REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778870420
RESUMO
O presente artigo analisa a revista Cabrochico e sua função na formação do “homem novo chileno” durante o governo da Unidade Popular liderado por Salvador Allende (1970–1973). Publicada pela Editora Nacional Quimantú, a revista infantil integrou estratégias de democratização cultural, participação social e educação crítica, articulando conteúdos lúdicos e pedagógicos a valores socialistas, como solidariedade, justiça social e cooperação. Inserida em um projeto mais amplo de políticas culturais, educacionais e sociais, a análise contempla representações de território, identidade e cultura popular, bem como seu papel na democratização e circulação ampliada da cultura escrita. A partir da narrativa “Estos Cabros” e da estrutura editorial da revista, demonstra-se como Cabrochico atuou como instrumento de mediação cultural, promovendo a formação política e cidadã infantil em diálogo com práticas cotidianas e experiências comunitárias diversas. O estudo evidencia a articulação entre políticas estatais, produção editorial e recepção infantil, destacando a cultura escrita como ferramenta central de transformação social no Chile dos anos 1970. O estudo adota abordagem histórico-cultural e análise discursiva, de caráter qualitativo, com ênfase na leitura das materialidades impressas e nas práticas de leitura infantil no contexto chileno do período.
Palavras-chave: Democratização cultural; Educação infantil; Homem novo chileno; Revista Cabrochico; Unidade Popular.
ABSTRACT
This article analyzes the magazine Cabrochico and its role in the formation of the “new Chilean man” during the government of the Popular Unity coalition led by Salvador Allende (1970–1973). Published by the National Publishing House Quimantú, the children’s magazine integrated strategies of cultural democratization, social participation, and critical education, articulating playful and pedagogical content with socialist values such as solidarity, social justice, and cooperation. Situated within a broader project of cultural, educational, and social policies, the analysis examines representations of territory, identity, and popular culture, as well as its role in the democratization and expanded circulation of written culture. Drawing on the narrative “Estos Cabros” and the magazine’s editorial structure, it demonstrates how Cabrochico functioned as an instrument of cultural mediation, promoting children’s political and civic formation in dialogue with everyday practices and diverse community experiences. The study highlights the articulation between state policies, editorial production, and child readership reception, emphasizing written culture as a central tool for social transformation in 1970s Chile. The study adopts a historical-cultural approach and discursive analysis, of a qualitative nature, with emphasis on the reading of printed materialities and children’s reading practices in the Chilean context of the period.
Keywords: Cultural democratization; Children’s education; Chilean new man; Revista Cabrochico; Unidad Popular.
1. INTRODUÇÃO
No Chile, na segunda metade do século XX, a “via chilena para o socialismo” expressou a proposta das esquerdas de realizar a transição do capitalismo para o socialismo por meios democráticos e institucionais, por meio de eleições, reformas estruturais e participação popular, sem recorrer à luta armada. O projeto de Salvador Allende foi sustentado pela coalizão da Unidade Popular, formada por comunistas, radicais e democrata-cristãos, que defendia a possibilidade de transformação da sociedade capitalista para a socialista sem a utilização de armas.
Salvador Allende ascendeu ao poder em sua quarta tentativa. Eleito democraticamente em 1970 com 36,3% dos votos, ele deu início a seu projeto de alcançar o socialismo por vias democráticas, sem romper com a institucionalidade do governo. Sua vitória representou uma novidade no cenário político chileno, ao propor uma revolução anti-imperialista e socialista por meio das eleições, em contraste com correntes da esquerda que se apoiavam na luta armada e a ruptura com a legalidade vigente.
O projeto da Unidade Popular incluiu em suas frentes prioritárias, a reestruturação educacional e cultural do país. Em seu programa de governo, o Estado deveria integrar as classes populares às atividades intelectuais e artísticas, tanto pela reforma do sistema educacional quanto pela criação de uma política nacional de cultura popular.
Dessa perspectiva de transformação, à infância ganhou destaque estratégico, sendo compreendida como etapa fundamental na formação de sujeitos comprometidos com os valores socialistas. A literatura infantil deixou de ser vista apenas como entretenimento ou ferramenta de alfabetização e passou a desempenhar função pedagógica e política, capaz de moldar valores, sentidos de pertencimento e consciência social.
