos se traduzem, por exemplo, no fomento à competição interna e ao desenvolvimento de um sistema de prêmios e castigos com base no mérito e no esforço individual dos atores envolvidos na atividade educacional.

Este movimento torna-se particularmente sensível em determinadas políticas públicas, onde a educação é tirada de seu valor objetivo de construir um conhecimento genuíno e emancipatório, e apropriada por mecanismos de poder.

Catunda e Fortunato (2017, p. 94) analisam que:

Vivemos em um país que recusa nossos mais profundos sentimentos e conhecimentos docentes quando nos impinge uma Escola Sem Partido; onde uma ideologia divide nossos melhores presságios; ou uma conjugação vazia transformando o futuro em um verbo vago, future-se, tirando de tudo que nos é presente. Ao invés de garantir a todos e a todas ensino público de qualidade, sempre independentemente de qualquer eleição, tira-se a educação de seu rumo conquistado a duras penas e diminuem-se seus recursos tão necessários à transformação social, tornando o projeto coletivo de educar um projeto individual de captar bens e capital, catapultando-nos de nossa própria realidade, deslocando-nos de nossas prioridades, que deveria ter a vida em primeiro lugar, sempre. Mas não é assim: índices, números, Produto Interno Bruto (o famoso PIB), lucros... tudo isso faz pouco caso da própria humanidade que vive se debatendo contra si mesma, em busca dessas coisas que nada têm a ver com viver.

Para Foucault (2011), a escola, nessa perspectiva de governamentalidade, poderia ser definida como mais um instrumento de poder, no qual o mestre governaria, sem preocupar-se efetivamente de seus educandos. O autor afirma que (Foucault, 2011, p. 155-156):

Gostaria de começar a percorrer um pouco a dimensão do que eu chamei com esta feia palavra que é “governamentalidade”. Supondo-se portanto que “governar” não seja a mesma coisa que “reinar”, não seja a mesma coisa que “comandar” ou “fazer a lei”; supondo-se que governar não seja a mesma coisa que ser soberano, ser suserano, ser senhor, ser juiz, ser general, ser proprietário, ser mestre-escola, ser professor; supondo-se portanto que haja uma especificidade do que é governar, seria preciso saber agora qual é o tipo de poder que essa noção abarca.

Não bastasse a interferência do sistema econômico no modelo educacional e disciplinar, como em seu momento afirma Foucault, dentre outros, que há claros sinais de uma “sociedade da apatia”, na qual a alteridade parece perder seu lugar à ipseidade e os relacionamentos não visam mais o progresso coletivo, os direitos sociais, a inclusão dos diferentes, mas um padrão egocêntrico, hegemônico, tirânico e desumanizador.

Vê-se, assim, cada vez mais imperativa a superação da apatia, como instrumento de construção de uma aprendizagem não-indiferente e inserida, disposta a uma educação que considere a pessoa integral, levando em conta, indispensavelmente, seu contexto circunstancial. Segundo Catunda e Fortunato (2017, p. 94):

[...] acreditamos que já não há mais espaço para apatia. Estamos num mundo em que vale mais elevar o PIB do que a qualidade de vida das pessoas que aqui habitam, ou produzir armamentos com maior poder de fogo que acabar com as guerras, ou mesmo aumentar as notas nos exames que os interesses das pessoas pela aprendizagem. Precisamos dar voz aos sentimentos que foram enclausurados por esse mundo.

Neste sentido, a educação precisa ser um processo que valorize as singularidades, que se preocupe das necessidades do indivíduo, em sua realidade concreta, muito mais do que com índices, metas e um exaustivo conteúdo programático que nivela a todos os educandos como se as capacidades e as oportunidades fossem sempre e todas elas iguais.

O processo de transmissão docente de saberes deve sempre estar vinculado à possível modificabilidade da realidade discente, por mais difícil e desafiadora que seja. Destarte, parece oportuno um recurso à Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, como oportunidade para pensar novos padrões na relação interpessoal entre docente e discentes.

2. FEUERSTEIN E A TEORIA DA MODIFICABILIDADE COGNITIVA ESTRUTURAL

Reuven Feuerstein nasceu no dia 21 de agosto de 1921, em Botosan, uma pequena cidade da Romênia. Cresceu com forte suporte na educação e na cultura, no seio de sua família judia. Em 1944, após a Romênia ser ocupada, Feuerstein, assim como muitos jovens e crianças, foi levado para um campo de concentração.