Um exemplo dessa política foi à estatização da editora Quimantú, cujo nome em mapuche significa “o sol do saber”. A editora tinha como objetivo democratizar o acesso à leitura e à cultura, ampliando seu alcance as diferenes classes sociais. Entre suas publicações, destacou-se a Revista Cabrochico (1971-1972), voltada ao público infantil, que buscava romper com os modelos elitistas e eurocêntricos, a identidade chilena, a solidariedade e o pertencimento coletivo.
A infância, nesse contexto, passou a ser concebida como espaço estratégico de formação cultural e política. A literatura infantil foi entendida como instrumento de construção de subjetividades e de formação de valores coletivos, em diálogo com o ideal do “homem novo”, presente em diversas experiências socialistas do século XX, segundo o qual a transformação social depende também da constituição de novas formas de consciência.
Partindo dessas considerações, este artigo busca responder à seguinte questão: de que maneira a revista Cabrochico atuou como instrumento cultural na formação do ideal do “homem novo” no contexto da via chilena ao socialismo? Defende-se que a publicação integrou o projeto cultural da Unidade Popular, mobilizando a literatura infantil como meio de disputa do imaginário social e de promoção de valores socialistas em contraposição aos modelos individualistas difundidos pela indústria cultural estrangeira.
O estudo adota abordagem qualitativa, fundamentada na História Cultural. Dialoga com Roger Chartier (1990), sobre a leitura como prática de produção de sentidos; Michel de Certeau (1994), acerca das estratégias e apropriações culturais; e Peter Burke (2008), sobre representações e sistemas simbólicos. O corpus é composto por exemplares da revista Cabrochico publicados entre 1971 e 1972, analisados em suas narrativas, editoriais e ilustrações, considerando seu contexto de produção e circulação.
Dessa forma, busca-se compreender não apenas o conteúdo impresso, mas os sentidos produzidos na construção de um imaginário socialista voltado à infância chilena. Entre as narrativas, a história “Estos Cabros” se destaca como exemplo significativo da articulação entre cultura, educação e participação infantil, evidenciando valores como solidariedade, cooperação e protagonismo coletivo.
2. EDITORA NACIONAL QUIMANTÚ: DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA E DISPUTA SIMBÓLICA
A política cultural do governo de Salvador Allende atribuiu papel estratégico à democratização do acesso ao livro e à formação de leitores nas camadas populares. A ampliação da produção editorial foi concebida como dimensão estruturante de um projeto de transformação social, no qual cultura e educação assumiam centralidade. Nesse horizonte, a cultura escrita deixava de ser entendida como bem restrito a grupos socialmente privilegiados e passava a integrar a agenda política de ampliação da cidadania.
A concretização dessa proposta ocorreu em 1971, com a criação da Editora Nacional Quimantú, resultado da aquisição estatal da editora Zig-Zag, que enfrentava grave crise financeira. Ao justificar a intervenção, Allende afirmou que a iniciativa visava constituir a base de uma indústria editorial capaz de atender às “necessidades culturais do novo Chile” (Allende, 2022, p. 82).
A iniciativa também gerou disputas em torno do papel do estado na produção cultural, evidenciando tensõessobre os sentidos da cultura e sua função social.
Alinhada ao Programa Básico de Governo da Unidade Popular (1969), a Quimantú buscou incorporar amplos setores da população às atividades intelectuais e artísticas. Com tiragens massivas e preços acessíveis, publicou coleções literárias, obras de formação política e revistas segmentadas por público, como Onda, Paloma e Cabrochico. Essas publicações competiam com produtos consolidados no mercado, diferenciando-se, contudo, pela ênfase na valorização da cultura nacional, da participação social e da formação de uma consciência crítica. Mais do que disputar espaço comercial, a editora pretendia redefinir referenciais simbólicos e formas de identificação coletiva.
No campo infantil, a proposta editorial respondia também às críticas formuladas por autores como Dorfman e Mattelart (1971), que identificavam na circulação massiva de narrativas estrangeiras a difusão de valores individualistas e consumistas. Nesse sentido, a atuação da Quimantú pode ser compreendida como estratégia de enfrentamento da hegemonia cultural estrangeira, por meio de conteúdos vinculados a realidade chilena. A produção editorial configurava-se, assim, como intervenção no campo das representações sociais.
Apesar das tensões internas e das limitações estruturais herdadas da antiga Zig-Zag, a editora consolidou-se como um dos principais instrumentos da política cultural da Unidade Popular. Mais do que ampliar o acesso ao livro, sua atuação articulou leitura, formação política e participação social, concebendo a cultura escrita como ferramenta de cidadania.
A política editorial da Quimantú envolveu também a criação de estratégias de circulação voltadas à ampliação do acesso popular, como a venda em quiosques e acordos com sindicatos. Essas iniciativas revelam que o projeto cultural da Unidade Popular não se restringia à redefinição ideológica dos conteúdos publicados, mas implicava intervenção nas condições de produção, difusão e apropriação da cultura escrita. Ao articular circulação, sociabilidade e formação política, a editora buscava incidir não apenas sobre o que se lia, mas sobre as práticas de leitura e seus públicos.
Nesse quadro, a revista Cabrochico emerge como expressão específica dessa política editorial, permitindo observar, em escala particular, como os princípios da democratização cultural se materializavam em práticas discursivas dirigidas à infância.
3. A REVISTA CABROCHICO: ESTRUTURA, OBJETIVOS E CONTRIBUIÇÕES
A Revista Cabrochico, foi uma experiência singular de mídia infantil no contexto da Unidade Popular, voltada à educação, à valorização cultural e à formação social das crianças chilenas. Sua estrutura, público-alvo e objetivos pedagógicos revelam a integração entre fantasia, realidade e ideologia em um projeto cultural voltado à formação infantil no Chile dos anos 1970. Voltada a “estos cabros” – expressão popular chilena que se refere a crianças ou moleques –, sua criação esteve associada às políticas culturais do governo da Unidade Popular.
Lançada em junho de 1971, a revista alcançou 70 números até dezembro de 1972, com formato de caderno grande, variando entre 30 e 55 páginas. A periodicidade oscilou entre semanal e mensal, e a publicação não era gratuita, sendo vendida a preços com reajustes ao longo do período.
Conforme foi declarado pelos editores, na edição nº 4, o valor tnha como objetivo cobrir custos de produção, sem fins lucrativos. O aumento dos preços pode ser relacionado ao contexto de instabilidade econômica do Chile, marcado por escassez de produtos básicos, queda do preço do cobre — responsável por quase 70% das exportações — e desequilíbrios fiscais, além de tensões sociais e políticas decorrentes da mobilização popular e da oposição empresarial (Aggio, 2002; Winn, 2010). Nesse cenário, a economia chilena enfrentava desequilíbrios estruturais que afetavam diretamente o cotidiano das famílias e também iniciativas culturais. Apesar disso, Cabrochico buscava promover valores e práticas formativas por meio de suas histórias, funcionando como espaço simbólico de educação e socialização política. Conforme o editor Patricio Garcia Ferrada, tratava-se de uma iniciativa editorial inédita no país, inserida em um projeto cultural comprometido com a formação de consciência crítica e solidariedade.
Queríamos fazer e já fizemos. – diz nosso editor -, uma revista nitidamente chilena; onde os personagens e situações são ambientados e nascem da própria realidade nacional. Sem imitar ou refletir outros contextos sociais [...] “Cabrochico” é uma revista chilena, para chilenos e feita por chilenos (Cabrochico, nº 1, 1971, p.2, tradução nossa).
O fato de a Revista Cabrochico ser direcionada ao público infantil torna necessário refletir sobre as formas de recepção e apropriação desse material na cultura infantil chilena. Os estudos de Rojas Flores (2016), Jofré (2010) e Facuse (2018) evidenciam a importância de investigar como diferentes grupos sociais, incluindo crianças de contextos populares, interpretavam e atribuíam novos significados às produções culturais, incorporando-as à experiência cotidiana.