Neste período de sua vida, observou crianças e adolescentes com grande privação social e cultural, vivendo no campo de concentração. Ao conseguir fugir do campo de concentração dedicou sua vida à educação de crianças vítimas do holocausto.

Em 1954, alcança sua licenciatura em Psicologia. Conhecedor de Vygotsky e ex-aluno de Piaget, estuda, pesquisa e escreve. Dentre seus estudos e publicações está a síntese teórica que apresenta um caminho à aprendizagem e desenvolvimento humano de acordo com o desenvolvimento das habilidades e competências. Em sua visão interacionista, Feuerstein engloba os aspectos sociais, afetivos e cognitivos valorizando as vivências do ser humano e seus conhecimentos.

A partir de suas observações e trabalho com crianças e adolescentes, vindos de diferentes países da África e da Europa, que apesar de sua pequena idade já haviam sofrido terríveis experiências que ocasionaram carências cognitivas, então, Feuerstein e sua equipe, criam um sistema de avaliação do potencial de aprendizagem e um programa de enriquecimento instrumental (PEI), que se tornou conhecido no mundo como método que leva seu nome.

A Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM) é também uma grande contribuição de Feuerstein não apenas para a educação, mas para todo o desenvolvimento humano, e trata-se do processo da aprendizagem a partir do posicionamento de um ser humano, que se coloca entre o objeto de aprendizagem e o sujeito.

De acordo com Feuerstein et al.: (2014), p. 114.

Uma criança que vê as ações realizadas por seu pai, como cortar uma árvore para fazer uma canoa, por exemplo, também ganha experiência por meio da interação mediada: o pai nem sempre explica suas ações verbalmente para a criança, ele apenas a convida a olhar... A mediação da aprendizagem pode ocorrer em diferentes e tipos de espaços e circunstâncias.

Feuerstein sempre acreditou na potencialidade de seus alunos. Psicólogo Ph.D., defendeu a modificabilidade cognitiva de todos os seres humanos em todas as fases da vida.

Seu programa de Enriquecimento Instrumental – PEI é constituído por uma série de exercícios voltados a desenvolver específicas funções cognitivas. A participação ativa do estudante como real protagonista do seu processo de aprendizagem e construção, exige que o estudante seja instigado a participar das decisões e planejamento das ações a serem executadas.

Nesta perspectiva, pode-se verificar que a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural pode ser base para a relação discente e docente no contexto do ensino superior, uma vez que enaltece as habilidades do estudante e fortalece sua ação diante do processo ensino aprendizagem como ser ativo, crítico e protagonista, enquanto o professor exerce o papel de mediador da aprendizagem.

Para Feuerstein et al (2014), p. 88:

o mediador humano não se impõe contínua ou constantemente sobre a pessoa que está sendo mediada e o mundo, não cobre todo o território entre eles, e sim deixa para o mediado uma grande área de exposição direta ao estímulo.

Na educação formal, na escola, a mediação da aprendizagem está focada, muitas vezes na pessoa do professor. Budel e Meier (2012, p. 126) apresentam a lista completa de 12 características da mediação, proposta por Feuerstein:

As 12 características da mediação: intencionalidade e reciprocidade;mediação do significado; transcendência; mediação do sentimento de competência; mediação da autorregulação e do controle do comportamento; mediação do comportamento de compartilhar; mediação da individualização e da diferenciação psicológica; mediação da busca, do planejamento e do alcance dos objetivos; mediação da busca pela adaptação a situações novas e complexas: o desafio; mediação da consciência da modificabilidade; mediação da alternativa positiva; mediação do sentimento de pertença;

Para que a aprendizagem realmente ocorra é necessário muito mais do que ações repetidas; a aprendizagem exige compreensão e processos de pensamento. Assim, a ação do mediador humano, no caso da educação formal este papel é do professor, consiste em proporcionar desafios e estimular a interação entre o mediado e o objeto de aprendizagem.

Considerando o contexto de educação superior, onde a maioria dos universitários é composta por jovens que estão iniciando a fase adulta, a aprendizagem depende das experiências, vivências e interações de cada um. O papel do professor na aprendizagem, então, é o de favorecer a mediação dos estudantes entre si, com o meio e com objetos e experiências variadas.