A revista incentivava a participação dos leitores por meio de cartas e sugestões, promovendo vínculo direto com o público infantil. Patrício Garcia, editor da primeira edição, destacou:
Trabalhamos com oficinas populares, com crianças das idades para as quais a publicação se dirige, e do mesmo meio social a que pertencem as crianças que queremos que sejam o público de "Cabrochico". As crianças despossuídas, os filhos dos trabalhadores chilenos (Cabrochico, nº1, 1971, p.2, tradução nossa).
Nas primeiras edições, Cabrochico adaptou contos infantis clássicos, como “O Gato de Botas”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “A Bela Adormecida”, “Cachinhos Dourados e os Três Ursos”, “A Gata Borralheira” e “As Aventuras de Gulliver”, reescritos como “anticuentos”, ajustados aos valores da sociedade chilena. Essas narrativas buscavam reorientar sentidos culturais e promover consciência social, articulando educação e transformação coletiva.
A construção simbólica dessas narrativas pode ser compreendida a partir das ideias de Eco (1979), que destaca que os signos culturais são portadores de múltiplos significados e estão sempre inseridos em contextos ideológicos e históricos. Embora abertos à interpretação, os textos culturais carregam intenções comunicativas orientadas por objetivos políticos e sociais, o que evidencia que a produção cultural não é neutra, mas atua na construção de sentidos e transmissão de valores.
Na mesma linha, Hall (2016) destaca que as representações culturais não se limitam a refletir a realidade, mas participam da construção de identidades e relações de poder, evidenciando a dimensão política da produção simbólica.
Nesse sentido, as histórias infantis funcionam como instrumentos de formação crítica e política, ao mesmo tempo em que refletem desigualdades sociais no Chile do início dos anos 1970. A Unidade Popular buscava dar visibilidade às camadas populares historicamente marginalizadas em consonância com o discurso de Salvador Allende sobre desigualdade e transformação social.
A vocês, que viram com os próprios olhos a miséria em que vivem muitos de nossos compatriotas… A vocês, que visitaram nossas comunidades desfavorecidas - as callampas - e puderam observar como se pode degradar a vida a um nível infra-humano numa terra fecunda e cheia de riquezas potenciais, e que se lembraram da reflexão de Lincoln: “Este país não pode ser metade escravo e metade livre” (Allende, 2022, p.38).
Essa declaração ilustra os princípios éticos e políticos da Unidade Popular refletidos nas narrativas da revista. Ao transformar crianças empobrecidas em protagonistas na defesa de seus direitos, Cabrochico uma visão crítica da realidade e reafirmava o papel da cultura e da literatura infantil na transformação social. Dessa forma, as histórias ficcionais atuavam na construção de significados e na formação de sujeitos críticos.
Assim, Cabrochico pode ser compreendida como parte do projeto cultural da Unidade popular, ao propor modelos de comportamento, justiça e coletividade, articulados à formação do “homem novo” chileno e á contrução de uma identidade infantil politicamente engajada.
3.1. Estrutura e Público-alvo
Por meio das histórias, personagens e materiais pedagógicos, Cabrochico pretendia concretizar seu projeto educativo, cultural e ideológico, mostrando que a cultura infantil é produzida, negociada e apropriada pelos leitores em contextos sociais específicos.
Naquele momento, o governo da Unidade Popular investiu na comunicação de massa e incluiu as revistas em quadrinhos como estratégia para difundir princípios político-ideológicos e conscientizar a população. Essa ação buscava propagar os ideais do governo de Allende e a estruturar um projeto cultural e educativo.
A Revista Cabrochico foi criada com a intencionalidade de interferir politicamente em favor do novo regime, inserindo-se nas políticas culturais voltadas à formação do “homem novo” chileno. Defendia-se que a cultura se constituísse como uma frente de transformação, comprometida com a consolidação do socialismo, inclusive por meio do imaginário infantil. Nesse sentido, a infância tornava-se espaço estratégico de formação, por meio da oferta de modelos de comportamento e referências culturais coerentes com os ideais da Unidade Popular. Esses modelos eram veiculados por histórias e personagens que ilustravam solidariedade, justiça social e cooperação, além de seções interativas que promoviam o engajamento do público infantil. A ampla distribuição da revista visava ampliar o alcance social desses valores.