Feuerstein defende que todos podem aprender independente de sua idade, contexto social e de vida. A relação entre professor e aluno no contexto do ensino superior, pode ser beneficiada pelas características do professor como mediador da aprendizagem.

A mediação da aprendizagem favorece o desenvolvimento de habilidades e competências.

Para Feuerstein et al. 2023::

Para criar nos estudantes uma noção de habilidade e competência, o mediador deve iniciar interações mediadas com este objeto. Para isso é necessário oferecer ao aprendiz interpretações de experiências de sucesso que viveu, para que perceba o significado de sua habilidade em uma tarefa e futuros sucessos em outras tarefas.

Assim a Intencionalidade e a Reciprocidade caracterizam a primeira, das três, características fundamentais da mediação.

A segunda característica fundamental, refere-se à Mediação do significado. A aprendizagem torna-se significativa quando novos conceitos se aproximam de conceitos anteriores.

Segundo Budel e Meier (2012, p. 145), “o professor precisa conquistar a vontade de aprender, sendo considerado pelos alunos como modelo a ser seguido e elo com o conhecimento”.

Para conduzir o estudante ao ponto de sua modificação, o professor assume o papel de mediador, expondo estímulos, desafios e questões ao estudante. Para que realmente ocorra a modificabilidade, é necessário, muito mais do que a exposição ao objeto da aprendizagem, a exposição a todo um ambiente instigador, contagiante, desafiador, que atua de forma intencional a causar a modificabilidade, no estudante, no mediado.

Na educação superior, independentemente das condições pessoais e sociais dos estudantes universitários, a Teoria da Modificabilidade Cognitiva pode corroborar de maneira positiva no processo de aprendizagem.

3. PERSPECTIVAS E PROSPECTIVAS DOCENTES

Sabemos que o espaço acadêmico se faz necessário para aprendizagem e desenvolvimento de habilidades diversas do aluno, mais ainda, quando este tem “desejo de aprender”, característica esta que não se apresenta de maneira generalizada.

Observamos neste cenário a importância dos vínculos construídos no decorrer do percurso da educação superior. Cada qual com sua visão, formação, motivação e diversas formas de conceber a vida; neste sentido, a relação aluno – professor precisa ser positiva, baseada em confiança, para que se tenha a construção de uma aprendizagem sequencial e contínua.

Segundo Campos (2003) “Vínculo (do latim vincŭlum) é uma união, relação ou ligação de uma pessoa ou coisa com outra. Por conseguinte, duas pessoas ou objetos vinculados estão unidos, encadeados ou atados, seja física ou simbolicamente.”

A Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural tem como princípio-base que todo ser humano tem potencial para aprender, é modificável, dotado de plasticidade cerebral e cognição.

Piaget (1973) define cognição como a capacidade de processar informações e transformá-las em conhecimento, com base em um conjunto de habilidades mentais e/ou cerebrais como a percepção, a atenção, a associação, a imaginação, o juízo, o raciocínio e a memória.

Essas informações a serem processadas estão disponíveis no meio em que vivemos. De modo geral, podemos dizer que a cognição humana é a interpretação que o cérebro faz de todas as informações captadas pelos cinco sentidos, e a conversão dessa interpretação para a nossa forma interna de ser.

Diante disso, quando temos uma ruptura ou quando não há nenhum tipo de relação/vínculo aluno professor mediador, os problemas passam a ser notórios, principalmente no que diz respeito ao processo de ensino aprendizagem.

Neste sentido, a teoria da Experiência Da Aprendizagem Mediada vem a ser uma alternativa para lidar com essas questões, isso porque a mediação tem a capacidade de criar vínculos entre mediador e mediado, capaz de identificar mais facilmente o problema do discente e intervir nessas questões, valendo-se dos critérios teóricos, de modo a obter um resultado significativo e mais rápido para ambas as partes no processo educativo acadêmico.