Com ilustrações de artistas chilenos e conteúdos desenvolvidos com educadores e intelectuais, Cabrochico buscava reinventar a representação da infância. A revista contribuía para que as crianças se percebessem como sujeitos com direitos, capazes de refletir sobre o mundo e participar ativamente da vida em comunidade. Segundo Certeau (1994), essa atuação pode ser vista como uma tática cultural em que a linguagem e a narrativa se tornam ferramentas para ocupar e transformar o espaço simbólico da infância, ao mesmo tempo em que questionam os discursos dominantes.
Entre os personagens mais populares junto ao público infantil estavam Mañungo, Mini, Panchito, assim como os protagonistas de ‘Estos Cabros’ e das narrativas de ficção científica ‘Navío Caleuche’ e ‘Martín y Kano’. Ao priorizar temas locais e personagens não estereotipados, Cabrochico se diferenciava das revistas estrangeiras, especialmente da indústria cultural norte-americana, funcionando como espaço de construção simbólica ligado à realidade social chilena. A publicação promovia uma infância situada nesse contexto, articulada a valores de solidariedade, justiça social e consciência política. Dessa forma, segundo Burke (2008), a cultura pode ser entendida como campo de disputas simbólicas entre diferentes grupos sociais, e Cabrochico funcionava como um dispositivo de formação de sujeitos críticos.
Considerando que a leitura da revista provavelmente ocorria no ambiente familiar, é necessário refletir sobre as condições concretas. Segundo Altamirano (1979), a taxa de analfabetismo no país era de 12% em 1971, reduzindo-se para 10,8% no ano seguinte – diminuição que pode ser atribuída às políticas educacionais do governo de Salvador Allende. Ainda assim, esses dados indicam que o acesso à leitura era marcado por limitações estruturais, influenciando a forma de apropriação da revista.
Por essa razão, a revista passou a incluir um “Suplemento para os adultos”, voltada a pais e responsáveis, abordando temas como educação, saúde e afetividade. Esse recurso ampliava o alcance pedagógico e reforçava o caráter coletivo da leitura.
Os adultos não atuavam apenas como auxiliares, mas como intérpretes ativos, atribuindo sentidos às narrativas. Conforme observa Peña Muñoz (1998), impressos infantis latino-americanos desempenharam papel relevante na socialização cultural e moral desde os primeiros anos. Da mesma forma, Pesavento (2003) ressalta que esses materiais participam da construção simbólica do imaginário infantil.
Assim, a mediação familiar deve ser entendida como prática cultural compartilhada, na qual leitura, valores e afetos se entrelaçam.
Dessa maneira, Cabrochico integrava conteúdo, participação e circulação em um mesmo projeto formativo, funcionando como dispositivo pedagógico e cultural voltado à construção do “homem novo” chileno, articulando educação, cultura e valores éticos em um horizonte de transformação social.
4. A REVISTA CABROCHICO E A FORMAÇÃO DO HOMEM NOVO CHILENO
Tendo exposto as finalidades do projeto da Revista Cabrochico, pode-se questionar de que forma suas práticas educativas e culturais, articuladas aos processos históricos e sociais do período, contribuíam para a formação de sujeitos críticos e para a construção de uma identidade nacional chilena. Nesse contexto, a revista não se limitava ao estímulo da imaginação infantil, mas atuava como instrumento de resistência, educação e transformação cultural, promovendo a constituição de um “homem novo” chileno — capaz de atuar e refletir criticamente sobre a realidade — em diálogo com seu papel social (Peña Muñoz, 1982; Brunner, 2003).
Em vez de considerar as crianças como meros receptores, as histórias apresentavam-nas como protagonistas capazes de criar e vivenciar novas formas de identificação, como enfatiza Peña Muñoz (1982) em estudos sobre o imaginário infantil. A constituição dessa identidade articulava-se ao processo mais amplo de transformação cultural, social e político no Chile, como evidenciam Brunner (2003) e a própria Cabrochico (1971 nº. 1, p.30). A revista fornecia ferramentas para que as crianças questionassem a realidade e participassem da construção de uma nova organização social e da formação do “homem novo” chileno — engajado, crítico e consciente de seu papel social.
Entretanto, é necessário indagar como a Revista Cabrochico se configurou como uma ferramenta pedagógica para o desenvolvimento crítico do público infantil.
Uma resposta reside no uso de personagens e narrativas que dialogavam com a experiência das crianças chilenas, articulando resistência, conflito e transformação. Essas histórias criavam modelos de ação e valores, incentivando as crianças a se reconhecerem como agentes de mudança (Cabrochico, 1971, nº. 4, p.36-37). Por meio da literatura e das ilustrações participavam da construção de um imaginário coletivo que refletia e questionava normas sociais. Como observa Chartier (1990), esse processo ilustra a circulação de práticas culturais e a apropriação dos textos pelos leitores.
Nesse contexto, a revista propunha uma identidade infantil fundada em valores socialistas. Por meio do imaginário, buscava-se formar as bases do “homem novo” chileno, oferecendo instrumentos para a compreensão da luta de classes, da educação política e da solidariedade, inserindo as crianças em um contexto coletivo que envolvia família, escola e comunidade. É o que observa Brunner (2003), ao analisar o papel da educação e das práticas culturais na formação social e política das crianças chilenas.
Embora ainda em processo de alfabetização, as crianças eram estimuladas a questionar normas dominantes e ampliar sua percepção sobre direitos e participação social. A revista contribuía para a formação de um imaginário coletivo, moldando valores e práticas sociais.
No entanto, esse projeto encontrava limites na estrutura social vigente. A consolidação do “homem novo” exigia mudanças nas relações de poder e na construção de novas práticas culturais. Como observa Chartier (1990), o controle das produções culturais moldava percepções e valores, dificultando o surgimento de um pensamento crítico capaz de questionar as estruturas de poder preexistentes.
Nesse sentido, coloca-se a questão da reprodução das desigualdades no sistema capitalista, cujas estruturas limitavam a emancipação cultural – entendida como a capacidade de reinterpretar e ressignificar práticas culturais. Cabrochico configurava-se, assim, como instrumento de transformação simbólica, propondo novos significados alinhados a um projeto de mobilização social.
As práticas culturais são compreendidas como formas de reestruturação simbólica, por meio das quais se constroem narrativas e resistências. Nesse sentido, os objetivos da revista eram transformar o espaço simbólico e produzir significados coletivos que contestassem representações dominantes, em diálogo com Hall (2016) sobre cultura, poder e representação. Assim, Cabrochico contribuiu para a formação de um novo sujeito político e social, tornando-se instrumento de criação de um imaginário alternativo.
A construção do homem novo chileno, no governo de Salvador Allende, fundava-se em uma concepção socialista segundo a qual o sujeito deveria superar a alienação e desenvolver consciência crítica no trabalho, na educação e na política.
Contudo, esse ideal enfrentou forte oposição. Allende defendia a construção do socialismo por vias democráticas, com respeito às instituições, “[...] baseada no forte respeito às instituições e à legalidade constitucional, a qual seria capaz de suportar a ousadia de sua proposta” (Souza, 2007, p. 4). Essa proposta enfrentou resistência de setores conservadores, da oposição política e da mídia, além de pressões externas de empresas estrangeiras e do governo dos Estados Unidos.
Assim, o homem a ser formado pelo governo de Salvador Allende teria caráter humanista e reformista. A educação e a construção de consciência crítica complementavam, e não substituíam, as políticas estruturais de redistribuição, reforma agrária e nacionalizações, formando cidadãos capazes de compreender e participar das transformações que o projeto socialista buscava efetivar:
Enraizados nesta terra, mas projetados na solidariedade para com a humanidade que luta e se reconstrói num ser harmonioso e integral, autônomo e crítico, mas eminentemente socializado; em um indivíduo responsável pelos bens e destino nacional, que ele mesmo constrói e defende com as mãos e com a sua inteligência; em um chileno que descobre e domina as leis da natureza e aproveita seus recursos para o benefício geral e ao mesmo tempo sujeito a vontade coletiva, as tendências espontâneas da história; em um homem novo saudável e equilibrado, capaz de criar e colecionar beleza. A formação deste homem novo é a grande tarefa social que devemos realizar antes que o século XXI surja com seus prodigiosos avanços científicos e tecnológicos (Allende, 1972, p.28, tradução nossa).