Schram e Carvalho (2003) enfatizam a afirmação de Paulo Freire, de que o professor deve ser um facilitador diante do processo de aprendizagem, buscando estimular o interesse e a participação ativa dos alunos. Nesse contexto, a relação de confiança e respeito entre professor e aluno é essencial, pois permite que haja uma troca de experiências e conhecimentos de forma horizontal. O educador acredita que o diálogo e a escuta atenta são fundamentais para o desenvolvimento dos estudantes, tornando-os sujeitos ativos e críticos do seu próprio processo de aprendizagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Toda prática de aprendizagem perpassa por várias correntes teóricas e metodológicas, pelas quais quem ensina, conscientemente ou não, está se embasando e é por elas norteado. A proposta de mediação de Feuerstein é um modelo que leva a uma aprendizagem por meio da qual medidor e mediado estão o tempo todo estabelecendo novas conexões em suas estruturas cognitivas, bem como construindo vínculos.

Como docentes, é de extrema importância que nossa prática profissional esteja fundamentada numa base sólida do agir pedagógico, desvencilhada de uma prática meritocrática, tecnicista e apática. A Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural é uma ferramenta que contribui nesse processo. Como visto, tal teoria se baseia na premissa de que todo e qualquer sujeito tem potencial de aprendizagem a ser desenvolvido, independente de sexo, origem, etnia ou cultura.

Feuerstein aponta que a maioria de nós dispõe de uma série de “funções cognitivas deficientes”, diante das quais, a partir de uma avaliação adequada e com suporte de ferramentas de apoio psicopedagógico, seremos capazes de desenvolver novas habilidades e potencialidades.

Com base nessa teoria, entende-se que a aprendizagem é composta da integração de processos externos e internos; sendo assim, a inteligência está conectada ao desenvolvimento cognitivo, que atua como condutor responsável no processo dela, de maneira horizontalizada.

Ao ingressar na educação superior os estudantes se deparam com uma certa ruptura de modo de estudo, trabalho e pesquisa em relação a modalidades anteriores. No ensino superior, o estudante torna-se cada vez mais o agente fundamental de sua formação acadêmica. A identificação com a instituição, na qual ingressou é fundamental para a adaptação do estudante à sua nova rotina. Ainda como fator essencial para a sua acomodação e adaptação a educação superior, ressalta-se a capacidade de estabelecer novos vínculos e amizades.

O papel do professor na educação superior, portanto, é maior do que transmitir conhecimentos ou instigar à pesquisa. O professor mediador é fundamental para promover a integração dos estudantes na educação superior, estabelecendo vínculos positivos entre os pares e com a instituição educacional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BUDEL, Gislaine Coimbra; MEIER, Marcos. Princípios da psicopedagogia. Maringá: Unicesumar, 2012.

CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. Saúde Paidéia. São Paulo: Hucitec, 2003.

CATUNDA, Marta Bastos; FORTUNATO, Ivan. Educar com o coração: um caminho sensível, possível da docência. Revista Práxis Educacional, v. 18, n. 49, 2022.

FEUERSTEIN, Reuven; FEUERSTEIN, Rafael S.; FALIK, Louis H.; RAND, Yaacov. Além da inteligência: aprendizagem mediada e a capacidade de mudança do cérebro. Petrópolis: Vozes, 2023

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

GUINDANI, Evandro Ricardo; KOGA, Yáscara Michele Neves. Educação e neoliberalismo: interferências numa relação tirânica. Revista Simbiótica, v. 4, n. 2,, jul./dez. 2017.

PIAGET, Jean. A psicologia da inteligência. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

SCHRAM, Sandra Cristina; CARVALHO, Marco Antônio Batista. O pensar educação em Paulo Freire: para uma pedagogia de mudanças. Curitiba: Dia a Dia da Educação, 2003.


1 Doutoranda em Direitos Humanos e Políticas Públicas (PUCPR), Mestra em Educação (PUCPR), Enfermeira vinculada ao Ambulatório Acadêmico da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-2560-9885

2 Mestranda em Educação e graduada em Pedagogia (PUCPR). E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-5895-501X

3 Mestre em Teologia (PUCPR), Mestrando em Educação (PUCPR), Graduação em Teologia (Faculdade Dehoniana) e em Filosofia (Faculdade Sçao Luiz). E-mail: [email protected]

4 Doutora em Educação (PUCPR), Mestre em Educação e graduada em Pedagogia (UFPR). Professora do Programa de Pós graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4264-1626