Essa concepção enfatiza um sujeito crítico, socializado e comprometido com o bem coletivo, capaz de utilizar conhecimento e cultura como instrumentos de transformação social.
Nesse cenário, Cabrochico buscou difundir valores como solidariedade e trabalho coletivo, em contraposição ao individualismo da cultura dominante. Segundo Harnecker (2001), a educação popular foi essencial para criar uma forma de pensar, de criticar a realidade e promover a conscientização e a mobilização para a mudança.
4.1. Representações do Socialismo
No contexto do projeto socialista sob a liderança de Allende, diversas medidas políticas se mostraram essenciais para a reorganização estrutural da sociedade, especialmente no que se refere à mobilização dos trabalhadores rurais e urbanos e à remodelação das relações de trabalho. Mais do que alterações econômicas ou institucionais, o projeto visava desenvolver uma nova consciência social, formando indivíduos comprometidos com ideais coletivos, atuantes em formas de organização popular e atentos à realidade histórica.
Com esse propósito, a cultura e a educação assumiram papel central na formação de um sujeito historicamente situado, crítico e engajado. Segundo García Canclini (1995), a apropriação cultural cotidiana permite que os sujeitos não apenas recebam informações, mas reelaborem sentidos e construam narrativas próprias, participando ativamente da formação de sua identidade e consciência crítica.
No contexto chileno, essa perspectiva se concretizava em escolas, campanhas de alfabetização, meios de comunicação e, principamente, em materiais culturais voltados á infância. Por meio de histórias, imagens e jogos, Cabrochico buscava estimular valores de solidariedade, justiça social e participação coletiva, promovendo reflexão e ação social desde cedo, evidenciando a cultura como instrumento de formação política. No caso chileno, o “homem novo” não se formava apenas por diretrizes estatais, mas também pelas práticas culturais diárias que moldavam percepções e experiências sociais.
Para ilustrar essa proposta, destaca-se a narrativa “Estos Cabros”, publicada no ano inaugural da revista.
4.1.1. Análise da Narrativa “Estos Cabros”
A narrativa “Estos Cabros” (Revista Cabrochico, 1971, nºs. 3-10), acompanha a mobilização de crianças e adolescentes pela conquista de um espaço de lazer em sua comunidade, ressaltando ação coletiva, conflitos internos e enfrentamentos com instâncias institucionais. Diante da falta de recursos para se deslocarem até a Prefeitura, os participantes organizam uma coleta solidária, revelando tensões entre interesses individuais e compromisso coletivo.
Ao acessar o espaço institucional, o grupo encontra barreiras burocráticas e a negativa do poder público, baseada na destinação prévia do terreno a interesses privados, o que explicita a assimetria entre demandas populares e decisões administrativas.
Mesmo diante das recusas, a mobilização se mantém. O conflito se intensifica com episódios de violência incluindo a agressão a um integrante, ampliando tensões e demonstrando limites da mediação institucional. Surgem divergências internas quanto às estratégias, entre vias institucionais e ações diretas.
A escalada do conflito mobiliza atores comunitários e serviços de saúde, ampliando a visibilidade da demanda e forçando nova intervenção do poder público, que culmina na reavaliação do caso.
Como desfecho, o terreno é destinado à construção de uma praça, resultado da mobilização coletiva, do engajamento comunitário e da interlocução institucional.
A relevância dessa história está relacionada às condições vivenciadas pela população durante o governo da Unidade Popular, quando houve a expansão dos acampamentos e das ocupações como forma de resistência e sobrevivência às desigualdades estruturais. Esses espaços, embora precários, funcionavam como locais de interação e organização comunitária, refletindo o cotidiano dos setores populares. Considera-se o que destacava Salvador Allende: - “a vocês, que viram com os próprios olhos a miséria em que vivem muitos de nossos compatriotas… A vocês, que visitaram nossas comunidades desfavorecidas – as callampas” (Allende, 2022, p. 38). A observação dessas comunidades torna-se essencial para compreender a realidade social.
A narrativa enfatiza processos de organização, resistência e negociação, alinhados aos valores socialistas de participação e igualdade. A mobilização vai além de uma reivindicação pontual, configurando um processo de formação coletiva consciente, com base no diálogo e perseverança.
Nesse sentido, a cultura popular atua como veículo de educação política, em contraste com histórias como “Superman”, nas quais a resolução é individualizada. Em “Estos Cabros”, os conflitos são enfrentados coletivamente, destacando a cooperação como elemento transformador.
A história se alinha ao imaginário socialista chileno, ressaltando solidariedade, justiça social e engajamento comunitário. Em Estos Cabros, o acampamento El Guerrillero assume dimensão simbólica de autogestão e prática política. A perspectiva da micro-história proposta por Ginzburg (1989) permite que as experiências específicas revelem significados políticos e culturais frequentemente invisibilizados.
Os acampamentos urbanos são apresentados como espaços de exercício de cidadania, nos quais valores coletivos são vivenciados no cotidiano. Ao traduzir essas experiências para a linguagem infantil, a narrativa aproxima as crianças da participação social.
López (2012) destaca que esses ambientes não apenas abrigavam populações excluídas, mas também transformavam o cenário político a partir das margens, articulando vida cotidiana e conscientização social.
Assim, a narrativa utiliza os acampamentos como espaços de significação, nos quais as crianças assumem papel ativo na defesa de direitos, cumprindo função educativa alinhada à formação do novo cidadão chileno. As contribuições de Garretón (1991) e López (2012) indicam que esse processo se constrói na vida cotidiana das classes populares.
Na narrativa, o prefeito atua como mediador de conflitos, revelando a ambiguidade do poder público em contextos de transição. O funcionário, inicialmente agente da ordem institucional, torna-se aliado, ilustrando dinâmicas de negociação e mudança de postura, em consonância com o ideal de gestão participativa associada ao projeto da Unidade Popular (García Canclini, 1995; Martín-Barbero, 1997).
Desse modo, o poder é representado como processo dialógico, articulando diferentes agentes sociais. O gestor público assume também papel educativo, aprendendo com a população e reforçando a lógica de participação coletiva. A formação do novo cidadão chileno emerge, assim, das práticas sociais e das interações cotidianas representadas na história.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da Revista Cabrochico demonstra como a Editora Nacional Quimantú articulou cultura, educação e engajamento social na formação do sujeito político infantil, inserindo a infância no projeto do “homem novo” chileno. Por meio do protagonismo das crianças, da cooperação e da interação com instituições, a revista promovia valores socialistas no cotidiano, indicando que a formação cidadã também se dava por práticas culturais.
A estrutura editorial, associada à mediação familiar e à circulação acessível da revista, revela a literatura infantil como instrumento de formação política capaz de engajar crianças em experiências de solidariedade e participação coletiva. A narrativa “Estos Cabros” exemplifica essa dinâmica, ao mostrar crianças que se organizam, negociam e internalizam valores sociais desde cedo.
A atuação de autoridades na narrativa indica um Estado mediador, voltado à facilitação da ação coletiva e à valorização da participação popular. Nesse sentido, a revista operava como extensão simbólica das políticas de educação e cultura da Unidade Popular, aproximando ideais socialistas da experiência infantil.
Ao articular educação, cultura e valores éticos, Cabrochico favorecia a compreensão crítica da realidade, incentivando o questionamento de normas e a participação simbólica na transformação social. Funcionava, assim, como instrumento de resistência cultural, contrapondo-se à hegemonia estrangeira e promovendo um imaginário coletivo reflexivo.
Desse modo, a infância é apresentada como espaço de formação política e construção de subjetividade, no qual leitura e práticas culturais contribuem para o engajamento cidadão. A Revista Cabrochico demonstra o potencial das intervenções culturais na formação de identidades e na consolidação de valores como justiça, solidariedade e participação democrática.
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1 Pós-Doutorado em História da Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Professor Associado da Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutora em Educação Pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Estudos Clássicos (Mundo Antigo) pela Universidade de Coimbra (UC) – Portugal. Professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) – Campus Apucarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail